Arquivo da categoria: Homilias

Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

III DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – Jesus apareceu no meio deles

Lc 24, 35-48

Meus caros irmãos,

Neste terceiro domingo do tempo pascal, a liturgia da Palavra traz mais uma vez ao centro da nossa atenção o mistério de Cristo ressuscitado. O episódio que o evangelista São Lucas nos relata no evangelho nos faz lançar o nosso olhar para Jerusalém, pouco depois da ressurreição. Os onze discípulos estão reunidos e já conhecem uma aparição de Jesus a Pedro (cf. Lc 24,34), bem como o relato do encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,35). Apesar de tudo, o ambiente é de medo, de perturbação e de dúvida, que aparece frequentemente nos evangelhos. Jesus ressuscitado não é reconhecido com facilidade. Quem consegue vê-lo sempre parece ter dúvidas. Maria Madalena o confunde com um jardineiro; os discípulos de Emaús pensam tratar-se de um viajante; os apóstolos o tomam por um fantasma; Pedro, no lago de Tiberíades, o confunde com um companheiro de pescaria. As dúvidas estão presentes em todas as aparições de Jesus após a sua ressurreição. Todos os relatos das aparições de Jesus falam das dificuldades que os discípulos sentiram em acreditar e em reconhecer Jesus após a ressurreição (cf. Mt 28,17; Mc 16,11.14; Lc 24,11.13-32.37-38.41; Jo 20,11-18.24-29; 21,1-8).

O medo e a insegurança também aparecem muitas vezes na Sagrada Escritura e, normalmente, no âmbito de uma experiência relacionada com o universo de Deus, como aconteceu com Moisés, no deserto do Sinai, quando um anjo lhe aparece na chama de uma sarça ardente (cf. At 7,30); o mesmo ocorre com Zacarias no Templo (cf. Lc 1,12) e com Maria, no momento da anunciação do anjo (cf. Lc 1,29). Tanto Zacarias como a Virgem de Nazaré ficam perturbados quando recebem o anúncio do nascimento de um filho. Também os apóstolos Pedro, Tiago e João, no momento da Transfiguração de Jesus no Monte Tabor, ficam movidos pelo medo, motivados pela experiência sobrenatural pela qual passaram. A mesma cena volta a repetir quando eles encontram com o Cristo Ressuscitado, que aparece para eles.

Na página evangélica, São Lucas narra que os dois discípulos de Emaús, regressando a Jerusalém, contaram aos Onze como o tinham reconhecido “ao partir do pão” (v. 35). E enquanto eles narravam a experiência do encontro que tiveram com o Senhor, Ele “esteve pessoalmente no meio deles” (v. 36). Mais uma vez, como tinha acontecido com os dois discípulos de Emaús, enquanto está à mesa e come, Cristo ressuscitado se manifesta, ajudando-os a compreender as Escrituras e a reler os acontecimentos da salvação à luz da Páscoa.

Visto que a ressurreição não cancela os sinais da crucifixão, Jesus mostra aos Apóstolos as mãos e os pés. E para os convencer, pede até algo para comer. Então os discípulos “Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.” (v. 42-43). Este gesto de tocar e comer nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável. Graças a estes sinais os discípulos superaram a dúvida inicial e se abriram ao dom da fé; e esta fé permitiu que eles compreendessem o que estava escrito sobre Cristo “na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (v. 44).

É surpreendente que enquanto o grupo estava ouvindo o relato dos dois discípulos de Emaús e comenta a aparição de Jesus ressuscitado ao apóstolo Pedro, justamente quando Cristo aparece no meio deles, os discípulos sentem medo e resistem a crer no que seus olhos estão vendo. Mas eles, depois de um processo gradual de fé e com base em sua experiência e contato pessoal com o Senhor ressuscitado, acabaram por reconhecer que era o próprio Jesus de Nazaré, o mestre, que morreu e agora está vivo porque ressuscitou.

Os Apóstolos hesitam em crer na Ressurreição de Cristo. O testemunho de Maria Madalena e das outras mulheres, o de Pedro e o dos dois discípulos de Emaús, eram mais que suficientes, pois a tudo isso precedia a profecia da ressurreição, feita por Cristo, para que cressem. Há certamente, nesta conduta dos apóstolos, um grande temor, um medo de serem enganados. Ao mesmo tempo surge uma manifestação de timidez. Jesus oferece aos seus discípulos uma prova definitiva. Estando reunidos no Cenáculo, aparece a eles, para que, vendo-o, estejam convencidos da realidade de sua ressurreição.

Nas aparições temos uma catequese de Jesus para os seus discípulos, que se manifesta no gesto de mostrar as suas mãos e os seus pés com as chagas recentes de sua cruz, tocar, palpar, e até tomar parte na refeição deles, fato que não deixa de ser um sinal eucarístico, onde Jesus une o pão com a palavra, ao explicar algumas passagens da Sagrada Escritura que se referiam a Ele próprio. Assim completa o “sacramento” pascal da fé que se concretiza com a sua aparição, atestada por Maria Madalena, Pedro e pelos demais apóstolos.

O trecho do evangelho termina com as palavras: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Era uma difícil missão que Jesus lhes designava. Eles viviam ainda escondidos após a Sua morte, temerosos de serem reconhecidos pelas autoridades como discípulos do Senhor; e eis que agora Jesus lhes pede que saiam para proclamar que Ele ressuscitou dos mortos ao terceiro dia e para pregar em Seu nome a todos os povos a sua mensagem de conversão, de perdão e paz.

Os apóstolos serão testemunhas de toda esta verdade e ensinamento. Mas serão preparados com a grande força renovadora e fortalecedora de Pentecostes. Receberão o Espírito Santo. Neste tempo pascal nós também deparamos com um repetido convite de Jesus a vencer a incredulidade e a crer na sua ressurreição, porque somos chamados a também testemunhar precisamente este acontecimento extraordinário. A ressurreição de Cristo é o acontecimento central do cristianismo, verdade fundamental que se deve reafirmar com vigor em todos os tempos.

Na segunda leitura, o Apóstolo São João lembra que para conhecer Jesus Cristo, precisamos fazer a experiência do Amor: “Quem diz que conhece a Deus, mas não cumpre os seus mandamentos, é mentiroso, e a Verdade não está nele” (1Jo 2,4). E continua: “Por outro lado, o amor de Deus se realiza de fato em quem observa a Palavra de Deus. É assim que reconhecemos que estamos com ele” (1Jo 2,5). Essas narrativas nos dizem respeito, pois temos a possibilidade de reencontrar o Ressuscitado e a obrigação de testemunhar para que outros possam também encontrá-lo. E é pela vivência do amor que nós faremos que os outros o reconheçam.

Jesus nos garante a sua presença real entre nós, por meio da Palavra e da Eucaristia. Por conseguinte, assim como os discípulos de Emaús reconheceram Jesus ao partir o pão (cf. Lc 24, 35), também nós encontramos o Senhor na Celebração eucarística. Explica, a este propósito, Santo Tomás de Aquino: “É necessário reconhecer, segundo a fé católica, que Cristo está inteiramente presente neste Sacramento…” (cf. SANTO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, III, q. 76, a. 1). Santo Tomás ensina ainda que Cristo está presente nesse sacramento de dois modos: por virtude do sacramento e por natural concomitância. Por virtude do sacramento, sob as espécies ou acidentes de pão, está o corpo de Cristo, e, sob as espécies ou acidentes de vinho, está o sangue de Cristo. Pois Cristo disse: “Isto é meu Corpo”, “Este é meu Sangue”. Por natural concomitância, está na hóstia consagrada o que realmente está unido ao corpo de Cristo, isto é, seu Sangue, Alma e Divindade. E, ao Sangue, está unido, por natural concomitância, seu Corpo, Alma e Divindade. (cf. S. TOMÁS, Suma Teológica, III, q. 76, a. 1). E continua: “Deve crer-se que Cristo está todo inteiro, em cada uma das espécies do sacramento, se bem que de modo diverso (S. TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, III, q. 76, a. 2). Sob as espécies de pão, está o Corpo por virtude do sacramento, e o Sangue por real concomitância como se disse da Alma e da Divindade. Sob as espécies de vinho, está o Sangue de Cristo por virtude do sacramento, e o Corpo por real concomitância, como a Alma e a Divindade, já que agora, atualmente, não está o Sangue separado do seu Corpo, como esteve no tempo de sua Paixão e da morte. E no artigo 3 dessa mesma Questão 76, São Tomás explica que: “A substância do Corpo de Cristo está no sacramento por virtude do próprio sacramento, e sua quantidade dimensiva por real concomitância; daqui que o Corpo de Cristo está no sacramento de modo como a substância está nas dimensões, não do modo como está a quantidade dimensiva dos corpos que se ajusta à quantidade dimensiva do lugar.

É evidente que toda a natureza da substância está em cada parte das dimensões que a encerram, como em cada parte do ar está toda a sua natureza, e, em cada parte do pão, toda a natureza do pão, quer estejam o pão e o ar divididos, de fato, em partes, quer não estejam, de fato, divididos. Daqui que seja coisa clara que Cristo está todo inteiro em cada parte da espécie de pão, não só quando este é partido, mas também quando a hóstia permanece inteira” São Tomás, Suma Teológica, III, Q. 76, a. 3).

A páscoa traz também a nós uma mensagem de paz. “A paz esteja convosco” (v. 36), é o que mais uma vez repete Jesus. Prestes a se entregar pela nossa redenção, Jesus Cristo deixa aos seus discípulos a paz. Depois de sua morte, é novamente a paz que ele oferece, duradoura e eficaz. Jesus nos convida a acolher o dom da sua paz, mas também a sermos construtores da cultura da paz onde estivermos.

Que a Virgem Maria possa nos amparar com a sua intercessão, para que possamos responder com a nossa vida a proposta que Jesus nos fez, de sermos testemunhas da sua ressurreição, propagando a todos os dons pascais da alegria e da paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – A paz esteja convosco

Jo 20,19-31

Caros irmãos e irmãs

Para este domingo temos o relato do texto evangélico que nos apresenta duas das manifestações de Jesus aos seus apóstolos: uma na tarde do dia da Ressurreição, e outra, oito dias depois. Fixando inicialmente o nosso olhar na segunda aparição, somos atraídos pela reação de Tomé, porque, como ele, muitas vezes sentimos a tentação da dúvida e queremos ver sinais para nos sentirmos mais seguros na fé. Jesus compreendeu isso, mas ao mesmo tempo, proclamou o valor da fé dos que acreditam sem terem visto sinais. Estaremos nós entre os que acreditam na Palavra de Deus, como nos é transmitida pela Igreja, ou necessitamos ver para crer? Ouvimos no Evangelho: “Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam!” (Jo 20,29). São as palavras dirigidas por Jesus a Tomé, que estava ausente quando o Mestre, ressuscitado, apareceu pela primeira vez aos Apóstolos. Eles disseram a Tomé: “Vimos o Senhor” (Jo 20,25), mas Tomé, recusando-se a acreditar, diz: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (Jo 20,25).

Tomé é a figura de todos aqueles que, como ele, não receberam o anúncio da ressurreição diretamente de Jesus, mas através do testemunho dos Apóstolos. No fundo, Tomé representa todas as gerações vindas após Jesus, mas teve ele a felicidade de ver e tocar em Jesus Ressuscitado. E a visão que teve de Jesus ressuscitado foi tão forte que aumentou a sua fé, a ponto de reconhecer Jesus como seu Senhor e seu Deus: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28), exclamou.

Os Apóstolos são as testemunhas oculares da Ressurreição de Cristo e devido a este testemunho são eles os primeiros enviados: “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós” (Jo 20,21). Outros lhes sucederão, e Cristo dirá a respeito deles: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29). Por sua vez, eles tornar-se-ão testemunhas, porque acreditarão nas testemunhas oculares. E assim, de geração em geração, também todos nós somos convidados a ver, com os olhos da fé, Cristo vivo e presente no meio de nós.

O relato evangélico começa com uma saudação aos apóstolos: “A paz esteja convosco”. Esta é a saudação pascal. Jesus usa as mesmas palavras que dissera antes de morrer: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14,27). O primeiro fruto da morte redentora do Senhor foi trazer a paz aos corações angustiados. No seu nascimento, os anjos anunciaram a paz de Deus aos homens: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14). Antes de sua paixão o Senhor já nos prometera que nos deixaria a paz. Agora, vencedor da morte e mensageiro da vida, confirma sua promessa: Anuncia a paz aos Apóstolos e a todos nós.

Também no evangelho temos Jesus ressuscitado a comunicar aos Apóstolos, com seu “sopro”, o Espírito Santo e o poder de perdoar os pecados. É um verdadeiro poder exercido pela Igreja no sacramento da penitência. Vimos que Jesus “soprou”; um gesto que indica que a comunicação do Espírito Santo, antecipação parcial do dom de Pentecostes, é a comunicação da vida que Deus concede. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7, quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, a quem infundiu a vida. Com o “sopro”, conforme lemos no Livro do Gênesis, por ocasião da criação, o homem tornou-se um ser vivente; e agora, com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos, para serem transmissores de uma nova vida também aos outros, munidos pelo Espírito Santo.

Jesus transmite aos Apóstolos a energia, a força necessária para que possam sequenciar a missão de pescadores de homens, para que a salvação atinja todos os lugares e em todos os tempos da história humana: “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós” (Jo 20,21). E do poder de perdoar os pecados, conferido por Jesus aos apóstolos, está intimamente ligado ao dom do Espírito Santo, como indicam as sucessivas palavras de Jesus: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 21,22-23).

Os sacerdotes, em nome de Jesus Cristo, perdoam os fiéis arrependidos de seus pecados cometidos depois do Batismo. O sacramento do perdão foi instituído sob um duplo sentido: de paz e de alegria. A confissão é o sacramento que proclama a misericórdia do Senhor. Somente ele é capaz de desfazer a desordem causada pelo pecado e restabelecer no coração do homem a paz. Paz que designa muito mais do que a tranquilidade da ordem, mas certamente o estado do homem que vive em harmonia com Deus.

O perdão sacramental é a volta para os braços de Deus. A fórmula atual com que o sacerdote absolve o penitente lembra o Mistério da Ressurreição e a vinda do Espírito Santo. Declara que Deus, “pela morte e ressurreição de seu filho reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados” e pede que “pelo ministério da Igreja” seja concedido ao penitente “o perdão e a paz”. Por isso, o perdão dos pecados é uma festa de paz e alegria. E essa paz só pode existir mediante o perdão.

Também no decorrer da Celebração eucarística vemos sucessivos momentos em que fazemos uma referência à paz. A Santa Missa é marcada do início ao fim pela palavra paz. Uma das fórmulas de saudação que podem ser usadas pelo celebrante no início da Missa é esta: “A graça e a paz de Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam sempre convosco”. Também no final da Missa diz o celebrante: “Ide em paz”. Além disso, somos também chamados a reconciliar uns com os outros antes da comunhão, ofertando a paz aos nossos vizinhos da celebração. Esta saudação tradicional, torna-se aqui algo novo; torna-se o dom daquela paz que só Jesus pode dar, porque é o fruto da sua vitória radical sobre o mal. A “paz” que Jesus oferece aos seus amigos é o fruto do amor de Deus. Também antes da Comunhão, a liturgia põe nos lábios do sacerdote uma vibrante invocação pela paz: “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja; dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade. Vós que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo”.

Todos nós temos necessidade de saborear plenamente a riqueza e o poder da paz de Cristo! São Bento, no seu tempo, foi um grande arauto da paz, porque a acolheu na sua existência e a fez frutificar em obras de autêntica renovação cultural e espiritual. Precisamente por isso, na entrada de muitos mosteiros beneditinos, é posta como mote a palavra “pax”. Com efeito, a comunidade monástica é chamada a viver em conformidade com esta paz, que é dom pascal por excelência. Somente aprendendo, com a graça de Cristo, a combater e a vencer o mal dentro de nós e nos relacionamentos com o próximo, podemos tornar-nos construtores de paz.

Que esta paz, que também é um dos frutos do Espírito Santo, possa estar sempre em cada um de nós. E não podemos esquecer que todo cristão deve ser um agente da paz. Ser um promotor da paz significa tomar iniciativas de paz, promover a caridade, a união, o respeito e o amor. São Francisco de Assis, certa vez pediu em oração: “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz”. Que o Senhor nos dê a sua paz e faça de nós um canal a transmitir a sua paz. Que possamos derrubar os muros da inimizade, do egoísmo e nos abrir ao Espírito Santo, anunciando com a nossa vida a paz que o Cristo trouxe e quer conferir a cada um de nós.

A Virgem Maria, a quem invocamos como Rainha da Paz, interceda por nós para sermos em todos os lugares fiéis testemunhas da paz e da fraternidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

RESSURREIÇÃO DO SENHOR

Jo 20,1-9

Caros irmãos e irmãs,

Com o Domingo da Ressurreição iniciamos um novo período litúrgico, o tempo pascal. Páscoa significa “passagem”. A origem desta festa perde-se na noite dos tempos. Inicialmente, era uma festa de pastores, que no início da primavera, imolavam um cordeiro do rebanho. Os hebreus transformaram esta festa pastoril no “memorial” da libertação do Egito. Era imolado o cordeiro pascal, sinal da “passagem” de Deus, que fez passar o povo eleito da escravidão para a terra da liberdade. Para os cristãos é a festa principal do ano litúrgico, em que se “comemora” a morte de Cristo na cruz e a sua Ressurreição.

Neste domingo somos chamados a lançar o nosso olhar para o sepulcro vazio e contemplar o radiante mistério da ressurreição do Senhor. Ouvimos mais uma vez ecoar o confortador anúncio: “Cristo ressuscitou!”.

Ao celebrarmos a Ressurreição do Senhor, recordamos as palavras dirigidas pelo anjo às mulheres que choravam ao lado do túmulo vazio. Elas foram de manhã cedo ao sepulcro onde receberam do anjo a notícia que modificou o decurso da história: “Não vos assusteis. Procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui!” (cf. Mc 16, 6). Diz ainda o anjo às mulheres que tinham ido ao sepulcro: “Porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo?” (cf. Lc 24,5). Destas suas palavras, podemos tirar um ensinamento: nunca cansarmos de procurar Cristo ressuscitado, pois Ele dá a vida em abundância àqueles que O encontram. As próprias mulheres, depois de um receio inicial, sentem uma grande alegria quando encontram o Mestre vivo (cf. Mt 28,8-9).

O texto do Evangelho nos fala exatamente do primeiro impacto e das primeiras testemunhas: Maria Madalena, Pedro e o discípulo que Jesus amava. Madalena, enquanto mulher, pertencia à categoria de pessoas discriminadas, sem credibilidade oficial para os seus testemunhos. Ela é a primeira personagem a entrar em cena. É a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, quando ainda o sol não tinha nascido, na manhã do primeiro dia da semana. Este “primeiro dia” nos faz lembrar o início de uma nova realidade, um novo tempo, o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

Maria Madalena foi a primeira pessoa que Deus escolheu para dar a notícia ao apóstolo Pedro e ao outro discípulo: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram” (Jo 20,2). Pedro e o outro discípulo, onde a tradição aponta como o evangelista São João, dirigiram-se ao sepulcro, mas João chegou primeiro. E nos diz o texto bíblico que ele “viu e acreditou” (Jo 20, 8). O Apóstolo João viu o mesmo que Pedro: um túmulo vazio, com as ligaduras e o sudário. Mas João acreditou. João foi o único entre os apóstolos, que ficou junto à cruz até o fim. Deixou-se invadir por um amor sem falhas.

O texto começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, com uma chave teológica: “no primeiro dia da semana”. Significa que aqui começou um novo ciclo – o da nova criação, o da salvação definitiva. Este é o “primeiro dia” de um novo tempo e de uma nova realidade – o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

Todo o cristão é chamado a reviver esta experiência de Maria de Magdala. É um encontro que muda a vida: o encontro como um Homem único, que nos faz sentir toda a bondade e a verdade de Deus, que nos liberta do mal, não de modo superficial e passageiro, mas nos liberta radicalmente, nos cura completamente e restitui a nossa dignidade, como fez com Maria Madalena, que a restabeleceu na sua dignidade e a fez renascer, libertando-a do mal; concedendo-lhe um futuro novo e uma vida nova.

Inicialmente, os discípulos acreditaram que a morte tinha triunfado e pensavam que Jesus estava prisioneiro do sepulcro. A comunidade nascida de Jesus era, em consequência, uma comunidade perdida, desorientada, insegura, desamparada, que ainda não descobrira que a morte tinha sido derrotada. Por isso, procurou Jesus no túmulo, mas, diante do sepulcro vazio, tomou consciência da ressurreição e percebeu que a morte não tinha vencido Jesus.

Saulo de Tarso, outrora temido perseguidor dos cristãos, a caminho de Damasco encontrou Cristo ressuscitado e foi por Ele “conquistado”. Aconteceu em Paulo aquilo que ele há de escrever mais tarde aos cristãos de Corinto: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação; vazia também é a vossa fé” (1Cor 15,14). A ressurreição de Jesus constitui artigo fundamental da fé cristã. Na verdade, talvez queira alguém pensar que a mensagem do cristianismo é tão rica e bela que ela pode dispensar o anúncio da ressurreição de Jesus. Verifica-se, porém, que nos escritos do Novo Testamento e nos da imediata Tradição cristã é tal a ênfase na ressurreição de Jesus que ela deve ocupar lugar primordial e indispensável no conjunto das verdades da fé.

Santo Agostinho também afirmou: “Resurrectio Domini, spes nostra”, ou seja: “a ressurreição do Senhor é a nossa esperança” (cf. S. AGOSTINHO, Sermão 261,1). Cristo ressuscitou para nos dar a esperança. Desde a alvorada de Páscoa, uma nova primavera de esperança invade o mundo; desde aquele dia, a nossa ressurreição já começou, porque a Páscoa indica o início de uma nova condição: Jesus ressuscitou para que Ele mesmo viva em nós, e, nele, possamos já saborear a alegria da vida eterna.

É isto que a Igreja proclama com alegria: anuncia a esperança, que Deus tornou inabalável e invencível ao ressuscitar Jesus Cristo dos mortos; comunica a esperança, que ela traz no coração e quer partilhar com todos. Esperança, para que guie a humanidade para o porto seguro da salvação que é o coração de Cristo, a Vítima pascal, o Cordeiro que redimiu o mundo. O Ressuscitado precede-nos e acompanha-nos pelas estradas do mundo. É Ele a nossa esperança, é Ele a verdadeira paz do mundo.

E, a partir desse tempo pascal, volta a ressoar o cântico do Aleluia, palavra hebraica universalmente conhecida, que significa “Louvai o Senhor”. O aleluia desabrochou nos corações dos primeiros discípulos de Jesus naquela manhã de Páscoa, em Jerusalém. Deixemos que o aleluia pascal se imprima profundamente também em nós, como expressão de uma vida de união com o Cristo Ressuscitado, a quem devemos louvar e agradecer pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós. Celebrar a Páscoa é celebrar a concretização do amor de Deus por nós. Celebrar a Páscoa é também encontrar ou reencontrar a alegria interior, dar testemunho desta alegria e ser construtor do amor e da paz.

A Virgem Maria, que esteve junto de seu divino Filho em cada momento da sua vida, interceda sempre por cada um de nós e nos faça acolher com fé o dom da Páscoa e, assim como Maria Madalena, sejamos também nós testemunhas do Senhor ressuscitado para todas as pessoas que encontrarmos. Assim seja.

VI DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Domingo de Ramos

Mc 14,1-15,47

Caros irmãos e irmãs,

A celebração da Semana Santa é sempre um momento propício para uma rica catequese, que já impressionava os cristãos desde os primeiros séculos. Celebrar a Semana Santa é reviver aquilo que constitui o coração da História: O mundo salvo por Cristo, pela sua obediência até a morte de cruz. A Semana Santa, que começa com o domingo de Ramos, atualiza na comunidade cristã os mistérios centrais da Redenção: Paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo e, por esta razão, deve alcançar entre nós o nível de uma autêntica vivência da fé. Toda a nossa vida é, em certo sentido, uma contínua Semana Santa, pois somos sempre chamados a ouvir o convite que Jesus dirigiu aos seus discípulos no horto das Oliveiras: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38).

A ação litúrgica deste domingo começa com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, como o Messias, montado em um jumentinho, segundo fora profetizado há muitos séculos antes (cf. Zc 9,9). Como nos narra o texto evangélico deste domingo (cf. Mc 11,1-10), Jesus chega a Jerusalém vindo de Betfagé e do Monte das Oliveiras, isto é, seguindo a estrada por onde deveria vir o Messias. Naquele momento, o entusiasmo apodera-se dos discípulos e também dos outros peregrinos. Muitos pegam os seus mantos e colocam sobre o jumentinho, enquanto os ramos de árvores são postos nos caminhos por onde Jesus iria passar.

Nesta entrada de Jesus em Jerusalém as pessoas recitam um versículo do Salmo 118: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mt 21,9). Esta aclamação festiva, transmitida pelos quatro evangelistas, é um brado de bênção, um hino de exultação que exprime a convicção unânime de que, em Jesus, Deus visitou o seu povo e que o Messias finalmente chegou.

Jesus entra na Cidade Santa montado em um jumento, animal típico das pessoas simples do campo e, além disso, um jumento que não lhe pertencia, mas que Jesus havia pedido emprestado para esta ocasião, o que não o assemelhava aos poderosos do mundo, mas o fazia chegar de forma simples e humilde. O Evangelista João narra, inicialmente, que os discípulos não O compreenderam. Somente depois da Páscoa entenderam que Jesus, agindo deste modo, estava a cumprir os anúncios dos profetas, compreenderam que o seu agir derivava da Palavra de Deus e que a levava ao seu cumprimento.

O Domingo de Ramos é o grande portal de entrada na Semana Santa, semana em que o Senhor Jesus caminha até ao ponto culminante da sua existência terrena. Ele sobe a Jerusalém para dar pleno cumprimento às Escrituras e ser pregado no lenho da cruz, o trono de onde reinará para sempre, atraindo a Si a humanidade de todos os tempos e oferecendo a todos o dom da redenção. Sabemos, pelos Evangelhos, que Jesus dirigiu-se para Jerusalém juntamente com os Doze e que, pouco a pouco, se foi unindo a eles uma multidão cada vez maior de peregrinos. São Marcos ressalta que, já na saída de Jericó, havia uma “grande multidão” que seguia Jesus (cf. Mc 10, 46). Assim também nós, pela procissão que realizamos neste dia, fazemos dele um dia particular em que devemos ir ao encontro de Cristo, desejando acompanhá-lo pelas nossas cidades, a fim de que Ele permaneça conosco e possa estabelecer sua morada em nós.

A liturgia deste domingo tem seu ápice na leitura da narrativa da paixão do Senhor (cf. Mc 14,1-15,47). Para muitos cristãos é a única ocasião que têm para ouvir, no decurso de uma assembleia litúrgica, esta parte do Evangelho. A celebração se abre com o “Hosana!” E culmina com o “Crucifica-o!” Mas o texto evangélico nos convida a contemplar a paixão e morte de Jesus: É o momento supremo de uma vida feita a serviço do homem. O relato do Evangelista São Marcos está fundamentado em acontecimentos concretos e apresenta Jesus como o Filho de Deus que aceita cumprir o projeto do Pai, mesmo quando esse projeto passa por um destino de cruz.

Pode-se destacar ainda no relato da paixão apresentado por São Marcos, o interrogatório ao qual Jesus é submetido no palácio do sumo sacerdote. Em um certo momento Jesus não hesita em esclarecer os fatos e em deixar clara a sua divindade. Quando o Sumo sacerdote perguntou a Jesus diretamente se Ele era “o Messias, o Filho de Deus bendito” (Mc 14,61), Jesus responde imediatamente: “Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo poderoso vir sobre as nuvens do céu” (Mc 14,62). A expressão “eu sou” (egô eimi) nos leva ao nome de Deus no Antigo Testamento: “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14). Na perspectiva do evangelista São Marcos, esta é a afirmação que confirma a divindade de Jesus. A referência ao “sentar-se à direita do Todo poderoso” e ao “vir sobre as nuvens” sublinha, também, a dignidade divina de Jesus, que um dia aparecerá como juiz soberano da humanidade inteira. O sumo sacerdote percebe perfeitamente o alcance da afirmação de Jesus, o que o faz manifestar a sua indignação rasgando as vestes e condenando Jesus como blasfemo.

O centurião romano, junto da cruz de Jesus, confirma: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Mais do que uma afirmação histórica, esta frase deve ser vista como uma “profissão de fé” que o Evangelista São Marcos nos convida a fazer. Depois de tudo o que foi testemunhado ao longo do Evangelho em geral, e no relato da paixão, a conclusão é óbvia: Jesus é mesmo o Filho de Deus que veio ao encontro da humanidade para lhe apresentar uma proposta de salvação.

Ao perceber a morte próxima, Jesus faz uma oração dizendo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mc 15,34). Esta oração de Jesus indica que a sua natureza humana se une a cada um de nós. Como qualquer outro ser humano, Jesus também experimenta a solidão, o abandono, o sentimento de impotência, a sensação de fracasso. No âmago do seu drama, Jesus sente que foi abandonado por Deus. Mas, com isto, parece se solidarizar com cada homem que sofre e experimenta a fragilidade, o drama e a debilidade que a vida pode oferecer. Em todos os relatos da paixão, Jesus aparece a enfrentar sozinho este abandono. São Marcos sublinha a solidão de Jesus, nesses momentos dramáticos.

Abandonado pelos discípulos, escarnecido pela multidão, condenado pelos líderes, torturado pelos soldados, Jesus percorre na solidão e indiferença de todos, o seu caminho de morte. Contudo, podemos frisar que apesar destes relatos, sublinhando como Jesus se comporta ao longo de todo o processo que conduz à sua morte, nota-se que ele nunca se descontrola, nunca recua, nunca resiste, mas está sempre sereno e digno, enfrentando o seu destino de cruz. A atitude de Jesus é a atitude de quem sabe e está decidido a cumprir a missão que o Pai lhe confiou.

Possamos nestes dias da Semana Santa estar unidos à Virgem Maria no Monte Calvário, permanecendo ela aos pés da Cruz, velando com ela o Cristo morto, aguardando também com ela o dia luminoso da ressurreição. Que ela interceda por nós e nos faça direcionar os nossos passos no caminho da verdade e do bem. Assim seja.

V DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – O grão de trigo que cai na terra e morre

Jo 12,20-33

Caros irmãos e irmãs,

Muito oportunamente a liturgia nos faz meditar um texto do Evangelho de São João para este quinto domingo da Quaresma, enquanto se aproximam os dias da Paixão do Senhor. Na medida em que peregrinamos para o fim desse tempo quaresmal, vai adquirindo figura mais nítida a meta que ela propõe: A celebração da Páscoa do Senhor. O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos propõe para este domingo nos permite ver como Jesus viveu interiormente o aproximar-se da “sua hora”. Em sua alma começou já a agonia do Getsêmani: “Agora sinto-me angustiado” (v. 27), mas sobretudo pelas palavras por Ele pronunciadas: “Pai, glorifica o teu nome”, o que indicam que a morte de Cristo é a uma prefiguração do mistério pascal, onde se realiza a sua própria glorificação.

Falando da sua já próxima morte gloriosa, Jesus usa ainda uma imagem simples e ao mesmo tempo sugestiva, tendo como referência o ambiente agrícola, refere-se ao grão de trigo para nos transmitir um ensinamento que põe luz, antes de tudo, em seu caso pessoal, e depois também no de seus discípulos: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto” (v. 24). Jesus compara-se a si mesmo com um grão de trigo que se desfaz, para produzir muitos frutos para todos.

Neste contexto, temos uma importante lição sobre o valor da renúncia e da mortificação. O que Jesus está dizendo é principalmente o anúncio de sua morte e ressurreição. É Ele esse divino grão de trigo, que vai cair no solo da morte, mas vai ressuscitar e dar vida a um infinito número de fiéis. O grão de trigo, para se transformar em espiga, deve desaparecer debaixo da terra. Ao ser colocada debaixo da terra, a semente parece perder-se e morrer, mas em seguida, aquecida pelos raios do sol, reaparece multiplicada em uma espiga que anuncia a vitória da vida.

Se o grão de trigo quer dar fruto, é preciso que ele passe pela terra onde vai apodrecer, mas o seu percurso sequencia fazendo surgir frutos. Jesus quer dar a vida, Ele escolhe passar pela morte, dando então a maior prova de seu amor pela humanidade.

Sabemos que o grão enterrado na terra sofre uma profunda transformação. O seu invólucro exterior deve rebentar e acabar por desaparecer para que o germe, até então escondido, possa crescer e produzir novos grãos. Na morte de Jesus acontece o desabrochar da Ressurreição.

Mas a história do pequeno grão de trigo ajuda também, em outro versículo, a entender a nós mesmos e o sentido de nossa existência. Depois de ter falado de trigo, Jesus acrescenta: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 16, 25). Cair em terra e morrer não é, portanto, só o caminho para dar fruto, mas também para “salvar a própria vida”, isto é, para seguir vivendo.

A morte é a capacidade do grão liberar a vida que possui. Podemos constatar a lógica humilde e paciente do grão de trigo que se abre para dar a vida. Jesus é o grão de trigo semeado para que nossa fome possa ser saciada. E através de Jesus Cristo presente no Sacramento da Eucaristia, Deus quer continuar a renovar a humanidade. Mediante o pão e o vinho consagrados, nos quais estão realmente presentes o seu Corpo e o seu Sangue, Cristo nos transforma, tornando-nos capazes, pela graça do Espírito Santo, de viver segundo a sua própria lógica de entrega, como grãos de trigo unidos a Ele e nele.

É necessário que Jesus, grão de trigo, que se faz Eucaristia, morra e dê fruto, e este fruto somos todos nós que nele acreditamos e nele temos a vida eterna. Jesus entregará ao Pai a sua vida, para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-lo, contemplá-lo e experimentá-lo como nossa Luz e nossa Vida. É o próprio Cristo que está conosco, pois Ele mesmo disse: “Eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20)

O pão, formado por muitos grãos de trigo, e o vinho, feito pela união de muitas uvas, encerram também um sentido de união: tornam-se pão os grãos moídos, tornam-se vinho as uvas esmagadas graças à união, unificação. Tudo isto indica também que nós, participantes do Banquete Eucarístico, por mais numerosos que sejamos, devemos nos tornar um só pão, um só vinho, quer dizer, devemos formar, unidos em Cristo, um só corpo, como nos diz São Paulo: “Uma vez que há um só pão, nós embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão” (1Cor 10,17).

No cenário evangélico temos ainda uma referência a alguns gregos que vieram a Jerusalém adorar a Deus no Templo; mas quiseram encontrar-se com Jesus, tomar contato com a salvação que Ele veio oferecer. Com isto, o autor do Quarto Evangelho sugere que o Templo e o culto antigo já não são mais os lugares onde o homem encontra Deus e a salvação; agora, quem estiver interessado em encontrar a verdadeira salvação deve dirigir-se ao próprio Jesus.

Estes homens gregos não se dirigem diretamente a Jesus, mas aos discípulos. Haverá aqui, talvez, um aceno à responsabilidade missionária da comunidade de Jesus, encarregada da missão de levar Jesus a todos os povos da terra. O fato de Filipe falar primeiro com André e só depois os dois irem contar o que se passa a Jesus, reflete a dificuldade com que as primeiras comunidades cristãs deram o passo para a evangelização dos pagãos. O Evangelista João quer, provavelmente, sugerir que integrar os pagãos na comunidade de Jesus não é uma decisão individual, mas uma decisão que a comunidade tomou depois de haver consultado o Senhor.

No pedido destes anônimos gregos podemos ver a sede que existe no coração de cada homem de ver e de conhecer Cristo; e a resposta de Jesus orienta-nos para o mistério da Páscoa; manifestação gloriosa da sua missão salvífica: “Chegou a hora em que será glorificado o Filho do Homem” (Jo 12,23).

A pergunta dos gregos revela muito mais do que desejavam: “Ver Jesus”. Muito possivelmente, todos querem ver Jesus. Mas o fato de apenas ver Jesus não transforma ninguém em discípulo. Sempre houve o número de pessoas que seguiam Jesus de longe. Ao tomar certa distância de alguém, estamos nos ausentando de qualquer compromisso.

A Carta aos Hebreus que a Liturgia da Palavra nos apresenta como segunda leitura para este domingo nos exorta à vivência do compromisso cristão e nos traz uma longa reflexão sobre o sacerdócio de Cristo (cf. Hb 5,7-9). O trecho apresentado se detém, sobretudo, na reação experimentada por Cristo diante do sofrimento e da morte. Ele dirigiu-se ao Pai, pedindo que o ajudasse e, se fosse possível, que o poupasse da dor e da morte (v. 7). Sentiu Ele a necessidade de invocar o Pai para descobrir a sua vontade e para ter a força necessária para cumpri-la.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria para que possamos fazer desse tempo da quaresma uma boa ocasião para “ver Jesus” e seguir fielmente os seus ensinamentos e que saibamos viver na fraternidade e na paz, sempre mais fortalecidos na fé naquele que é o princípio e fim de todas as coisas. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – O encontro de Jesus com Nicodemos

  1. Jo 3,14-21

Caros irmãos e irmãs,

No nosso itinerário rumo à Páscoa, chegamos ao quarto domingo da Quaresma, tradicionalmente designado como domingo “Laetare”, uma expressão em latim que quer dizer “alegra-te”. A Liturgia da Palavra nos convida à alegria também porque se aproxima a Páscoa, o dia da vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte. Mas também deve ser sinal de alegria para nós o “estar na casa do Senhor”, como nos diz o Sl 122: “Que alegria quando vi que me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor’” (Sl 122,1).

Mas a nossa alegria torna-se ainda mais completa, quando na Casa do Senhor, encontramos a fonte principal da alegria cristã que é a Eucaristia, que Cristo nos deixou como alimento espiritual, enquanto somos peregrinos nesta terra. A Eucaristia alimenta nos fiéis de toda época essa alegria profunda: é a presença de Deus entre nós. Ao recebermos a Eucaristia temos um encontro profundo com o Senhor. É o Cristo que também passa a ter sua morada em nós. É o Deus que passa a estar conosco.

A razão mais profunda desta alegria consiste ainda na mensagem oferecida pelas leituras bíblicas que a liturgia da Palavra nos propõe para este domingo. Elas recordam que, apesar da nossa indignidade, somos os destinatários da misericórdia infinita de Deus. É o que nos confirma o Apóstolo Paulo na segunda leitura, onde nos lembra que “Deus, rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo” (Ef 2,4-5). Para expressar esta realidade de salvação, o Apóstolo, ao lado da palavra misericórdia, “eleos”, usa a do amor, “ágape”, retomada na significativa frase de abertura da página evangélica deste domingo: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Portanto, se é infinito o amor misericordioso de Deus, que chegou a ponto de dar o seu único Filho em resgate pela nossa vida, grande é inclusive a nossa responsabilidade. Com efeito, cada um deve reconhecer que está enfermo, para poder ser curado; cada um deve confessar o próprio pecado, para que o perdão de Deus, já conferido na Cruz, possa ter efeito no seu coração e na sua vida.

No meio do nosso caminho quaresmal, neste quarto domingo da Quaresma, somos convidados a meditar sobre este tema que está no centro do anúncio cristão, isto é, o grande amor de Deus pela humanidade. As palavras, pronunciadas por Jesus durante o colóquio com Nicodemos, exprimem de modo sintético e eficaz o tema principal dessa liturgia dominical. Nicodemos é membro do Sinédrio de Jerusalém. Trata-se de um homem bondoso, que foi atraído pelas palavras e pelo exemplo do Senhor e, por isto, vai ao seu encontro.

No diálogo entre Jesus e Nicodemos encontramos três etapas. Na primeira (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus acrescenta que isso não é suficiente: o essencial é reconhecer Jesus como o enviado do Pai. Na segunda (cf. Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica ser necessário um novo nascimento, a partir “da água e do Espírito”. Na terceira etapa, Jesus descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai, tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz (cf. Jo 3,9-21).

Jesus sabe que a Cruz é o ápice da sua missão: com efeito, a Cruz de Cristo é o auge do amor, que nos concede a salvação. É Ele mesmo que nos diz no Evangelho: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3,14-15). Jesus se refere a esse episódio e o interpreta como um símbolo daquilo que está para lhe acontecer. Ele também será levantado na cruz, e todos aqueles que o contemplarem encontrarão a salvação para a sua vida.

Olhar para Jesus levantado na cruz, quer dizer acreditar nele (v. 15), isto é, aceitar com fé a mensagem que Ele, do alto da cruz, dirige para todos. Com o seu supremo gesto de amor, declara que a única maneira de realizar a própria vida é a de doá-la por amor, como Ele fez. Neste sentido, precisamos identificar a nossa vida com a de Cristo, isto é, vivê-la a serviço dos irmãos. Este é o caminho para obtermos a salvação. Assim Jesus manifesta o seu amor e indica a todos o caminho a ser percorrido para alcançar a salvação, a vida plena (v. 14). A cruz é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus por toda a humanidade.

No texto evangélico também temos uma significativa expressão pronunciada por Jesus: “Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus” (Jo 3,21). Deus continua nos exortando a erguermos os olhos para um futuro de esperança, e nos promete a força para o realizar. Como diz São Paulo na segunda leitura, Deus criou-nos em Cristo Jesus para levarmos uma vida justa, uma vida em que pratiquemos boas obras segundo a sua vontade (cf. Ef 2,10). E Ele nos criou para vivermos na luz e sermos luz para o mundo.

Jesus é a Luz verdadeira que com sua vinda ao mundo ilumina todo homem (cf. Jo 1,8). Jesus afirma ser a luz do mundo para não caminharmos nas trevas, mas para termos a luz da vida (cf. Jo 8,12). Crer na luz é se tornar filho da luz (Jo 12,36). Quem crê em Jesus não fica nas trevas, mas na luz (cf. Jo 12,46). Devemos praticar, pois, a verdade. Precisamos irradiar a luz da fé, da esperança e do amor nas nossas famílias e nos ambientes em que fizermos presença. Saibamos ser testemunhas da verdade santa que torna livres todas as pessoas.

Saibamos crescer na amizade com Jesus, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6): uma amizade nutrida e aprofundada através da oração humilde e perseverante. Procuremos conhecer a vontade de Deus a nosso respeito, ouvindo diariamente a sua palavra e permitindo que esta Palavra penetre em nosso coração, para dar copiosos frutos.

O Evangelho desse domingo também nos ensina que uma verdadeira reconciliação só pode ser fruto de uma conversão, de uma mudança do coração, de um novo modo de pensar. Só a força do amor de Deus pode mudar os nossos corações e fazer-nos triunfar sobre o poder do pecado e do erro. Quando estávamos “mortos pelos nossos pecados” (cf. Ef 2,5), o seu amor e a sua misericórdia deram-nos a reconciliação e a vida nova em Cristo.

Muitas vezes somos mais inclinados às trevas do que à Luz, porque estamos apegados aos nossos pecados. Mas só quando nos abrirmos à Luz, só confessando sinceramente as nossas culpas a Deus, encontraremos a paz verdadeira, a alegria autêntica. Então, é importante nos aproximarmos com regularidade do Sacramento da Penitência, em particular neste tempo da Quaresma, para receber o perdão do Senhor e intensificar o nosso caminho de conversão.

Peçamos também à Virgem Maria, aquela que na Ladainha invocamos como “causa de nossa alegria”, para que possamos “apressar” os nossos passos para este encontro com Cristo; este encontro que só traz alegria e paz ao nosso interior. Que ela interceda sempre por nós e nos direcione no caminho do bem e da santidade. Assim seja.
D. Anselmo Chagas de Paiva OSB

III DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Os vendilhões do templo

Jo 2,13-25.

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra nos apresenta como primeira leitura os dez mandamentos, um importante tema para nossa meditação neste tempo quaresmal (cf. Ex 20,1-3.7-8.12-17). Os mandamentos da lei de Deus são normas que sintetizam a vida moral de cada cristão. São preceitos divinos, através dos quais, são construídos o fundamento e o alicerce sobre os quais se formará e erguerá a estrutura equilibrada e firme da vida terrena do homem em relação a Deus, à família, à sociedade, e aos indivíduos de um modo geral.

No conjunto, forma essa lei fundamental que está na consciência de toda a humanidade e que, se faltasse, tornaria impossível uma convivência pacífica e honesta entre os homens. No Monte Sinai esta Lei é transmitida pela autoridade pessoal de Deus. No fim da exposição da Lei, feita por Moisés, o povo se comprometeu a cumpri-la e foram todos aspergidos com o sangue dos novilhos imolados. Era a promulgação da carta nacional e religiosa de um novo povo.

Os dez mandamentos foram prescritos em tábuas de pedra, e foram conservadas na Arca, chamada, por isso mesmo, a “Arca da Aliança”. Jesus atestou a perenidade do Decálogo, que é o conjunto dos dez mandamentos de Deus, pois ele mesmo os praticava e era a base da sua pregação. Fiel às Escrituras e conforme o exemplo de Jesus, a Igreja reconheceu no Decálogo um significado e uma importância primordiais. O Decálogo forma uma unidade orgânica, onde cada mandamento remete a todo o conjunto. Transgredir um mandamento é infringir toda a Lei. Esta Lei é uma instrução paterna de Deus, na qual são apresentados os caminhos para a felicidade e para a harmonia entre as pessoas, com base no respeito mútuo, com a finalidade de gerar uma boa convivência entre as pessoas.

E a Quaresma é o tempo favorável para tudo isto, é o tempo da renovação interior, do perdão dos pecados, um tempo em que somos chamados a reconciliação com Deus e também com o nosso próximo; um tempo de descobrir de novo o Sacramento da Penitência e da Reconciliação, que nos faz passar das trevas do pecado para a luz da graça e da amizade com Jesus. Não podemos esquecer o grande vigor que este Sacramento tem para a vida cristã: ele nos faz crescer na união com Deus, fazendo-nos recuperar a alegria perdida e experimentar a consolação de nos sentirmos acolhidos pessoalmente pelo abraço misericordioso de Deus.

O Evangelho deste terceiro domingo do tempo da quaresma nos mostra Jesus expulsando do templo de Jerusalém os vendedores de animais e os cambistas. É uma das poucas vezes em que o Evangelho nos mostra uma cena onde aparece a cólera de Jesus, motivada pelo desrespeito de muitos pela Casa de Deus. Tínhamos a convicção de que Jesus se mantivesse sempre calmo, manso, tranquilo, mas nessa ocasião ele mostra um aspecto diferente.

Jesus repudiou tudo aquilo energicamente, fazendo até um chicote de cordas para expulsar todos aqueles profanadores dizendo-lhes: “Tirem isso daqui! Não façam da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v. 16). Neste momento alguns judeus perguntaram: “Que sinal nos mostras para agir assim?” (v. 18). Na verdade, o sinal que Jesus dará como prova da sua autoridade será precisamente a sua morte e Ressurreição, quando responde: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19). E o próprio evangelista São João frisa: “Ele falava do templo do seu corpo” (v. 21). Os discípulos bem o reconheceram depois da Ressurreição e creram no que ele havia dito (cf. Jo 2,13-22).

A casa de oração havia sido transformada em uma casa de negócios, um covil de mercadores. Os negociantes estavam vendendo os animais para os sacrifícios prescritos pela Lei do Antigo Testamento. O templo enquanto lugar de oração, de fraternidade e de acolhida, tinha sido transformado em ponto de exploração e enriquecimento ilícito; porque, para alguns, a fé perdera a sua profundidade e os fiéis tinham-se tornado vítima da ganância dos ricos. Nisto consistia a profanação da casa de Deus. O gesto de Jesus é de limpeza, de purificação, e a atitude que Ele repudia pode ser encontrada nos textos proféticos, segundo os quais não é do agrado de Deus o culto exterior, feito de sacrifícios materiais e fundamentado em interesses pessoais (cf. Is 1,11-17; Jr 7,2-11). Este gesto de Jesus é uma exortação ao culto autêntico, à correspondência entre liturgia e vida; uma evocação válida para todas as épocas, e também hoje para nós.

Expulsando os vendedores e os animais (v. 15), Jesus queria dizer que aqueles sacrifícios não tinham mais valor. Os judeus acreditam que Deus habita no templo de Jerusalém e é ali que eles vão para oferecer-lhe sacrifícios. Julgam eles que lhe agradam o perfume do incenso e o sangue das vítimas. Mas Jesus mostra que em breve Deus constituirá para si um novo templo, no qual serão oferecidos sacrifícios que lhe agradam. No diálogo com a Samaritana, Jesus já havia dito: “…chegou a hora na qual nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Os verdadeiros adoradores lhe prestarão culto em espírito e verdade. São estes, em verdade os adoradores que ele quer” (Jo 4,21-24).

Com esta ação da expulsão dos vendilhões, Jesus pretende purificar o templo de tudo aquilo que não condiz com a casa de Deus. Para o evangelista São João o templo já não é mais importante em si mesmo, na sua grandiosidade material; a sua importância está em ser símbolo de Jesus de Nazaré. Por isso, pode até ser destruído em três dias, mas não pode ser manchado. Com a Páscoa de Jesus começa um novo culto, o culto do amor, e um novo templo que é Ele mesmo, Cristo ressuscitado, mediante o qual cada fiel pode adorar Deus Pai “em espírito e verdade” (Jo 4, 23).

A Igreja primitiva durante os primeiros séculos celebrou o culto e a Eucaristia nas casas ou nas catacumbas. Com o passar de algum tempo, mesmo na era dos Apóstolos, se tornou necessário o encontro de algum local comum para as celebrações litúrgicas. Só mais tarde sugiram as Igrejas, as basílicas e as catedrais.

Somos o corpo vivo, o templo vivo, e é o Espírito Santo quem nos dá a vida, quem nos une. A Igreja, templo e corpo, formada por todos os batizados é a manifestação visível da presença do Senhor Ressuscitado. Por isso ela celebra os sacramentos, todos decorrentes da Eucaristia, com a qual somos alimentados e nutridos. É ela, a Igreja, aquela que louva o Senhor com sua liturgia, a esposa sem ruga e sem mancha, que foi purificada pelo próprio esposo, o Cordeiro Imolado.

O Apóstolo São Paulo nos ensina: “Vosso corpo é templo do Espírito Santo; portanto, glorifiquem a Deus com vosso corpo” (1Cor 6,17). Com a vida de Jesus, o Templo de Jerusalém estava para perder seu sentido. O verdadeiro lugar de adoração de Deus é agora o próprio corpo glorificado de Jesus: “O templo reconstruído em três dias” (v. 19). Jesus é o centro do culto em espírito e verdade. Jesus ressuscitado é o templo do novo culto. Toda oração e toda oferenda a Deus devem ser feitas, a partir de então, em Cristo Jesus, para que sejam um culto espiritual vivo, santo e agradável a Deus (cf. Rm 12,1).

Saibamos também nós, enquanto membros de Cristo, ter para com a casa de Deus o mesmo zelo que Jesus demonstrou ter. Que o Senhor nos faça percorrer este tempo quaresmal seguindo um itinerário de conversão e de penitência, para podermos eliminar da nossa vida todo o pecado, purificando assim o nosso corpo que é templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,17). Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DA QUARESMA – B – transfiguração de Jesus

Mc 9,2-10

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo do tempo quaresmal, a Liturgia da Palavra nos apresenta como primeira leitura um texto tirado do Livro do Gênesis (cf. Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18), onde nos mostra Abraão conduzindo seu filho Isaac para o sacrifício. A figura de Abraão se caracteriza como o exemplo do homem que vive numa constante escuta de Deus, portador de uma fé sólida e inabalável, sendo conhecido como o pai de todos os crentes; o nosso pai na fé.

Segundo o Livro do Gênesis, que compõe o Pentateuco do Antigo Testamento, Deus pede a Abraão: “Sai da tua terra, deixa seus parentes e a casa de seu pai para ir para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12,1-4). Em obediência à ordem do Senhor, Abraão deixa tudo, renuncia a tudo: pátria, família, estabilidade e confia apenas em Deus, pois ele tem consciência que só Deus governa a sua vida. Nesta terra, os seus descendentes formariam uma grande nação e herdariam uma terra “onde corre leite e mel” (Gn 12,7).

Abraão acredita, mesmo sabendo que a esposa Sara é estéril e ele já tem 75 anos para o tempo da promessa. Mas mesmo passando vinte e quatro anos, após receber ele esta promessa, ocorre a visita do Senhor à sua tenda. No final da visita, Abraão ouve: “Em um ano, a esta época, voltarei à tua casa e Sara terá um filho” (cf. Gn 18,14). E, como para Deus nada é impossível, assim aconteceu: o nascimento de Isaac, filho de um homem de 100 anos e uma mulher estéril de 90, e através de quem Abraão será o pai de um grande povo, o pai de todos os crentes.

Sendo o povo escolhido de Deus, os hebreus conquistariam a terra prometida de Canaã, uma terra de fartura, em comparação com as que Abraão deixara para trás. Foi assim que Abraão foi para Canaã, passando a ser o fundador da nação hebraica. Canaã era a terra prometida por Deus ao seu povo, desde o chamado de Abraão, que habitava a cidade caldeia de Ur, no sul da Mesopotâmia. Foram 24 anos de uma longa espera.

Isaac, este filho da promessa de Deus, começa a crescer, mas o Senhor intervém novamente para fazer um novo pedido a Abraão: Oferecer Isaac em sacrifício (cf. Gn 22, 1-2-9-18). Deus retorna para exigir de Abraão aquilo que lhe fora concedido como graça e sinal do cumprimento de uma promessa: Isaac deve ser sacrificado. Mesmo diante deste pedido, Abraão é pronto na obediência, sem nenhum questionamento. Ele sobe ao monte para cumprir os requisitos mais difíceis do Senhor: sacrificar o seu próprio filho.

Abraão encontra-se diante da perspectiva de uma ação que para ele, pai, é certamente, a maior e mais difícil. Abraão obedece e se dirige para o Monte Moriá com seu filho Isaac que, sem o saber, leva a lenha para seu próprio holocausto. Deus parece romper sua palavra e fecha para Abraão toda a esperança para o futuro. Abraão constrói um altar, coloca a lenha e, depois de amarrar o jovem, pega na faca para o imolar. Abraão confia totalmente em Deus, a ponto de estar disposto até a sacrificar o próprio filho e, com o filho, o futuro, porque sem o seu filho, a promessa da terra prometida não se realiza. É realmente um gesto de fé extremamente radical.

Mas, no momento decisivo o anjo do Senhor detém o braço de Abraão, e um carneiro substitui o filho no sacrifício (cf. Gn 22,13). Neste momento Abraão é detido por uma ordem do alto: Deus não quer a morte, mas a vida, o verdadeiro sacrifício não proporciona a morte, mas é a vida e a obediência de Abraão que se torna fonte de uma bênção imensa, que se concretizará ao longo dos anos seguintes. Em vista de sua comprovada fidelidade – Deus renova com Abraão sua promessa: descendência numerosa, terra em possessão e bênção para seu povo e a todas as nações da terra.

O texto evangélico nos apresenta o relato da Transfiguração de Jesus no Monte Tabor. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos, e para os crentes, em geral, pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que ele é o Filho amado de Deus. Na narração da Transfiguração de Jesus vamos encontrar alguns elementos que normalmente acompanham as manifestações de Deus, e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento: o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem, o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino.

É sempre em um monte que Deus se revela; e, em especial, é no alto de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo. A mudança do rosto e as vestes brancas e brilhantes recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Monte Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei. O monte é o lugar de encontro com Deus: Moisés e Elias encontram Deus no Monte Horeb. A Sagrada Escritura nos diz que Jesus, por várias vezes, se retira para o monte, a fim de estar com Deus em oração.

A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22). Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas; além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18). O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer pessoa, diante da manifestação da grandeza, da onipotência e da majestade de Deus (cf. Ex 19,16).

A mensagem fundamental, presente em todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus: o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias Salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (representada por Moisés) e pelos Profetas (representados por Elias). Jesus é um novo Moisés, isto é, aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova Aliança.

O desejo manifestado por Pedro de construir três tendas no alto do monte, pode significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus. O simples fato de ver, mesmo só por um instante, a humanidade de Cristo transfigurada na companhia de Moisés e Elias, cheio de entusiasmo, deseja retê-los: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (v.5). Não deixa de ser a manifestação, nestas suas palavras, de um testemunho de um sentimento sincero.

Mas, logo em seguida, parece surgir uma resposta do próprio Deus a Pedro e aos demais discípulos que ali estavam: “Este é meu Filho amado, escutai-o” (v. 7). Deus toma a palavra, pede para que reconheçam Jesus como seu Filho amado, e pede para O escutar. O Evangelho é o lugar no qual Jesus fala-nos hoje: “Quem a vós escuta, a mim escuta” (Lc 10, 16). Com essa palavra: “Escutai-o!”, indica que em Cristo temos toda resposta. Mas na Transfiguração ele também queria mostrar sua divindade a três de seus Apóstolos, depois de ter anunciado aos doze sua já próxima Paixão e Morte. Quis o Senhor com sua Transfiguração no Monte Tabor incentivá-los, fortalecê-los e prepará-los para o que, em seguida, aconteceria no Monte Calvário.

Como os três Apóstolos do Evangelho, também nós temos necessidade de subir ao Monte da Transfiguração para recebermos a luz de Deus, e para que a sua face ilumine o nosso rosto e nos faça crescer na fé e na oração. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

I DOMINGO DA QUARESMA – B – Jesus sendo tentado por satanás do deserto

Mc 1,12-15

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com a imposição das cinzas, iniciou o tempo da quaresma que compreende um itinerário de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo Pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor. É um tempo de conversão, isto é, de mudança interior, de arrependimento. O tempo da Quaresma é o momento propício para renovar e tornar mais sólida a nossa relação com Deus, através da oração quotidiana, dos gestos de penitência e das obras de caridade fraterna.

Neste tempo, a Igreja nos chama novamente à conversão, que significa também um convite para transformar a nossa mentalidade e o nosso comportamento, assumir uma nova atitude e reformular os valores que orientam a nossa vida. E o tempo quaresmal também nos impele a confiar na misericórdia transformadora de Deus: “Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete” (Jl 2,13).

O Evangelista São Marcos, que nos acompanha ao longo deste ano litúrgico, nos apresenta o texto evangélico onde narra o episódio da tentação de Jesus no deserto: “O Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (Mc 1,12-13). Esta narração de São Marcos é concisa, desprovida dos pormenores que lemos nos outros dois Evangelhos, de São Mateus e São Lucas.

Em conformidade com a teologia de Israel, o deserto é um lugar privilegiado de encontro com Deus; foi no deserto que o Povo experimentou o amor e a solicitude do Senhor, e foi no deserto que o Senhor Deus propôs a Israel uma Aliança. O deserto pode indicar a situação de abandono e de solidão, o lugar da debilidade do homem, onde não existem ajudas nem seguranças, onde a tentação se faz mais forte. Mas ele pode indicar também um lugar de refúgio e de amparo, como foi para o povo de Israel que se livrou da escravidão egípcia, onde se pode experimentar de modo particular a presença de Deus. Jesus.

Contudo, o deserto é, também, o lugar da prova, da tentação; foi no deserto que o povo de Israel foi confrontado com opções, e foi no deserto que também este mesmo povo de Israel sentiu várias vezes a tentação de escolher caminhos contrários aos propostos por Deus. O deserto para onde Jesus é conduzido é, portanto, o lugar do encontro com Deus e do discernimento dos seus projetos; e é o lugar da prova, onde se é confrontado com a tentação de abandonar Deus e de seguir outros caminhos.

Logo após receber o batismo de penitência no Rio Jordão, Jesus se refugia no deserto para estar quarenta dias em profunda união com o Pai, o que vai constituir uma constante na vida terrena de Jesus. Com frequência deparamos com alguma passagem bíblica onde nos mostra Jesus em um momento de oração, para, em seguida, retornar para o meio das pessoas. Mas neste tempo em que Jesus se encontra no deserto, ele está exposto ao perigo e é atingido pela tentação e pela sedução do Maligno, que propõe a Ele, como opção, o caminho do poder, do sucesso e do dinheiro. Podemos lembrar que Jesus retira-se para o deserto por quarenta dias, sem comer, nem beber (cf. Mt 4,2), se nutre da Palavra de Deus, que usa como arma para vencer o diabo. As tentações de Jesus fazem referência àquelas que o povo hebraico enfrentou no deserto, mas que não soube vencer.

O número “quarenta” é bastante frequente, tanto no Antigo como no Novo Testamento. O número quarenta, é o número simbólico com o qual a Sagrada Escritura representa os momentos fortes da experiência de fé do Povo de Israel. É um número que exprime o tempo de espera, da purificação, do retorno ao Senhor, da consciência de que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, mas indica uma paciente perseverança, uma longa prova, um período suficiente para ver as obras de Deus, um tempo no qual é necessário decidir-se e assumir as próprias responsabilidades.

O número quarenta aparece antes de tudo na história de Noé, um homem justo, que por causa do dilúvio, permanece por quarenta dias e quarenta noites na arca, junto com a sua família e os animais que estavam com ele na arca. Noé também espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, para tocar na terra firme, que foi salva da destruição (cf. Gn 7,4.12;8,6). Também a Sagrada Escritura nos diz que Moisés permaneceu no Monte Sinai, diante da presença do Senhor, quarenta dias e quarenta noites, em jejum, para acolher a Lei (cf. Ex 24,18).

Podemos ainda salientar o número quarenta como o tempo da viagem do povo hebreu, do Egito à Terra prometida: “Recorda-te de todo o caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer nestes quarenta anos. O teu manto não se rasgou pelo seu uso nem os pés se incharam nestes quarenta anos” (Dt 8,2.4). Ainda no Antigo Testamento temos o profeta Elias que leva quarenta dias para atingir o Monte Oreb e lá encontra Deus (cf. 1Rs 19,8).

Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obterem o perdão de Deus. Jonas, profeta que viveu no século VII antes de Cristo, recebeu de Deus a missão de pregar em Nínive, capital do império assírio, cidade tão grande que “eram precisos três dias para percorrê-la” (Jn 3, 3). Seus habitantes viviam na iniquidade e Deus ordenou a Jonas que para lá se dirigisse a fim de anunciar-lhes a destruição da cidade. Jonas percorreu a cidade durante todo um dia, pregando: “Daqui a 40 dias Nínive será destruída!” (Jn 3,4).

Ouvindo essas palavras, os ninivitas começaram a fazer penitência, e o próprio rei “levantou-se do seu trono, tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (Jn 3,6). Significativo gesto de humildade, que bem expressava seu arrependimento. E publicou ele um decreto dizendo: “Todos clamem a Deus em alta voz; deixe cada um o seu mau caminho e converta-se” (Jn 3,8). Diante dessa sincera conversão dos ninivitas, mudou o Senhor seus desígnios e não os castigou.

Quarenta são os dias durante os quais Jesus Ressuscitado instruiu os seus discípulos, antes de ascender ao Céu e enviar o Espírito Santo (cf. At 1,3). E, nestes quarenta dias da quaresma, a Liturgia tem como objetivo, favorecer um caminho de renovação espiritual, à luz desta longa experiência bíblica e, sobretudo, para aprender a imitar Jesus, que nos quarenta dias transcorridos no deserto ensinou a vencer a tentação do demônio com a Palavra de Deus.

A história nos mostra que também muitos homens e mulheres imitaram Jesus nesta sua retirada ao deserto. No Oriente, começando por Santo Antão, muitos foram aqueles que se retiram aos desertos do Egito ou da Palestina, ou para lugares solitários, montes e vales remotos ou grutas, como fez também São Bento, deixando o mundo para se encontrar com Deus no silêncio e na solidão. Também nós, nesta quaresma, somos chamados a fazer esta experiência do deserto. Passar um tempo de deserto significa subtrair-se do alvoroço e dos chamados exteriores para entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser.

Assim como aconteceu com Cristo, também nós, ao nos preparar para a Páscoa, peçamos ao Espírito Santo que nos conduza e nos assista ao longo do nosso caminho quaresmal, através do deserto da oração e da penitência, para nos alimentarmos intensamente com a Palavra de Deus. Que o Espírito Santo também nos auxilie na luta contra o mal e nos faça progredir sempre mais na fé, para que sejamos capazes de imprimir no nosso coração e na nossa vida as palavras de Jesus Cristo e nos convertermos a Ele todos os dias. Assim Seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – A cura de um leproso

Mc 1,40-45

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos mostra Jesus em contato com um homem atingido pela lepra, uma doença considerada grave, a ponto de tornar a pessoa “impura” e de a excluir dos relacionamentos sociais. A lepra era uma doença vista como um sinal de impureza, de dissolução e morte.

A doença conhecida como lepra suscitou por milênios, angústia e pavor. Dois fatores alheios contribuíram para acrescentar o terror frente a esta enfermidade, até fazer dela o símbolo da máxima desventura que pode tocar uma criatura humana. O primeiro era a convicção de que esta enfermidade era tão contagiosa que infectava qualquer pessoa que tivesse contato com o enfermo; o segundo, igualmente carente de todo fundamento, era que a lepra consistia em um castigo pelo pecado.

Normalmente, utiliza-se a palavra “lepra” para designar vários tipos de enfermidade da aparência da pele. Uma doença vista como um estado insólito e anormal, uma manifestação de forças misteriosas, inquietantes e ameaçadoras que ameaçam a harmonia e o equilíbrio da existência do homem.

Devido a esta doença, o leproso era segregado e afastado da convivência diária com as outras pessoas. Tal medida tinha uma intenção higiênica e pretendia evitar o contágio. Significava, também, a dificuldade da comunidade em lidar com o estranho, com as forças misteriosas e inquietantes da doença. Mas, a exclusão dos leprosos da comunidade tinha razões religiosas. Para a mentalidade tradicional do povo judaico, Deus distribuía as recompensas e os castigos de acordo com o comportamento do homem.

A doença era vista como um castigo de Deus para os pecados e as infidelidades cometidas pelo homem. Ora, uma doença tão assustadora e repugnante como a lepra era tida como um castigo terrível para um pecado especialmente grave. O leproso era considerado, por isto, um pecador, amaldiçoado por Deus, indigno de pertencer à comunidade do Povo de Deus e não podia ser admitido às assembleias onde Israel celebrava o culto na presença do Deus santo.

O texto evangélico acentua que o leproso chegou perto de Jesus e suplica de joelhos: “Se queres, tu tens o poder de me purificar” (v. 40). Jesus ficou cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero, fique purificado” (v 41). No mesmo instante a lepra desapareceu dele.

Provavelmente tinham chegado até este leproso ecos do anúncio da pregação de Jesus e isto lhe abriu um horizonte de esperança. O desejo de sair da situação de miséria e de marginalidade em que estava mergulhado vence o medo de infringir a Lei e ele aproxima-se de Jesus, sem respeitar as distâncias que um leproso devia manter das pessoas sadias. Com isto observa-se o seu desespero e o desejo de mudar a sua triste situação. E estando diante de Jesus, o leproso é humilde, mas insistente: “Prostrou-se de joelhos e suplicou-lhe” (v. 40), pois o encontro com Jesus é uma oportunidade que ele não podia desperdiçar. O que ele pretende de Jesus não é apenas ser curado, mas ser “purificado” (katharidzô) dessa enfermidade que o faz impuro e indigno de pertencer à comunidade de Deus e à comunidade dos homens.

O leproso confia no poder de Jesus, sabe que só Jesus pode ajudá-lo a superar o seu estado de miséria, de isolamento e de indignidade. Mostrou ser prudente e portador de uma fé sincera. A sua súplica é feita com fervor e humildade. E Jesus, por sua vez, não disse apenas “Eu quero, fique purificado” (v. 41), mas, estendeu a mão e tocou no leproso (v. 40).

Este gesto de Jesus, que estende a mão e toca o corpo chagado da pessoa que o invoca, manifesta perfeitamente a vontade de Deus, de curar a sua criatura decaída, restituindo-lhe a vida “em abundância” (Jo 10,10). Cristo é “a mão” de Deus estendida à humanidade, para que ela consiga sair das areias movediças da doença e da morte e erguer-se sobre a rocha sólida do amor divino (cf. Sl 39,2-3).

Trata-se de um gesto humano, onde se manifesta a bondade e a solidariedade de Jesus para com aquele que sofre; mas este gesto de estender a mão tem um profundo significado teológico, pois é o gesto que acompanha, na história do Êxodo, as ações de Deus em favor do seu Povo (cf. Ex 3,20; 6,8; 8,1; 9,22). O amor de Deus manifesta-se com um gesto, que salva o homem leproso da escravidão em que a doença o havia lançado.

A lei prescrevia que o leproso devia apresentar-se ao sacerdote, pois a sua função consistia em ajudar a controlar o mal e a impedir o contágio. A sua ação destina-se, sobretudo, a decidir da capacidade ou da incapacidade de alguém para integrar a comunidade do Povo de Deus e para ser admitido à presença do Deus santo. A legislação reservava aos sacerdotes a tarefa de declarar a pessoa leprosa, ou seja, impura; e igualmente competia ao sacerdote constatar a sua cura e voltar a admitir na vida normal o enfermo curado (cf. Lv 13-14). E dessa maneira o homem fica reintegrado na vida social e religiosa.

O texto termina com a indicação de que o leproso purificado “começou a anunciar e a divulgar o que acontecera”, apesar do silêncio que Jesus lhe impusera. Mas aquele leproso curado, não conseguiu guardar o segredo e proclamou a todos o que tinha acontecido, de modo que, narra o evangelista, os doentes acorriam de todas as partes em grande número à procura de Jesus. O Evangelista São Marcos quer, provavelmente, sugerir que quem experimenta o poder integrador e salvador de Jesus converte-se necessariamente em profeta e em testemunha do amor e da bondade de Deus.

A lepra constituía uma espécie de morte religiosa e civil, e a sua cura uma espécie de ressurreição. É possível comparar esta enfermidade com o sinal do pecado, que é a verdadeira impureza do coração, capaz de nos afastar de Deus. Não é de fato a doença física da lepra, como previam as normas antigas, que nos separa do Senhor, mas a culpa, o mal espiritual e moral. A enfermidade tanto física como espiritual constitui uma característica típica da condição humana, como Santo Agostinho expressa bem numa das suas preces: “Tende piedade de mim, Senhor! Vede, não vos escondo as minhas feridas. Vós sois o médico, eu o doente; Vós sois misericordioso, eu miserável” (S. AGOSTINHO, As Confissões, X, 39).

O texto evangélico deixa para nós uma lição, pois quer nos mostrar como a oração que dirigimos a Deus para lhe pedir alguma coisa deve ser alicerçada na humildade e na fé sincera. Nossa oração deve ser envolvida na fé e na firme confiança na bondade de Deus.

Por isto, precisamos nos reconciliar com Deus, confessando periodicamente os nossos pecados. No Sacramento da Penitência, mediante os sacerdotes, somos purificados e restituídos à comunhão com o Pai celeste e com os irmãos, e somos novamente fortalecidos na graça, o que nos concede alegria e paz.

Possamos também nós suplicar ao Cristo Senhor que venha ao nosso encontro para nos libertar de toda a enfermidade do corpo e da alma. Deixemo-nos tocar e purificar por Ele, e que Ele mesmo venha ao nosso encontro para nos curar. E que cada encontro com Ele possa nos proporcionar um alívio no corpo e na alma. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.