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XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – A escolha dos doze apóstolos

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo, a Palavra que vamos refletir nos recorda a presença constante de Deus no mundo e a vontade que Ele tem de oferecer a todos a sua vida e a sua salvação. No entanto, a intervenção de Deus na história humana concretiza-se através daqueles que ele chama e envia, para serem sinais vivos do seu amor e testemunhas da sua bondade. Os textos bíblicos, que ouvimos neste décimo primeiro Domingo do tempo comum trazem para nós ricos ensinamentos e descrevem como Deus quer atuar no mundo, estabelecendo conosco laços de laços de comunhão e de familiaridade. 

Na primeira Leitura, o autor sagrado narra o pacto de Deus com Moisés e com Israel no Sinai. É uma das grandes etapas da história da salvação, um daqueles momentos que transcendem a própria história, nos quais desaparece a fronteira entre Antigo e Novo Testamento e se manifesta o desígnio perene do Deus da Aliança: o desígnio de salvar a todos mediante a santificação de um povo, ao qual Deus propõe que se torne “a sua propriedade entre todos os povos” (cf. Ex 19, 5). Nesta perspectiva, o povo é chamado a tornar-se uma “nação santa”. O modo como se deve entender a identidade deste povo manifestou-se gradualmente ao longo dos acontecimentos salvíficos já no Antigo Testamento; depois, revelou-se plenamente com a vinda de Jesus Cristo.

E seqüenciando este desejo de Deus em instaurar a salvação da humanidade, o evangelho nos narra a missão dos doze apóstolos escolhidos por Jesus. Sensibilizado pela necessidade do “rebanho sem pastor” (9,35), Jesus manda seus discípulos como operários da colheita messiânica (9,36-38). Em um primeiro momento, a missão se restringe à região de Israel (10,5), sem entrar nos povoados e cidades dos gentios espalhados na terra da Palestina e na diáspora. Depois da Ressurreição, porém, a missão se estenderá ao mundo inteiro (cf. Mc 16,15). Os discípulos devem anunciar a chegada do Reino por palavras e sinais, ou seja, curas e prodígios, assim como Jesus o fez.

 

Os doze Apóstolos não eram homens perfeitos, escolhidos pela sua irrepreensibilidade moral e religiosa. Eram discípulos de Jesus cheios de entusiasmo e de zelo, mas, ao mesmo tempo, marcados pelos seus limites humanos, às vezes até graves. Portanto, Jesus não os chamou porque já eram santos, completos, perfeitos, mas para que fossem transformados em novos homens, para com o exemplo, pudessem transformar as pessoas e a também a história.

A missão que os apóstolos recebem é a de pregar e de curar. Eles serão os colaboradores e os continuadores da missão de Jesus e deverão levar a proposta de salvação de Deus a todo o mundo.  Eles responderam positivamente a esse chamamento e seguiram Jesus; durante a caminhada que fizeram com Jesus, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus sinais. Após serem instruídos por Jesus podem agora ser enviados ao mundo, a fim de anunciar a todos a chegada do “Reino de Deus”.

No texto evangélico São Mateus explica inicialmente que a missão dos apóstolos é uma expressão da solicitude de Deus, que quer a salvação ao seu povo. O texto usa a expressão “messe” para indicar que essa missão é urgente.  O pedido que deve ser feito ao Senhor da messe é um apelo para que a comunidade contemple a missão como uma obra de Deus, que deve ser sequenciada com os seus critérios, por isso, a importância da oração. 

São Mateus também deixa claro que a iniciativa do convite é de Jesus: Ele os chamou (cf. Mt 10,1). Não há qualquer explicação sobre as razões que o levaram a essa escolha: falar de vocação e de eleição é falar de um mistério insondável, que depende de Deus e que o homem nem sempre consegue compreender e explicar. O texto ressalta ainda o número dos discípulos: “doze”. Trata-se de um número simbólico, que lembra as doze tribos de Israel que formavam o antigo Povo de Deus. Por isso, pondo os doze no centro da sua nova comunidade, Jesus faz compreender que veio para completar o desígnio do Pai celeste. Esses “doze” discípulos representam simbolicamente a totalidade do novo Povo de Deus.

Em seguida, São Mateus define a missão que Jesus lhes confiou: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8). Os espíritos impuros, as doenças e as enfermidades representam tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de chegar à vida em plenitude. A missão dos discípulos é, pois, lutar contra tudo aquilo que destrói a vida e o impede de chegar a uma felicidade plena.  Essas orientações de Jesus querem ressaltar que a palavra de Deus a ser transmitida deve ser acompanhada por uma prática transformadora.

Também o texto nos traz os nomes dos doze apóstolos: Simão Pedro; André; Tiago, filho de Zebedeu; João; Filipe; Bartolomeu; Tomé; Mateus; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o cananeu; e Judas Iscariotes. As listas apresentadas pelos vários evangelistas apresentam diferenças, seja na ordem dos nomes, seja nos próprios nomes. Em todo caso, Pedro encabeça sempre a lista e Judas a conclui.  O nome de Pedro  vem no início, talvez por ser um personagem forte e que, ao longo da caminhada com Jesus, assumiu um certo protagonismo no grupo dos discípulos.

A missão dos discípulos aparece como um prolongamento da missão de Jesus. O anúncio, que é confiado aos discípulos, é o anúncio que Jesus fazia; os gestos que os discípulos são convidados a fazer para anunciar o Reino de Deus são os mesmos que Jesus fez; os destinatários da mensagem que Jesus apresentou são os mesmos da mensagem que os discípulos apresentam. 

Como cenário de fundo desta catequese sobre o envio dos discípulos está o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Deus nunca se ausentou da história dos homens. Ele continua a construir a história da salvação e a insistir em levar o seu Povo ao encontro da verdadeira felicidade.

O Senhor Jesus continua a dizer a todos nós, e muito especialmente neste tempo de tantas inquietações, que a “messe é grande, mas os operários poucos” (Mt 10,37).  E a messe que não se recolhe a tempo, perde-se.  Para que haja muitos operários que trabalhem lado a lado e com entusiasmo neste campo do mundo, o próprio Senhor nos ensina o caminho a seguir: “Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” (Mt 10 10,37). 

Precisamos pedir com frequência ao Senhor para que possa, no povo cristão, ressurgir muitos homens e mulheres que descubram o sentido vocacional da sua vida; e sejam bons e santos operários no campo do Senhor e saibam corresponder generosamente a esse chamado.

Lancemos uma vez mais o nosso olhar para Maria, a Virgem de Nazaré, que correspondeu, mais do que qualquer outra pessoa, à vocação de Deus, que se fez serva e discípula da Palavra até conceber no seu coração e na sua carne o Cristo Senhor para oferecê-lo à humanidade. Que ela interceda sempre por nos, para que possamos permanecer no amor de Cristo e possamos dar frutos abundantes, para glória de Deus e para a salvação do mundo.  Assim seja. 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE SANTÍSSIMA TRINDADE

Caros irmãos e irmãs! 

Neste domingo que se segue ao Pentecostes, a Igreja celebra a Solenidade da Santíssima Trindade: Deus Pai, Filho e Espírito Santo: Um só Deus em três Pessoas. Acreditamos e adoramos um Deus que é Uno e Trino, que é Pai e criou todas as coisas visíveis e invisíveis, conforme professamos na oração do credo; e fez de nós homens, a mais predileta de todas as suas criaturas; pois só a nós foi dada a dignidade de sermos chamados filhos de Deus. Encontramos no Novo Testamento explícitas fórmulas trinitárias, onde manifestam as três Pessoas divinas, como no momento da anunciação do Anjo Gabriel a Maria (cf. Lc 1,32-35), no Batismo de Jesus (cf. Mt 3,16) e no momento da Transfiguração (cf. Lc 17,1-5). 

O domingo da Santíssima Trindade, de certa maneira, recapitula a revelação de Deus que aconteceu nos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, a sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo.  É também uma oportunidade para a reflexão sobre a nossa vida de batizados. Fomos batizados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, conforme a missão confiada por Jesus aos seus apóstolos: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Pelo Batismo é lavado o pecado original e, com isto, nos tornamos filhos de Deus e, concomitantemente, recebemos a graça santificante; e passamos a ser herdeiros do trono da graça divina. 

A Trindade divina começa a habitar em nós a partir do momento em que recebemos o Batismo: “Eu te batizo – diz o ministro – em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, o que recordamos todas as vezes que fazemos em nós mesmos o sinal da cruz. Fazemos este sinal antes da oração, para que nos coloquemos espiritualmente em ordem; somos chamados a concentrar em Deus o nosso pensamento, para que, pela oração, permaneça em nós o que Deus nos doou.

Através do sinal da cruz expressamos as três verdades fundamentais da nossa fé.  Quando falamos: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, proclamamos o mistério da Santíssima Trindade e levamos as pontas dos dedos da mão direita aberta, dizendo: “Em nome do Pai”, em seguida descemos com a mão na vertical e tocamos na altura do coração, continuando: “…e do Filho”; com isto ressaltamos o mistério da Encarnação: o Filho de Deus que desceu ao seio da virgem Maria. Em seguida, levando a mão direita em cada ombro, fazemos referência ao Espírito Santo.  Com isto, completamos a cruz, para indicar o modo como Jesus morreu: numa cruz, formada por uma haste vertical e uma haste horizontal.

No sinal da cruz está contido o anúncio que gera a fé e inspira a oração.  Assim, a Santíssima Trindade ocupa o centro da nossa fé. Todas as vezes que fazemos o sinal da Cruz, estamos relembrando e fazendo memória, à fé que professamos: a fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Os cristãos têm também o costume de persignar-se, fazendo três cruzes com o dedo polegar da mão direita, uma vez na testa, outra na boca e outra no peito. Existe uma explicação que nos diz que a cruz na testa é para Deus nos livrar dos maus pensamentos; na boca, para nos livrar das más palavras; e, no peito, para nos livrar das más ações.

Mas existe também um sentindo Litúrgico mais abrangente e expressivo: A cruz na testa lembra que o Evangelho deve ser entendido, estudado, conhecido; a cruz nos lábios lembra que o evangelho deve ser proclamado, anunciado, que é a missão de todo cristão; e a cruz no peito, à altura do coração, nos indica que o evangelho, acima de tudo, deve ser guardado em nós, mas também deve ser vivido, pregado e testemunhado por todos. 

Também o diácono ou o sacerdote, ao proclamar o Evangelho, deve fazer o sinal da cruz no texto a ser lido e, em seguida, persignar-se, indicando, com isso, que cada palavra pronunciada seja um despertar para cada cristão tornar-se luz e sal para o mundo. Neste momento também os fiéis repetem este mesmo gesto, para que possam se preparar para ouvir, com dignidade, a Palavra de Deus. Devemos nos colocar de pé, indicando, com essa posição, que estamos prontos para seguir, dispostos a caminhar com Jesus, para onde Ele nos levar.

Lançando um olhar para a liturgia da palavra deste domingo, deparamos com a primeira leitura tirada do Livro do Êxodo, onde temos a revelação do amor de Deus, depois de um grave pecado, cometido pelo povo que estava a caminho da terra prometida. Deus, por intercessão de Moisés, perdoa e o convida a subir novamente ao monte para receber de novo a sua lei: os dez mandamentos e renovar o pacto com o seu povo.  Moisés pede então a Deus de revelar-se, de fazer visível o seu rosto. Mas Deus não mostra sua face, revela por sua vez o seu ser pleno de bondade com estas palavras: “Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel” (Ex 34,6).

Por conseguinte, todas essas palavras “misericordioso”, “clemente” e “paciente” e “rico em bondade” nos falam de uma relação, em particular de um ser vital que se oferece, que deseja preencher todas as lacunas, todas as faltas, que quer doar e perdoar, que deseja estabelecer um vínculo sólido e duradouro com cada um de nós. Também em outros textos encontramos essa fórmula, com algumas variantes, mas sempre a insistência é colocada sobre a misericórdia e sobre o amor de Deus que nunca se cansa de perdoar (cf. Jo 4,2; Gl 2,13; Sl 86,15; 103,8; 145,8). 

Ainda no Novo Testamento, São João resume esta expressão dizendo: “Deus é amor” (cf. 1Jo 4,8). Também o Evangelho deste domingo certifica: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu único Filho” (Jo 3,16), que viveu por nós, que venceu o mal perdoando os pecados, acolhendo a todos. Mas é sobre a cruz que o Filho de Deus nos concede a participação à vida eterna, que vem comunicada com o dom do Espírito Santo.

Deus se comunica conosco e se expressa no Filho e no Espírito Santo. Mas Deus é o amor mais original; por isso os três não deixam de ser um.  E como tudo é criado segundo o amor de Deus, todo o universo tem em si o reflexo deste amor unificador.  E Jesus nos mostrou o rosto de Deus, uno na sua essência e trino nas pessoas: Deus é amor; amor Pai, amor Filho e amor Espírito Santo. Pensar que Deus é amor é muito importante para nós, porque nos ensina a amar, a doar-nos ao próximo como Jesus se doou a nós, e caminha conosco. Jesus caminha com cada um de nós pelas estradas da vida.

Nas cartas de São Paulo encontramos frequentemente a referência às três pessoas da Santíssima Trindade, como, por exemplo, na segunda carta aos coríntios, que a liturgia usa entre as fórmulas de saudação feita pelo sacerdote no início da Celebração Eucarística: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor 13,13).  Com efeito, toda a graça que nos é dada em nome da Trindade, vem do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Assim como toda a graça nos vem do Pai por meio do Filho, assim também não podemos receber nenhuma graça senão no Espírito Santo.  Realmente, participantes do Espírito Santo, possuímos o amor do Pai, a graça do Filho e a comunhão do mesmo Espírito (cf. Santo Ambrósio, Ep. 1ad serapionem, 28-30: PG 26,599).

Concluindo estas reflexões, esteja em nossos lábios a oração de Moisés, conforme nos apresenta a primeira leitura: “Senhor, caminha conosco, perdoa as nossas culpas e nossos pecados e nos acolhe como propriedade tua” (Ex 34, 9).

Peçamos o auxílio da Virgem Maria por cada um de nós, pois em seu coração humilde e repleto de fé, Deus preparou para si uma morada digna, para completar o mistério da salvação. O Amor divino encontrou nela uma correspondência perfeita e foi no seu seio, pela ação do Espírito Santo, que o Filho de Deus se fez homem para habitar entre nós. Com a sua intercessão, possamos progredir na fé e fazer da nossa vida um contínuo louvor ao Pai, por meio do Filho no Espírito Santo. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ