SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – B – Jesus foi levado a ceu

Mc 16, 15-20

Meus caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste domingo nos convida a contemplar o mistério da Ascensão do Senhor. Quarenta dias depois da Ressurreição, segundo o Livro dos Atos dos Apóstolos, Jesus subiu ao Céu, ou seja, voltou para o Pai, pelo qual tinha sido enviado ao mundo. A Ascensão do Senhor marca o cumprimento da salvação iniciada com a Encarnação. Depois de ter instruído pela última vez os seus discípulos, Jesus sobe ao Céu (cf. Mc 16,19). Contudo, Ele “não se separou da nossa condição”; com efeito, na sua humanidade, nos assumiu consigo na intimidade do Pai e, deste modo, revelou o destino final da nossa peregrinação terrena. Assim como por nós desceu do céu, e por nós padeceu e morreu na cruz, também ressuscitou por nós e subiu a Deus.

No Livro dos Atos dos Apóstolos, que temos como primeira leitura, Jesus se despede dos seus discípulos com estas palavras: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até aos confins do mundo” (At 1,8). Em seguida, o autor sagrado acrescenta: “Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo” (v. 9). É o mistério da Ascensão, que celebramos neste domingo solenemente.

Dizer que Jesus “foi levado ao céu”, indica que ele não entra em um lugar, mas em uma nova dimensão. Ir para o céu, significa ir para Deus; estar no céu significa estar junto de Deus. Ascensão de Cristo significa a tomada de posse do Filho do homem crucificado e ressuscitado na realeza de Deus sobre o mundo.

A Ascensão do Senhor ao céu significa que ele já não pertence ao mundo da corrupção e da morte que condicionam a nossa vida, e que ele pertence completamente a Deus. Em quase todos os povos, o céu identifica-se com a morada da divindade. Também a Sagrada Escritura utiliza esta linguagem espacial: “Glória a Deus no alto do céu e paz na terra aos homens” (Lc 2,14). As palavras da oração “Pai nosso que estás nos céus”, mostram a morada de Deus, mas sabemos que ele está no céu, na terra e em todo lugar. Ele não se afastou de nós, mas agora, graças ao seu ser com o Pai, está próximo de cada um de nós, para sempre. Ir ao Pai significa não tanto deixar esta terra, porque ele também continua conosco, como havia prometido: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20), por isto ele nos ouve em nossas orações e está sempre perto de nós.

A Ascensão nos diz que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; assim, todas as vezes que rezamos, a terra une-se ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto a sua fumaça, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus e é por ele ouvida e atendida.

Quando falamos que Deus está “nos céus” significa também que ele “vive em uma luz inacessível”; que o diferencia de nós. O céu, em sentido religioso, é mais um estado que um lugar. Deus está fora do espaço e do tempo e assim é seu paraíso. Ao falarmos que Jesus “subiu ao céu”, lembramos também do Credo, onde professamos: “Subiu ao céu e está sentado à direita do Pai”. As palavras do anjo: “Galileus, o que fazeis olhando para o céu?” (At 1,11), contêm uma advertência: não devem ficar olhando para cima, ao céu, como para descobrir aonde vai estar Cristo, mas sim viver na espera de sua volta, prosseguir sua missão, levar seu Evangelho até os confins da terra.

Depois de ter suportado a humilhação da Sua paixão e morte, Jesus tomou o Seu lugar à direita de Deus e ao lado do Pai eterno. Jesus foi ao Pai, pois ele mesmo já havia dito: “Vou para junto do Pai” (Jo 14,12); e depois volta a dizer: “Convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for; o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei” (Jo 16,7).

Jesus não subiu a um céu já existente, mas foi formar o céu, como disse certa vez: “Vou preparar-vos um lugar: Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estiver, também vós estejais comigo” (Jo 14,2-3). O céu é, então, o corpo de Cristo ressuscitado com o qual irão reencontrar-se, integrar-se para formar um só Espírito com Ele, todos os remidos (cf. 1Cor 6,17).

No momento em que Jesus se separa dos Apóstolos, dá-lhes o mandato de O testemunharem em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos extremos confins da terra (cf. At 1,8) e de anunciarem a todos os povos “a conversão e o perdão dos pecados” (Lc 24,47). Também no Evangelho ouvimos uma vez mais o mandato do Senhor: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura” (Mc 16,15). Os discípulos foram enviados por toda a parte, dando testemunho por meio de sinais e prodígios, para que se acreditasse neles, pois narravam o que eles mesmos tinham visto.

Desde o dia da Ascensão, cada comunidade cristã progride no seu itinerário terreno rumo ao cumprimento das promessas messiânicas, alimentada pela Palavra de Deus e pelo Corpo e Sangue do seu Senhor. Somos fracos e pecadores, e temos necessidade daquela profunda transformação de espírito, de mente e de vida que na Sagrada Escritura se chama precisamente “metánoia”, ou seja, conversão. E esta conversão ocorre a partir do momento em que temos coragem de mudar o rumo da nossa vida, passando a ser alimentada pela palavra de Deus e pelos sacramentos.

Nesta solenidade da Ascensão do Senhor, podemos voltar o nosso olhar também para a figura de São Bento, pois, como nos narra São Gregório Magno, ele também foi “elevado aos céus” numa profunda experiência mística. E, dentre tantos ensinamentos que nos deixa em sua Regra, São Bento também nos convida a procurar a Deus, como compromisso fundamental de todos. O ser humano não se realiza plenamente a si mesmo, não pode ser feliz sem Deus. Consciente desta verdade, insiste São Bento que “nada deve antepor ao amor de Cristo” (RB 4,21). Nisto consiste a santidade, proposta válida para cada cristão.

Também nós devemos sentir ressoar este apelo de São Bento à conservação do coração fixo em Cristo, a nada antepor a Ele, cultivando continuamente um amor especial pela Palavra de Deus na “lectio divina”, que hoje se tornou patrimônio comum de muitas pessoas.

Supliquemos ainda a intercessão da Virgem Maria, para que nos faça trilhar continuamente o caminho da perfeição, para um dia estarmos também na glória celeste, na companhia de todos os santos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VI – DOMINGO DO TEMPO DA PASCOA – B – Eu vos chamo amigos…

  • Jo 15,9-17

Caros irmãos e irmãs,

Chegamos ao sexto domingo do tempo pascal e o evangelho prescrito para este dia nos situa outra vez em Jerusalém, onde Jesus se encontra com os seus discípulos. As autoridades judaicas já haviam decidido pela morte de Jesus (cf. Jo 11,45-57). A morte na cruz é o cenário imediato. E Jesus está plenamente consciente disso. Os discípulos também já perceberam estes sinais e estão apreensivos. É neste contexto que podemos situar a última ceia de Jesus com os discípulos. Trata-se de uma “ceia de despedida” e tudo o que for dito por Jesus soa a “testamento final”. Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos ficarão no mundo, continuando a sua missão. Nesse momento de despedida, Jesus recorda aos discípulos o essencial da sua mensagem e se dirige a eles como amigos, escolhidos para serem colaboradores no trabalho apostólico.

Podemos extrair deste texto evangélico muitos ensinamentos, mas concentremos a nossa atenção nestas significativas palavras de Jesus: “Já não vos chamo servos… Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (cf. Jo 15,15). Ele nos oferece a sua amizade, lembrando que não existem segredos entre amigos: Cristo nos diz tudo quando ouve o Pai; nos oferece a sua plena confiança e, com a confiança, também o conhecimento. Ele nos revela o seu rosto, o seu coração, nos mostra a sua ternura, o seu amor apaixonado que vai até à loucura da cruz.

No início do texto Jesus diz: “Já não vos chamo servos…” (v.15). Como de fato, o conceito que predominava no Antigo Testamento para indicar o relacionamento do homem com Deus era o conceito de servidão. Deus é o Senhor, nós os seus servos. Ao ser chamado por Deus, responde, por exemplo, o jovem Samuel: “Fala Senhor, que teu servo escuta” (cf. 1Sm 3,1-10). No canto do “Benedictus”, Davi é apresentado como o “servo do Senhor”. E é exatamente isto que Maria diz no momento da anunciação do anjo: “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1,38). E, no canto do “Magnificat”, Maria volta a dizer: “Porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48). Agora Jesus nos diz a consoladora palavra: “Já não vos chamo servos… Eu vos chamo amigos” (Jo 15,15).

E sobre a amizade, a Sagrada Escritura nos apresenta ricos testemunhos. O Primeiro livro de Samuel nos narra o relacionamento de Davi e Jônatas como uma das mais belas experiências de amizade (cf. 1Sm 18). O Livro do Eclesiástico frisa: “Aqueles que amam e respeitam o Senhor encontrarão o amigo fiel; Amigo fiel é proteção poderosa, e quem o encontrar, terá encontrado um tesouro. Amigo fiel não tem preço, e o seu valor é incalculável. Amigo fiel é remédio que cura, e os que temem ao Senhor o encontrarão” (Eclo 5,16; 6,14-16). O Livro dos Provérbios observa: “Em todo o tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão” (Prov 17,17).

Os amigos verdadeiros são tesouros de inestimável valor, porque tornam o homem capaz de encarar e aceitar sua real condição: a fragilidade humana. A fragilidade desempenha importante papel na vida humana. É por causa dela que os homens precisam de amigos. Não somos fracos nos mesmos pontos, assim, cada um supre e completa o outro, compensando mutuamente as carências, deficiências e fragilidades. A amizade pode ter como origem um instinto de sobrevivência da espécie, com a necessidade de proteger e ser protegido. A amizade é uma experiência sublime; sua existência na vida de um ser humano é a principal prova de que ele não está sozinho. Amigo é companheiro, uma presença que nos impulsiona e torna qualquer dificuldade mais fácil de ser vencida. Uma amizade só se constrói com base na confiança, respeito e fidelidade. É uma das mais expressivas formas de amor. É uma virtude extremamente necessária à vida. Mesmo que possuamos diversos bens, riqueza, saúde, poder, ainda assim, não serão suficientes para nossa realização plena, pois nos falta a essencial e indispensável amizade. Certamente ninguém escolheria viver sem amigos (cf. T. MERTON, Homem algum é uma Ilha, Campinas, 2003, p. 150).

Uma amizade consolidada no tempo pode nos transformar, porque, antes de tudo, o amigo nos ama como somos. É com ele que partilhamos as alegrias e as tristezas e nele encontramos o apoio que faz diminuir as nossas mágoas. O que muitas vezes os pais não conseguem, um amigo consegue fazer, sobretudo, nos corrigir. Ele atinge o coração. O amigo é capaz de dizer as coisas como elas são. Ele nos diz as verdades que não gostaríamos de ouvir. Podem ocorrer rupturas, pode surgir o afastamento, mas os dias passam e a tendência é voltar atrás. Ambos se entendem. Não conseguem ficar longe um do outro. A amizade é mais forte que o desentendimento. Muitas vezes só a amizade é capaz de nos dobrar. Ter amigos é essencial. Ser amigo é o segredo da vida e da vitória. Porque na amizade há amor, amor puro, amor fraternal.

Para Santo Agostinho a amizade é um dom de Deus. E ainda sustenta: “Nem sempre aquele que é indulgente conosco é nosso amigo, nem o que nos castiga, nosso inimigo. São melhores as feridas causadas por um amigo que os falsos beijos de um inimigo. É melhor amar com severidade a enganar com suavidade” (S. AGOSTINHO, As confissões, Livro II, cap. 9, p. 55). Para São Tomás de Aquino “a amizade diminui a dor e a tristeza” (S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica, I-II, q. 36, a. 3). Segundo Aristóteles o “amigo é um outro eu… Sem amizade o homem não pode ser feliz… O verdadeiro amigo deve ser capaz de chegar até as últimas consequências, a ponto de doar não só os próprios bens, mas também a própria vida pelo amigo” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, Martin Claret, p. 173). O dar a vida pelos amigos tem, em Jesus, um valor infinitamente superior ao que pensaram os filósofos de todos os tempos.

Jesus entende o seu amor como um amor entre amigos. Não é um amor que vem de cima, é um amor que vê no outro um igual, quando a dedicação ao outro vem antes do próprio interesse. E o auge desse amor está na morte de Jesus pelos amigos que somos nós: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,15). Jesus deu a vida pelos seus amigos. Amigos que não o tinham compreendido, que no momento crucial o abandonaram e o traíram e renegaram. O amor do amigo é, tanto para os judeus quanto para os gregos, o maior bem e o cumprimento de seu desejo mais profundo.

Jesus chama os seus discípulos de amigos. Eles já não são servos que não sabem o que o senhor faz e que não têm acesso ao coração de seu amo. O servo está distante do seu senhor, ele está sempre no escuro e temeroso, enquanto os discípulos de Jesus são por ele amados incondicionalmente. Nessa imagem da amizade, o Evangelista São João descreve o mistério da nova relação de Deus com os homens, que se tornou realidade por Jesus. Somos amigos de Deus. E quando somos amigos, o amor flui espontaneamente. Na imagem do amigo, Jesus nos mostra a nossa dignidade. Passamos a ser íntimos dele. Ele se abriu conosco, nos revelou o mistério do Pai. Com isto percebemos como somos importantes para Jesus, a ponto de entregar a sua vida por nós (cf. A. GRÜN, Jesus, porta para a vida, São Paulo, p. 128). Sob este aspecto podemos compreender as palavras de São Paulo: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35), pois “Ele me amou e se entregou por mim!” (Gl 2,20). O cristianismo eleva o conceito de amizade, onde passa a ter o caráter de dom, vocação, comunhão como fruto da amizade que Cristo viveu com o Pai, tornando-se agora o referencial para o amor humano.

Há algo comovedor nesta declaração de Jesus: “Eu vos chamo amigos”. É uma afirmação que nos emociona. Quanta dignidade para nós termos um amigo, mas uma dignidade maior está em sermos amigos de Jesus. Mas não podemos esquecer que para Jesus, a amizade está também na comunhão das vontades: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,14). Nesta comunhão realiza-se a nossa redenção: sermos amigos de Jesus é também sermos amigos de Deus. Com isto, somos chamados a uma relação pessoal, cheia de confiança e de amizade com a pessoa de Jesus. Não podemos esquecer que a verdadeira amizade com Cristo se expressa na forma de viver, por isto, precisamos nos empenhar sempre em abrir o nosso coração à amizade com Cristo. Permitamos que ele seja nosso amigo, que ele participe da nossa vida e que possamos fazer sempre a sua vontade. Assim seja.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – Permanecei em mim e eu permanecerei em voz

Jo 15,1-8

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste quinto Domingo da Páscoa nos apresenta Jesus como a verdadeira videira plantada por Deus. O texto evangélico nos exorta a permanecermos unidos a Cristo, pois é dele que recebemos a vida em plenitude.

No Antigo Testamento, a “videira” e a “vinha” eram símbolos do Povo de Deus. O vinho é símbolo da alegria e do amor. Israel é muitas vezes comparado com a vinha fecunda, quando é fiel a Deus; mas, se se afasta dele, torna-se estéril, incapaz de produzir aquele “vinho que alegra o coração do homem”, como canta o Salmo 104. A vinha verdadeira de Deus é Jesus que, com o seu sacrifício de amor, nos oferece a salvação, nos abre o caminho para fazermos parte desta vinha.

A videira, escolhida aqui como elemento de comparação, é uma das plantas mais importantes no Oriente antigo. Por trás do mistério do vinho encontra-se a realidade de que Ele se fez fruto e vinho para nós, que o seu sangue, na Eucaristia, torna realidade esta grande efetividade da videira. Jesus exorta os seus discípulos a permanecer unidos a Ele como os ramos à videira. Trata-se de uma parábola verdadeiramente significativa, porque expressa com grande eficiência que a vida cristã é mistério de comunhão com Jesus: “Quem permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Um ramo que não dá fruto é um ramo improdutivo, um ramo morto. E para dar frutos necessitamos da seiva da videira, que é Cristo. Sem Ele nada podemos fazer, porque sem a seiva os ramos secam. O segredo da fecundidade espiritual é a união com Deus, união que se realiza sobretudo na Eucaristia. Deus se torna corpo conosco e sangue conosco, com isto, permanecemos na comunhão com o próprio Deus: “Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele” (Jo 6,56).

Se aceitamos permanecer com Jesus, Ele nos introduz na sua intimidade. Então podemos dar frutos que terão o sabor de Jesus. Isso se cumpre de modo pleno na Eucaristia, pela qual somos alimentados com o seu corpo e o seu sangue de Ressuscitado. Ele coloca em nós o poder da sua Vida, que passa pelo pão e pelo vinho, que vão vivificar cada célula do nosso corpo, isto é, cada detalhe da nossa vida, cada uma das relações que criamos com os outros.

E o trecho do Evangelho nos chama a permanecer na vinha do Senhor, a ser servidores do seu mistério. O verbo “permanecer” aparece várias vezes no evangelho. O ramo é uma extensão e um prolongamento da videira. O ramo que não permanece unido à videira, resseca e não dá fruto, é cortado e jogado ao fogo; não serve realmente para nada. Os discípulos são os “ramos” que estão unidos à “videira” que é Jesus e que dela recebem a vida. Estes “ramos”, no entanto, não têm vida própria e não podem produzir frutos por si próprios; eles necessitam da seiva que lhes é comunicada por Jesus. Por isso, são convidados a permanecer em Jesus (v. 4).

Com efeito, o ramo vive em virtude de sua união com a videira, e a construção se mantém, graças à firmeza de sua base, portanto, faltando-lhe apoio, desmoronar-se-á. Nós não devemos apenas nos unir a cristo, mas também nos incorporarmos plenamente a ele, pois qualquer separação nos causará a morte (cf. S. JOÃO CRISÓSTOMO, Homilias, PG 61-72-73). Para os discípulos, que são “os ramos”, interromper a relação com Jesus significa cortar a relação com a fonte de vida e condenar-se à esterilidade.

Por isso, o “agricultor”, Deus, atua no sentido de que o “ramo”, o discípulo, se identifique cada vez mais com a “videira”, Jesus Cristo, e produza frutos de amor, de doação e de serviço aos irmãos. A ação de Deus está no sentido de limpar o ramo, para que ele possa dar mais frutos. “Limpar” significa chamá-lo a um processo de conversão contínua que o leve a recusar caminhos de egoísmo e de fechamento, para se abrir ao amor. Dito de outra forma: a limpeza dos “ramos” se faz através de uma adesão cada vez mais fiel a Jesus e à sua proposta de amor (v. 2).

O cristão tem em Jesus a sua referência, se identifica e vive em comunhão com Ele. O cristão vive de Cristo, vive com Cristo e vive para Cristo. Precisamos ficar atentos para nunca interrompermos a nossa união com Ele e tornarmos ramos secos e estéreis; e para não sermos “ramos” secos, é preciso renovarmos a cada dia o nosso “sim” a Jesus e às suas propostas. Permanecendo nele, também as suas palavras permanecem em nós; peçamos então o que quisermos, pois tudo nos será concedido. Se o que pedimos não nos é dado, é porque não o pedimos de acordo com a nossa permanência nele (cf. S. AGOSTINHO, Tractatus 81,4: CCL 36, 531-532).

A vida de uma árvore se caracteriza pelos frutos que ela produz. Cabe aos discípulos de Cristo produzir frutos de verdade. Não é possível continuar unido a Cristo e receber a vida de Cristo, estando em ruptura com os nossos irmãos. Por isso, a Primeira Carta de João, que abre a liturgia da Palavra deste domingo, apresenta o tema do amor ao próximo. Os hereges afirmavam que o essencial da fé residia na vida de comunhão com Deus; mas, ocupados a olhar para o céu, negligenciavam o amor ao próximo (cf. 1Jo 2,9). A sua experiência religiosa era voltada para o céu, mas alienada das realidades do mundo. Para o Evangelista São João, o amor ao próximo é uma exigência central da vida cristã. Jesus demonstrou isto ao amar os homens até ao extremo de dar a vida por eles, na cruz. Também esta deve ser a atitude de cada discípulo de Jesus (cf. 1Jo 3,16). A realização plena do homem depende da sua capacidade de amar os irmãos.

O evangelista São João ainda ressalta que o amor se vive com ações concretas em favor dos irmãos (cf. v. 18). Se os nossos gestos não derramam amor sobre aqueles que caminham ao nosso lado, se não construímos a paz, se não somos arautos da reconciliação e se não defendemos a verdade, estamos a trair Jesus e a missão que Ele nos confiou. A vida de Jesus tem de transparecer nos nossos gestos e atingir o mundo e os homens, a partir de nós.

O verdadeiro “permanecer” em Cristo deve estar relacionado ao amor aos irmãos, como também na eficácia da oração, que nos garante este permanecer com ele. Cada um de nós é um ramo, que só vive se fizer crescer, a cada dia, na oração, na participação nos Sacramentos e na caridade a sua união com o Senhor. E quem ama Jesus, videira verdadeira, produz frutos de fé para uma abundância espiritual.

O evangelista São João nos ensina sabiamente de que modo estamos em Cristo e ele em nós, quando diz: “A prova de que permanecemos nele, e ele em nós, é que ele nos deu algo de seu Espírito (1Jo 4,13). Assim como a raiz faz chegar aos ramos sua seiva natural, também o Cristo Senhor concede àqueles que lhe estão unidos pela fé, o seu Espírito. Ele os conduz à santidade perfeita (cf. S. CIRILO DE ALEXANDRIA, Comentário sobre o Evangelho de São João, PG 74, 331-334).

Um caminho seguro para nos mantermos unidos a Cristo, como ramos ligados à videira, é recorrer constantemente à intercessão da Virgem Maria, para que ela possa continuar a velar sobre cada um de nós para estarmos sempre unidos à videira, que é Cristo e possamos permanecer solidamente enxertados nele, que é o caminho, a verdade e a vida. Assim seja.

  • D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
    Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DA PASCOA – Eu sou o Bom Pastor

Jo 10,11-18

Caros irmãos e irmãs,

Neste quarto domingo da Páscoa a Liturgia da Palavra nos propõe um trecho do Evangelho segundo São João, no qual Jesus é apresentado como “Bom Pastor”. É este, portanto, o tema central que a Palavra de Deus põe à nossa reflexão para este domingo. Cristo é apresentado como o modelo do Bom Pastor, que ama de forma gratuita e desinteressada as suas ovelhas, até ser capaz de dar a vida por elas.

Lançando um olhar para a história podemos constatar que no Antigo Oriente, os reis costumavam designar a si mesmos como pastores dos seus povos. No Antigo Testamento, Moisés e Davi, antes de serem chefes e pastores do Povo de Deus, foram efetivamente pastores de rebanhos. Uma das imagens mais usadas no Antigo Testamento para expressar o cuidado de Deus para com o seu povo, sobretudo o carinho com que o conduziu da escravidão do Egito para a Terra Prometida, é a imagem do pastor. Encontramos essas imagens nos livros dos profetas Isaías e Ezequiel (cf. Ez 34,12ss) e, de uma maneira muito viva, no salmo 22, onde lemos: “O Senhor é meu pastor, nada me falta”. O Salmo vai descrevendo como o pastor guia seu rebanho para verdes pastagens e para águas tranquilas; leva-o por caminhos seguros; infunde-lhe confiança pelo cajado que empunha em sua mão; e, mesmo que seja preciso atravessar um vale escuro, o rebanho não tem medo, porque sabe que está sendo bem guiado. De um lado está a dedicação total do pastor, e do outro, a confiança do rebanho.

Essas considerações que o Antigo Testamento nos revela a respeito de Deus concretizam-se plenamente em Jesus Cristo, o Deus conosco. E na liturgia deste Domingo pascal ouvimos uma vez mais proclamar que Jesus Cristo é o Bom Pastor (cf. Jo 10,11-15). O Pastor único de um só rebanho (v. 16). E o Pastor que dá a vida pelas ovelhas (vv. 15-18). O evangelho nos apresenta o retrato do Bom Pastor, tal como o próprio Cristo o delineou. Jesus faz um paralelo entre o pastor e o mercenário (v. 11-13). Existe uma grande diferença entre o comportamento de um e de outro. O mercenário é uma pessoa contratada para cuidar do rebanho de outra pessoa, e faz isto visando o seu salário; não faz por amor, como quem cuida daquilo que lhe é próprio. Limita-se a cumprir o seu contrato e determinadas obrigações, sem que o seu coração esteja com o rebanho. Ele tem uma função de enquadrar o rebanho e de o dirigir, mas a sua ação é sempre ditada por uma lógica de interesse. Por isso, quando sente que há perigo, abandona o rebanho à sua sorte, a fim de salvaguardar os seus objetivos pessoais e a sua posição. Esta comparação com o mercenário, “que não é pastor e não é dono das ovelhas” (v.12), faz ressaltar as qualidades do verdadeiro pastor, aquele que presta o seu serviço por amor e não por dinheiro. Está interessado em fazer com que as ovelhas tenham vida e se sintam felizes. A sua prioridade é o bem das ovelhas que lhe foram confiadas. Por isso, arrisca tudo em benefício do rebanho e está até disposto a dar a própria vida por essas ovelhas que ama.

O texto evangélico nos diz que Jesus é o modelo do verdadeiro pastor (v. 14-15). Ele conhece cada uma das suas ovelhas, tem com elas uma relação pessoal e única, conhece os seus sofrimentos, dramas, sonhos e esperanças. Esta relação que Jesus tem com as suas ovelhas é tão especial, que Ele até as compara à relação de amor e de intimidade que tem com o próprio Deus. Jesus também fala do conhecimento mútuo entre o pastor e o rebanho. O Verbo “conhecer”, no Evangelho de São João, como nas demais partes da Sagrada Escritura, não fica no plano intelectivo ou conceitual. É um conhecimento que cria comunhão de vida, relação pessoal, ativa, amorosa e recíproca. No caso de Jesus com os seus discípulos é tão profunda que é comparada por Ele ao mútuo conhecimento que há entre o Pai e o Filho: “Assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai, Eu dou minha vida pelas ovelhas” (v.15).

É este amor, pessoal e íntimo, que leva Jesus a pôr a própria vida ao serviço das suas ovelhas, e até a oferecer a própria vida para que todas elas tenham vida e tenham em abundância. Quando as ovelhas estão em perigo, Ele não as abandona, mas é capaz de dar a vida por elas. Nenhum risco, dificuldade ou sofrimento O faz desanimar. A sua atitude de defesa intransigente do rebanho é ditada por um amor sem limites, que vai até ao dom da vida.

Jesus insiste sobre esta característica essencial do verdadeiro pastor: “O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (Jo 10,11), o que é repetido várias vezes no texto. No final, conclui, dizendo: “É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem que recebi do meu Pai” (Jo 10,17-18). Esta é a característica qualificadora do pastor, como Jesus o interpreta pessoalmente, segundo a vontade do Pai que O enviou. A figura bíblica do pastor, que compreende principalmente a tarefa de reger o povo de Deus, de o manter unido e de o orientar, é uma função régia que se realiza plenamente em Jesus Cristo, na dimensão sacrifical, no ofertório da vida. Numa palavra, realiza-se no mistério da Cruz, ou seja, no gesto supremo de humildade e de amor.

Todos os anos a Igreja nos faz recordar esta definição que Jesus deu de si mesmo, sendo vista à luz da sua paixão, morte e ressurreição: “O bom pastor oferece a sua vida pelas ovelhas” (Jo 10, 11): estas palavras realizaram-se plenamente quando Cristo, obedecendo de maneira livre à vontade do Pai, se imolou na Cruz por cada uma das suas ovelhas.

No relato evangélico, Jesus explica ainda quem são as suas ovelhas e quem pode fazer parte do seu rebanho. Ao dizer: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz” (v. 16), Jesus deixa claro que a sua missão não se encerra nas fronteiras limitadas do Povo judeu, mas é uma missão universal, que se destina a dar vida a todos os povos da terra. Trata-se agora não só da unificação do Israel disperso, mas da unificação de todos os filhos de Deus, da humanidade da Igreja, dos judeus e dos pagãos. A missão de Jesus diz respeito à humanidade inteira e, por isso, à Igreja é confiada uma responsabilidade por toda a humanidade, a fim de que ela reconheça Deus, aquele Deus que, por todos nós, se fez homem em Jesus Cristo, sofreu, morreu e ressuscitou.

Na última aparição, pouco antes da Ascensão, Cristo ressuscitado constitui Pedro como pastor do seu rebanho. Cumpre-se então a promessa que fizera pouco antes da Paixão: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). Como bom pastor, conforme diz a tradição, Pedro também morrerá pelo seu rebanho. E às margens do lago de Tiberíades disse certa vez Jesus a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,16-17). Apascentar equivale a dirigir e governar. Pedro é constituído pastor e guia de toda a Igreja. Com isto, podemos dizer que também cada sacerdote é destinatário deste convite de Jesus no apascentar o rebanho do Senhor.

A Igreja muito deseja ter sacerdotes dignos e zelosos para sequenciar a missão que lhe foi confiada, apascentando o rebanho do Senhor. Este domingo em que lemos o Evangelho do Bom Pastor foi estabelecido como dia de orações pelas vocações, englobando tanto as vocações sacerdotais como as vocações para a vida consagrada, na qual de muitas maneiras está presente a atividade pastoral. Rezar pelas vocações é cumprir um pedido do Cristo, quando lamentou que fossem tão poucos os que trabalham na messe da Igreja e pediu que rezássemos ao Senhor, para que mande operários para nela trabalhar (cf. Mt 9,38). Os próprios candidatos ao ministério sacerdotal e ao estado religioso se sentirão motivados por nossas orações a cultivar com amor a vocação.

Com efeito, o presbítero é chamado a viver em si mesmo aquilo que Jesus experimentou pessoalmente, ou seja, a dedicar-se de maneira completa à pregação e à cura do homem de todos os males do corpo e do espírito, e depois, no final, a resumir tudo no gesto supremo do dar a vida pelos homens, gesto que encontra a sua expressão sacramental na Eucaristia, memorial perpétuo da Páscoa de Jesus.

A imagem do Bom Pastor que tomou sobre os seus ombros a ovelha perdida, que é a humanidade, e a levou de volta para o redil, tornou-se a imagem do verdadeiro Pastor, Jesus Cristo. E dentro deste contexto, contemplamos a solicitude paternal de Deus para com cada um de nós. Ele não nos deixa sozinhos! A consequência desta identificação de Jesus como verdadeiro e bom Pastor está ainda na afirmação que encontramos na segunda Leitura da liturgia da Palavra deste domingo: “Vede com que amor nos amou o Pai…” (1Jo 3,1). Peçamos a Ele que também nos conduza em seus ombros e nos carregue todos os dias; a fim de que possamos ser, por meio dele e com Ele, as melhores ovelhas do seu rebanho. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – Jesus apareceu no meio deles

Lc 24, 35-48

Meus caros irmãos,

Neste terceiro domingo do tempo pascal, a liturgia da Palavra traz mais uma vez ao centro da nossa atenção o mistério de Cristo ressuscitado. O episódio que o evangelista São Lucas nos relata no evangelho nos faz lançar o nosso olhar para Jerusalém, pouco depois da ressurreição. Os onze discípulos estão reunidos e já conhecem uma aparição de Jesus a Pedro (cf. Lc 24,34), bem como o relato do encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,35). Apesar de tudo, o ambiente é de medo, de perturbação e de dúvida, que aparece frequentemente nos evangelhos. Jesus ressuscitado não é reconhecido com facilidade. Quem consegue vê-lo sempre parece ter dúvidas. Maria Madalena o confunde com um jardineiro; os discípulos de Emaús pensam tratar-se de um viajante; os apóstolos o tomam por um fantasma; Pedro, no lago de Tiberíades, o confunde com um companheiro de pescaria. As dúvidas estão presentes em todas as aparições de Jesus após a sua ressurreição. Todos os relatos das aparições de Jesus falam das dificuldades que os discípulos sentiram em acreditar e em reconhecer Jesus após a ressurreição (cf. Mt 28,17; Mc 16,11.14; Lc 24,11.13-32.37-38.41; Jo 20,11-18.24-29; 21,1-8).

O medo e a insegurança também aparecem muitas vezes na Sagrada Escritura e, normalmente, no âmbito de uma experiência relacionada com o universo de Deus, como aconteceu com Moisés, no deserto do Sinai, quando um anjo lhe aparece na chama de uma sarça ardente (cf. At 7,30); o mesmo ocorre com Zacarias no Templo (cf. Lc 1,12) e com Maria, no momento da anunciação do anjo (cf. Lc 1,29). Tanto Zacarias como a Virgem de Nazaré ficam perturbados quando recebem o anúncio do nascimento de um filho. Também os apóstolos Pedro, Tiago e João, no momento da Transfiguração de Jesus no Monte Tabor, ficam movidos pelo medo, motivados pela experiência sobrenatural pela qual passaram. A mesma cena volta a repetir quando eles encontram com o Cristo Ressuscitado, que aparece para eles.

Na página evangélica, São Lucas narra que os dois discípulos de Emaús, regressando a Jerusalém, contaram aos Onze como o tinham reconhecido “ao partir do pão” (v. 35). E enquanto eles narravam a experiência do encontro que tiveram com o Senhor, Ele “esteve pessoalmente no meio deles” (v. 36). Mais uma vez, como tinha acontecido com os dois discípulos de Emaús, enquanto está à mesa e come, Cristo ressuscitado se manifesta, ajudando-os a compreender as Escrituras e a reler os acontecimentos da salvação à luz da Páscoa.

Visto que a ressurreição não cancela os sinais da crucifixão, Jesus mostra aos Apóstolos as mãos e os pés. E para os convencer, pede até algo para comer. Então os discípulos “Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.” (v. 42-43). Este gesto de tocar e comer nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável. Graças a estes sinais os discípulos superaram a dúvida inicial e se abriram ao dom da fé; e esta fé permitiu que eles compreendessem o que estava escrito sobre Cristo “na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (v. 44).

É surpreendente que enquanto o grupo estava ouvindo o relato dos dois discípulos de Emaús e comenta a aparição de Jesus ressuscitado ao apóstolo Pedro, justamente quando Cristo aparece no meio deles, os discípulos sentem medo e resistem a crer no que seus olhos estão vendo. Mas eles, depois de um processo gradual de fé e com base em sua experiência e contato pessoal com o Senhor ressuscitado, acabaram por reconhecer que era o próprio Jesus de Nazaré, o mestre, que morreu e agora está vivo porque ressuscitou.

Os Apóstolos hesitam em crer na Ressurreição de Cristo. O testemunho de Maria Madalena e das outras mulheres, o de Pedro e o dos dois discípulos de Emaús, eram mais que suficientes, pois a tudo isso precedia a profecia da ressurreição, feita por Cristo, para que cressem. Há certamente, nesta conduta dos apóstolos, um grande temor, um medo de serem enganados. Ao mesmo tempo surge uma manifestação de timidez. Jesus oferece aos seus discípulos uma prova definitiva. Estando reunidos no Cenáculo, aparece a eles, para que, vendo-o, estejam convencidos da realidade de sua ressurreição.

Nas aparições temos uma catequese de Jesus para os seus discípulos, que se manifesta no gesto de mostrar as suas mãos e os seus pés com as chagas recentes de sua cruz, tocar, palpar, e até tomar parte na refeição deles, fato que não deixa de ser um sinal eucarístico, onde Jesus une o pão com a palavra, ao explicar algumas passagens da Sagrada Escritura que se referiam a Ele próprio. Assim completa o “sacramento” pascal da fé que se concretiza com a sua aparição, atestada por Maria Madalena, Pedro e pelos demais apóstolos.

O trecho do evangelho termina com as palavras: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Era uma difícil missão que Jesus lhes designava. Eles viviam ainda escondidos após a Sua morte, temerosos de serem reconhecidos pelas autoridades como discípulos do Senhor; e eis que agora Jesus lhes pede que saiam para proclamar que Ele ressuscitou dos mortos ao terceiro dia e para pregar em Seu nome a todos os povos a sua mensagem de conversão, de perdão e paz.

Os apóstolos serão testemunhas de toda esta verdade e ensinamento. Mas serão preparados com a grande força renovadora e fortalecedora de Pentecostes. Receberão o Espírito Santo. Neste tempo pascal nós também deparamos com um repetido convite de Jesus a vencer a incredulidade e a crer na sua ressurreição, porque somos chamados a também testemunhar precisamente este acontecimento extraordinário. A ressurreição de Cristo é o acontecimento central do cristianismo, verdade fundamental que se deve reafirmar com vigor em todos os tempos.

Na segunda leitura, o Apóstolo São João lembra que para conhecer Jesus Cristo, precisamos fazer a experiência do Amor: “Quem diz que conhece a Deus, mas não cumpre os seus mandamentos, é mentiroso, e a Verdade não está nele” (1Jo 2,4). E continua: “Por outro lado, o amor de Deus se realiza de fato em quem observa a Palavra de Deus. É assim que reconhecemos que estamos com ele” (1Jo 2,5). Essas narrativas nos dizem respeito, pois temos a possibilidade de reencontrar o Ressuscitado e a obrigação de testemunhar para que outros possam também encontrá-lo. E é pela vivência do amor que nós faremos que os outros o reconheçam.

Jesus nos garante a sua presença real entre nós, por meio da Palavra e da Eucaristia. Por conseguinte, assim como os discípulos de Emaús reconheceram Jesus ao partir o pão (cf. Lc 24, 35), também nós encontramos o Senhor na Celebração eucarística. Explica, a este propósito, Santo Tomás de Aquino: “É necessário reconhecer, segundo a fé católica, que Cristo está inteiramente presente neste Sacramento…” (cf. SANTO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, III, q. 76, a. 1). Santo Tomás ensina ainda que Cristo está presente nesse sacramento de dois modos: por virtude do sacramento e por natural concomitância. Por virtude do sacramento, sob as espécies ou acidentes de pão, está o corpo de Cristo, e, sob as espécies ou acidentes de vinho, está o sangue de Cristo. Pois Cristo disse: “Isto é meu Corpo”, “Este é meu Sangue”. Por natural concomitância, está na hóstia consagrada o que realmente está unido ao corpo de Cristo, isto é, seu Sangue, Alma e Divindade. E, ao Sangue, está unido, por natural concomitância, seu Corpo, Alma e Divindade. (cf. S. TOMÁS, Suma Teológica, III, q. 76, a. 1). E continua: “Deve crer-se que Cristo está todo inteiro, em cada uma das espécies do sacramento, se bem que de modo diverso (S. TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, III, q. 76, a. 2). Sob as espécies de pão, está o Corpo por virtude do sacramento, e o Sangue por real concomitância como se disse da Alma e da Divindade. Sob as espécies de vinho, está o Sangue de Cristo por virtude do sacramento, e o Corpo por real concomitância, como a Alma e a Divindade, já que agora, atualmente, não está o Sangue separado do seu Corpo, como esteve no tempo de sua Paixão e da morte. E no artigo 3 dessa mesma Questão 76, São Tomás explica que: “A substância do Corpo de Cristo está no sacramento por virtude do próprio sacramento, e sua quantidade dimensiva por real concomitância; daqui que o Corpo de Cristo está no sacramento de modo como a substância está nas dimensões, não do modo como está a quantidade dimensiva dos corpos que se ajusta à quantidade dimensiva do lugar.

É evidente que toda a natureza da substância está em cada parte das dimensões que a encerram, como em cada parte do ar está toda a sua natureza, e, em cada parte do pão, toda a natureza do pão, quer estejam o pão e o ar divididos, de fato, em partes, quer não estejam, de fato, divididos. Daqui que seja coisa clara que Cristo está todo inteiro em cada parte da espécie de pão, não só quando este é partido, mas também quando a hóstia permanece inteira” São Tomás, Suma Teológica, III, Q. 76, a. 3).

A páscoa traz também a nós uma mensagem de paz. “A paz esteja convosco” (v. 36), é o que mais uma vez repete Jesus. Prestes a se entregar pela nossa redenção, Jesus Cristo deixa aos seus discípulos a paz. Depois de sua morte, é novamente a paz que ele oferece, duradoura e eficaz. Jesus nos convida a acolher o dom da sua paz, mas também a sermos construtores da cultura da paz onde estivermos.

Que a Virgem Maria possa nos amparar com a sua intercessão, para que possamos responder com a nossa vida a proposta que Jesus nos fez, de sermos testemunhas da sua ressurreição, propagando a todos os dons pascais da alegria e da paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – A paz esteja convosco

Jo 20,19-31

Caros irmãos e irmãs

Para este domingo temos o relato do texto evangélico que nos apresenta duas das manifestações de Jesus aos seus apóstolos: uma na tarde do dia da Ressurreição, e outra, oito dias depois. Fixando inicialmente o nosso olhar na segunda aparição, somos atraídos pela reação de Tomé, porque, como ele, muitas vezes sentimos a tentação da dúvida e queremos ver sinais para nos sentirmos mais seguros na fé. Jesus compreendeu isso, mas ao mesmo tempo, proclamou o valor da fé dos que acreditam sem terem visto sinais. Estaremos nós entre os que acreditam na Palavra de Deus, como nos é transmitida pela Igreja, ou necessitamos ver para crer? Ouvimos no Evangelho: “Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam!” (Jo 20,29). São as palavras dirigidas por Jesus a Tomé, que estava ausente quando o Mestre, ressuscitado, apareceu pela primeira vez aos Apóstolos. Eles disseram a Tomé: “Vimos o Senhor” (Jo 20,25), mas Tomé, recusando-se a acreditar, diz: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (Jo 20,25).

Tomé é a figura de todos aqueles que, como ele, não receberam o anúncio da ressurreição diretamente de Jesus, mas através do testemunho dos Apóstolos. No fundo, Tomé representa todas as gerações vindas após Jesus, mas teve ele a felicidade de ver e tocar em Jesus Ressuscitado. E a visão que teve de Jesus ressuscitado foi tão forte que aumentou a sua fé, a ponto de reconhecer Jesus como seu Senhor e seu Deus: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28), exclamou.

Os Apóstolos são as testemunhas oculares da Ressurreição de Cristo e devido a este testemunho são eles os primeiros enviados: “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós” (Jo 20,21). Outros lhes sucederão, e Cristo dirá a respeito deles: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29). Por sua vez, eles tornar-se-ão testemunhas, porque acreditarão nas testemunhas oculares. E assim, de geração em geração, também todos nós somos convidados a ver, com os olhos da fé, Cristo vivo e presente no meio de nós.

O relato evangélico começa com uma saudação aos apóstolos: “A paz esteja convosco”. Esta é a saudação pascal. Jesus usa as mesmas palavras que dissera antes de morrer: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14,27). O primeiro fruto da morte redentora do Senhor foi trazer a paz aos corações angustiados. No seu nascimento, os anjos anunciaram a paz de Deus aos homens: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14). Antes de sua paixão o Senhor já nos prometera que nos deixaria a paz. Agora, vencedor da morte e mensageiro da vida, confirma sua promessa: Anuncia a paz aos Apóstolos e a todos nós.

Também no evangelho temos Jesus ressuscitado a comunicar aos Apóstolos, com seu “sopro”, o Espírito Santo e o poder de perdoar os pecados. É um verdadeiro poder exercido pela Igreja no sacramento da penitência. Vimos que Jesus “soprou”; um gesto que indica que a comunicação do Espírito Santo, antecipação parcial do dom de Pentecostes, é a comunicação da vida que Deus concede. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7, quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, a quem infundiu a vida. Com o “sopro”, conforme lemos no Livro do Gênesis, por ocasião da criação, o homem tornou-se um ser vivente; e agora, com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos, para serem transmissores de uma nova vida também aos outros, munidos pelo Espírito Santo.

Jesus transmite aos Apóstolos a energia, a força necessária para que possam sequenciar a missão de pescadores de homens, para que a salvação atinja todos os lugares e em todos os tempos da história humana: “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós” (Jo 20,21). E do poder de perdoar os pecados, conferido por Jesus aos apóstolos, está intimamente ligado ao dom do Espírito Santo, como indicam as sucessivas palavras de Jesus: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 21,22-23).

Os sacerdotes, em nome de Jesus Cristo, perdoam os fiéis arrependidos de seus pecados cometidos depois do Batismo. O sacramento do perdão foi instituído sob um duplo sentido: de paz e de alegria. A confissão é o sacramento que proclama a misericórdia do Senhor. Somente ele é capaz de desfazer a desordem causada pelo pecado e restabelecer no coração do homem a paz. Paz que designa muito mais do que a tranquilidade da ordem, mas certamente o estado do homem que vive em harmonia com Deus.

O perdão sacramental é a volta para os braços de Deus. A fórmula atual com que o sacerdote absolve o penitente lembra o Mistério da Ressurreição e a vinda do Espírito Santo. Declara que Deus, “pela morte e ressurreição de seu filho reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados” e pede que “pelo ministério da Igreja” seja concedido ao penitente “o perdão e a paz”. Por isso, o perdão dos pecados é uma festa de paz e alegria. E essa paz só pode existir mediante o perdão.

Também no decorrer da Celebração eucarística vemos sucessivos momentos em que fazemos uma referência à paz. A Santa Missa é marcada do início ao fim pela palavra paz. Uma das fórmulas de saudação que podem ser usadas pelo celebrante no início da Missa é esta: “A graça e a paz de Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam sempre convosco”. Também no final da Missa diz o celebrante: “Ide em paz”. Além disso, somos também chamados a reconciliar uns com os outros antes da comunhão, ofertando a paz aos nossos vizinhos da celebração. Esta saudação tradicional, torna-se aqui algo novo; torna-se o dom daquela paz que só Jesus pode dar, porque é o fruto da sua vitória radical sobre o mal. A “paz” que Jesus oferece aos seus amigos é o fruto do amor de Deus. Também antes da Comunhão, a liturgia põe nos lábios do sacerdote uma vibrante invocação pela paz: “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja; dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade. Vós que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo”.

Todos nós temos necessidade de saborear plenamente a riqueza e o poder da paz de Cristo! São Bento, no seu tempo, foi um grande arauto da paz, porque a acolheu na sua existência e a fez frutificar em obras de autêntica renovação cultural e espiritual. Precisamente por isso, na entrada de muitos mosteiros beneditinos, é posta como mote a palavra “pax”. Com efeito, a comunidade monástica é chamada a viver em conformidade com esta paz, que é dom pascal por excelência. Somente aprendendo, com a graça de Cristo, a combater e a vencer o mal dentro de nós e nos relacionamentos com o próximo, podemos tornar-nos construtores de paz.

Que esta paz, que também é um dos frutos do Espírito Santo, possa estar sempre em cada um de nós. E não podemos esquecer que todo cristão deve ser um agente da paz. Ser um promotor da paz significa tomar iniciativas de paz, promover a caridade, a união, o respeito e o amor. São Francisco de Assis, certa vez pediu em oração: “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz”. Que o Senhor nos dê a sua paz e faça de nós um canal a transmitir a sua paz. Que possamos derrubar os muros da inimizade, do egoísmo e nos abrir ao Espírito Santo, anunciando com a nossa vida a paz que o Cristo trouxe e quer conferir a cada um de nós.

A Virgem Maria, a quem invocamos como Rainha da Paz, interceda por nós para sermos em todos os lugares fiéis testemunhas da paz e da fraternidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

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