III DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

Jesus e a samaritana

Referência: JÓ 4,5-42

Meus caros irmãos e irmãs,

Para este domingo o texto evangélico nos apresenta o encontro de Jesus com a samaritana. O diálogo começa com o pedido de Jesus à mulher da Samaria: “Dá-me de beber” (Jo 4,5-7). Com um simples pedido de um pouco de água, ao meio-dia, inicia-se um caminho interior da samaritana, que irá culminar com a sua conversão.

O encontro de Jesus com a samaritana ocorre junto ao poço de Jacó. Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacó.  Os dados arqueológicos revelam que este poço de Jacó serviu aos samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C.

Junto a esse “poço” movimentam-se os personagens principais: Jesus e a samaritana.  A mulher aqui apresentada sem o nome próprio, pode estar se referindo à Samaria, que procura desesperadamente a água que é capaz de matar a sua sede de vida plena.  A samaritana não tem nome, mas certamente vários nomes lhe foram impostos por ter tido cinco maridos e conviver com o sexto, que não é seu marido e, apesar disso, continuar com sede da água que só Jesus, esposo da humanidade, pode dar.  Ela se aproxima, em um dia ensolarado, para buscar água. Ela não tem nome porque é a própria humanidade que está procurando, no sufoco do calor, algo que sacie de uma vez por todas sua sede.

Quando Jesus diz: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (Jo 4,10).  Aquela mulher começa a interessar-se por essa água misteriosa. Mas, inicialmente, ela fica confusa. Parece disposta a remediar a situação de falência de felicidade que caracteriza a sua vida, mas ainda não sabe bem como.

É aqui que entra a novidade de Jesus. Ele senta-se “junto do poço”, como se pretendesse ocupar o seu lugar; e propõe à samaritana uma “água viva”, que matará definitivamente a sua sede de vida eterna (vv. 10-14). Jesus passa a ser o “novo poço”, onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua sede.  Sentando junto ao poço, Jesus se dá a conhecer como a fonte da qual a humanidade inteira bebe. A partir de agora não se deve mais beber água da Lei ou das instituições, porque foram superadas pela fonte de água viva que é Jesus.

No Antigo Testamento a água da fonte, água viva, simbolizava a vida espiritual que Deus dispensa (cf. Ez 47,1ss), mas também simbolizava a Lei como fonte de vida (cf. Eclo 15,1-3). No Novo Testamento o evangelista São João identifica a água com o dom do Espírito Santo (cf. Jo 7,37-39).  Em Cristo nós temos a fonte de todos os dons que podemos esperar do Pai. Na cruz, Cristo jorrou sangue e água no momento em que seu peito foi perfurado (cf. Jo 19,34). E Jesus mesmo chegou a afirmar que aquele que nele crê, nele terá como beber, pois do seio de Jesus sairão rios de água viva (cf. Jo 7,38).

Jesus está com sede, mas quem acaba pedindo água é a mulher, pois ele tem a água capaz de saciar para sempre a sede de todos: ‘Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva.  Quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”(Jo Jo, 4,10.14).

A água que Jesus dá é o Espírito Santo, a força que vem de dentro e jorra para a vida eterna. A mulher e a humanidade tem sede dessa água e, por isso, pede: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Jo 14,15).

A mulher da Samaria responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro, que passa a ser inútil, e correndo, vai anunciar aos habitantes da cidade o desafio que Jesus lhe fez.  Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus.  O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis e incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de procura de felicidade falsa, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena.

O vínculo com Jesus transforma completamente a vida daquela mulher, que corre imediatamente a comunicar a boa nova ao povo da aldeia vizinha: “Vinde ver um homem que me disse tudo quanto fiz. Não será ele o Messias?” (Jo 4,29). A revelação de Jesus, acolhida com fé, torna-se palavra proclamada ao próximo e testemunhada através das escolhas concretas de vida. Eis a missão dos crentes, que nasce e se desenvolve a partir do encontro pessoal com o Senhor.

A samaritana, depois de encontrar o Cristo que lhe traz a água que mata a sua sede de felicidade, não limitou em guardar para si a descoberta; mas partiu para a cidade, a propor aos seus concidadãos a verdade que tinha encontrado.  Por fim, ela contou a todos a respeito de Jesus, o que resultou em um reavivamento religioso junto aos samaritanos. Aquela mulher acreditou em Jesus. Encontrou a água que mata a sede. E vai levá-la aos outros, aos seus conterrâneos.

No diálogo entre Jesus e a Samaritana vemos traçado o percurso espiritual ao qual somos chamados a redescobrir e a percorrer constantemente. Jesus quer nos levar, como fez com a Samaritana, a professar a fé em sua pessoa e depois, anunciar e testemunhar aos nossos irmãos a alegria desse encontro e as maravilhas que o seu amor realiza na nossa existência. A fé nasce do encontro com Jesus, reconhecido e acolhido como o Salvador. Quando o Senhor conquista o coração da samaritana, a sua existência se transforma e ela vai imediatamente sem hesitações comunicar a boa nova ao seu povo (cf. Jo 4,29).  Quando encontramos o Cristo sentimos necessidade e urgência de levá-lo também a todos os que nos rodeiam.

Chama a nossa atenção o caminho de conversão da samaritana. De pecadora a apóstola! Do fundo da miséria moral da sua vida, ela subiu em poucos momentos para as alturas da fé e do zelo em propagar o nome de Jesus.  Afinal, ela entendera e acolhera o dom de Deus.  Seu coração se abriu para as riquezas do Espírito Santo.  Que também nós possamos, a exemplo da samaritana, ser sinal do encontro do homem sedento para com Deus, que tanto quer a nossa conversão.

Abramos também nós, o coração à escuta da palavra de Deus para encontrar, como a samaritana, esse Jesus que nos revela seu amor e a sua identidade. Que a Virgem de Nazaré interceda sempre por nós, para que possamos obter este dom e sermos também anunciadores da boa nova que Cristo trouxe ao mundo. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

 A transfiguração do Senhor

Referência: Mt 17,1-9

Caríssimos irmãos e irmãs

Neste domingo, juntamente com o Apóstolo São Pedro podemos dizer: “É bom estarmos aqui” (Mt 17,4), reunidos junto do altar do Senhor para celebrarmos a Santa Eucaristia, enquanto prosseguimos a peregrinação quaresmal para a Páscoa. E neste segundo domingo da quaresma também nós somos convidados a subir ao Monte Tabor, a fim de meditar acerca da sugestiva narração da transfiguração de Jesus.

O texto evangélico começa dizendo que “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,1s). Na Sagrada Escritura, a montanha representa o lugar da proximidade com Deus e do encontro íntimo com ele pela oração.

Recordemos também que em um outro monte, o Sinai, Moisés recebeu os dez Mandamentos. Além disso, ainda sobre este monte, Elias recebeu de Deus a revelação divina de uma missão a cumprir. E no fim da vida, Moisés foi agraciado com a promessa de que Deus suscitaria um profeta maior do que ele, cumprindo as esperanças não realizadas no Antigo Testamento: “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir” (Dt 18,15).

Jesus é então apresentado a Pedro, Tiago e João como o grande profeta, o novo Moisés, como aquele que dá ao novo povo, na pessoa dos três discípulos, a nova lei, a revelação definitiva de Deus e é nele que toda a lei deve ser cumprida. A nuvem que se formou e os encobriu, demonstra que a voz que fala é divina.  Também Moisés tinha estado nesta montanha, como podemos ler no livro do Êxodo: “A nuvem cobriu o monte e a glória do Senhor repousou sobre o monte Sinai, que ficou envolvido na nuvem durante seis dias” (Ex 24,15s). Era o sinal de Deus que acompanhava seu povo.  Quando Moisés recebeu a lei, também a montanha foi envolvida numa nuvem, o que indicava a presença de Deus (cf. Ex 24,15s).

A finalidade desta transfiguração foi encorajar os discípulos para que não se deixassem vencer pelas provações que viriam em breve, com a paixão e morte de Cristo, por isto, a transfiguração de Jesus ocupa, nos evangelhos, lugar de especial importância, pois prepara os apóstolos para enfrentarem os dramáticos eventos do calvário, apresentando-lhes, com antecipação, aquela que será a plena e definitiva revelação da glória do Senhor no mistério pascal. Por isto, mediante este acontecimento, os discípulos são preparados para superar a terrível prova da paixão e compreender o mistério pascal de Cristo. Ao meditarmos esta página evangélica, preparamo-nos para reviver, também nós, os eventos decisivos da morte e ressurreição do Senhor, seguindo-o no caminho da cruz para chegarmos à luz e à glória.

Na transfiguração não é Jesus que recebe a revelação de Deus, mas é precisamente nele que Deus se revela e revela o seu rosto aos apóstolos. Portanto, quem quer conhecer Deus, deve contemplar o rosto de Jesus, o seu rosto transfigurado: Jesus é a revelação perfeita da santidade e da misericórdia do Pai.

Podemos dizer ainda que a transfiguração é uma revelação da pessoa de Jesus, da sua profunda realidade. Com efeito, as testemunhas oculares de tal acontecimento, ou seja, os três apóstolos foram envolvidos por uma nuvem luminosa, que na Sagrada Escritura anuncia sempre a presença de Deus, e ouviram uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” (v.5).  Este premente apelo a escutar o Cristo é um convite a deixar que a luz de Cristo ilumine a nossa vida e nos conceda a força para anunciarmos e testemunharmos o evangelho a todos. É um empenho que comporta, às vezes, não poucas dificuldades e sofrimentos.

Outras passagens da Sagrada Escritura também nos convidam a ouvir, a escutar a voz do Senhor, como, por exemplo, a parábola do Bom Pastor (cf. Jo 10,1-18), que mostra a relação entre escutar, crer e obedecer.  As ovelhas escutam a voz do Bom Pastor e ele caminha à frente e elas o seguem. Nesta parábola  Jesus diz que as ovelhas escutam a sua voz, mas escutar, seguir e conhecer Cristo é também acreditar.  Conhecer a voz de Cristo é identificar-se com sua mensagem, identificá-la e senti-la como própria.

Neste sentido, o Bom Pastor não é somente o modelo e exemplo de todos os pastores, mas é modelo e exemplo de todos os que crêem e querem obedecer a Deus.  Existe ainda um texto importante para compreender as exigências do escutar, que se encontra em 1Sm 3,10: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.  Esta resposta do jovem Samuel contém em si a atitude da completa atenção, a atitude que corresponde a uma obediência total à Palavra de Deus.

E na primeira leitura temos a exortação do Senhor feita a Abraão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo e te abençoarei…” (Gn 12,1s). Com a vocação de Abraão Deus intervém no decurso da história para formar para si um povo, através do qual a salvação atingiu todos os homens. E Abraão torna-se o modelo e o exemplo do crente que soube escutar e que soube obedecer.  Chamado por Deus, ele deixa a própria terra, com todas as seguranças que comporta, sustentado apenas pela fé e pela obediência confiante ao seu Senhor. Abraão confia em Deus. Ele ouve a palavra de Deus e a coloca em prática.

Deus pede também a Abraão que sacrifique o seu filho, dizendo: “Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, a quem amas, vai à terra de Moriá e oferece-o lá em holocausto, sobre uma montanha que eu te vou indicar” (Gn 22,2). Abraão dispõe-se a obedecer à ordem de Deus. Mas quando chegou o momento de sacrificar o seu filho, o Senhor se manifesta por meio de um anjo, que diz: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste o teu filho único” (Gn 22,12).

Precisamente em virtude do extraordinário testemunho de fé, oferecido naquela circunstância, Abraão obtém a promessa de uma numerosa descendência: “Por meio da tua descendência, todas as nações da terra serão abençoadas, porque me obedeceste” (Gn 22,18). Graças à sua confiança incondicionada na Palavra de Deus, Abraão torna-se o pai de todos os crentes.

Também o Senhor Deus “não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós” (Rm 8,32). Abraão com a sua disponibilidade a imolar o seu filho Isaac, prenuncia o sacrifício de Cristo para a salvação do mundo. A execução efetiva do sacrifício, que foi poupada a Abraão, irá ocorrer com Jesus Cristo. Ele mesmo informa os apóstolos, ao descer do monte da Transfiguração, para que não comentem nada do que viram, antes do Filho do homem ressuscitar dos mortos. O evangelista São Marcos acrescenta: “Eles observaram a recomendação” (Mc 9,10).

Seguindo o exemplo de Abraão também nós devemos prosseguir o nosso caminho quaresmal, renunciando a nossa vontade própria, para escutar a voz do Senhor, manifestada através de Jesus Cristo. Que saibamos permanecer em constante escuta da Palavra de Deus e que possamos ser capazes de realizar gestos de solidariedade, de paz e de perdão.  Para ouvir Jesus, precisamos estar próximos dele, segui-lo, como fez também a Virgem Maria, que acompanhou o seu filho Jesus até à cruz. Que ela interceda por cada um de nós, para que possamos ser os discípulos fiéis de Cristo, escutando e colocando em prática todos os seus ensinamentos. Assim seja.

 

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

I DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

A tentação no deserto

Referência: Mt 4,1-11

Caríssimos irmãos e irmãs

Na última quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas iniciamos o itinerário penitencial da quaresma. As cinzas nos lembram a fragilidade de cada homem e, ao mesmo tempo, nos orientam a olhar para o Cristo que, com a sua morte e ressurreição, resgatou o homem da escravidão do pecado e do erro. A quaresma é um caminho de quarenta dias que nos levará ao Tríduo Pascal, onde celebraremos a memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor.

Com efeito, quarenta é o número simbólico com que o Antigo e o Novo Testamento representam os momentos salientes da experiência da fé do Povo de Deus. Trata-se de um número que exprime o tempo da expectativa, da purificação, do regresso ao Senhor e da consciência de que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, cadenciado pela soma dos dias. Mas, indica uma perseverança paciente, uma prova longa, um período suficiente para ver as obras de Deus. É o tempo das decisões maduras e sábias.

O número quarenta aparece antes de tudo na história de Noé que, devido ao dilúvio, permanece quarenta dias e quarenta noites na arca, juntamente com a sua família e com os animais que Deus lhe tinha dito que levasse consigo. E espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar na terra firme (cf. Gn 7,4.12; 8,6). Também por quarenta dias e por quarenta noites, em jejum, Moisés permanece no monte Sinai, na presença do Senhor para receber a Lei (cf. Ex 24,18).

E ainda quarenta são os anos de viagem do povo judeu da terra do Egito para a Terra prometida, tempo propício para experimentar a fidelidade de Deus. O profeta Elias emprega quarenta dias para chegar ao Horeb, o monte onde se encontra com Deus (cf. 1Rs 19,8). Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obter o perdão de Deus (cf. Gn 3,4). Quarenta são também os anos dos reinos de Saul (cf. At 13,21), de Davi (cf. 2Sm 5,4-5) e de Salomão (cf. 1Rs 11,41), os três primeiros reis de Israel. O livro dos Atos dos Apóstolos nos diz que Jesus, depois da sua ressurreição, durante 40 dias, apareceu aos discípulos (cf. At 1,3). E antes de começar a vida pública, Jesus retira-se no deserto por quarenta dias, sem comer nem beber (cf. Mt 4,2), alimenta-se da Palavra de Deus, que utiliza como arma para derrotar o diabo. As tentações de Jesus evocam as que o povo judeu enfrentou no deserto, mas que não soube vencer.

Com este recorrente número quarenta é descrito um contexto espiritual que permanece atual e válido, e a Igreja, precisamente mediante os dias do período quaresmal, tenciona conservar o seu valor perdurável e fazer com que a sua eficácia esteja presente. A liturgia cristã da Quaresma tem a finalidade de favorecer um caminho de renovação espiritual, à luz desta longa experiência bíblica e, sobretudo, para aprender a imitar Jesus, que nos quarenta dias transcorridos no deserto, ensinou a vencer a tentação tendo como base a Palavra de Deus.

Neste tempo quaresmal, somos chamados a enfrentar o mal e a lutar contra os seus efeitos. A este propósito ressoa para nós o exemplo do próprio Cristo que a Liturgia da Palavra nos convida a meditar neste primeiro domingo da quaresma, ao nos propor a página evangélica que nos fala das tentações de Jesus no deserto (cf. Mt 4,1-11).

Com este relato evangélico temos o exemplo que Jesus deixa para nós, na tentativa de vencer o mal, o maligno. A cena das tentações antecede a vida pública de Jesus, segue-se imediatamente ao seu batismo (cf. Mt 3,13-17). Com isto, podemos observar que após receber o batismo e o Espírito Santo, será possível afrontar e vencer a tentação e o mal.

O texto nos diz que as tentações ocorreram no deserto: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” (Mt 4,1). O deserto, de acordo com o imaginário judaico, é o lugar onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono do Senhor; embora seja, também, o lugar do encontro com Deus e o lugar onde o povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus.

O deserto é ainda o lugar do silêncio, da pobreza, da solidão, onde o homem permanece desprovido de uma ajuda material, sendo ameaçado pela morte, pois onde não há água também não há vida, e onde o homem sente mais intensa a tentação. Jesus vai ao deserto, e ali padece a tentação de deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir uma outra direção, mais cômoda e de poder.

A perícope evangélica apresentada por São Mateus ressalta as opções de Jesus em três momentos. Inicialmente, o tentador sugere a Jesus que transforme as pedras em pão (v.3). O pão é um alimento essencial à vida, no entanto, Jesus responde: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (v. 4). A resposta de Jesus está em conformidade com Dt 8,3 e sugere que o seu alimento, isto é, a sua prioridade é o cumprimento da vontade do Pai.

A segunda tentação apresentada pelo evangelho nos fala da soberba da vida (v.5-7), e o tentador usa uma passagem bíblica (cf. Sl 91,11s), mas novamente o Senhor Jesus respondeu com uma outra passagem da Sagrada Escritura (cf. Dt 6,16), afirmando que seria errado abusar de Seus próprios poderes: “Não tentarás o Senhor teu Deus!” (v. 7).

Na terceira tentação Satanás diz a Jesus: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (Mt 4,9). Todo prazer, toda honra, satanás quer dar ao homem, desde que entregue a ele a sua alma, perdendo para sempre a comunhão com Deus. É a forma mais radical da tentação. Todo pecado tem algo disso em si: querer possuir uma felicidade, que não se responsabilize nem diante dos outros, nem diante de Deus.  Jesus nos mostra o único caminho: “Vai-te, Satanás… Adorarás somente ao Senhor teu Deus!” (Mt 4,10).

As três tentações apresentadas não são mais do que três faces de uma única tentação: a tentação de prescindir de Deus, de escolher um caminho que difere do projeto de Deus. Ao longo da sua vida, diante das diversas provocações que os adversários lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua total fidelidade à vontade de Deus.

E neste tempo quaresmal a Igreja nos indica os meios adequados para o combate quotidiano das sugestões do mal, são eles: a oração, os sacramentos, a penitência, a escuta atenta da Palavra de Deus, a vigilância e o jejum.  Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do tentador.

E a quaresma é um tempo em que devemos ouvir com mais atenção a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Um tempo para estarmos mais próximos de Deus, usando as armas da fé.

Ao longo desta quaresma, por várias vezes seremos exortados à conversão, que significa seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja um guia de vida. Deixar que Deus nos transforme significa reconhecer que somos criaturas que quotidianamente dependemos de Deus e do seu amor.  Por isto, devemos renovar o nosso compromisso de direcionar os nossos passos no caminho de uma conversão concreta e decisiva. E, para isto, invoquemos a assistência maternal de Nossa Senhora, para que, neste caminho quaresmal, possamos obter copiosos frutos de conversão. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro

(Referência: Mt  6,24-34)

The Money-Lenders, painting by Quentin Metsys at the Galleria Doria Pamphilj in Rome

Meus caros irmãos e irmãs,

O evangelho deste domingo faz parte do Sermão da Montanha e apresenta como tema central o desapego dos bens materiais e ressalta o sentido cristão da Providência. O evangelista São Mateus faz transparecer a forte advertência de Jesus contra os tesouros deste mundo e mostra o apego às riquezas como uma real escravidão. A exortação não deixa de ser também um desdobramento do Decálogo, em particular do primeiro mandamento, tal como o próprio Deus o declarou através dos seus profetas (cf. Ex 20,3-5).

Os ensinamentos de Jesus fazem um eco imediato do apelo solene apresentado pelo livro do Deuteronômio: “Ama o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças” (Dt 6, 5). E no Antigo Testamento ainda temos uma outra prescrição do Senhor: “Não terás outro deus além de mim” (Ex 20,3).  Jesus resumiu esses deveres do homem para com Deus nestas palavras: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente” (Mt 22, 37).

Nas duas liturgias dominicais passadas, Jesus nos ensinava qual deve ser a nossa atitude para com os outros. No Evangelho deste domingo, ele nos revela qual deve ser a nossa relação com os bens materiais e o lugar que eles devem ter na nossa vida e nos alerta: “Ninguém pode servir a dois senhores: pois ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v. 24).

A referência à incompatibilidade entre Deus e o dinheiro nos convida a uma particular reflexão neste campo. O dinheiro é o verdadeiro centro do poder no mundo. Ele compra consciências, poder, bem-estar, projeção social e, por ele, quantas mortes acontecem e o homem chega a renunciar à própria dignidade e, pelo dinheiro, acaba destruindo a natureza e desfigura até a obra da criação de Deus.

Quando Jesus diz: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” Em outras palavras, o texto quer nos dizer que somente Deus deve ser o alicerce da nossa existência.  O cristão deve distinguir-se pela absoluta confiança no Pai celeste, como foi para Jesus. É precisamente a relação com Deus Pai que dá sentido a toda a vida de Cristo, às suas palavras, aos seus gestos de salvação, até à sua paixão, morte e ressurreição. Com o seu testemunho de vida, Jesus demonstrou o que significa viver com os pés bem firmes no chão, atentos às situações concretas do próximo, e ao mesmo tempo, tendo sempre o coração no Céu, imerso na misericórdia de Deus.

Jesus nos coloca diante de dois senhores diametralmente opostos no que concerne aos seus respectivos interesses: Deus e o dinheiro.  A profissão de fé em Deus exige de nós crença e amor total, além da prática dos mandamentos e das virtudes. O dinheiro, por sua vez, nos inspira à ambição, vaidade, orgulho, menosprezo do próximo, nos faz ser seu servo e nos distancia de Deus.

O texto evangélico nos diz: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v. 24). O verbo servir, empregado neste versículo, refere-se à situação de um servo que, sem restrição alguma, entrega sua vontade a um senhor.  O Apóstolo São Paulo já nos adverte: “Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça?” (Rm 6,16). E São Pedro também ressalta: “O homem é feito escravo daquele que o venceu” (2Pd 2,19).  O apego às riquezas constitui, a partir de certo grau, uma real escravidão. As faculdades do escravo pertencem ao senhor, a quem deve prestar contas de todo o seu serviço.

O mal não está em ter dinheiro e servir-se dele.  O grande erro está quando o homem deixa que o dinheiro tome conta do seu coração e permite que ele se transforme em seu patrão.  Existem muitos casos de pessoas que abandonaram a fé e até mesmo a religião, porque deixaram se levar pelo fascínio dominador da riqueza.

Sempre que a lógica do “ter” domina o coração do homem, o dinheiro ocupa o lugar de Deus e passa a ser o seu ídolo.  Normalmente os ídolos acabam destruindo o homem. E Jesus apresenta o dinheiro como o pior de todos.  O dinheiro pode proporcionar roupas finas, prazeres, carros, viagens etc.  Mas isto pode ser perigoso, pois a pessoa pode tornar-se dependente do dinheiro e, com isto, pode perder a sua própria dignidade, passa a enganar os outros e tornando-se infiel à sua própria condição de filho de Deus.  O perigo ocorre quando Deus passa a ocupar um lugar secundário na vida do homem; e o dinheiro torna-se uma referência fundamental para a sua vida.

Também pode ocorrer o risco de alguém ficar lisonjeado com o dinheiro que ganha através do seu trabalho e, com isto, esquecer-se de Deus, por isto, a grande lição do Evangelho: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará a um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24).  Estas palavras de Jesus devem ecoar em nosso coração e, com sinceridade, devemos questionar a nós mesmos a quem servimos e quem é o centro da atenção da nossa vida.

Jesus também nos recorda que Deus nos conhece e que providencia tudo para nós. Os pássaros não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns, e encontram sempre o que comer. Os lírios do campo não trabalham nem fiam e são vestidos esplendorosamente. Pois bem, se para os animais e os vegetais, Deus assim providenciou, muito mais para nós, que somos seus filhos, criados à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26).

Os ensinamentos de Jesus para este domingo podem dar margem a mal-entendidos, se a interpretação ocorrer na linha da acomodação e da passividade. Jesus não quer nos dispensar do trabalho.  O Evangelho precisa ser compreendido em todo o seu conjunto harmonioso. O trabalho humano é algo digno e necessário, como bem ressalta o Apóstolo São Paulo, lembrando da obrigação do trabalho; chegando até mesmo a dizer que quem não quer trabalhar não tem o direito de comer (cf. 2Ts 3,10-12).

Nem mesmo as aves do céu deixam de lutar pela vida. Comparada com o homem, a ave é passiva, não prepara nem organiza sua comida, mas a encontra a partir do seu vôo. O homem, por sua vez, deve viver numa constante atitude de quem foi agraciado, pois recebeu ele inúmeros dons, frutos do amor e da misericórdia de Deus para com cada um dos seus filhos.  Na verdade, a sentença que deve dominar todo o seu horizonte deve ser sempre esta: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33), como enfatiza o Evangelho.

A proposta de Jesus é um convite a confiarmos totalmente na bondade e na solicitude paternal de Deus, mas, além disso, devemos estar comprometidos com o bem e a justiça, trabalhando todos os dias, a fim de que, o mundo novo da justiça, da verdade e da paz, se concretize.

Invoquemos uma vez mais a Virgem Maria, a quem chamamos de Mãe da divina Providência, que ela interceda por nós que estamos a caminho da terra prometida, que ela nos mostre o modo simples de viver, confiantes na proteção do Deus.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

O amor aos inimigos

Referência: Mt 5,38-48

Caros irmãos e irmãs,

Nestes últimos domingos do tempo comum, a liturgia vem alimentando nossa espiritualidade com significativos textos. Para hoje, somos convidados a meditar um dos tesouros da radicalidade evangélica apresentada por Jesus aos seus discípulos, onde Ele continua a propor, de forma muito concreta, a sua Lei de santidade.

Em um primeiro momento, o Evangelho faz uma referência à chamada “lei de talião” (vv. 38-42), consagrada na conhecida fórmula “olho por olho, dente por dente” e que aparece em vários textos do Antigo Testamento (cf. Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21). Trata-se de uma expressão que se tornou proverbial, e que descreve a falta de compaixão, a recusa de usar a clemência em relação ao culpado. Essa lei tinha sido imposta para defender o réu das vinganças sem limites, das represálias brutais, dos excessos nas punições.  Nos tempos antigos, quem conseguisse capturar o responsável por alguma maldade cometida, podia submetê-lo a punições severas, visando a dissuadi-lo, como também dissuadir os demais, a não cometer erros semelhantes.  A pessoa teria que pagar não só pelo seu crime, mas também por todos os outros crimes cujos responsáveis não tinham sido descobertos.

Esta vingança era um método antiquado e desumano de praticar a justiça, mas servia para manter a ordem naquela sociedade.  Neste contexto social, foi introduzida esta nova norma: “Olho por olho, dente por dente”, alicerçada sob a ideia da recusa do perdão, baseada em uma justiça exigente de igualdade, que acaba fazendo surgir, pela sua própria dureza, um convívio atroz.

Contudo, Jesus propõe algo novo, pois, na sua perspectiva, é preciso interromper o curso da violência e, para isso, propõe aos seus discípulos a não resposta às eventuais provocações e a não retribuir o outro com o mal, mas com o bem.  O Senhor nos adverte não só a receber com paciência os golpes que nos ferem, mas a apresentar com humildade a outra face. A finalidade da lei era ensinar a não fazer ao outro aquilo que não queremos que nos façam. Por isto, somos chamados a amputar as nossas más ações.

Com o objetivo de tornar mais clara a sua proposta, Jesus apresenta alguns casos concretos. Inicialmente, pede para não responder com a mesma moeda àquele que nos agride fisicamente, mas que se desarme o violento, oferecendo a outra face (v. 39); em seguida, Jesus recomenda que, diante de uma exigência exorbitante, como a entrega da túnica, isto é, da peça de roupa mais fundamental, que não era tirada senão àquele que era vendido como escravo (cf. Gn 37,23), se responda entregando ainda mais (v. 40).

Um outro exemplo que o Evangelho nos apresenta,  refere-se ao amor aos inimigos: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (v. 44). Trata-se de uma nova norma apresentada por Jesus.  Uma novidade que exige uma autêntica revolução das mentalidades. Para Jesus, o amor deve atingir a todos, sem exceção, inclusive aos inimigos. Fica, assim, abolida qualquer discriminação; sendo retiradas todas as barreiras que separam os homens. Isto porque Deus também não faz discriminação no seu amor. Ele é o Pai que não distingue entre amigos e inimigos, que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre bons e maus, e oferece o seu amor a todos, inclusive aos indignos (v. 45). Esta é a nova visão do mundo e dos seus valores que o Cristo veio trazer à terra.

Para avaliar adequadamente o significado da lei em nossa vida espiritual é bom estarmos advertidos de que a retidão e a sinceridade são conquistas laboriosas que podemos atingir com o auxílio da graça do Senhor. A atitude postulada pelo Evangelho consiste em não apenas em suportar passivamente as injúrias recebidas, mas colocar uma iniciativa positiva de amor e de bem: amar o inimigo, retribuir com o bem em troca do mal.  É também o que nos diz o apóstolo São Paulo: “A ninguém pagarás o mal com o mal… não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12,14s).

Nisto, observa-se a identidade que devemos ter para com o nosso Criador, quando o Evangelho também acentua: “Haveis, pois, de ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Estas palavras são dirigidas a cada batizado. Somos chamados a imitar a santidade e a perfeição de Deus, sendo perfeitos na compaixão, no amor, no perdão e na misericórdia.

Com estes ensinamentos, Jesus nos mostra a raiz e a causa de todos os males, como também o remédio que nos traz todos os bens.  A nossa perfeição é viver como filhos de Deus, cumprindo concretamente a sua vontade. Isto pode parecer uma meta inatingível, porém, as normas concretas apresentadas pelo Evangelho mostram como é o comportamento de Deus, o que deve se tornar também a regra do nosso agir. Na verdade, a nossa linguagem deve ser sempre a do Evangelho.

Os ensinamentos do Senhor têm como objetivo a nossa purificação para não incorrermos ao pecado.  Neste sentido, o próprio Cristo é o maior exemplo para todos nós, pois ele mesmo nos diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e achareis repouso para as vossas almas” (Mt 11,29).

E na segunda leitura, São Paulo ainda nos adverte: “Sois templo de Deus… o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós” (1Cor 3, 16-17). Neste templo que somos nós, celebra-se uma liturgia existencial: a da bondade, do perdão, do serviço; numa palavra, a liturgia do amor.  O templo que somos nós, não pode ser profanado e exige vigilância e zelo. Se estivermos  conscientes desta realidade, e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro, eloquente e eficaz.  Nós somos como uma construção sagrada onde Deus mora.

O convite de Cristo a nos deixarmos envolver pela sua exigente proposta evangélica ressoa com vigor para cada um de nós.  A liturgia da Palavra deste domingo nos estimula a rever a nossa relação com Jesus, a procurar o seu rosto sem nos cansarmos.  E para testemunharmos com maior zelo e ardor estas atitudes de santidade, saibamos amar aqueles que nos são hostis; abençoemos quem fala mal de nós; saudemos com um sorriso a quem talvez não o mereça; saibamos esquecer as humilhações sofridas e deixemo-nos guiar sempre pelo Espírito de Cristo.

Somos hoje chamados à santidade e à perfeição. O caminho do cristão é um caminho que exige, de cada ser humano, um compromisso sério.  Já na primeira leitura (cf. Lv 19,1-2.17-18), temos um apelo veemente à santidade: viver na comunhão com o Deus e também com o próximo.

Saibamos colocar em prática as palavras do Cristo que assim diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus” (Mt 5, 44-45). Quem acolhe o Senhor na própria vida e o ama com todo o coração é capaz de um novo início, um começar de novo. Se estivermos conscientes desta realidade e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro e eficaz.

Invoquemos a Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, para que nos ensine a viver no amor e na unidade.  Assim seja!

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

 “Assim foi dito aos antigos; eu, porém, vos digo (…)”

Referência: Mt 5,17-37

Caros irmãos e irmãs!

O evangelho deste domingo sublinha que o “pleno cumprimento” da lei consiste principalmente na obediência às regras estabelecidas. Obedecer corretamente a uma lei é procurar descobrir e praticar a intenção do legislador, o que ele tinha em mente ao promulgá-la. É o que chamamos espírito da lei. Isso vai muito além da obediência literal, que só vê o que a lei diz em si, sem considerar o seu sentido mais profundo.

No caso da Sagrada Escritura, as leis do Antigo e do Novo Testamento vieram do mesmo autor, que é Deus. Suas palavras são as de um Pai que só quer o bem dos filhos. Também nós devemos receber essas leis com amor de filhos. São Paulo já ressalta: “Não és mais escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro; tudo isso, por graça de Deus” (Ef 4,7). Fazemos parte da família de Deus, é assim que devemos ver as leis que Ele nos deixou.

Deus implantou na alma humana uma luz intelectual pela qual o homem conhece que o bem deve ser praticado e o mal, evitado.  Na primeira parte do Evangelho deste domingo (v. 17-19), o evangelista São Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai (cf. Ex 20,1-21). A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso ser vista como a expressão concreta de uma adesão total a Deus. Os fariseus achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas. Eram eles rigorosos na observância da letra da Lei, mas não eram capazes de penetrar no âmago de seu espírito, onde está a verdade, a justiça, o amor.

Para iluminar esta verdade, Jesus dá alguns exemplos práticos que a Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece.  A Lei de Moisés prescreve o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspectiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao outro.  Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos de Jesus não se limitam a cumprir a letra da Lei; eles têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os levem a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do outro.

Não basta não matar, é preciso não se encolerizar contra o outro, não lhe dirigir palavras injuriosas.  Se uma arma pode matar o corpo, uma palavra dura pode matar o coração, por isto Jesus deixa para os cristãos uma norma a ser observada.  A este propósito, São Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação, a inimizade pode ser uma forma de matar o outro, por isto, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois é uma mentira a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos (cf. Mt 5,24).

A vida humana é sagrada, por isto deve ser respeitada, pois desde a sua origem, postula a ação criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. Só Deus é o Senhor da vida, desde o seu começo até ao seu termo: ninguém, em circunstância alguma, pode reivindicar o direito de dar a morte diretamente a um ser humano inocente (cf. CIgC n. 2258).

A Sagrada Escritura, na narrativa da morte de Abel pelo seu irmão Caim (cf. Gn 4,8-12), revela, desde os primórdios da história humana, a presença da cólera e da inveja no coração do homem, consequências do pecado original. O homem tornou-se inimigo do seu semelhante. No evangelho deste domingo é lembrado este preceito da lei de Deus: “Não matarás” (Mt 5, 21) e acrescenta a proibição da ira, do ódio e da vingança. Cristo exige do seu discípulo que ofereça a outra face (Mt 5, 22-26.38-39) e que ame os seus inimigos (Cf. Mt 5, 44).

No evangelho temos ainda uma referência ao adultério: “Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” (v. 27-28). E podemos ainda ler: “Não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19,6).  Adultério é o termo que designa a infidelidade conjugal. Aquele que o comete, falta aos seus compromissos. Viola o sinal da aliança, que é o vínculo matrimonial, lesa o direito do outro cônjuge e atenta contra a instituição do matrimônio, ferindo o contrato em que assenta. Compromete o bem da geração humana e dos filhos que têm necessidade da união estável dos pais (cf. CIgC, n. 2381).

A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema, por isto disse o Senhor que olhar com desejos libidinosos para uma mulher já é cometer adultério no coração.  E, mais ainda: se na Lei antiga tinha entrado o divórcio, a lei do Evangelho não admite o divórcio.  Quem repudiar sua mulher com a qual estiver legitimamente casado, faz com que ela adultere; e quem se casar com a repudiada comete adultério (v. 31-32). Jesus veio restaurar a criação na pureza das suas origens.

A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei precisa ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida (cf. Gn 2,18-24). Amar quer dizer não só desejar, mas respeitar, merecer e aprender o mútuo respeito, tendo sempre diante dos olhos o vínculo que no matrimônio une dois seres humanos. Amar é ter a consciência de que tal união é indissolúvel, dura, por instituição divina até a morte.

No dia do casamento, ambos disseram um para o outro: “Recebo-te por minha esposa… recebo-te por meu esposo e te prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te todos os dias da minha vida”. Este é o vínculo matrimonial que surge do amor recíproco, se exprime mediante o juramento conjugal. Cada união nasce através do pacto entre um casal, mas tendo como base a unidade e a indissolubilidade, ordenado à procriação e à educação da prole (cf. cân. 1055), sinal da estabilidade da família, que sempre deve ser respeitada.

A primeira comunhão que se instaura e se desenvolve entre os cônjuges, em virtude do pacto de amor conjugal, o homem e a mulher “já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19,6), e são chamados a crescer continuamente nesta comunhão através da fidelidade quotidiana à promessa matrimonial do recíproco dom total (cf. FC, 19).

Em Caná da Galiléia, ao lado dos esposos recém-casados estava a Virgem Maria, a mãe do Senhor. Ela disse aos servos: “Fazei tudo que Ele vos disser” (Jo 2,5). Que junto a todos os cônjuges, desde o início do matrimônio, possa estar ela a mostrar o caminho a seguir e, com sua presença materna, possa interceder sempre por cada casal, para que o ambiente familiar seja sempre o lugar da alegria e da paz. Que ela guie também os nossos passos na fidelidade à Lei que Cristo deixou para nós, para posamos ser conduzidos, com o coração dilatado, à vida plena. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

 Sal da terra e luz do mundo

Referência: Mt 5,13-16

Caros irmãos e irmãs!

Relemos neste domingo umas das mais belas imagens com que Jesus comparou seus discípulos, na maioria pescadores que deixaram tudo para segui-lo. A eles disse: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14). Inicialmente, Jesus chama seus discípulos de sal da terra porque o sal serve para preservar muitos alimentos da corrupção.  Essa é a missão dos discípulos.  Eles devem salvar os homens da corrupção moral.  O sal serve ainda para dar gosto e sabor, e a missão dos discípulos de Jesus é semelhante:  devem eles preservar e salvar os homens da corrupção do pecado por meio do exemplo e da palavra.

Jesus adverte que se o sal se corromper, para nada mais serve, por isto é lançado fora e pisado pelos homens (v. 13).  Na Palestina, as pessoas pobres frequentemente recolhiam sal nas margens do mar morto.  Este sal, como vinha cheio de impurezas, facilmente se deteriorava, por isto era jogado fora e pisado pelos homens.  Os orientais, naqueles tempos, tinham o costume de jogar na rua todo e qualquer lixo. Vale lembrar que naquele tempo a população era menor e não adotava os costumes de higiene que temos hoje, como a coleta de lixo. O sal corrompido se tornava lixo e era então pisado e desprezado por todos.

E Jesus compara os seus discípulos ao sal, pois cabia aos discípulos transmitir à comunidade o sabor dos ensinamentos do Divino Mestre.  O sal é feito para dar gosto, para dar sabor aos alimentos.  É o sal que tempera os alimentos.  “Temperar” quer dizer dar gosto justo; nem sal demais, nem sal de menos.  Ele vem a significar, então, que o discípulo de Cristo deve representar na comunidade o equilíbrio, o bom senso, a prudência própria do homem sábio, o homem da harmonia, da tranquilidade e da paz.

O sal é a primeira das imagens à qual Jesus apela para definir a identidade de seus discípulos.  Elemento familiar a qualquer cultura, desde sempre foi empregado para dar sabor à comida.  Inclusive, até a aparição do frio industrial, geladeira ou frigorífico, era praticamente o único meio para preservar os alimentos que se corrompem facilmente, especialmente a carne.

Mas, além disso, na cultura bíblica e judaica, o sal significava também a sabedoria, por esta razão, nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber e sabedoria pertencem à mesma raiz semântica e família linguística.  Neste sentido, o sal acaba sendo um simbolismo feliz, de grande riqueza expressiva, para sinalizar a missão do seguidor de Jesus no meio da sociedade.

O sal é ainda um protagonista muito especial no âmbito culinário.  Sua presença discreta na comida não é detectada; mas sua ausência não pode ser dissimulada.  O sal dissolve-se completamente nos alimentos e se perde em agradável sabor.  Essa é sua condição: passar despercebido, mas atuar eficazmente.

O simbolismo da luz, por sua vez, tem um longo e fecundo itinerário bíblico: desde a primeira página do Livro do Gênesis, que descreve a criação da luz por Deus, passando depois para a coluna de fogo que guiava o povo israelita em seu êxodo do Egito, e continuando pela luz dos tempos messiânicos anunciada pelos profetas, especialmente pelo profeta Isaías, para chegar à plena luz da revelação de Cristo Jesus.  Ele afirmou de si mesmo: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não anda em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

E Jesus disse também:  “Vós sois a luz do mundo” (v. 14).  Naturalmente, um reflexo da grande luz da verdade e da santidade, que é o próprio Cristo.  Acende-se se uma luz para que ilumine.  Ninguém acende uma lâmpada para escondê-la debaixo de uma vasilha, mas para colocá-la em lugar alto, a fim de que brilhe para todos os que estão na casa.  Ninguém deve fazer o bem com a finalidade de ser visto,  seria vaidade.  Mas, por outro lado, sua vida deve ser tão digna e tão pura, que possa servir de luz para o caminho dos outros.

Jesus compara seus discípulos à luz, por isto, devem eles iluminar o mundo com a doutrina que receberam de Jesus.  Iluminar com a vida exemplar e santa e devem ter em mira a glória de Deus e a salvação das almas, luz para iluminar o caminho, para que todos caminhem em busca da verdadeira fé.  A verdade e a doutrina da salvação devem ser propagadas por toda parte.  Jesus diz que ninguém acende uma luz para escondê-la.  A fé cristã é uma luz, a única luz e deve estar acima de tudo para iluminar.

Destas considerações nasce uma lição.  As leituras de hoje nos convergem em uma direção: o testemunho que devemos dar de nossa vida e o serviço que podemos prestar aos outros.  E neste serviço Jesus concretiza a nossa identidade: luz e sal da terra. Bela maneira de expressar a nossa tarefa, a tarefa de cada cristão: ser sal da terra, ser luz do mundo, sal humilde, derretido, saboroso, que atua desde dentro, que não se nota, mas que é indispensável, a tal ponto que se perder o seu sabor não serviria mais para nada.

Somos chamados a ser aquele que ilumina. E aquele que crê em Jesus se converte em luz para si mesmo e para os outros.  A palavra do Senhor era para o povo Israelita “a lâmpada para os seus passos e luz em seu caminho” (Sl 118,105).   Também o novo Povo de Deus, a comunidade dos fiéis que seguem a Cristo, tem a missão de ser luz do mundo. A fé em Cristo é a luz do cristão.

No seu ensinamento, Jesus se serve de um dos elementos simbólicos mais significativos da vida humana.  A luz é símbolo de vida, de alegria e felicidade.  Está indissoluvelmente ligada à vida, a ponto de se identificar com ela.  A luz se torna símbolo do próprio Deus, da vida divina.  Deus não é só Criador da luz (cf. Gn 1,3-5), Ele se manifesta como luz que exprime sua glória, que salva e dá a vida ao homem (cf. Is 10,17; 60,19).  Neste sentido, ressalta o apóstolo Paulo: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Cor 1,5).

No Antigo Testamento, o Servo do Senhor é anunciado como “luz das nações” (Is 51,4).  A luz de Deus, a sua vida, apareceu visivelmente em Jesus (cf. Jo 1, 4.9).  Ele é a luz do mundo (cf. Jo 3,19) que ilumina todo homem.  Como o sol ilumina a estrada, assim o Cristo ilumina o caminho da humanidade para Deus, fonte de vida e de alegria.

Em forma exortativa, o evangelho dá uma indicação sobre testemunho do cristão:  “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5,16).  Esta expressão se liga a Is 58,7-10 e dá a este texto um significado novo.  O agir do cristão deve ser um espelho do agir de Deus, um reflexo de sua glória que não atrai a atenção para si, mas para Deus.

Para melhor compreender estas imagens, tenhamos presente que a Lei judaica prescrevia a educação de um pouco de sal em cima da oferenda apresentada a Deus, em sinal de aliança. Depois, a luz para Israel era o símbolo da revelação messiânica que triunfa sobre as trevas do paganismo. Os cristãos recebem portanto uma missão em relação a todos os homens: com a fé e com a caridade podem orientar, consagrar, tornar fecunda a humanidade.

Todos nós que recebemos o batismo somos também discípulos do Senhor e somos chamados, através da nossa vida cristã, a dar sabor aos mais diversos ambientes, para preservá-los da corrupção, como faz o sal, e a levarmos a todos a luz de Cristo com o testemunho de uma caridade genuína. Mas se nós cristãos perdermos sabor e cancelarmos a nossa presença de sal e luz, perderemos a eficiência.

Peçamos uma vez mais a intercessão da Virgem Maria, ela que também é chamada pelo povo cristão de Nossa Senhora da Luz, para que possamos ser, em todos os instantes, sal e luz para todos.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

As bem-aventuranças

Referência: Mt 5,1-12

Caríssimos irmãos e irmãs,

A liturgia da palavra deste domingo nos traz um dos mais belos discursos de Jesus: o sermão das bem-aventuranças.   Em suas primeiras linhas o Evangelho relata que uma imensa multidão, vinda de todos os lugares, rodeava o Senhor, para ouvir a sua doutrina salvadora, que dá sentido à vida.

É esta a ocasião que Jesus aproveita para traçar uma imagem do verdadeiro discípulo e proclama de bem-aventurados os pobres em espírito, os que sofrem, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e os perseguidos por causa da justiça (cf.  Mt 5,3-10).

Trata-se de um programa de vida para os cristãos, com os traços característicos de quem quer seguir Jesus Cristo.  São normas sábias propostas para que o homem possa atingir a felicidade.  A palavra bem-aventurado, do latim “beatus”, significa “feliz”, por isto, todos os bem-aventurados são felizes; na verdade, em todos os seres humanos existe uma tendência irresistível para ser feliz.  Todos querem a felicidade.  É um desejo que está plantado no mais profundo do ser humano.  Todos tendem a atingir a satisfação desse desejo inato.  E neste domingo, o Evangelho nos diz que a verdadeira felicidade só se realiza no encontro com Deus.

As bem-aventuranças iluminam as ações e atitudes que caracterizam a vida cristã e exprimem o que significa ser discípulo de Cristo (cf. CIgC, n. 1717). Ao mesmo tempo, elas são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura.  Devemos olhar como Jesus viveu estas bem-aventuranças. Os evangelhos são, do início ao fim, uma demonstração da mansidão de Cristo, em seu duplo aspecto de humildade e de paciência. Ele mesmo se propõe como modelo de mansidão para nós.

A primeira bem-aventurança nos fala que são felizes os “pobres em espírito”, ou seja, os que souberam se posicionar corretamente diante das riquezas do mundo. Jesus se identifica com os pobres.  Ele mesmo nasceu em uma manjedoura, em um lugar simples; e morre em uma cruz, despojado de suas vezes.  E, ao longo da sua vida, não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20). E para ser seu discípulo, ele mesmo aconselha renunciar a todos os bens pessoais (cf. Mt 14,33). Por outro lado, nem todos os pobres são bem-aventurados, é preciso ser pobre “em espírito”, ou seja, despojar de seus bens para dividi-los com aqueles que mais  necessitam. É o desapego dos bens materiais e o despojar-se da arrogância e da ambição.

Os mansos também são felizes porque aprenderam a fugir da agitação do mundo, das brigas, dos desentendimentos e irritações.  Nisto também encontramos no Cristo a prova máxima da mansidão, que está no momento da sua paixão e morte de cruz. Mesmo diante da dor e do sofrimento não encontramos nenhum gesto de ira, nenhuma ameaça: “Insultado, não respondia com insultos; ao padecer, não ameaçava” (1Pd 2,23).

Essa característica da pessoa de Cristo ficou gravado, de tal forma, na memória de seus discípulos que São Paulo escreve aos coríntios: “Vos suplico pela mansidão e pela benignidade de Cristo” (2Cor 10,1). Mas Jesus fez muito mais que nos dar um exemplo de mansidão e paciência heróica; fez da mansidão o sinal da verdadeira grandeza e deixou para nós uma lição: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,2s).  E seguindo este modelo, podemos dizer que os mansos são aqueles conformados com a vontade de Deus, suportam com paciência e coragem as adversidades da vida.

Os que têm fome e sede de justiça precisam lutar constantemente para que cada um receba o que lhe é devido.  A fome e a sede são os impulsos mais fortes que o homem experimenta.  São necessidades básicas para sobrevivência de qualquer ser vivo. Sem a ingestão de líquidos ou alimentos é impossível que se conserve a vida biológica. Contudo, esta bem-aventurança identifica como felizes os que têm sede e fome de justiça; e justiça significa dar a cada um o que lhe é de direito. A Sagrada Escritura, por sua vez, nos diz que Deus é o justo juiz (cf. Sl 7,11), portanto, dá a cada um, de acordo com as suas obras. O texto nos desafia a ter sede dessa justiça ou desse juízo divino e almejar em cada pessoa os seus direitos respeitados.

Os misericordiosos são aqueles que procuram em tudo ajudar os mais necessitados. Enquanto o pecado obscurece o conhecimento das coisas do céu, os puros de coração, sempre agindo por amor a Deus, pelas virtudes infusas, verão a Deus; porque sabem guardar um coração puro para poder assim ter olhos abertos para ver a Deus.  A pureza de coração foi colocada por Jesus entre as bem-aventuranças, pois, não pode faltar na vida de um santo. E São Paulo faz eco às palavras de Jesus, ao dizer aos cristãos de Tessalônica: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação; que eviteis a impureza, que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santificação e honestidade, sem se deixar levar pelas paixões desregradas como fazem os pagãos que não conhecem a Deus…” (1Ts 4,3-7).

As bem-aventuranças também ressaltam que são felizes aqueles que promovem a paz e, uma vez mais, podemos ver realizadas todas essas exortações na vida do próprio Senhor Jesus. Seu nascimento é revelado aos pastores com o anúncio: “Paz na terra aos homens que Deus ama!” (Lc 2,14). E Ele mesmo disse aos seus discípulos: “Eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27). Após a sua ressurreição Jesus aparece aos seus apóstolos e os saúda: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19). Trata-se de algo real, algo que é transmitido.

Neste sentido, a paz é quase um sinônimo de graça e, de fato, os dois termos são usados em conjunto, como uma espécie de binômio, no início das cartas de São Paulo: “Graça e paz a vós da parte de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 1,7; 1Ts 1,1). Mas a paz também indica a harmonia com Deus, com os outros e consigo mesmo; e, neste sentido, todos nós somos chamados a cumprir esta bem-aventurança, buscando todos os esforços para construir um mundo no qual exista a paz para todos.

Cada uma das bem-aventuranças consiste de duas partes: uma condição e um resultado. Em quase todos os casos, as frases são familiares ao Antigo Testamento, mas o sermão de Jesus as eleva à condição de um novo ensinamento. As bem-aventuranças apresentam um conjunto de ideais, com foco no amor e na humildade, ecoando ensinamentos de espiritualidade e compaixão.

Pode-se ainda dizer que o conjunto de todas as bem-aventuranças traçam, pois, um único ideal: o da santidade.  Ao escutarmos, novamente essas palavras do Senhor, reavivamos em nós esse ideal como eixo de toda a nossa vida. São orientações para seguir no caminho da perfeição. E o evangelho conclui com uma mensagem de esperança: “Estejam alegres e contentes, porque a vossa recompensa será grande no céu” (Mt 5,12).

Que o Senhor nos conceda entender as bem-aventuranças, assimilá-las e vivê-las com determinação, para entrarmos no seu Reino, cujo acesso é reservado para os humildes e para os que ouvem a sua Palavra e se empenham para colocá-la em prática.

Invoquemos a Virgem Maria, aquela que todas as gerações ao de proclamar “bem-aventurada”, porque acreditou na boa notícia que o Senhor anunciou (cf. Lc 1,48), para que possamos seguir com alegria os ensinamentos de seu Divino Filho, através do caminho das bem-aventuranças. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

O chamamento dos primeiros discípulos

Referência: Mt 4,12-23.

Caros irmãos e irmãs,

Na Liturgia da Palavra deste domingo o evangelista São Mateus nos apresenta o início da missão pública de Cristo, que tem início nas cidades e aldeias da Galileia. Neste ambiente simples, tido como uma região pagã e excluída da salvação, que Jesus começa ensinando que ninguém está excluído da salvação de Deus.  O profeta Isaías já havia prenunciado que nesta terra, destinada às tribos de Zabulão e de Neftali, teria conhecido um futuro glorioso: o povo imerso nas trevas teria visto uma grande luz (cf. Is 8,23-9,1), a luz de Cristo e do seu Evangelho (cf. Mt 4, 12-16).

A pregação de Jesus vai consistir essencialmente no anúncio do Reino de Deus e na cura dos doentes. Literalmente, “evangelho” significa “boa mensagem”, “boa notícia” ou “boa nova”, derivando da palavra grega ευαγγέλιον.  A “boa nova” que Jesus proclama resume-se nestas palavras: “O reino de Deus está próximo” (Mt 4,17).  Esta expressão não indica um reino terreno delimitado no espaço e no tempo, mas anuncia que é Deus quem reina, que é Deus o Senhor e o seu senhorio está presente, é atual, está a realizar-se.

A novidade da mensagem de Cristo é, portanto, que Deus em sua pessoa se fez próximo, já reina entre nós, como demonstram os milagres e as curas que Ele realiza. Deus reina no mundo mediante o seu Filho feito homem e com a força do Espírito Santo. Aonde chega Jesus, o Espírito criador leva vida e os homens são curados das doenças do corpo e do espírito. O senhorio de Deus manifesta-se então na cura integral do homem. Com isto Jesus quer revelar o rosto do verdadeiro Deus, o Deus próximo, cheio de misericórdia por todos os seres humanos. O reino de Deus é, portanto, a vida que se afirma sobre a morte, a luz da verdade que dissipa as trevas da ignorância e da mentira.

Falamos que o Evangelho é a “boa nova” porque a sua exortação é sempre atual. Todos os dias somos chamados à conversão a Cristo e este é o caminho que nos conduz a Deus.  E a Liturgia da Palavra deste domingo ressalta o projeto de salvação que Deus tem para oferecer à humanidade.  Já na primeira leitura (cf. Is 8,23-9,3), o profeta Isaías anuncia uma luz que Deus irá fazer brilhar e que colocará fim às trevas que submergem todos aqueles que estão prisioneiros da morte, da injustiça e do sofrimento.

A imagem da luz torna-se sinal da esperança messiânica: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz,uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria como a morte” (Is 9,1).     No contexto do sofrimento e da dor, a imagem da luz vislumbra em sinal de alegria e paz.  O profeta Isaías “uma luz” que começará a brilhar em cima dos montes da Galiléia e que irá iluminar toda a terra. Essa luz eliminará “as trevas” que mantinham o Povo sem esperança e inaugurará um novo dia, onde passa a ser uma realidade.

Jesus tem consciência de que a chegada desse novo tempo está ligada à sua pessoa. Mas o seu primeiro anúncio resume-se, para o Evangelista Mateus, no convite à conversão, porque o Reino de Deus está para chegar (v. 17).  O convite à conversão é um apelo a uma mudança radical na maneira de pensar, nos valores e nas atitudes. Corresponde, fundamentalmente, a um reorientar a vida para Deus, a um reequacionar a vida, de modo a que Deus e os seus valores passam a estar no centro da existência da nossa existência.

E o Evangelho descreve o chamamento dos primeiros discípulos (vv. 18-22). Através da resposta de Pedro e André, Tiago e João, Jesus propõe esta atitude destes primeiros discípulos como um exemplo da conversão e da adesão às suas exigências.  O relato sublinha uma diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os discípulos que se juntavam à volta dos mestres do judaísmo: não são os discípulos que escolhem o mestre e pedem para entrar no seu grupo, como acontecia com os discípulos dos rabinos; mas a iniciativa é de Jesus, que chama os discípulos que Ele próprio escolheu e os convida a segui-lo para uma missão.

A resposta dos quatro primeiros discípulos ao chamado de Jesus é imediata: renunciam à família, ao trabalho, às seguranças instituídas e seguem Jesus sem questionar. Esta ruptura indicia uma opção radical pelo Cristo e pelo seu Evangelho. Eles deixam um atividade para assumir uma outra: eles serão pescadores de homens. O mar, na cultura judaica, é o lugar dos demônios, das forças da morte que se opõem à vida e à felicidade dos homens.  No mar havia os monstros e nele até os mais hábeis marinheiros não se sentiam em segurança.  O mar, na cultura de então, era tido como a morada do demônio, das doenças e de todas as forças inimigas da vida.

A tarefa dos discípulos de Jesus será, portanto, arrancar os homens dos tentáculos do mal que, nestas águas impetuosas, os dominam, os arrastam, os submerge. Cabe a eles libertar os homens dessa realidade de morte e de escravidão em que eles estão mergulhados, e os conduzir à liberdade e à plena realização. Nisto consiste a missão de pescadores de homens.  Nestes quatro discípulos: Pedro, André, Tiago e João, estão representados o grupo dos discípulos, de todos os tempos e lugares. Eles não podem ter medo das ondas do mar, mesmo quando elas estão violentas.  Não podem desistir de salvar aqueles que necessitam de uma vida nova.

Para que o Reino de Deus possa ser instaurado, Jesus pede a “conversão”. Esta conversão é, antes de mais, um refazer a existência, de forma a que só Deus ocupe o primeiro lugar na vida do homem. Implica, portanto, despir-se do egoísmo que o impede de estar atento às necessidades do próximo, dos que necessitam do nosso auxilio e da nossa atenção.

O tema da luz, relacionado à pregação do Evangelho, indica que a salvação há de ser difundida largamente ao alcance de todos. À imagem da luz, pelo seu fenômeno de irradiação, torna-se, a grande força expressiva do Evangelho a ser dilatado entre as nações e para todos os homens. Entretanto, a riqueza da imagem nos remete também ao fato da luz possibilitar a visão (cf. Mt 6,22-23) e aquecer os ambientes.

É frequente na Sagrada Escritura a imagem da luz como expressão da ação de Deus Salvador.   O Velho Simeão, por exemplo, no Templo, se referiu ao Menino Jesus como “luz que veio para iluminar as nações” (Lc 2,32).  Em São João essa idéia aparece inúmeras vezes.  Assim no prólogo do seu Evangelho, Jesus é apresentado como a “luz verdadeira que vindo ao mundo e ilumina a todo homem”  (Jo 1,9).  O juízo de condenação do mundo acontece porque “a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz” (Jo 3,19).  E sobre todas essas reflexões paira a solene palavra de Jesus: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue, não caminha nas trevas, mas tem a luz da vida” (Jo 8,12).  Não sem misterioso significado, na hora da morte de Jesus no Calvário “estenderam-se as trevas sobre toda a terra”  (Mt 27,45).  Com Cristo, a luz.  Sem Cristo, a escuridão.

Mas nós também somos chamados a irradiar a luz.  Os textos bíblicos apresentados para este domingo indicam que Deus veio ao mundo como luz, para iluminar o nosso caminho de trevas. Quantos homens e mulheres andam à procura de sentido e procuram o seu caminho na noite.   Hoje também o Senhor nos chama para que o sigamos e para que iluminemos a vida dos homens e as suas atividades com a luz da fé.  Sem a fé em Jesus Cristo os homens caminham às escuras e, por isso, podem tropeçar e cair.  O Senhor nos chama a ser luz do mundo. Cabe a cada um de nós ser portador e reflexo desta luz.  Que o nosso coração possa estar aberto para acolher esta luz “que te ilumina e salva” (Sl 26).

Peçamos uma vez mais a Maria, a Virgem de Nazaré, a quem também invocamos com o título de Nossa Senhora da Luz, que ela possa interceder por nós, para que possamos cumprir com fidelidade os ensinamentos de seu filho Jesus e que possamos ser uma luz a iluminar os caminhos daqueles que estão nas trevas.  Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

Site oficial da Paróquia São Judas Tadeu em Augusto Vasconcelos-RJ