V DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

 Sal da terra e luz do mundo

Referência: Mt 5,13-16

Caros irmãos e irmãs!

Relemos neste domingo umas das mais belas imagens com que Jesus comparou seus discípulos, na maioria pescadores que deixaram tudo para segui-lo. A eles disse: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14). Inicialmente, Jesus chama seus discípulos de sal da terra porque o sal serve para preservar muitos alimentos da corrupção.  Essa é a missão dos discípulos.  Eles devem salvar os homens da corrupção moral.  O sal serve ainda para dar gosto e sabor, e a missão dos discípulos de Jesus é semelhante:  devem eles preservar e salvar os homens da corrupção do pecado por meio do exemplo e da palavra.

Jesus adverte que se o sal se corromper, para nada mais serve, por isto é lançado fora e pisado pelos homens (v. 13).  Na Palestina, as pessoas pobres frequentemente recolhiam sal nas margens do mar morto.  Este sal, como vinha cheio de impurezas, facilmente se deteriorava, por isto era jogado fora e pisado pelos homens.  Os orientais, naqueles tempos, tinham o costume de jogar na rua todo e qualquer lixo. Vale lembrar que naquele tempo a população era menor e não adotava os costumes de higiene que temos hoje, como a coleta de lixo. O sal corrompido se tornava lixo e era então pisado e desprezado por todos.

E Jesus compara os seus discípulos ao sal, pois cabia aos discípulos transmitir à comunidade o sabor dos ensinamentos do Divino Mestre.  O sal é feito para dar gosto, para dar sabor aos alimentos.  É o sal que tempera os alimentos.  “Temperar” quer dizer dar gosto justo; nem sal demais, nem sal de menos.  Ele vem a significar, então, que o discípulo de Cristo deve representar na comunidade o equilíbrio, o bom senso, a prudência própria do homem sábio, o homem da harmonia, da tranquilidade e da paz.

O sal é a primeira das imagens à qual Jesus apela para definir a identidade de seus discípulos.  Elemento familiar a qualquer cultura, desde sempre foi empregado para dar sabor à comida.  Inclusive, até a aparição do frio industrial, geladeira ou frigorífico, era praticamente o único meio para preservar os alimentos que se corrompem facilmente, especialmente a carne.

Mas, além disso, na cultura bíblica e judaica, o sal significava também a sabedoria, por esta razão, nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber e sabedoria pertencem à mesma raiz semântica e família linguística.  Neste sentido, o sal acaba sendo um simbolismo feliz, de grande riqueza expressiva, para sinalizar a missão do seguidor de Jesus no meio da sociedade.

O sal é ainda um protagonista muito especial no âmbito culinário.  Sua presença discreta na comida não é detectada; mas sua ausência não pode ser dissimulada.  O sal dissolve-se completamente nos alimentos e se perde em agradável sabor.  Essa é sua condição: passar despercebido, mas atuar eficazmente.

O simbolismo da luz, por sua vez, tem um longo e fecundo itinerário bíblico: desde a primeira página do Livro do Gênesis, que descreve a criação da luz por Deus, passando depois para a coluna de fogo que guiava o povo israelita em seu êxodo do Egito, e continuando pela luz dos tempos messiânicos anunciada pelos profetas, especialmente pelo profeta Isaías, para chegar à plena luz da revelação de Cristo Jesus.  Ele afirmou de si mesmo: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não anda em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

E Jesus disse também:  “Vós sois a luz do mundo” (v. 14).  Naturalmente, um reflexo da grande luz da verdade e da santidade, que é o próprio Cristo.  Acende-se se uma luz para que ilumine.  Ninguém acende uma lâmpada para escondê-la debaixo de uma vasilha, mas para colocá-la em lugar alto, a fim de que brilhe para todos os que estão na casa.  Ninguém deve fazer o bem com a finalidade de ser visto,  seria vaidade.  Mas, por outro lado, sua vida deve ser tão digna e tão pura, que possa servir de luz para o caminho dos outros.

Jesus compara seus discípulos à luz, por isto, devem eles iluminar o mundo com a doutrina que receberam de Jesus.  Iluminar com a vida exemplar e santa e devem ter em mira a glória de Deus e a salvação das almas, luz para iluminar o caminho, para que todos caminhem em busca da verdadeira fé.  A verdade e a doutrina da salvação devem ser propagadas por toda parte.  Jesus diz que ninguém acende uma luz para escondê-la.  A fé cristã é uma luz, a única luz e deve estar acima de tudo para iluminar.

Destas considerações nasce uma lição.  As leituras de hoje nos convergem em uma direção: o testemunho que devemos dar de nossa vida e o serviço que podemos prestar aos outros.  E neste serviço Jesus concretiza a nossa identidade: luz e sal da terra. Bela maneira de expressar a nossa tarefa, a tarefa de cada cristão: ser sal da terra, ser luz do mundo, sal humilde, derretido, saboroso, que atua desde dentro, que não se nota, mas que é indispensável, a tal ponto que se perder o seu sabor não serviria mais para nada.

Somos chamados a ser aquele que ilumina. E aquele que crê em Jesus se converte em luz para si mesmo e para os outros.  A palavra do Senhor era para o povo Israelita “a lâmpada para os seus passos e luz em seu caminho” (Sl 118,105).   Também o novo Povo de Deus, a comunidade dos fiéis que seguem a Cristo, tem a missão de ser luz do mundo. A fé em Cristo é a luz do cristão.

No seu ensinamento, Jesus se serve de um dos elementos simbólicos mais significativos da vida humana.  A luz é símbolo de vida, de alegria e felicidade.  Está indissoluvelmente ligada à vida, a ponto de se identificar com ela.  A luz se torna símbolo do próprio Deus, da vida divina.  Deus não é só Criador da luz (cf. Gn 1,3-5), Ele se manifesta como luz que exprime sua glória, que salva e dá a vida ao homem (cf. Is 10,17; 60,19).  Neste sentido, ressalta o apóstolo Paulo: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Cor 1,5).

No Antigo Testamento, o Servo do Senhor é anunciado como “luz das nações” (Is 51,4).  A luz de Deus, a sua vida, apareceu visivelmente em Jesus (cf. Jo 1, 4.9).  Ele é a luz do mundo (cf. Jo 3,19) que ilumina todo homem.  Como o sol ilumina a estrada, assim o Cristo ilumina o caminho da humanidade para Deus, fonte de vida e de alegria.

Em forma exortativa, o evangelho dá uma indicação sobre testemunho do cristão:  “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5,16).  Esta expressão se liga a Is 58,7-10 e dá a este texto um significado novo.  O agir do cristão deve ser um espelho do agir de Deus, um reflexo de sua glória que não atrai a atenção para si, mas para Deus.

Para melhor compreender estas imagens, tenhamos presente que a Lei judaica prescrevia a educação de um pouco de sal em cima da oferenda apresentada a Deus, em sinal de aliança. Depois, a luz para Israel era o símbolo da revelação messiânica que triunfa sobre as trevas do paganismo. Os cristãos recebem portanto uma missão em relação a todos os homens: com a fé e com a caridade podem orientar, consagrar, tornar fecunda a humanidade.

Todos nós que recebemos o batismo somos também discípulos do Senhor e somos chamados, através da nossa vida cristã, a dar sabor aos mais diversos ambientes, para preservá-los da corrupção, como faz o sal, e a levarmos a todos a luz de Cristo com o testemunho de uma caridade genuína. Mas se nós cristãos perdermos sabor e cancelarmos a nossa presença de sal e luz, perderemos a eficiência.

Peçamos uma vez mais a intercessão da Virgem Maria, ela que também é chamada pelo povo cristão de Nossa Senhora da Luz, para que possamos ser, em todos os instantes, sal e luz para todos.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

As bem-aventuranças

Referência: Mt 5,1-12

Caríssimos irmãos e irmãs,

A liturgia da palavra deste domingo nos traz um dos mais belos discursos de Jesus: o sermão das bem-aventuranças.   Em suas primeiras linhas o Evangelho relata que uma imensa multidão, vinda de todos os lugares, rodeava o Senhor, para ouvir a sua doutrina salvadora, que dá sentido à vida.

É esta a ocasião que Jesus aproveita para traçar uma imagem do verdadeiro discípulo e proclama de bem-aventurados os pobres em espírito, os que sofrem, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e os perseguidos por causa da justiça (cf.  Mt 5,3-10).

Trata-se de um programa de vida para os cristãos, com os traços característicos de quem quer seguir Jesus Cristo.  São normas sábias propostas para que o homem possa atingir a felicidade.  A palavra bem-aventurado, do latim “beatus”, significa “feliz”, por isto, todos os bem-aventurados são felizes; na verdade, em todos os seres humanos existe uma tendência irresistível para ser feliz.  Todos querem a felicidade.  É um desejo que está plantado no mais profundo do ser humano.  Todos tendem a atingir a satisfação desse desejo inato.  E neste domingo, o Evangelho nos diz que a verdadeira felicidade só se realiza no encontro com Deus.

As bem-aventuranças iluminam as ações e atitudes que caracterizam a vida cristã e exprimem o que significa ser discípulo de Cristo (cf. CIgC, n. 1717). Ao mesmo tempo, elas são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura.  Devemos olhar como Jesus viveu estas bem-aventuranças. Os evangelhos são, do início ao fim, uma demonstração da mansidão de Cristo, em seu duplo aspecto de humildade e de paciência. Ele mesmo se propõe como modelo de mansidão para nós.

A primeira bem-aventurança nos fala que são felizes os “pobres em espírito”, ou seja, os que souberam se posicionar corretamente diante das riquezas do mundo. Jesus se identifica com os pobres.  Ele mesmo nasceu em uma manjedoura, em um lugar simples; e morre em uma cruz, despojado de suas vezes.  E, ao longo da sua vida, não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20). E para ser seu discípulo, ele mesmo aconselha renunciar a todos os bens pessoais (cf. Mt 14,33). Por outro lado, nem todos os pobres são bem-aventurados, é preciso ser pobre “em espírito”, ou seja, despojar de seus bens para dividi-los com aqueles que mais  necessitam. É o desapego dos bens materiais e o despojar-se da arrogância e da ambição.

Os mansos também são felizes porque aprenderam a fugir da agitação do mundo, das brigas, dos desentendimentos e irritações.  Nisto também encontramos no Cristo a prova máxima da mansidão, que está no momento da sua paixão e morte de cruz. Mesmo diante da dor e do sofrimento não encontramos nenhum gesto de ira, nenhuma ameaça: “Insultado, não respondia com insultos; ao padecer, não ameaçava” (1Pd 2,23).

Essa característica da pessoa de Cristo ficou gravado, de tal forma, na memória de seus discípulos que São Paulo escreve aos coríntios: “Vos suplico pela mansidão e pela benignidade de Cristo” (2Cor 10,1). Mas Jesus fez muito mais que nos dar um exemplo de mansidão e paciência heróica; fez da mansidão o sinal da verdadeira grandeza e deixou para nós uma lição: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,2s).  E seguindo este modelo, podemos dizer que os mansos são aqueles conformados com a vontade de Deus, suportam com paciência e coragem as adversidades da vida.

Os que têm fome e sede de justiça precisam lutar constantemente para que cada um receba o que lhe é devido.  A fome e a sede são os impulsos mais fortes que o homem experimenta.  São necessidades básicas para sobrevivência de qualquer ser vivo. Sem a ingestão de líquidos ou alimentos é impossível que se conserve a vida biológica. Contudo, esta bem-aventurança identifica como felizes os que têm sede e fome de justiça; e justiça significa dar a cada um o que lhe é de direito. A Sagrada Escritura, por sua vez, nos diz que Deus é o justo juiz (cf. Sl 7,11), portanto, dá a cada um, de acordo com as suas obras. O texto nos desafia a ter sede dessa justiça ou desse juízo divino e almejar em cada pessoa os seus direitos respeitados.

Os misericordiosos são aqueles que procuram em tudo ajudar os mais necessitados. Enquanto o pecado obscurece o conhecimento das coisas do céu, os puros de coração, sempre agindo por amor a Deus, pelas virtudes infusas, verão a Deus; porque sabem guardar um coração puro para poder assim ter olhos abertos para ver a Deus.  A pureza de coração foi colocada por Jesus entre as bem-aventuranças, pois, não pode faltar na vida de um santo. E São Paulo faz eco às palavras de Jesus, ao dizer aos cristãos de Tessalônica: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação; que eviteis a impureza, que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santificação e honestidade, sem se deixar levar pelas paixões desregradas como fazem os pagãos que não conhecem a Deus…” (1Ts 4,3-7).

As bem-aventuranças também ressaltam que são felizes aqueles que promovem a paz e, uma vez mais, podemos ver realizadas todas essas exortações na vida do próprio Senhor Jesus. Seu nascimento é revelado aos pastores com o anúncio: “Paz na terra aos homens que Deus ama!” (Lc 2,14). E Ele mesmo disse aos seus discípulos: “Eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27). Após a sua ressurreição Jesus aparece aos seus apóstolos e os saúda: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19). Trata-se de algo real, algo que é transmitido.

Neste sentido, a paz é quase um sinônimo de graça e, de fato, os dois termos são usados em conjunto, como uma espécie de binômio, no início das cartas de São Paulo: “Graça e paz a vós da parte de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 1,7; 1Ts 1,1). Mas a paz também indica a harmonia com Deus, com os outros e consigo mesmo; e, neste sentido, todos nós somos chamados a cumprir esta bem-aventurança, buscando todos os esforços para construir um mundo no qual exista a paz para todos.

Cada uma das bem-aventuranças consiste de duas partes: uma condição e um resultado. Em quase todos os casos, as frases são familiares ao Antigo Testamento, mas o sermão de Jesus as eleva à condição de um novo ensinamento. As bem-aventuranças apresentam um conjunto de ideais, com foco no amor e na humildade, ecoando ensinamentos de espiritualidade e compaixão.

Pode-se ainda dizer que o conjunto de todas as bem-aventuranças traçam, pois, um único ideal: o da santidade.  Ao escutarmos, novamente essas palavras do Senhor, reavivamos em nós esse ideal como eixo de toda a nossa vida. São orientações para seguir no caminho da perfeição. E o evangelho conclui com uma mensagem de esperança: “Estejam alegres e contentes, porque a vossa recompensa será grande no céu” (Mt 5,12).

Que o Senhor nos conceda entender as bem-aventuranças, assimilá-las e vivê-las com determinação, para entrarmos no seu Reino, cujo acesso é reservado para os humildes e para os que ouvem a sua Palavra e se empenham para colocá-la em prática.

Invoquemos a Virgem Maria, aquela que todas as gerações ao de proclamar “bem-aventurada”, porque acreditou na boa notícia que o Senhor anunciou (cf. Lc 1,48), para que possamos seguir com alegria os ensinamentos de seu Divino Filho, através do caminho das bem-aventuranças. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

O chamamento dos primeiros discípulos

Referência: Mt 4,12-23.

Caros irmãos e irmãs,

Na Liturgia da Palavra deste domingo o evangelista São Mateus nos apresenta o início da missão pública de Cristo, que tem início nas cidades e aldeias da Galileia. Neste ambiente simples, tido como uma região pagã e excluída da salvação, que Jesus começa ensinando que ninguém está excluído da salvação de Deus.  O profeta Isaías já havia prenunciado que nesta terra, destinada às tribos de Zabulão e de Neftali, teria conhecido um futuro glorioso: o povo imerso nas trevas teria visto uma grande luz (cf. Is 8,23-9,1), a luz de Cristo e do seu Evangelho (cf. Mt 4, 12-16).

A pregação de Jesus vai consistir essencialmente no anúncio do Reino de Deus e na cura dos doentes. Literalmente, “evangelho” significa “boa mensagem”, “boa notícia” ou “boa nova”, derivando da palavra grega ευαγγέλιον.  A “boa nova” que Jesus proclama resume-se nestas palavras: “O reino de Deus está próximo” (Mt 4,17).  Esta expressão não indica um reino terreno delimitado no espaço e no tempo, mas anuncia que é Deus quem reina, que é Deus o Senhor e o seu senhorio está presente, é atual, está a realizar-se.

A novidade da mensagem de Cristo é, portanto, que Deus em sua pessoa se fez próximo, já reina entre nós, como demonstram os milagres e as curas que Ele realiza. Deus reina no mundo mediante o seu Filho feito homem e com a força do Espírito Santo. Aonde chega Jesus, o Espírito criador leva vida e os homens são curados das doenças do corpo e do espírito. O senhorio de Deus manifesta-se então na cura integral do homem. Com isto Jesus quer revelar o rosto do verdadeiro Deus, o Deus próximo, cheio de misericórdia por todos os seres humanos. O reino de Deus é, portanto, a vida que se afirma sobre a morte, a luz da verdade que dissipa as trevas da ignorância e da mentira.

Falamos que o Evangelho é a “boa nova” porque a sua exortação é sempre atual. Todos os dias somos chamados à conversão a Cristo e este é o caminho que nos conduz a Deus.  E a Liturgia da Palavra deste domingo ressalta o projeto de salvação que Deus tem para oferecer à humanidade.  Já na primeira leitura (cf. Is 8,23-9,3), o profeta Isaías anuncia uma luz que Deus irá fazer brilhar e que colocará fim às trevas que submergem todos aqueles que estão prisioneiros da morte, da injustiça e do sofrimento.

A imagem da luz torna-se sinal da esperança messiânica: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz,uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria como a morte” (Is 9,1).     No contexto do sofrimento e da dor, a imagem da luz vislumbra em sinal de alegria e paz.  O profeta Isaías “uma luz” que começará a brilhar em cima dos montes da Galiléia e que irá iluminar toda a terra. Essa luz eliminará “as trevas” que mantinham o Povo sem esperança e inaugurará um novo dia, onde passa a ser uma realidade.

Jesus tem consciência de que a chegada desse novo tempo está ligada à sua pessoa. Mas o seu primeiro anúncio resume-se, para o Evangelista Mateus, no convite à conversão, porque o Reino de Deus está para chegar (v. 17).  O convite à conversão é um apelo a uma mudança radical na maneira de pensar, nos valores e nas atitudes. Corresponde, fundamentalmente, a um reorientar a vida para Deus, a um reequacionar a vida, de modo a que Deus e os seus valores passam a estar no centro da existência da nossa existência.

E o Evangelho descreve o chamamento dos primeiros discípulos (vv. 18-22). Através da resposta de Pedro e André, Tiago e João, Jesus propõe esta atitude destes primeiros discípulos como um exemplo da conversão e da adesão às suas exigências.  O relato sublinha uma diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os discípulos que se juntavam à volta dos mestres do judaísmo: não são os discípulos que escolhem o mestre e pedem para entrar no seu grupo, como acontecia com os discípulos dos rabinos; mas a iniciativa é de Jesus, que chama os discípulos que Ele próprio escolheu e os convida a segui-lo para uma missão.

A resposta dos quatro primeiros discípulos ao chamado de Jesus é imediata: renunciam à família, ao trabalho, às seguranças instituídas e seguem Jesus sem questionar. Esta ruptura indicia uma opção radical pelo Cristo e pelo seu Evangelho. Eles deixam um atividade para assumir uma outra: eles serão pescadores de homens. O mar, na cultura judaica, é o lugar dos demônios, das forças da morte que se opõem à vida e à felicidade dos homens.  No mar havia os monstros e nele até os mais hábeis marinheiros não se sentiam em segurança.  O mar, na cultura de então, era tido como a morada do demônio, das doenças e de todas as forças inimigas da vida.

A tarefa dos discípulos de Jesus será, portanto, arrancar os homens dos tentáculos do mal que, nestas águas impetuosas, os dominam, os arrastam, os submerge. Cabe a eles libertar os homens dessa realidade de morte e de escravidão em que eles estão mergulhados, e os conduzir à liberdade e à plena realização. Nisto consiste a missão de pescadores de homens.  Nestes quatro discípulos: Pedro, André, Tiago e João, estão representados o grupo dos discípulos, de todos os tempos e lugares. Eles não podem ter medo das ondas do mar, mesmo quando elas estão violentas.  Não podem desistir de salvar aqueles que necessitam de uma vida nova.

Para que o Reino de Deus possa ser instaurado, Jesus pede a “conversão”. Esta conversão é, antes de mais, um refazer a existência, de forma a que só Deus ocupe o primeiro lugar na vida do homem. Implica, portanto, despir-se do egoísmo que o impede de estar atento às necessidades do próximo, dos que necessitam do nosso auxilio e da nossa atenção.

O tema da luz, relacionado à pregação do Evangelho, indica que a salvação há de ser difundida largamente ao alcance de todos. À imagem da luz, pelo seu fenômeno de irradiação, torna-se, a grande força expressiva do Evangelho a ser dilatado entre as nações e para todos os homens. Entretanto, a riqueza da imagem nos remete também ao fato da luz possibilitar a visão (cf. Mt 6,22-23) e aquecer os ambientes.

É frequente na Sagrada Escritura a imagem da luz como expressão da ação de Deus Salvador.   O Velho Simeão, por exemplo, no Templo, se referiu ao Menino Jesus como “luz que veio para iluminar as nações” (Lc 2,32).  Em São João essa idéia aparece inúmeras vezes.  Assim no prólogo do seu Evangelho, Jesus é apresentado como a “luz verdadeira que vindo ao mundo e ilumina a todo homem”  (Jo 1,9).  O juízo de condenação do mundo acontece porque “a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz” (Jo 3,19).  E sobre todas essas reflexões paira a solene palavra de Jesus: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue, não caminha nas trevas, mas tem a luz da vida” (Jo 8,12).  Não sem misterioso significado, na hora da morte de Jesus no Calvário “estenderam-se as trevas sobre toda a terra”  (Mt 27,45).  Com Cristo, a luz.  Sem Cristo, a escuridão.

Mas nós também somos chamados a irradiar a luz.  Os textos bíblicos apresentados para este domingo indicam que Deus veio ao mundo como luz, para iluminar o nosso caminho de trevas. Quantos homens e mulheres andam à procura de sentido e procuram o seu caminho na noite.   Hoje também o Senhor nos chama para que o sigamos e para que iluminemos a vida dos homens e as suas atividades com a luz da fé.  Sem a fé em Jesus Cristo os homens caminham às escuras e, por isso, podem tropeçar e cair.  O Senhor nos chama a ser luz do mundo. Cabe a cada um de nós ser portador e reflexo desta luz.  Que o nosso coração possa estar aberto para acolher esta luz “que te ilumina e salva” (Sl 26).

Peçamos uma vez mais a Maria, a Virgem de Nazaré, a quem também invocamos com o título de Nossa Senhora da Luz, que ela possa interceder por nós, para que possamos cumprir com fidelidade os ensinamentos de seu filho Jesus e que possamos ser uma luz a iluminar os caminhos daqueles que estão nas trevas.  Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017


Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”

Referência: Jo 1,29-34

Meus caros irmãos e irmãs,

Neste domingo iniciamos o chamado Tempo Comum da liturgia. O Tempo Comum é um período do ano litúrgico de trinta e quatro semanas, nas quais são celebrados, na sua globalidade, os mistérios de Cristo. Comemora-se o próprio mistério de Cristo em sua plenitude, principalmente aos domingos.  Durante este tempo litúrgico o celebrante usa o paramento de cor verde, ressaltando que os cristãos devem sempre estar na esperança da volta do Messias.

O texto do evangelho nos apresenta a cena do encontro entre Jesus e João Batista, à margem do rio Jordão, de acordo com o evangelista São João, que antes de ser discípulo de Jesus era discípulo de João Batista, juntamente com o seu irmão Tiago, com Simão e André, todos da Galileia, todos pescadores. Portanto, João Batista vê Jesus que se aproxima no meio da multidão e O reconhece como o enviado de Deus; por isso, o indica com as seguintes palavras: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29).

Esta afirmação de João Batista, identificando Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo 1,29), evoca, provavelmente, duas imagens tradicionais extremamente sugestivas. Por um lado, evoca a imagem do “servo sofredor”, o cordeiro levado para o matadouro, que assume os pecados do seu Povo e realiza a expiação (cf. Is 52,13-53,12); por outro lado, evoca a imagem do cordeiro pascal, símbolo da ação de Deus em favor de Israel (cf. Ex 12,1-28). Qualquer uma destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está ligada ao bem da humanidade.

Em conformidade com o testemunho de João Batista, Jesus manifesta as características do Servo do Senhor, que “tomou sobre si as nossas enfermidades, carregou os nossos sofrimentos” (Is 53, 4), a ponto de morrer na cruz. Ele é o verdadeiro Cordeiro pascal, que mergulha no rio dos nossos pecados para nos purificar. De igual modo o “Servo do Senhor”, como nos diz a primeira leitura, é comparado a um cordeiro.

O cordeiro é um animal que certamente não se caracteriza pela força, não é agressivo, mas dócil e pacífico; não mostra as garras nem os dentes diante de qualquer ataque. Sete séculos antes de Cristo, o profeta Isaías predisse que o Messias seria levado à morte, “sem abrir a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro” (cf. Is 53,7). São Paulo disse: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1Cor 5,7). Assim, Jesus é semelhante a um cordeiro. Porém, Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; e é o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito Santo.

A imagem de Jesus, com seu sacrifício na cruz, se torna o verdadeiro Cordeiro pascal que destrói para sempre o pecado do mundo.  Cordeiro sem mancha, aceitou livremente os sofrimentos físicos e morais impostos pela injustiça dos pecadores e, neste contexto, assumiu Ele todos os pecados dos homens, toda ofensa a Deus.  Neste sentido, São Paulo sublinha que Jesus carregou, Ele mesmo, em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados (cf. 1Pd 2,24).

No momento em que Cristo era imolado na cruz, também no templo eram imolados os cordeiros pascais. Jesus é também este Cordeiro imolado, como nos narra o Livro do Apocalipse: “Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor” (Ap 5,12). E, na sua entrega ao Pai, Jesus assume a condição de Cordeiro Salvador do mundo, se entregando voluntariamente pelos nossos pecados (cf. Gl 1,4).

Os hebreus tinham o costume de matar um cordeiro em sacrifício a Deus, para remissão dos pecados. O sacrifício de animais era frequente entre vários grupos étnicos, em várias partes do mundo. Na Bíblia é referido, por exemplo, o caso de Abraão que, para provar a sua fé em Deus teria de sacrificar o seu único filho, imolado e queimado numa fogueira de lenha, como era costume para os sacrifícios de animais. O  relato bíblico refere, contudo, que Deus não permitiu tal execução (cf. Gn 22,1-18).

A morte de Jesus Cristo, considerado pelos cristãos como filho unigênito de Deus, tornaria estes sacrifícios desnecessários, já que sendo considerado perfeito, não tendo pecado e tendo nascido de uma Virgem por graça do Espírito Santo, semelhante a Adão antes do pecado original, seria o sacrifício supremo, interpretado como o maior ato do amor de Deus para com a humanidade.

Contudo, Jesus é o cordeiro em um sentido novo. Ele é o Cordeiro de Deus. Como também descreve o Evangelista São João: “Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2,2).  Jesus apareceu para tirar o pecado e nele não há pecado (cf. 1Jo 3,5).   Na Instituição da Eucaristia declara-se explicitamente que “o sangue é derramado para a remissão dos pecados” (Mt 26,28).

Entretanto, chama a nossa atenção que o texto evangélico, neste versículo, diz João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (v. 29).  O termo “pecado”,  aparece no singular, indicando que a missão de Jesus consiste em expiar, no sentido único, “o pecado do mundo”, que oprime a humanidade inteira e a torna escrava do pecado.  Com Jesus o pecado vai ser eliminado, vai ser tirado da humanidade.

A situação de pecado vivida pela humanidade, o pecado do mundo, já existia antes da chegada de Jesus Cristo. Jesus terá como missão designada por Deus: eliminar o pecado da humanidade. A expressão “pecado” está no singular, por ser o único, determinado pelo artigo “o”.  E o Batismo será o meio de tirar o pecado do mundo. O batismo, portanto, tem como finalidade de tirar o pecado, uma ação sobre o indivíduo que o recebe. O que Jesus realizará não é combater o mundo e o pecado, mas sim dar a possibilidade de cada indivíduo de sair do domínio escravizador do pecado.

João Batista, ao chamar Jesus de “cordeiro”, também o identifica com os cordeiros imolados no Egito, durante a noite da libertação dos israelitas que estavam como escravos do faraó.  Todas as famílias imolaram um cordeiro e com o sangue desses cordeiros ungiram os umbrais das suas casas, de modo a preservá-los da fúria do anjo exterminador. Com isto, todos foram salvos do extermínio. João quer confirmar que Jesus veio ao mundo para dar a sua vida por nós.  O seu sangue liberta os homens do pecado e das forças do mal, que os conduzem à morte.

E, de fato, na hora em que Jesus morria na cruz, era imolado no Templo o cordeiro pascal para os judeus comemorarem a Páscoa. São Pedro também disse que não fomos resgatados pelo preço de ouro ou de prata, mas “pelo sangue precioso de Cristo, o Cordeiro sem mancha” (cf. 1Pd 1,18-19).

A função de “tirar o pecado do mundo” indica que a missão de Jesus consiste em libertar cada ser humano do pecado, para introduzi-lo na terra da fraternidade. Tirar o pecado do mundo é precisamente o legado que Jesus, com o dom do Espírito, deixa aos seus apóstolos quando de sua ressurreição (cf. Jo 20,19-23). Acreditar que Jesus é o Cordeiro de Deus implica mudanças radicais em nossa vida.

João Batista apresentou Jesus aos seus discípulos com absoluta certeza de que Ele era o prometido, o Filho de Deus. Nós, os seguidores de Jesus, assumimos a sua missão de ser como Ele: Luz das nações para que a salvação chegue até os confins da terra. Seremos luz em Cristo e nele levaremos a luz por toda a terra. Crer em Jesus é continuar no mundo a sua missão. A missão do Cordeiro continua no mundo através de seus discípulos, entre os quais sobressaem os santos e todos os batizados. Possa nos ajudar a Virgem Maria, a quem sempre pedimos que interceda por cada um de nós, para que possamos ser, em todos os momentos, uma oferenda perfeita.   Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
(Mosteiro de São Bento – RJ)

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR – Ano A -2017

Referência: Mt 2,1-12

Caros irmãos e irmãs!

Neste domingo celebramos a solenidade da Epifania do Senhor e, mais uma vez, somos colocados diante da rica e abundante Palavra de Deus que nos ilumina.  Celebramos a manifestação de um Deus que se revelou na história como luz do mundo, para guiar a humanidade em direção à terra prometida.

A primeira leitura deste domingo, tirada do Livro do profeta Isaías (cf. Is 60,1-6), e o trecho do Evangelho de São Mateus (Mt 2,1-12), colocam lado a lado, a promessa e o seu cumprimento. Aparece diante de nós a visão do profeta que, depois das humilhações padecidas pelo povo de Israel, vê o momento em que a grande luz de Deus surgirá sobre toda a terra, de maneira que os reis das nações se inclinarão diante dele e depositarão aos seus pés os seus tesouros mais preciosos.

O texto do Evangelho nos coloca diante da cena dos magos que vêm do Oriente para adorar o Senhor.  Os magos eram astrônomos que viram na imagem da estrela uma mensagem de esperança e, guiados por ela, são conduzidos até a Judéia.  São também identificados como homens sábios, que se colocam a caminho para encontrar o verdadeiro Deus.

Como os magos estavam à procura do recém-nascido, rei dos judeus, parece então normal que fossem à cidade régia de Israel e entrassem no palácio do rei.  Certamente eles presumiram que deveria ter nascido lá o futuro rei. Mas, para encontrar definitivamente a estrada que os levaria ao verdadeiro herdeiro do rei Davi, precisam, antes, da indicação das Sagradas Escrituras, ou seja, da Palavra de Deus.

Os magos questionam sobre o local onde deveria nascer o menino.  Mas observemos a reação à pergunta dos magos: “O rei Herodes ficou alarmado e com ele toda Jerusalém” (Mt 2,3).  Esta perturbação de Herodes perante a notícia do nascimento de um misterioso pretendente ao trono era certamente bem compreensível.  Herodes é um homem do poder, que consegue ver no outro apenas o rival. E, no fundo, considera Deus também como um rival, antes, como o rival mais perigoso. O rei Herodes mostra interesse pelo Menino, não para o adorar, mas para o eliminar.

É interessante notar que em Jerusalém a estrela tinha desaparecido por completo.  Depois do encontro dos magos com a Palavra da Escritura, a estrela resplandece de novo para eles.  E o texto bíblico nos diz, referindo-se à reação dos magos: “Revendo a estrela, alegraram-se” (Mt 2,10).   É a alegria do homem, que foi atingido no coração pela luz de Deus e pode ver realizada a sua esperança.

No mundo antigo, os corpos celestes eram considerados como forças divinas que decidiam o destino dos homens e dominavam o mundo.  Os planetas têm nomes de divindades.  Nesta linha de pensamento, se situa a narrativa da estrela que aparece no evangelho a guiar os magos.  Não é a estrela que determina o destino do Menino, mas o Menino que guia a estrela (cf. BENTO XVI, A infância de Jesus, São Paulo, 2012, p. 79ss).

E o texto do Evangelho ainda diz: “Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se, adoraram-no” (Mt 2,11).  Na presença do Menino Jesus, os magos fazem uma prostração; ou seja, é a homenagem que se presta a um Rei e Deus.  A partir disso, pode-se explicar o significado das oferendas que realizam.  Não são presentes práticos, que pudessem talvez revelar-se úteis naquele momento para a Sagrada Família; mas são dons que exprimem o reconhecimento da dignidade real daquele a quem são oferecidos.  Ouro e incenso aparecem mencionados no livro do profeta Isaías (cf. Is 60,6), como presentes de homenagem, que devem ser oferecidos pelos povos ao Deus de Israel.

Nos três presentes, a tradição da Igreja viu representados três aspectos do mistério de Cristo: O ouro indica a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade, e a mirra, o mistério da sua Paixão.  Como de fato, o Evangelista São João nos narra que, para ungir o corpo de Jesus, Nicodemos fez uso da mirra (cf. Jo 19,39).  A mirra afasta os vermes dos cadáveres e preserva os corpos da corrupção.  Assim, através da mirra, o mistério da Cruz está de novo ligado à realeza de Jesus e preanuncia-se de maneira misteriosa a sua morte já na adoração dos magos.

Mas, com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, esta oferenda de presentes ao Menino Jesus recém-nascido, indica o reconhecimento da sua divindade. Ou seja, a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem também a sua autoridade. A consequência a que isto dá origem é imediata. Os magos regressam apressados às suas terras, mas já não podem continuar pelo mesmo caminho, já não podem regressar para junto de Herodes, já não podem ser aliados com aquele soberano poderoso e cruel. Foram conduzidos por um outro caminho; em  uma outra direção.

O texto nos diz: “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2,12). Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para proclamar a descoberta. No entanto, os Magos, que escolheram o Menino como soberano o protegeram da fúria de Herodes e foram transformados após o encontro com a Verdade, descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza, um novo caminho: o caminho da fé.

Santo Agostinho, fazendo uma referência a este texto, completa: “Também nós, reconhecendo Cristo, nosso rei… O honramos como se tivéssemos oferecido ouro, incenso e mirra; só nos falta dar testemunho dele, percorrendo um caminho diferente daquele pelo qual viemos” (S. AGOSTINHO, Sermo 202, In Epiphania Domini 3,4).

Muitos viram a estrela, mas só poucos compreenderam a sua mensagem. Os estudiosos da Escritura do tempo de Jesus conheciam perfeitamente a palavra de Deus. Eram capazes de dizer sem qualquer dificuldade o que se podia encontrar nela a respeito do lugar onde o Messias teria nascido, mas, como Santo Agostinho diz: “…enquanto davam indicações aos romeiros a caminho, eles permaneciam inertes e imóveis” (S. AGOSTINHO, Sermo 199, In Epiphania Domini 1,2).

Estes estudiosos da Palavra de Deus não se deslocaram, não caminharam em direção a Jesus.  Eles não conseguiram ver a estrela, não alcançaram a luz do mundo; enquanto os magos deixam-se guiar pela luz do menino e reconhecem nele o Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.  Com isso, podemos afirmar que Cristo vem como luz a iluminar os povos, mas muitos ainda vivem nas trevas e não conseguem ver a luz que é o próprio Cristo.  Tenhamos consciência de que o Menino é a luz a nos iluminar.  E é esta luz que devemos seguir e por esta luz devemos nos deixar iluminar.

Peçamos ao Senhor que Ele nos faça seguir o mesmo itinerário percorrido pelos magos e nos coloquemos a caminho.  Que a luz da estrela de Belém nos conduza ao Encontro do Menino Deus e após este encontro, possamos também nós seguir por um outro caminho: o caminho da conversão, o caminho da santidade, o caminho de uma vida nova.  E com os magos, ajoelhemo-nos diante daquele que nasceu para nós e está nos braços da sempre Virgem Maria Mãe de Deus.  Possamos também oferecer-lhe os nossos dons: não mais ouro, incenso e a mirra, mas a nossa decisão de segui-lo até o fim, fazendo sempre a sua vontade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

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