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III DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO – C – Alegrai-vos sempre no Senhor!

Lc 3,10-18

Caros irmãos e irmãs,

Neste terceiro Domingo de Advento, conhecido como domingo “Gaudete”, a Liturgia da Palavra nos convida à alegria. O Advento é um tempo de compromisso e de conversão, para preparar a vinda do Senhor, mas a Igreja nos faz antecipar o júbilo do Natal já próximo. Como de fato, o Advento é também tempo de alegria, porque desperta nos corações dos fiéis a expectativa da vinda do Salvador. Este aspecto jubiloso está presente nas leituras bíblicas deste Domingo, bem como o tema da conversão em vista da manifestação do Salvador, anunciado por João Batista.

O convite do Apóstolo São Paulo aos fiéis de Tessalônica: “Irmãos, andai sempre alegres” (1Ts 5,16), exprime bem o clima litúrgico deste domingo “Gaudete”, expressão oriunda da palavra latina com que começa o canto de entrada da Santa Missa, segundo o gradual monástico: “Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete…” é uma exortação feita por São Paulo aos Filipenses, mas também endereçada a cada um de nós: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: Alegrai-vos…” (Fl 4,4-5). O tema da alegria aparece ainda como uma súplica ao Senhor na oração da coleta: “…daí chegarmos às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”.

E neste cenário de alegria e festa é que somos conduzidos ao encontro com o Senhor que está para chegar. Ele vem para dar uma vida nova ao seu povo e nos conduzir à terra prometida. Alegria porque também muito em breve estaremos celebrando o Natal do Senhor! Uma celebração que, por si só, nos remete à alegria, já manifestada no momento da anunciação do anjo a Maria: “Alegra-te, cheia de graça, porque o Senhor está contigo”. A causa da alegria em Maria é a proximidade de Deus. E João Batista, ainda não nascido, saltará de alegria no seio de Isabel ante a proximidade do Menino Jesus, o Messias que está para chegar.

O anjo dirá aos pastores, homens simples que vigiavam o rebanho durante a noite: “Eu vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10). E acrescenta: “Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor”. O Salvador que esperavam era o Messias. Para eles o anúncio do nascimento do Salvador foi causa de alegria. Em meio a tantas luzes que dissipam as trevas, podemos também lembrar de outra passagem do livro do profeta Isaias que disse: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1). E exulta de alegria ao anunciar: “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado” (Is 9,5).

Já na primeira Leitura temos um convite insistente à alegria. O trecho começa com esta expressão: “Alegra-te, filha de Sião! …Exulta e rejubila-te com todo o teu coração, filha de Jerusalém!” (Sf 3,14), que é semelhante à do anúncio do anjo a Maria: “Ave, cheia de graça!” (Lc 1,26). O motivo pelo qual a filha de Sião pode exultar é este: “O Senhor, está no meio de ti” (Sf 3,15.17). O profeta Sofonias deixa entender que esta alegria é recíproca: somos convidados a alegrar-nos, mas também o Senhor se rejubila pela sua relação conosco; com efeito, o profeta escreve: “Ele rejubila-se por causa de ti, e renova-te o seu amor e exulta de alegria por ti” (v. 17).

A alegria que é prometida neste texto tem o seu cumprimento em Jesus, que se encontra no seio de Maria, a “Filha de Sião”, e assim estabelece a sua morada no meio de nós (cf. Jo 1,14). Com efeito, vindo ao mundo Ele nos concede a sua alegria, como Ele mesmo confia aos seus discípulos: “Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). O amor de Deus por nós não só perdoa as nossas faltas, mas provoca a conversão, nos transforma e nos renova. Daí o convite à alegria: Deus está no meio de nós, nos ama, e, apesar de tudo, insiste em fazer caminho conosco.

O Evangelho vem na sequência daquele que refletimos no domingo passado: o profeta João Batista indica, com pormenores concretos, como proceder para percorrer esse caminho de conversão e preparar a vinda do Senhor. A primeira parte do Evangelho (v. 10-14), nos apresenta uma pergunta: “O que devemos fazer?”. Sugere uma abertura à proposta de salvação que vem de Deus. João Batista propõe, então, três atitudes concretas para quem quer fazer a experiência de conversão e de encontro com o Senhor. Recomenda a sensibilidade às necessidades de quem nada tem e a partilha dos bens; aos publicanos, pede que não explorem, que não se deixem convencer por esquemas de enriquecimento ilícito, que não despojem ilegalmente os mais pobres; aos soldados, pede que não usem de violência, que não abusem do seu poder contra fracos e indefesos. João Batista põe em relevo os “crimes contra o irmão”: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um crime contra Deus; quem o comete, fecha o seu coração e a sua vida à proposta de salvação que Cristo veio trazer.

Na segunda parte do Evangelho (v. 15-18), João Batista anuncia a chegada do batismo no Espírito Santo, contraposto ao batismo “na água” realizado por João, que é apenas uma proposta de conversão; mas o batismo ministrado por Jesus consiste em receber essa vida de Deus que atua no coração do homem, transforma o homem velho em homem novo, capaz de partilhar a vida e amar como Jesus. Faz-se, aqui, referência a essa transformação que Cristo operará no coração de todos os que estão dispostos a acolher a sua proposta. Começará, para eles, uma nova vida, uma vida purificada, uma vida de onde o pecado e o egoísmo foram eliminados, uma vida segundo Deus.

João Batista indica que devemos seguir o Cristo com fidelidade e coragem. E proclama com determinação: “Eu batizo-vos com a água, mas eis que virá Outro, mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias” (v. 16). Observamos a grande humildade de João, ao reconhecer que a sua missão consiste em preparar o caminho para Jesus. Afirmando “Eu batizo-vos com a água”, quer dar a entender que a sua unção é simbólica. Com efeito, ele não pode eliminar nem perdoar os pecados: batizando com a água, ele só pode indicar que é necessário mudar de vida.

Esta é a razão pela qual podemos prosseguir nosso itinerário com alegria, como nos exortou a fazer o apóstolo Paulo, porque a nossa salvação já está próxima. O Senhor vem! Com esta consciência empreendemos o itinerário do Advento, nos preparando para celebrar com fé o extraordinário acontecimento do Natal do Senhor. Vigilantes na oração, procuremos também preparar o nosso coração para acolher o Salvador que virá para nos mostrar a sua misericórdia e para nos doar a salvação.

Esta vinda de Deus, que se fez menino e nosso irmão, para permanecer conosco e compartilhar a nossa condição humana, se traduz em alegria. Somos chamados à alegria por estar se aproximando a sua chegada. Ele está próximo e em breve o Cristo estará conosco no Natal. Só o pecado nos afasta dele, porém, mesmo quando nos afastamos, Ele não deixa de nos amar e continua próximo de nós com a sua misericórdia e disponibilidade a perdoar e nos acolher no seu amor. E este já é um grande motivo de alegria: saber que o Senhor está sempre conosco.

Efetivamente, a alegria só é completa quando reconhecemos a sua misericórdia, quando nos tornamos atentos aos sinais da sua bondade e realmente sentimos que esta bondade de Deus está conosco, e agradecemos aquilo que recebemos dele todos os dias.

Como foi possível constatar, a liturgia deste dia nos exorta à alegria, mas também nos exorta à conversão. Abramos o nosso espírito a este convite; corramos ao encontro do Senhor que vem, invocando e imitando a Virgem Maria que, silenciosa e orante, esperou e preparou a Natividade do Redentor, que vem ao mundo para nos proporcionar a alegria e a paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXXIII Domingo do tempo comum – B. Minhas palavras não passarão

Mc 13, 24-32

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos faz um convite à esperança. A primeira leitura anuncia aos crentes perseguidos e desanimados a chegada iminente do tempo da intervenção de Deus para salvar o Povo fiel. É esta a esperança que deve sustentar os justos, chamados a permanecerem fiéis a Deus, apesar da perseguição e do sofrimento. Nesta leitura, retirada do livro do profeta Daniel (cf. Dn 12,1-3), o autor utiliza símbolos que evocam a transfiguração dos ressuscitados.

Essa vida nova não será como a do mundo presente, mas será uma vida transfigurada. A mensagem de esperança que o nosso texto nos deixa destinava-se a animar os crentes que sofriam a perseguição numa época e num contexto particulares. No entanto, é uma mensagem válida para os cristãos de todos os tempos e lugares. É a certeza de que Deus nunca abandona o seu povo e a vitória final será daqueles que se mantiverem fiéis aos seus ensinamentos.

O trecho do Evangelho nos apresenta uma parte do discurso de Jesus proferido em Jerusalém antes da páscoa, onde fala sobre os últimos tempos utilizando algumas imagens de tipo apocalíptico: “O sol vai se escurecer e a lua não brilhará mais, as estrelas cairão do céu e as forças que estão nos céus serão abaladas” (v. 24-25). Na mentalidade apocalíptica, os terremotos, incêndios, guerras eram sinais de um fim do mundo que estava para chegar.

Antigamente os astros do céu eram considerados divindades, com influência sobre a vida dos homens. Podiam conceder benefícios ou provocar tragédias, por esta razão era preciso conquistar a sua amizade, oferecendo-lhes orações e sacrifícios. Visando refutar a religião dos que adoravam o sol, a lua e as estrelas, os profetas afirmavam que um dia estes corpos celestes haviam perdido a sua luz e caído (cf. Is 13,10; 34,4; Gl 2,10). Com estas afirmações os profetas mostravam que o mundo pagão, representado por estes astros, teria sido destruído e Jesus retoma estas imagens visando confortar os seus discípulos e prepará-los para os últimos acontecimentos.

E o texto do Evangelho segue dizendo: “Então verão vir o Filho do Homem sobre as nuvens, com grande poder e glória” (v. 26). A expressão “Filho do homem” é uma referência ao próprio Jesus Cristo, que relaciona o presente e o futuro; as antigas palavras dos profetas encontraram o seu centro no Messias de Nazaré. Ele é o verdadeiro acontecimento que, no meio dos transtornos do mundo, permanece o ponto firme e estável. E Jesus ainda diz: “Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (v. 30). Nestas reflexões, apesar de nos assustar, encontramos uma mensagem de esperança, porque, após todas as trevas e tribulações, depois de todos os horrores e os erros do nosso caminho humano, virá o “Filho do Homem” para nos confortar com a sua palavra eterna, a única que não passará, para devolver-nos com força e com ternura, a verdade da nossa vida.

O modo como Jesus descreveu o fim dos tempos se encaixava no horizonte teológico da época. Como de fato, esperavam-se abalos e outros fenômenos terríveis, quando Deus interviesse, definitivamente, na História. A intenção de Jesus, porém, era a de levar os seus discípulos à vigilância, de maneira a estarem sempre preparados para o encontro com o Senhor.

E Jesus ainda sublinha: “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13,30). As palavras “o céu e a terra”, indicam todo o universo, a criação inteira. Jesus sublinha que tudo isto irá passar. O mundo é provisório; tudo deve terminar. Não só a terra, mas também o céu, aqui entendido precisamente em sentido cósmico, não como sinônimo de Deus. Contudo, Jesus afirma que as suas palavras “não passarão” (v. 30), ou seja, estão da parte de Deus e por isso suas palavras são eternas e devem orientar a nossa vida e as nossas preocupações. As palavras de Jesus nos ensinam que não somos provisórios. Somos destinados à vida eterna.

Com efeito, sabemos que na Sagrada Escritura a Palavra de Deus está na origem da criação: todas as criaturas, a partir dos elementos cósmicos: sol, lua, firmamento, obedecem à Palavra de Deus. Este poder criador da Palavra divina concentrou-se em Jesus Cristo, Verbo feito carne, e passa também através das suas palavras humanas, que são o verdadeiro “firmamento” que orienta o pensamento e o caminho do homem sobre a terra. O núcleo em volta do qual se centra o discurso de Jesus é ele mesmo, o mistério da sua pessoa e da sua morte e ressurreição, a sua vinda no fim dos tempos.

A exortação de Jesus não passa com o tempo, eternas são todas as suas palavras. Elas não passarão, embora tudo o mais perca seu valor. Tudo passa, nos recorda Santa Teresa de Ávila, só Deus basta. Só ele é eterno e a sua Palavra não muda, por isto, deve ser ela base e alicerce para os nossos atos e o nosso comportamento. É absolutamente certa a vinda do Cristo Senhor e há necessidade de nos mantermos vigilantes e preparados para colhê-lo. É também firme a palavra do Senhor que apresenta o amor como critério do juízo final, a recompensa para quem se mantiver fiel e a comunhão definitiva com o Pai, como destino último do cristão. Por conseguinte, o discípulo sensato deixa-se guiar pelos ensinamentos de Jesus.

Em cada celebração eucarística, após a consagração do pão e do vinho, dizemos: “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda!”. Embora Cristo tenha dito que ninguém conhece o momento do seu regresso, enquanto isto, podemos perguntar: Estou preparado para encontrar-me com o Cristo quando ele voltar? O nosso objetivo final é o encontro com o Senhor ressuscitado. E quantos de nós pensamos nisto? Haverá um dia no qual estaremos frente a frente com o Senhor. É esta a nossa esperança: estar com o Senhor. O problema não é quando os sinais premonitórios dos últimos tempos acontecerão, mas se estamos preparados para este encontro. Na verdade, somos chamados a viver o presente, construindo o nosso futuro com serenidade e confiança em Deus.

Por meio da parábola da figueira (v. 28-29), Jesus nos ensina a manter uma atitude vigilante que nos leve a discernir, a distinguir os sinais da presença de Deus no mundo e na história. O aparecimento nas figueiras de novos ramos e de novas folhas acontece a cada ano e anuncia ao agricultor a chegada do verão e do tempo das colheitas; da mesma forma, os cristãos são convidados a esperar, com confiança, a chegada do mundo novo e a perceber, nos sinais de desagregação do mundo velho, o anúncio de que um novo tempo está para chegar. Assim também devemos estar atentos e certos da vinda do Senhor, por isso, somos convidados a preparar o nosso coração para o acolher. Não podemos ficar desanimados. Jesus nos convida a ter uma atitude atenta, vigilante para descobrir assim sua presença no meio de nós. Somos chamados a ter coragem para não nos deixar desanimar pelas diferentes dificuldades que podem acontecer. É necessário ficar atentos, estar ligados para redescobrir nos acontecimentos do dia a dia, os apelos de Deus presentes no meio de nós.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a trilhar sempre o caminho do bem, observando a sua Palavra e que saibamos também ser a terra boa que acolheu a Palavra de Deus com disponibilidade, de modo que toda a nossa existência seja transformada e nos conduza à vida eterna. E seguindo o Cristo pelo caminho da cruz, possamos alcançar juntos à glória da ressurreição. A Virgem de Nazaré nos ajude a confiar em Jesus, aquele que é o fundamento firme da nossa vida, e a perseverar com alegria no seu amor para que possamos estar sempre preparados para o encontro definitivo com ele. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento / RJ