XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B O que torna impuro o homem

 

 

Mc 7,1-8.14-15.21-23

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo nos propõe uma reflexão sobre a Lei, cujo objetivo é indicar ao homem um caminho seguro para a felicidade e para a vida em plenitude. A Palavra de Deus é um caminho sempre atual e nos conduz a um encontro com a verdade. Como, de fato, a escuta atenta e o compromisso firme com a Palavra de Deus devem ser para nós uma experiência a nos projetar para o amor e para o bem e, devem nos impulsionar para a ação, para a mudança de vida, para o abandono da vida antiga, a fim de abraçar uma vida nova, segundo as prescrições do Senhor.

É preciso transformar a Palavra que escutamos em gestos concretos, que nos levem à conversão. O apóstolo Tiago, na sua carta, alerta para o perigo de uma religiosidade falsa. Ele escreve aos cristãos: “Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,22). O Evangelho, por sua vez, sequencia esta mesma temática, onde sobressai o tema da Lei de Deus, do seu mandamento: um elemento essencial da religião judaica e também da cristã, que encontra o seu pleno cumprimento no amor (cf. Rm 13,10). A Lei de Deus é a sua Palavra que orienta o homem pelo caminho da vida, que o leva a sair da escravidão do pecado e o introduz na “terra” da verdadeira vida.

Para entendermos melhor o Evangelho deste domingo devemos recordar inicialmente que os povos antigos em geral e os judeus em particular, sentiam um grande desconforto quando tinham de lidar com certas realidades desconhecidas e misteriosas, que não podiam controlar nem dominar. Criaram, então, um conjunto de regras e normas, com a finalidade de se protegerem diante de cadáveres, sangue e lepra, por exemplo. No contexto judaico, quem infringia essas regras se colocava numa situação de marginalidade e indignidade, que o impedia de se aproximar do Templo, do culto e de se integrar à comunidade do Povo de Deus. Dizia-se então que a pessoa ficava “impura”. Para readquirir o estado de “pureza” e poder reintegrar a comunidade do Povo santo, o crente necessitava realizar um rito de “purificação”, cuidadosamente estipulado pela Lei.

Na época de Jesus, as regras da “pureza” tinham sido ampliadas pelos doutores da Lei e existia uma lista imensa de atividades que tornavam o homem “impuro” e o afastavam da comunidade do Povo santo de Deus. Daí a obsessão com os rituais de “purificação”, que deviam ser cumpridos a cada passo da vida diária. Sobressaem assim os questionamentos sobre como se libertar da impureza que separa o homem de Deus. Por esta razão, nas diversas religiões, foram introduzidos ritos purificadores, como caminhos de purificação interior e exterior.

Já no Antigo Testamento encontramos inúmeras prescrições de purificação pela água, seja banhando o corpo, as vestes ou as mãos, para se libertar da impureza. As purificações se faziam fundamentalmente com água, sangue ou fogo. Este é um dos sentidos do incenso nas celebrações litúrgicas: simboliza pureza, virtude, doçura e oração que se eleva. As brasas aludem ao fogo do amor de Deus que nos queima o coração na dupla linha da purificação em vista de uma missão. Faz pensar no profeta Isaías ao qual um dos serafins com brasa ardente tocou os seus lábios dizendo: “…o teu pecado está perdoado” e em seguida a voz de Deus lhe confia a missão (cf. Is 6,6-9).

Lavar, aspergir com sangue ou queimar, eram gestos purificatórios. O Sl 50 já nos lembra: “Aspergi-me, Senhor, com o hissopo e serei purificado. Lavai-me e ficarei mais branco do que a neve”. Em muitas igrejas, à entrada, existe uma pia de água benta, e as pessoas se persignam com ela em sinal de purificação. Em certas celebrações, os fiéis são aspergidos com água benta, como rito penitencial, a recordar o batismo, que confere àquele que o recebe, a purificação de todos os pecados. E ao sacerdote, antes de iniciar o momento principal da ação litúrgica, cabe também um gesto de purificação. O celebrante pede claramente a graça da pureza, dizendo: “Lavai-me, Senhor, das minhas faltas e purificai-me do meu pecado”. A origem desse rito está, provavelmente, no preceito que encontramos no Livro do Êxodo, que prescrevia aos sacerdotes lavarem os pés e as mãos, antes de se aproximarem do altar para o exercício do culto (cf. Ex 30,17-21).

Voltando ao Evangelho, observa-se que, por esta razão, na perspectiva dos doutores da Lei, a purificação das mãos antes das refeições não era uma questão de higiene, mas uma questão religiosa. Os fariseus vindos de Jerusalém observavam como os discípulos de Jesus comiam sem realizar o gesto ritual de purificação das mãos e ficavam escandalizados. Tudo indica que o fato serviu aos fariseus para sondar e para averiguar a ortodoxia de Jesus e o seu respeito pela tradição dos antigos.

Contudo, para Jesus, a obsessão dos fariseus para com os ritos externos de purificação é sintoma de uma grave deficiência quanto à forma de ver e de viver a religião; por isso, ele responde aos fariseus com certa dureza. E tendo como base a própria Palavra de Deus, denuncia essa vivência religiosa sintetizada apenas na repetição de práticas externas e formalistas. Por isso, ele diz: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (v. 6).

Em seguida, Jesus aproveita a ocasião para catequizar os seus discípulos, dizendo: “O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior” (v. 15). Este princípio geral, à primeira vista, passível de várias interpretações, será explicado mais à frente: “Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem” (v. 22-23). Jesus se refere, naturalmente, a dois “circuitos” diversos: o do estômago, onde entram os alimentos que se ingerem; e o do coração, de onde saem os pensamentos, os sentimentos e as ações.

Na antropologia judaica, o “coração” é o “interior do homem” em sentido amplo; ele é a sede dos sentimentos, dos desejos, dos pensamentos, dos projetos e das decisões do homem. É nesse “centro vital” de onde tudo parte que é preciso atuar. É no interior do homem que se definem as suas opções, os seus valores e as suas ações. Cabe a ele buscar na Palavra de Deus o caminho que o leva à purificação interna. Por isso mesmo o Salmo 118 nos diz: “A palavra de Deus é uma lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho”.

Jesus não muda a Lei, ele não muda os mandamentos. A observância dos mandamentos continua sendo a condição para entrar na terra prometida: “Se queres entrar na vida eterna, observa os mandamentos” (Mt 19,17). Fazer a vontade do Pai, colocar em prática os seus mandamentos, é um dos temas constantes do Evangelho. Mas a novidade está que Jesus desloca todo o sentido da lei do exterior para o interior, da boca para o coração, de “fora” do homem para “dentro” do homem. E Jesus, no sermão das bem-aventuranças, dirá: “Os puros de coração verão a Deus” (Mt 5,8), ou seja, os que têm um interior puro.

A Lei, como palavra de amor, é uma renovação a partir de dentro, mediante a amizade com Deus. Algo semelhante se manifesta quando Jesus, no sermão sobre a videira, diz aos discípulos: “Vós já estais puros, devido à palavra que vos tenho dirigido” (Jo 15,3). Na medida em que nos deixamos tocar por Ele e pela sua palavra, também somos purificados.

Que o Senhor venha em nosso auxílio e converta o nosso interior, o nosso coração, assim como aconteceu com muitos santos, para que a nossa vida pessoal, familiar e profissional, seja pautada pelo Evangelho. Que possamos tender sempre para a plenitude da Verdade e do Amor, que é Cristo, o único que pode saciar os profundos desejos do coração humano; e que possamos difundir no mundo a sua luz, a sua pureza e a sua bondade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA


Lc 1,39-56

Caros irmãos e irmãs

Estamos celebrando neste domingo a solenidade da Assunção de Nossa Senhora. No Brasil, por razões pastorais, esta celebração, quando a data do dia 15 de agosto não coincide com o domingo, é transferida para o domingo seguinte. A Assunção da Virgem Maria ao céu é uma verdade que a Igreja professou desde os primeiros séculos, mas que só foi proclamada como dogma pelo Papa Pio XII em 1950, onde declarava ser “revelado por Deus que a imaculada Mãe de Deus, a Virgem Maria, tendo terminado o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (DS 3903). Assunção significa elevação, ou seja, Maria foi elevada em corpo e alma ao céu por Deus. Uma vez concebida sem pecado e sendo o primeiro sacrário vivo a portar Jesus, seu corpo não poderia ter o fim de um corpo corruptível pelo pecado (cf. PIO PP XII, Constituição Apostólica “Munificentissimus Deus”, in AAS 42 [1950], 768-769).

Ao celebrarmos a gloriosa Assunção de Maria ao Céu, em corpo e alma, podemos também afirmar que os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção estão intimamente ligados entre si. Ambos proclamam a glória de Cristo Redentor e a santidade de Maria, cujo destino humano está perfeita e definitivamente realizado em Deus, pois o próprio Cristo disse: “E quando eu tiver partido e vos tiver preparado um lugar, voltarei e vos levarei comigo para que, onde estiver, vós estejais também” (Jo 14, 3). Maria é o penhor e o cumprimento dessa promessa de Cristo.

Assim como Jesus ressuscitou dos mortos e subiu à direita do Pai, também Maria, depois de concluir o percurso da sua existência na terra, foi levada ao céu. A liturgia nos recorda esta consoladora verdade de fé, enquanto canta os louvores daquela que foi coroada de glória incomparável. Lemos no trecho do Apocalipse, proposto à nossa meditação na primeira leitura: “Apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 12,1). Nesta mulher resplandecente de luz, os Padres da Igreja reconheceram Maria. O autor do livro do Apocalipse profetiza a salvação de Maria, preservada da morte e glorificada no céu. No seu triunfo, o povo cristão peregrino na história entrevê o cumprimento das próprias expectativas e o sinal seguro da sua esperança.

O trecho do Evangelho de São Lucas que lemos na liturgia desta solenidade nos leva a ver o caminho que a Virgem de Nazaré percorreu para estar na glória de Deus. É a narração da visita de Maria a Isabel (cf. Lc 1,39-56). Após a anunciação do Anjo, Maria põe-se em viagem rumo à montanha, para ir às pressas a uma cidade de Judá e chegar à casa de Zacarias e Isabel. Maria entra nesta casa de Zacarias e Isabel, mas não entra sozinha, ela leva no seu ventre o Filho, que é Deus feito homem. E é o Espírito Santo que abre os olhos de Isabel e que a leva a reconhecer em Maria a verdadeira Arca da Aliança, a Mãe de Deus, que vem para a visitar. E assim, a idosa parente recebe-a, dizendo em voz alta: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?” (Lc 1,42-43).

Aqui temos a sequência do que se ouviu dos lábios do anjo Gabriel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E bem-aventurada aquela que acreditou que teria cumprimento tudo o que foi dito da parte do Senhor…” (Lc 1,42.45). Isabel ainda exclama: “Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio” (v. 44).

Nesta passagem, o evangelista São Lucas recorre ao termo grego “eskírtesen”, ou seja, “saltitar”, o mesmo vocábulo que encontramos numa das antigas traduções gregas do Antigo Testamento para descrever a dança do rei Davi diante da arca sagrada, que finalmente voltou para a pátria (cf. 2Sm 6,16). João Batista, no ventre da mãe, dança diante da Arca da Aliança, como Davi; e reconhece deste modo: Maria é a nova Arca da Aliança, perante a qual o coração exulta de alegria; a Mãe de Deus presente no mundo, que não conserva para si esta presença divina, mas oferece-a compartilhando a graça de Deus.

Em seguida, Maria pronuncia o cântico do Magnificat, onde os seus sentimentos exprimem a consciência do cumprimento das promessas (cf. Lc 1,54). É precisamente desta consciência que brota a alegria da Virgem Maria, que transparece no conjunto do cântico: alegria de saber que Deus olha para Ela, apesar da sua “fragilidade” (cf. Lc 1,48); alegria em virtude do serviço que lhe é possível prestar, graças às “grandes obras” que o Todo-Poderoso realizou em seu favor (cf. Lc 1,49). Mediante as suas palavras, a Virgem Maria aparece como um modelo a ser seguido ao longo do nosso caminho.

E Maria, também cheia do Espírito Santo, continua e completa aquilo que Isabel disse, afirmando: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (v. 48). É uma verdadeira profecia, inspirada pelo Espírito Santo, e a Igreja venerando Maria responde a esta ordem do Espírito Santo.

Na segunda Leitura (cf. 1Cor 15,20-27), São Paulo nos faz compreender este mistério, partindo do acontecimento central da história humana e da nossa fé. Assim diz o Apóstolo: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda” (1Cor 15, 21-23).

A Virgem Maria que, na sua mesma concepção humana, foi imaculada, isto é, livre do pecado, cuja consequência é a morte, pelo mesmo fato, tornou-se livre da morte, que é a consequência do pecado. A vinda de Cristo, de que fala São Paulo nesta segunda leitura, realizou-se de modo excepcional em Maria.

Neste contexto, o que São Paulo afirma a respeito de todos os homens, a Igreja, no seu Magistério reconhece estar a Mãe de Deus inserida em tal medida no mistério de Cristo, a ponto de ser partícipe da Ressurreição do seu Filho com todo o seu ser, já no final da vida terrena; Maria vive aquilo que nós esperamos no final dos tempos, quando for aniquilado “o último inimigo”, a morte (v. 26)

Maria nos precede na glória celeste. Aquela que não teve pecado não foi tocada pela corrupção da morte! Imediatamente após a sua “dormição”, ela foi glorificada em corpo e alma, foi elevada ao céu! Podemos, portanto, exclamar como Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o fruto do teu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu!” (Lc 1,42.45)

A festa da Assunção de Nossa Senhora, a sua chegada à Glória, nos aponta para o nosso destino final, como todos nós almejamos, em conformidade com o que proclamamos na recitação do Credo: “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”.

Possamos também pedir ao Senhor que nos faça crescer na fé, a exemplo de Maria, pois foi grande e heróica a obediência da sua fé; e foi precisamente através desta fé que Maria se uniu perfeitamente a Cristo, na morte e na glória. Que ela interceda sempre por nós e nos proteja ao longo da nossa peregrinação até à Casa do Pai. Que ela ainda nos ajude a dizer “não” ao erro e ao pecado e nos faça preparar o nosso encontro definitivo com Cristo, no final do nosso itinerário terrestre. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

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