DOMINGO DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Ano A – 2017

RESSURREIÇÃO DO SENHOR
Referência:
Jo 20,1-9

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo a liturgia nos faz chegar ao domingo da Páscoa. Hoje somos convidados a olhar o túmulo vazio de Jesus e, com admiração e gratidão, refletir sobre o grande mistério da Ressurreição do Senhor. A vida venceu a morte!

Já na Vigília pascal, entoamos novamente o grito da alegria, o “Aleluia”, uma palavra hebraica conhecida em todas as línguas e que significa “Louvai o Senhor”.  Este grito do Aleluia volta a ressoar para indicar a nossa alegria diante da Ressurreição do Senhor.  Mas este aleluia pascal deve imprimir profundamente em nós o desejo de constantemente louvar o Senhor, pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós.  E como consquência disso, cada cristão é chamado a ser proclamador de uma vida nova, deve fazer morrer em si  o “velho homem”, o homem marcado pelo pecado; e fazer ressurgir o “homem novo”, configurado a Cristo ressuscitado.

O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos apresenta para este domingo começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “No primeiro dia da semana”. Significa que com a ressurreição de Jesus começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus.

A primeira personagem em cena é Maria Madalena: ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda quando o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”.  Em seguida, elas correm, com medo, mas felizes, para comunicar esta notícia aos discípulos de Jesus.

Na sequência, o texto evangélico nos apresenta a visita de Pedro e do discípulo que Jesus amava ao túmulo vazio.  O evangelista São João narra com exatidão os detalhes da cena: as faixas de linho, que tinham envolvido o corpo, estavam lá depositadas e o pano da cabeça estava enrolado e colocado à parte (cf. v. 6-7).  Uma minuciosa descrição do evangelista tem a finalidade de excluir a teoria do roubo do cadáver.

O túmulo vazio é um argumento decisivo em favor da ressurreição de Jesus. É isto, como de fato, que expressa na confissão do discípulo amado que vai até ao túmulo na companhia de Pedro: “Ele viu e acreditou” (v. 8). Isto supõe que o discípulo amado terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana.  Mediante os sinais da morte: o túmulo, os lençóis, o sudário… o discípulo vê os sinais da vida.  Na verdade, vê sem ter visto ainda, e já começa a crer ou a dar crédito, até que sua fé seja plenamente confirmada e esclarecida pelas aparições.

Com relação ao Apóstolo Pedro, parece que ele é vencido não só na corrida material, mas também na espiritual.  O discípulo que Jesus amava, identificado pela tradição como o apóstolo João, mostra a sua fé na ressurreição, quanto Pedro, embora vendo as mesmas coisas, limita-se a constatar e não chegar ainda à fé na ressurreição (cf. Jo 20,3-10).

Também quando Jesus aparece junto ao mar de Tiberíades é mais uma vez o discípulo que Jesus amava que o identifica, enquanto Pedro, só mais tarde o reconhece (cf. Jo 20,7).  A não identificação do discípulo que Jesus amava no texto, pode ser uma indicação de que todos nós devemos estar no lugar deste discípulo.  Acreditar que Cristo ressuscitou para estar conosco.

Cada domingo, com o Credo, nós também renovamos a nossa profissão de fé na ressurreição de Cristo, acontecimento surpreendente que constitui a chave de volta do cristianismo.  A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento, pregada como parte essencial do mistério pascal (cf. CigC 638).

Na Igreja tudo se compreende a partir deste grande mistério, que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração eucarística. Mas existe um tempo litúrgico no qual esta realidade central da fé cristã, na sua riqueza doutrinal e inexaurível vitalidade, é proposta aos fiéis de modo mais intenso, para que cada vez mais a redescubram e mais fielmente a vivam: é o tempo pascal. Um tempo em que a Igreja revive, em cada celebração, temos a alegria da ressurreição do Cristo Senhor.  Páscoa, é a passagem de Jesus da morte para a vida, na qual se cumprem em plenitude as antigas profecias.

A morte do Senhor demonstra o amor imenso com que Ele nos amou até ao sacrifício por nós; mas só a sua ressurreição é “prova certa”, é certeza de que quanto Ele afirma é verdade que vale também para nós, para todos os tempos. E o Apóstolo São Paulo nos ensina na sua Carta aos Romanos: “Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou do entre os mortos, serás salvo” (Rm 10, 9).

O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus consequentemente torna-se frágil o testemunho dos crentes. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição, tudo desmorona. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas. Certamente é a fé na ressurreição que sustentou e deu coragem aos primeiros discípulos e também aos mártires ao longo da história. É o encontro com Jesus ressuscitado que motivou muitos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para o seguir e colocar a própria vida ao serviço do Evangelho.

Esta verdade marcou também de forma tão profunda na vida dos apóstolos que, após a ressurreição, sentiram novamente a necessidade de continuar propagando os ensinamentos do Mestre e, ao receberem o Espírito Santo, saíram pelo mundo inteiro, para anunciar a todos o que tinham visto com os próprios olhos e experimentaram pessoalmente.  O mesmo pode-se dizer de São Paulo, cuja fé na ressurreição de Cristo o levou a dizer: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1Cor 15,14).

Podemos dizer aina que a ressurreição de Cristo, e o próprio Cristo Ressuscitado, é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram… Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida” (1Cor 15,20-22).  Cristo verdadeiramente ressuscitou! Não podemos reter somente para nós a vida e a alegria que Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos doá-la a quantos nos são próximos. É o nosso objetivo e a nossa missão.

Na expectativa de que isto se realize, peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que possamos progredir sempre mais na fé, agora iluminada pela Ressurreição do Senhor, para que possamos ser para todos os que encontrarmos pelo nosso caminho, mensageiros da verdadeira luz e da alegria da Páscoa.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

Domingo de Ramos

Referência: Mt 26,14-27

Caríssimos irmãos e irmãs

Neste último domingo da quaresma, celebramos o domingo de Ramos e, com ele, temos a abertura da Semana Santa que é a grande semana de fé cristã, o tempo litúrgico mais forte, mais rico em conteúdo e de maior intensidade religiosa de todo o ano cristão, porque nela celebramos os mistérios centrais de nossa fé: a morte e a ressurreição de Cristo.  E a Liturgia nos oferece dois evangelhos: o da entrada de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11) e o Evangelho em que Jesus é condenado e crucificado no Calvário, no qual contemplamos a paixão e a morte de Jesus.

A entrada de Jesus em Jerusalém é recordada nas igrejas com a bênção dos ramos e a procissão; a leitura da paixão e morte de Cristo ocorre na celebração da missa.  Isso tem uma razão histórica. Em Roma, não havia a Semana Santa. Celebrava-se no sexto domingo da quaresma a Paixão e Morte de Cristo e, no domingo seguinte, a Páscoa do Senhor. Somente no século XI é que a Procissão de Ramos, costume nascido em Jerusalém, chegou a Roma, e esta cerimônia passou a fazer parte da liturgia romana.

Juntamente com os seus discípulos e uma multidão crescente de peregrinos, Jesus sobe da planície da Galileia para a Cidade Santa, onde entra montado em um jumento, ou seja, um animal próprio das pessoas simples do campo, e além disso, um jumento que não lhe pertencia, mas que havia sido emprestado para esta ocasião.  O evangelista São João nos narra que, num primeiro momento, os discípulos não compreenderam esta atitude de Jesus. Apenas posteriormente, após a Páscoa, ao perceber que ele, com sua atitude, estava cumprindo o anúncio dos profetas e as prescrições contidas na Palavra de Deus.  O livro do profeta Zacarias já dizia: “Não temas, Filha de Sião, olha o teu Rei que chega sentado na cria de uma jumenta” (Zc 9,9).

A entrada em Jerusalém é testemunho da herança profética no coração daquele povo que estava a espera do Messias. É, ao mesmo tempo, verificação e confirmação do Evangelho, por Ele anunciado. Como de fato, o Messias devia revelar-se precisamente como tal rei: manso, montado num jumento, no potrinho de uma jumenta.  Com essa entrada de Jesus em Jerusalém, é Ele aclamado pela multidão: “Hosana! Bendito seja o que vem em nome do Senhor” (Mc 11, 9). Esta palavra faz parte do rito da festa dos tabernáculos, durante o qual os fiéis caminham ao redor do altar, tendo nas mãos alguns ramos compostos de palmas, mirtos e salgueiros.

Pois bem, com as palmas nas mãos, as pessoas elevam este clamor diante de Jesus, e o identificam como aquele que vem em nome de Deus. Esta expressão tornou-se, há muito tempo, a designação da chegada do Messias. Com esta aclamação, o povo reconhece que Jesus verdadeiramente vem em nome do Senhor e traz a presença de Deus para junto do homem. Este brado de esperança de Israel, esta aclamação a Jesus durante o seu ingresso em Jerusalém, tornou-se na Igreja exaltação de todos os fiéis para aclamar o Cristo presente na Eucaristia, para uma vez mais, estar conosco.  Neste domingo de Ramos, devemos também reviver, de maneira litúrgica, aquele acontecimento profético. Repetimos as mesmas palavras pronunciadas pela multidão quando Jesus entrou em Jerusalém. Seguramos nas mãos os nossos ramos e aclamamos o Cristo que vem.

E no decorrer da liturgia da Santa Missa, temos ainda o relato da paixão de Jesus, onde são descritos os sofrimentos que culminaram com a sua morte. O Domingo de Ramos é a única ocasião, além da Sexta-Feira Santa, em que se lê o Evangelho da Paixão de Cristo no curso de todo o ano litúrgico. Neste relato, o evangelista São Mateus, em conformidade com a sua narração, vê na paixão de Jesus o caminho do justo sofredor e, ao mesmo tempo, o começo de um novo mundo.

Também o evangelista São Mateus ressalta com insistência em seu evangelho que tudo o que está acontecendo com Jesus foi previsto pelos profetas.  No decorrer da última Ceia, Jesus já havia dito: “O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito dele” (Mt 26,24).  O mesmo ocorre quando, no Jardim das Oliveiras, no momento em que os guardas se aproximam para prender o Cristo como se fosse um bandido. Neste momento ele diz: “…tudo isto aconteceu para se cumprir o que os profetas escreveram” (Mt 26,56).

Um outro ensinamento apresentado pelo evangelista São Mateus está na não violência, ao narrar a frase de Jesus dirigida a Pedro, que tinha empunhado a espada para defender o seu Mestre: “Guarda a espada na bainha! pois todos os que usam a espada pela espada morrerão” (v. 52). Este acontecimento deixa para nós mais uma lição do Cristo, pois a sua missão é dar a vida pelo irmão e jamais agredi-lo.

Em um mundo que associa às vezes a vingança ou mesmo o ódio e a violência ao nome de Deus, esta é uma mensagem de grande atualidade e de significado muito concreto. Na hora da paixão de Jesus, este amor manifesta-se em toda a sua força. Nos últimos momentos da sua vida terrena, na ceia com os seus amigos, Jesus diz: “Como o Pai me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor… Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós” (Jo 15,9.11). Jesus quer introduzir os seus discípulos e cada um de nós, pela prática do perdão e do amor, a uma alegria plena.

Neste tempo em que celebramos a caminhada de Jesus Cristo na dor e no sofrimento, possamos também nós nos preparar para celebrar a sua Ressurreição, participar do amor de Deus que redimiu o mundo e iluminou a história. Saibamos viver este tempo precioso reavivando a fé em Jesus Cristo, para entrar no circuito de amor, extensivo a cada irmão que encontramos na nossa vida.

Neste domingo de Ramos, vamos nós também ao encontro de Jesus. Deixemos que ele nos guie, a fim de aprendermos do próprio Deus o modo reto de ser.  É Jesus quem abre o seu coração e nos revela o fulcro de toda a sua mensagem redentora: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Ele mesmo amou até entregar sua vida por nós sobre a cruz.  Também nós devemos seguir esta mesma inspiração. O Senhor conta com cada um de nós e nos chama de amigos. Só aos que se ama desta maneira é capaz de dar a vida proporcionada com sua graça. Tenhamos sempre a alegria de caminhar com Jesus, de estar com Ele e, como Simão de Cirene, o auxiliando a levar a cruz.

Possamos nestes dias participar das celebrações em espírito e devoção.  É um momento propício para avivarmos a fé que dá sentido a nossa vida e assimilarmos os sentimentos próprios de uma união com Jesus Cristo.   Que a Virgem Maria interceda sempre por nós e nos ensine a alegria do encontro com Cristo, o amor com que o devemos contemplar ao pé da cruz, para sermos sempre mensageiros da sua Palavra e da sua paz.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

A ressurreição de Lázaro

Referência: Jo 11, 1-45

Caríssimos irmãos e irmãs,

Estamos nos aproximando da Semana Santa e os temas quaresmais cada vez mais nos preparam para viver o mistério pascal de Cristo, que muito em breve celebraremos.  O primeiro milagre realizado por Jesus, como nos narra o Evangelho de São João, foi a mudança da água em vinho, nas bodas de Caná da Galiléia (cf. Jo 2,1-11).  O último milagre, já a caminho da Paixão, foi a ressurreição de Lázaro, texto que a Igreja nos apresenta para este domingo. O fato ocorre em Betânia, uma aldeia que fica nas proximidades de Jerusalém. É neste local que Jesus confirma o seu poder de dar a vida, ressuscitando Lázaro.

O texto do evangelho começa dizendo que Lázaro estava doente e suas irmãs, Marta e Maria, mostrando preocupação e solidariedade, mandam avisar a Jesus. Os mensageiros usam uma linguagem delicada, que revela o afeto entre Jesus e Lázaro: “Senhor, aquele que amas está doente!” (v. 3).  Ouvindo isto, Jesus disse: “Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (v. 4). Jesus era amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro, que parecem ser os únicos membros dessa família. O evangelista São João insiste no grau de parentesco que une os três: são irmãos.

Podemos observar no texto os sinais da solidariedade diante da morte, manifestada pela ação dos amigos e vizinhos, que vão à casa das irmãs para apresentar os sentimentos e fazer lamentações, símbolo do desespero e da angústia pela perda de um membro da família. Temos também a solidariedade de Jesus, que expressa afeto sincero para com o amigo falecido e uma comoção profunda revelada pelas suas lágrimas, sinal de identificação com a dor de Marta, de Maria e dos amigos de Lázaro, como nos relata o texto bíblico: “Quando Jesus a viu chorar, e também os que estavam com ela, estremeceu interiormente, ficou profundamente comovido, e perguntou: ‘Onde o colocastes?’ Responderam: ‘Vem ver, Senhor’. E Jesus chorou” (Jo 11,33-35).

Este vínculo de amizade de Jesus com Lázaro e suas irmãs é reiteradamente recordado em toda a narrativa. O próprio Jesus afirma: “O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo” (Jo 11,11).  O sepultamento já havia ocorrido há quatro dias. Na mentalidade judaica, a morte era considerada definitiva a partir do terceiro dia. Quando Jesus chega, a morte de Lázaro está, portanto, consumada. Marta manifesta sua falta de esperança ao dizer que teria sido necessária a presença física de Jesus para evitar a morte de Lázaro: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (v. 21).  Em conformidade com a crença daquele tempo, Marta acreditava que seu irmão iria ressuscitar no último dia: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia” (v. 24).

Por outro lado, esse diálogo revela também o convite que Jesus faz a Marta para que ela possa crescer na fé. Ela precisa deixar suas crenças anteriores sobre a ressurreição para aderir à novidade que Jesus lhe apresenta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá.  E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” (v.25s). Jesus se apresenta de uma maneira nova para Marta. Não é preciso esperar até o fim dos tempos para ressuscitar, Jesus é a Ressurreição! E todo aquele que nele crer também ressuscita.  O novo passo na fé de Marta é aderir a Jesus. E ela o faz: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (v. 27). A certeza de sua fé foi tão forte, que logo buscou a sua irmã, para que ela também conhecesse a novidade que Jesus trazia.

E Jesus se dirige em seguida ao local onde está Lázaro sepultado e suas irmãs vão com ele, seguidos pelo povo que ali estava. Mas Jesus ainda precisa insistir, pois Marta reluta na hora de retirar a pedra do túmulo: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias” (v. 39).  Ao que Ele responde: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (v. 40).  Em seguida, em oração, Jesus se dirige a Deus Pai.

O momento da oração explícita de Jesus ao Pai diante do túmulo constitui a conclusão natural de toda a vicissitude: “Pai, eu te dou graças, porque me ouviste!” (Jo 11,41). Esta frase mostra um vínculo contínuo de comunhão entre Jesus com Deus Pai.  Jesus pronuncia a oração, enquanto retiram a pedra da entrada do túmulo de Lázaro. E a sua oração se desenvolve: “Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste” (Jo 11,42).

Mediante esta prece, Jesus quer conduzir os seus discípulos à fé e mostrar a todos que Deus amou de tal modo o homem que enviou o seu único Filho para dar a vida a todos (cf. Jo 3,16).  A oração de Jesus constitui um testemunho vivo da presença de Deus no mundo através do Cristo Senhor, que se manifesta pela sua solidariedade a todos os que sofrem e ao mesmo tempo, se identifica com a Ressurreição e a Vida. Ele mesmo disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (vv. 25-26). É Deus quem dá a vida, e a oferece a aqueles que acreditam em seu Filho, Jesus Cristo.  E logo depois, diante do túmulo, Jesus grita com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” (v. 43). O morto saiu, atado de mãos e pés, com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano (cf. v. 44).

Uma lição que o evangelho deste domingo nos deixa é que Jesus não elimina a morte física, mas mostra o seu domínio sobre ela. Para quem é amigo de Jesus, a morte física não é mais do que um sono, do qual se acorda para descobrir a vida definitiva.  Usando uma linguagem humana, Jesus compara a morte ao sono (v. 11) e afirma que veio ao mundo para despertar a criatura humana desse sono.  Lázaro, então, se torna o símbolo dos que morrem na amizade de Deus, sempre que o elo dessa amizade seja Jesus, porque só Ele, nos faz passar da morte à vida. Os amigos de Jesus experimentam a morte física como uma passagem para a vida eterna, junto de Deus.  O relato da ressurreição de Lázaro pretende também trazer essa realidade.

Jesus também hoje diz a cada um de nós: “Vem para fora” (v. 43), para que possamos ter vida em abundância (cf. Jo 10,10). Ele nos ordena a sair do túmulo, a sair da escuridão, do lugar que os nossos pecados nos fizeram cair. Mas é o próprio Jesus que nos convida a uma vida nova. A nossa ressurreição começa quando decidimos obedecer este chamado do Senhor que nos exorta a sair das trevas, para encontrarmos a Luz, que é o próprio Cristo Senhor. E a Quaresma é este tempo favorável para a conversão, para sairmos da morte para a vida, ressurgir dos nossos pecados, para estarmos com Deus.

Dando continuidade ao nosso percurso quaresmal, possamos também crescer na fé e repetir como Marta: “Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és Cristo, o Filho de Deus” (Jo 11,27). Que saibamos reconhecer esta verdade, fortalecidos na esperança, revigorada a cada dia, especialmente nos momentos mais difíceis e de maior provação. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

 A cura do cego de nascença

Referência: Jo 9,1-41                                                       

Caríssimos irmãos e irmãs

Neste dia em que a liturgia nos convida à alegria, enquanto continuamos o nosso itinerário penitencial da quaresma, lancemos o nosso olhar para a narração do Evangelho que nos mostra a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41). O milagre narrado pelo evangelista São João, onde mostra a história de um homem que, pelas mãos de Jesus, vai passando das trevas de sua cegueira física para a visão ocular da luz, e desta, para a iluminação da fé em Cristo.

Inicialmente podemos lembrar que os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas, de acordo com a teologia oficial, como resultado do pecado. Os rabinos da época chegavam a discutir de onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência: se o defeito era o resultado de um pecado dos pais, ou se era o resultado de um pecado cometido pela criança ainda no ventre da mãe.

Segundo a concepção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira era considerada o resultado de um pecado especialmente grave: uma doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimônias religiosas no Templo.

Jesus rejeita esta teoria e afirma: “Nem ele, nem seus pais pecaram” (Jo 9,3). Diante do homem marcado por sua limitação e pelo sofrimento, Jesus não pensa em possíveis culpas, mas na bondade de Deus que criou o homem para a vida.  Jesus aproveita esta ocasião para mostrar que a missão que o Pai lhe confiou é a de ser “a luz do mundo” e encher de luz a vida dos que vivem nas trevas. No texto vemos ainda que Jesus passa das palavras aos atos e prepara-se para restituir a vista ao cego (v. 6-7), começando por cuspir no chão, fazer lodo com a saliva e ungir com esse lodo os olhos do cego. O gesto de fazer lodo reproduz, evidentemente, o gesto criador de Deus, que do barro, modelou o homem (cf. Gn 2,7).  A saliva transmitia a própria força ou energia vital, equivalente ao sopro de Deus, que deu vida a Adão (cf. Gn 2,7). Assim, Jesus juntou ao barro a sua própria energia vital, repetindo o gesto criador de Deus. A missão de Jesus é criar um homem novo, animado pelo Espírito de Jesus. No entanto, a cura não é imediata: requer-se a cooperação do enfermo. “Vai lavar-te na piscina de Siloé”; diz Jesus ao cego.

A palavra “siloé” vem do hebraico e significa “enviado”.  O cego, para recuperar a visão deve lavar-se, por ordem de Jesus, na piscina chamada “enviado” e, com isto, o homem começa a ver.  A humanidade, para poder “ver” as obras de Deus precisa também banhar-se no “enviado do Pai” que é o próprio Jesus.  A fé, a aceitação de Cristo como o enviado do Pai e Salvador, abre nossa vida para uma nova visão de Deus e do mundo.

O evangelista São João tem o cuidado de explicar que “Siloé” significa “enviado”, o que parece ser uma alusão à água de Jesus, o enviado do Pai. Essa água que torna os homens novos, livres das trevas; água que traz a vida, como disse à mulher samaritana (cf. Jo 4,5-42).  Mas é pelo sacramento do batismo que saímos das trevas para viver na luz, como homens novos.  Jesus, ao enviar o jovem cego à piscina de Siloé, quer mostrar que os olhos da fé começam a se abrir através do Batismo, quando recebemos precisamente o dom da fé.  Por isso, na antiguidade o batismo se chamava também “iluminação”, e receber o batismo é ser iluminado.

A imagem do cego, dependente e inválido, transformado em homem livre e independente, leva os seus concidadãos a interrogar-se. Essa cura suscita uma discussão, pois Jesus a realiza no dia de sábado, violando, segundo os fariseus, o preceito festivo. Deste modo, ao final da narração, Jesus e o cego são expulsos da sinagoga pelos fariseus: um por ter violado a lei e o outro porque, apesar da cura, é identificado como pecador de nascença.

O caminho do cego no campo da fé é feito por etapas, que começa com o conhecimento do nome de Jesus: “Aquele homem que se chama Jesus fez lodo e ungiu-me os olhos” (v. 11). Posteriormente, mediante as perguntas insistentes dos doutores da lei, passa ele a identificar Jesus como um profeta (v. 17) e, em seguida, um homem que está próximo de Deus (v. 31). Depois de ter sido afastado do Templo, excluído da sociedade, Jesus encontra novamente com o homem que era cego e novamente abre os seus olhos, desta vez para a fé, revelando a sua própria identidade: “Eu sou o Messias”, assim lhe diz. Nesta altura, aquele que era cego exclama: “Creio, Senhor!”, e prostra-se diante de Jesus (v. 38).

Em oposição à fé do cego curado está o endurecimento do coração dos fariseus que não querem aceitar o milagre, porque rejeitam acolher Jesus como o Messias. A multidão, ao contrário, detém-se a discutir sobre o que aconteceu e permanece distante e indiferente. Os próprios pais do cego sentem-se amedrontados pelo juízo dos outros.

A imagem da “luz” e das “trevas”, utilizada no texto, aparecia frequentemente na catequese primitiva. Para o apóstolo Paulo, viver nas “trevas” é viver longe de Deus; ao passo que viver na “luz” é acolher o dom da salvação que Deus oferece, aceitar a vida nova que Ele propõe, tornar-se “filho de Deus”. Os cristãos são aqueles que escolheram viver na “luz” (cf. Ef 5,8-14).  Mais ainda: o cristão não é só chamado a viver na “luz”, mas também a dar testemunho da “luz”.

Também nós, por causa do pecado original nascemos “cegos”, mas na pia batismal fomos iluminados pela graça de Cristo. No rito do Batismo, a entrega da vela, acesa no grande círio pascal, símbolo de Cristo Ressuscitado, é um sinal que ajuda a compreender o que acontece quando recebemos este sacramento.

Hoje, somos convidados a abrir-nos à luz de Cristo para dar fruto na nossa vida. Somos chamados para caminhar decididamente pela vereda da santidade. Ela tem a sua origem no Batismo. Também nós fomos iluminados por Cristo no Batismo, para podermos ser como “filhos da luz” (Ef 5, 8), com humildade, paciência e misericórdia. Nestes dias em que estamos nos preparando para a Páscoa reavivemos em nós o dom recebido no Batismo.

Este encontro de Jesus com o cego de nascença, o fez adquirir tanto a visão física quanto a visão da fé.  Tendo sido procurado por Jesus, e dando-se conta de tratar-se do Messias, prostrou-se diante dele, fazendo sua confissão de fé:  “Eu creio, Senhor!”.  Peçamos também nós ao Senhor que nos cure da cegueira pessoal e da cegueira espiritual, para que possamos abrir os nossos olhos à luz dos valores evangélicos: a vida e o amor, o trabalho e a justiça, a convivência e a solidariedade com os irmãos, para renovarmos assim nossa opção batismal.

Deixemos que o Senhor Jesus também nos cure, Ele que deseja dar a cada um de nós a luz de Deus!  Estejamos também conscientes da nossa cegueira, das nossas miopias, que nos impedem de tomar consciência do nosso próprio pecado (cf. Sl 18,14).  Possamos abrir o nosso coração à luz do Senhor. Confiemos à Virgem Maria o caminho quaresmal que estamos percorrendo neste dias, para que também nós, como o cego curado, com a graça de Cristo, possamos progredir rumo à Luz, que é o próprio Cristo, e renascer para uma vida nova. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

Jesus e a samaritana

Referência: JÓ 4,5-42

Meus caros irmãos e irmãs,

Para este domingo o texto evangélico nos apresenta o encontro de Jesus com a samaritana. O diálogo começa com o pedido de Jesus à mulher da Samaria: “Dá-me de beber” (Jo 4,5-7). Com um simples pedido de um pouco de água, ao meio-dia, inicia-se um caminho interior da samaritana, que irá culminar com a sua conversão.

O encontro de Jesus com a samaritana ocorre junto ao poço de Jacó. Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacó.  Os dados arqueológicos revelam que este poço de Jacó serviu aos samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C.

Junto a esse “poço” movimentam-se os personagens principais: Jesus e a samaritana.  A mulher aqui apresentada sem o nome próprio, pode estar se referindo à Samaria, que procura desesperadamente a água que é capaz de matar a sua sede de vida plena.  A samaritana não tem nome, mas certamente vários nomes lhe foram impostos por ter tido cinco maridos e conviver com o sexto, que não é seu marido e, apesar disso, continuar com sede da água que só Jesus, esposo da humanidade, pode dar.  Ela se aproxima, em um dia ensolarado, para buscar água. Ela não tem nome porque é a própria humanidade que está procurando, no sufoco do calor, algo que sacie de uma vez por todas sua sede.

Quando Jesus diz: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (Jo 4,10).  Aquela mulher começa a interessar-se por essa água misteriosa. Mas, inicialmente, ela fica confusa. Parece disposta a remediar a situação de falência de felicidade que caracteriza a sua vida, mas ainda não sabe bem como.

É aqui que entra a novidade de Jesus. Ele senta-se “junto do poço”, como se pretendesse ocupar o seu lugar; e propõe à samaritana uma “água viva”, que matará definitivamente a sua sede de vida eterna (vv. 10-14). Jesus passa a ser o “novo poço”, onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua sede.  Sentando junto ao poço, Jesus se dá a conhecer como a fonte da qual a humanidade inteira bebe. A partir de agora não se deve mais beber água da Lei ou das instituições, porque foram superadas pela fonte de água viva que é Jesus.

No Antigo Testamento a água da fonte, água viva, simbolizava a vida espiritual que Deus dispensa (cf. Ez 47,1ss), mas também simbolizava a Lei como fonte de vida (cf. Eclo 15,1-3). No Novo Testamento o evangelista São João identifica a água com o dom do Espírito Santo (cf. Jo 7,37-39).  Em Cristo nós temos a fonte de todos os dons que podemos esperar do Pai. Na cruz, Cristo jorrou sangue e água no momento em que seu peito foi perfurado (cf. Jo 19,34). E Jesus mesmo chegou a afirmar que aquele que nele crê, nele terá como beber, pois do seio de Jesus sairão rios de água viva (cf. Jo 7,38).

Jesus está com sede, mas quem acaba pedindo água é a mulher, pois ele tem a água capaz de saciar para sempre a sede de todos: ‘Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva.  Quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”(Jo Jo, 4,10.14).

A água que Jesus dá é o Espírito Santo, a força que vem de dentro e jorra para a vida eterna. A mulher e a humanidade tem sede dessa água e, por isso, pede: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Jo 14,15).

A mulher da Samaria responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro, que passa a ser inútil, e correndo, vai anunciar aos habitantes da cidade o desafio que Jesus lhe fez.  Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus.  O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis e incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de procura de felicidade falsa, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena.

O vínculo com Jesus transforma completamente a vida daquela mulher, que corre imediatamente a comunicar a boa nova ao povo da aldeia vizinha: “Vinde ver um homem que me disse tudo quanto fiz. Não será ele o Messias?” (Jo 4,29). A revelação de Jesus, acolhida com fé, torna-se palavra proclamada ao próximo e testemunhada através das escolhas concretas de vida. Eis a missão dos crentes, que nasce e se desenvolve a partir do encontro pessoal com o Senhor.

A samaritana, depois de encontrar o Cristo que lhe traz a água que mata a sua sede de felicidade, não limitou em guardar para si a descoberta; mas partiu para a cidade, a propor aos seus concidadãos a verdade que tinha encontrado.  Por fim, ela contou a todos a respeito de Jesus, o que resultou em um reavivamento religioso junto aos samaritanos. Aquela mulher acreditou em Jesus. Encontrou a água que mata a sede. E vai levá-la aos outros, aos seus conterrâneos.

No diálogo entre Jesus e a Samaritana vemos traçado o percurso espiritual ao qual somos chamados a redescobrir e a percorrer constantemente. Jesus quer nos levar, como fez com a Samaritana, a professar a fé em sua pessoa e depois, anunciar e testemunhar aos nossos irmãos a alegria desse encontro e as maravilhas que o seu amor realiza na nossa existência. A fé nasce do encontro com Jesus, reconhecido e acolhido como o Salvador. Quando o Senhor conquista o coração da samaritana, a sua existência se transforma e ela vai imediatamente sem hesitações comunicar a boa nova ao seu povo (cf. Jo 4,29).  Quando encontramos o Cristo sentimos necessidade e urgência de levá-lo também a todos os que nos rodeiam.

Chama a nossa atenção o caminho de conversão da samaritana. De pecadora a apóstola! Do fundo da miséria moral da sua vida, ela subiu em poucos momentos para as alturas da fé e do zelo em propagar o nome de Jesus.  Afinal, ela entendera e acolhera o dom de Deus.  Seu coração se abriu para as riquezas do Espírito Santo.  Que também nós possamos, a exemplo da samaritana, ser sinal do encontro do homem sedento para com Deus, que tanto quer a nossa conversão.

Abramos também nós, o coração à escuta da palavra de Deus para encontrar, como a samaritana, esse Jesus que nos revela seu amor e a sua identidade. Que a Virgem de Nazaré interceda sempre por nós, para que possamos obter este dom e sermos também anunciadores da boa nova que Cristo trouxe ao mundo. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

 A transfiguração do Senhor

Referência: Mt 17,1-9

Caríssimos irmãos e irmãs

Neste domingo, juntamente com o Apóstolo São Pedro podemos dizer: “É bom estarmos aqui” (Mt 17,4), reunidos junto do altar do Senhor para celebrarmos a Santa Eucaristia, enquanto prosseguimos a peregrinação quaresmal para a Páscoa. E neste segundo domingo da quaresma também nós somos convidados a subir ao Monte Tabor, a fim de meditar acerca da sugestiva narração da transfiguração de Jesus.

O texto evangélico começa dizendo que “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,1s). Na Sagrada Escritura, a montanha representa o lugar da proximidade com Deus e do encontro íntimo com ele pela oração.

Recordemos também que em um outro monte, o Sinai, Moisés recebeu os dez Mandamentos. Além disso, ainda sobre este monte, Elias recebeu de Deus a revelação divina de uma missão a cumprir. E no fim da vida, Moisés foi agraciado com a promessa de que Deus suscitaria um profeta maior do que ele, cumprindo as esperanças não realizadas no Antigo Testamento: “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir” (Dt 18,15).

Jesus é então apresentado a Pedro, Tiago e João como o grande profeta, o novo Moisés, como aquele que dá ao novo povo, na pessoa dos três discípulos, a nova lei, a revelação definitiva de Deus e é nele que toda a lei deve ser cumprida. A nuvem que se formou e os encobriu, demonstra que a voz que fala é divina.  Também Moisés tinha estado nesta montanha, como podemos ler no livro do Êxodo: “A nuvem cobriu o monte e a glória do Senhor repousou sobre o monte Sinai, que ficou envolvido na nuvem durante seis dias” (Ex 24,15s). Era o sinal de Deus que acompanhava seu povo.  Quando Moisés recebeu a lei, também a montanha foi envolvida numa nuvem, o que indicava a presença de Deus (cf. Ex 24,15s).

A finalidade desta transfiguração foi encorajar os discípulos para que não se deixassem vencer pelas provações que viriam em breve, com a paixão e morte de Cristo, por isto, a transfiguração de Jesus ocupa, nos evangelhos, lugar de especial importância, pois prepara os apóstolos para enfrentarem os dramáticos eventos do calvário, apresentando-lhes, com antecipação, aquela que será a plena e definitiva revelação da glória do Senhor no mistério pascal. Por isto, mediante este acontecimento, os discípulos são preparados para superar a terrível prova da paixão e compreender o mistério pascal de Cristo. Ao meditarmos esta página evangélica, preparamo-nos para reviver, também nós, os eventos decisivos da morte e ressurreição do Senhor, seguindo-o no caminho da cruz para chegarmos à luz e à glória.

Na transfiguração não é Jesus que recebe a revelação de Deus, mas é precisamente nele que Deus se revela e revela o seu rosto aos apóstolos. Portanto, quem quer conhecer Deus, deve contemplar o rosto de Jesus, o seu rosto transfigurado: Jesus é a revelação perfeita da santidade e da misericórdia do Pai.

Podemos dizer ainda que a transfiguração é uma revelação da pessoa de Jesus, da sua profunda realidade. Com efeito, as testemunhas oculares de tal acontecimento, ou seja, os três apóstolos foram envolvidos por uma nuvem luminosa, que na Sagrada Escritura anuncia sempre a presença de Deus, e ouviram uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” (v.5).  Este premente apelo a escutar o Cristo é um convite a deixar que a luz de Cristo ilumine a nossa vida e nos conceda a força para anunciarmos e testemunharmos o evangelho a todos. É um empenho que comporta, às vezes, não poucas dificuldades e sofrimentos.

Outras passagens da Sagrada Escritura também nos convidam a ouvir, a escutar a voz do Senhor, como, por exemplo, a parábola do Bom Pastor (cf. Jo 10,1-18), que mostra a relação entre escutar, crer e obedecer.  As ovelhas escutam a voz do Bom Pastor e ele caminha à frente e elas o seguem. Nesta parábola  Jesus diz que as ovelhas escutam a sua voz, mas escutar, seguir e conhecer Cristo é também acreditar.  Conhecer a voz de Cristo é identificar-se com sua mensagem, identificá-la e senti-la como própria.

Neste sentido, o Bom Pastor não é somente o modelo e exemplo de todos os pastores, mas é modelo e exemplo de todos os que crêem e querem obedecer a Deus.  Existe ainda um texto importante para compreender as exigências do escutar, que se encontra em 1Sm 3,10: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.  Esta resposta do jovem Samuel contém em si a atitude da completa atenção, a atitude que corresponde a uma obediência total à Palavra de Deus.

E na primeira leitura temos a exortação do Senhor feita a Abraão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo e te abençoarei…” (Gn 12,1s). Com a vocação de Abraão Deus intervém no decurso da história para formar para si um povo, através do qual a salvação atingiu todos os homens. E Abraão torna-se o modelo e o exemplo do crente que soube escutar e que soube obedecer.  Chamado por Deus, ele deixa a própria terra, com todas as seguranças que comporta, sustentado apenas pela fé e pela obediência confiante ao seu Senhor. Abraão confia em Deus. Ele ouve a palavra de Deus e a coloca em prática.

Deus pede também a Abraão que sacrifique o seu filho, dizendo: “Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, a quem amas, vai à terra de Moriá e oferece-o lá em holocausto, sobre uma montanha que eu te vou indicar” (Gn 22,2). Abraão dispõe-se a obedecer à ordem de Deus. Mas quando chegou o momento de sacrificar o seu filho, o Senhor se manifesta por meio de um anjo, que diz: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste o teu filho único” (Gn 22,12).

Precisamente em virtude do extraordinário testemunho de fé, oferecido naquela circunstância, Abraão obtém a promessa de uma numerosa descendência: “Por meio da tua descendência, todas as nações da terra serão abençoadas, porque me obedeceste” (Gn 22,18). Graças à sua confiança incondicionada na Palavra de Deus, Abraão torna-se o pai de todos os crentes.

Também o Senhor Deus “não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós” (Rm 8,32). Abraão com a sua disponibilidade a imolar o seu filho Isaac, prenuncia o sacrifício de Cristo para a salvação do mundo. A execução efetiva do sacrifício, que foi poupada a Abraão, irá ocorrer com Jesus Cristo. Ele mesmo informa os apóstolos, ao descer do monte da Transfiguração, para que não comentem nada do que viram, antes do Filho do homem ressuscitar dos mortos. O evangelista São Marcos acrescenta: “Eles observaram a recomendação” (Mc 9,10).

Seguindo o exemplo de Abraão também nós devemos prosseguir o nosso caminho quaresmal, renunciando a nossa vontade própria, para escutar a voz do Senhor, manifestada através de Jesus Cristo. Que saibamos permanecer em constante escuta da Palavra de Deus e que possamos ser capazes de realizar gestos de solidariedade, de paz e de perdão.  Para ouvir Jesus, precisamos estar próximos dele, segui-lo, como fez também a Virgem Maria, que acompanhou o seu filho Jesus até à cruz. Que ela interceda por cada um de nós, para que possamos ser os discípulos fiéis de Cristo, escutando e colocando em prática todos os seus ensinamentos. Assim seja.

 

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

I DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

A tentação no deserto

Referência: Mt 4,1-11

Caríssimos irmãos e irmãs

Na última quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas iniciamos o itinerário penitencial da quaresma. As cinzas nos lembram a fragilidade de cada homem e, ao mesmo tempo, nos orientam a olhar para o Cristo que, com a sua morte e ressurreição, resgatou o homem da escravidão do pecado e do erro. A quaresma é um caminho de quarenta dias que nos levará ao Tríduo Pascal, onde celebraremos a memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor.

Com efeito, quarenta é o número simbólico com que o Antigo e o Novo Testamento representam os momentos salientes da experiência da fé do Povo de Deus. Trata-se de um número que exprime o tempo da expectativa, da purificação, do regresso ao Senhor e da consciência de que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, cadenciado pela soma dos dias. Mas, indica uma perseverança paciente, uma prova longa, um período suficiente para ver as obras de Deus. É o tempo das decisões maduras e sábias.

O número quarenta aparece antes de tudo na história de Noé que, devido ao dilúvio, permanece quarenta dias e quarenta noites na arca, juntamente com a sua família e com os animais que Deus lhe tinha dito que levasse consigo. E espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar na terra firme (cf. Gn 7,4.12; 8,6). Também por quarenta dias e por quarenta noites, em jejum, Moisés permanece no monte Sinai, na presença do Senhor para receber a Lei (cf. Ex 24,18).

E ainda quarenta são os anos de viagem do povo judeu da terra do Egito para a Terra prometida, tempo propício para experimentar a fidelidade de Deus. O profeta Elias emprega quarenta dias para chegar ao Horeb, o monte onde se encontra com Deus (cf. 1Rs 19,8). Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obter o perdão de Deus (cf. Gn 3,4). Quarenta são também os anos dos reinos de Saul (cf. At 13,21), de Davi (cf. 2Sm 5,4-5) e de Salomão (cf. 1Rs 11,41), os três primeiros reis de Israel. O livro dos Atos dos Apóstolos nos diz que Jesus, depois da sua ressurreição, durante 40 dias, apareceu aos discípulos (cf. At 1,3). E antes de começar a vida pública, Jesus retira-se no deserto por quarenta dias, sem comer nem beber (cf. Mt 4,2), alimenta-se da Palavra de Deus, que utiliza como arma para derrotar o diabo. As tentações de Jesus evocam as que o povo judeu enfrentou no deserto, mas que não soube vencer.

Com este recorrente número quarenta é descrito um contexto espiritual que permanece atual e válido, e a Igreja, precisamente mediante os dias do período quaresmal, tenciona conservar o seu valor perdurável e fazer com que a sua eficácia esteja presente. A liturgia cristã da Quaresma tem a finalidade de favorecer um caminho de renovação espiritual, à luz desta longa experiência bíblica e, sobretudo, para aprender a imitar Jesus, que nos quarenta dias transcorridos no deserto, ensinou a vencer a tentação tendo como base a Palavra de Deus.

Neste tempo quaresmal, somos chamados a enfrentar o mal e a lutar contra os seus efeitos. A este propósito ressoa para nós o exemplo do próprio Cristo que a Liturgia da Palavra nos convida a meditar neste primeiro domingo da quaresma, ao nos propor a página evangélica que nos fala das tentações de Jesus no deserto (cf. Mt 4,1-11).

Com este relato evangélico temos o exemplo que Jesus deixa para nós, na tentativa de vencer o mal, o maligno. A cena das tentações antecede a vida pública de Jesus, segue-se imediatamente ao seu batismo (cf. Mt 3,13-17). Com isto, podemos observar que após receber o batismo e o Espírito Santo, será possível afrontar e vencer a tentação e o mal.

O texto nos diz que as tentações ocorreram no deserto: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” (Mt 4,1). O deserto, de acordo com o imaginário judaico, é o lugar onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono do Senhor; embora seja, também, o lugar do encontro com Deus e o lugar onde o povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus.

O deserto é ainda o lugar do silêncio, da pobreza, da solidão, onde o homem permanece desprovido de uma ajuda material, sendo ameaçado pela morte, pois onde não há água também não há vida, e onde o homem sente mais intensa a tentação. Jesus vai ao deserto, e ali padece a tentação de deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir uma outra direção, mais cômoda e de poder.

A perícope evangélica apresentada por São Mateus ressalta as opções de Jesus em três momentos. Inicialmente, o tentador sugere a Jesus que transforme as pedras em pão (v.3). O pão é um alimento essencial à vida, no entanto, Jesus responde: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (v. 4). A resposta de Jesus está em conformidade com Dt 8,3 e sugere que o seu alimento, isto é, a sua prioridade é o cumprimento da vontade do Pai.

A segunda tentação apresentada pelo evangelho nos fala da soberba da vida (v.5-7), e o tentador usa uma passagem bíblica (cf. Sl 91,11s), mas novamente o Senhor Jesus respondeu com uma outra passagem da Sagrada Escritura (cf. Dt 6,16), afirmando que seria errado abusar de Seus próprios poderes: “Não tentarás o Senhor teu Deus!” (v. 7).

Na terceira tentação Satanás diz a Jesus: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (Mt 4,9). Todo prazer, toda honra, satanás quer dar ao homem, desde que entregue a ele a sua alma, perdendo para sempre a comunhão com Deus. É a forma mais radical da tentação. Todo pecado tem algo disso em si: querer possuir uma felicidade, que não se responsabilize nem diante dos outros, nem diante de Deus.  Jesus nos mostra o único caminho: “Vai-te, Satanás… Adorarás somente ao Senhor teu Deus!” (Mt 4,10).

As três tentações apresentadas não são mais do que três faces de uma única tentação: a tentação de prescindir de Deus, de escolher um caminho que difere do projeto de Deus. Ao longo da sua vida, diante das diversas provocações que os adversários lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua total fidelidade à vontade de Deus.

E neste tempo quaresmal a Igreja nos indica os meios adequados para o combate quotidiano das sugestões do mal, são eles: a oração, os sacramentos, a penitência, a escuta atenta da Palavra de Deus, a vigilância e o jejum.  Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do tentador.

E a quaresma é um tempo em que devemos ouvir com mais atenção a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Um tempo para estarmos mais próximos de Deus, usando as armas da fé.

Ao longo desta quaresma, por várias vezes seremos exortados à conversão, que significa seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja um guia de vida. Deixar que Deus nos transforme significa reconhecer que somos criaturas que quotidianamente dependemos de Deus e do seu amor.  Por isto, devemos renovar o nosso compromisso de direcionar os nossos passos no caminho de uma conversão concreta e decisiva. E, para isto, invoquemos a assistência maternal de Nossa Senhora, para que, neste caminho quaresmal, possamos obter copiosos frutos de conversão. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro

(Referência: Mt  6,24-34)

The Money-Lenders, painting by Quentin Metsys at the Galleria Doria Pamphilj in Rome

Meus caros irmãos e irmãs,

O evangelho deste domingo faz parte do Sermão da Montanha e apresenta como tema central o desapego dos bens materiais e ressalta o sentido cristão da Providência. O evangelista São Mateus faz transparecer a forte advertência de Jesus contra os tesouros deste mundo e mostra o apego às riquezas como uma real escravidão. A exortação não deixa de ser também um desdobramento do Decálogo, em particular do primeiro mandamento, tal como o próprio Deus o declarou através dos seus profetas (cf. Ex 20,3-5).

Os ensinamentos de Jesus fazem um eco imediato do apelo solene apresentado pelo livro do Deuteronômio: “Ama o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças” (Dt 6, 5). E no Antigo Testamento ainda temos uma outra prescrição do Senhor: “Não terás outro deus além de mim” (Ex 20,3).  Jesus resumiu esses deveres do homem para com Deus nestas palavras: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente” (Mt 22, 37).

Nas duas liturgias dominicais passadas, Jesus nos ensinava qual deve ser a nossa atitude para com os outros. No Evangelho deste domingo, ele nos revela qual deve ser a nossa relação com os bens materiais e o lugar que eles devem ter na nossa vida e nos alerta: “Ninguém pode servir a dois senhores: pois ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v. 24).

A referência à incompatibilidade entre Deus e o dinheiro nos convida a uma particular reflexão neste campo. O dinheiro é o verdadeiro centro do poder no mundo. Ele compra consciências, poder, bem-estar, projeção social e, por ele, quantas mortes acontecem e o homem chega a renunciar à própria dignidade e, pelo dinheiro, acaba destruindo a natureza e desfigura até a obra da criação de Deus.

Quando Jesus diz: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” Em outras palavras, o texto quer nos dizer que somente Deus deve ser o alicerce da nossa existência.  O cristão deve distinguir-se pela absoluta confiança no Pai celeste, como foi para Jesus. É precisamente a relação com Deus Pai que dá sentido a toda a vida de Cristo, às suas palavras, aos seus gestos de salvação, até à sua paixão, morte e ressurreição. Com o seu testemunho de vida, Jesus demonstrou o que significa viver com os pés bem firmes no chão, atentos às situações concretas do próximo, e ao mesmo tempo, tendo sempre o coração no Céu, imerso na misericórdia de Deus.

Jesus nos coloca diante de dois senhores diametralmente opostos no que concerne aos seus respectivos interesses: Deus e o dinheiro.  A profissão de fé em Deus exige de nós crença e amor total, além da prática dos mandamentos e das virtudes. O dinheiro, por sua vez, nos inspira à ambição, vaidade, orgulho, menosprezo do próximo, nos faz ser seu servo e nos distancia de Deus.

O texto evangélico nos diz: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v. 24). O verbo servir, empregado neste versículo, refere-se à situação de um servo que, sem restrição alguma, entrega sua vontade a um senhor.  O Apóstolo São Paulo já nos adverte: “Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça?” (Rm 6,16). E São Pedro também ressalta: “O homem é feito escravo daquele que o venceu” (2Pd 2,19).  O apego às riquezas constitui, a partir de certo grau, uma real escravidão. As faculdades do escravo pertencem ao senhor, a quem deve prestar contas de todo o seu serviço.

O mal não está em ter dinheiro e servir-se dele.  O grande erro está quando o homem deixa que o dinheiro tome conta do seu coração e permite que ele se transforme em seu patrão.  Existem muitos casos de pessoas que abandonaram a fé e até mesmo a religião, porque deixaram se levar pelo fascínio dominador da riqueza.

Sempre que a lógica do “ter” domina o coração do homem, o dinheiro ocupa o lugar de Deus e passa a ser o seu ídolo.  Normalmente os ídolos acabam destruindo o homem. E Jesus apresenta o dinheiro como o pior de todos.  O dinheiro pode proporcionar roupas finas, prazeres, carros, viagens etc.  Mas isto pode ser perigoso, pois a pessoa pode tornar-se dependente do dinheiro e, com isto, pode perder a sua própria dignidade, passa a enganar os outros e tornando-se infiel à sua própria condição de filho de Deus.  O perigo ocorre quando Deus passa a ocupar um lugar secundário na vida do homem; e o dinheiro torna-se uma referência fundamental para a sua vida.

Também pode ocorrer o risco de alguém ficar lisonjeado com o dinheiro que ganha através do seu trabalho e, com isto, esquecer-se de Deus, por isto, a grande lição do Evangelho: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará a um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24).  Estas palavras de Jesus devem ecoar em nosso coração e, com sinceridade, devemos questionar a nós mesmos a quem servimos e quem é o centro da atenção da nossa vida.

Jesus também nos recorda que Deus nos conhece e que providencia tudo para nós. Os pássaros não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns, e encontram sempre o que comer. Os lírios do campo não trabalham nem fiam e são vestidos esplendorosamente. Pois bem, se para os animais e os vegetais, Deus assim providenciou, muito mais para nós, que somos seus filhos, criados à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26).

Os ensinamentos de Jesus para este domingo podem dar margem a mal-entendidos, se a interpretação ocorrer na linha da acomodação e da passividade. Jesus não quer nos dispensar do trabalho.  O Evangelho precisa ser compreendido em todo o seu conjunto harmonioso. O trabalho humano é algo digno e necessário, como bem ressalta o Apóstolo São Paulo, lembrando da obrigação do trabalho; chegando até mesmo a dizer que quem não quer trabalhar não tem o direito de comer (cf. 2Ts 3,10-12).

Nem mesmo as aves do céu deixam de lutar pela vida. Comparada com o homem, a ave é passiva, não prepara nem organiza sua comida, mas a encontra a partir do seu vôo. O homem, por sua vez, deve viver numa constante atitude de quem foi agraciado, pois recebeu ele inúmeros dons, frutos do amor e da misericórdia de Deus para com cada um dos seus filhos.  Na verdade, a sentença que deve dominar todo o seu horizonte deve ser sempre esta: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33), como enfatiza o Evangelho.

A proposta de Jesus é um convite a confiarmos totalmente na bondade e na solicitude paternal de Deus, mas, além disso, devemos estar comprometidos com o bem e a justiça, trabalhando todos os dias, a fim de que, o mundo novo da justiça, da verdade e da paz, se concretize.

Invoquemos uma vez mais a Virgem Maria, a quem chamamos de Mãe da divina Providência, que ela interceda por nós que estamos a caminho da terra prometida, que ela nos mostre o modo simples de viver, confiantes na proteção do Deus.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

O amor aos inimigos

Referência: Mt 5,38-48

Caros irmãos e irmãs,

Nestes últimos domingos do tempo comum, a liturgia vem alimentando nossa espiritualidade com significativos textos. Para hoje, somos convidados a meditar um dos tesouros da radicalidade evangélica apresentada por Jesus aos seus discípulos, onde Ele continua a propor, de forma muito concreta, a sua Lei de santidade.

Em um primeiro momento, o Evangelho faz uma referência à chamada “lei de talião” (vv. 38-42), consagrada na conhecida fórmula “olho por olho, dente por dente” e que aparece em vários textos do Antigo Testamento (cf. Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21). Trata-se de uma expressão que se tornou proverbial, e que descreve a falta de compaixão, a recusa de usar a clemência em relação ao culpado. Essa lei tinha sido imposta para defender o réu das vinganças sem limites, das represálias brutais, dos excessos nas punições.  Nos tempos antigos, quem conseguisse capturar o responsável por alguma maldade cometida, podia submetê-lo a punições severas, visando a dissuadi-lo, como também dissuadir os demais, a não cometer erros semelhantes.  A pessoa teria que pagar não só pelo seu crime, mas também por todos os outros crimes cujos responsáveis não tinham sido descobertos.

Esta vingança era um método antiquado e desumano de praticar a justiça, mas servia para manter a ordem naquela sociedade.  Neste contexto social, foi introduzida esta nova norma: “Olho por olho, dente por dente”, alicerçada sob a ideia da recusa do perdão, baseada em uma justiça exigente de igualdade, que acaba fazendo surgir, pela sua própria dureza, um convívio atroz.

Contudo, Jesus propõe algo novo, pois, na sua perspectiva, é preciso interromper o curso da violência e, para isso, propõe aos seus discípulos a não resposta às eventuais provocações e a não retribuir o outro com o mal, mas com o bem.  O Senhor nos adverte não só a receber com paciência os golpes que nos ferem, mas a apresentar com humildade a outra face. A finalidade da lei era ensinar a não fazer ao outro aquilo que não queremos que nos façam. Por isto, somos chamados a amputar as nossas más ações.

Com o objetivo de tornar mais clara a sua proposta, Jesus apresenta alguns casos concretos. Inicialmente, pede para não responder com a mesma moeda àquele que nos agride fisicamente, mas que se desarme o violento, oferecendo a outra face (v. 39); em seguida, Jesus recomenda que, diante de uma exigência exorbitante, como a entrega da túnica, isto é, da peça de roupa mais fundamental, que não era tirada senão àquele que era vendido como escravo (cf. Gn 37,23), se responda entregando ainda mais (v. 40).

Um outro exemplo que o Evangelho nos apresenta,  refere-se ao amor aos inimigos: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (v. 44). Trata-se de uma nova norma apresentada por Jesus.  Uma novidade que exige uma autêntica revolução das mentalidades. Para Jesus, o amor deve atingir a todos, sem exceção, inclusive aos inimigos. Fica, assim, abolida qualquer discriminação; sendo retiradas todas as barreiras que separam os homens. Isto porque Deus também não faz discriminação no seu amor. Ele é o Pai que não distingue entre amigos e inimigos, que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre bons e maus, e oferece o seu amor a todos, inclusive aos indignos (v. 45). Esta é a nova visão do mundo e dos seus valores que o Cristo veio trazer à terra.

Para avaliar adequadamente o significado da lei em nossa vida espiritual é bom estarmos advertidos de que a retidão e a sinceridade são conquistas laboriosas que podemos atingir com o auxílio da graça do Senhor. A atitude postulada pelo Evangelho consiste em não apenas em suportar passivamente as injúrias recebidas, mas colocar uma iniciativa positiva de amor e de bem: amar o inimigo, retribuir com o bem em troca do mal.  É também o que nos diz o apóstolo São Paulo: “A ninguém pagarás o mal com o mal… não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12,14s).

Nisto, observa-se a identidade que devemos ter para com o nosso Criador, quando o Evangelho também acentua: “Haveis, pois, de ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Estas palavras são dirigidas a cada batizado. Somos chamados a imitar a santidade e a perfeição de Deus, sendo perfeitos na compaixão, no amor, no perdão e na misericórdia.

Com estes ensinamentos, Jesus nos mostra a raiz e a causa de todos os males, como também o remédio que nos traz todos os bens.  A nossa perfeição é viver como filhos de Deus, cumprindo concretamente a sua vontade. Isto pode parecer uma meta inatingível, porém, as normas concretas apresentadas pelo Evangelho mostram como é o comportamento de Deus, o que deve se tornar também a regra do nosso agir. Na verdade, a nossa linguagem deve ser sempre a do Evangelho.

Os ensinamentos do Senhor têm como objetivo a nossa purificação para não incorrermos ao pecado.  Neste sentido, o próprio Cristo é o maior exemplo para todos nós, pois ele mesmo nos diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e achareis repouso para as vossas almas” (Mt 11,29).

E na segunda leitura, São Paulo ainda nos adverte: “Sois templo de Deus… o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós” (1Cor 3, 16-17). Neste templo que somos nós, celebra-se uma liturgia existencial: a da bondade, do perdão, do serviço; numa palavra, a liturgia do amor.  O templo que somos nós, não pode ser profanado e exige vigilância e zelo. Se estivermos  conscientes desta realidade, e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro, eloquente e eficaz.  Nós somos como uma construção sagrada onde Deus mora.

O convite de Cristo a nos deixarmos envolver pela sua exigente proposta evangélica ressoa com vigor para cada um de nós.  A liturgia da Palavra deste domingo nos estimula a rever a nossa relação com Jesus, a procurar o seu rosto sem nos cansarmos.  E para testemunharmos com maior zelo e ardor estas atitudes de santidade, saibamos amar aqueles que nos são hostis; abençoemos quem fala mal de nós; saudemos com um sorriso a quem talvez não o mereça; saibamos esquecer as humilhações sofridas e deixemo-nos guiar sempre pelo Espírito de Cristo.

Somos hoje chamados à santidade e à perfeição. O caminho do cristão é um caminho que exige, de cada ser humano, um compromisso sério.  Já na primeira leitura (cf. Lv 19,1-2.17-18), temos um apelo veemente à santidade: viver na comunhão com o Deus e também com o próximo.

Saibamos colocar em prática as palavras do Cristo que assim diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus” (Mt 5, 44-45). Quem acolhe o Senhor na própria vida e o ama com todo o coração é capaz de um novo início, um começar de novo. Se estivermos conscientes desta realidade e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro e eficaz.

Invoquemos a Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, para que nos ensine a viver no amor e na unidade.  Assim seja!

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

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