Arquivo da categoria: Homilias

Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

I DOMINGO DA QUARESMA – C – As tentações no deserto

Lc 4,1-13

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com o tradicional rito das cinzas, entramos no clima penitencial da Quaresma, um tempo litúrgico que nos recorda os quarenta dias transcorridos por Jesus no deserto e constitui para todos os batizados um forte convite à conversão.

Neste primeiro domingo do tempo quaresmal, o Evangelho nos apresenta Cristo, conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde é tentado pelo demônio, após receber o Batismo de João no Jordão.

O relato evangélico é constituído em torno de um diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam passagens da Sagrada Escritura como base para certificar as suas afirmações. Das três tentações às quais Satanás submete Jesus, a primeira tem origem na fome, ou seja, na necessidade material: “Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pão”. Mas Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem” (Lc 4,3-4; cf. Dt 8,3). Esta tentação sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material. No entanto, Jesus sabe que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens e sugere que o seu alimento, ou seja, a sua prioridade, é a Palavra do Pai.

Depois, na segunda tentação, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: “Tudo será teu se, prostando-te, me adorares”. É o engano do poder. E Jesus desmascara esta tentativa dizendo: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a Ele prestarás culto” (cf. Dt 6, 13). Não à adoração do poder, mas só a Deus. Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder semelhante aos dos grandes poderosos da terra. No entanto, Jesus sabe que esses esquemas são diabólicos e que não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o seu “absoluto” e que não se deve adorar mais nada: adorar o poder que corrompe e escraviza não tem nada a ver com o projeto de Deus.

Por fim, na terceira e última tentação, o diabo propõe a Jesus que realize um milagre espetacular: lançar-se dos altos muros do Templo e fazer-se salvar pelos anjos, de modo que todos acreditassem nele. Mas Jesus responde que Deus nunca deve ser posto à prova (cf. Dt 6, 16). Não podemos “fazer uma experiência” na qual Deus deve responder e mostrar-se Deus: devemos acreditar nele. Jesus responde a esta proposta citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus.

O texto nos mostra que entre Jesus e o diabo há a Palavra de Deus. E fazendo referência à Sagrada Escritura, Jesus antepõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento do nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, se esta entrar na nossa vida, se tivermos confiança em Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do Tentador.

Jesus não está só no deserto. O evangelista São Lucas assinala que o Espírito Santo acompanha Jesus. Ele está cheio do Espírito Santo e é por Ele conduzido. Com o Espírito Santo, Jesus resiste às tentações. E se o demónio se afasta até ao momento fixado, quando este momento vier, Jesus será ainda o grande vencedor sobre o Maligno. Jesus não escolhe partir para o deserto. É conduzido pelo Espírito Santo.

Na história, houve multidões de homens e mulheres que escolheram imitar esse Jesus que se retira ao deserto. Mas o convite a seguir Jesus ao deserto não se dirige só a monges e ermitãos. De maneira diferente, também se dirige a todos. Monges e eremitas escolheram um espaço no deserto; nós devemos escolher ao menos um tempo de deserto. Passar um tempo de deserto significa fazer um pouco de vazio e de silêncio ao nosso redor; reencontrar o caminho do nosso coração, subtrair-nos das agitações e dos chamados externos, a fim de entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser e de nosso crer.

Quaresma é tempo de renovação espiritual, de conversão interior e de renovação da vida. É um itinerário que nos deve fazer rever a nossa vida. É como um longo “retiro”, durante o qual cair de novo em nós mesmos e ouvir a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Podemos dizer, um tempo de “competição” espiritual para viver juntamente com Jesus, usando as armas da fé, ou seja, a oração, a escuta da Palavra de Deus e a penitência. Deste modo poderemos chegar a celebrar a Páscoa na verdade, prontos para renovar as promessas do nosso Batismo.

O Evangelho nos fala de pão e de tentação. Estas duas palavras aparecem na oração do Pai Nosso: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje… não nos deixeis cair em tentação”. Se não alimentamos com o pão da Palavra, não temos forças para resistirmos, quando chegar a prova da tentação.

Confiantes comecemos o itinerário quaresmal. Ressoe em nós intensamente o convite à conversão, a “converter-se a Deus de todo o coração”, acolhendo a sua graça que faz de nós novas criaturas. Não fiquemos surdos a este apelo, que nos é dirigido neste tempo quaresmal.

Também o cristão, cuja existência é guiada pelo mesmo Espírito recebido no Batismo e na Confirmação, é chamado a enfrentar o quotidiano combate da fé, sustentado pela graça de Cristo.

Ajude-nos a Virgem Maria para que, guiados pelo Espírito Santo, vivamos com alegria e proveito este tempo de graça.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

 

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VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A boca fala do que o coração está cheio

 

Lc 6,39-45

Caros irmãos e irmãs,

A página do Evangelho para este domingo nos apresenta uma série de ensinamentos provavelmente dirigidos por Jesus aos fariseus (cf. Mt 15,14), um grupo observante da lei de Moisés que se apresentava como guia do povo no caminho para a santidade. Eram eles assíduos no estudo das leis e procuravam observá-las em seus mínimos detalhes. Para eles o importante era o que estava escrito na Lei, mas careciam de amor para com os outros. Estes ensinamentos tornam-se válidos também para cada um de nós hoje.

Jesus começa dizendo: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?” (v. 39). Com isto, Jesus quer mostrar que o guia de uma comunidade não pode ser cego. Ele deverá ser iluminado pelo ensinamento de Jesus para que possa iluminar, também, o seu irmão. Nos primeiros séculos da Igreja os que recebiam o batismo eram chamados de iluminados, porque a luz de Cristo lhes tinha aberto os olhos. Os cristãos deveriam ser aqueles que enxergam bem, os que sabem escolher os valores certos da vida e que estão em condições de apontar o caminho seguro para quem ainda peregrina na escuridão. Jesus adverte os seus discípulos sobre um grave perigo: eles também correm o risco de perder a luz do Evangelho, de voltar novamente às trevas, quando deixam-se guiar pelos falsos testemunhos. Quando isto acontece, eles se tornam guias cegos, nos quais já não é possível confiar.

A cegueira da qual Jesus fala é aquela de quem ainda não descobriu suas próprias sombras, seus defeitos. Se estamos cegos, não reconhecemos as nossas próprias falhas e não buscamos corrigir o que está imperfeito em nós. A trave nos nossos olhos nos impede de enxergar as nossas fraquezas e limitações. Para tirá-la, nós precisamos pedir ao Espírito Santo que purifique os nossos pensamentos, sentimentos e atitudes. Caso contrário, Jesus nos lembra: poderemos cair no buraco e levar muitos conosco.

Nesta linha de intenções, a primeira leitura aponta um exercício e um critério que é norma de sabedoria para ajuizar uma pessoa: a palavra que sai de sua boca (cf. Eclo 27,5-8). Com isso, Jesus fala do aspecto interior da pessoa: “O homem bom, do bom tesouro que é seu coração, tira o bem; mas o homem mau, do seu mau tesouro, tira o mal, pois a boca fala do que o coração está cheio” (Lc 6,45). Na Sagrada Escritura, o co- ração do homem é a própria fonte de sua personalidade e, por isso, já no Antigo Testamento vimos que o homem precisava trocar o seu coração de pedra por um coração de carne (cf. Ez 36,25s). No Novo Testamento Jesus sequencia os ensinamentos dos profetas e chama a atenção para o verdadeiro mal, proveniente do coração: “É do coração do homem que procedem maus desejos, homicídios, adultérios… são estas coisas que tornam o homem impuro” (Mt 15,19ss). Jesus, por várias vezes, lembra a exigência divina de generosidade interior: é preciso receber a palavra num coração bem disposto (cf. Lc 8,15), amar a Deus de todo o coração (cf. Mt 23,37), perdoar ao irmão do fundo do coração (cf. Mt 18,35). E é aos puros de coração que Jesus promete a visão de Deus (cf. Mt 5,8). E nós somos convidados a imitar o próprio Cristo que é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29).

Neste sentido, numa linguagem bíblica, o coração é centro dos nossos pensamentos, desejos e sentimentos, é a fonte de nossas obras boas ou más e sede de nossas decisões. O que procede de nosso coração permite reconhecer como está nosso interior. Como centro de nossas decisões, o coração assemelha-se ao cofre forte de um tesouro. Os discípulos de Jesus devem acumular nesse cofre um tesouro salvífico que façam deles homens bons e os levem às boas obras. Este tesouro interno jorrará pelas suas palavras, como afirma Jesus: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (v. 45). Sabemos que o discípulo de Jesus deve ser luz para os outros, por isso, o seu coração deve ser semelhante ao coração de Cristo. No texto evangélico Jesus usa uma frase forte, que deve encontrar eco também em cada um de nós: “Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (v. 42). O termo “hipócrita” não designa só o homem dissimulado, falso, cujos atos não correspondem ao seu pensamento e às suas palavras, mas equivale ao termo aramaico “hanefa” que, no Antigo Testamento, significa “perverso”, “ímpio”. São aqueles que estão sempre à procura de uma falha dos outros para condenar, mas não estão preocupados com os seus próprios erros e falhas. Hipócrita é aquele que continuamente acha motivo para falar mal dos outros e nunca se pergunta se aquilo que de- testa dos outros, como a vaidade, o egoísmo, a avareza, a falsidade, não se encontra, em medida maior ou menor, nele mesmo.

Em outras passagens da Sagrada Escritura Jesus usa esta mesma expressão: “Quando, pois, deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louva- dos pelos homens. Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa” (Mt 6,2.5). Diante destas considerações podemos definir a hipocrisia como uma falsidade do coração, a ilusão de contentar a Deus com as aparências. O hipócrita é aquele que usa moeda falsa para Deus, alguém que o honra com os lábios enquanto seu coração está longe (cf. Mt 15,8).

Jesus hoje nos chama à purificação. Possamos organizar corajosamente nosso exame de consciência e deixar-nos julgar pelo evangelho. Talvez sejamos obrigados a admitir, por mais que nos desagrade, que somos todos hipócritas. Como todos os discursos de Cristo, também este sobre a hipocrisia pode encontrar ressonância em nós. Através do evangelho de hoje todos nós somos chamados a lançar um olhar para nós mesmos. Com frequência queremos tirar o cisco do olho alheio sem nos preocuparmos em remover a trave do nosso. Criticamos os outros sem olhar a nós mesmos.

O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que dá bons frutos (v.43- 45). Na primeira leitura ouvimos: “O fruto revela como foi cultivada a árvore; assim, a palavra mostra o coração do homem” (Eclo 27,7). É um sábio ensinamento para desvendar o que há no coração de cada pessoa. Cristo acrescenta ainda as obras, que também brotam do coração; e frisa que é pelos frutos conhecemos a árvore: “Não há árvore boa que dê maus frutos, nem árvore má que dê bons frutos. Cada árvore se conhece pelo seu fruto” (v.43). Nossa ação exterior e nossa intenção interior devem formar unidade.

Precisamos necessariamente produzir bons frutos, mas, para que isso se concretize, é necessário um processo prévio de interiorização, de contato com Deus pela oração, assimilando a sua Palavra num diálogo pessoal com Ele no silêncio de nosso coração. No final da oração do Pai Nosso, dizemos: “Livrai-nos do mal”, é deste mal que devemos pedir a Deus que nos liberte: do mal da hipocrisia, da falsidade, do erro, do pecado. Que o Senhor nos conceda esta graça para que possamos apresentar ao Senhor frutos maduros e saborosos. Que Ele mesmo nos ajude a reagir abrindo o nosso coração ao bem e ao amor, para que a nossa vida interior nunca se assemelhe a árvore seca e sem vida. Que Ele também nos ajude a tirar a trave que carregamos em nossos olhos, a fim de termos condições de ajudar os nossos irmãos e irmãs a tirarem o cisco de seus olhos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

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VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – O perdão e o amor aos inimigos

Lc 6,27-38

Caros irmãos e irmãs,

A primeira leitura da Liturgia da Palavra deste domingo nos prepara para melhor compreender o texto evangélico que a Igreja nos convida a refletir neste dia. Trata-se de um fragmento tirado do Primeiro Livro de Samuel (cf. 1Sm 26,2.7-9.12-13.22-23) onde relata uma grande lição de misericórdia. Davi e Saul eram inimigos e o ódio de Saul contra Davi era tão grande, que o levou a perseguir Davi no deserto de Zif, com uma tropa de três mil guerreiros. Aconteceu que, enquanto Saul dormia em plena noite, com sua lança fincada no chão, à sua cabeceira, Davi e seu companheiro de armas, Abisai, conseguiram penetrar no meio dos seus soldados, sem acordar ninguém. Abisai disse a Davi: “Deus entregou hoje em tuas mãos o teu inimigo. Vou cravá-lo em terra com uma lançada, e não será preciso repetir o golpe” (v. 8). Mas Davi não deixou, respondendo: “Não o mates! Pois quem poderia estender a mão contra o ungido do Senhor, e ficar impune?” (v. 8). Tomou apenas a lança e o cantil que lhe estava ao lado, retirou-se, e de amanhã, do alto de uma colina fronteira gritou para os homens de Saul, que alguém viesse buscar a lança do rei.

Através da atitude de Absai, pensamos na lógica humana, que pro- põe agredir o nosso inimigo, destruir quem praticou o mal. Também nos faz pensar na atitude de Davi, ou seja, o perdão incondicional ao adversário. O argumento usado por Davi é que não podemos estender a mão contra um “ungido do Senhor” (v. 8) e, pelo mesmo motivo, também contra os nossos inimigos, pois eles necessitam do nosso amor, para que possam se recuperar. Eles também são “ungidos do Senhor”, por serem criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). E, pelo batismo, podemos repetir com São Paulo: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” (1Cor 3,16).

Esta cena do perdão de Davi a Saul nos remete à primeira palavra do Evangelho, onde Jesus diz a seus discípulos: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam” (cf. Lc 6,27-28). Encontramos nesta frase quatro imperativos: amai, fazei o bem, bendizei, rezai. É assim que o cristão deve se comportar diante de quem pratica o mal. É a novidade do espírito do Evangelho, em vivo contraste com o espírito do mundo. Amar os inimigos é um princípio da identidade cristã, uma norma da não violência, que consiste em não render-se frente ao mal, mas em responder com o bem, destruindo, dessa forma, a corrente da injustiça. Somos chamados a enfrentar a violência e o mal com as únicas armas do amor e da verdade. O amor ao inimigo constitui um autêntico dom de Deus.

Esta proposta de Cristo é realista, pois, não se pode superar a situação de uma sociedade violenta e injusta, a não ser contrapondo com o amor, a bondade e o incentivo ao perdão. O próprio Cristo deixou um exemplo para nós, pois ele mesmo fez o bem a quem o odiava, perdoou a quem o crucificava, não julgou e não condenou ninguém, lembrando que só Deus pode condenar (cf. Mt 7,1). Também muitos santos souberam imitar o Cristo neste exemplo, dentre tantos, podemos lembrar de Santo Estêvão, o primeiro que seguiu os passos de Jesus mediante o martírio. Ele morreu como Jesus, confiando a própria vida a Deus e perdoando os seus perseguidores. Enquanto o apedrejavam, disse: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At 7,59). São palavras semelhantes às pronunciadas por Cristo na cruz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23,46).

A atitude de Estêvão é um convite a cada um de nós, a também perdoar. A confiança em Deus nos fortalece nos momentos de provações. Por ocasião do seu martírio, Santo Estêvão, de joelhos, exclamou em voz alta: “Senhor, não lhes imputes por este pecado” (At 7,60). O perdão dilata o coração, gera partilha, proporciona serenidade e paz. A lógica do perdão e da misericórdia é sempre vencedora e abre horizontes de esperança. Mas o perdão cultiva-se com a oração, que nos permite manter o olhar fixo em Jesus. Santo Estêvão foi capaz de perdoar os seus assassinos porque, cheio do Espírito Santo, fitou o céu, conservando os olhos abertos para Deus (cf. At 7,55). Com a oração ele recebeu a força para padecer o martírio.

Tem verdadeiro amor em seu coração aquele que é capaz de amar seus inimigos, fazer o bem a quem o odeia, bendizer quem o amaldiçoa e rezar pelos caluniadores. Para assim proceder é preciso ser forte, estar imbuído de profundas convicções e, sobretudo, ser movido pelo Espírito Santo. Oferecer a outra face, dar a quem pede, romper a violência de quem nos tira o manto entregando-lhes também a nossa túnica, são atitudes de gente forte. Quem assim procede está rompendo um mecanismo de repetição que só pode ser rompido pela gratuidade.

A oração pelos inimigos é o ponto mais alto do amor, porque pressupõe um coração disposto a deixar-se purificar de qualquer forma de ódio. Ao rezarmos pelos nossos inimigos o nosso coração entra em sintonia com o coração de Deus que está nos céus, pois “ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos” (Mt 5,45). Quem acolhe o Senhor na sua vida e o ama com todo o coração é capaz de um novo início. Pode cumprir a vontade de Deus e realizar uma nova forma de existência, animada pelo amor até mesmo para com aqueles que nos odeiam. A grande lição de Jesus é a misericórdia. E o paradigma dessa misericórdia é o coração do próprio Deus: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso” (v. 36). E as afirmações se vão sucedendo como numa verdadeira cascata de misericórdia: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado” (v. 37-38).

Amar quem nos ama, elogia e prestigia, é fácil. Todo jogo dos interesses passa por este tipo de relação. Mas amar quem nos prejudica, quem nos amaldiçoa, quem não corresponde às nossas expectativas, é mais difícil e até mesmo impossível sem a graça de Deus. Às vezes nos fechamos ao amor gratuito, cujo modelo maior é Deus, de quem temos de aprender generosidade, compreensão, acolhida, aceitação e intimidade, alegria no partilhar, amor e perdão. As exigências de Jesus vão muito mais a fundo: ele exige um amor gratuito, baseado em uma justiça comutativa (v. 34). Devemos recordar sempre que o evangelho nos permite e nos obriga a condenar o pecado, mas não o pecador. Este é o amor, especialmente nas relações familiares. Não podemos esperar que seja sempre o outro a dar o primeiro passo. Amar os que nos amam e fazer bem aos que nos fazem o bem é natural a todos.

Os versículos seguintes mostram que a principal tarefa do cristão é “ser como Deus é”. Então Deus será eternamente fiel ao que ele tem operado de belo, de puro, de misericordioso na nossa vida: “…E não sereis julgados; … e não sereis condenados; … e sereis perdoados… Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante”. A bondade de Deus não está apenas nele próprio. Ela transborda, ela age. Por isso o cristão deve fazer o bem. Uma das formas mais sutis de parecermos com Deus é a generosidade de “não julgar”. A tendência da criatura de julgar os outros é talvez uma tentativa de se autocompensar de suas frustrações e incompetências.

Que a Virgem de Nazaré interceda por nós, para que possamos colocar em prática os ensinamentos do Senhor e saibamos amar o nosso próximo como ele nos amou, e sermos misericordiosos como nosso Pai celestial é misericordioso (v. 36). E que o Senhor nos ensine a abrir o nosso coração ao perdão e nos faça amar uns aos outros e a acolher até mesmo os nossos inimigos como irmãos, filhos do mesmo Pai celeste. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

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VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – AS BEM – AVENTURANÇAS

Lc 6,17.20-26

Caros irmãos e irmãs

Este domingo o texto evangélico traz para a nossa reflexão o conhecido Sermão da Montanha, um novo programa de vida para se livrar dos falsos valores do mundo e abrir-se aos verdadeiros bens presentes e futuros. Quando Deus conforta, sacia a fome de justiça, enxuga as lágrimas dos que choram, isso significa que, além de recompensar cada um de forma sensível, abre também para os que passam por estas provações, o Reino do Céu.

As bem-aventuranças iluminam as ações e atitudes que caracterizam a vida cristã e exprimem o que significa ser discípulo de Cristo (cf. CIgC, n. 1717). Ao mesmo tempo, elas são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura. Devemos olhar como Jesus viveu estas bem-aventuranças. Os evangelhos são, do início ao fim, uma demonstração da mansidão de Cristo, em seu duplo aspecto de humildade e de paciência. Ele mesmo se propõe como modelo de mansidão para nós.

O texto bíblico nos mostra que Jesus, dirigindo o olhar aos seus discípulos, diz: “Bem-aventurados os pobres… bem-aventurados vós, que agora tendes fome… bem-aventurados vós, que chorais… bem-aventurados vós, quando os homens… desprezarem o vosso nome”. Após as quatro menções aos “bem-aventurados vós”: os pobres, os famintos, os que choram e os que sofrem insultos por causa de Jesus, temos também quatro “ais”: ai de vós os ricos, ai de vós os que têm fartura, ai dos que riem e ai dos que são elogia- dos. Como afirma Jesus, tudo irá inverter no final dos tempos: os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (cf. Lc 13, 30).

Jesus diz inicialmente: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (v. 20). A palavra grega usada por São Lucas para “pobres” (ptôchos) traduz certos termos hebraicos (‘anawim, dallim, ebionim) que, no Antigo Testamento, definem uma classe de pessoas privadas de bens. São os desprotegidos, os pequenos, as vítimas da injustiça, que com frequência são privados dos seus direitos e da sua dignidade. Por isso, eles têm fome, choram, são perseguidos. Ora, serão eles, precisamente, os primeiros destinatários da salvação de Deus, que, na sua bondade, quer derramar sobre eles a sua bondade, a sua misericórdia, a sua salvação. Depois, a salvação de Deus dirige-se prioritariamente a estes porque eles, na sua simplicidade, humildade, disponibilidade e despojamento, estão mais abertos para acolher a proposta que Deus lhes faz em Jesus.

Jesus reassume neste sermão das bem-aventuranças as promessas divinas de que os pobres não terão nem fome e nem sede (cf. Is 49,10.13; Ez 34,29) e anuncia que eles serão saciados. Aos pobres, é prometido o Reino de Deus e assegurada, também, a participação na mesa da casa do Pai. A participação no Reino de Deus fará com que os pobres, que agora choram, possam ter motivos para rir e estar alegres.
O grande mal de todos os tempos é o de almejar a fortuna para um interesse pessoal e não para melhor servir a Deus. Sob esse prisma, não vem ao caso ser rico ou pobre, porque o primeiro desprezará o segundo, este invejará o outro e ambos incorrerão na sentença contida no versículo 24: “Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação” (v. 24). Os pobres em bens, podem ser ricos na fé, como dizia o apóstolo São Tiago: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?” (Tg 2,5). A ver- dadeira riqueza que torna os pobres bem-aventurados é o Reino de Deus.

No episódio da pesca milagrosa (cf. Lc 5,1-11), temos o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, o texto conclui dizendo: Eles, atracando as barcas à terra, deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5,11). Nesta mesma página do evangelho encontramos o chamado de Levi, e a conclusão é semelhante: “Ele, abandonando tudo, levantou-se e o seguiu” (Lc 5,28). Esta é uma das características do verdadeiro discípulo de Jesus: Abandonar tudo para segui-lo. Os apóstolos e também muitos santos souberam reconhecer que a vida do homem não depende dos bens que ele possui.

O homem que constrói sua vida e projeta o seu futuro somente em função de si mesmo, é como aquele homem que construiu a sua casa sobre a areia (cf. Mt 7,21-29). Neste sentido, o rico pode tornar-se pobre, pois, a sua pobreza se mede pelo que ele perde: o Reino de Deus, como nos narra o mesmo evangelista São Lucas: “Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus” (Lc 12,21).

Neste sentido devemos sempre nos questionar de qual lado estamos: Entre os que constroem a vida sobre si mesmos ou entre aqueles que constroem sobre o Reino de Deus? Devemos estar sempre conscientes de que não podemos servir a Deus e ao dinheiro (cf. Mt 6,24). O motivo da alegria anunciada para os pobres consiste na promessa que é feita: para eles chegou o reino de Deus, para aqueles que fizeram a opção de não colocar a própria segurança nos bens materiais já teve início um novo mundo, pois tudo passa a ser em comum (cf. At 4,34). Esta é a proposta que Jesus faz aos seus primeiros apóstolos que deixam tudo para o seguir. Jesus também diz: “Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados” (v. 21). O mais alto grau desta bem-aventurança consiste em suportar com resignação cristã, ou seja, sem revolta, sem in- veja e sem ódio, os sacrifícios decorrentes da pobreza material, isto torna o pobre um bem-aventurado. Por outro lado, também são bem-aventurados os que têm fome de Deus. A estes últimos, Deus alimentará com a sua graça, com mais abundância, na medida do desejo de perfeição.

Os pecadores encontram sua falsa felicidade na transgressão da lei de Deus. A estes adverte Jesus severamente, porque no dia do Juízo hão de chorar sua condenação eterna: “Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis” (v. 26). Ademais, ainda nesta terra, apesar de sua aparente alegria, vivem de tristeza, pois a consciência continuamente os acusa de suas faltas. Ao prazer decorrente do pecado sempre se segue o remorso pela falta cometida. Mas aqueles que choram de arrependimento pelos próprios pecados, já encontram, na sua contrição, consolo e felicidade. A experiência nos ensina que o arrependimento traz alegria, e é fruto da graça de Deus.

Lancemos uma vez mais o nosso olhar para a Virgem Maria, aquela que todas as gerações a proclamam de “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48). Que ela, mãe de Deus e nossa, interceda por cada um de nós e nos faça trilhar, todos os dias, com o coração dilatado, o caminho das bem-aventuranças. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A PESCA ABUNDANTE

Lc 5,1-11

Caros irmãos e irmãs!

Para este domingo a Igreja nos apresenta um texto evangélico onde encontramos a vocação dos primeiros discípulos de Jesus, no contexto da pesca milagrosa. Na vocação dos discípulos está retratado a missão da Igreja e dentro dela a dos apóstolos, particularmente, a de Pedro. Por isso, entre os dois barcos que havia visto, Jesus, o Mestre, escolhe precisamente a barca de Simão, nela se senta, e de onde passa a ensinar às multidões. Com este gesto, indica por quem a Palavra de Deus deve ser anunciada, por Ele mesmo, o Cristo Jesus, que fala através da cátedra de Pedro.

A pesca milagrosa ocorre junto ao mar. Neste sentido, para melhor entender o texto, precisamos recordar o que significava o “mar” no ideário judaico: era o lugar dos monstros, onde residiam os espíritos e as forças demoníacas que procuravam roubar a vida e a felicidade do homem. Dizer que os seus discípulos vão ser “pescadores de homens” significa que a missão do cristão é continuar a obra de Jesus em favor do homem, procurando libertá-lo de tudo aquilo que lhe rouba a vida e a felicidade. Trata-se de salvar o homem de morrer afogado no mar da opressão, do egoísmo, do sofrimento, do medo, das forças demoníacas que impedem a sua felicidade.

Sendo o mar o lugar simbólico das forças hostis a Deus (cf. Gn 7, 17-24; Sl 74,13-14; Jó 38,16-17), é provável que o lago de Genesaré simbolize o campo de batalha onde os discípulos devem lutar para exercer, com a força da graça, o ministério dado por Jesus. Este campo de combate, representado pela dificuldade da pesca e o reconhecimento de Simão como pecador, demonstra as adversidades contínuas, pois o pecado e a influência do mal se manifestam por toda a parte.

Para o peixe, criado para a água, é mortal ser tirado para fora do mar. Ele é privado do seu elemento vital para servir de alimento ao homem. Os peixes retirados da água, morrem, ao passo que os homens vivem. Jesus se serve deste simbolismo para explicar que na missão do pescador de homens acontece o contrário. Quantas pessoas vivem alienadas, nas águas salgadas do sofrimento e da morte; em um mar de obscuridade sem luz, marcadas pelo pecado, pelo egoísmo, pelo ódio e pela violência e pelo erro. As ondas impetuosas podem submergir e arrastar o homem para o fundo do abismo. Muitos podem ser tragados pelas forças do mal. Cabe aos discípulos de Cristo a missão de salvar a todos, tirando-os, através da rede do Evangelho, para fora das águas da morte para os conduzir ao esplendor da luz de Deus, na verdadeira vida.

Nota-se ainda que a pesca é feita durante a noite. A noite é o tempo das trevas, da escuridão: significa a ausência de Jesus: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 9,4-5). O resultado da ação dos discípulos, à noite, sem Jesus, é um fracasso: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). A chegada da manhã, da luz, coincide com a presença de Jesus, que é a luz do mundo (cf. Jo 8,12). Jesus não está com eles no barco, mas sim em terra. Ele não acompanha os discípulos na pesca; a sua ação no mundo exerce-se por meio dos discípulos. O grupo está desorientado e decepcionado pelo fracasso. Mas Jesus lhes dá indicações; e as redes enchem-se de peixes. O fruto da pesca se deve à obediência com que os discípulos seguem as indicações de Jesus.

Estes pescadores tinham, certamente, ouvido falar de Jesus. O seu ensinamento parecia ter autoridade, mas não era um homem do Lago. Não era Ele que ia dar lições a estes pescadores experientes. Pedro era um pescador profissional. Conhecia o seu ofício. Aquele dia era um dia de pesca infrutífera. E chega Jesus, carpinteiro, a dizer-lhe o que fazer, para lançar as redes. A primeira atitude de Simão é, naturalmente, de hesitação. Apesar de tudo, manifesta uma atitude de confiança, ao lançar as redes. A palavra e a personalidade de Jesus inspiraram-lhe alguma confiança.

A pesca é verdadeiramente milagrosa, por isso, Simão Pedro vê a glória de Deus em Jesus, chamando-o com o título de Senhor, e, simultaneamente, ele se conscientiza de sua precária condição de pecador. Curioso é que o seu gesto não corresponde às suas palavras; pois ele se joga aos pés de Jesus enquanto pede o seu afastamento (v.8). As palavras de Jesus, no entanto, vão ao encontro deste gesto de confiança e de fé, associando-o à sua missão, elevando-o à condição de pescador de homens (v.10). Vencendo o temor (v.10), Simão deixa tudo e começa a aventura do seguimento de Cristo, juntamente com os demais companheiros (v.11).

Pedro ao cair de joelhos aos pés de Jesus, suplica: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!” (Lc 5,9). É que tanto ele quanto quem o acompanhava na barca ficaram fortemente impressionados com a extraordinária pesca que acabavam de realizar pela palavra de Jesus. Por isso, Pedro não o chama agora de Mestre, mas de Senhor (v.10). Ou seja, para Pedro, Jesus era o seu mestre. Mas, diante da pesca milagrosa que não se explica por causas naturais, Pedro descobre que Jesus não é um simples mestre ou profeta comum. Já o vê como seu Senhor, nome reservado exclusivamente a Deus. Foi um grande passo na descoberta da verdadeira identidade de Jesus.

A admiração atrai Pedro a Jesus, mas a consciência de seu estado de pecador o afasta dele. Nos versículos anteriores, o Evangelista São Lucas, usa o nome “Simão”, referindo-se a Pedro, contudo, no momento de relatar a sua reação diante da pesca prodigiosa, diz “Simão Pedro”. Por que razão? Certamente, porque diante do milagre presenciado, a fé de Simão começou a tornar-se uma rocha, ou seja, uma pedra. Pela fé, Simão é transformado em pedra, e já se põe o fundamento para a sua vocação em “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt 16,18).

Assim como Pedro, nós também somos chamados a reconhecer Jesus como “o Senhor” (v. 8): é o que faz Pedro, ao perceber como a proposta de Jesus gera vida e fecundidade para todos. O título “Senhor”, em grego, “kyrios”, é o título que a comunidade cristã primitiva dá a Jesus ressuscitado, reconhecendo nele o “Senhor” que preside o mundo e a história.

Sob a imagem da pesca, os evangelhos sinóticos apresentam a missão que Jesus confia aos discípulos (cf. Mc 1,17; Mt 4,19; Lc 5,10): libertar todos os homens que vivem mergulhados no mar do sofrimento e da escravidão. O peixe tornou-se símbolo dos primeiros cristãos, porque nas águas do batismo eles nascem para a fé e, nela vivendo, se salvam.

A imagem da pesca refere-se também à missão da Igreja e sobre a vocação à qual fomos chamados para uma tarefa no mundo. Por isto, devemos assiduamente pedir ao Senhor que envie trabalhadores para a sua messe e que mediante o seu convite, saibamos segui-lo respondendo com generosidade o seu chamado. E que também cada sacerdote saiba reavivar a sua disponibilidade em responder todos os dias o convite do Senhor com a mesma humildade dos primeiros apóstolos, renovando o seu “sim” ao Senhor com alegria e plena dedicação. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO COMUM – C -JESUS NA SINAGOGA

Lc 1,1-14;4,14-21

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo coloca no centro da nossa reflexão o início da pregação de Jesus. O Evangelista São Lucas, que nos acompanha durante este ano litúrgico, apresenta um significativo texto em que narra o começo do ministério de Jesus na sinagoga de Nazaré e tem seus paralelos sinóticos em Mc 6,1-6 e Mt 13,53-58. É o começo da intervenção salvífica de Deus em Jesus Cristo.

O texto evangélico nos situa em Nazaré, a cidade onde Jesus foi criado e, em um dia de sábado, Jesus entra na sinagoga da cidade. O culto sinagogal, como era o costume, consistia na leitura da palavra de Deus feita por turno, por alguns membros da comunidade. Lia-se inicialmente um trecho do livro da Lei ou seja, os primeiros cinco livros da Bíblia, e, em seguida, uma passagem dos livros dos Profetas, que pudesse elucidar o texto lido. Jesus se apresenta para ler o trecho profético e fazer o comentário. Ele escolhe um texto do profeta Isaías Is 61,1-2, que assim diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim (…) enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração e para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os prisioneiros e para publicar o ano da graça do Senhor” (v. 17-19). É um texto em que descreve como é que o Messias concretizará a sua missão.

É significativo cada momento da narrativa sobre o fato ocorrido naquela manhã na sinagoga de Nazaré. Inicialmente Jesus abre o volume que lhe é entregue. Em seguida, após a leitura, enrola o volume, o entrega ao assistente e toma o seu assento. Naquele tempo, quem se sentava para instruir os outros era considerado mestre. O evangelista São Lucas quer frisar que Jesus se tornou o nosso mestre. Todos os livros do Antigo Testamento têm a finalidade de nos conduzir até Ele. Nas celebrações dominicais sempre temos uma leitura tirada de algum livro do Antigo Testamento, porque estes textos são indispensáveis, visando nos preparar a escutar o Cristo.

Podemos dizer que neste trecho do Evangelho temos um programa que Jesus irá realizar ao longo da sua vida terrena. A sua missão consiste em fazer realizar a boa nova e elucidar que algo novo chegou ao coração e à vida de todos os prisioneiros do sofrimento, da opressão, da injustiça, do desânimo, do medo. O que é mais significativo, no entanto, é a “atualização” que Jesus faz desta profecia: Ele se apresenta como o profeta que Deus ungiu com o seu Espírito, a fim de concretizar essa missão.

E neste texto Jesus manifesta de forma bem nítida a consciência de que foi investido do Espírito de Deus e enviado para transformar tudo o que rouba a vida e a dignidade do homem. É ele que vem anunciar a plenitude da bênção de Deus para a humanidade. Ele vem, como diz o texto, para anunciar o Evangelho aos pobres. No sermão das bem-aventuranças, lemos: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). Neste sermão Jesus se refere aos indigentes, aos carentes, aos fracos, aos humilhados. São os que trabalham dignamente e possuem apenas o trivial, os que vivem em condição de miséria absoluta. São ainda os desprovidos de socorro humano e material e que recorrem exclusivamente ao socorro de Deus e, por isso, são felizes. São felizes por não acumularem tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem. São felizes porque foram cativados a servir a Deus e amar ao próximo. São felizes por terem encontrado a alegria do ser.

Jesus é aquele que também vem dar a vista aos cegos, não só os curando miraculosamente como sinal do seu poder, mas iluminando cada pessoa, para que ela possa conhecer a luz da fé e os preceitos da Lei de Deus. Ele vem livrar os cativos de toda a escravidão, quer material, quer espiritual, que desfigura a humanidade. Ele vem implantar no mundo a alegria da liberdade dos filhos de Deus.

Nas páginas do Evangelho encontramos uma orientação muito clara aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não têm como retribuir. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho (cf. FRANCISCO, Carta Encíclica “Evangelii Gaudium”, 48).

Jesus, após ler o trecho do livro do profeta Isaías, diz: “Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir” (v. 21). Ele anuncia repentinamente que essa palavra se cumpre hoje, nele. Na verdade o próprio Jesus é o “hoje” da salvação na história, porque leva a cumprimento a plenitude da redenção. O termo “hoje” já nos é apresentado com as palavras que o anjo dirigiu aos pastores: “Hoje nasceu para vós, na Cidade de Davi, um Salvador, o Cristo Senhor” (Lc 2, 11).

Aquele “hoje” pronunciado por Jesus naquele sábado em Nazaré vale para todo o sempre, porque Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8). Este trecho interpela também a nós. Esta passagem do Evangelho também nos convida a interrogar-nos sobre a nossa capacidade de escuta. Antes de poder falar de Deus e com Deus, é preciso ouvi-lo, e a liturgia da Igreja é a escola desta escuta do Senhor que nos fala. Enfim, nos diz que cada momento pode tornar-se um “hoje” propício para a nossa conversão.

Também nós hoje somos chamados a anunciar aos necessitados uma palavra de estímulo e de esperança. Cada dia pode tornar-se o “hoje” salvífico, porque a salvação é história que continua para a Igreja e para cada discípulo de Cristo.

O “Hoje” é a novidade de Jesus e indica que o tempo está em desenvolvimento e que a história da humanidade está atravessando um momento excepcional de graça. O “hoje” prolonga-se no tempo da Igreja, o nosso tempo é o “hoje” de Deus.

A escuta da Palavra de Deus deve nos conduzir, como conduziu o povo da primeira leitura, a um exame de consciência, ao arrependimento e à conversão. A Palavra proclamada também é geradora de festa, de alegria e de felicidade: “Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza” (Ne 8,9), como consta na primeira leitura. O fato de Deus ainda hoje nos dirigir a sua palavra salvadora é fonte de alegria e de festa. Além disto, a Palavra de Deus é sempre palavra de salvação, que tem o seu pleno cumprimento em Jesus de Nazaré. E nele começa o eterno “hoje” da salvação que deve ser continuado pela ação da Igreja.

Cada momento pode tornar-se um “hoje” propício para a nossa conversão. Saibamos aproveitar o “hoje” que Deus nos concede em prol da nossa salvação. E que a participação em cada Celebração Eucarística, onde nos alimentamos não só do corpo e do sangue do Senhor, mas também da Palavra, lida e explicada, possa nos fazer compreender melhor a Palavra de Deus, Palavra de salvação para o nosso “hoje” concreto de cada dia.

À Virgem Maria, a quem sempre devemos ter como modelo e guia, peçamos que interceda incessantemente por cada um de nós, para que saibamos reconhecer e acolher, em cada dia da nossa vida, a presença de Deus, o Salvador nosso e de toda a humanidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

Festa do Batismo do senhor

Lc 3,15-16.21-22

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo, depois da solenidade da Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor, que conclui o tempo litúrgico do Natal. É uma oportunidade propícia para que todos os cristãos redescubram a alegria e a beleza do seu Batismo que, vivido com fé, é uma realidade sempre atual: renova em nós a imagem do homem novo, na santidade dos pensamentos e das ações.

A liturgia da Palavra nos apresenta para esta celebração um texto evangélico que nos faz voltar o olhar para Jesus com a idade de trinta anos, fazendo-se batizar por João no rio Jordão. João Batista tinha o costume de administrar um batismo de penitência e utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida. Ele era chamado de João, o “Batista”, ou seja, o que batizava, e pregava este batismo a Israel, para preparar a eminente vinda do Messias. Dizia a todos que depois dele viria outro, maior que ele, que não batizaria com água, mas com o Espírito Santo (cf. Mc 1,7-8).

Jesus se une àquela multidão e se direciona ao encontro de João, para ser batizado por ele, embora não necessitasse deste símbolo de purificação. Jesus quis ser batizado porque ainda não se manifestara como o Messias. Não convinha, pois, que fosse diferente dos outros. Jesus faz-se batizar não por necessidade, mas para dar um grande exemplo de humildade.

No momento do batismo de Jesus, o Espírito Santo desce sobre ele em forma de pomba, de maneira visível. E uma grande luz brilha no céu, como se o céu se abrisse. A pomba era o símbolo da paz, do amor puro, da inocência e da simplicidade (cf. Ct 2,14). O Espírito Santo ilumina os corações, transmite a luz divina, restaura a paz. Nos relata o evangelista São Lucas: “O céu se abriu e o Espírito Santo desceu” (Lc 3,21-22). E todos puderam ouvir as palavras: “Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti eu ponho toda a minha complacência ” (v. 22). O Pai, o Filho e o Espírito Santo descem e temos a própria voz do Pai a indicar a presença de Jesus Cristo, seu Filho unigênito, no mundo.

A cena do batismo de Jesus, de algum modo acontece no batismo de cada catecúmeno. Não se vê o céu se abrir, mas a nossa fé nos garante que o Pai do céu está dizendo: “Este é o meu filho querido”. Como de fato, no dia do nosso batismo a voz do Pai nos chamou para sermos seus filhos em Cristo e sermos membros da Igreja, local onde iremos encontrar os meios necessários para o desenvolvimento do dom sublime da fé. E a Igreja, desde Pentecostes, vem celebrando o Sacramento do Batismo. Em sua pregação, São Pedro já dizia: “Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo… Recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,38). Jesus, no dia do seu batismo recebeu o Espírito, como nós o recebemos. Muito embora, o Espírito Santo já habitasse nele, em plenitude, desde o instante da sua concepção divina.

É o Espírito Santo que nos impulsiona a viver a vida nova conferida pelo Batismo. A água derramada sobre a cabeça de cada batizado não significa apenas ablução, purificação, significa vida, e vida nova, mas é também um “renascer”, um nascer de novo: “Quem não renascer pela água e pelo Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É importante lembrarmos as palavras pronunciadas por João Batista no Evangelho: “Eu vos batizo com água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu… Ele há de vos batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E podemos perguntar o significado deste fogo a que João Batista se refere. Antes, devemos lembrar que o Batismo administrado por João era um ato de penitência, com a finalidade de pedir perdão pelos pecados e a possibilidade de começar uma nova existência. No Batismo instituído por Cristo é o próprio Deus que age, é Jesus que age através do Espírito Santo. Neste Batismo está presente o fogo do Espírito Santo. É Deus que age em nós, para sermos seus filhos.

Pelo batismo, com o derramamento da água sobre as nossas cabeças fomos assinalados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, fomos mergulhados nesta “fonte” de vida que é o próprio Deus e que nos constituiu seus verdadeiros filhos. A água é o elemento da fecundidade. Sem água não há vida. E assim, em todas as grandes religiões a água é vista como símbolo da purificação, da fecundidade, símbolo da vida.

Na cena evangélica está presente uma eloquente manifestação da Santíssima Trindade: O Pai do Céu que fala das nuvens entreabertas; o Espírito Santo em forma de pomba; e o Filho unigênito, saindo das águas do rio Jordão. Esta é uma viva referência ao batismo cristão, que é ministrado, segundo a ordem de Jesus, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que o Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão (cf. CIgC 1213). Quando recebemos o Batismo, todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas do pecado. Com efeito, naqueles que foram regenerados, não resta nada que os impeça de entrar no Reino de Deus. Porém, certas consequências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas do caráter (cf. CIgC, n. 1264).

O Batismo também aparece sempre ligado à fé (cf. At 16,31-33). Segundo o apóstolo São Paulo, pelo Batismo o crente comunga na morte de Cristo; é sepultado e ressuscita com Ele (cf. Rm 6,3-4). E, em nossos dias, a fé é um dom que se deve redescobrir, cultivar e testemunhar.

Somos incorporados a Cristo pelo Batismo e com este sacramento o cristão recebe um sinal espiritual indelével da sua pertença a Cristo. É um sacramento que imprime caráter, ou seja, uma marca que nunca apaga, nem mesmo mediante o pecado, embora esta fragilidade possa impedir o Batismo de produzir os frutos de salvação. Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo Batismo.

Com esta festa em que recordamos o Batismo do Senhor, peçamos a Ele que nos conceda a graça de viver a beleza e a alegria de sermos bons cristãos e que aprendamos a conhecê-lo e a amá-lo com todas as forças e a servi-lo fielmente e sendo portadores de uma vida cristã coerente.

Peçamos também a Virgem de Nazaré, a filha predileta do Senhor, para que nós, já revestidos com a veste branca do batismo, sinal da nova dignidade de filhos de Deus, durante toda a nossa vida, sejamos discípulos fiéis de Cristo e corajosas testemunhas do Evangelho. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Solenidade Da Epifania do Senhor

Mt 2,1-12

Caros irmãos e irmãs!

Neste domingo celebramos a solenidade da Epifania do Senhor e, mais uma vez, somos colocados diante da rica e abundante Palavra de Deus que nos ilumina. Celebramos a manifestação de um Deus que se revelou na história como luz do mundo, para guiar a humanidade em direção à terra prometida.

A primeira leitura deste domingo, tirada do Livro do profeta Isaías (cf. Is 60,1-6), e o trecho do Evangelho de São Mateus (Mt 2,1-12), colocam lado a lado, a promessa e o seu cumprimento. Aparece diante de nós a visão do profeta que, depois das humilhações padecidas pelo povo de Israel, vê o momento em que a grande luz de Deus surgirá sobre toda a terra, de maneira que os reis das nações se inclinarão diante dele e depositarão aos seus pés os seus tesouros mais preciosos.

O texto do Evangelho nos coloca diante da cena dos magos que vêm do Oriente para adorar o Senhor. Os magos eram astrônomos que viram na imagem da estrela uma mensagem de esperança e, guiados por ela, são conduzidos até a Judéia. São também identificados como homens sábios, que se colocam a caminho para encontrar o verdadeiro Deus.

Como os magos estavam à procura do recém-nascido, rei dos judeus, parece então normal que fossem à cidade régia de Israel e entrassem no palácio do rei. Certamente eles presumiram que deveria ter nascido lá o futuro rei. Mas, para encontrar definitivamente a estrada que os levaria ao verdadeiro herdeiro do rei Davi, precisam, antes, da indicação das Sagradas Escrituras, ou seja, da Palavra de Deus.

Os magos questionam sobre o local onde deveria nascer o menino. Mas observemos a reação à pergunta dos magos: “O rei Herodes ficou alarmado e com ele toda Jerusalém” (Mt 2,3). Esta perturbação de Herodes perante a notícia do nascimento de um misterioso pretendente ao trono era certamente bem compreensível. Herodes é um homem do poder, que consegue ver no outro apenas o rival. E, no fundo, considera Deus também como um rival, antes, como o rival mais perigoso. O rei Herodes mostra interesse pelo Menino, não para o adorar, mas para o eliminar.

É interessante notar que em Jerusalém a estrela tinha desaparecido por completo. Depois do encontro dos magos com a Palavra da Escritura, a estrela resplandece de novo para eles. E o texto bíblico nos diz, referindo-se à reação dos magos: “Revendo a estrela, alegraram-se” (Mt 2,10). É a alegria do homem, que foi atingido no coração pela luz de Deus e pode ver realizada a sua esperança.

No mundo antigo, os corpos celestes eram considerados como forças divinas que decidiam o destino dos homens e dominavam o mundo. Os planetas têm nomes de divindades. Nesta linha de pensamento, se situa a narrativa da estrela que aparece no evangelho a guiar os magos. Não é a estrela que determina o destino do Menino, mas o Menino que guia a estrela (cf. BENTO XVI, A infância de Jesus, São Paulo, 2012, p. 79ss).

E o texto do Evangelho ainda diz: “Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se, adoraram-no” (Mt 2,11). Na presença do Menino Jesus, os magos fazem uma prostração; ou seja, é a homenagem que se presta a um Rei e Deus. A partir disso, pode-se explicar o significado das oferendas que realizam. Não são presentes práticos, que pudessem talvez revelar-se úteis naquele momento para a Sagrada Família; mas são dons que exprimem o reconhecimento da dignidade real daquele a quem são oferecidos. Ouro e incenso aparecem mencionados no livro do profeta Isaías (cf. Is 60,6), como presentes de homenagem, que devem ser oferecidos pelos povos ao Deus de Israel.

Nos três presentes, a tradição da Igreja viu representados três aspectos do mistério de Cristo: O ouro indica a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade, e a mirra, o mistério da sua Paixão. Como de fato, o Evangelista São João nos narra que, para ungir o corpo de Jesus, Nicodemos fez uso da mirra (cf. Jo 19,39). A mirra afasta os vermes dos cadáveres e preserva os corpos da corrupção. Assim, através da mirra, o mistério da Cruz está de novo ligado à realeza de Jesus e preanuncia-se de maneira misteriosa a sua morte já na adoração dos magos.

Mas, com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, esta oferenda de presentes ao Menino Jesus recém-nascido, indica o reconhecimento da sua divindade. Ou seja, a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem também a sua autoridade. A consequência a que isto dá origem é imediata. Os magos regressam apressados às suas terras, mas já não podem continuar pelo mesmo caminho, já não podem regressar para junto de Herodes, já não podem ser aliados com aquele soberano poderoso e cruel. Foram conduzidos por um outro caminho; em uma outra direção.

O texto nos diz: “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2,12). Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para proclamar a descoberta. No entanto, os Magos, que escolheram o Menino como soberano o protegeram da fúria de Herodes e foram transformados após o encontro com a Verdade, descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza, um novo caminho: o caminho da fé.

Santo Agostinho, fazendo uma referência a este texto, completa: “Também nós, reconhecendo Cristo, nosso rei… O honramos como se tivéssemos oferecido ouro, incenso e mirra; só nos falta dar testemunho dele, percorrendo um caminho diferente daquele pelo qual viemos” (S. AGOSTINHO, Sermo 202, In Epiphania Domini 3,4).

Muitos viram a estrela, mas só poucos compreenderam a sua mensagem. Os estudiosos da Escritura do tempo de Jesus conheciam perfeitamente a palavra de Deus. Eram capazes de dizer sem qualquer dificuldade o que se podia encontrar nela a respeito do lugar onde o Messias teria nascido, mas, como Santo Agostinho diz: “…enquanto davam indicações aos romeiros a caminho, eles permaneciam inertes e imóveis” (S. AGOSTINHO, Sermo 199, In Epiphania Domini 1,2).

Estes estudiosos da Palavra de Deus não se deslocaram, não caminharam em direção a Jesus. Eles não conseguiram ver a estrela, não alcançaram a luz do mundo; enquanto os magos deixam-se guiar pela luz do menino e reconhecem nele o Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Com isso, podemos afirmar que Cristo vem como luz a iluminar os povos, mas muitos ainda vivem nas trevas e não conseguem ver a luz que é o próprio Cristo. Tenhamos consciência de que o Menino é a luz a nos iluminar. E é esta luz que devemos seguir e por esta luz devemos nos deixar iluminar.

Peçamos ao Senhor que Ele nos faça seguir o mesmo itinerário percorrido pelos magos e nos coloquemos a caminho. Que a luz da estrela de Belém nos conduza ao Encontro do Menino Deus e após este encontro, possamos também nós seguir por um outro caminho: o caminho da conversão, o caminho da santidade, o caminho de uma vida nova. E com os magos, ajoelhemo-nos diante daquele que nasceu para nós e está nos braços da sempre Virgem Maria Mãe de Deus. Possamos também oferecer-lhe os nossos dons: não mais ouro, incenso e a mirra, mas a nossa decisão de segui-lo até o fim, fazendo sempre a sua vontade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO – C – A visitação de Maria a Isabel

Lc 1,39-45

Meus caros irmãos e irmãs,

Nestes dias em que nos preparamos para o Natal, somos convidados a contemplar a ação de um Deus que ama de tal forma a humanidade que envia ao nosso encontro o seu Filho, a fim de nos conduzir à comunhão com Ele.

Neste quarto domingo do tempo do Advento, à distância de poucos dias do Natal do Senhor, o Evangelho narra a visita de Maria à sua prima Isabel. Este episódio apresenta com grande simplicidade o encontro de duas importantes mulheres, ambas grávidas, na expectativa do nascimento de seus respectivos filhos. Ambas ressaltam a gratidão ao Senhor pela obra nelas operada.  Isabel, já idosa, simboliza Israel que espera o Messias, enquanto que a jovem Maria traz em si o cumprimento desta expectativa, em benefício de toda a humanidade.

Na Anunciação o anjo Gabriel tinha falado a Maria da gravidez de Isabel (cf. Lc 1,36) como prova do poder de Deus. A esterilidade, não obstante ela fosse idosa, tinha-se transformado em fertilidade. E Isabel, acolhendo Maria, reconhece que nela está para se realizar a promessa de Deus à humanidade e exclama: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (v. 42). São palavras que aparecem no Antigo Testamento, mais precisamente no Cântico de Débora (cf. Jz 5,24) para celebrar Jael, a mulher que, apesar da sua fragilidade, foi o instrumento de Deus para libertar o Povo de Israel das mãos de Sísara, um cruel comandante do exército que tencionava decepar os Israelitas.

Algo incomum para uma mulher, olhando o contexto da época.  Com isto, observa-se que Deus pode usar de instrumentos frágeis para operar maravilhas.  Aplicando a Maria, pode-se também constatar que Deus uma vez mais usa instrumentos simples para realizar suas obras de salvação.  Através de Maria ele realizou um marcante acontecimento histórico: deu à humanidade o seu próprio Filho. Através do anjo Gabriel, Deus dirige-se a Maria e a escolhe para gerar o Salvador do mundo.

A manifestação de alegria de João Batista no seio de sua mãe Santa Isabel, é o sinal do cumprimento da expectativa: Deus está para visitar o seu povo. Isabel interpreta este movimento que ela experimenta como um sinal divino e como uma saudação de seu filho ao filho de Maria.  Em sua alegria, Isabel ainda ressalta a posição privilegiada de sua parenta dizendo: “…e bendito é o fruto do teu ventre” (v. 42).  Ao fruto do ventre de Maria, Isabel chama de Kyrios mou: “Meu Senhor” (v. 43).  No uso do título Kyrios Jesus é reconhecido como Deus, e como o seu Deus.  Maria também é apresentada como a mulher de fé (v. 45), porque acreditou na veracidade e na fidelidade da promessa de Deus.

No texto evangélico temos a exaltação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (v. 43).  Davi pronunciou uma frase semelhante a esta: “Como pode estar a Arca do Senhor em minha casa?” (2Sm 6,9). A Arca continha as tábuas da Lei, o maná e o cajado de Aarão (cf. Hb 9, 4), era o sinal da presença de Deus no meio do seu povo. João Batista, ainda para nascer, exulta de alegria diante de Maria, a nova Arca da nova Aliança, que traz no seio Jesus, o Filho de Deus feito homem.

Outro detalhe significativo nos põe em paralelo com a visita de Maria e a Arca da Aliança.  Maria, bem como a Arca, permanecem durante três meses em uma casa da Judéia.  A Arca é recebida com danças, com gritos de alegria, com hinos festivos e é portadora de bênçãos para a família que a recebe (cf. 2Sm 6,10-11) e Maria, ao entrar na casa de Zacarias, faz pular de alegria João Batista, o menino que está no seio de Isabel e representa o povo do Antigo Testamento, que está à espera do Messias.  Com isto, fica evidente que Maria é a nova Arca da Aliança, como entoamos na Ladainha de Nossa Senhora.

A cena da Visitação expressa também que Jesus é o Deus que vem ao encontro da humanidade e tem uma mensagem de salvação que concretiza as promessas feitas pelo Senhor aos antepassados; logo, a presença de Jesus provoca a alegria em todos aqueles que esperam a concretização das promessas de Deus que se realizam com sua chegada. Promessas de um mundo de justiça, amor, paz e felicidade para todos.  Por isto, dirá o anjo aos pastores: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).  Através de Jesus, Deus vai oferecer a paz e a salvação a todos e isso gera alegria, por parte de todos aqueles que anseiam pela concretização das suas promessas.

Finalmente, temos a resposta de Maria: “A minha alma engrandece o Senhor”. A resposta de Maria retoma um salmo de ação de graças (cf. Sl 34,4), destinado a dar graças ao Senhor porque protege os humildes e os salva, apesar da prepotência dos opressores. É um salmo de esperança e de confiança, que exalta a preocupação de Deus para com os pobres, vítimas da injustiça e da opressão. Sugere-se, claramente, que a presença de Jesus, através dessa mulher simples e frágil que é Maria, é um sinal do amor de Deus, preocupado em trazer a salvação a todos os que são vítimas da injustiça. Com Jesus, chegou esse novo tempo de paz e de felicidade anunciado pelos profetas.

Com a celebração do Santo Natal já próximo, devemos nos preparar para o encontro com Jesus, o Emanuel, Deus conosco. Nascido na pobreza de Belém, Ele deseja fazer-se companheiro de viagem de todos. O dom surpreendente do Natal é precisamente este: Jesus veio para cada um de nós e nele nos tornamos irmãos. Estejamos preparados espiritualmente para receber o Menino Jesus. Ele vem para nós. É seu desejo vir para habitar no nosso coração. Para que isso aconteça é indispensável que estejamos disponíveis e nos preparemos para recebê-lo, prontos a dar-lhe espaço dentro de nós, nas nossas famílias, na nossa cidade. Que seu nascimento nos encontre preparados para festejar o Natal.  Com a consciência de que é Ele o protagonista da fé.

Neste tempo de Natal saibamos imitar Maria, e com a mesma alegria e disposição que a levou a ir às pressas para estar com Isabel (cf. Lc 1,39), possamos nós também ir ao encontro do Senhor que vem.  À Maria, Arca da Nova e Eterna Aliança, confiemos o nosso coração, para que o torne digno de acolher a visita de Deus no mistério do seu Natal.

Que o Senhor encontre um abrigo no nosso coração e na nossa vida. Na verdade, não devemos apenas levá-lo no coração, devemos também levá-lo ao mundo, de forma que também nós possamos gerar Cristo para as pessoas do nosso tempo.   Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II domingo do tempo do advento – C – Preparai os caminhos do senhor!

Lc 3,1-6

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo do advento, a Liturgia da Palavra nos faz um apelo à conversão, à renovação, no sentido de eliminar todos os obstáculos que impedem a chegada do Senhor ao nosso mundo e ao coração dos homens. Esta missão é uma exigência que é feita a todos os batizados, chamados a dar testemunho da salvação que Jesus Cristo veio trazer.

Lançando inicialmente um olhar para a primeira leitura, retirada do livro do Profeta Baruc, seu conteúdo sugere que o “caminho” de conversão é um verdadeiro êxodo da terra da escravidão para a terra da felicidade e da liberdade. Durante o percurso, somos convidados a despir-nos de todas as cadeias que nos impedem de acolher a proposta de uma vida nova que Deus nos faz. Somos convidados a viver este tempo numa serena alegria, confiantes no Senhor que não desiste de nos apresentar uma proposta de salvação, apesar dos nossos erros e dificuldades.

A reflexão sobre este texto pode ser feita lembrando que o advento é um tempo favorável, que nos possibilita sair da terra da escravidão para a terra da liberdade. Neste tempo somos especialmente confrontados com as cadeias que ainda nos prendem e somos convidados a percorrer um novo caminho de regresso à cidade nova da alegria e da paz. Uma das frases da Primeira Leitura nos diz: “Vê os teus filhos… estão cheios de alegria porque Deus se lembrou deles” (Br 5,5). E é exatamente nesta atmosfera de alegria e de confiança serena na ação salvadora do nosso Deus que somos convidados a viver este tempo de mudança e a preparar a vinda do Senhor.

O Evangelho apresenta o profeta João Batista, a nos convidar a uma transformação total quanto à forma de pensar e de agir, quanto aos valores e às prioridades da vida. Para que Jesus possa caminhar ao encontro da humanidade é necessário que os corações estejam livres e disponíveis para acolher a Boa Nova do Reino. É esta missão profética que Deus continua, hoje, a confiar-nos.

Antes de começar a descrever a ação salvadora de Jesus no meio dos homens, São Lucas vai apresentar João Batista, o profeta que veio preparar a chegada do Messias de Deus. O evangelista começa por situar o quadro de João Batista num determinado enquadramento histórico. Nomeia 7 personagens, desde o imperador Tibério César, até ao sumo sacerdote Caifás, num esforço de situar no tempo os acontecimentos da salvação. É uma história concreta, com acontecimentos concretos, que podem ser ligados a um determinado momento histórico vivido. A figura de João Batista aparece como “uma voz que grita no deserto” a exortar-nos a preparar os caminhos do coração para que o Cristo Jesus possa ir ao encontro de cada homem.

E o evangelista São Lucas situa num espaço geográfico a atividade profética de João: ele prega em “toda a região do rio Jordão”. Trata-se de uma região bastante povoada, sobretudo depois das construções de Herodes e de Arquelau. O anúncio profético de João destina-se aos homens, que são convidados a acolher o Messias que está para fazer a sua aparição no mundo. Finalmente, concretiza-se o âmbito da missão: João “proclama um batismo de conversão, para a remissão dos pecados”. Para acolher o Messias que está para chegar, é necessário um processo de conversão que leve a um rever a vida, as prioridades, os valores; pois somente nos corações verdadeiramente transformados, o Messias encontrará lugar.

Provavelmente o batismo administrado por João era o batismo de imersão na água, um rito comum na cultura judaica. Significava a morte a um passado que ficava simbolicamente sepultado na água. Utilizava-se no âmbito civil para indicar, por exemplo, a emancipação do escravo; e, no religioso, para a conversão do recém-convertido, indicando o início de uma nova vida, ou seja, a mudança de vida: o passado de injustiça e de erros fica sepultado.

Devemos distinguir entre a figura externa e a mensagem de João. Ele se apresentava vestido como um dos antigos profetas, especialmente Isaías (cf. 2Rs 1, 8). Vestia uma túnica de pele e a amarrava com um cinto. Esta forma de vestir foi copiada pelos outros profetas. A vestimenta externa de João era um tecido de pelos de camelo, o mesmo com o qual se teciam as lonas das tendas dos nômades do deserto. Servia de proteção contra os raios solares e, como capa, o protegia da chuva. Além dessa veste extremamente rústica, havia na vida de João um outro detalhe que chamava a atenção das multidões, sua comida: gafanhotos e mel silvestre. Tudo indicava a austeridade de João e sua independência dos homens, de modo a depender unicamente de Deus.
Enquanto prosseguimos o caminho do Advento, enquanto nos preparamos para celebrar o Natal de Cristo, ressoa também em nós esta chamada de João Batista à conversão: “Arrependei-vos, dizia, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3,1-2). É um convite urgente a abrir o coração e a acolher o Filho de Deus que vem entre nós. O Pai, escreve o evangelista João, não julga ninguém, mas confiou ao Filho o poder de julgar, porque é Filho do homem (cf. Jo 5, 22.27). E é hoje, no presente, que se decide o nosso destino futuro; é com o comportamento concreto que temos nesta vida que decidimos o nosso destino eterno. No findar dos nossos dias na terra, no momento da morte, seremos avaliados com base na nossa semelhança ou não com o Menino que está para nascer na pobre gruta de Belém, porque é Ele o critério de medida que Deus deu à humanidade. O Pai celeste que no nascimento do seu Filho Unigênito nos manifestou o seu amor misericordioso, nos chama a seguir os seus passos fazendo da nossa existência um dom de amor.
Mediante o Evangelho, João Batista continua a falar através dos séculos, a cada geração. As suas palavras claras e duras ressoam também para os homens e as mulheres do nosso tempo. A “voz” do grande profeta pede que preparemos o caminho ao Senhor que vem, nos desertos de hoje, desertos exteriores e interiores, sequiosos da água viva que é Cristo.
João Batista, portanto, tem um grande papel a desempenhar, mas sempre em função de Cristo. Quanto a nós, hoje temos a tarefa de ouvir aquela voz para conceder a Jesus, Palavra que nos salva, espaço e acolhimento no coração. Neste Tempo de Advento, preparemo-nos para ver, com os olhos da fé, na Gruta humilde de Belém, a salvação de Deus (cf. Lc 3,6).
Escutemos o convite de Jesus no Evangelho e nos preparemos para reviver com fé o mistério do nascimento do Redentor, que encheu o universo de alegria; preparemo-nos para acolher o Senhor no seu incessante vir ao nosso encontro nos acontecimentos da vida, na alegria ou no sofrimento, na saúde ou na doença; preparemo-nos para encontrá-lo na sua vinda última e definitiva.

Continuemos o nosso caminho ao encontro do Senhor que vem, permanecendo prontos para o receber no coração e na vida inteira, o Emanuel, o Deus que vem habitar conosco. Confortados pela sua palavra, invoquemos a proteção materna de Maria, Virgem da esperança, que ela nos guie a uma verdadeira conversão interior, para que possamos sintonizar os nossos pensamentos e ações com a mensagem do Evangelho, e assim possamos preparar dignamente a vinda do Senhor que está para chegar. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ