Arquivo da categoria: Homilias

Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO

Mt 16,13-19

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade litúrgica dos Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja, no linguajar dos santos padres, com dois estilos diferentes para a mesma vocação missionária. Pedro, apóstolo dos judeus, Paulo, dos gentios ou pagãos. Originariamente o primeiro foi um singelo pescador da Galileia; o segundo, um sábio fariseu de Tarso. Tocados por Cristo, tornaram-se grandes difusores da mensagem do Senhor até o martírio, em Roma: São Pedro no ano 64 e São Paulo em 67.

O texto evangélico nos apresenta uma dupla interrogação feita por Jesus aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v.13) e “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v.15). Jesus os convida tomar a consciência desta diferente perspectiva e ouve a resposta dos seus discípulos acerca do pensamento das pessoas, que o identificam como um profeta. Isto, entretanto, não basta. É necessário aprofundar, ir além, reconhecer a singularidade da sua pessoa. Perante uma resposta ainda não convincente, Jesus transfere a pergunta aos seus discípulos; e Pedro, tomando a palavra, responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

A resposta de Pedro não é fruto de seu próprio raciocínio, mas uma revelação do Pai ao humilde pescador da Galileia, como confirma o próprio Jesus, dizendo: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16,17). É por causa desta confissão que Jesus diz: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18). Pedro estava tão próximo do Senhor que se tornou ele mesmo uma rocha de fé e de amor sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja. E Jesus ainda completa: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Com base nesta confissão de Pedro, é conferida a ele uma tarefa particular, manifestada mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra de fundamento ou pedra angular, a das chaves e o ato de ligar e desligar. A chave representa a autoridade sobre a casa (Is 22, 22) e a expressão “ligar e desligar” está relacionada à linguagem rabínica, aplicando-se tanto no contexto das decisões doutrinais como no do poder disciplinar, ou seja, a faculdade de infligir ou levantar a excomunhão.

Chama também a nossa atenção o número das chaves que são dadas a Pedro. Jesus apresenta a palavra no plural: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (v. 19). A iconografia nos mostra a imagem do Apóstolo com duas chaves. O mesmo pode-se constatar no brasão pontifício, onde vemos uma de prata e outra de ouro. Alguns interpretam também essas duas chaves como a Palavra de Deus, por meio da qual os homens são instados a mudar de vida e, em seguida, os sacramentos, com os quais Jesus renova a natureza humana, tornando-a parte de seu sagrado corpo místico. Jesus já abriu as portas do Reino dos Céus, mas deixou sob a responsabilidade de seus administradores a condução do povo até a travessia destas mesmas portas. Os sacerdotes, com a Palavra e os sacramentos, devem conduzir o homem pelas estradas que levam ao Reino Celeste.

Mediante estas imagens sobressai claramente o fato de que Pedro é inseparável do encargo pastoral que lhe foi confiado em relação ao rebanho de Cristo, o que vem a se concretizar no encontro de Cristo ressuscitado com Pedro, conforme nos narra o Evangelho de São João, quando o Senhor Ressuscitado confia a ele a missão de apascentar o seu rebanho (cf. 21,15-19).

São Pedro torna-se o cimento de rocha sobre o qual estará o edifício da Igreja; terá as chaves do Reino dos céus para abrir e fechar a quem lhe pareça justo; por último, poderá atar e desatar, ou seja, poderá estabelecer ou proibir o que considere necessário para a vida da Igreja, que é e continuará sendo de Cristo. É sempre a Igreja de Cristo e não de Pedro. Quem edifica a Igreja é Cristo. Pedro é um instrumento, a primeira pedra do edifício. Jesus explicou o sentido de “ligar e desligar” quando disse a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15).

O Apóstolo São Pedro que, por dom de Deus, tornou-se uma rocha firme, surge aqui como ele é na sua fraqueza humana: uma pedra na estrada, uma pedra onde se pode tropeçar. Contudo, mesmo no âmbito da fragilidade do homem, a ação de Deus pode transformar a própria história. O poder conferido a Pedro não é um poder segundo as modalidades deste mundo. É o poder do bem, da verdade e do amor. Sua promessa é verdadeira: os poderes da morte e as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja que Cristo edificou sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e que ele, precisamente desta forma, continua a edificar.

Esta posição de destaque que Jesus quis entregar a Pedro se constata também depois da sua ressurreição, quando Maria Madalena corre a Pedro e a João para informar que a pedra foi removida da entrada do sepulcro (cf. Jo 20,2) e João lhe cederá o passo quando os dois chegam ao túmulo vazio (cf. Jo 20,4-6). Posteriormente, Pedro será, entre os apóstolos, a primeira testemunha da aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24,34; 1Cor 15,5). No Concílio de Jerusalém, Pedro ainda desempenha uma função diretiva (cf. At 15 e Gl 2,1-10) e, precisamente pelo fato de ser a testemunha da fé autêntica, o próprio Paulo reconhecerá nele um papel de “primeiro” (cf. 1Cor 15,5; Gl 1,18; 2,7).

Podemos ainda ressaltar o testemunho de fé e a árdua luta que os Apóstolos Pedro e Paulo tiveram de enfrentar pela causa do Evangelho. Também nisto seguiram com fidelidade o modelo de Cristo: deram a vida em prol do Evangelho. Estes dois Apóstolos, tendo o olhar fixo no mistério pascal, não duvidaram da necessidade de anunciar o Cristo, mesmo diante das dificuldades e dos desafios: era o início da realização do plano de Deus. Era a vitória sobre as forças do mal, conquistada em primeiro lugar por Cristo e depois pelos seus apóstolos, mediante a fé, sobre a qual está edificada a missão da Igreja. A rocha representa a firmeza, não só no que se refere à duração, mas também no que tange à solidez dos seus ensinamentos, oriundos da Sagrada Escritura.

O Apóstolo Paulo, cujo nome antes da conversão era Saulo, era natural de Tarso. Foi inicialmente um fariseu zeloso, a ponto de perseguir e aprisionar os cristãos, sendo responsável pela morte de muitos deles. Mas o encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco marcou a mudança decisiva da sua vida. Realizou-se, então, a sua completa transformação, uma verdadeira conversão espiritual. Tornou-se, de cruel perseguidor dos cristãos, em fervoroso apóstolo do Evangelho. A partir do encontro com Cristo a caminho de Damasco, todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Os Apóstolos Pedro e Paulo são testemunhas insignes da fé; dilataram o Reino de Deus com os seus diversos dons e, a exemplo do próprio Cristo, selaram com o sangue a sua pregação evangélica. A iconografia tradicional apresenta São Paulo com a espada, que representa o instrumento do seu martírio, enquanto São Pedro é apresentado com as chaves nas mãos, sinal da autoridade recebida do próprio Cristo.

Que o exemplo destes grandes santos possa iluminar as nossas mentes e acender em nós o desejo de realizar todos os dias a vontade de Deus, a fim de que possamos permanecer fiéis ao Evangelho, cujo serviço eles consagraram a própria vida, anunciando os ensinamentos do Cristo a todos os povos. Que São Pedro e São Paulo possam interceder por nós, para que possamos, assim como eles, sermos perseverantes na fé e na santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – Duas curas milagrosas a favor de duas mulheres

Mc 5,21-43

Caros irmãos e irmãs

Neste domingo, o evangelista São Marcos nos apresenta a narração de duas curas milagrosas operadas por Jesus em favor de duas mulheres em uma única narrativa: a ressurreição da filha de um dos chefes da Sinagoga, chamado Jairo, e a recuperação da saúde de uma mulher que sofria de hemorragia (cf. Mc 5,21-43). O lecionário fornece uma leitura abreviada, mas aconselha-se a leitura integral do texto. De fato, os três evangelhos sinóticos mostram as duas curas em um relacionamento seguido e um está de certa forma ligado ao outro.

As duas mulheres beneficiárias das ações de Jesus neste Evangelho têm algo em comum: a primeira estava doente há 12 anos e a menina, filha de Jairo, morreu aos 12 anos. Segundo os textos bíblicos do Novo Testamento, por três vezes Jesus trouxe alguém de volta à vida.

Para o povo de Israel, o percurso destas duas mulheres era sinal de um fracasso. Uma mulher está perdendo a sua vida, uma vez que sangue é princípio e sinal de vida na mentalidade semítica, e por doze anos sofre uma doença que não encontra cura na medicina. A menina, aos doze anos, perde a sua vida. Além da cura da filha de Jairo, temos também a ressurreição do filho da viúva de Naim (cf. Lc 7,11-17) e a ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11,1-46).

Em ambos os casos, realiza-se a salvação da pessoa, algo mais profundo e transcendental que o resultado físico, embora importante à saúde e à vida; algo que está além dos limites da enfermidade e da morte. É difícil aceitar o fato de se estar doente e também aceitar o doente. De fato, olhar nos olhos de um homem enfermo ou moribundo significa tomar profunda consciência dos próprios limites humanos, da inevitabilidade da morte; significa sentir a própria precariedade e achar-se de mãos vazias em face do outro. No Novo Testamento, Jesus é apresentado como o Salvador dos enfermos, alguém que cura não apenas as doenças do corpo, mas também as doenças morais, e também o pecado (cf. Mc 2,1-2).

A história começa quando Jairo pede a Jesus como um pai desesperado: “A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva” (v. 23). Enquanto Jesus e seus discípulos seguem para a casa de Jairo, uma mulher doente atingida por um fluxo de sangue não diz nada, mas se contenta em tocar as vestes de Jesus, porque se considera impura. A lei estabelece que a mulher que estivesse sofrendo de perdas de sangue não podia ser admitida nos encontros comunitários e deveria ser evitada, como se fosse uma leprosa: “Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne, estará sete dias na sua separação, e qualquer um que a tocar, será imundo até à tarde” (Lv 15,19). Aquele que tivesse contato com a mulher, antes de retomar as atividades religiosas, deveria se submeter a cerimônias de purificação (cf. Lv 15,25-27). A perda contínua de sangue causa muita fraqueza no enfermo. Entretanto, a dor maior era talvez não da doença física, mas da doença social.

O que parece ser uma interrupção inconveniente, por conta da cura da mulher, enquanto a filha morria, na verdade, pode se dizer que contribuiu para a salvação da filha de Jairo. O fato pode ter contribuído para fortalecer a sua fé. O texto evangélico nos diz que a mulher, não identificada, foi atingida por uma doença desconfortável e humilhante e a atinge em sua intimidade. E é causa de uma impureza religiosa. O sangue é símbolo da vida, mas quando sai do corpo, pode tornar-se sinal da morte próxima e, por isto, causa repugnância. Mas ela sente um forte impulso para estar com Jesus, para tocar nele: “Se tocar, ainda que seja na orla do seu manto, estarei curada” (v. 28). Mas ela vê um obstáculo: a multidão e o medo de transgredir as leis da época. Porém quando ouviu falar que o Messias prometido, Jesus, estava por perto, a fé genuína se acendeu no seu íntimo. Ela decide agir de forma discreta, porque o fluxo sanguíneo, segundo a legislação, a fez impura e tocar uma outra pessoa estaria contrariando a lei e ela poderia ser apedrejada (cf. Lv 15,25). Ela aproxima-se de Jesus por detrás, tocando a orla do seu manto. Neste momento, ela é atingida por uma força vital que restabelece a sua saúde: “No mesmo instante se lhe estancou a fonte de sangue, e ela teve a sensação de estar curada” (v. 29). Assustada ao ser descoberta pela pergunta e pelo olhar de Jesus, diz ele à mulher: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e sê curada do teu mal” (v. 34).

A mulher em questão nem por seu nome era conhecida. Ficou marcada como a mulher do fluxo de sangue. Mas graças à sua fé, foi restaurada na sua dignidade, restabelecida na sociedade que a excluía devido a doença. E a sua cura vem como uma consequência da fé, que é sempre fonte de vida e de felicidade.

Após a cura da hemorroíssa, é retomado o relato da filha de Jairo. E, estando Jesus com seus discípulos de sua casa lhe comunicam a triste notícia da morte de sua filha. Ele esperava que Jesus impusesse suas mãos sobre a menina para restabelecer a sua saúde. Na concepção judaica de retribuição, a morte de uma criança era considerada como um castigo, devido a algum pecado cometido pelos pais. A morte da filha significava para Jairo uma dupla perda: a da filha e também da sua posição social. Ele poderia ser considerado como um pecador castigado por Deus. Mas, diante da notícia, nesse momento difícil de prova, Jesus anima Jairo dizendo: “Não tenha medo. Basta que tenha fé” (v. 36).

Já na casa de Jairo, Jesus ouve o ruído das lamentações e dos flautistas (v. 38). Segundo a concepção judaica, este costume tinha como objetivo afastar os espíritos maus, que tentavam apoderar-se do espírito do morto. Mas diante deste cenário, Jesus diz: “A criança não morreu, mas dorme” (v. 39). Jesus toma a mão da menina e ordena que ela se levante (v. 41). E o evangelista conserva a ordem de Jesus em aramaico: “Talita cumi”, que quer dizer: “Menina, levanta-te”. O relato termina com a constatação do milagre (v. 42) e o espanto de todos diante da intervenção salvífica de Deus. Jesus também ordena que dê de comer à menina, isto para frisar a volta da realidade e também para acentuar o contexto da ressurreição.

Nas duas cenas do evangelho deste domingo, a fé humilde, que suplica pela boca do pai da menina e pelo gesto de tocar o manto de Jesus pela mulher, é também modelo de disposição para se aproximar de Cristo. Em ambos os casos a finalidade é o aperfeiçoamento da fé dos dois pedintes. Na narrativa observa-se que ao redor de Jesus se encontra uma grande multidão (v. 31). Certamente são os seus discípulos que o seguiam. Podemos imaginar que muitos encostavam nele, mas somente uma mulher o “tocou”, e sua vida passou por uma grande transformação. Isto pode acontecer também com cada um de nós. Muitas vezes temos contatos diretos com Jesus, pelo Sacramento da Eucaristia, por exemplo, ou através da sua Palavra, mas não somos transformados. Talvez falte em nós uma fé mais forte e sólida. A proximidade com Jesus precisa, necessariamente, produzir em nós mudanças. Se isto não acontece, significa que as suas palavras ainda não atingiram o nosso coração.

Por isto, precisamos pedir que ele mesmo nos ajude a crescer na fé, e que esta fé possa transbordar em amor, para que sejamos verdadeiramente transformados e renovados a cada dia. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XII SEMANA DO TEMPO COMUM – A tempestade em alto mar

Mc 4,35-41

Meus caros irmãos e irmãs

Façamos uma breve reflexão sobre as leituras que a Liturgia da Palavra nos convida a ouvir neste domingo. Inicialmente, lancemos o nosso olhar para a primeira leitura, retirada do Livro de Jó (cf. Jó 38,1.8-11), que nos faz pensar a respeito de certos temas fundamentais sobre os quais o homem sempre se interroga, como, por exemplo, a questão do sofrimento do justo inocente, a situação do homem diante de Deus e a atitude de Deus face ao homem. O livro nos apresenta o triste itinerário de um homem bom e justo chamado Jó, repentinamente atingido por uma série de tormentos que lhe roubam a riqueza, a família e a própria saúde.

Diante desse drama o próprio Jó se interroga acerca da origem do sofrimento, Deus se dirige a Jó e lhe recorda a sua condição de criatura, limitada e finita e mostra como só Ele conhece as leis que regem o universo e a vida; e frisa a sua preocupação e o seu amor para com cada ser criado. Deus tem uma lógica, um plano, um projeto que ultrapassa infinitamente aquilo que cada homem pode entender. A história termina com Jó a reconhecer a transcendência de Deus e a incompreensibilidade dos seus projetos, a entregar-se nas mãos do Criador com humildade e confiança.

No texto evangélico temos o episódio narrado pelo evangelista São Marcos durante a travessia no Lago de Tiberíades, designado frequentemente por Mar da Galileia, um lago de água doce, alimentado, sobretudo, pelas águas do rio Jordão. As tempestades que se levantavam neste mar podiam aparecer subitamente. Para a teologia judaica, o mar era uma realidade assustadora, indomável e desordenada, onde residiam os poderes do mal que o homem não conseguia controlar. Só Deus era capaz de dominar o mar e as forças hostis que nele se alojavam, como é possível constatar pela primeira leitura (cf. Jó 38,1.8-1) e também pelo salmo responsorial (cf. Sl 106).

Unido a este ambiente onde estão os discípulos de Jesus, temos ainda um outro aspecto, o “anoitecer”. Os discípulos estão no barco com Jesus em alto mar, em um ambiente difícil e perigoso, rodeados pelas forças do mal. O fato ocorre no anoitecer, o que nos faz lembrar das trevas, da falta de luz. E neste cenário surge também o medo e a falta de solução e de perspectivas: “Estamos perecendo” (v. 38).

Um detalhe que chama a nossa atenção é que Jesus está no barco, mas são os seus discípulos os encarregados da navegação, pois cabe a eles a tarefa de conduzir a comunidade pelo mar da vida. Isto mostra também a nossa missão: Ir ao encontro do homem, mesmo em um ambiente de provações e de dificuldades. Mas também os discípulos não podem esquecer que o Cristo caminha com eles, como ele mesmo disse: “Eu estou convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt 28,20).

Diante das provações da vida somos levados a questionar a presença de Deus e somos tentados a perguntar: “Onde está Deus?” No entanto, as palavras de Jesus ao final do Evangelho de São Mateus nos garantem a sua presença em uma união contínua: “Todos os dias”. Por isso, no abismo mais profundo de nossa crise e sofrimento, tenhamos esta certeza: não estamos sozinhos, Jesus está conosco. Ainda que passemos por crises e sofrimentos, Cristo está conosco “com o seu bastão e com o seu cajado” (Sl 22,4), isto é, com toda a sua autoridade.

Assim como no evangelho, muitas vezes, ao nos depararmos com a perplexidade da dor e sofrimento, também somos levados a dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Sl 21). Neste contexto de abandono e de dor, o homem eleva um lamento doloroso a Deus, que parece estar distante e em silêncio. Mas Deus parece silenciar porque está junto daquele que sofre. Um silêncio de amor compadecido e solidário. Um amor paciente que tudo pode, mas não pode reagir a violência com violência.

Na mentalidade do homem, tanto do passado como do presente, Deus parece dormir diante da injustiça e da violência. Mas a tempestade que também hoje deixa desorientados os próprios navegantes, é o esmorecimento da fé e a pouca força de nossa esperança. Os discípulos, assustados pela forte tempestade, acordam o Cristo que dorme: “Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!” (v. 38) Mas Jesus, logo depois de acalmar a tempestade, repreende os seus discípulos pela falta de fé e confiança: “Como sois medrosos! Ainda não tendes fé?” (v. 40).

Este gesto solene de acalmar o mar tempestuoso é claramente um sinal do senhorio de Cristo sobre os poderes negativos e leva a pensar na sua divindade: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (v. 41). Com isto Jesus mostra uma vez mais a sua divindade e, como Deus, coloca limites ao mar e liberta os homens dos poderes malignos. Por isto, mesmo diante dos sofrimentos pelos quais passamos, sempre devemos estar, sobretudo nestes momentos, fortalecidos pela fé naquele que nunca nos abandona. São Paulo nos conforta dizendo: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus ” (Rm 8, 28). As dores e dificuldades que atingem os homens devem ser vistas como um sinal de que é em tais circunstâncias, por piores que pareçam, que ele nos dá a conhecer o seu amor, provando-nos a fidelidade, pedindo-nos uma fé mais firme.

Uma conhecida história nos fala que certa vez um homem teve um sonho, e neste sonho via dois pares de pegadas que haviam ficado gravadas na areia do deserto. Compreendia que um par de pegadas eram as suas e o outro par de pegadas eram as de Jesus, que caminhava a seu lado. Em um certo momento, um par de pegadas desaparece, e compreende que isso sucedeu precisamente em um momento difícil de sua vida. Então se lamenta com Cristo, que o deixou sozinho, em um momento da provação. “Mas, eu estava contigo!”, respondeu Jesus. “Como é possível que estivesse comigo, se na areia só se vê um par de pegadas?”. “Eram as minhas, respondeu Jesus. Nesses momentos, eu havia te carregado”. Lembremos disso, quando também nós sentimos a tentação de nos queixar com o Senhor por nos deixar sozinhos nos momentos de dificuldades.

Peçamos que o Senhor venha também ao nosso auxílio e nos ajude a estar sempre cientes da sua presença entre nós, sobretudo nos momentos de provações. E como outrora no lago da Galileia, também hoje, no mar da nossa existência, Jesus é aquele que vence as forças do mal e alivia o nosso desespero.

No seu amor infinito, Deus está sempre perto daqueles que sofrem. A enfermidade pode ser uma estrada para se descobrir outros aspectos de si mesmos e novas formas de encontro com Deus. Cristo escuta o clamor daqueles cuja barca é ameaçada pela tempestade (cf. Mc 4,35-41). Ele está presente junto deles para os ajudar na travessia e guiá-los em direção ao porto da serenidade recuperada.

Lancemos uma vez mais o nosso olhar para a Virgem Maria, a quem invocamos como Consoladora dos aflitos, para que ela possa interceder sempre por nós, para sermos sempre mais fortalecidos na fé e na confiança naquele que é o Bom Pastor, capaz de nos conceder um futuro de paz e de serenidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XI SEMANA DO TEMPO COMUM – As parábolas da semente e do grão de mostarda

 Mc 4,26-34

Meus caros irmãos e irmãs, A liturgia da palavra deste domingo traz para a nossa reflexão duas breves parábolas contadas por Jesus: a da semente que cresce sozinha e a do grão de mostarda (cf. Mc 4, 26–34). Nestas parábolas temos a exposição de como o Reino de Deus se expande com uma força que não depende do ser humano, mas do próprio Deus. Através dessas imagens, tiradas do mundo da agricultura, o Cristo Senhor quer ilustrar as razões da nossa esperança e do nosso compromisso na história. A primeira parábola ressalta: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou” (v. 27-29). Esta parábola tem uma estrutura bastante simples e evoca o mistério da criação e da redenção, da obra fecunda de Deus. Ele é o Senhor do Reino, o homem é o seu colaborador humilde que contempla e rejubila com a obra criadora divina e dela espera pacientemente os frutos. O texto mostra que o agricultor semeia com a certeza de que o seu trabalho não será infecundo. Ele confia na força da semente e na fertilidade do terreno. Após ser semeada, a semente nasce e cresce independente da ação do agricultor. Deste modo, podemos lembrar da afirmação de São Paulo: “Eu plantei, Apolo regou; mas era Deus quem fazia crescer. Aquele que planta nada é; aquele que rega nada é; mas importa somente Deus, que dá o crescimento” (cf. 1Cor 3, 6-7). No contexto da parábola, Jesus indica que o Reino tem uma força intrínseca que independe dos trabalhadores. O objetivo da parábola é também o de chamar a atenção dos ouvintes para o Reino de Deus e é um recurso retórico que faz parte do método utilizado por Jesus na evangelização. A semente que germina e cresce por si mesma exprime a ação de Deus que comunica amor e vida a todos. O Reino de Deus é comparado não apenas ao trabalho do camponês ou à semente que é lançada à terra, mas deve-se observar todo o modo de crescimento da planta. Jesus quer mostrar que o Reino de Deus é tão misterioso como este processo de desenvolvimento de uma semente que brota e se torna uma planta grandiosa. Para o homem antigo este processo constituía um milagre de Deus. Depois de lançada a semente, não se faz mais nada, senão esperar com paciência o tempo da colheita. Na linguagem evangélica, a semente é também símbolo da Palavra de Deus, cuja fecundidade é recordada por esta parábola. Do mesmo modo como a semente humilde se desenvolve na terra, também a Palavra age com o poder de Deus no coração de quem a ouve. Deus confiou a sua Palavra à nossa terra, ou seja, a cada um de nós, com a nossa humanidade concreta. Podemos ser confiantes, porque a Palavra de Deus é palavra criadora (cf. Gn 1,1ss). A criação nasce do “Logos” e esta feliz certeza é apresentada nos Salmos: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro da sua boca todos os seus exércitos” (Sl 33,6); e ainda: “Ele falou e as coisas existiram. Ele mandou e as coisas subsistiram” (Sl 33,9). E o Evangelista São João nos ensina que o “Logos” indica originariamente o Verbo eterno, ou seja, o Filho unigênito, gerado pelo Pai antes de todos os séculos e consubstancial a Ele: o Verbo estava junto de Deus, o Verbo era Deus. Mas este mesmo Verbo, afirma São João, “fez-se carne” (Jo 1,14) e veio habitar entre nós; por isso, Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, é realmente o Verbo de Deus, ou seja, a Palavra de Deus, que se fez consubstancial a nós (cf. BENTO XVI, Exortação Apostólica “Verbum Domini”, n. 7). Esta Palavra, sendo acolhida em nosso coração, certamente dará os seus frutos, porque o próprio Deus a faz germinar e crescer. E nós, chamados à comunhão com Deus e entre nós, devemos ser anunciadores deste dom. A Palavra de Deus, ao ser anunciada, penetra na mente e no coração, e quem a escuta nunca mais consegue permanecer o mesmo. É inevitável que aconteça uma transformação interior. Na segunda parábola Jesus conta: “O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes. Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra” (v. 32-33). São palavras que fazem referência ao Livro do profeta Ezequiel, do qual é tirada a primeira leitura (cf. Ez 17,22-24). Os dois textos aludem ao desenvolvimento do Reino de Deus na história do mundo. Nesta segunda parábola o texto menciona uma semente específica, o grão de mostarda, considerada a menor de todas as sementes. Porém, embora seja pequena, está cheia de vida, e dela nasce um rebento capaz de romper o terreno, de sair à luz do sol e de crescer até se tornar “a maior que todas as hortaliças” (cf. Mc 4,32): a debilidade é a força da semente, o romper-se é o seu poder. E assim é o Reino de Deus: uma realidade humanamente pequena, formada por quem não confia na própria força, mas na força da misericórdia de Deus. A semente germina e cresce, porque é a bondade de Deus que a faz crescer. A mostarda é uma planta da família da couve, de grandes folhas, flores amarelas e pequenas sementes. Existem duas espécies principais de mostarda: a branca e a preta. A branca chega a ultrapassar 1 metro de altura e a preta pode chegar de 3 a 4 metros, sendo esta uma espécie de mostarda comum nas margens do lago de Tiberíades e seu tronco se torna lenhoso. Por isso, os árabes têm o costume de falar em árvores de mostarda. As sementes de mostarda, na época, eram vistas como modelo de algo insignificante. Mas ao utilizar este exemplo, Jesus põe em destaque a simplicidade de qualquer realidade que começa em comparação com a grandeza dos resultados. A inexpressiva semente que se transforma em uma árvore acolhedora dos pássaros exprime que a fé dos discípulos, desprezível para muitos, pode gerar o mundo novo de fraternidade e paz. O acento destas duas parábolas está justamente na força do contraste. Nelas, o Reino de Deus representa um “crescimento” e um “contraste”: o crescimento que se verifica graças a um dinamismo da própria semente e o contraste que existe entre a pequenez da semente e a grandeza daquilo que ela produz. A mensagem é clara: para que ocorra o seu crescimento faz-se necessário a nossa colaboração, o Reino de Deus é antes de tudo dom do próprio Senhor para nós. Uma outra mensagem que podemos tirar dessas parábolas está no fato de sabermos esperar o tempo de Deus, ter paciência, manter a calma e acompanhar o desenvolvimento da semente que, sozinha, germina, cresce e produz frutos abundantes. Para sermos discípulos de Cristo é preciso ter a paciência de uma semente que dia e noite cresce, brota, desabrocha, amadurece em um processo longo, silencioso e quase anônimo. Obtemos ainda destas duas parábolas um ensinamento importante: O Reino de Deus requer a nossa colaboração, mas é sobretudo iniciativa e dom do Senhor. A nossa obra frágil, aparentemente muito pequena face à complexidade dos problemas do mundo, se for inserida em Deus, terá êxitos. Possamos semear este grão de mostarda no campo do nosso coração, pois se assim fizermos, será ele um jardim bem irrigado, um manancial de águas que nunca param de correr (cf. Is 58,11). Jesus Cristo é também este grão de mostarda que cai na terra e se multiplica para nós. Saibamos ser a terra boa, capaz de acolher e sermos anunciadores da sua mensagem salvadora e que ela possa produzir bons e saborosos frutos de santidade, unidade e paz e que sejam esses frutos recolhidos no celeiro do Reino dos Céus. Assim seja. D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB Mosteiro de São Bento/RJ

LITÚRGICA DA PALAVRA – 11/06 FESTA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Antífona de entrada Sl 32,11.19
Eis os pensamentos do seu coração, que permanecem ao longo das gerações: libertar da morte todos os homens e conservar-lhes a vida em tempo de penúria.

Oração do dia
Concedei, ó Deus todo-poderoso, que, alegrando-nos pela solenidade do Coração do vosso Filho, meditemos as maravilhas de seu amor e possamos receber, desta fonte de vida, uma torrente de graças. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

PRIMEIRA LEITURA
Meu coração comove-se no íntimo

Leitura da Profecia de Oséias 11,1.3-4.8c-9

Assim diz o Senhor:
‘Quando Israel era criança, eu já o amava,
e desde o Egito chamei meu filho.
Ensinei Efraim a dar os primeiros passos,
tomei-o em meus braços,
mas eles não reconheceram que eu cuidava deles.
Eu os atraía com laços de humanidade,
com laços de amor;
era para eles como quem leva uma criança ao colo,
e rebaixava-me a dar-lhes de comer.
Meu coração comove-se no íntimo
e arde de compaixão.
Não darei largas à minha ira,
não voltarei a destruir Efraim,
eu sou Deus,
e não homem;
o santo no meio de vós,
e não me servirei do terror.
Palavra do Senhor.

Salmo responsorial
Is 12,2-3.4bcd.5-6 (R.3)
R. Com alegria bebereis do manancial da salvação.

Eis o Deus, meu Salvador, eu confio e nada temo;*
o Senhor é minha força, meu louvor e salvação.
Com alegria bebereis no manancial da salvação.
R.
e direis naquele dia: ‘Dai louvores ao Senhor,
invocai seu santo nome, anunciai suas maravilhas,*
entre os povos proclamai que seu nome é o mais sublime. R.

Louvai cantando ao nosso Deus, que fez prodígios e portentos,*
publicai em toda a terra suas grandes maravilhas!
Exultai cantando alegres, habitantes de Sião,*
porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!’ R.

SEGUNDA LEITURA
Conhecer o amor de Cristo que
ultrapassa todo conhecimento

Leitura da Carta de São Paulo aos Efésios 3,8-12.14-19

Irmãos:
Eu, que sou o último de todos os santos,
recebi esta graça de anunciar aos pagãos
a insondável riqueza de Cristo
e de mostrar a todos como Deus realiza
o mistério desde sempre escondido nele,
o criador do universo.
Assim, doravante, as autoridades e poderes nos céus
conhecem, graças à Igreja,
a multiforme sabedoria de Deus,
de acordo com o desígnio eterno
que ele executou em Jesus Cristo, nosso Senhor.
Em Cristo nós temos, pela fé nele,
a liberdade de nos aproximarmos de Deus
com toda a confiança.
É por isso que dobro os joelhos diante do Pai,
de quem toda e qualquer família recebe seu nome,
no céu e sobre a terra.
Que ele vos conceda, segundo a riqueza da sua glória,
serdes robustecidos, por seu Espírito,
quanto ao homem interior,
que ele faça habitar, pela fé,
Cristo em vossos corações,
que estejais enraizados e fundados no amor.
Tereis assim a capacidade de compreender,
com todos os santos, qual a largura, o comprimento,
a altura, a profundidade,
e de conhecer o amor de Cristo,
que ultrapassa todo conhecimento,
a fim de que sejais cumulados até
receber toda a plenitude de Deus.
Palavra do Senhor.

Aclamação ao Evangelho
Mt 11,29

R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
V. Tomai sobre vós o meu jogo e de mim aprendei, que sou manso e humilde de coração

EVANGELHO
Um soldado abriu-lhe o lado com uma
lança e logo saiu sangue e água

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João 19,31-37

Os judeus queriam evitar
que os corpos ficassem na cruz durante o sábado,
porque aquele sábado era dia de festa solene.
Então pediram a Pilatos
que mandasse quebrar as pernas aos crucificados
e os tirasse da cruz.
Os soldados foram e quebraram as pernas de um
e depois do outro que foram crucificados com Jesus.
Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto,
não lhe quebraram as pernas;
mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança,
e logo saiu sangue e água.
Aquele que viu, dá testemunho
e seu testemunho é verdadeiro;
e ele sabe que fala a verdade,
para que vós também acrediteis.
Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura,
que diz: ‘Não quebrarão nenhum dos seus ossos.

X DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – O pecado de Adão e Eva

Mc 3,20-35.

Caríssimos irmãos e irmãs

O Evangelista São Marcos ressalta na perícope evangélica deste domingo que os adversários de Jesus criticam suas atitudes e salientam que a sua mensagem é contrária à doutrina oficial, isto é, a dos escribas e fariseus. Eles alegam que o comportamento de Jesus não está de acordo com as sagradas tradições dos antigos por não respeitar o sábado, não estimular os seus discípulos a jejuar, por ser amigo dos pecadores e por não observar as normas que proíbem contatos com pessoas impuras. Muitos o consideram um herege (Jo 8,48.52) e o acusam ainda de expulsar o demônio pelo poder de Belzebu, o Príncipe dos demônios. A palavra Belzebu – seria interesante recordar – vem do nome de um deus filisteu de Acaron, cujo nome era “Baal das moscas” – Baal Zebud. A mesma palavra foi deformada pelos judeus, e ficou Beelzebul, que significa “o Senhor das esterqueiras”. De qualquer maneira é um nome depreciativo com que os israelitas chamavam o chefe dos espíritos malignos. Como está no evangelho, os escribas insistem em dizer que Jesus estaria expulsando os demônios pelo poder de Belzebu. Uma colocação inconveniente à qual Jesus responde ser impossível um demônio expulsar o próprio demônio.

Jesus se dirige a eles e esclarece: Satanás, por sua própria natureza, é inimigo do homem, é homicida: tudo o que ele faz é contra a vida e a felicidade do homem. Ora, tudo aquilo que Jesus realiza é exatamente o contrário: ele socorre o homem e o recupera; restitui-lhe a saúde e comunica-lhe a vida. Quanto à intervenção de seus parentes, Jesus explica que sua verdadeira família não é a do sangue, mas a da fé operante: os que fazem a vontade do Pai (v.35). Para poder fazer parte de sua família é preciso escutar a sua palavra e cumprir a vontade de Deus.

Neste horizonte neotestamentário, meditemos a primeira leitura que nos faz voltar ao livro do Gênesis (cf. Gn 2,4b-3,24), cujo objetivo é falar sobre a origem da vida e do pecado e tem uma finalidade teológica, que tenciona ensinar como o mundo e o homem apareceram e nos diz, em particular, que na origem da vida está Deus e que na origem do mal e do pecado estão as opções erradas do homem. Trata-se, portanto, de uma página importante de catequese que sempre devemos reler.

Em um primeiro momento, o autor sagrado descreve a criação do paraíso e do homem e apresenta a criação de Deus como um espaço ideal de felicidade, onde tudo é bom e o homem vive em comunhão total com o Criador e com as outras criaturas. Em um segundo momento, é apresentado o pecado do homem e da mulher, mostrando como as opções erradas do primeiro casal humano influenciaram na sua comunhão com Deus, trazendo desequilíbrio para o próprio homem. E, finalmente, o texto apresenta o homem e a mulher confrontados com o resultado das suas opções e as consequências que daí surgiram para ambos e para as gerações vindouras.

Na perspectiva do texto do Gênesis, Deus criou o homem e a mulher para a felicidade. Mas o homem, que Deus criou livre e feliz, fez escolhas indevidas e, com isto, introduziu na criação dinamismos de sofrimento e de morte. Os personagens apresentados no texto são Deus, que “passeia no jardim à brisa do dia” (v. 8), e ainda Adão e Eva, que se esconderam de Deus por entre o arvoredo do jardim (v. 8).

O texto começa com uma pergunta do Criador a Adão: “Onde estás?” A resposta do homem já é uma confissão da sua culpabilidade: “Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me” (v. 9-10). A vergonha e o medo são sinais de uma perturbação interior, de uma ruptura com a anterior situação de inocência, de harmonia, de serenidade e de paz. Como é que o homem chegou a esta situação? Evidentemente, desobedecendo a Deus e percorrendo caminhos contrários àqueles que Deus lhe havia proposto. A resposta do homem revela que ele tem consciência da sua culpa.

Depois desta constatação, a segunda pergunta feita por Deus ao homem é meramente retórica: “Terias tu comido da árvore, da qual te proibira de comer?” (v. 11). A árvore em causa é a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, significa o orgulho, o prescindir de Deus e das suas propostas, o querer decidir por si só o bem e o mal, o pôr-se a si próprio em lugar de Deus, o reivindicar autonomia total em relação ao criador. A situação do homem, perturbado e em ruptura, é já uma resposta clara à pergunta de Deus. Ao desobedecer a Deus, o homem fez a opção por um caminho de independência em relação a Ele. Daí a vergonha e o medo.

Ao defender-se, o homem acusa a mulher e, ao mesmo tempo, acusa veladamente o próprio Deus pela situação em que se encontra: “A mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi” (v. 12). Adão representa a humanidade que esqueceu os dons de Deus e vê em Deus um adversário; por outro lado, a resposta de Adão mostra, igualmente, uma humanidade que quebrou a sua unidade e se instalou na falta de solidariedade, no ódio. Escolher caminhos contrários aos de Deus não pode senão conduzir a uma vida de ruptura com Deus e com os outros irmãos.

Em seguida, a mulher se defende: “A serpente enganou-me e eu comi” (v. 13). Entre os povos cananeus, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade. Os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos e, com frequência, abandonavam o Senhor Deus para seguir os rituais religiosos dos cananeus e assegurar, assim, a fecundidade dos campos e dos rebanhos. Na época em que o livro do Gênesis foi escrito, a serpente era, pois, o “fruto proibido”, que seduzia os crentes e os levava a abandonar a Lei de Deus. A “serpente” é, neste contexto, um símbolo literário de tudo aquilo que afastava os israelitas de Deus. A resposta da “mulher” confirma aquilo que até agora estava sugerido: a humanidade que Deus criou ignorou as suas propostas e enveredou por outros caminhos.

A serpente é um animal que passa toda a sua existência comendo o pó da terra. O autor vai servir-se deste dado para ilustrar a condenação radical de tudo aquilo que leva o homem a afastar-se de Deus para seguir outros caminhos. A inimizade e a luta entre a “descendência” da mulher e a “descendência” da serpente, ressaltadas no texto, podem ser uma explicação do autor sagrado para o fato de a serpente inspirar horror aos seres humanos e todos procurarem “esmagar a sua cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher”, o Messias, o Cristo Jesus, acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça. Nisto consiste a relação da primeira leitura com o Evangelho, onde Cristo é apresentado como o novo Adão, aquele que é capaz de expulsar o demônio tentador.

O autor sagrado, na verdade, não fala de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher, mas do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos. Ele está apenas a ensinar que a raiz de todos os males está no fato de o homem virar as costas para a lei de Deus e construir o mundo a partir de critérios próprios.

Um dos mistérios que mais questiona os nossos contemporâneos é o mistério do mal. Esse mal que vemos todos os dias torna sombria e assustadora esta nossa morada que é o mundo em que vivemos. Mas o mal nunca vem de Deus. Deus nos criou para a vida e para a felicidade e nos deu todas as condições para imprimirmos à nossa existência uma dinâmica de vida, de felicidade, de realização plena. O mal resulta das nossas escolhas erradas. Quando o homem escolhe viver alheio às propostas de Deus, ele constrói o sofrimento e passa a viver no pecado. O tempo em que vivemos é um tempo de vigilância, pois a serpente continua a armar ciladas para os nossos calcanhares.

Saibamos dizer “não” ao pecado e ao erro. E peçamos ao Senhor que nos ajude a combater o mal e nos faça parte da sua família, ou seja, que possamos ouvir as suas palavras e colocá-las em prática todos os dias. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

CORPUS CHRISTI – B

Mc 14,12-16.22-26

Caros irmãos e irmãs

Estamos hoje celebrando a festa do Santíssimo Sacramento, tradicionalmente conhecida como “Corpus Christi”. Esta celebração, nascida no século XIII, é um festivo desdobramento da Quinta-feira Santa, por ocasião da Última Ceia, na véspera de sua Paixão, quando instituiu o sacramento da Eucaristia, Jesus tomou o pão, abençoou-o e o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo: “’Tomai e comei, isto é o meu corpo. Fazei isto em memória de mim’. Da mesma forma, tomou o vinho e, dando graças, o distribuiu, dizendo: ‘Tomai e bebei, este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de vós. Toda vez que dele beberdes, fazei-o em memória de mim’” (Mt 26,26ss; 1Cor 10,23-27).

Estas palavras que Jesus falou durante a Última Ceia repetem-se cada vez que se renova o Sacrifício eucarístico, e elas ressoam com notável poder evocativo neste dia em que celebramos a Solenidade de Corpus Christi. Elas nos levam novamente ao Cenáculo e trazem a atmosfera espiritual daquela noite, quando, celebrando a Páscoa com os seus, o Senhor Jesus antecipou no mistério o sacrifício que seria consumado no dia seguinte sobre a cruz. A instituição da Eucaristia surge como antecipação e aceitação de Jesus pela sua morte. E a Igreja, desde seus primeiros dias, celebra sempre esse mistério, com o nome de fração do pão, mais tarde Santa Missa e Eucaristia, que é “fonte e ápice de toda a vida cristã” (LG 11).

No relato da instituição da Eucaristia, ao dizer “Este é o meu sangue”, Jesus faz uma referência à linguagem sacrificial de Israel e se apresenta como o verdadeiro e definitivo sacrifício, no qual se realiza a expiação dos pecados, o que, nos ritos do Antigo Testamento, não fora ainda plenamente realizado. A esta expressão se seguirão outras duas narrativas bem significativas. Em primeiro lugar, Jesus Cristo disse que seu sangue era “derramado em favor de muitos”, com uma compreensível referência aos cantos do Servo encontrados no livro do profeta Isaías (cf. Is 53). Com o acréscimo de “o sangue da aliança”, Jesus deixa claro que, graças à sua morte, finalmente se torna efetiva a aliança feita por Deus com seu povo. A antiga aliança fora estabelecida no Monte Sinai com o rito sacrificial de animais, como ouvimos na primeira leitura, e o povo eleito, libertado da escravidão no Egito, havia prometido seguir as orientações do Senhor (cf. Ex 24,3).

Na verdade, Israel, com a construção do bezerro de ouro, mostrou-se incapaz de se manter fiel à aliança divina, que foi transgredida frequentemente, adaptando ao coração de pedra a Lei que era para ensinar o caminho da vida. Mas o Senhor não abdicou de sua promessa e, através dos profetas, chamou a atenção para a dimensão interior da aliança e anunciou que gravaria esta nova lei nos corações dos fiéis (cf. Jr 31,33), transformando-os com o dom do Espírito (cf. Ez. 36, 25-27). E foi durante a Última Ceia que fez com os discípulos esta nova aliança, não a confirmando com sacrifícios de animais, como no passado, mas com o seu sangue, tornado “sangue da nova aliança”. Isto vem bem evidenciado na segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus, onde o autor sagrado declara que Jesus é o “mediador de uma nova aliança” (Hb 9,15). Tornou-se isto graças ao seu sangue ou, mais precisamente, graças ao dom de si, dando pleno valor ao seu sangue.

Na cruz, Jesus é ao mesmo tempo vítima e sacerdote: vítima digna de Deus porque sem mancha, e sumo sacerdote que oferece a si mesmo, sob o impulso do Espírito Santo, e intercede por toda a humanidade. A cruz é, portanto, mistério de amor e de salvação, que purifica a consciência do pecado e santifica-nos, esculpindo a nova aliança em nossos corações; a Eucaristia, renovando o sacrifício da cruz, nos faz capazes de viver fielmente a comunhão com Deus.

São Leão Magno recorda que “a nossa participação no corpo e sangue de Cristo não tende a nada mais que nos transformar naquilo que recebemos” (S. LEÃO MAGNO, Sermão 12, PL 54). E quando recitamos a oração do Pai Nosso, dizemos: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, nos faz pensar, naturalmente, no pão de cada dia. Esta questão contém, no entanto, algo mais profundo. O termo grego “epioúsios”, que traduzimos como “quotidiano”, é visto por alguns Padres da Igreja como um sinal de referência à Eucaristia, o pão da vida eterna que é dado na Santa Missa, a fim de que, neste contexto, o mundo futuro possa começar em nós.

Jesus, como sinal da presença, escolheu o pão e o vinho. A oração com a qual a Igreja, durante a liturgia da missa, entrega este pão ao Senhor, o apresenta como fruto da terra e do trabalho do homem. Nele fica recolhido o cansaço humano, o trabalho cotidiano de quem cultiva a terra, de quem semeia, colhe e, finalmente, prepara o pão. Contudo, o pão não é só um produto nosso, algo que nós fazemos: é fruto da terra e, portanto, é também um dom. O fato de que a terra dê fruto não é mérito nosso; só o Criador podia dar-lhe a fertilidade. E a água, da qual temos necessidade para preparar o pão, não podemos produzi-la nós mesmos. Deste modo, começamos a compreender porque o Senhor escolhe o pão como seu sinal. A criação, com todos os seus dons, aspira, além de si mesma, a algo que é ainda mais significativo.

Certa vez Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica só; mas se morre, dá muito fruto” (Jo 12,24). No pão, feito de grãos moídos, esconde-se o mistério da Paixão. A farinha, o grão moído, pressupõe o morrer e o ressuscitar do grão. O ser moído e cozido manifesta uma vez mais o mesmo mistério da Paixão. Só através do morrer chega o ressurgir, chega o fruto e a nova vida. O Deus que morre desse modo nos leva à vida. Sucedeu realmente com Cristo o que nos mitos era uma expectativa e o que o próprio grão esconde como sinal da esperança da criação. Através de seu sofrimento e de sua morte livre, Ele se converteu em pão para todos nós e, deste modo, em esperança viva e crível: Ele nos acompanha em todos os nossos sofrimentos, até a morte. Os caminhos que Ele percorre conosco e através dos quais nos conduz à vida são caminhos de esperança.

O pão, feito de muitos grãos de trigo, encerra também um acontecimento de união: o converter-se em pão de grãos moídos é um processo de unificação. Nós mesmos, dos muitos que somos, temos que converter-nos em um só pão, em seu corpo, como nos diz São Paulo (cf. 1Cor 10,17). Deste modo, o pão converte-se ao mesmo tempo em esperança e tarefa. Este sinal do pão nos recorda também a peregrinação de Israel durante os quarenta anos no deserto. A Hóstia é o maná com o qual o Senhor nos alimenta, é verdadeiramente o pão do céu, com o qual Ele verdadeiramente faz a entrega de si mesmo. Na procissão, seguimos este sinal e deste modo seguimos a Ele mesmo. E a Igreja escolheu o dia da quinta-feira para ser a celebração de “Corpus Christi”, porque foi neste dia, antes da sua Paixão, morte e ressurreição, que o Senhor Jesus instituiu o Sacramento da Eucaristia. Por isso, também podemos dizer que a Eucaristia é o sacramento da morte e da ressurreição de Cristo.

E celebramos a solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo na quinta-feira depois da Santíssima Trindade, para colocar em evidência precisamente aquela Vida que nos dá a Eucaristia. Ao recebermos o Corpo e o Sangue de Cristo dados em alimento, somos chamados de maneira particular a tornarmos discípulos fiéis e semelhantes a Cristo, a unirmos sem reservas ao Filho amado do Pai, por obra do Espírito Santo. E participando da mesa Eucaristia, nós somos aqueles filhos que não podem deixar de viver unidos na comunhão com os irmãos.

Desde os primeiros séculos, os cristãos sabiam que a comunhão com Deus era somente para quem estava preparado. É o próprio São Paulo que, com um santo fervor, ameaça: “Quem come o pão e bebe o corpo do Senhor indignamente, será culpado no corpo e no sangue do Senhor. Examine-se, pois, cada um a si mesmo, antes de comer desse pão e beber desse cálice; porque quem come e bebe, come e bebe sua própria condenação, se não distingue o corpo” (1Cor 11,27-29). Por isto, estejamos sempre preparados para o encontro quotidiano com Cristo e que isto seja para cada um de nós um apelo constante à santidade, à espera do retorno do Senhor!

Peçamos mais uma vez a Virgem de Nazaré que interceda sempre por nós e nos auxilie na nossa caminhada quotidiana, para que possamos chegar rumo à meta do céu, alimentados pelo Corpo e Sangue de Cristo, pão da vida eterna e remédio da imortalidade divina. Assim seja.

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Mt 28,16-20

Caros irmãos e irmãs

Celebramos neste domingo a solenidade litúrgica da Santíssima Trindade, na qual somos chamados a contemplar o mistério da identidade de Deus Uno e Trino. A Liturgia da Palavra que a Igreja indica para este dia nos convida a aprofundar a nossa fé trinitária, colocando em evidência que Deus veio falar de si mesmo ao homem, revelando quem Ele é.

Na primeira Leitura, extraída do Livro do Deuteronômio (cf. Dt 4,32-34.39-40), escutamos as palavras de Deus a Moisés, que lembram como Deus escolheu um povo e a ele se manifestou de modo particular. Com isso, Israel se torna o destinatário da sua manifestação. E, através de Moisés, falou ao povo eleito: “Interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra… se houve jamais um acontecimento tão grande, ou se ouviu algo semelhante. Existe, porventura, algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha permanecido vivo?” (cf. Dt 4,32-33).

Com estas palavras, Moisés recorda a manifestação de Deus no Monte Sinai e a entrega dos dez mandamentos, como também a sua experiência pessoal no Monte Horeb. Naquela ocasião, Deus se revelou por meio de uma sarça ardente e confiou a esse mensageiro a missão de libertar Israel da escravidão do Egito, e lhe revelou o próprio nome: “Eu sou Aquele que sou!” (cf. Ex 3,1ss). O texto oferece uma rica meditação sobre a história salvífica, que consolida a fé no único Deus, e recorda a sua misericórdia para com seu povo.

Na segunda leitura, vemos que São Paulo ensina a dimensão trinitária da existência cristã (Rm 8,14-17). O primeiro aspecto desta existência é nossa condição filial. O Apóstolo proclama que recebemos no Batismo o Espírito Santo, que de tal modo nos une a Cristo e nos liga ao Pai como filhos e, por isto, podemos dizer “Abá, ó Pai!” (v. 15). Com esse Sacramento da iniciação somos inseridos na comunhão trinitária. Cada cristão é batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo sendo, assim, imerso na vida de Deus. Um grande dom e um grande mistério!

Em consequência disso, compreendemos nossa filiação divina: “Se somos filhos, somos também herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (v. 17). Isto é, como filho, o cristão participa da vida divina, usufruindo dos bens oferecidos. Observa-se que o termo herdeiro não tem a concepção moderna de dispor dos bens após a morte do proprietário, mas tem o sentido de tomar posse. Aliás, a herança que Deus concede a Israel é precisamente a posse de uma nova terra (cf. Is 60,21). Somos co-herdeiros da glorificação de Cristo, na medida em que também sofremos com Ele. E como filhos de Deus, haveremos de herdar a glória divina, esplendor da vida de Deus na pessoa de Cristo.

A partir do batismo, o cristão estabelece uma relação específica com Deus, em cada uma das pessoas divinas. A propósito, é possível fazer uma ligação desta segunda leitura com o texto evangélico, no encontro entre Jesus e os seus Apóstolos. A eles Jesus afirma que lhe foi dado todo o poder no céu e na terra (v. 18). Esta expressão “céu e terra”, para os antigos, englobava a criação inteira. Como de fato, a Sagrada Escritura começa dizendo que “no começo Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1-2). Portanto, isto indica que Jesus recebeu de Deus um poder que abrange todo o universo. Mas Jesus não guarda para si este poder que o Pai lhe confiou; comunica-o aos seus discípulos, aos quais cabe a missão de dar continuidade à sua obra, fazendo chegar a salvação a todos, pela pregação evangélica e pelo batismo. E, neste momento, os envia para evangelizar os povos e batizar “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 18-19).

Na teologia paulina Deus se manifesta como aquele que dá a vida por meio de Cristo, único Mediador. Da mesma forma o fazemos na nossa profissão de fé, ao confessar que o Espírito Santo é Senhor e dá a vida. Por obra do Espírito Santo os crentes são constituídos filhos no Filho, como escreve São João no seu Evangelho (cf. Jo 1,13). Por isto, com o batismo, somos inseridos na comunhão trinitária.

O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo, portanto, fonte de todos os outros mistérios da fé, é a luz que nos ilumina. Deus deixou vestígios do seu ser trinitário na sua obra de Criação e na sua Revelação ao longo do Antigo Testamento. Mas a intimidade do seu ser, contemplado em três pessoas, constitui um mistério inacessível à pura razão e até mesmo à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo.

São Paulo, em suas cartas, faz referência à Santíssima Trindade: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” (2Cor 13,12). Também o Evangelista São João: “O Pai e eu somos um” (Jo 14,9-10). O Apóstolo Filipe certa vez pediu a Jesus para lhe mostrar o Pai e Jesus lhe respondeu: “Tu não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai… Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?” (Jo 14,8ss). Quanto ao Espírito, Ele é o sopro mesmo de Deus, a realidade pela qual Deus se comunica pela mediação eterna do Filho.

Estes textos bíblicos nos guiam para aprofundar o mistério trinitário, que conduz desde Moisés até Cristo. O mistério manifestado a Moisés junto da sarça ardente foi revelado plenamente em Cristo na sua referência trinitária. Por meio dele, de fato, nós descobrimos a unidade da divindade, a trindade das Pessoas.

A Igreja repete incessantemente este louvor à Santíssima Trindade. A oração cristã inicia com o sinal da Cruz, ao mesmo tempo em que dizemos: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, e conclui-se, com frequência, com a doxologia trinitária: “Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”. Quando professamos a nossa fé, dizemos: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas” (Credo Niceno-Constantinopolitano).

Por várias vezes os monges, após a recitação de cada Salmo, inclinam em sinal de adoração à Santíssima Trindade dizendo: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. Também quando começamos a Santa Missa, fazemos o Sinal da Cruz dizendo: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”; e com frequência o sacerdote saúda os fiéis lembrando as três pessoas da Santíssima Trindade: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. E, mais uma vez, ao concluir a Santa Missa, o sacerdote abençoa os fiéis invocando a Santíssima Trindade.

As últimas palavras do texto evangélico deste domingo são confortadoras, pois Jesus promete aos seus discípulos a sua assistência: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (v. 20). No começo ele fora anunciado como o “Emanuel”, isto é, como o “Deus conosco” (Mt 1,23) e agora, após a ressurreição, ele continua sendo o “Deus conosco!”. Ele continua presente pela sua Palavra e pela Eucaristia.

Uma vez mais peçamos a intercessão da Virgem Maria por cada um de nós. Nela, Deus preparou para si uma morada digna, para que fosse completado o mistério da salvação e foi no seu seio que o Salvador do mundo se fez homem e veio habitar entre nós. Maria, a humilde serva do Senhor, acolheu a vontade do Pai e concebeu o Filho por obra do Espírito Santo. Que o seu exemplo de santidade e vida nos ajude a crescer sempre mais na fé e na santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – B – Jesus foi levado a ceu

Mc 16, 15-20

Meus caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste domingo nos convida a contemplar o mistério da Ascensão do Senhor. Quarenta dias depois da Ressurreição, segundo o Livro dos Atos dos Apóstolos, Jesus subiu ao Céu, ou seja, voltou para o Pai, pelo qual tinha sido enviado ao mundo. A Ascensão do Senhor marca o cumprimento da salvação iniciada com a Encarnação. Depois de ter instruído pela última vez os seus discípulos, Jesus sobe ao Céu (cf. Mc 16,19). Contudo, Ele “não se separou da nossa condição”; com efeito, na sua humanidade, nos assumiu consigo na intimidade do Pai e, deste modo, revelou o destino final da nossa peregrinação terrena. Assim como por nós desceu do céu, e por nós padeceu e morreu na cruz, também ressuscitou por nós e subiu a Deus.

No Livro dos Atos dos Apóstolos, que temos como primeira leitura, Jesus se despede dos seus discípulos com estas palavras: “Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até aos confins do mundo” (At 1,8). Em seguida, o autor sagrado acrescenta: “Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo” (v. 9). É o mistério da Ascensão, que celebramos neste domingo solenemente.

Dizer que Jesus “foi levado ao céu”, indica que ele não entra em um lugar, mas em uma nova dimensão. Ir para o céu, significa ir para Deus; estar no céu significa estar junto de Deus. Ascensão de Cristo significa a tomada de posse do Filho do homem crucificado e ressuscitado na realeza de Deus sobre o mundo.

A Ascensão do Senhor ao céu significa que ele já não pertence ao mundo da corrupção e da morte que condicionam a nossa vida, e que ele pertence completamente a Deus. Em quase todos os povos, o céu identifica-se com a morada da divindade. Também a Sagrada Escritura utiliza esta linguagem espacial: “Glória a Deus no alto do céu e paz na terra aos homens” (Lc 2,14). As palavras da oração “Pai nosso que estás nos céus”, mostram a morada de Deus, mas sabemos que ele está no céu, na terra e em todo lugar. Ele não se afastou de nós, mas agora, graças ao seu ser com o Pai, está próximo de cada um de nós, para sempre. Ir ao Pai significa não tanto deixar esta terra, porque ele também continua conosco, como havia prometido: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20), por isto ele nos ouve em nossas orações e está sempre perto de nós.

A Ascensão nos diz que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; assim, todas as vezes que rezamos, a terra une-se ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto a sua fumaça, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus e é por ele ouvida e atendida.

Quando falamos que Deus está “nos céus” significa também que ele “vive em uma luz inacessível”; que o diferencia de nós. O céu, em sentido religioso, é mais um estado que um lugar. Deus está fora do espaço e do tempo e assim é seu paraíso. Ao falarmos que Jesus “subiu ao céu”, lembramos também do Credo, onde professamos: “Subiu ao céu e está sentado à direita do Pai”. As palavras do anjo: “Galileus, o que fazeis olhando para o céu?” (At 1,11), contêm uma advertência: não devem ficar olhando para cima, ao céu, como para descobrir aonde vai estar Cristo, mas sim viver na espera de sua volta, prosseguir sua missão, levar seu Evangelho até os confins da terra.

Depois de ter suportado a humilhação da Sua paixão e morte, Jesus tomou o Seu lugar à direita de Deus e ao lado do Pai eterno. Jesus foi ao Pai, pois ele mesmo já havia dito: “Vou para junto do Pai” (Jo 14,12); e depois volta a dizer: “Convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for; o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei” (Jo 16,7).

Jesus não subiu a um céu já existente, mas foi formar o céu, como disse certa vez: “Vou preparar-vos um lugar: Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estiver, também vós estejais comigo” (Jo 14,2-3). O céu é, então, o corpo de Cristo ressuscitado com o qual irão reencontrar-se, integrar-se para formar um só Espírito com Ele, todos os remidos (cf. 1Cor 6,17).

No momento em que Jesus se separa dos Apóstolos, dá-lhes o mandato de O testemunharem em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos extremos confins da terra (cf. At 1,8) e de anunciarem a todos os povos “a conversão e o perdão dos pecados” (Lc 24,47). Também no Evangelho ouvimos uma vez mais o mandato do Senhor: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura” (Mc 16,15). Os discípulos foram enviados por toda a parte, dando testemunho por meio de sinais e prodígios, para que se acreditasse neles, pois narravam o que eles mesmos tinham visto.

Desde o dia da Ascensão, cada comunidade cristã progride no seu itinerário terreno rumo ao cumprimento das promessas messiânicas, alimentada pela Palavra de Deus e pelo Corpo e Sangue do seu Senhor. Somos fracos e pecadores, e temos necessidade daquela profunda transformação de espírito, de mente e de vida que na Sagrada Escritura se chama precisamente “metánoia”, ou seja, conversão. E esta conversão ocorre a partir do momento em que temos coragem de mudar o rumo da nossa vida, passando a ser alimentada pela palavra de Deus e pelos sacramentos.

Nesta solenidade da Ascensão do Senhor, podemos voltar o nosso olhar também para a figura de São Bento, pois, como nos narra São Gregório Magno, ele também foi “elevado aos céus” numa profunda experiência mística. E, dentre tantos ensinamentos que nos deixa em sua Regra, São Bento também nos convida a procurar a Deus, como compromisso fundamental de todos. O ser humano não se realiza plenamente a si mesmo, não pode ser feliz sem Deus. Consciente desta verdade, insiste São Bento que “nada deve antepor ao amor de Cristo” (RB 4,21). Nisto consiste a santidade, proposta válida para cada cristão.

Também nós devemos sentir ressoar este apelo de São Bento à conservação do coração fixo em Cristo, a nada antepor a Ele, cultivando continuamente um amor especial pela Palavra de Deus na “lectio divina”, que hoje se tornou patrimônio comum de muitas pessoas.

Supliquemos ainda a intercessão da Virgem Maria, para que nos faça trilhar continuamente o caminho da perfeição, para um dia estarmos também na glória celeste, na companhia de todos os santos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ