I DOMINGO DA QUARESMA – B – Jesus sendo tentado por satanás do deserto

Mc 1,12-15

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com a imposição das cinzas, iniciou o tempo da quaresma que compreende um itinerário de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo Pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor. É um tempo de conversão, isto é, de mudança interior, de arrependimento. O tempo da Quaresma é o momento propício para renovar e tornar mais sólida a nossa relação com Deus, através da oração quotidiana, dos gestos de penitência e das obras de caridade fraterna.

Neste tempo, a Igreja nos chama novamente à conversão, que significa também um convite para transformar a nossa mentalidade e o nosso comportamento, assumir uma nova atitude e reformular os valores que orientam a nossa vida. E o tempo quaresmal também nos impele a confiar na misericórdia transformadora de Deus: “Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete” (Jl 2,13).

O Evangelista São Marcos, que nos acompanha ao longo deste ano litúrgico, nos apresenta o texto evangélico onde narra o episódio da tentação de Jesus no deserto: “O Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (Mc 1,12-13). Esta narração de São Marcos é concisa, desprovida dos pormenores que lemos nos outros dois Evangelhos, de São Mateus e São Lucas.

Em conformidade com a teologia de Israel, o deserto é um lugar privilegiado de encontro com Deus; foi no deserto que o Povo experimentou o amor e a solicitude do Senhor, e foi no deserto que o Senhor Deus propôs a Israel uma Aliança. O deserto pode indicar a situação de abandono e de solidão, o lugar da debilidade do homem, onde não existem ajudas nem seguranças, onde a tentação se faz mais forte. Mas ele pode indicar também um lugar de refúgio e de amparo, como foi para o povo de Israel que se livrou da escravidão egípcia, onde se pode experimentar de modo particular a presença de Deus. Jesus.

Contudo, o deserto é, também, o lugar da prova, da tentação; foi no deserto que o povo de Israel foi confrontado com opções, e foi no deserto que também este mesmo povo de Israel sentiu várias vezes a tentação de escolher caminhos contrários aos propostos por Deus. O deserto para onde Jesus é conduzido é, portanto, o lugar do encontro com Deus e do discernimento dos seus projetos; e é o lugar da prova, onde se é confrontado com a tentação de abandonar Deus e de seguir outros caminhos.

Logo após receber o batismo de penitência no Rio Jordão, Jesus se refugia no deserto para estar quarenta dias em profunda união com o Pai, o que vai constituir uma constante na vida terrena de Jesus. Com frequência deparamos com alguma passagem bíblica onde nos mostra Jesus em um momento de oração, para, em seguida, retornar para o meio das pessoas. Mas neste tempo em que Jesus se encontra no deserto, ele está exposto ao perigo e é atingido pela tentação e pela sedução do Maligno, que propõe a Ele, como opção, o caminho do poder, do sucesso e do dinheiro. Podemos lembrar que Jesus retira-se para o deserto por quarenta dias, sem comer, nem beber (cf. Mt 4,2), se nutre da Palavra de Deus, que usa como arma para vencer o diabo. As tentações de Jesus fazem referência àquelas que o povo hebraico enfrentou no deserto, mas que não soube vencer.

O número “quarenta” é bastante frequente, tanto no Antigo como no Novo Testamento. O número quarenta, é o número simbólico com o qual a Sagrada Escritura representa os momentos fortes da experiência de fé do Povo de Israel. É um número que exprime o tempo de espera, da purificação, do retorno ao Senhor, da consciência de que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, mas indica uma paciente perseverança, uma longa prova, um período suficiente para ver as obras de Deus, um tempo no qual é necessário decidir-se e assumir as próprias responsabilidades.

O número quarenta aparece antes de tudo na história de Noé, um homem justo, que por causa do dilúvio, permanece por quarenta dias e quarenta noites na arca, junto com a sua família e os animais que estavam com ele na arca. Noé também espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, para tocar na terra firme, que foi salva da destruição (cf. Gn 7,4.12;8,6). Também a Sagrada Escritura nos diz que Moisés permaneceu no Monte Sinai, diante da presença do Senhor, quarenta dias e quarenta noites, em jejum, para acolher a Lei (cf. Ex 24,18).

Podemos ainda salientar o número quarenta como o tempo da viagem do povo hebreu, do Egito à Terra prometida: “Recorda-te de todo o caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer nestes quarenta anos. O teu manto não se rasgou pelo seu uso nem os pés se incharam nestes quarenta anos” (Dt 8,2.4). Ainda no Antigo Testamento temos o profeta Elias que leva quarenta dias para atingir o Monte Oreb e lá encontra Deus (cf. 1Rs 19,8).

Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obterem o perdão de Deus. Jonas, profeta que viveu no século VII antes de Cristo, recebeu de Deus a missão de pregar em Nínive, capital do império assírio, cidade tão grande que “eram precisos três dias para percorrê-la” (Jn 3, 3). Seus habitantes viviam na iniquidade e Deus ordenou a Jonas que para lá se dirigisse a fim de anunciar-lhes a destruição da cidade. Jonas percorreu a cidade durante todo um dia, pregando: “Daqui a 40 dias Nínive será destruída!” (Jn 3,4).

Ouvindo essas palavras, os ninivitas começaram a fazer penitência, e o próprio rei “levantou-se do seu trono, tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (Jn 3,6). Significativo gesto de humildade, que bem expressava seu arrependimento. E publicou ele um decreto dizendo: “Todos clamem a Deus em alta voz; deixe cada um o seu mau caminho e converta-se” (Jn 3,8). Diante dessa sincera conversão dos ninivitas, mudou o Senhor seus desígnios e não os castigou.

Quarenta são os dias durante os quais Jesus Ressuscitado instruiu os seus discípulos, antes de ascender ao Céu e enviar o Espírito Santo (cf. At 1,3). E, nestes quarenta dias da quaresma, a Liturgia tem como objetivo, favorecer um caminho de renovação espiritual, à luz desta longa experiência bíblica e, sobretudo, para aprender a imitar Jesus, que nos quarenta dias transcorridos no deserto ensinou a vencer a tentação do demônio com a Palavra de Deus.

A história nos mostra que também muitos homens e mulheres imitaram Jesus nesta sua retirada ao deserto. No Oriente, começando por Santo Antão, muitos foram aqueles que se retiram aos desertos do Egito ou da Palestina, ou para lugares solitários, montes e vales remotos ou grutas, como fez também São Bento, deixando o mundo para se encontrar com Deus no silêncio e na solidão. Também nós, nesta quaresma, somos chamados a fazer esta experiência do deserto. Passar um tempo de deserto significa subtrair-se do alvoroço e dos chamados exteriores para entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser.

Assim como aconteceu com Cristo, também nós, ao nos preparar para a Páscoa, peçamos ao Espírito Santo que nos conduza e nos assista ao longo do nosso caminho quaresmal, através do deserto da oração e da penitência, para nos alimentarmos intensamente com a Palavra de Deus. Que o Espírito Santo também nos auxilie na luta contra o mal e nos faça progredir sempre mais na fé, para que sejamos capazes de imprimir no nosso coração e na nossa vida as palavras de Jesus Cristo e nos convertermos a Ele todos os dias. Assim Seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – A cura de um leproso

Mc 1,40-45

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos mostra Jesus em contato com um homem atingido pela lepra, uma doença considerada grave, a ponto de tornar a pessoa “impura” e de a excluir dos relacionamentos sociais. A lepra era uma doença vista como um sinal de impureza, de dissolução e morte.

A doença conhecida como lepra suscitou por milênios, angústia e pavor. Dois fatores alheios contribuíram para acrescentar o terror frente a esta enfermidade, até fazer dela o símbolo da máxima desventura que pode tocar uma criatura humana. O primeiro era a convicção de que esta enfermidade era tão contagiosa que infectava qualquer pessoa que tivesse contato com o enfermo; o segundo, igualmente carente de todo fundamento, era que a lepra consistia em um castigo pelo pecado.

Normalmente, utiliza-se a palavra “lepra” para designar vários tipos de enfermidade da aparência da pele. Uma doença vista como um estado insólito e anormal, uma manifestação de forças misteriosas, inquietantes e ameaçadoras que ameaçam a harmonia e o equilíbrio da existência do homem.

Devido a esta doença, o leproso era segregado e afastado da convivência diária com as outras pessoas. Tal medida tinha uma intenção higiênica e pretendia evitar o contágio. Significava, também, a dificuldade da comunidade em lidar com o estranho, com as forças misteriosas e inquietantes da doença. Mas, a exclusão dos leprosos da comunidade tinha razões religiosas. Para a mentalidade tradicional do povo judaico, Deus distribuía as recompensas e os castigos de acordo com o comportamento do homem.

A doença era vista como um castigo de Deus para os pecados e as infidelidades cometidas pelo homem. Ora, uma doença tão assustadora e repugnante como a lepra era tida como um castigo terrível para um pecado especialmente grave. O leproso era considerado, por isto, um pecador, amaldiçoado por Deus, indigno de pertencer à comunidade do Povo de Deus e não podia ser admitido às assembleias onde Israel celebrava o culto na presença do Deus santo.

O texto evangélico acentua que o leproso chegou perto de Jesus e suplica de joelhos: “Se queres, tu tens o poder de me purificar” (v. 40). Jesus ficou cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero, fique purificado” (v 41). No mesmo instante a lepra desapareceu dele.

Provavelmente tinham chegado até este leproso ecos do anúncio da pregação de Jesus e isto lhe abriu um horizonte de esperança. O desejo de sair da situação de miséria e de marginalidade em que estava mergulhado vence o medo de infringir a Lei e ele aproxima-se de Jesus, sem respeitar as distâncias que um leproso devia manter das pessoas sadias. Com isto observa-se o seu desespero e o desejo de mudar a sua triste situação. E estando diante de Jesus, o leproso é humilde, mas insistente: “Prostrou-se de joelhos e suplicou-lhe” (v. 40), pois o encontro com Jesus é uma oportunidade que ele não podia desperdiçar. O que ele pretende de Jesus não é apenas ser curado, mas ser “purificado” (katharidzô) dessa enfermidade que o faz impuro e indigno de pertencer à comunidade de Deus e à comunidade dos homens.

O leproso confia no poder de Jesus, sabe que só Jesus pode ajudá-lo a superar o seu estado de miséria, de isolamento e de indignidade. Mostrou ser prudente e portador de uma fé sincera. A sua súplica é feita com fervor e humildade. E Jesus, por sua vez, não disse apenas “Eu quero, fique purificado” (v. 41), mas, estendeu a mão e tocou no leproso (v. 40).

Este gesto de Jesus, que estende a mão e toca o corpo chagado da pessoa que o invoca, manifesta perfeitamente a vontade de Deus, de curar a sua criatura decaída, restituindo-lhe a vida “em abundância” (Jo 10,10). Cristo é “a mão” de Deus estendida à humanidade, para que ela consiga sair das areias movediças da doença e da morte e erguer-se sobre a rocha sólida do amor divino (cf. Sl 39,2-3).

Trata-se de um gesto humano, onde se manifesta a bondade e a solidariedade de Jesus para com aquele que sofre; mas este gesto de estender a mão tem um profundo significado teológico, pois é o gesto que acompanha, na história do Êxodo, as ações de Deus em favor do seu Povo (cf. Ex 3,20; 6,8; 8,1; 9,22). O amor de Deus manifesta-se com um gesto, que salva o homem leproso da escravidão em que a doença o havia lançado.

A lei prescrevia que o leproso devia apresentar-se ao sacerdote, pois a sua função consistia em ajudar a controlar o mal e a impedir o contágio. A sua ação destina-se, sobretudo, a decidir da capacidade ou da incapacidade de alguém para integrar a comunidade do Povo de Deus e para ser admitido à presença do Deus santo. A legislação reservava aos sacerdotes a tarefa de declarar a pessoa leprosa, ou seja, impura; e igualmente competia ao sacerdote constatar a sua cura e voltar a admitir na vida normal o enfermo curado (cf. Lv 13-14). E dessa maneira o homem fica reintegrado na vida social e religiosa.

O texto termina com a indicação de que o leproso purificado “começou a anunciar e a divulgar o que acontecera”, apesar do silêncio que Jesus lhe impusera. Mas aquele leproso curado, não conseguiu guardar o segredo e proclamou a todos o que tinha acontecido, de modo que, narra o evangelista, os doentes acorriam de todas as partes em grande número à procura de Jesus. O Evangelista São Marcos quer, provavelmente, sugerir que quem experimenta o poder integrador e salvador de Jesus converte-se necessariamente em profeta e em testemunha do amor e da bondade de Deus.

A lepra constituía uma espécie de morte religiosa e civil, e a sua cura uma espécie de ressurreição. É possível comparar esta enfermidade com o sinal do pecado, que é a verdadeira impureza do coração, capaz de nos afastar de Deus. Não é de fato a doença física da lepra, como previam as normas antigas, que nos separa do Senhor, mas a culpa, o mal espiritual e moral. A enfermidade tanto física como espiritual constitui uma característica típica da condição humana, como Santo Agostinho expressa bem numa das suas preces: “Tende piedade de mim, Senhor! Vede, não vos escondo as minhas feridas. Vós sois o médico, eu o doente; Vós sois misericordioso, eu miserável” (S. AGOSTINHO, As Confissões, X, 39).

O texto evangélico deixa para nós uma lição, pois quer nos mostrar como a oração que dirigimos a Deus para lhe pedir alguma coisa deve ser alicerçada na humildade e na fé sincera. Nossa oração deve ser envolvida na fé e na firme confiança na bondade de Deus.

Por isto, precisamos nos reconciliar com Deus, confessando periodicamente os nossos pecados. No Sacramento da Penitência, mediante os sacerdotes, somos purificados e restituídos à comunhão com o Pai celeste e com os irmãos, e somos novamente fortalecidos na graça, o que nos concede alegria e paz.

Possamos também nós suplicar ao Cristo Senhor que venha ao nosso encontro para nos libertar de toda a enfermidade do corpo e da alma. Deixemo-nos tocar e purificar por Ele, e que Ele mesmo venha ao nosso encontro para nos curar. E que cada encontro com Ele possa nos proporcionar um alívio no corpo e na alma. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – Jesus curou muitas pessoas…

Mc 1,29-39

Caros irmãos e irmãs

A nossa meditação da Palavra de Deus para este domingo pode iniciar com um olhar para a primeira leitura, retirada do livro de Jó (cf. Jó 7,1-4.6-7). Trata-se de uma obra onde são apresentadas de modo dramático as dificuldades de um homem chamado Jó. O texto bíblico faz parte da liturgia da Palavra deste domingo e nos traz palavras negativas, desesperadas, ressaltando o mistério da vida humana.

Jó é apresentado como um homem piedoso, bom, generoso e cheio de temor de Deus. Possuía ele muitos bens e uma família numerosa. Mas, repentinamente, viu-se privado de toda a sua riqueza, perdeu a família e foi atingido por uma grave doença. Ao longo do livro, Jó comenta, com amargura e desilusão, o fato da sua vida estar marcada por um sofrimento atroz e de Deus parecer ausente e indiferente face ao desespero em que a sua existência decorre. Apesar disso, é a Deus que Jó se dirige, pois sabe que Deus é a sua única esperança e que fora dele não há possibilidade de salvação.

O grito de revolta de Jó brota de um coração dolorido e sem esperança e é a expressão da angústia de um homem que, na sua miséria, se sente injustiçado e condenado pelo próprio Deus; mas é também o grito do crente que sabe que só em Deus pode encontrar a esperança e o sentido para a sua existência.

O sofrimento é um drama que atinge o homem e não tem explicação. Muito se pergunta as razões para o sofrimento de uma criança ou uma pessoa boa e justa. Questiona-se também como é que um Deus bom, cheio de amor, preocupado com a felicidade dos seus filhos, permite a dor e o sofrimento. Não temos uma resposta clara para todos estes questionamentos. Somos frágeis e incapazes de entender os mistérios de Deus e os seus projetos.

Tendo como cenário este drama de um homem que sofre, a Liturgia da Palavra nos apresenta um texto evangélico onde Jesus aparece curando muitos doentes. Na casa de Pedro ocorre o milagre da cura da sua sogra, que está de cama e com febre. Jesus tomando-a pela mão, curou-a e a fez erguer-se. Podemos sublinhar este pormenor importante que aparece no texto: A indicação de que Jesus tomou a doente pela mão e “levantou-a”.

O verbo grego utilizado pelo evangelista (egueirô – levantar) aparece frequentemente em contextos de “ressurreição” (cf. Mc 5,41;6,14.16;9,27;12,26;14,28;16,6). A sogra de Pedro está prostrada pelo sofrimento que lhe rouba a vida; mas o contato com Jesus devolve-lhe a vida e equivale a uma ressurreição. E a indicação de que a mulher “começou a servi-los”, indica o efeito imediato do contato com Jesus, de onde gera a atividade que se concretiza no serviço aos irmãos.

Também nós necessitamos desta mão do Senhor para nos erguer, para nos levantar. É Ele que nos segura pela mão e cura as nossas feridas, nossas enfermidades, nossas fraquezas. Jesus nos pega pela mão através da sua palavra, pois nela encontramos o conforto e a segurança. Também através dos sacramentos somos curados da febre das nossas paixões e dos nossos pecados mediante a absolvição no sacramento da reconciliação. Através deste sacramento Jesus nos concede a capacidade de reerguermo-nos, de estarmos de pé novamente diante de Deus e diante dos homens. Jesus nos eleva e nos cura sempre de novo com o dom da sua palavra, com o dom de si mesmo.

Notemos ainda que a febre abandona aquela a quem Cristo segura. Não permanece a enfermidade onde estiver presente o autor da salvação; não haverá acesso para a morte onde houver entrado aquele que nos dá a vida (cf. S. PEDRO CRISÓLOGO, Sermão 18, PL 52, 246-249).

Os enfermos e os possessos do demônio representam, todos aqueles que estão privados de vida, que estão prisioneiros do sofrimento e da dor. O evangelista São Marcos nos convida a ver em Jesus Aquele que tem poder para libertar o homem das suas misérias mais profundas e oferecer a ele uma vida nova, pois “Ele assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades” (Mt 8,17).

O texto evangélico continua dizendo que ao pôr do sol, tendo terminado o sábado, o povo levou até Jesus muitos enfermos e Ele curou uma multidão de pessoas atormentadas por doenças de todos os gêneros: físicas, psíquicas, espirituais. Esta realidade da cura dos doentes por parte de Cristo nos convida a refletir sobre o sentido e o valor da doença. Ao enviar em missão os seus discípulos, Jesus confere a eles um duplo mandato: anunciar o Evangelho da salvação e curar os enfermos (cf. Mt 10, 7-8). Fiel a este ensinamento, a Igreja considerou sempre a assistência aos enfermos uma parte integrante da sua missão.

Estas curas realizadas por Jesus são sinais: não se resolvem em si mesmas, mas guiam para a mensagem de Cristo, guiam-nos para Deus e fazem-nos compreender que a verdadeira e mais profunda doença do homem é a ausência de Deus, da fonte da verdade e do amor. E só a reconciliação com Deus pode doar-nos a cura autêntica, a verdadeira vida, porque uma vida sem amor e sem verdade não seria vida. No entanto, permanece verdade que a doença é uma condição tipicamente humana, na qual experimentamos em grande medida que não somos auto-suficientes, mas temos necessidade dos outros.

A experiência da cura dos doentes convida-nos mais uma vez a refletir sobre o sentido e o valor da doença em qualquer situação na qual o ser humano possa encontrar-se. A Igreja considera as pessoas doentes como uma via privilegiada para encontrar Cristo, para o acolher e servir. A atenção para com os doentes, o ato de visitar os doentes e servi-los, indica que é servir Cristo: o doente é a carne de Cristo, pois Ele mesmo disse: “Estive doente e cuidastes de mim” (Mt 25,36).

Mas a doença pode ser um momento salutar, no qual podemos experimentar a atenção dos outros e oferecer a quem sofre a nossa unidade. Todavia, ela é sempre uma prova, que pode tornar-se também longa e difícil. Quando a cura não chega, e os sofrimentos se prolongam, podemos permanecer como que esmagados, isolados, e então a nossa existência deprime-se e desumaniza-se. Mas a Palavra de Deus nos ensina que há uma atitude decisiva e fundamental, com a qual enfrentar a enfermidade, e é a da fé na bondade de Deus. Jesus dizia às pessoas curadas: “A tua fé te salvou” (cf. Mc 5,34.36). Até diante da morte, a fé pode tornar possível aquilo que, humanamente, é impossível. Somente no amor e na misericórdia de Deus encontramos uma resposta para o mal e a enfermidade.

Não obstante a doença faça parte da experiência humana, temos dificuldades de nos habituarmos a ela, não só porque por vezes se torna deveras pesada e grave, mas essencialmente porque somos feitos para a vida. O triste na vida não é sofrer, não é chorar, não é morrer… Triste e miserável é sofrer, chorar e morrer sem Deus, pois só Ele dá sentido à nossa existência.

Diante destas curas realizadas pelo Cristo Senhor, saibamos reconhecer nestes sinais o Reino de Deus que Ele vem nos trazer. E elevemos uma vez mais nossa oração a Maria, a quem invocamos como “Saúde dos Enfermos”, para que, com a sua materna intercessão sustente e acompanhe a nossa fé e nos obtenha de Cristo, seu Filho, a esperança no caminho da cura de todos os nossos males e nos conceda a saúde física e espiritual. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – Ensinava com autoridade

Mc 1,21-28

Caros irmãos e irmãs

O Evangelho deste domingo nos situa geograficamente em Cafarnaum, uma pequena cidade à margem do lago da Galileia, onde moravam Pedro e o seu irmão André. É neste ambiente que ocorre o primeiro milagre de Jesus, segundo o evangelista São Marcos, quando expulsa o demônio de um homem que estava presente na sinagoga.

O texto evangélico nos trás duas cenas diferentes. A primeira é a cena do ensinamento de Jesus que causa a admiração dos presentes (vv. 21-22). A segunda cena é o relato da expulsão do demônio (vv. 23-28). Os dois episódios foram reunidos pelo redator do evangelho em uma unidade literária, cuja finalidade é descrever o primeiro dia da atividade apostólica de Jesus na cidade de Cafarnaum. O fato ocorre em um dia de sábado, quando Jesus entra na sinagoga de Cafarnaum, para participar da liturgia sabática. A celebração começava, normalmente, com a profissão de fé (cf. Dt 6,4-9), a que se seguiam orações, cânticos e duas leituras, uma da Torá e outra retirada do Livro dos Profetas; depois, vinha o comentário às leituras e as bênçãos finais.

Narra o evangelista Marcos que, sendo aquele dia um sábado, Jesus foi imediatamente à sinagoga e pôs-se a ensinar (cf. v. 21). Isto faz pensar na primazia da palavra de Deus, Palavra que deve ser ouvida, acolhida e anunciada. A principal preocupação de Jesus é a de comunicar a Palavra de Deus.

É bem provável que Jesus tivesse sido convidado, nesse dia, para comentar as leituras feitas; e ao usar de uma forma original, diferente dos comentários que as pessoas estavam habituadas a ouvir dos estudiosos da Sagrada Escritura, conhecidos como “escribas”, todos ficaram maravilhados com as suas palavras, “porque ensinava com autoridade” (v. 22). Os ouvintes de Jesus estavam habituados a receber ensinamentos, mas a diferença que fazem entre o ensino de Jesus e o dos escribas e fariseus é que Ele ensina como um homem que tem autoridade.

Na sequência das palavras ditas por Jesus e que transmitem aos ouvintes um sinal inegável da presença de Deus, aparece em cena “um homem com um espírito impuro” (v. 23). Os judeus estavam convencidos que todas as doenças eram provocadas por “espíritos maus” que se apropriavam dos homens e os tornavam prisioneiros. As pessoas afetadas por esses males deixavam de cumprir a Lei e ficavam numa situação de “impureza”, isto é, afastadas de Deus e da comunidade.

Na perspectiva dos contemporâneos de Jesus, esses “espíritos maus” que afastavam os homens da órbita de Deus tinham um poder absoluto, que os homens não podiam, com as suas frágeis forças, ultrapassar. Acreditava-se que só Deus, com o seu poder e autoridade, era capaz de vencer os “espíritos maus” e devolver aos homens a vida. Rodeado já pelos primeiros discípulos, Jesus começa a revelar-se como o Messias, que está no meio dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação.

O Evangelista São Marcos sublinha que o espírito impuro, que domina um homem presente na sinagoga, põe-se a interpelar violentamente Jesus. A ação da cura do homem constitui a comprovação de que Jesus traz uma proposta de que vem de Deus. Pela ação de Jesus, Deus vem ao encontro do homem para o salvar de tudo aquilo que o impede de ter vida em plenitude. E é exatamente isto que Jesus irá afirmar mais à frente: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham com abundância” (Jo 10,10). Para o Evangelista São Marcos, este primeiro episódio é uma espécie de apresentação de um programa de ação: Jesus veio ao encontro dos homens para os libertarem de tudo aquilo que os faz prisioneiros e lhes rouba a vida.

Após os ensinamentos de Jesus suscitar a admiração das pessoas, segue-se a libertação de “um homem possuído por um espírito impuro” (v. 23). O homem possuído pelo demônio, que de repente se põe a gritar: “Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus!” (v. 24). Jesus não lhe responde com um pedido ou com palavras ou gestos mágicos, como costumavam fazer os exorcistas do seu tempo; mas com duas ordens determinantes: “Cala-te!” e “Sai!” (v. 25). O “espírito mau” não aceita passivamente a ordem de Jesus; reage com violência ao ser contrariado, resiste, começa a gritar porque quer perpetuar o seu domínio sobre sua vítima.

Observa-se que o demônio reconhece em Jesus, pela sua santidade eminente, que ele é o “Santo de Deus”, ou seja o Messias. O demônio reage e grita pelo temor de ser destronado e perder seu poder no mundo. Jesus não discute com ele, mas afasta-o. O espírito imundo obedece e, imediatamente, sai daquele homem, e todos os presentes, admirados, percebem que entre eles chegou um profeta que anuncia uma “nova doutrina” e que tem, dentro de si, a força de Deus: Sua palavra de fato, tem autoridade, ou seja, realiza aquilo que afirma (v. 26-27).

Essa luta representa a rebelião das forças malignas que podem se encontrar também dentro de nós e não querem ser expulsos. É o símbolo das dificuldades que o homem enfrenta quando quer despojar-se dos seus maus hábitos, que resistem e dos quais às vezes não é fácil libertar-se. Jesus anuncia uma palavra nova, uma palavra de “autoridade”. Trata-se de uma palavra que faz crescer, que está ao serviço do crescimento do ser e da vida. Precisamente a autoridade divina de Cristo tinha suscitado a reação de satanás, escondido naquele homem. Jesus, por sua vez, reconheceu imediatamente a voz do maligno e disse severamente: “Cala-te e sai deste homem!” (v. 25).

Para Deus, a autoridade significa serviço e humildade; significa entrar na lógica de Jesus, que se inclina para lavar os pés aos discípulos (cf. Jo 13,5), que procura o verdadeiro bem do homem, que cura as feridas, que é capaz de um amor tão grande que o leva a dar a sua própria vida. Pelo “cala-te”, Jesus anuncia seu poder sobre o mal, um sinal de que ele veio para “destruir o mal”, que atinge o homem.

A situação do homem possuído pelo demônio representa a condição daquele que ainda não encontrou Cristo; vive subjugado por forças hostis que o destroem e que ele não consegue controlar. Com a força da sua palavra, Jesus liberta a pessoa do maligno. E mais uma vez os presentes permanecem admirados: “Ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem” (v. 27). A cura milagrosa do possesso era uma confirmação do poder sobrenatural que Cristo possuía, pois só Ele pode nos salvar do mal.

Na oração do Pai nosso, na sua última petição, Jesus nos ensina a pedir ao Senhor que nos livre do mal. Nesta petição, o Mal designa uma pessoa, satanás, o maligno, o anjo que se opõe a Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2851). São Pedro alerta: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda ao redor, como leão que ruge, buscando a quem possa devorar; resisti-lhe firmes na fé” (1Pd 5,8-9).

O próprio Jesus foi tentado três vezes pelo demônio no deserto, e o venceu com o jejum, a oração e a força da Palavra de Deus (cf. Mt 4,3-10). Jesus se referiu a ele como seu adversário e o chamou de “príncipe deste mundo” (cf. Jo 12,31; 14,30; 16,11). São Paulo chamou-o “deus deste mundo” (cf. 2Cor 4,4) e preveniu-nos das lutas ocultas que devemos travar contra sua pluralidade: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio”.

Ao longo de sua vida pública, Jesus também libertou muitas outras pessoas possuídas pelo mal, dentre tantas, podemos lembrar de Maria Madalena, de quem Ele fez sair sete demônios (cf. Lc 8,2), ou seja, salvou-a de um servilismo total ao maligno. Isto mostra que Deus, através de Jesus Cristo, quis restabelecer a paz verdadeira, completa, fruto da reconciliação da pessoa com Deus e com os outros. Com efeito, o maligno procura corromper sempre a obra de Deus, semeando divisão no coração humano, entre corpo e alma, entre o homem e Deus. Para realizar esta obra de reconciliação Jesus tornou-se Cordeiro, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

Peçamos hoje ao Senhor que também nos liberte de todas as ações do maligno, para sermos livres de todos os males, dos quais ele, o demônio, é o autor ou instigador, e para que possamos haurir sempre da misericórdia divina, sendo firmes na fé e na busca da santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III SEMANA DO TEMPO COMUM – Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo.

Mc 1,14-20

Caros irmãos e irmãs

No Evangelho deste domingo aparece em cena Jesus que percorre os povoados e montanhas da Galileia, anunciando o Evangelho. O texto nos mostra a primeira frase que ele pronuncia, como alerta da sua pregação: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (v. 15). O Evangelista São Marcos frisa que Jesus começou a pregar “depois que João Batista foi preso” (v.14). Precisamente no momento em que a voz profética de João, que anunciava a vinda do Reino de Deus, é abafada por Herodes, que o mandou degolar no cárcere (cf. Mc 6,14-29), Jesus começa a percorrer os caminhos da sua terra para levar a todos “o Evangelho de Deus” (v. 14).

O texto evangélico nos apresenta dois pedidos “Convertei-vos” (v. 14), no sentido de mudar o modo de pensar, deixando a má conduta moral e “Crede no evangelho” (v.14), ou seja, na Boa Nova que Cristo veio ensinar. O tempo assinalado para o estabelecimento do reino havia chegado e todos eram exortados a se preparar para nele entrar, mediante o arrependimento e a aceitação da boa nova anunciada por Cristo.

A inserção no Reino de Deus exige a conversão. O apelo de Jesus à conversão soava como uma exigência de abrir mão da própria vontade para abraçar um novo modelo de vida proposta por Ele. A conversão colocaria o futuro discípulo diante das exigências objetivas do Evangelho. Crer no Evangelho supunha aceitar a mensagem de Jesus como palavra de Deus, com toda a sua força de salvação. Abrir-se para estes apelos haveria de ser o primeiro passo da longa caminhada de testemunho transparente de adesão ao Reino e aos seus valores, que foram os de Jesus.

Na Sagrada Escritura vamos encontrar muitos exemplos de conversão, dentre eles, podemos citar a do apóstolo São Paulo. No caminho de Damasco aconteceu com ele aquilo que Jesus pede no Evangelho de hoje: Saulo converteu-se porque, graças à luz divina, “acreditou na Boa Nova”. É nisto que consistem a sua e a nossa conversão: acreditar em Jesus morto e abrir-se à iluminação da sua graça divina. Naquele momento, Saulo compreendeu que a sua salvação não dependia das boas obras realizadas segundo a lei, mas do fato de que Jesus tinha morrido também por ele, que foi um perseguidor dos cristãos. Esta verdade, que graças ao Batismo ilumina a existência de cada cristão, inverte completamente o nosso modo de viver. Converter-se significa, também para cada um de nós, acreditar que Jesus “se entregou por mim” morrendo na cruz (cf. Gl 2, 20).

O convite à conversão ressoa hoje também para cada um de nós e implica no desejo e no propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. A conversão é, antes de mais, obra da graça de Deus, a qual faz com que os nossos corações se voltem para Ele: “Convertei-nos, Senhor, e seremos convertidos” (Lm 5,21). Deus é quem nos dá a coragem de começar de novo. É ao descobrir a grandeza do amor de Deus que o nosso coração é abalado pelo horror e pelo peso do pecado, e começa a ter receio de ofender a Deus pelo pecado e de estar separado dele. O coração humano converte-se, ao olhar para aquele a quem os nossos pecados trespassaram (cf. Jo 19,37). A conversão envolve uma mudança radical no próprio modo de pensar.

A segunda parte do trecho evangélico (v. 16-20), nos relata o chamado dos primeiros quatro discípulos, convocados a se tornarem, depois da ressurreição de Jesus, mensageiros do evangelho. O episódio está dividido em duas fases paralelas, que correspondem aos chamados das duas duplas de irmãos: Simão e André (v. 16-17); e Tiago e João (v. 19-20).

O chamado duplo não tem apenas valor simbólico. O relato guarda uma preciosa recordação da primeira hora. Evidentemente, o nosso texto evangélico tem uma forte intenção teológica. Mas ainda no tempo de Paulo são estes os grandes apóstolos, chamados de colunas da Igreja. São eles que reconhecem “a graça de Deus que foi dada a Paulo” (Gl 2,9).

Jesus chama estes primeiros discípulos no momento em que estavam exercendo a sua profissão. Eram eles pescadores. Também a vocação do profeta Eliseu aconteceu em circunstâncias semelhantes. Elias o convida para segui-lo enquanto se encontra a arar a terra (cf. 1Rs 19,19-21). É o próprio Jesus que vai a procura dos seus apóstolos e os convida a permanecer com ele.

Esse “seguir” significa ir atrás de alguém, pisando nas suas pegadas, percorrer o seu caminho, o que pede, sobretudo, uma imensa confiança Nele. Seguir Jesus não é só aceitar sua doutrina, mas entregar-se incondicionalmente à sua pessoa, colaborar na sua missão, partilhar do seu destino que inclui a morte e glorificação. Seguir Jesus, por isso, supõe o abandono confiante Nele, isto é, uma confiança total, doação completa à pessoa de Jesus.

Chama a nossa atenção o fato de que o Evangelista São Marcos mostra Jesus ao iniciar a sua grande atividade pública, congrega em torno de si os seus discípulos. Este gesto faz parte da proclamação evangélica. Os apóstolos e os outros discípulos serão parte constitutiva deste último tempo. Ele os convoca para, juntamente com eles, e perante os olhos deles, iniciar a proclamação e inauguração do Reino de Deus, porque, posteriormente, eles serão os continuadores dessa missão. Jesus chama estes primeiros apóstolos para que fiquem ao seu lado e experimentem algo da sua divina intimidade (cf. Mc 3,13).

Pedro, André, Tiago e João respondem imediatamente ao chamado: abandonam tudo para acompanhar Jesus. Isto mostra que, mediante o chamado de Jesus, a resposta deve ser dada imediatamente e deve manifestar-se em ações concretas: Eles abandonam tudo para seguir o Mestre, porque a missão para a qual estão sendo convocados é diferente.

O atrativo da chamada de Jesus é irresistível e os faz capazes de renunciar à sua família e ao seu trabalho para seguir Jesus. Esta ruptura com a própria família tinha implicações muito distintas das que têm hoje o abandono do lar familiar. Não era somente nem principalmente uma ruptura afetiva, e sim uma ruptura com todas as seguranças. A casa e a família eram, até então, o grupo de apoio mais sólido desde o ponto de vista social, os que careciam de uma família careciam de honra e prestígio. Economicamente, a família era a principal unidade de produção e o grupo em que se exercia a mútua solidariedade. Ao deixar sua família e sua casa, aqueles discípulos faziam uma opção muito radical: deixavam verdadeiramente tudo para seguir Jesus (cf. Mt 19,27-29).

O que certamente impulsionou os Apóstolos a seguir Jesus, no início e no decorrer dos tempos, foi sempre “o amor de Cristo” (cf. 2Cor 5,14). Como fiéis servidores da Igreja, dóceis à ação do Espírito Santo, muitos missionários, ao longo dos séculos, seguiram as pegadas dos primeiros discípulos e também ouviram este chamado de Cristo. Ao longo da história da Igreja muitos foram aqueles que se dedicaram totalmente a serviço do Evangelho. Podemos recordar de muitos sacerdotes que são chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação, dedicados ao serviço dos mais débeis, dos doentes, dos sofredores, dos pobres e dos que passam por momentos difíceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo. Para estes, os missionários levam o primeiro anúncio do seu amor redentor. Desta forma, através dos seus sacerdotes, Jesus se faz presente entre os homens de hoje, até às mais distantes extremidades da terra.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria para que saibamos responder com entusiasmo o chamado de Cristo a segui-lo, a exemplo dos apóstolos e de inúmeros sacerdotes, religiosos e religiosas. Maria, que também soube viver plenamente a sua unidade com o Senhor, nos faça obter o dom de uma verdadeira conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mestre, onde tu moras?

Jo 1,35-42

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos apresenta o tema da vocação. No texto evangélico temos a chamada dos primeiros discípulos por parte de Jesus e na primeira leitura, a chamada do profeta Samuel. Em ambas as narrações é evidenciada a importância da figura que desempenha o papel de mediador, ajudando as pessoas chamadas a reconhecer a voz de Deus e a segui-la. No caso de Samuel, o mediador é o sacerdote Eli, do templo de Silo e no caso dos discípulo

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mestre, onde moras?

Jo 1,35-42

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos apresenta o tema da vocação. No texto evangélico temos a chamada dos primeiros discípulos por parte de Jesus e na primeira leitura, a chamada do profeta Samuel. Em ambas as narrações é evidenciada a importância da figura que desempenha o papel de mediador, ajudando as pessoas chamadas a reconhecer a voz de Deus e a segui-la. No caso de Samuel, o mediador é o sacerdote Eli, do templo de Silo e no caso dos discípulos de Jesus, o mediador é São João Batista.

Lançando o nosso olhar inicialmente para a primeira leitura observa-se que a vocação é sempre uma iniciativa de Deus. É Ele quem escolhe e chama. A indicação de que “Samuel ainda não conhecia o Senhor, pois, até então, a palavra do Senhor não se lhe tinha manifestado” (v. 7); isto sugere claramente que o chamamento de Samuel parte de Deus; é uma iniciativa exclusiva de Deus, à qual Samuel, em um primeiro momento, parece estar alheio. Ele é chamado pelo nome: Samuel, Samuel! Para Deus nós sempre somos um ser único. Chamar pelo nome indica o apreço divino, somos amados de modo pessoal e nos é dada uma missão única.

Deus chama Samuel enquanto este estava deitado, presume-se, durante a noite. É o momento do silêncio, da tranquilidade e da calma. Este quadro temporal sugere descanso, as tarefas do dia chegaram ao fim e tudo está envolvido na tranquilidade, na calma e no silêncio. Provavelmente, o autor do texto não escolheu este enquadramento por acaso, isto sugere que é mais fácil sentir a presença de Deus e ouvir a sua voz nesse ambiente de silêncio que favorece a escuta.

A maneira como se processa a resposta de Samuel ao chamamento de Deus é também peculiar. O autor sagrado sublinha a dificuldade de Samuel em reconhecer a voz do Senhor. Deus chamou Samuel por quatro vezes e só na última vez o jovem conseguiu identificar a voz de Deus. O fato sublinha a dificuldade que qualquer chamado tem no sentido de identificar a voz de Deus. É o sacerdote Eli quem compreende “que era o Senhor quem chamava o menino” e que ensina Samuel a abrir o coração ao chamamento de Deus: “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: ‘Senhor, fala, que teu servo escuta!’” (v. 9).

Na Sagrada Escritura a palavra “escutar” significa acolher no coração e transformar aquilo que se ouviu em compromisso de vida. Com a resposta, Samuel está a dizer a Deus que aceita embarcar no desafio profético e ser um sinal vivo de Deus, voz “humana” de Deus, na vida e na história do seu Povo. A vocação é sempre uma iniciativa misteriosa e gratuita de Deus.

A palavra “escutar” deve ser entendida no sentido bíblico pleno. Ela designa uma atitude global que inclui a obediência. Escuta-se com o coração, do íntimo de si mesmo, como nos indica também o Salmo 94,8: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações”. Também São Bento escolheu esta palavra para iniciar a sua Regra. A palavra “escuta” caracteriza a espiritualidade de toda a Regra de São Bento e indica a prioridade da palavra sobre a imagem, do escutar sobre o ver.

O texto do evangelho nos apresenta os primeiros três discípulos de Jesus: André, um outro discípulo não identificado e Simão Pedro. Os dois primeiros são apresentados como discípulos de São João Batista dizendo: “Eis o cordeiro de Deus!” (v. 36). Ao dizer: “Eis o cordeiro de Deus!” (v. 36), equivaleria dizer: “Eis o Messias”. Depois dessa declaração, os discípulos reconhecem em Jesus esse Messias com uma proposta de vida verdadeira e passam a segui-lo. Esse “seguir Jesus” significa caminhar atrás de Jesus, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu e colaborar com Ele na missão. A reação dos discípulos é imediata. Eles simplesmente seguem Jesus. Mas o texto apresenta um breve diálogo entre Jesus e os dois discípulos. Jesus começa com uma pergunta: “O que estais procurando?” (v.38). Esta pergunta sugere que é importante para os discípulos terem consciência do objetivo que perseguem, do que esperam de Jesus, daquilo que Jesus lhes pode oferecer.

Por sua vez, esses primeiros discípulos responderam a pergunta de Jesus com uma outra pergunta: “Rabbi, onde moras?” (v. 38). Neste questionamento está implícita a vontade desses discípulos de aderir totalmente a Jesus, de aprender com Ele, de habitar com Ele, de estabelecer comunhão de vida com Ele. Ao identificarem Jesus como “Rabbi”, isto é, mestre, mostram que ele estão dispostos a seguir as suas instruções, a aprender com Ele um modo de vida; a referência à “morada” de Jesus indica que eles estão dispostos a ficar perto de Jesus, a partilhar a sua vida, a viver sob a sua influência. E os dois seguiram Jesus, permaneceram por muito tempo com Ele e convenceram-se de que Ele era deveras o Cristo. Imediatamente o disseram aos outros, e assim formou-se o primeiro núcleo daquele que se teria tornado o colégio dos Apóstolos.

Como de fato, quem encontra Jesus e experimenta a comunhão com Ele, não pode deixar de se tornar testemunha da sua mensagem e da sua proposta. Trata-se de uma experiência tão marcante que transborda os limites estreitos do próprio eu e se torna anúncio para os irmãos. O encontro com Jesus, se é verdadeiro, conduz sempre a uma dinâmica missionária.

No texto evangélico aparecem dois verbos importantes: seguir e procurar. É importante a união dessas duas palavras, pois pode-se procurar e não seguir! O seguir implica numa atitude dinâmica de caminhada e é a isto a que somos todos convidados. Seguir é buscar colocar na nossa vida os valores que o Senhor nos ensinou e viver seu exemplo de vida e entrega. Mas para seguir é preciso permanecer com Ele, estar com ele, como, por exemplo, pela oração e meditação. Assim nossa vida será sempre um constante estar com Jesus.

Mas, como nos mostra as leituras de hoje, Deus tem para cada um uma procura singular. Esta procura é o primeiro movimento, a primeira iniciativa de nosso encontro e amizade com Deus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16). A essa procura de Deus devemos responder com uma atitude de espera vigilante. Deus nos procura, mas não quer impor a sua presença. Quer que a sua presença seja descoberta por nós, por um ato livre de escolha e de amor. Por isso a sua presença se faz meio nublada, não se impõe pela evidência, mas solicita uma adesão de fé.

Possamos estar também nós atentos ao chamado do Senhor que também hoje nos convida a escutá-lo, a segui-lo e a anunciá-lo. Que Ele mesmo nos auxilie e nos dê ouvidos atentos de discípulos, para que, a exemplo de Samuel, de André, de Pedro, de Paulo e de muitos outros, tenhamos um encontro transformador com Ele, a ponto de repetirmos com o Apóstolo: “Para mim viver é Cristo”. E vimos ainda que Jesus mostrou aos seus primeiros Apóstolos o local onde morava. E eles ficaram com Ele. Construamos também nós uma morada no nosso coração, onde Cristo possa habitar, onde Ele possa instruir-nos e conversar conosco. Assim seja.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria por todos os seminaristas, pelos sacerdotes, pelos religiosos e pelas religiosas, para que tenham plena consciência da importância do seu papel espiritual, e que possam levar os jovens uma resposta favorável à chamada de Deus, repetindo como o profeta Samuel: ‘Senhor, fala, que teu servo escuta!’” (v. 9). Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

BATISMO DO SENHOR – B

Mc 1,7-11

Caros irmãos e irmãs

Neste domingo depois da solenidade da Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor que conclui o tempo litúrgico do Natal. Hoje contemplamos Jesus que, à idade de uns trinta anos, fez-se batizar por João no rio Jordão. Tratava-se de um batismo de penitência, que utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida. João, chamado o “Batista”, ou seja, o que batizava, pregava este batismo a Israel para preparar a vinda do Messias, e dizia a todos que depois dele viria outro, maior que ele, que não batizaria com água, mas com o Espírito Santo (cf. Mc 1,7-8). Quando Jesus foi batizado no Jordão, o Espírito Santo desceu, pousou sobre Ele com uma aparência corporal de uma pomba, e João Batista reconheceu que Ele era o Cristo, o “Cordeiro de Deus”, vindo para tirar o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

No texto do Evangelho, São Marcos escreveu: “Enquanto saiu da água viu que os céus se abriam e que o Espírito, em forma de pomba, descia sobre ele. E ouviu uma voz que vinha dos céus: ‘Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo’” (v. 11). Este trecho que a liturgia da Palavra nos propõe é uma síntese curta daquilo que o precursor João Batista anunciava: ele proclamava a vinda de alguém do qual não se sentia digno sequer de desatar as correias das suas sandálias. João Batista tinha consciência da sua missão, mas, diante de Jesus, sentia ser menor do que um servo (v. 7-8). Segundo o relato apresentado pelo evangelista São Marcos, vemos que “os céus se abriram” (v. 11). Esta informação indica que, com o início da vida pública de Jesus, ocorreu a reconciliação entre o céu e a terra, entre Deus e os homens. A imagem da pomba, também presente no texto, evoca o acontecimento ocorrido no tempo do dilúvio (cf. Gn 7), quando também o céu estava fechado e havia inimizade entre Deus e os homens. A pomba com o ramo de oliveira foi o sinal de que a paz estava restabelecida (cf. Gn 8,11). A figura da pomba como sinal do Espírito Santo nos faz lembrar que, em Israel, a pomba tinha o símbolo da doçura e do amor. Este é o estilo com o qual Jesus se aproxima do homem pecador e afastado de Deus; não é como uma águia, mas com o estilo suave de uma pomba.

Outro detalhe que nos chama a atenção é que no Antigo Testamento, o povo de Israel, guiado por Josué, teve que atravessar o Rio Jordão antes de entrar na terra prometida (cf. Js 3,11). Jesus é apresentado pelo evangelista São Marcos como o novo Josué, que guia o novo povo de Deus. É também significativo que, em hebraico, o nome de Jesus é o mesmo que Josué. Após atravessar o do Rio Jordão, Josué foi inundado pelo Espírito de Deus para poder cumprir a difícil tarefa de conduzir para a terra prometida o povo que o acompanhava (cf. Dt 34,9). O mesmo ocorre com Jesus: saindo da água recebe o Espírito Santo, a força de Deus, para conduzir os homens ao caminho da vida (v. 11).

Hoje, também somos convidados a lembrar a importância do batismo que recebemos e a fazer reviver toda a riqueza que ele trouxe para a nossa vida. Ao sermos batizados, também o Senhor Deus, de certo modo, pode repetir para cada um de nós uma palavra semelhante à que disse a Cristo: “Este é o meu filho amado” (v. 11). Como de fato, o batismo nos faz filhos de Deus. Nós somos os filhos adotivos, que, pela graça recebida no batismo, nos tornamos irmãos do Cristo e participantes da sua divindade, como nos diz o apóstolo São Pedro (cf. 2Pd 1,4). E como diz São João no prólogo do seu Evangelho: “A todos os que o receberam, deu o poder se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12).

O Batismo expressa e realiza o mistério do novo nascimento à vida divina em Cristo: os pais levam seus filhos à fonte batismal, representação do âmago da Igreja, de cujas águas abençoadas são gerados os filhos de Deus. O dom recebido pelos recém-nascidos exige que seja acolhido por eles, uma vez que se façam adultos, de maneira livre e responsável: este processo de amadurecimento os levará depois a receber o sacramento da Confirmação, que precisamente confirmará o Batismo e lhes conferirá o “selo” do Espírito Santo.

Esta celebração de hoje é uma oportunidade propícia para que todos os cristãos redescubram a alegria e a beleza de seu Batismo que, vivido com fé, é uma realidade sempre atual: renova em nós continuamente a imagem do homem novo, na santidade dos pensamentos e das ações. O Batismo, também une os cristãos de toda confissão. Enquanto batizados, todos somos filhos de Deus em Cristo Jesus, nosso Mestre e Senhor.

O batismo é essencialmente isto: o dom da vida dado ao homem pelos méritos de Cristo, o fundamento de toda a vida cristã e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão (cf. CIgC, n. 1213). Este sacramento tem o nome de batismo por causa do rito central com que se realiza: batizar (baptizeis, em grego) significa “mergulhar, imergir”. A imersão na água simboliza a sepultura do catecúmeno na morte de Cristo, de onde sai pela ressurreição com Ele como uma nova criatura (cf. 2Cor 5,17; Gl 6,15). Também este sacramento é chamado de chamado “banho da regeneração e da renovação no Espírito Santo” (Tt 3,5), porque significa e realiza aquele nascimento da água e do Espírito, sem o qual “ninguém pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

Jesus começa a sua vida pública depois de Se ter feito batizar por São João Baptista no Rio Jordão. E, depois da sua ressurreição, confere esta missão aos Apóstolos: “Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações; batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinai-os a cumprir tudo quanto vos mandei” (Mt 28,19-20). Cristo sujeitou-se voluntariamente ao Batismo de São João, destinado aos pecadores, como sinal do seu “aniquilamento” (cf. CIgC, n. 1224). E, desde o dia de Pentecostes que a Igreja vem celebrando e administrando o santo Batismo. Com efeito, São Pedro declara à multidão, abalada pela sua pregação: “Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo” (At 2,38).

Os Apóstolos e os seus colaboradores oferecem o Batismo a quem quer que acredite em Jesus: judeus, pessoas tementes a Deus, pagãos etc. O Batismo aparece sempre ligado à fé: “Acredita no Senhor Jesus e serás salvo juntamente com a tua família”, declara São Paulo ao seu carcereiro em Filipos. E a narrativa continua: “O carcereiro logo recebeu o Batismo, juntamente com todos os seus” (At 16,31-33).

O Batismo não somente purifica de todos os pecados, como faz também do neófito uma nova criatura, um filho adotivo de Deus, tornado participante da natureza divina, membro de Cristo e templo do Espírito Santo (cf. CIgC, 1265).

Peçamos uma vez mais a Virgem de Nazaré que interceda por nós e nos ajude a compreender cada vez mais o dom do Batismo, para que possamos vivê-lo com coerência nas situações de cada dia. Assim seja.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR

Mt 2,1-12

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade da Epifania do Senhor, o mistério da manifestação do Senhor a todas as nações, representadas pelos Magos, conhecidos, segundo a tradição, com os nomes de Melchior, Gaspar e Baltasar. Eles vieram do Oriente para adorar o Rei dos Judeus (cf. Mt 2,1-2). O Evangelista São Mateus, que narra o acontecimento, ressalta como eles chegaram a Jerusalém seguindo uma estrela, vista surgir e interpretada como sinal do nascimento do Rei anunciado pelos profetas, isto é, o Messias. Mas, tendo chegado a Jerusalém, os Magos precisaram das indicações dos sacerdotes e dos escribas para conhecer exatamente o lugar aonde ir, isto é, Belém, a cidade de David (cf. Mt 2,5-6; Mq 5,1). A estrela e a Sagrada Escritura foram as duas luzes que guiaram o caminho dos Magos, os quais são para nós modelos dos autênticos pesquisadores da verdade.

O itinerário seguido pelos Magos reflete a caminhada que os pagãos percorreram para encontrar Jesus. Atentos aos sinais da estrela, percebem que Jesus é a luz que traz a salvação, põem-se decididamente a caminho para O encontrar. Chama a nossa atenção neste evangelho a disposição dos Magos: eles viram a estrela, deixaram tudo, arriscaram tudo e partiram à procura de Jesus. Neste sentido, podemos dizer que os Magos representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo.

Não podemos deixar de prestar uma atenção particular ao símbolo da estrela, tão importante na narração evangélica (cf. Mt 2,1-12). Esses Magos eram provavelmente astrônomos, tinham observado o surgir de um novo astro, e tinham interpretado este fenômeno celeste como anúncio do nascimento de um rei, precisamente, segundo as Sagradas Escrituras, do rei dos Judeus (cf. Nm 24,17), e puseram-se a caminho. Na realidade, esta luz de Cristo se manifestou na inteligência e no coração dos Magos. “Eles partiram” (Mt 2, 9), narra o evangelista, lançando-se corajosamente por estradas desconhecidas e empreendendo uma longa e difícil viagem.

Neste caminho são guiados por uma luz. A primeira leitura já anuncia a chegada da luz salvadora de Deus, que transfigurará Jerusalém e que atrairá à cidade de Deus povos de todo o mundo. O apóstolo João escreve na sua Primeira Carta: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Jo 1,5); e mais adiante acrescenta: “Deus é amor”. A luz, que surgiu no Natal, que hoje se manifesta aos povos, é o amor de Deus, revelado na Pessoa do Verbo encarnado. Portanto, os Magos do Oriente são atraídos por esta luz. A adoração de Jesus por parte dos Magos é reconhecida como cumprimento das Escrituras proféticas, como podemos ler no Livro do Profeta Isaías: “À tua luz caminharão os povos e os reis andarão ao brilho do teu esplendor… trazendo ouro e incenso, e anunciando os louvores ao Senhor” (Is 60,3.6).

Cristo é a luz que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Cumprindo o projeto redentor que o Pai nos quer oferecer. Essa “luz” encarnou na nossa história, iluminou os caminhos dos homens, conduziu-os ao encontro da salvação, da vida definitiva. O evangelista São Lucas também faz uma reverência a Cristo como luz: “Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo” (Lc 2,32), como, inspirado por Deus, exclamará Simeão tendo o menino entre os braços, quando os pais o apresentaram no templo. Cristo é a luz que ilumina os povos e que provém da glória de Israel (cf. Lc 2,4).

Lemos ainda no Evangelho que “a estrela, caminhava à frente deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou”. Chegando a Belém, os Magos “ao entrar na casa, viram o menino com Maria sua mãe, e prostrando-se o adoraram” (Mt 2,11). A criança que eles descobrem não é uma criança como as outras: é rei, então oferecem-lhe ouro; é Deus, então queimam incenso; passará pela morte antes de ressuscitar, então apresentam a mirra. Os dons que os Magos oferecem ao Messias simbolizam a verdadeira adoração. Mediante o ouro eles realçam a realeza divina; com o incenso confessam-no como sacerdote da nova Aliança; oferecendo a mirra reconhecem que Jesus derramará o próprio sangue para reconciliar a humanidade com o Pai.

É este o ápice de todo o itinerário: o encontro se faz adoração, conduz a um ato de fé e de amor que reconhece em Jesus, nascido de Maria, o Filho de Deus feito homem. Da adoração dos Magos fazem parte os presentes, como sinal de doação: ouro, incenso e mirra; oferendas que se faziam a um Rei considerado divino.

Uma vida frágil que necessita dos cuidados de uma mãe desperta nos magos a admiração. Eles prostram-se e adoram o Menino Jesus. Aqueles que conheciam bem a Palavra de Deus, sabiam interpretá-la, sabem também ler as estrelas e são capazes de ver mais além das aparências. E o que eles percebem nesse Menino é tão profundo que caem prostrados, tiram seus tesouros, esvaziam-se e enchem-se da nova Luz descoberta. Os Magos adoraram um simples Menino nos braços de Maria porque reconheceram Nele a fonte da dupla luz que os tinha guiado: a luz da estrela e a luz da Palavra de Deus. Reconheceram o Cristo recém-nascido como o Rei dos Judeus, mas também o Rei de todas as nações.

O Evangelho esclarece que, depois de ter encontrado Cristo, os Magos regressaram ao seu país “por outro caminho”. Esta mudança de caminho pode simbolizar a conversão daqueles que encontraram Jesus. Quando se encontra Cristo e se acolhe o seu Evangelho, a vida muda e somos estimulados a comunicar aos outros a própria experiência. Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para dar realce à sua descoberta. Mas eles escolheram o Menino como seu soberano e foram transformados pelo encontro com a Verdade; descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza: a do amor. O caminho exterior daqueles homens tinha terminado. Tinham chegado à meta. Mas a este ponto, começa para eles um novo caminho, uma peregrinação interior que altera toda a sua vida. Cristo também nos convida a esta peregrinação interior.

Os Magos que vieram do Oriente são apenas os primeiros de uma longa procissão de homens e mulheres que na sua vida procuraram constantemente com o olhar a estrela de Deus, que procuraram aquele Deus que está perto de nós, seres humanos, e nos indica o caminho. É a grande multidão de santos, mediante os quais o Senhor, ao longo da história, abriu diante de nós o Evangelho e folheou as suas páginas; ainda hoje Ele continua a fazer isto.

A vida dos santos revela a riqueza do Evangelho. Eles são o rastro luminoso de Deus que Ele mesmo traçou e continua a traçar ao longo da história. O segredo da santidade é a amizade com Cristo e a adesão fiel à sua vontade. Santo Ambrósio dizia: “Cristo é tudo para nós” (S. AMBRÓSIO, De virginitate 16, 99). E São Bento exorta aos seus monges: “Nada antepor ao amor de Cristo” (RB 4,21). São Bento indica com isto que devemos dar sempre prioridade a Cristo, que não podemos colocar nada, nem ninguém em seu lugar. A palavra “antepor” significa colocar algo entre mim e Cristo, construir um muro, uma separação. O amor de Cristo deveria ser nossa meta e nosso caminho, nossa certeza e nossa busca, nosso conforto. Este “nada antepor”, significa que devemos priorizar sempre a companhia de Cristo. Quando nada colocamos no seu lugar, aí sim, nada antepomos ao seu amor.

Possamos também nós imitar os Magos e colocarmo-nos a caminho do Senhor. Saibamos percorrer com decisão o caminho do bem. E assim como a estrela esteve a serviço dos Magos, possamos também nós estar a serviço dos nossos irmãos, indicando a eles o Cristo Senhor. Também como a estrela, devemos resplandecer como filhos da luz, para atrair a todos à presença do Salvador que nasceu para nos trazer uma vida nova. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

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