III SEMANA DO TEMPO COMUM – Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo.

Mc 1,14-20

Caros irmãos e irmãs

No Evangelho deste domingo aparece em cena Jesus que percorre os povoados e montanhas da Galileia, anunciando o Evangelho. O texto nos mostra a primeira frase que ele pronuncia, como alerta da sua pregação: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (v. 15). O Evangelista São Marcos frisa que Jesus começou a pregar “depois que João Batista foi preso” (v.14). Precisamente no momento em que a voz profética de João, que anunciava a vinda do Reino de Deus, é abafada por Herodes, que o mandou degolar no cárcere (cf. Mc 6,14-29), Jesus começa a percorrer os caminhos da sua terra para levar a todos “o Evangelho de Deus” (v. 14).

O texto evangélico nos apresenta dois pedidos “Convertei-vos” (v. 14), no sentido de mudar o modo de pensar, deixando a má conduta moral e “Crede no evangelho” (v.14), ou seja, na Boa Nova que Cristo veio ensinar. O tempo assinalado para o estabelecimento do reino havia chegado e todos eram exortados a se preparar para nele entrar, mediante o arrependimento e a aceitação da boa nova anunciada por Cristo.

A inserção no Reino de Deus exige a conversão. O apelo de Jesus à conversão soava como uma exigência de abrir mão da própria vontade para abraçar um novo modelo de vida proposta por Ele. A conversão colocaria o futuro discípulo diante das exigências objetivas do Evangelho. Crer no Evangelho supunha aceitar a mensagem de Jesus como palavra de Deus, com toda a sua força de salvação. Abrir-se para estes apelos haveria de ser o primeiro passo da longa caminhada de testemunho transparente de adesão ao Reino e aos seus valores, que foram os de Jesus.

Na Sagrada Escritura vamos encontrar muitos exemplos de conversão, dentre eles, podemos citar a do apóstolo São Paulo. No caminho de Damasco aconteceu com ele aquilo que Jesus pede no Evangelho de hoje: Saulo converteu-se porque, graças à luz divina, “acreditou na Boa Nova”. É nisto que consistem a sua e a nossa conversão: acreditar em Jesus morto e abrir-se à iluminação da sua graça divina. Naquele momento, Saulo compreendeu que a sua salvação não dependia das boas obras realizadas segundo a lei, mas do fato de que Jesus tinha morrido também por ele, que foi um perseguidor dos cristãos. Esta verdade, que graças ao Batismo ilumina a existência de cada cristão, inverte completamente o nosso modo de viver. Converter-se significa, também para cada um de nós, acreditar que Jesus “se entregou por mim” morrendo na cruz (cf. Gl 2, 20).

O convite à conversão ressoa hoje também para cada um de nós e implica no desejo e no propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. A conversão é, antes de mais, obra da graça de Deus, a qual faz com que os nossos corações se voltem para Ele: “Convertei-nos, Senhor, e seremos convertidos” (Lm 5,21). Deus é quem nos dá a coragem de começar de novo. É ao descobrir a grandeza do amor de Deus que o nosso coração é abalado pelo horror e pelo peso do pecado, e começa a ter receio de ofender a Deus pelo pecado e de estar separado dele. O coração humano converte-se, ao olhar para aquele a quem os nossos pecados trespassaram (cf. Jo 19,37). A conversão envolve uma mudança radical no próprio modo de pensar.

A segunda parte do trecho evangélico (v. 16-20), nos relata o chamado dos primeiros quatro discípulos, convocados a se tornarem, depois da ressurreição de Jesus, mensageiros do evangelho. O episódio está dividido em duas fases paralelas, que correspondem aos chamados das duas duplas de irmãos: Simão e André (v. 16-17); e Tiago e João (v. 19-20).

O chamado duplo não tem apenas valor simbólico. O relato guarda uma preciosa recordação da primeira hora. Evidentemente, o nosso texto evangélico tem uma forte intenção teológica. Mas ainda no tempo de Paulo são estes os grandes apóstolos, chamados de colunas da Igreja. São eles que reconhecem “a graça de Deus que foi dada a Paulo” (Gl 2,9).

Jesus chama estes primeiros discípulos no momento em que estavam exercendo a sua profissão. Eram eles pescadores. Também a vocação do profeta Eliseu aconteceu em circunstâncias semelhantes. Elias o convida para segui-lo enquanto se encontra a arar a terra (cf. 1Rs 19,19-21). É o próprio Jesus que vai a procura dos seus apóstolos e os convida a permanecer com ele.

Esse “seguir” significa ir atrás de alguém, pisando nas suas pegadas, percorrer o seu caminho, o que pede, sobretudo, uma imensa confiança Nele. Seguir Jesus não é só aceitar sua doutrina, mas entregar-se incondicionalmente à sua pessoa, colaborar na sua missão, partilhar do seu destino que inclui a morte e glorificação. Seguir Jesus, por isso, supõe o abandono confiante Nele, isto é, uma confiança total, doação completa à pessoa de Jesus.

Chama a nossa atenção o fato de que o Evangelista São Marcos mostra Jesus ao iniciar a sua grande atividade pública, congrega em torno de si os seus discípulos. Este gesto faz parte da proclamação evangélica. Os apóstolos e os outros discípulos serão parte constitutiva deste último tempo. Ele os convoca para, juntamente com eles, e perante os olhos deles, iniciar a proclamação e inauguração do Reino de Deus, porque, posteriormente, eles serão os continuadores dessa missão. Jesus chama estes primeiros apóstolos para que fiquem ao seu lado e experimentem algo da sua divina intimidade (cf. Mc 3,13).

Pedro, André, Tiago e João respondem imediatamente ao chamado: abandonam tudo para acompanhar Jesus. Isto mostra que, mediante o chamado de Jesus, a resposta deve ser dada imediatamente e deve manifestar-se em ações concretas: Eles abandonam tudo para seguir o Mestre, porque a missão para a qual estão sendo convocados é diferente.

O atrativo da chamada de Jesus é irresistível e os faz capazes de renunciar à sua família e ao seu trabalho para seguir Jesus. Esta ruptura com a própria família tinha implicações muito distintas das que têm hoje o abandono do lar familiar. Não era somente nem principalmente uma ruptura afetiva, e sim uma ruptura com todas as seguranças. A casa e a família eram, até então, o grupo de apoio mais sólido desde o ponto de vista social, os que careciam de uma família careciam de honra e prestígio. Economicamente, a família era a principal unidade de produção e o grupo em que se exercia a mútua solidariedade. Ao deixar sua família e sua casa, aqueles discípulos faziam uma opção muito radical: deixavam verdadeiramente tudo para seguir Jesus (cf. Mt 19,27-29).

O que certamente impulsionou os Apóstolos a seguir Jesus, no início e no decorrer dos tempos, foi sempre “o amor de Cristo” (cf. 2Cor 5,14). Como fiéis servidores da Igreja, dóceis à ação do Espírito Santo, muitos missionários, ao longo dos séculos, seguiram as pegadas dos primeiros discípulos e também ouviram este chamado de Cristo. Ao longo da história da Igreja muitos foram aqueles que se dedicaram totalmente a serviço do Evangelho. Podemos recordar de muitos sacerdotes que são chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação, dedicados ao serviço dos mais débeis, dos doentes, dos sofredores, dos pobres e dos que passam por momentos difíceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo. Para estes, os missionários levam o primeiro anúncio do seu amor redentor. Desta forma, através dos seus sacerdotes, Jesus se faz presente entre os homens de hoje, até às mais distantes extremidades da terra.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria para que saibamos responder com entusiasmo o chamado de Cristo a segui-lo, a exemplo dos apóstolos e de inúmeros sacerdotes, religiosos e religiosas. Maria, que também soube viver plenamente a sua unidade com o Senhor, nos faça obter o dom de uma verdadeira conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mestre, onde tu moras?

Jo 1,35-42

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos apresenta o tema da vocação. No texto evangélico temos a chamada dos primeiros discípulos por parte de Jesus e na primeira leitura, a chamada do profeta Samuel. Em ambas as narrações é evidenciada a importância da figura que desempenha o papel de mediador, ajudando as pessoas chamadas a reconhecer a voz de Deus e a segui-la. No caso de Samuel, o mediador é o sacerdote Eli, do templo de Silo e no caso dos discípulo

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mestre, onde moras?

Jo 1,35-42

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos apresenta o tema da vocação. No texto evangélico temos a chamada dos primeiros discípulos por parte de Jesus e na primeira leitura, a chamada do profeta Samuel. Em ambas as narrações é evidenciada a importância da figura que desempenha o papel de mediador, ajudando as pessoas chamadas a reconhecer a voz de Deus e a segui-la. No caso de Samuel, o mediador é o sacerdote Eli, do templo de Silo e no caso dos discípulos de Jesus, o mediador é São João Batista.

Lançando o nosso olhar inicialmente para a primeira leitura observa-se que a vocação é sempre uma iniciativa de Deus. É Ele quem escolhe e chama. A indicação de que “Samuel ainda não conhecia o Senhor, pois, até então, a palavra do Senhor não se lhe tinha manifestado” (v. 7); isto sugere claramente que o chamamento de Samuel parte de Deus; é uma iniciativa exclusiva de Deus, à qual Samuel, em um primeiro momento, parece estar alheio. Ele é chamado pelo nome: Samuel, Samuel! Para Deus nós sempre somos um ser único. Chamar pelo nome indica o apreço divino, somos amados de modo pessoal e nos é dada uma missão única.

Deus chama Samuel enquanto este estava deitado, presume-se, durante a noite. É o momento do silêncio, da tranquilidade e da calma. Este quadro temporal sugere descanso, as tarefas do dia chegaram ao fim e tudo está envolvido na tranquilidade, na calma e no silêncio. Provavelmente, o autor do texto não escolheu este enquadramento por acaso, isto sugere que é mais fácil sentir a presença de Deus e ouvir a sua voz nesse ambiente de silêncio que favorece a escuta.

A maneira como se processa a resposta de Samuel ao chamamento de Deus é também peculiar. O autor sagrado sublinha a dificuldade de Samuel em reconhecer a voz do Senhor. Deus chamou Samuel por quatro vezes e só na última vez o jovem conseguiu identificar a voz de Deus. O fato sublinha a dificuldade que qualquer chamado tem no sentido de identificar a voz de Deus. É o sacerdote Eli quem compreende “que era o Senhor quem chamava o menino” e que ensina Samuel a abrir o coração ao chamamento de Deus: “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: ‘Senhor, fala, que teu servo escuta!’” (v. 9).

Na Sagrada Escritura a palavra “escutar” significa acolher no coração e transformar aquilo que se ouviu em compromisso de vida. Com a resposta, Samuel está a dizer a Deus que aceita embarcar no desafio profético e ser um sinal vivo de Deus, voz “humana” de Deus, na vida e na história do seu Povo. A vocação é sempre uma iniciativa misteriosa e gratuita de Deus.

A palavra “escutar” deve ser entendida no sentido bíblico pleno. Ela designa uma atitude global que inclui a obediência. Escuta-se com o coração, do íntimo de si mesmo, como nos indica também o Salmo 94,8: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações”. Também São Bento escolheu esta palavra para iniciar a sua Regra. A palavra “escuta” caracteriza a espiritualidade de toda a Regra de São Bento e indica a prioridade da palavra sobre a imagem, do escutar sobre o ver.

O texto do evangelho nos apresenta os primeiros três discípulos de Jesus: André, um outro discípulo não identificado e Simão Pedro. Os dois primeiros são apresentados como discípulos de São João Batista dizendo: “Eis o cordeiro de Deus!” (v. 36). Ao dizer: “Eis o cordeiro de Deus!” (v. 36), equivaleria dizer: “Eis o Messias”. Depois dessa declaração, os discípulos reconhecem em Jesus esse Messias com uma proposta de vida verdadeira e passam a segui-lo. Esse “seguir Jesus” significa caminhar atrás de Jesus, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu e colaborar com Ele na missão. A reação dos discípulos é imediata. Eles simplesmente seguem Jesus. Mas o texto apresenta um breve diálogo entre Jesus e os dois discípulos. Jesus começa com uma pergunta: “O que estais procurando?” (v.38). Esta pergunta sugere que é importante para os discípulos terem consciência do objetivo que perseguem, do que esperam de Jesus, daquilo que Jesus lhes pode oferecer.

Por sua vez, esses primeiros discípulos responderam a pergunta de Jesus com uma outra pergunta: “Rabbi, onde moras?” (v. 38). Neste questionamento está implícita a vontade desses discípulos de aderir totalmente a Jesus, de aprender com Ele, de habitar com Ele, de estabelecer comunhão de vida com Ele. Ao identificarem Jesus como “Rabbi”, isto é, mestre, mostram que ele estão dispostos a seguir as suas instruções, a aprender com Ele um modo de vida; a referência à “morada” de Jesus indica que eles estão dispostos a ficar perto de Jesus, a partilhar a sua vida, a viver sob a sua influência. E os dois seguiram Jesus, permaneceram por muito tempo com Ele e convenceram-se de que Ele era deveras o Cristo. Imediatamente o disseram aos outros, e assim formou-se o primeiro núcleo daquele que se teria tornado o colégio dos Apóstolos.

Como de fato, quem encontra Jesus e experimenta a comunhão com Ele, não pode deixar de se tornar testemunha da sua mensagem e da sua proposta. Trata-se de uma experiência tão marcante que transborda os limites estreitos do próprio eu e se torna anúncio para os irmãos. O encontro com Jesus, se é verdadeiro, conduz sempre a uma dinâmica missionária.

No texto evangélico aparecem dois verbos importantes: seguir e procurar. É importante a união dessas duas palavras, pois pode-se procurar e não seguir! O seguir implica numa atitude dinâmica de caminhada e é a isto a que somos todos convidados. Seguir é buscar colocar na nossa vida os valores que o Senhor nos ensinou e viver seu exemplo de vida e entrega. Mas para seguir é preciso permanecer com Ele, estar com ele, como, por exemplo, pela oração e meditação. Assim nossa vida será sempre um constante estar com Jesus.

Mas, como nos mostra as leituras de hoje, Deus tem para cada um uma procura singular. Esta procura é o primeiro movimento, a primeira iniciativa de nosso encontro e amizade com Deus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16). A essa procura de Deus devemos responder com uma atitude de espera vigilante. Deus nos procura, mas não quer impor a sua presença. Quer que a sua presença seja descoberta por nós, por um ato livre de escolha e de amor. Por isso a sua presença se faz meio nublada, não se impõe pela evidência, mas solicita uma adesão de fé.

Possamos estar também nós atentos ao chamado do Senhor que também hoje nos convida a escutá-lo, a segui-lo e a anunciá-lo. Que Ele mesmo nos auxilie e nos dê ouvidos atentos de discípulos, para que, a exemplo de Samuel, de André, de Pedro, de Paulo e de muitos outros, tenhamos um encontro transformador com Ele, a ponto de repetirmos com o Apóstolo: “Para mim viver é Cristo”. E vimos ainda que Jesus mostrou aos seus primeiros Apóstolos o local onde morava. E eles ficaram com Ele. Construamos também nós uma morada no nosso coração, onde Cristo possa habitar, onde Ele possa instruir-nos e conversar conosco. Assim seja.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria por todos os seminaristas, pelos sacerdotes, pelos religiosos e pelas religiosas, para que tenham plena consciência da importância do seu papel espiritual, e que possam levar os jovens uma resposta favorável à chamada de Deus, repetindo como o profeta Samuel: ‘Senhor, fala, que teu servo escuta!’” (v. 9). Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

BATISMO DO SENHOR – B

Mc 1,7-11

Caros irmãos e irmãs

Neste domingo depois da solenidade da Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor que conclui o tempo litúrgico do Natal. Hoje contemplamos Jesus que, à idade de uns trinta anos, fez-se batizar por João no rio Jordão. Tratava-se de um batismo de penitência, que utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida. João, chamado o “Batista”, ou seja, o que batizava, pregava este batismo a Israel para preparar a vinda do Messias, e dizia a todos que depois dele viria outro, maior que ele, que não batizaria com água, mas com o Espírito Santo (cf. Mc 1,7-8). Quando Jesus foi batizado no Jordão, o Espírito Santo desceu, pousou sobre Ele com uma aparência corporal de uma pomba, e João Batista reconheceu que Ele era o Cristo, o “Cordeiro de Deus”, vindo para tirar o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

No texto do Evangelho, São Marcos escreveu: “Enquanto saiu da água viu que os céus se abriam e que o Espírito, em forma de pomba, descia sobre ele. E ouviu uma voz que vinha dos céus: ‘Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo’” (v. 11). Este trecho que a liturgia da Palavra nos propõe é uma síntese curta daquilo que o precursor João Batista anunciava: ele proclamava a vinda de alguém do qual não se sentia digno sequer de desatar as correias das suas sandálias. João Batista tinha consciência da sua missão, mas, diante de Jesus, sentia ser menor do que um servo (v. 7-8). Segundo o relato apresentado pelo evangelista São Marcos, vemos que “os céus se abriram” (v. 11). Esta informação indica que, com o início da vida pública de Jesus, ocorreu a reconciliação entre o céu e a terra, entre Deus e os homens. A imagem da pomba, também presente no texto, evoca o acontecimento ocorrido no tempo do dilúvio (cf. Gn 7), quando também o céu estava fechado e havia inimizade entre Deus e os homens. A pomba com o ramo de oliveira foi o sinal de que a paz estava restabelecida (cf. Gn 8,11). A figura da pomba como sinal do Espírito Santo nos faz lembrar que, em Israel, a pomba tinha o símbolo da doçura e do amor. Este é o estilo com o qual Jesus se aproxima do homem pecador e afastado de Deus; não é como uma águia, mas com o estilo suave de uma pomba.

Outro detalhe que nos chama a atenção é que no Antigo Testamento, o povo de Israel, guiado por Josué, teve que atravessar o Rio Jordão antes de entrar na terra prometida (cf. Js 3,11). Jesus é apresentado pelo evangelista São Marcos como o novo Josué, que guia o novo povo de Deus. É também significativo que, em hebraico, o nome de Jesus é o mesmo que Josué. Após atravessar o do Rio Jordão, Josué foi inundado pelo Espírito de Deus para poder cumprir a difícil tarefa de conduzir para a terra prometida o povo que o acompanhava (cf. Dt 34,9). O mesmo ocorre com Jesus: saindo da água recebe o Espírito Santo, a força de Deus, para conduzir os homens ao caminho da vida (v. 11).

Hoje, também somos convidados a lembrar a importância do batismo que recebemos e a fazer reviver toda a riqueza que ele trouxe para a nossa vida. Ao sermos batizados, também o Senhor Deus, de certo modo, pode repetir para cada um de nós uma palavra semelhante à que disse a Cristo: “Este é o meu filho amado” (v. 11). Como de fato, o batismo nos faz filhos de Deus. Nós somos os filhos adotivos, que, pela graça recebida no batismo, nos tornamos irmãos do Cristo e participantes da sua divindade, como nos diz o apóstolo São Pedro (cf. 2Pd 1,4). E como diz São João no prólogo do seu Evangelho: “A todos os que o receberam, deu o poder se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12).

O Batismo expressa e realiza o mistério do novo nascimento à vida divina em Cristo: os pais levam seus filhos à fonte batismal, representação do âmago da Igreja, de cujas águas abençoadas são gerados os filhos de Deus. O dom recebido pelos recém-nascidos exige que seja acolhido por eles, uma vez que se façam adultos, de maneira livre e responsável: este processo de amadurecimento os levará depois a receber o sacramento da Confirmação, que precisamente confirmará o Batismo e lhes conferirá o “selo” do Espírito Santo.

Esta celebração de hoje é uma oportunidade propícia para que todos os cristãos redescubram a alegria e a beleza de seu Batismo que, vivido com fé, é uma realidade sempre atual: renova em nós continuamente a imagem do homem novo, na santidade dos pensamentos e das ações. O Batismo, também une os cristãos de toda confissão. Enquanto batizados, todos somos filhos de Deus em Cristo Jesus, nosso Mestre e Senhor.

O batismo é essencialmente isto: o dom da vida dado ao homem pelos méritos de Cristo, o fundamento de toda a vida cristã e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão (cf. CIgC, n. 1213). Este sacramento tem o nome de batismo por causa do rito central com que se realiza: batizar (baptizeis, em grego) significa “mergulhar, imergir”. A imersão na água simboliza a sepultura do catecúmeno na morte de Cristo, de onde sai pela ressurreição com Ele como uma nova criatura (cf. 2Cor 5,17; Gl 6,15). Também este sacramento é chamado de chamado “banho da regeneração e da renovação no Espírito Santo” (Tt 3,5), porque significa e realiza aquele nascimento da água e do Espírito, sem o qual “ninguém pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

Jesus começa a sua vida pública depois de Se ter feito batizar por São João Baptista no Rio Jordão. E, depois da sua ressurreição, confere esta missão aos Apóstolos: “Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações; batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinai-os a cumprir tudo quanto vos mandei” (Mt 28,19-20). Cristo sujeitou-se voluntariamente ao Batismo de São João, destinado aos pecadores, como sinal do seu “aniquilamento” (cf. CIgC, n. 1224). E, desde o dia de Pentecostes que a Igreja vem celebrando e administrando o santo Batismo. Com efeito, São Pedro declara à multidão, abalada pela sua pregação: “Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo” (At 2,38).

Os Apóstolos e os seus colaboradores oferecem o Batismo a quem quer que acredite em Jesus: judeus, pessoas tementes a Deus, pagãos etc. O Batismo aparece sempre ligado à fé: “Acredita no Senhor Jesus e serás salvo juntamente com a tua família”, declara São Paulo ao seu carcereiro em Filipos. E a narrativa continua: “O carcereiro logo recebeu o Batismo, juntamente com todos os seus” (At 16,31-33).

O Batismo não somente purifica de todos os pecados, como faz também do neófito uma nova criatura, um filho adotivo de Deus, tornado participante da natureza divina, membro de Cristo e templo do Espírito Santo (cf. CIgC, 1265).

Peçamos uma vez mais a Virgem de Nazaré que interceda por nós e nos ajude a compreender cada vez mais o dom do Batismo, para que possamos vivê-lo com coerência nas situações de cada dia. Assim seja.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR

Mt 2,1-12

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade da Epifania do Senhor, o mistério da manifestação do Senhor a todas as nações, representadas pelos Magos, conhecidos, segundo a tradição, com os nomes de Melchior, Gaspar e Baltasar. Eles vieram do Oriente para adorar o Rei dos Judeus (cf. Mt 2,1-2). O Evangelista São Mateus, que narra o acontecimento, ressalta como eles chegaram a Jerusalém seguindo uma estrela, vista surgir e interpretada como sinal do nascimento do Rei anunciado pelos profetas, isto é, o Messias. Mas, tendo chegado a Jerusalém, os Magos precisaram das indicações dos sacerdotes e dos escribas para conhecer exatamente o lugar aonde ir, isto é, Belém, a cidade de David (cf. Mt 2,5-6; Mq 5,1). A estrela e a Sagrada Escritura foram as duas luzes que guiaram o caminho dos Magos, os quais são para nós modelos dos autênticos pesquisadores da verdade.

O itinerário seguido pelos Magos reflete a caminhada que os pagãos percorreram para encontrar Jesus. Atentos aos sinais da estrela, percebem que Jesus é a luz que traz a salvação, põem-se decididamente a caminho para O encontrar. Chama a nossa atenção neste evangelho a disposição dos Magos: eles viram a estrela, deixaram tudo, arriscaram tudo e partiram à procura de Jesus. Neste sentido, podemos dizer que os Magos representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo.

Não podemos deixar de prestar uma atenção particular ao símbolo da estrela, tão importante na narração evangélica (cf. Mt 2,1-12). Esses Magos eram provavelmente astrônomos, tinham observado o surgir de um novo astro, e tinham interpretado este fenômeno celeste como anúncio do nascimento de um rei, precisamente, segundo as Sagradas Escrituras, do rei dos Judeus (cf. Nm 24,17), e puseram-se a caminho. Na realidade, esta luz de Cristo se manifestou na inteligência e no coração dos Magos. “Eles partiram” (Mt 2, 9), narra o evangelista, lançando-se corajosamente por estradas desconhecidas e empreendendo uma longa e difícil viagem.

Neste caminho são guiados por uma luz. A primeira leitura já anuncia a chegada da luz salvadora de Deus, que transfigurará Jerusalém e que atrairá à cidade de Deus povos de todo o mundo. O apóstolo João escreve na sua Primeira Carta: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Jo 1,5); e mais adiante acrescenta: “Deus é amor”. A luz, que surgiu no Natal, que hoje se manifesta aos povos, é o amor de Deus, revelado na Pessoa do Verbo encarnado. Portanto, os Magos do Oriente são atraídos por esta luz. A adoração de Jesus por parte dos Magos é reconhecida como cumprimento das Escrituras proféticas, como podemos ler no Livro do Profeta Isaías: “À tua luz caminharão os povos e os reis andarão ao brilho do teu esplendor… trazendo ouro e incenso, e anunciando os louvores ao Senhor” (Is 60,3.6).

Cristo é a luz que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Cumprindo o projeto redentor que o Pai nos quer oferecer. Essa “luz” encarnou na nossa história, iluminou os caminhos dos homens, conduziu-os ao encontro da salvação, da vida definitiva. O evangelista São Lucas também faz uma reverência a Cristo como luz: “Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo” (Lc 2,32), como, inspirado por Deus, exclamará Simeão tendo o menino entre os braços, quando os pais o apresentaram no templo. Cristo é a luz que ilumina os povos e que provém da glória de Israel (cf. Lc 2,4).

Lemos ainda no Evangelho que “a estrela, caminhava à frente deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou”. Chegando a Belém, os Magos “ao entrar na casa, viram o menino com Maria sua mãe, e prostrando-se o adoraram” (Mt 2,11). A criança que eles descobrem não é uma criança como as outras: é rei, então oferecem-lhe ouro; é Deus, então queimam incenso; passará pela morte antes de ressuscitar, então apresentam a mirra. Os dons que os Magos oferecem ao Messias simbolizam a verdadeira adoração. Mediante o ouro eles realçam a realeza divina; com o incenso confessam-no como sacerdote da nova Aliança; oferecendo a mirra reconhecem que Jesus derramará o próprio sangue para reconciliar a humanidade com o Pai.

É este o ápice de todo o itinerário: o encontro se faz adoração, conduz a um ato de fé e de amor que reconhece em Jesus, nascido de Maria, o Filho de Deus feito homem. Da adoração dos Magos fazem parte os presentes, como sinal de doação: ouro, incenso e mirra; oferendas que se faziam a um Rei considerado divino.

Uma vida frágil que necessita dos cuidados de uma mãe desperta nos magos a admiração. Eles prostram-se e adoram o Menino Jesus. Aqueles que conheciam bem a Palavra de Deus, sabiam interpretá-la, sabem também ler as estrelas e são capazes de ver mais além das aparências. E o que eles percebem nesse Menino é tão profundo que caem prostrados, tiram seus tesouros, esvaziam-se e enchem-se da nova Luz descoberta. Os Magos adoraram um simples Menino nos braços de Maria porque reconheceram Nele a fonte da dupla luz que os tinha guiado: a luz da estrela e a luz da Palavra de Deus. Reconheceram o Cristo recém-nascido como o Rei dos Judeus, mas também o Rei de todas as nações.

O Evangelho esclarece que, depois de ter encontrado Cristo, os Magos regressaram ao seu país “por outro caminho”. Esta mudança de caminho pode simbolizar a conversão daqueles que encontraram Jesus. Quando se encontra Cristo e se acolhe o seu Evangelho, a vida muda e somos estimulados a comunicar aos outros a própria experiência. Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para dar realce à sua descoberta. Mas eles escolheram o Menino como seu soberano e foram transformados pelo encontro com a Verdade; descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza: a do amor. O caminho exterior daqueles homens tinha terminado. Tinham chegado à meta. Mas a este ponto, começa para eles um novo caminho, uma peregrinação interior que altera toda a sua vida. Cristo também nos convida a esta peregrinação interior.

Os Magos que vieram do Oriente são apenas os primeiros de uma longa procissão de homens e mulheres que na sua vida procuraram constantemente com o olhar a estrela de Deus, que procuraram aquele Deus que está perto de nós, seres humanos, e nos indica o caminho. É a grande multidão de santos, mediante os quais o Senhor, ao longo da história, abriu diante de nós o Evangelho e folheou as suas páginas; ainda hoje Ele continua a fazer isto.

A vida dos santos revela a riqueza do Evangelho. Eles são o rastro luminoso de Deus que Ele mesmo traçou e continua a traçar ao longo da história. O segredo da santidade é a amizade com Cristo e a adesão fiel à sua vontade. Santo Ambrósio dizia: “Cristo é tudo para nós” (S. AMBRÓSIO, De virginitate 16, 99). E São Bento exorta aos seus monges: “Nada antepor ao amor de Cristo” (RB 4,21). São Bento indica com isto que devemos dar sempre prioridade a Cristo, que não podemos colocar nada, nem ninguém em seu lugar. A palavra “antepor” significa colocar algo entre mim e Cristo, construir um muro, uma separação. O amor de Cristo deveria ser nossa meta e nosso caminho, nossa certeza e nossa busca, nosso conforto. Este “nada antepor”, significa que devemos priorizar sempre a companhia de Cristo. Quando nada colocamos no seu lugar, aí sim, nada antepomos ao seu amor.

Possamos também nós imitar os Magos e colocarmo-nos a caminho do Senhor. Saibamos percorrer com decisão o caminho do bem. E assim como a estrela esteve a serviço dos Magos, possamos também nós estar a serviço dos nossos irmãos, indicando a eles o Cristo Senhor. Também como a estrela, devemos resplandecer como filhos da luz, para atrair a todos à presença do Salvador que nasceu para nos trazer uma vida nova. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SANTA MÃE DE DEUS – MARIA – B

SANTA MÃE DE DEUS, MARIA – B
Lc 2,16-21

Caros irmãos e irmãs

Iniciamos um novo ano civil e a Igreja nos convida a confiá-lo à celeste proteção de Nossa Senhora, que hoje a liturgia nos faz invocar com o seu título mais antigo e importante, o de Mãe de Deus. Com o seu “sim” ao Anjo, no dia da Anunciação, a Virgem concebeu no seu seio, por obra do Espírito Santo, o Verbo eterno. E em Belém, na plenitude dos tempos, Jesus nasceu de Maria: o Filho de Deus fez-se homem para nossa salvação e a Virgem tornou-se verdadeira Mãe de Deus.

O texto do Evangelho de hoje é a continuação daquele que foi lido na noite de Natal, quando após o anúncio do “anjo do Senhor”, os pastores dirigiram-se a Belém e encontraram o menino, deitado numa manjedoura de uma gruta de animais. Ao lado do berço de Jesus aparecem novamente os pastores, considerados pela sociedade judaica como pessoas impuras e desprezadas. Em conformidade com a mensagem recebida, eles se dirigem a Belém e encontram José, Maria e o Menino que está deitado na manjedoura.

Segundo os relatos apresentados pelo evangelista São Lucas sobre o nascimento de Jesus, observa-se um certo destaque ao espanto e à alegria das pessoas que se sentiam envolvidas no projeto de Deus. Isabel, por exemplo, ao perceber que estava grávida, manifesta a todos o seu contentamento: “Eis o que fez por mim o Senhor” (Lc 1,25). Simeão e a profetisa Ana começam a louvar a Deus que lhes concedeu ver a salvação preparada para todos os povos (cf. Lc 2,30.38); também Maria e José ficam admirados (cf. Lc 2.33.48), contudo, nesta passagem o evangelista São Lucas sublinha uma discreta reação de Maria diante da narrativa dos pastores, pois diz que ela “guardava todas essas coisas no seu coração, meditando-as” (v. 19). Ao mencionar estas palavras, o evangelista São Lucas descreve Maria como uma mulher silenciosa, constantemente à escuta da Palavra de Deus. Maria conserva no seu coração as palavras que provêm de Deus e, unindo-as como num mosaico, aprende a compreendê-las. Saibamos também nós seguir este exemplo da Virgem, para que possamos nos orientar sempre e unicamente por Jesus Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre (cf. Hb 13,8).

Mas o texto do evangelho termina com uma particular atitude dos pastores, que retornam “glorificando a Deus”. São eles os mais humildes e os mais pobres, que sabem acolher o acontecimento da Encarnação e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto (cf. Lc 2,20). O Anjo tinha-lhes anunciado que na cidade de Davi, isto é, em Belém, tinha nascido o Salvador e que teriam encontrado o sinal: um menino envolto em panos numa manjedoura (cf. Lc 2,11-12). Eles foram e voltaram contentes porque encontram o Salvador.

Lançando agora um olhar para a primeira leitura temos a solene bênção que os sacerdotes pronunciavam sobre os Israelitas nas grandes festas religiosas: ela é marcada precisamente pelo nome do Senhor, repetido três vezes, como que para exprimir a plenitude e a força que derivam desta invocação. Trata-se de uma antiga súplica de bênção que Deus sugerira a Moisés, para que a ensinasse a Aarão e seus filhos: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja propício. O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz” (Nm 6,24-26). Conforme observamos a cada uma destas três invocações são acrescentados dois pedidos de bênção.

A palavra “abençoar” significa a formulação de um desejo, de um voto, para que a alguém aconteçam coisas boas na vida. Para os israelitas, se um homem de Deus ou uma pessoa com poderes extraordinários tivesse pronunciado uma bênção ou uma maldição, as suas palavras teriam a sua eficácia. Também para os israelitas, a força da bênção não dependia dos poderes misteriosos do sacerdote que a pronunciava, mas do poder e da vontade de Deus. Compreende-se, deste modo, o motivo pelo qual a bênção que a liturgia nos propõe esteja baseada sobre três invocações do nome do Senhor. Antigamente este nome santo só poderia ser pronunciado em circunstâncias particularmente solenes, somente pelos sacerdotes e pelo rei.

É muito significativo ouvir estas palavras de bênção no início de um novo ano. Trata-se de algo que acompanhará o nosso caminho neste novo ano que agora tem início. São palavras de força, coragem e esperança. Os sacerdotes de Israel abençoavam o povo impondo o nome do Senhor. Assim, hoje também a Igreja quer os que seus sacerdotes abençoem os fiéis com as mesmas palavras sagradas que eram usadas pelos sacerdotes do Antigo Testamento, para que sejam eles fortalecidos pela vitalidade da nova luz que provém da fé. Em qualquer acontecimento, alegre ou triste, estão eles em condições de descobrir que tudo o que acontece está no âmago da vontade de Deus.

E dentre os seis benefícios solicitados nas três invocações da bênção, no último deles está o pedido de paz. Os judeus piedosos sabiam que a paz era um dom de Deus; mas, para podermos caminhar pela vereda da paz, precisamos ser iluminados pelo “rosto” de Deus e ser abençoados pelo seu “nome”. Precisamente, isto se concretizou de modo definitivo com a Encarnação: a vinda do Filho de Deus na nossa carne e na história trouxe uma bênção irrevogável, uma luz que nunca se apaga e que oferece aos crentes e aos homens de boa vontade a possibilidade de construir a civilização do amor e da paz. Ele é a nossa paz e Cristo é a nossa paz; e também anunciou a paz àqueles que estavam longe e àqueles que estavam perto (cf. Ef 2,14.17).

Para acolher o dom da paz, devemos abrir-nos à verdade que foi revelada na pessoa de Jesus, que nos ensinou o conteúdo juntamente com o método da paz, isto é, o amor. E Deus, que é o Amor perfeito e subsistente, revelou-se em Jesus, assumindo a nossa condição humana. Deste modo, indicou-nos o caminho da paz através do diálogo, do perdão, da solidariedade. Eis a única estrada que conduz à paz verdadeira.

Olhando para Maria, iniciemos, portanto, este novo ano que recebemos das mãos de Deus como um dom precioso para fazermos frutificar, como uma ocasião providencial para contribuir para a realização do Reino de Deus. Que a Virgem Maria, a quem invocamos como Rainha da paz, interceda sempre por nós, para que possamos transcorrer o ano que inicia hoje na fraternidade e na concórdia. Ela nos apresenta o seu Filho como o “Príncipe da Paz” (cf. Is 9,5) e nos faz permanecer na luz deste rosto, que brilha sobre nós (cf. Nm 6,25). A Mãe de Deus nos acompanhe neste novo ano e obtenha para nós e para o mundo inteiro o almejado dom da paz. Assim seja.

Site oficial da Paróquia São Judas Tadeu em Augusto Vasconcelos-RJ