I DOMINGO DO ADVENTO – UM APELO A VIGILÂNCIA | ANO A

Mt 24,37-44

Meus caros irmãos e irmãs,

Com a celebração do primeiro domingo de advento, iniciamos um novo ano litúrgico, para o qual a Igreja nos propõe como palavra iluminadora o evangelho escrito por São Mateus, onde encontramos, para este dia, um apelo veemente à vigilância. O cristão é chamado a caminhar sempre atento e sempre vigilante, preparado para acolher o Senhor que vem e para responder aos seus desafios.

Quatro domingos que precedem o nascimento de Jesus são chamados domingos do advento. Embora o Natal seja a festa mais alegre do ano litúrgico, com os toques de sino e do glória cantado pelos anjos aos pastores que pernoitavam nos arredores de Belém, tem sua preparação pelo advento bem diferente, pois trata-se de um tempo de penitência, visando preparar o nosso coração para ser uma manjedoura de Jesus.

O advento é um tempo de penitência em que não se reza o glória na missa e até se evita excesso de enfeites nos altares nesta época. Para que a conversão possa acontecer e venha a atingir as camadas mais profundas da alma, a Igreja nos convida a uma vigilância constante. Mas é também um tempo de espera, de preparação e de chegada. Esperar alguém requer uma cuidadosa e alegre preparação, mas também requer vigilância.

A palavra advento quer dizer “vinda” ou “chegada”. É o tempo da expectativa da chegada de Cristo no Natal. E, sob esta influência é também uma preparação para a última chegada de Cristo, a sua vinda escatológica na parusia, ou seja, na plenitude dos tempos, no qual não sabemos nem o dia e nem a hora. Esse olhar para o fim dos tempos é o tema da primeira parte do advento, que vai do primeiro domingo até o dia 16 de dezembro. A partir do dia 17 até o Natal é propriamente a preparação para a chegada de Jesus no Natal.

A liturgia da palavra para este domingo nos mostra a atitude interior que devemos ter para esperar o Senhor que vem. O evangelho faz uma alusão à Arca de Noé e apresenta alguns símbolos que enfatizam aqueles que souberam esperar. As imagens tocantes do evangelho nos levam a pensar se Deus não estaria sendo injusto “um tomado e outro deixado”. As pessoas parecem estar fazendo a mesma coisa.

Inicialmente encontramos no texto a imagem das duas mulheres que estão a moer e dos dois homens que estão a trabalhar no campo, apresentam-se como uma grande interrogação para a consciência cristã. Primeiramente, porque o texto sagrado nos mostra que o juízo de Deus tem em si uma certa dimensão de surpresa. Só Deus conhece os pensamentos mais íntimos. O que externamente não aparece. Podemos enganar os outros, mas não a Deus.

A parábola ainda toma como termo de comparação o ladrão que pode chegar em horário inesperado. Uma comparação que aparece também em outros escritos do Novo Testamento (cf. 1Ts 5,2-4; 2Pd 3,10). O texto é apresentado visando mostrar que o discípulo de Jesus deve ser como o dono de uma casa, sempre vigilante para impedir a entrada de ladrões em sua residência. E como ele não sabe a hora exata em que o ladrão virá, deverá sempre estar em estado de alerta (v. 43). O homem preocupado demais com o viver e se satisfazer com o presente, esquece muitas vezes a dimensão futura da vida. A vinda do Cristo é certa, mas o momento exato dessa vinda é incerto, por isso a atitude do cristão é a abertura e a vigilância.

Enquanto o evangelho insiste em uma vigilância incansável, e uma prontidão constante em face à vinda do Senhor, a história e a experiência cotidiana nos ensinam que o Senhor não tem pressa para vir, mas chegará de modo inesperado, como o dilúvio no dias de Noé (v. 37). Os conterrâneos de Noé viviam despreocupados, mas o julgamento divino os surpreendeu. O texto evangélico começa com uma comparação de caráter geral: “Como foi nos dias de Noé, assim… a parusia do Filho do Homem” (v. 17). E a maioria das pessoas não se preparam para esta vinda. O mesmo texto também faz uma outra comparação com a descrição mais pormenorizada do procedimento despreocupado dos habitantes de Sodoma (v. 39).

A intenção do evangelista São Mateus é acordar a comunidade cristã para a vinda do Senhor e a convida a abrir os olhos para descobrir o agir de Deus no cotidiano da vida: “trabalhando no campo”, “moendo no moinho”. Dessa forma, estando vigilantes, não serão surpreendidos e serão capazes de estar atentos, vigilantes para descobrir os apelos que Deus nos faz a cada dia, e saber responder estes apelos com prontidão e alegria.

Os acontecimentos são postos para exigir a vigilância que cada um deve ter, vigilância que deve subsistir até nas horas tardias da madrugada em que os ladrões podem atacar. O que se pretende lembrar é que cada um deve estar com as suas contas acertadas com Deus na hora em que Ele vier.

A questão fundamental é, portanto, esta: o crente ideal é aquele que está sempre vigilante, atento, preparado, para acolher o Senhor que vem. Não perde oportunidades, porque não se deixa distrair com os bens deste mundo, não vive obcecado com os prazeres deste mundo e não faz deles a sua prioridade fundamental, mas, dia a dia, cumpre o papel que Deus lhe confiou, com empenho e com responsabilidade.

A vigilância está unida à ideia de estar acordado, atento e pronto para agir, seja para construir uma obra boa, seja para combater uma obra má. Trata-se de um esforço pessoal em “caminhar na luz do Senhor”, como nos recorda o Profeta Isaías na primeira leitura (cf. Is 2,5), ou como lembra São Paulo na segunda leitura (cf. Rm 13,11-14), com a nossa coragem de deixar as obras das trevas e praticar as obras de luz.

A coroa do Advento, feita com ramos verdes, enfeitada com fitas coloridas e quatro velas que, progressivamente, vão sendo acesas, retoma o costume judaico de celebrar a vinda da luz na humanidade dispersa pelos quatro pontos cardeais. Nos quatro domingos do Advento as velas acesas nos convidam a uma atitude crescente de vigilância e de abertura ao Senhor que sempre vem, marcam o ritmo de espera deste tempo: “É preciso estar sempre acordados e com lâmpadas acesas!”.

A expectativa pela vinda do Senhor é uma dimensão que atravessa toda a nossa existência pessoal, familiar e social. A espera está presente em muitas situações, desde as mais simples, até às mais importantes que, de certa maneira, nos faz empenhar para bem receber o nosso Salvador. Podemos dizer que o homem está vivo enquanto espera, enquanto no seu coração estiver viva a esperança. É das suas expectativas que o homem se reconhece a partir daquilo que o aguarda e daquilo em que ele espera.

Em cada celebração, neste tempo que antecede o Natal, somos convidados a proclamar profeticamente que o Senhor está chegando como o Salvador. Que ele possa nos encontrar atentos e devidamente preparamos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXXIV – DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo

Lc 23,35-43

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste último domingo do tempo litúrgico a solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, estabelecida no calendário litúrgico pelo Papa Pio XI, no ano de 1925, como resposta aos regimes políticos ateus e totalitários que negavam os diretos de Deus e da Igreja. Esta solenidade nasceu com o objetivo de responder às correntes que se opunham aos valores cristãos. Cristo é o rei do universo e deve reinar no mundo e no coração dos homens. Seu reino é um reino de justiça, de paz e de amor.

As origens do reconhecimento do reinado de Cristo se encontram no próprio evangelho. Cristo não reina de acordo com categorias humanas e ele mesmo esclarece que o seu reinado não é deste mundo. A Cristo pertence o Reino de Deus. Em um diálogo com Jesus diante do tribunal, Pilatos pergunta: “Tu és Rei?”. Diante deste questionamento Jesus responde: “Tu o dizes, eu sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta minha voz” (Jo 18,37).

Quando alguém era condenado, no alto da cruz fixavam uma inscrição declarando o crime cometido. No caminho, essa inscrição era levada, de maneira visível, por um soldado, ou o condenado o trazia pendurada ao pescoço. Jesus recebeu a seguinte inscrição: ‘Este é o Rei dos Judeus”. Esta inscrição foi redigida em três línguas: grego, latim e hebraico. Hebraico, por ser a língua dos judeus. Latim, o idioma oficial do Império Romano. Grego, porque era popular, muito conhecido e falado em toda a região.

Tudo isto está pensando a Igreja ao celebrar a solenidade de Cristo, Rei do Universo. Ela não está pensando em cetros e coroas. Está pensando no profundo sentido espiritual e teológico que tem o Reino de Cristo, segundo a palavra que Ele mesmo disse ao governador romano: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36).

Na leitura do evangelho que a Igreja nos convida a refletir neste dia, temos a figura do bom ladrão que a tradição identifica como São Dimas. Ele se encontra também na cruz, ao lado de Jesus, presenciando a sua morte e testemunhando todos os acontecimentos. Na verdade, junto a Jesus estavam dois malfeitores, um se converte e se salva, sabe aproveitar a companhia de Jesus, o outro, não.

O mau ladrão, do mesmo modo, estava junto de Jesus na cruz, no entanto, não soube aproveitar este momento. Já o bom ladrão, ao contrário reconhece a sua inocência e faz uma alusão à sua realeza ao dirigir a Ele estas palavras: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado” (v. 42). Ele faz isto em um espírito de fé e obtém do Cristo uma resposta: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (v. 43).

O bom ladrão recebe o paraíso por causa desta fé, como muitos outros personagens da Sagrada Escritura, que também receberam a cura pela fé (cf. Lc 18,42). Somente o bom ladrão atinge o mistério profundo de Jesus. Precisamente um bandido é o único que entende algo do que está acontecendo. Ele reprova a atitude do seu companheiro, e reconhece que o Cristo foi condenado injustamente, para finalmente lhe suplicar com humildade: “Jesus, lembra-te de mim quando chegares em teu reino” (v. 42).

E Jesus, que até então estava calado e não havia respondido aos que zombavam dele, abriu os lábios para falar ao bom ladrão: “Em verdade vos digo: hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (v. 43). Assim foi ele o primeiro beneficiário da salvação trazida ao homem pela cruz de Cristo.

Até o momento de sua morte vemos o que foi a constante da vida do Cristo Senhor: sua preferência pelos pecadores, como bem ressalta os evangelhos: Ele acolhe os pecadores (Lc 15,2). A promessa que o Senhor faz ao bom ladrão revela esta vitória e é garantia de nossa esperança cristã. O “hoje estarás comigo” é o “hoje” perene da salvação, o hoje que inicia a escatologia, isto é, o presente e o futuro da nova criação e da nova humanidade dos redimidos. Uma vez vencida a morte, esperamos estar com o Senhor no paraíso, isto é, na vida eterna que a cruz gloriosa de Cristo, Rei e Senhor da vida, anuncia.

O título que para muitos foi motivo de escândalo e de injúrias, será a salvação do bom ladrão, em quem a fé lançou raízes, quando mais oculta parecia a divindade do Salvador. Com isto percebemos
também o valor da oração. Na prece curta do bom ladrão ele pede apenas para que Cristo possa lembrar dele, mas ouve a resposta: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (v. 43). A vida consiste em habitar com Jesus Cristo, e onde está Jesus Cristo ali está o Reino. Possamos dizer como disse na cruz o bom ladrão: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino”(Lc 23,42).

Chama ainda a nossa atenção a frase: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. Foi decisivo este “comigo”, pronunciada por Jesus. Observamos que bom ladrão está na cruz “como” Jesus, mas, sobretudo, está na cruz “com” Jesus. E, contrariamente ao outro malfeitor e a todos os demais que o ridicularizam, não pede a Jesus que desça da cruz, nem que o faça descer, mas, ao contrário, diz: “Lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (v. 42).

O bom ladrão vê Jesus na cruz desfigurado, irreconhecível e, no entanto, pela fé, o vê como a um rei e deposita nele a sua confiança. O bom ladrão acredita naquilo que está escrito no letreiro acima da cabeça de Jesus: “Rei dos judeus”. Ele crê e confia. Por isso, já se encontra no “hoje” de Deus, no Paraíso, porque o Paraíso consiste nisto: estar com Jesus, estar com Deus.

Nesta passagem, observa-se que o futuro é antecipado para o presente, quando Jesus promete ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43). A acusação: “Este é o Rei dos Judeus”, escrita numa tábua pregada no alto da cruz, torna-se assim a proclamação da verdade, o que deve sempre constituir para nós um convite a recordar de que Rei somos servos, sobre qual trono ele foi elevado e como foi Ele fiel até ao fim, para vencer o pecado e a morte com a força da misericórdia divina.

A exemplo do bom ladrão, todos nós, que carregamos nossas cruzes, esperamos um dia ouvir as palavras do Rei, que tem a cruz como trono: “Em verdade vos digo, hoje mesmo estarás comigo no meu Reino” (v. 43).

Nesta perspectiva, a pergunta importante que devemos fazer na solenidade de Cristo Rei é se Ele reina dentro de mim e se a sua realeza é reconhecida e vivida por mim. E nós, que cremos que Jesus retornará como Rei da Glória e que o seu reino não terá fim, peçamos a ele que nos faça repetir como o bom ladrão no alto da cruz: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino” (v. 42). Esta deve ser a nossa oração quotidiana, para que o Cristo Senhor venha reinar em cada um de nós.

Peçamos também a Virgem Maria, a quem Deus associou de modo singular à realeza do seu Filho, nos conceda acolhê-lo como Senhor da nossa vida e a ela, também invocada pelo povo cristão como Rainha e advogada nossa, que ela possa interceder sempre por nós, para que possamos seguir cotidianamente Jesus, o nosso Rei, como ela fez, e que possamos todos os dias pedir a Ele: “Venha a nós o vosso Reino”. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS – AS BEM-AVENTURANÇAS

Mt 5,1-12

Caros irmãos e irmãs

Iniciamos o mês de novembro com a solenidade de Todos os Santos. O nosso coração e o nosso pensamento se voltam para muitos homens e mulheres que souberam viver uma profunda unidade com Deus. É um dia em que recordamos não apenas os santos canonizados, muitos deles já têm a sua festa própria ao longo do ano, mas, sobretudo, os santos anônimos e desconhecidos. Abrange todos aqueles que foram justificados pela fé em Cristo. Recordamos aqueles que vivem para sempre diante de Deus.

Como leitura evangélica, temos o texto das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), visando ressaltar que a sua vivência total é o melhor caminho para se chegar à santidade. A prática das bem-aventuranças é a marca e o selo dos santos descrita por Jesus, para sublinhar a dinâmica da santidade. Esta é a meta espiritual, à qual todos os batizados estão chamados a alcançar, seguindo o caminho das bem-aventuranças traçadas por Jesus e que a liturgia nos indica como leitura para a solenidade de hoje.

É o mesmo caminho traçado por Jesus e que os santos se esforçaram em percorrer. Em sua existência terrena, de fato, foram misericordiosos, puros de coração, trabalhadores pela paz, perseguidos pela justiça. E Deus os fez partícipes de sua própria felicidade: Agora são consolados, herdeiros da terra, saciados, em síntese: “deles é o Reino dos Céus” (cf. Mt 5, 3.10).

Todos os santos sempre foram e são contemporaneamente, embora em medida diversa, pobres de espírito, mansos, aflitos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz e perseguidos pela causa do Evangelho. E assim devemos ser também nós. Além disso, na base desta página evangélica é evidente que a bem-aventurança cristã, como sinônimo de santidade, não está separada de um eventual sofrimento ou pelo menos de dificuldade.

Portanto, santos são os pobres em espírito, cujo coração está centrado em Deus. Pobres de espírito são os humildes, os que têm coração desapegados dos bens terrenos. Para isso, não é necessário ter nada, mas é preciso usar o que se tem conforme o espírito do Evangelho. A verdadeira riqueza não consiste nos tesouros desta terra, mas na graça, na virtude, nos merecimentos e na amizade com Deus.

Santos são os mansos, que por não responderem à violência com violência, herdarão um bem inalcançável pelos violentos. Os mansos são aqueles que, conformados com a vontade de Deus, suportam com paciência as adversidades desta vida. São aqueles que usam de mansidão, que tratam o próximo com bondade, tolerando pacientemente suas impertinências, sem queixas ou atitudes de vingança.

Santos são os aflitos, que são impotentes diante de situações dramáticas, e não pretendem ter solução para tudo. Há muitos que não entendem a razão dos sofrimentos e se revoltam contra Deus. Jesus diz que os aflitos são felizes. De fato, se souberem aceitar com resignação as provas que Deus envia, se souberem sofrer com ânimo as misérias e dificuldades da vida, a recompensa será a consolação de Deus.

Santos são os famintos e sedentos de justiça, que não pactuam com a maldade, nem se deixam levar pela lógica da dominação. Deus mesmo haverá de realizar seu ideal e fazê-los contemplar o reino da justiça. Trata-se daquela justiça interior que torna o homem agradável a Deus, quando se esforça por cumprir sempre a vontade de Deus. O primeiro passo para conseguir a santidade é desejá-la. Por isso, Jesus diz que são felizes os que têm fome e sede de justiça, isto é, aqueles que realmente desejam ser santos. Mas é necessário que este desejo seja eficaz. Isto é, que empreguemos os meios necessários para consegui-lo.

Santos são os misericordiosos, cujo destino consistirá em viver a comunhão definitiva com o Deus, que também é misericórdia. Os misericordiosos são, de modo geral, aqueles que têm sentimentos de compaixão para com os aflitos e os miseráveis de toda espécie. São misericordiosos os que são caridosos e se compadecem das misérias do próximo e também que perdoam. Quem for misericordioso receberá também a misericórdia divina. E Deus será misericordioso conosco à medida que o formos com nosso próximo.

Santos são os puros de coração, que não agem com segundas intenções nem falsidade, mas sim, com transparência. São os que fogem de todo pecado e praticam a pureza. Ser puro é ter uma alma livre de afetos desordenados e conserva a pureza de coração. Por isso, serão recompensados com a visão de Deus, em todo seu esplendor.

Santos são os promotores da paz, que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, a fim de que o mundo seja mais fraterno. Promover a paz consiste em esquecer as injúrias. A paz, que gera a felicidade, não é aquela que está apenas nos lábios, mas a que repousa no coração. Os promotores da paz serão chamados filhos de Deus.

Santos são também os perseguidos por causa da justiça, os que lutam para fazer valer o projeto de Deus para a humanidade. São eles humilhados, agredidos, marginalizados, por parte daqueles que praticam a injustiça e fomentam a opressão e a morte. Nesta última bem-aventurança, os perseguidos são convidados a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.

Portanto, todos os seres humanos são chamados à santidade que, em última análise, consiste em viver como filhos de Deus, naquela “semelhança” com ele segundo a qual foram criados. Todos os seres humanos são filhos de Deus, e todos devem tornar-se aquilo que são, através do caminho exigente da liberdade. Deus nos convida a fazer parte do seu povo santo. O caminho é Cristo e ninguém chega ao Pai senão por meio dele (cf. Jo 14,6).

As bem-aventuranças traçam o mapa deste caminho. As oito bem-aventuranças são os sinais que indicam a direção a seguir. É um caminho, mas foi o primeiro que Jesus percorreu. E certa ocasião ele disse: “Quem me segue não andará nas trevas” (Jo 8,12). E noutra ocasião acrescentou: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).

Uma das respostas próprias dos fiéis no momento da Oração Eucarística diz: “Caminhamos na estrada de Jesus”. É este o convite que o Senhor hoje nos faz. Os santos caminharam na estrada de Jesus e souberam seguir o Cristo. É por esse caminho que caminhamos para o céu. E é por isso que hoje estão na Casa de Deus para sempre. É um convite solene e luminoso lançado à terra dos homens, para que sigamos o mesmo caminho. Caminhando com Cristo, podemos conquistar a alegria, a alegria verdadeira!

Peçamos a Virgem Maria, aquela que todas as gerações a proclamam de “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48), que ela nos faça caminhar na via da santidade e nos conduza ao seu filho Jesus e saibamos reconhecer que temos necessidade de Deus, da sua misericórdia e do seu perdão, para um dia entrarmos no seu Reino, Reino de justiça, de amor e de paz.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ