III DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Os vendilhões do templo

Jo 2,13-25.

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra nos apresenta como primeira leitura os dez mandamentos, um importante tema para nossa meditação neste tempo quaresmal (cf. Ex 20,1-3.7-8.12-17). Os mandamentos da lei de Deus são normas que sintetizam a vida moral de cada cristão. São preceitos divinos, através dos quais, são construídos o fundamento e o alicerce sobre os quais se formará e erguerá a estrutura equilibrada e firme da vida terrena do homem em relação a Deus, à família, à sociedade, e aos indivíduos de um modo geral.

No conjunto, forma essa lei fundamental que está na consciência de toda a humanidade e que, se faltasse, tornaria impossível uma convivência pacífica e honesta entre os homens. No Monte Sinai esta Lei é transmitida pela autoridade pessoal de Deus. No fim da exposição da Lei, feita por Moisés, o povo se comprometeu a cumpri-la e foram todos aspergidos com o sangue dos novilhos imolados. Era a promulgação da carta nacional e religiosa de um novo povo.

Os dez mandamentos foram prescritos em tábuas de pedra, e foram conservadas na Arca, chamada, por isso mesmo, a “Arca da Aliança”. Jesus atestou a perenidade do Decálogo, que é o conjunto dos dez mandamentos de Deus, pois ele mesmo os praticava e era a base da sua pregação. Fiel às Escrituras e conforme o exemplo de Jesus, a Igreja reconheceu no Decálogo um significado e uma importância primordiais. O Decálogo forma uma unidade orgânica, onde cada mandamento remete a todo o conjunto. Transgredir um mandamento é infringir toda a Lei. Esta Lei é uma instrução paterna de Deus, na qual são apresentados os caminhos para a felicidade e para a harmonia entre as pessoas, com base no respeito mútuo, com a finalidade de gerar uma boa convivência entre as pessoas.

E a Quaresma é o tempo favorável para tudo isto, é o tempo da renovação interior, do perdão dos pecados, um tempo em que somos chamados a reconciliação com Deus e também com o nosso próximo; um tempo de descobrir de novo o Sacramento da Penitência e da Reconciliação, que nos faz passar das trevas do pecado para a luz da graça e da amizade com Jesus. Não podemos esquecer o grande vigor que este Sacramento tem para a vida cristã: ele nos faz crescer na união com Deus, fazendo-nos recuperar a alegria perdida e experimentar a consolação de nos sentirmos acolhidos pessoalmente pelo abraço misericordioso de Deus.

O Evangelho deste terceiro domingo do tempo da quaresma nos mostra Jesus expulsando do templo de Jerusalém os vendedores de animais e os cambistas. É uma das poucas vezes em que o Evangelho nos mostra uma cena onde aparece a cólera de Jesus, motivada pelo desrespeito de muitos pela Casa de Deus. Tínhamos a convicção de que Jesus se mantivesse sempre calmo, manso, tranquilo, mas nessa ocasião ele mostra um aspecto diferente.

Jesus repudiou tudo aquilo energicamente, fazendo até um chicote de cordas para expulsar todos aqueles profanadores dizendo-lhes: “Tirem isso daqui! Não façam da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v. 16). Neste momento alguns judeus perguntaram: “Que sinal nos mostras para agir assim?” (v. 18). Na verdade, o sinal que Jesus dará como prova da sua autoridade será precisamente a sua morte e Ressurreição, quando responde: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19). E o próprio evangelista São João frisa: “Ele falava do templo do seu corpo” (v. 21). Os discípulos bem o reconheceram depois da Ressurreição e creram no que ele havia dito (cf. Jo 2,13-22).

A casa de oração havia sido transformada em uma casa de negócios, um covil de mercadores. Os negociantes estavam vendendo os animais para os sacrifícios prescritos pela Lei do Antigo Testamento. O templo enquanto lugar de oração, de fraternidade e de acolhida, tinha sido transformado em ponto de exploração e enriquecimento ilícito; porque, para alguns, a fé perdera a sua profundidade e os fiéis tinham-se tornado vítima da ganância dos ricos. Nisto consistia a profanação da casa de Deus. O gesto de Jesus é de limpeza, de purificação, e a atitude que Ele repudia pode ser encontrada nos textos proféticos, segundo os quais não é do agrado de Deus o culto exterior, feito de sacrifícios materiais e fundamentado em interesses pessoais (cf. Is 1,11-17; Jr 7,2-11). Este gesto de Jesus é uma exortação ao culto autêntico, à correspondência entre liturgia e vida; uma evocação válida para todas as épocas, e também hoje para nós.

Expulsando os vendedores e os animais (v. 15), Jesus queria dizer que aqueles sacrifícios não tinham mais valor. Os judeus acreditam que Deus habita no templo de Jerusalém e é ali que eles vão para oferecer-lhe sacrifícios. Julgam eles que lhe agradam o perfume do incenso e o sangue das vítimas. Mas Jesus mostra que em breve Deus constituirá para si um novo templo, no qual serão oferecidos sacrifícios que lhe agradam. No diálogo com a Samaritana, Jesus já havia dito: “…chegou a hora na qual nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Os verdadeiros adoradores lhe prestarão culto em espírito e verdade. São estes, em verdade os adoradores que ele quer” (Jo 4,21-24).

Com esta ação da expulsão dos vendilhões, Jesus pretende purificar o templo de tudo aquilo que não condiz com a casa de Deus. Para o evangelista São João o templo já não é mais importante em si mesmo, na sua grandiosidade material; a sua importância está em ser símbolo de Jesus de Nazaré. Por isso, pode até ser destruído em três dias, mas não pode ser manchado. Com a Páscoa de Jesus começa um novo culto, o culto do amor, e um novo templo que é Ele mesmo, Cristo ressuscitado, mediante o qual cada fiel pode adorar Deus Pai “em espírito e verdade” (Jo 4, 23).

A Igreja primitiva durante os primeiros séculos celebrou o culto e a Eucaristia nas casas ou nas catacumbas. Com o passar de algum tempo, mesmo na era dos Apóstolos, se tornou necessário o encontro de algum local comum para as celebrações litúrgicas. Só mais tarde sugiram as Igrejas, as basílicas e as catedrais.

Somos o corpo vivo, o templo vivo, e é o Espírito Santo quem nos dá a vida, quem nos une. A Igreja, templo e corpo, formada por todos os batizados é a manifestação visível da presença do Senhor Ressuscitado. Por isso ela celebra os sacramentos, todos decorrentes da Eucaristia, com a qual somos alimentados e nutridos. É ela, a Igreja, aquela que louva o Senhor com sua liturgia, a esposa sem ruga e sem mancha, que foi purificada pelo próprio esposo, o Cordeiro Imolado.

O Apóstolo São Paulo nos ensina: “Vosso corpo é templo do Espírito Santo; portanto, glorifiquem a Deus com vosso corpo” (1Cor 6,17). Com a vida de Jesus, o Templo de Jerusalém estava para perder seu sentido. O verdadeiro lugar de adoração de Deus é agora o próprio corpo glorificado de Jesus: “O templo reconstruído em três dias” (v. 19). Jesus é o centro do culto em espírito e verdade. Jesus ressuscitado é o templo do novo culto. Toda oração e toda oferenda a Deus devem ser feitas, a partir de então, em Cristo Jesus, para que sejam um culto espiritual vivo, santo e agradável a Deus (cf. Rm 12,1).

Saibamos também nós, enquanto membros de Cristo, ter para com a casa de Deus o mesmo zelo que Jesus demonstrou ter. Que o Senhor nos faça percorrer este tempo quaresmal seguindo um itinerário de conversão e de penitência, para podermos eliminar da nossa vida todo o pecado, purificando assim o nosso corpo que é templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,17). Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DA QUARESMA – B – transfiguração de Jesus

Mc 9,2-10

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo do tempo quaresmal, a Liturgia da Palavra nos apresenta como primeira leitura um texto tirado do Livro do Gênesis (cf. Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18), onde nos mostra Abraão conduzindo seu filho Isaac para o sacrifício. A figura de Abraão se caracteriza como o exemplo do homem que vive numa constante escuta de Deus, portador de uma fé sólida e inabalável, sendo conhecido como o pai de todos os crentes; o nosso pai na fé.

Segundo o Livro do Gênesis, que compõe o Pentateuco do Antigo Testamento, Deus pede a Abraão: “Sai da tua terra, deixa seus parentes e a casa de seu pai para ir para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12,1-4). Em obediência à ordem do Senhor, Abraão deixa tudo, renuncia a tudo: pátria, família, estabilidade e confia apenas em Deus, pois ele tem consciência que só Deus governa a sua vida. Nesta terra, os seus descendentes formariam uma grande nação e herdariam uma terra “onde corre leite e mel” (Gn 12,7).

Abraão acredita, mesmo sabendo que a esposa Sara é estéril e ele já tem 75 anos para o tempo da promessa. Mas mesmo passando vinte e quatro anos, após receber ele esta promessa, ocorre a visita do Senhor à sua tenda. No final da visita, Abraão ouve: “Em um ano, a esta época, voltarei à tua casa e Sara terá um filho” (cf. Gn 18,14). E, como para Deus nada é impossível, assim aconteceu: o nascimento de Isaac, filho de um homem de 100 anos e uma mulher estéril de 90, e através de quem Abraão será o pai de um grande povo, o pai de todos os crentes.

Sendo o povo escolhido de Deus, os hebreus conquistariam a terra prometida de Canaã, uma terra de fartura, em comparação com as que Abraão deixara para trás. Foi assim que Abraão foi para Canaã, passando a ser o fundador da nação hebraica. Canaã era a terra prometida por Deus ao seu povo, desde o chamado de Abraão, que habitava a cidade caldeia de Ur, no sul da Mesopotâmia. Foram 24 anos de uma longa espera.

Isaac, este filho da promessa de Deus, começa a crescer, mas o Senhor intervém novamente para fazer um novo pedido a Abraão: Oferecer Isaac em sacrifício (cf. Gn 22, 1-2-9-18). Deus retorna para exigir de Abraão aquilo que lhe fora concedido como graça e sinal do cumprimento de uma promessa: Isaac deve ser sacrificado. Mesmo diante deste pedido, Abraão é pronto na obediência, sem nenhum questionamento. Ele sobe ao monte para cumprir os requisitos mais difíceis do Senhor: sacrificar o seu próprio filho.

Abraão encontra-se diante da perspectiva de uma ação que para ele, pai, é certamente, a maior e mais difícil. Abraão obedece e se dirige para o Monte Moriá com seu filho Isaac que, sem o saber, leva a lenha para seu próprio holocausto. Deus parece romper sua palavra e fecha para Abraão toda a esperança para o futuro. Abraão constrói um altar, coloca a lenha e, depois de amarrar o jovem, pega na faca para o imolar. Abraão confia totalmente em Deus, a ponto de estar disposto até a sacrificar o próprio filho e, com o filho, o futuro, porque sem o seu filho, a promessa da terra prometida não se realiza. É realmente um gesto de fé extremamente radical.

Mas, no momento decisivo o anjo do Senhor detém o braço de Abraão, e um carneiro substitui o filho no sacrifício (cf. Gn 22,13). Neste momento Abraão é detido por uma ordem do alto: Deus não quer a morte, mas a vida, o verdadeiro sacrifício não proporciona a morte, mas é a vida e a obediência de Abraão que se torna fonte de uma bênção imensa, que se concretizará ao longo dos anos seguintes. Em vista de sua comprovada fidelidade – Deus renova com Abraão sua promessa: descendência numerosa, terra em possessão e bênção para seu povo e a todas as nações da terra.

O texto evangélico nos apresenta o relato da Transfiguração de Jesus no Monte Tabor. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos, e para os crentes, em geral, pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que ele é o Filho amado de Deus. Na narração da Transfiguração de Jesus vamos encontrar alguns elementos que normalmente acompanham as manifestações de Deus, e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento: o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem, o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino.

É sempre em um monte que Deus se revela; e, em especial, é no alto de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo. A mudança do rosto e as vestes brancas e brilhantes recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Monte Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei. O monte é o lugar de encontro com Deus: Moisés e Elias encontram Deus no Monte Horeb. A Sagrada Escritura nos diz que Jesus, por várias vezes, se retira para o monte, a fim de estar com Deus em oração.

A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22). Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas; além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18). O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer pessoa, diante da manifestação da grandeza, da onipotência e da majestade de Deus (cf. Ex 19,16).

A mensagem fundamental, presente em todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus: o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias Salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (representada por Moisés) e pelos Profetas (representados por Elias). Jesus é um novo Moisés, isto é, aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova Aliança.

O desejo manifestado por Pedro de construir três tendas no alto do monte, pode significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus. O simples fato de ver, mesmo só por um instante, a humanidade de Cristo transfigurada na companhia de Moisés e Elias, cheio de entusiasmo, deseja retê-los: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (v.5). Não deixa de ser a manifestação, nestas suas palavras, de um testemunho de um sentimento sincero.

Mas, logo em seguida, parece surgir uma resposta do próprio Deus a Pedro e aos demais discípulos que ali estavam: “Este é meu Filho amado, escutai-o” (v. 7). Deus toma a palavra, pede para que reconheçam Jesus como seu Filho amado, e pede para O escutar. O Evangelho é o lugar no qual Jesus fala-nos hoje: “Quem a vós escuta, a mim escuta” (Lc 10, 16). Com essa palavra: “Escutai-o!”, indica que em Cristo temos toda resposta. Mas na Transfiguração ele também queria mostrar sua divindade a três de seus Apóstolos, depois de ter anunciado aos doze sua já próxima Paixão e Morte. Quis o Senhor com sua Transfiguração no Monte Tabor incentivá-los, fortalecê-los e prepará-los para o que, em seguida, aconteceria no Monte Calvário.

Como os três Apóstolos do Evangelho, também nós temos necessidade de subir ao Monte da Transfiguração para recebermos a luz de Deus, e para que a sua face ilumine o nosso rosto e nos faça crescer na fé e na oração. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

I DOMINGO DA QUARESMA – B – Jesus sendo tentado por satanás do deserto

Mc 1,12-15

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com a imposição das cinzas, iniciou o tempo da quaresma que compreende um itinerário de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo Pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor. É um tempo de conversão, isto é, de mudança interior, de arrependimento. O tempo da Quaresma é o momento propício para renovar e tornar mais sólida a nossa relação com Deus, através da oração quotidiana, dos gestos de penitência e das obras de caridade fraterna.

Neste tempo, a Igreja nos chama novamente à conversão, que significa também um convite para transformar a nossa mentalidade e o nosso comportamento, assumir uma nova atitude e reformular os valores que orientam a nossa vida. E o tempo quaresmal também nos impele a confiar na misericórdia transformadora de Deus: “Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete” (Jl 2,13).

O Evangelista São Marcos, que nos acompanha ao longo deste ano litúrgico, nos apresenta o texto evangélico onde narra o episódio da tentação de Jesus no deserto: “O Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (Mc 1,12-13). Esta narração de São Marcos é concisa, desprovida dos pormenores que lemos nos outros dois Evangelhos, de São Mateus e São Lucas.

Em conformidade com a teologia de Israel, o deserto é um lugar privilegiado de encontro com Deus; foi no deserto que o Povo experimentou o amor e a solicitude do Senhor, e foi no deserto que o Senhor Deus propôs a Israel uma Aliança. O deserto pode indicar a situação de abandono e de solidão, o lugar da debilidade do homem, onde não existem ajudas nem seguranças, onde a tentação se faz mais forte. Mas ele pode indicar também um lugar de refúgio e de amparo, como foi para o povo de Israel que se livrou da escravidão egípcia, onde se pode experimentar de modo particular a presença de Deus. Jesus.

Contudo, o deserto é, também, o lugar da prova, da tentação; foi no deserto que o povo de Israel foi confrontado com opções, e foi no deserto que também este mesmo povo de Israel sentiu várias vezes a tentação de escolher caminhos contrários aos propostos por Deus. O deserto para onde Jesus é conduzido é, portanto, o lugar do encontro com Deus e do discernimento dos seus projetos; e é o lugar da prova, onde se é confrontado com a tentação de abandonar Deus e de seguir outros caminhos.

Logo após receber o batismo de penitência no Rio Jordão, Jesus se refugia no deserto para estar quarenta dias em profunda união com o Pai, o que vai constituir uma constante na vida terrena de Jesus. Com frequência deparamos com alguma passagem bíblica onde nos mostra Jesus em um momento de oração, para, em seguida, retornar para o meio das pessoas. Mas neste tempo em que Jesus se encontra no deserto, ele está exposto ao perigo e é atingido pela tentação e pela sedução do Maligno, que propõe a Ele, como opção, o caminho do poder, do sucesso e do dinheiro. Podemos lembrar que Jesus retira-se para o deserto por quarenta dias, sem comer, nem beber (cf. Mt 4,2), se nutre da Palavra de Deus, que usa como arma para vencer o diabo. As tentações de Jesus fazem referência àquelas que o povo hebraico enfrentou no deserto, mas que não soube vencer.

O número “quarenta” é bastante frequente, tanto no Antigo como no Novo Testamento. O número quarenta, é o número simbólico com o qual a Sagrada Escritura representa os momentos fortes da experiência de fé do Povo de Israel. É um número que exprime o tempo de espera, da purificação, do retorno ao Senhor, da consciência de que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, mas indica uma paciente perseverança, uma longa prova, um período suficiente para ver as obras de Deus, um tempo no qual é necessário decidir-se e assumir as próprias responsabilidades.

O número quarenta aparece antes de tudo na história de Noé, um homem justo, que por causa do dilúvio, permanece por quarenta dias e quarenta noites na arca, junto com a sua família e os animais que estavam com ele na arca. Noé também espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, para tocar na terra firme, que foi salva da destruição (cf. Gn 7,4.12;8,6). Também a Sagrada Escritura nos diz que Moisés permaneceu no Monte Sinai, diante da presença do Senhor, quarenta dias e quarenta noites, em jejum, para acolher a Lei (cf. Ex 24,18).

Podemos ainda salientar o número quarenta como o tempo da viagem do povo hebreu, do Egito à Terra prometida: “Recorda-te de todo o caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer nestes quarenta anos. O teu manto não se rasgou pelo seu uso nem os pés se incharam nestes quarenta anos” (Dt 8,2.4). Ainda no Antigo Testamento temos o profeta Elias que leva quarenta dias para atingir o Monte Oreb e lá encontra Deus (cf. 1Rs 19,8).

Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obterem o perdão de Deus. Jonas, profeta que viveu no século VII antes de Cristo, recebeu de Deus a missão de pregar em Nínive, capital do império assírio, cidade tão grande que “eram precisos três dias para percorrê-la” (Jn 3, 3). Seus habitantes viviam na iniquidade e Deus ordenou a Jonas que para lá se dirigisse a fim de anunciar-lhes a destruição da cidade. Jonas percorreu a cidade durante todo um dia, pregando: “Daqui a 40 dias Nínive será destruída!” (Jn 3,4).

Ouvindo essas palavras, os ninivitas começaram a fazer penitência, e o próprio rei “levantou-se do seu trono, tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (Jn 3,6). Significativo gesto de humildade, que bem expressava seu arrependimento. E publicou ele um decreto dizendo: “Todos clamem a Deus em alta voz; deixe cada um o seu mau caminho e converta-se” (Jn 3,8). Diante dessa sincera conversão dos ninivitas, mudou o Senhor seus desígnios e não os castigou.

Quarenta são os dias durante os quais Jesus Ressuscitado instruiu os seus discípulos, antes de ascender ao Céu e enviar o Espírito Santo (cf. At 1,3). E, nestes quarenta dias da quaresma, a Liturgia tem como objetivo, favorecer um caminho de renovação espiritual, à luz desta longa experiência bíblica e, sobretudo, para aprender a imitar Jesus, que nos quarenta dias transcorridos no deserto ensinou a vencer a tentação do demônio com a Palavra de Deus.

A história nos mostra que também muitos homens e mulheres imitaram Jesus nesta sua retirada ao deserto. No Oriente, começando por Santo Antão, muitos foram aqueles que se retiram aos desertos do Egito ou da Palestina, ou para lugares solitários, montes e vales remotos ou grutas, como fez também São Bento, deixando o mundo para se encontrar com Deus no silêncio e na solidão. Também nós, nesta quaresma, somos chamados a fazer esta experiência do deserto. Passar um tempo de deserto significa subtrair-se do alvoroço e dos chamados exteriores para entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser.

Assim como aconteceu com Cristo, também nós, ao nos preparar para a Páscoa, peçamos ao Espírito Santo que nos conduza e nos assista ao longo do nosso caminho quaresmal, através do deserto da oração e da penitência, para nos alimentarmos intensamente com a Palavra de Deus. Que o Espírito Santo também nos auxilie na luta contra o mal e nos faça progredir sempre mais na fé, para que sejamos capazes de imprimir no nosso coração e na nossa vida as palavras de Jesus Cristo e nos convertermos a Ele todos os dias. Assim Seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – A cura de um leproso

Mc 1,40-45

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos mostra Jesus em contato com um homem atingido pela lepra, uma doença considerada grave, a ponto de tornar a pessoa “impura” e de a excluir dos relacionamentos sociais. A lepra era uma doença vista como um sinal de impureza, de dissolução e morte.

A doença conhecida como lepra suscitou por milênios, angústia e pavor. Dois fatores alheios contribuíram para acrescentar o terror frente a esta enfermidade, até fazer dela o símbolo da máxima desventura que pode tocar uma criatura humana. O primeiro era a convicção de que esta enfermidade era tão contagiosa que infectava qualquer pessoa que tivesse contato com o enfermo; o segundo, igualmente carente de todo fundamento, era que a lepra consistia em um castigo pelo pecado.

Normalmente, utiliza-se a palavra “lepra” para designar vários tipos de enfermidade da aparência da pele. Uma doença vista como um estado insólito e anormal, uma manifestação de forças misteriosas, inquietantes e ameaçadoras que ameaçam a harmonia e o equilíbrio da existência do homem.

Devido a esta doença, o leproso era segregado e afastado da convivência diária com as outras pessoas. Tal medida tinha uma intenção higiênica e pretendia evitar o contágio. Significava, também, a dificuldade da comunidade em lidar com o estranho, com as forças misteriosas e inquietantes da doença. Mas, a exclusão dos leprosos da comunidade tinha razões religiosas. Para a mentalidade tradicional do povo judaico, Deus distribuía as recompensas e os castigos de acordo com o comportamento do homem.

A doença era vista como um castigo de Deus para os pecados e as infidelidades cometidas pelo homem. Ora, uma doença tão assustadora e repugnante como a lepra era tida como um castigo terrível para um pecado especialmente grave. O leproso era considerado, por isto, um pecador, amaldiçoado por Deus, indigno de pertencer à comunidade do Povo de Deus e não podia ser admitido às assembleias onde Israel celebrava o culto na presença do Deus santo.

O texto evangélico acentua que o leproso chegou perto de Jesus e suplica de joelhos: “Se queres, tu tens o poder de me purificar” (v. 40). Jesus ficou cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero, fique purificado” (v 41). No mesmo instante a lepra desapareceu dele.

Provavelmente tinham chegado até este leproso ecos do anúncio da pregação de Jesus e isto lhe abriu um horizonte de esperança. O desejo de sair da situação de miséria e de marginalidade em que estava mergulhado vence o medo de infringir a Lei e ele aproxima-se de Jesus, sem respeitar as distâncias que um leproso devia manter das pessoas sadias. Com isto observa-se o seu desespero e o desejo de mudar a sua triste situação. E estando diante de Jesus, o leproso é humilde, mas insistente: “Prostrou-se de joelhos e suplicou-lhe” (v. 40), pois o encontro com Jesus é uma oportunidade que ele não podia desperdiçar. O que ele pretende de Jesus não é apenas ser curado, mas ser “purificado” (katharidzô) dessa enfermidade que o faz impuro e indigno de pertencer à comunidade de Deus e à comunidade dos homens.

O leproso confia no poder de Jesus, sabe que só Jesus pode ajudá-lo a superar o seu estado de miséria, de isolamento e de indignidade. Mostrou ser prudente e portador de uma fé sincera. A sua súplica é feita com fervor e humildade. E Jesus, por sua vez, não disse apenas “Eu quero, fique purificado” (v. 41), mas, estendeu a mão e tocou no leproso (v. 40).

Este gesto de Jesus, que estende a mão e toca o corpo chagado da pessoa que o invoca, manifesta perfeitamente a vontade de Deus, de curar a sua criatura decaída, restituindo-lhe a vida “em abundância” (Jo 10,10). Cristo é “a mão” de Deus estendida à humanidade, para que ela consiga sair das areias movediças da doença e da morte e erguer-se sobre a rocha sólida do amor divino (cf. Sl 39,2-3).

Trata-se de um gesto humano, onde se manifesta a bondade e a solidariedade de Jesus para com aquele que sofre; mas este gesto de estender a mão tem um profundo significado teológico, pois é o gesto que acompanha, na história do Êxodo, as ações de Deus em favor do seu Povo (cf. Ex 3,20; 6,8; 8,1; 9,22). O amor de Deus manifesta-se com um gesto, que salva o homem leproso da escravidão em que a doença o havia lançado.

A lei prescrevia que o leproso devia apresentar-se ao sacerdote, pois a sua função consistia em ajudar a controlar o mal e a impedir o contágio. A sua ação destina-se, sobretudo, a decidir da capacidade ou da incapacidade de alguém para integrar a comunidade do Povo de Deus e para ser admitido à presença do Deus santo. A legislação reservava aos sacerdotes a tarefa de declarar a pessoa leprosa, ou seja, impura; e igualmente competia ao sacerdote constatar a sua cura e voltar a admitir na vida normal o enfermo curado (cf. Lv 13-14). E dessa maneira o homem fica reintegrado na vida social e religiosa.

O texto termina com a indicação de que o leproso purificado “começou a anunciar e a divulgar o que acontecera”, apesar do silêncio que Jesus lhe impusera. Mas aquele leproso curado, não conseguiu guardar o segredo e proclamou a todos o que tinha acontecido, de modo que, narra o evangelista, os doentes acorriam de todas as partes em grande número à procura de Jesus. O Evangelista São Marcos quer, provavelmente, sugerir que quem experimenta o poder integrador e salvador de Jesus converte-se necessariamente em profeta e em testemunha do amor e da bondade de Deus.

A lepra constituía uma espécie de morte religiosa e civil, e a sua cura uma espécie de ressurreição. É possível comparar esta enfermidade com o sinal do pecado, que é a verdadeira impureza do coração, capaz de nos afastar de Deus. Não é de fato a doença física da lepra, como previam as normas antigas, que nos separa do Senhor, mas a culpa, o mal espiritual e moral. A enfermidade tanto física como espiritual constitui uma característica típica da condição humana, como Santo Agostinho expressa bem numa das suas preces: “Tende piedade de mim, Senhor! Vede, não vos escondo as minhas feridas. Vós sois o médico, eu o doente; Vós sois misericordioso, eu miserável” (S. AGOSTINHO, As Confissões, X, 39).

O texto evangélico deixa para nós uma lição, pois quer nos mostrar como a oração que dirigimos a Deus para lhe pedir alguma coisa deve ser alicerçada na humildade e na fé sincera. Nossa oração deve ser envolvida na fé e na firme confiança na bondade de Deus.

Por isto, precisamos nos reconciliar com Deus, confessando periodicamente os nossos pecados. No Sacramento da Penitência, mediante os sacerdotes, somos purificados e restituídos à comunhão com o Pai celeste e com os irmãos, e somos novamente fortalecidos na graça, o que nos concede alegria e paz.

Possamos também nós suplicar ao Cristo Senhor que venha ao nosso encontro para nos libertar de toda a enfermidade do corpo e da alma. Deixemo-nos tocar e purificar por Ele, e que Ele mesmo venha ao nosso encontro para nos curar. E que cada encontro com Ele possa nos proporcionar um alívio no corpo e na alma. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – Jesus curou muitas pessoas…

Mc 1,29-39

Caros irmãos e irmãs

A nossa meditação da Palavra de Deus para este domingo pode iniciar com um olhar para a primeira leitura, retirada do livro de Jó (cf. Jó 7,1-4.6-7). Trata-se de uma obra onde são apresentadas de modo dramático as dificuldades de um homem chamado Jó. O texto bíblico faz parte da liturgia da Palavra deste domingo e nos traz palavras negativas, desesperadas, ressaltando o mistério da vida humana.

Jó é apresentado como um homem piedoso, bom, generoso e cheio de temor de Deus. Possuía ele muitos bens e uma família numerosa. Mas, repentinamente, viu-se privado de toda a sua riqueza, perdeu a família e foi atingido por uma grave doença. Ao longo do livro, Jó comenta, com amargura e desilusão, o fato da sua vida estar marcada por um sofrimento atroz e de Deus parecer ausente e indiferente face ao desespero em que a sua existência decorre. Apesar disso, é a Deus que Jó se dirige, pois sabe que Deus é a sua única esperança e que fora dele não há possibilidade de salvação.

O grito de revolta de Jó brota de um coração dolorido e sem esperança e é a expressão da angústia de um homem que, na sua miséria, se sente injustiçado e condenado pelo próprio Deus; mas é também o grito do crente que sabe que só em Deus pode encontrar a esperança e o sentido para a sua existência.

O sofrimento é um drama que atinge o homem e não tem explicação. Muito se pergunta as razões para o sofrimento de uma criança ou uma pessoa boa e justa. Questiona-se também como é que um Deus bom, cheio de amor, preocupado com a felicidade dos seus filhos, permite a dor e o sofrimento. Não temos uma resposta clara para todos estes questionamentos. Somos frágeis e incapazes de entender os mistérios de Deus e os seus projetos.

Tendo como cenário este drama de um homem que sofre, a Liturgia da Palavra nos apresenta um texto evangélico onde Jesus aparece curando muitos doentes. Na casa de Pedro ocorre o milagre da cura da sua sogra, que está de cama e com febre. Jesus tomando-a pela mão, curou-a e a fez erguer-se. Podemos sublinhar este pormenor importante que aparece no texto: A indicação de que Jesus tomou a doente pela mão e “levantou-a”.

O verbo grego utilizado pelo evangelista (egueirô – levantar) aparece frequentemente em contextos de “ressurreição” (cf. Mc 5,41;6,14.16;9,27;12,26;14,28;16,6). A sogra de Pedro está prostrada pelo sofrimento que lhe rouba a vida; mas o contato com Jesus devolve-lhe a vida e equivale a uma ressurreição. E a indicação de que a mulher “começou a servi-los”, indica o efeito imediato do contato com Jesus, de onde gera a atividade que se concretiza no serviço aos irmãos.

Também nós necessitamos desta mão do Senhor para nos erguer, para nos levantar. É Ele que nos segura pela mão e cura as nossas feridas, nossas enfermidades, nossas fraquezas. Jesus nos pega pela mão através da sua palavra, pois nela encontramos o conforto e a segurança. Também através dos sacramentos somos curados da febre das nossas paixões e dos nossos pecados mediante a absolvição no sacramento da reconciliação. Através deste sacramento Jesus nos concede a capacidade de reerguermo-nos, de estarmos de pé novamente diante de Deus e diante dos homens. Jesus nos eleva e nos cura sempre de novo com o dom da sua palavra, com o dom de si mesmo.

Notemos ainda que a febre abandona aquela a quem Cristo segura. Não permanece a enfermidade onde estiver presente o autor da salvação; não haverá acesso para a morte onde houver entrado aquele que nos dá a vida (cf. S. PEDRO CRISÓLOGO, Sermão 18, PL 52, 246-249).

Os enfermos e os possessos do demônio representam, todos aqueles que estão privados de vida, que estão prisioneiros do sofrimento e da dor. O evangelista São Marcos nos convida a ver em Jesus Aquele que tem poder para libertar o homem das suas misérias mais profundas e oferecer a ele uma vida nova, pois “Ele assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades” (Mt 8,17).

O texto evangélico continua dizendo que ao pôr do sol, tendo terminado o sábado, o povo levou até Jesus muitos enfermos e Ele curou uma multidão de pessoas atormentadas por doenças de todos os gêneros: físicas, psíquicas, espirituais. Esta realidade da cura dos doentes por parte de Cristo nos convida a refletir sobre o sentido e o valor da doença. Ao enviar em missão os seus discípulos, Jesus confere a eles um duplo mandato: anunciar o Evangelho da salvação e curar os enfermos (cf. Mt 10, 7-8). Fiel a este ensinamento, a Igreja considerou sempre a assistência aos enfermos uma parte integrante da sua missão.

Estas curas realizadas por Jesus são sinais: não se resolvem em si mesmas, mas guiam para a mensagem de Cristo, guiam-nos para Deus e fazem-nos compreender que a verdadeira e mais profunda doença do homem é a ausência de Deus, da fonte da verdade e do amor. E só a reconciliação com Deus pode doar-nos a cura autêntica, a verdadeira vida, porque uma vida sem amor e sem verdade não seria vida. No entanto, permanece verdade que a doença é uma condição tipicamente humana, na qual experimentamos em grande medida que não somos auto-suficientes, mas temos necessidade dos outros.

A experiência da cura dos doentes convida-nos mais uma vez a refletir sobre o sentido e o valor da doença em qualquer situação na qual o ser humano possa encontrar-se. A Igreja considera as pessoas doentes como uma via privilegiada para encontrar Cristo, para o acolher e servir. A atenção para com os doentes, o ato de visitar os doentes e servi-los, indica que é servir Cristo: o doente é a carne de Cristo, pois Ele mesmo disse: “Estive doente e cuidastes de mim” (Mt 25,36).

Mas a doença pode ser um momento salutar, no qual podemos experimentar a atenção dos outros e oferecer a quem sofre a nossa unidade. Todavia, ela é sempre uma prova, que pode tornar-se também longa e difícil. Quando a cura não chega, e os sofrimentos se prolongam, podemos permanecer como que esmagados, isolados, e então a nossa existência deprime-se e desumaniza-se. Mas a Palavra de Deus nos ensina que há uma atitude decisiva e fundamental, com a qual enfrentar a enfermidade, e é a da fé na bondade de Deus. Jesus dizia às pessoas curadas: “A tua fé te salvou” (cf. Mc 5,34.36). Até diante da morte, a fé pode tornar possível aquilo que, humanamente, é impossível. Somente no amor e na misericórdia de Deus encontramos uma resposta para o mal e a enfermidade.

Não obstante a doença faça parte da experiência humana, temos dificuldades de nos habituarmos a ela, não só porque por vezes se torna deveras pesada e grave, mas essencialmente porque somos feitos para a vida. O triste na vida não é sofrer, não é chorar, não é morrer… Triste e miserável é sofrer, chorar e morrer sem Deus, pois só Ele dá sentido à nossa existência.

Diante destas curas realizadas pelo Cristo Senhor, saibamos reconhecer nestes sinais o Reino de Deus que Ele vem nos trazer. E elevemos uma vez mais nossa oração a Maria, a quem invocamos como “Saúde dos Enfermos”, para que, com a sua materna intercessão sustente e acompanhe a nossa fé e nos obtenha de Cristo, seu Filho, a esperança no caminho da cura de todos os nossos males e nos conceda a saúde física e espiritual. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – Ensinava com autoridade

Mc 1,21-28

Caros irmãos e irmãs

O Evangelho deste domingo nos situa geograficamente em Cafarnaum, uma pequena cidade à margem do lago da Galileia, onde moravam Pedro e o seu irmão André. É neste ambiente que ocorre o primeiro milagre de Jesus, segundo o evangelista São Marcos, quando expulsa o demônio de um homem que estava presente na sinagoga.

O texto evangélico nos trás duas cenas diferentes. A primeira é a cena do ensinamento de Jesus que causa a admiração dos presentes (vv. 21-22). A segunda cena é o relato da expulsão do demônio (vv. 23-28). Os dois episódios foram reunidos pelo redator do evangelho em uma unidade literária, cuja finalidade é descrever o primeiro dia da atividade apostólica de Jesus na cidade de Cafarnaum. O fato ocorre em um dia de sábado, quando Jesus entra na sinagoga de Cafarnaum, para participar da liturgia sabática. A celebração começava, normalmente, com a profissão de fé (cf. Dt 6,4-9), a que se seguiam orações, cânticos e duas leituras, uma da Torá e outra retirada do Livro dos Profetas; depois, vinha o comentário às leituras e as bênçãos finais.

Narra o evangelista Marcos que, sendo aquele dia um sábado, Jesus foi imediatamente à sinagoga e pôs-se a ensinar (cf. v. 21). Isto faz pensar na primazia da palavra de Deus, Palavra que deve ser ouvida, acolhida e anunciada. A principal preocupação de Jesus é a de comunicar a Palavra de Deus.

É bem provável que Jesus tivesse sido convidado, nesse dia, para comentar as leituras feitas; e ao usar de uma forma original, diferente dos comentários que as pessoas estavam habituadas a ouvir dos estudiosos da Sagrada Escritura, conhecidos como “escribas”, todos ficaram maravilhados com as suas palavras, “porque ensinava com autoridade” (v. 22). Os ouvintes de Jesus estavam habituados a receber ensinamentos, mas a diferença que fazem entre o ensino de Jesus e o dos escribas e fariseus é que Ele ensina como um homem que tem autoridade.

Na sequência das palavras ditas por Jesus e que transmitem aos ouvintes um sinal inegável da presença de Deus, aparece em cena “um homem com um espírito impuro” (v. 23). Os judeus estavam convencidos que todas as doenças eram provocadas por “espíritos maus” que se apropriavam dos homens e os tornavam prisioneiros. As pessoas afetadas por esses males deixavam de cumprir a Lei e ficavam numa situação de “impureza”, isto é, afastadas de Deus e da comunidade.

Na perspectiva dos contemporâneos de Jesus, esses “espíritos maus” que afastavam os homens da órbita de Deus tinham um poder absoluto, que os homens não podiam, com as suas frágeis forças, ultrapassar. Acreditava-se que só Deus, com o seu poder e autoridade, era capaz de vencer os “espíritos maus” e devolver aos homens a vida. Rodeado já pelos primeiros discípulos, Jesus começa a revelar-se como o Messias, que está no meio dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação.

O Evangelista São Marcos sublinha que o espírito impuro, que domina um homem presente na sinagoga, põe-se a interpelar violentamente Jesus. A ação da cura do homem constitui a comprovação de que Jesus traz uma proposta de que vem de Deus. Pela ação de Jesus, Deus vem ao encontro do homem para o salvar de tudo aquilo que o impede de ter vida em plenitude. E é exatamente isto que Jesus irá afirmar mais à frente: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham com abundância” (Jo 10,10). Para o Evangelista São Marcos, este primeiro episódio é uma espécie de apresentação de um programa de ação: Jesus veio ao encontro dos homens para os libertarem de tudo aquilo que os faz prisioneiros e lhes rouba a vida.

Após os ensinamentos de Jesus suscitar a admiração das pessoas, segue-se a libertação de “um homem possuído por um espírito impuro” (v. 23). O homem possuído pelo demônio, que de repente se põe a gritar: “Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus!” (v. 24). Jesus não lhe responde com um pedido ou com palavras ou gestos mágicos, como costumavam fazer os exorcistas do seu tempo; mas com duas ordens determinantes: “Cala-te!” e “Sai!” (v. 25). O “espírito mau” não aceita passivamente a ordem de Jesus; reage com violência ao ser contrariado, resiste, começa a gritar porque quer perpetuar o seu domínio sobre sua vítima.

Observa-se que o demônio reconhece em Jesus, pela sua santidade eminente, que ele é o “Santo de Deus”, ou seja o Messias. O demônio reage e grita pelo temor de ser destronado e perder seu poder no mundo. Jesus não discute com ele, mas afasta-o. O espírito imundo obedece e, imediatamente, sai daquele homem, e todos os presentes, admirados, percebem que entre eles chegou um profeta que anuncia uma “nova doutrina” e que tem, dentro de si, a força de Deus: Sua palavra de fato, tem autoridade, ou seja, realiza aquilo que afirma (v. 26-27).

Essa luta representa a rebelião das forças malignas que podem se encontrar também dentro de nós e não querem ser expulsos. É o símbolo das dificuldades que o homem enfrenta quando quer despojar-se dos seus maus hábitos, que resistem e dos quais às vezes não é fácil libertar-se. Jesus anuncia uma palavra nova, uma palavra de “autoridade”. Trata-se de uma palavra que faz crescer, que está ao serviço do crescimento do ser e da vida. Precisamente a autoridade divina de Cristo tinha suscitado a reação de satanás, escondido naquele homem. Jesus, por sua vez, reconheceu imediatamente a voz do maligno e disse severamente: “Cala-te e sai deste homem!” (v. 25).

Para Deus, a autoridade significa serviço e humildade; significa entrar na lógica de Jesus, que se inclina para lavar os pés aos discípulos (cf. Jo 13,5), que procura o verdadeiro bem do homem, que cura as feridas, que é capaz de um amor tão grande que o leva a dar a sua própria vida. Pelo “cala-te”, Jesus anuncia seu poder sobre o mal, um sinal de que ele veio para “destruir o mal”, que atinge o homem.

A situação do homem possuído pelo demônio representa a condição daquele que ainda não encontrou Cristo; vive subjugado por forças hostis que o destroem e que ele não consegue controlar. Com a força da sua palavra, Jesus liberta a pessoa do maligno. E mais uma vez os presentes permanecem admirados: “Ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem” (v. 27). A cura milagrosa do possesso era uma confirmação do poder sobrenatural que Cristo possuía, pois só Ele pode nos salvar do mal.

Na oração do Pai nosso, na sua última petição, Jesus nos ensina a pedir ao Senhor que nos livre do mal. Nesta petição, o Mal designa uma pessoa, satanás, o maligno, o anjo que se opõe a Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2851). São Pedro alerta: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda ao redor, como leão que ruge, buscando a quem possa devorar; resisti-lhe firmes na fé” (1Pd 5,8-9).

O próprio Jesus foi tentado três vezes pelo demônio no deserto, e o venceu com o jejum, a oração e a força da Palavra de Deus (cf. Mt 4,3-10). Jesus se referiu a ele como seu adversário e o chamou de “príncipe deste mundo” (cf. Jo 12,31; 14,30; 16,11). São Paulo chamou-o “deus deste mundo” (cf. 2Cor 4,4) e preveniu-nos das lutas ocultas que devemos travar contra sua pluralidade: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio”.

Ao longo de sua vida pública, Jesus também libertou muitas outras pessoas possuídas pelo mal, dentre tantas, podemos lembrar de Maria Madalena, de quem Ele fez sair sete demônios (cf. Lc 8,2), ou seja, salvou-a de um servilismo total ao maligno. Isto mostra que Deus, através de Jesus Cristo, quis restabelecer a paz verdadeira, completa, fruto da reconciliação da pessoa com Deus e com os outros. Com efeito, o maligno procura corromper sempre a obra de Deus, semeando divisão no coração humano, entre corpo e alma, entre o homem e Deus. Para realizar esta obra de reconciliação Jesus tornou-se Cordeiro, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

Peçamos hoje ao Senhor que também nos liberte de todas as ações do maligno, para sermos livres de todos os males, dos quais ele, o demônio, é o autor ou instigador, e para que possamos haurir sempre da misericórdia divina, sendo firmes na fé e na busca da santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III SEMANA DO TEMPO COMUM – Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo.

Mc 1,14-20

Caros irmãos e irmãs

No Evangelho deste domingo aparece em cena Jesus que percorre os povoados e montanhas da Galileia, anunciando o Evangelho. O texto nos mostra a primeira frase que ele pronuncia, como alerta da sua pregação: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (v. 15). O Evangelista São Marcos frisa que Jesus começou a pregar “depois que João Batista foi preso” (v.14). Precisamente no momento em que a voz profética de João, que anunciava a vinda do Reino de Deus, é abafada por Herodes, que o mandou degolar no cárcere (cf. Mc 6,14-29), Jesus começa a percorrer os caminhos da sua terra para levar a todos “o Evangelho de Deus” (v. 14).

O texto evangélico nos apresenta dois pedidos “Convertei-vos” (v. 14), no sentido de mudar o modo de pensar, deixando a má conduta moral e “Crede no evangelho” (v.14), ou seja, na Boa Nova que Cristo veio ensinar. O tempo assinalado para o estabelecimento do reino havia chegado e todos eram exortados a se preparar para nele entrar, mediante o arrependimento e a aceitação da boa nova anunciada por Cristo.

A inserção no Reino de Deus exige a conversão. O apelo de Jesus à conversão soava como uma exigência de abrir mão da própria vontade para abraçar um novo modelo de vida proposta por Ele. A conversão colocaria o futuro discípulo diante das exigências objetivas do Evangelho. Crer no Evangelho supunha aceitar a mensagem de Jesus como palavra de Deus, com toda a sua força de salvação. Abrir-se para estes apelos haveria de ser o primeiro passo da longa caminhada de testemunho transparente de adesão ao Reino e aos seus valores, que foram os de Jesus.

Na Sagrada Escritura vamos encontrar muitos exemplos de conversão, dentre eles, podemos citar a do apóstolo São Paulo. No caminho de Damasco aconteceu com ele aquilo que Jesus pede no Evangelho de hoje: Saulo converteu-se porque, graças à luz divina, “acreditou na Boa Nova”. É nisto que consistem a sua e a nossa conversão: acreditar em Jesus morto e abrir-se à iluminação da sua graça divina. Naquele momento, Saulo compreendeu que a sua salvação não dependia das boas obras realizadas segundo a lei, mas do fato de que Jesus tinha morrido também por ele, que foi um perseguidor dos cristãos. Esta verdade, que graças ao Batismo ilumina a existência de cada cristão, inverte completamente o nosso modo de viver. Converter-se significa, também para cada um de nós, acreditar que Jesus “se entregou por mim” morrendo na cruz (cf. Gl 2, 20).

O convite à conversão ressoa hoje também para cada um de nós e implica no desejo e no propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. A conversão é, antes de mais, obra da graça de Deus, a qual faz com que os nossos corações se voltem para Ele: “Convertei-nos, Senhor, e seremos convertidos” (Lm 5,21). Deus é quem nos dá a coragem de começar de novo. É ao descobrir a grandeza do amor de Deus que o nosso coração é abalado pelo horror e pelo peso do pecado, e começa a ter receio de ofender a Deus pelo pecado e de estar separado dele. O coração humano converte-se, ao olhar para aquele a quem os nossos pecados trespassaram (cf. Jo 19,37). A conversão envolve uma mudança radical no próprio modo de pensar.

A segunda parte do trecho evangélico (v. 16-20), nos relata o chamado dos primeiros quatro discípulos, convocados a se tornarem, depois da ressurreição de Jesus, mensageiros do evangelho. O episódio está dividido em duas fases paralelas, que correspondem aos chamados das duas duplas de irmãos: Simão e André (v. 16-17); e Tiago e João (v. 19-20).

O chamado duplo não tem apenas valor simbólico. O relato guarda uma preciosa recordação da primeira hora. Evidentemente, o nosso texto evangélico tem uma forte intenção teológica. Mas ainda no tempo de Paulo são estes os grandes apóstolos, chamados de colunas da Igreja. São eles que reconhecem “a graça de Deus que foi dada a Paulo” (Gl 2,9).

Jesus chama estes primeiros discípulos no momento em que estavam exercendo a sua profissão. Eram eles pescadores. Também a vocação do profeta Eliseu aconteceu em circunstâncias semelhantes. Elias o convida para segui-lo enquanto se encontra a arar a terra (cf. 1Rs 19,19-21). É o próprio Jesus que vai a procura dos seus apóstolos e os convida a permanecer com ele.

Esse “seguir” significa ir atrás de alguém, pisando nas suas pegadas, percorrer o seu caminho, o que pede, sobretudo, uma imensa confiança Nele. Seguir Jesus não é só aceitar sua doutrina, mas entregar-se incondicionalmente à sua pessoa, colaborar na sua missão, partilhar do seu destino que inclui a morte e glorificação. Seguir Jesus, por isso, supõe o abandono confiante Nele, isto é, uma confiança total, doação completa à pessoa de Jesus.

Chama a nossa atenção o fato de que o Evangelista São Marcos mostra Jesus ao iniciar a sua grande atividade pública, congrega em torno de si os seus discípulos. Este gesto faz parte da proclamação evangélica. Os apóstolos e os outros discípulos serão parte constitutiva deste último tempo. Ele os convoca para, juntamente com eles, e perante os olhos deles, iniciar a proclamação e inauguração do Reino de Deus, porque, posteriormente, eles serão os continuadores dessa missão. Jesus chama estes primeiros apóstolos para que fiquem ao seu lado e experimentem algo da sua divina intimidade (cf. Mc 3,13).

Pedro, André, Tiago e João respondem imediatamente ao chamado: abandonam tudo para acompanhar Jesus. Isto mostra que, mediante o chamado de Jesus, a resposta deve ser dada imediatamente e deve manifestar-se em ações concretas: Eles abandonam tudo para seguir o Mestre, porque a missão para a qual estão sendo convocados é diferente.

O atrativo da chamada de Jesus é irresistível e os faz capazes de renunciar à sua família e ao seu trabalho para seguir Jesus. Esta ruptura com a própria família tinha implicações muito distintas das que têm hoje o abandono do lar familiar. Não era somente nem principalmente uma ruptura afetiva, e sim uma ruptura com todas as seguranças. A casa e a família eram, até então, o grupo de apoio mais sólido desde o ponto de vista social, os que careciam de uma família careciam de honra e prestígio. Economicamente, a família era a principal unidade de produção e o grupo em que se exercia a mútua solidariedade. Ao deixar sua família e sua casa, aqueles discípulos faziam uma opção muito radical: deixavam verdadeiramente tudo para seguir Jesus (cf. Mt 19,27-29).

O que certamente impulsionou os Apóstolos a seguir Jesus, no início e no decorrer dos tempos, foi sempre “o amor de Cristo” (cf. 2Cor 5,14). Como fiéis servidores da Igreja, dóceis à ação do Espírito Santo, muitos missionários, ao longo dos séculos, seguiram as pegadas dos primeiros discípulos e também ouviram este chamado de Cristo. Ao longo da história da Igreja muitos foram aqueles que se dedicaram totalmente a serviço do Evangelho. Podemos recordar de muitos sacerdotes que são chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação, dedicados ao serviço dos mais débeis, dos doentes, dos sofredores, dos pobres e dos que passam por momentos difíceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo. Para estes, os missionários levam o primeiro anúncio do seu amor redentor. Desta forma, através dos seus sacerdotes, Jesus se faz presente entre os homens de hoje, até às mais distantes extremidades da terra.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria para que saibamos responder com entusiasmo o chamado de Cristo a segui-lo, a exemplo dos apóstolos e de inúmeros sacerdotes, religiosos e religiosas. Maria, que também soube viver plenamente a sua unidade com o Senhor, nos faça obter o dom de uma verdadeira conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mestre, onde tu moras?

Jo 1,35-42

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos apresenta o tema da vocação. No texto evangélico temos a chamada dos primeiros discípulos por parte de Jesus e na primeira leitura, a chamada do profeta Samuel. Em ambas as narrações é evidenciada a importância da figura que desempenha o papel de mediador, ajudando as pessoas chamadas a reconhecer a voz de Deus e a segui-la. No caso de Samuel, o mediador é o sacerdote Eli, do templo de Silo e no caso dos discípulo

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