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Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

XIX – DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – Jesus caminha sobre o mar

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da palavra deste domingo traz para a nossa reflexão um texto do Evangelho de São Mateus, onde nos apresenta o episódio de Jesus que caminha sobre o mar (cf. Mt 14,22-33). Após multiplicar os pães e os peixes, Jesus convida os seus discípulos a entrar no barco e a precedê-lo, na outra margem, enquanto Ele despede a multidão, ficando, em seguida, na completa solidão para rezar em uma montanha até de madrugada.

Entretanto, começa uma forte tempestade e, precisamente no meio da tempestade, Jesus chega ao barco onde estavam os discípulos, caminhando sobre as águas do mar (v. 26). No contexto da catequese judaica, só Deus “caminha sobre o mar” (Jó 38,16; Sl 77,20); só Ele acalma as ondas e as tempestades (cf. Sl 107,25-30). Jesus é, portanto, o Deus que vela pelo seu povo e que não deixa que a força da morte, simbolizada pelo mar, destrua o homem. 

Ao ver Jesus andando sobre as águas, os discípulos ficam apavorados e pensam que é um fantasma, mas Ele tranquiliza-os: “Coragem, sou eu. Não tenhais medo!” (v. 27). Com isto, Jesus transmite aos discípulos a certeza de que eles nada têm a temer, porque Ele é o Deus que vence as forças da morte e lhes dá ânimo para vencerem as adversidades.

Em seguida, Pedro, tomado por um impulso de amor pelo seu Mestre, quer ir até Ele, mas ao mesmo tempo, parece pedir uma prova, para confirmar ser mesmo Jesus: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (v. 28); então, Jesus lhe diz: “Vem!” (v. 29). O Apóstolo Pedro desce do barco e começa a caminhar sobre as águas; no entanto, o vento impetuoso parece forte e ele começa a afundar. Então, clama: “Senhor, salva-me!” (v. 30), e Jesus lhe estende a mão e o segura. 

Na perícope do Evangelho, chama a nossa atenção esta atitude de Pedro, que deixa o barco e começa a caminhar ao encontro de Jesus.  Ele começa a caminhar sobre a água, mas começa a afundar no momento em que desvia o seu olhar de Jesus, deixando-se abalar pelas adversidades que o circundam. Mas o Senhor está sempre presente, e quando Pedro o invoca, Jesus o salva do perigo. Na figura de Pedro, com os seus impulsos e as suas debilidades, está descrita a nossa própria fé: sempre frágil, mas, mesmo assim, caminha ao encontro do Senhor ressuscitado, no meio das tempestades e dos perigos do mundo. 

Pedro caminha sobre as águas, não pelas suas próprias forças, mas pela graça divina, na qual crê; mas, ao sentir-se dominado pela dúvida, quando deixa de fixar o olhar em Jesus e tem medo do vento, quando não confia plenamente na palavra do Mestre, é então que corre o risco de afundar no mar da vida, e é assim também para nós: se olharmos unicamente para nós mesmos, não conseguiremos suportar os ventos, atravessar as tempestades, as águas agitadas que muitas vezes fazem parte do nosso quotidiano.

Pela fé, precisamos confiar que o Senhor está sempre próximo, a nos estender a sua mão, a nos amparar nos momentos difíceis. Jesus comunicou aos seus discípulos o poder para que pudessem vencer todos os males deste mundo que se opõem à vida. No entanto, enquanto enfrentam as ondas e os ventos, os discípulos oscilam entre a confiança em Jesus e o medo.

Um outro detalhe assinalado pelo texto está no fato do episódio ocorrer à noite, momento em que o barco é açoitado pelos ventos e pelas ondas, e navega com dificuldades. Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles. A noite representa as trevas, a escuridão, o medo, a insegurança em que navegam os discípulos de Jesus, sem saber exatamente que caminhos percorrer, nem para onde ir.  

Também a cena final é muito importante. “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’” (v. 32s).  No barco encontram-se todos os discípulos, irmanados pela experiência da debilidade, da dúvida, do medo e da “pouca fé”. No entanto, quando Jesus volta àquele barco, o clima muda imediatamente: todos estão unidos na fé, por isto, se colocam de joelhos, reconhecem no seu Mestre o Filho de Deus. Quantas vezes também acontece conosco a mesma coisa! Sem Jesus, longe de Jesus, somos amedrontados e chegamos a pensar que não aguentaremos. Falta a fé! Mas Jesus está sempre ao nosso lado, sempre presente e pronto para nos segurar, a nos estender a mão.

O Evangelista São Mateus observa esta reação nos discípulos, porém, foram encorajados pela presença do Senhor. Isso é comprovado na profissão de fé manifestada por eles ao dizer: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”.  Com isto, a desconfiança inicial dos discípulos se transforma em fé firme. Como de fato, esta confissão reflete a fé dos verdadeiros discípulos, que encontram em Jesus o Deus que vence o “mar”, o Senhor da vida a transmitir força e coragem aos seus discípulos para vencer o mal e lhes estende a mão, na tentativa de reanimá-los e não os deixa afundar.  

Podemos ainda dizer que todos nós estamos dentro de uma barca que é a Igreja, que parece estar sempre a ponto de afundar, devastada pelas ondas de numerosos perigos, da pouca fé, da coerência insuficiente dos cristãos, de tantas ideologias que a atacam de todos os lados, mas nesta barca encontra-se Cristo.  O que salva a barca não são as qualidades e a coragem dos marinheiros; a garantia segura contra o naufrágio é a fé.  A barca de Pedro continua navegando e enfrentando tempestades das mais diversas realidades.  Por isto, jamais podemos desviar o nosso olhar do Cristo, pois se isto acontecer, certamente pereceremos. 

Como seguidores de Jesus, de certa maneira, esta é também a nossa experiência.  Quantas vezes também somos abalados pelos sofrimentos e pelas dificuldades oriundas de ventos fortes e tempestades a nos atingir.  Quantas vezes somos submergidos pelo “mar” da frustração, do desânimo, da desilusão. Quantas vezes sentimos que afundamos na dúvida, no medo, no desespero e somos incapazes de enfrentar as tempestades, as forças das ondas que nos atingem.

É neste momento que também nós devemos segurar nas mãos de Jesus e, como Pedro, gritar: “Senhor, salva-me!” (v. 30).  Que Ele nos conceda a virtude da esperança e nos conduza com segurança pelos caminhos da vida e nos faça encontrar a sua mão. Que Ele também nos leve a estender aos outros a nossa mão, sobretudo, para aqueles que dela necessitarem. 

Também nós caminhamos no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade, porque constantemente a barca da vida é agitada pelos ventos.  Peçamos que o Senhor Jesus venha ao nosso encontro, venha ao nosso socorro. E que ele possa dizer também a cada um de nós: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!”.

Que possamos todos nós ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida, com coragem e confiança, sem desviar o nosso olhar daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6).  E somente se tomarmos a mão do Senhor, se nos deixarmos orientar por Ele, o nosso caminho será justo e bom.  

Peçamos, pois, que Deus infunda em nossos corações a graça do Espírito Santo, criando em nós, que o ousamos chamá-lo de Pai, o espírito de filhos, para que o contemplemos como é, e sejamos conduzidos às heranças prometidas. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – As parábolas do Reino

Caros irmãos e irmãs

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos convida a refletir sobre as nossas prioridades e os valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Lançando um olhar inicial para a primeira leitura (cf. 1Rs 3,5.7-12), encontramos a figura e o exemplo de Salomão, rei de Israel que sucedeu ao trono o seu pai, o rei David, falecido por volta do ano 972 a.C.

O texto da primeira leitura nos traz o relato do sonho de Salomão em Gabaon, onde temos o seu pedido, em forma de oração a Deus, para obter a sabedoria (cf. 1Rs 3,5).  Tanto no Antigo como no Novo Testamento, o sonho normalmente aparece como uma forma privilegiada de Deus comunicar com os homens e de lhes indicar os seus caminhos (cf. Gn 20,3; Nm 12,6; Mt 2,13s). Utilizando este recurso literário, o texto bíblico nos apresenta o rei Salomão como o escolhido de Deus, a quem o Senhor comunica os seus projetos e a quem confia a condução do seu Povo.

O sonho está estruturado na forma de um diálogo entre Deus e Salomão.  O jovem Salomão pede ao Senhor: “Concedei, pois, ao vosso servo um coração sábio, capaz de julgar o vosso povo e discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9). Ao pedir a Deus para lhe conceder um coração sábio, indica que Salomão deseja ter uma consciência que sabe ouvir, que seja sensível à voz da verdade. Na Sagrada Escritura o coração não indica apenas uma parte do corpo, mas o âmago da pessoa, a sede das suas intenções e dos seus juízos. 

No caso de Salomão, o pedido é motivado pela responsabilidade de guiar uma nação, Israel, o povo que Deus escolheu para manifestar ao mundo o seu desígnio de salvação. Portanto, o rei de Israel, deve procurar estar sempre em sintonia com Deus e escutar sua Palavra, para orientar o povo a dirigir os seus passos pelos caminhos do Senhor, pela vereda da justiça e da paz.

No entanto, o exemplo de Salomão é válido para cada um de nós. Precisamos da sabedoria e do bom discernimento, para exercermos, com dignidade, o agir segundo a reta consciência, realizando o bem e evitando o mal. A consciência moral pressupõe a capacidade de ouvirmos a voz da verdade, de sermos pessoas dóceis às suas indicações.  O rei Salomão tinha consciência de que a autoridade é um serviço que deve ser exercido com sabedoria e que o objetivo final desse serviço é a realização do bem comum. O texto sublinha que Salomão não pede riqueza, nem glória, mas pede as aptidões necessárias e a capacidade para cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece aqui como o modelo do homem que sabe escolher e que sabe pedir.

Passando ao texto evangélico deste domingo, Jesus continua recorrendo à linguagem das parábolas para nos exortar a fazer do Reino de Deus a prioridade fundamental.  É propriamente a sabedoria que vem de Deus que nos faz compreender o verdadeiro sentido da vida, em correspondência ao projeto de salvação de Deus.

Pelo terceiro domingo consecutivo, a liturgia nos apresenta mais uma página de parábolas, breves narrações utilizadas por Jesus para facilitar a compreensão ao mistério de Deus e para anunciar os mistérios do Reino dos céus. Utilizando imagens e situações da vida quotidiana, Jesus quer nos indicar o verdadeiro fundamento de todas as coisas para podermos reconhecer a primazia de Deus.  O tema contido no Evangelho deste domingo é precisamente o Reino dos céus. O termo “céu” não deve ser entendido unicamente no sentido da altura que nos ultrapassa, porque tal espaço infinito possui também a forma da interioridade do homem.  Mas, Reino dos céus significa, precisamente, senhorio de Deus, e isto quer dizer que a sua vontade deve ser assumida como o critério e guia da nossa existência.  A linguagem das parábolas é simples e compreensiva, para melhor assimilar os profundos mistérios da nossa salvação!

Jesus começa dizendo: O Reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13, 44). Somente quem é sábio consegue reconhecer no campo o tesouro escondido como um dom de Deus, sinal de uma proposta e de um chamado para uma vida diferente. Daí sua decisão de “vender todos os seus bens”, abandonar o que todo mundo acha importante para o sucesso da vida, para “comprar aquele campo”, seguir o chamado interior,  mesmo correndo o risco no investimento. 

É interessante ressaltar que ao “vender tudo que tem” a pessoa o faz com “alegria”. Deus nos seduz ainda porque fala a linguagem da alegria, que move, apressa, faz decidir. A alegria é um sintoma, é o sinal de que se está caminhando na estrada justa.  O homem vendeu o que tinha para comprar este campo.  O termo da comparação aqui é o valor do tesouro, comparado com o valor de todas as coisas que o homem vendeu para poder adquirir o campo.  Em tempos antigos, as pessoas tinham o costume de esconder objetos preciosos, cavando um buraco na terra, sobretudo por medo dos imprevistos da guerra.

Contudo, a questão principal abordada nesta primeira parábola é a da descoberta do valor e da importância do Reino. A lição de Jesus é clara: não há valor algum que possa superar o valor do reino do Céu, esse reino no qual Deus é o Senhor absoluto; e onde floresce a graça, a redenção, a vida eterna. Todos os bens da terra são desprezíveis diante desse reino. 

A outra parábola nos fala que o reino dos céus assemelha-se ao encontro de uma pérola de grande valor. O comprador vende todos os seus bens para adquiri-la (cf. Mt 13,45-46). A ideia básica consiste no fato de que somente Deus conhece o que pode preencher o nosso coração.

No entanto, o resultado final é o mesmo: a descoberta de algo valioso. O agricultor e o comerciante vendem tudo, mas para ganhar tudo, para ter tudo. Para um, o tesouro; para outro, a pérola de grande valor. Ambos também estão unidos por um sentimento comum: a surpresa e a alegria de terem encontrado a realização de todos os desejos. A alegria é o sentimento de quem encontrou o verdadeiro tesouro, a verdadeira pérola, o tesouro do Reino de Deus. O tesouro e a pérola devem ser o Cristo para nós, e segui-lo é o que de melhor podemos empreender na vida. 

A partir dessas reflexões pode-se perceber a analogia entre a primeira leitura e o Evangelho. O rei Salomão não pediu a Deus riqueza, e sim sabedoria, isto é, o dom de distinguir entre o bem e o mal (cf. 1Rs 3,5ss).  Neste sentido, ele prefigura o negociante da parábola da pérola, homem de bem, mas sábio e perspicaz: arrisca tudo o que tem num investimento melhor (cf. Mt 13,45ss).  A lição de todos estes textos é: investir tudo naquilo que é mais importante.  Esta é uma sabedoria humana, mas aplica-se também à realidade divina, ao Reino do Céu, que é concretamente o tesouro da parábola.  Ora, para discernir bem isto, vamos precisar da sabedoria que Salomão pediu, e que lhe propiciou pronunciar juízos sábios em favor de quem merecia (1Rs 3,16-28).  

Peçamos ao Senhor Jesus, Ele que é o mais sábio de todos os sábios, que também nos conceda este dom, o dom da sabedoria, à semelhança do pedido feito por Salomão, para que possamos fazer a escolha certa, e trilhar com o coração dilatado, pelos caminhos que nos levam ao Reino de Deus. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – A Parábola do Joio e do Trigo

Caros irmãos e irmãs,

As leituras bíblicas que compõem a Liturgia da Palavra deste domingo nos convidam a refletir sobre a paciência e a misericórdia de Deus. A primeira leitura (cf. Sb 12,13.16-19), nos fala de um Deus que, apesar da sua força e onipotência, é indulgente e misericordioso para com todos, mesmo quando os homens praticam o mal. Agindo dessa forma, Deus convida os seus filhos a terem um coração misericordioso e também indulgente, semelhante ao seu próprio coração. Sequenciando este mesmo tema está também a segunda leitura, que sublinha a bondade e a misericórdia do Senhor.

No Evangelho deste domingo continuamos a escutar o Senhor que, sentado na barca, prossegue nos falando do Reino dos Céus. Assim como aquela multidão estava à beira do mar a ouvir o Senhor, estejamos também nós atentos aos seus ensinamentos.

O texto evangélico nos apresenta três parábolas contadas por Jesus: O trigo e o joio, o grão de mostarda e o fermento na massa. Jesus pregava usando a imagem rica e expressiva das parábolas, breves narrações utilizadas para anunciar os mistérios do reino dos céus.  A partir das  imagens e situações da vida quotidiana, o Senhor nos indica o verdadeiro fundamento de todas as coisas. Ele nos mostra o Deus que entra na nossa vida e quer nos guiar pelo caminho do amor, do bem e da salvação.

O joio queimado no fogo, a fornalha ardente, o choro e o ranger de dentes são os símbolos utilizados para impressionar os crentes, obrigá-los a repensar os seus esquemas de vida e a voltar à fidelidade a Deus. Portanto, o evangelista apresenta um convite urgente à conversão.

A primeira parábola que nos é proposta é a parábola do trigo e do joio (vv. 24-30). Trata-se de um quadro da vida quotidiana: há um senhor que semeia a boa semente no seu campo, mas um inimigo, visando prejudica-lo semeia também o joio, uma erva da família dos gramíneos, cujas espécies são conhecidas pelos frutos infestados por fungos, que prejudicam as plantações.  A ordem do senhor é para deixar crescer o trigo e o joio lado a lado, a separação do bem e do mal será feita apenas no momento da colheita.

Essa parábola deve ser entendida no contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu com os pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente condenáveis. Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por pecadoras públicas, convidou Mateus, um publicano, para fazer parte do seu grupo de discípulos. Com esse comportamento, Jesus quis dizer que todos são convidados a fazer parte da sua família.

Os fariseus consideravam inaceitável esta atitude de Jesus. Para eles, quem não cumpria a Lei era excluído do Povo de Deus.  Nesta parábola, Jesus mostra que o pensamento dos homens é diferente do pensamento de Deus.  O agir de Deus tem como base a paciência e a misericórdia; e oferece sempre ao homem todas as oportunidades para refazer a sua existência e integrar plenamente à comunhão com o seu Criador, que tem um plano de salvação a todos: bons e maus. No tempo oportuno, serão identificados os maus e os bons; e então irá ocorrer a separação.  Segundo o texto bíblico o trigo e o joio podem crescer juntos, mas no Juízo Final irá ocorrer a divisão dos bons e dos maus. São Mateus insiste que o “dia da colheita”, imagem utilizada pelos profetas, se identifica com o dia do “juízo de Deus” sobre os homens e o mundo, os bons receberão a recompensa e os maus receberão o castigo.

Na parábola do trigo e do joio encontramos duas atitudes: Por um lado, a impaciência dos homens que querem a destruição: “Queres que arranquemos o joio?” (v. 28); e, por outro lado, a paciência de Deus: “Deixai crescer um e outro até a colheita!” (v. 30).  Certamente nós gostaríamos que Deus se mostrasse mais forte, que vencesse imediatamente o mal e fizesse o bem prosperar, para termos um mundo melhor. Muitas vezes sofremos com a paciência de Deus, mas esquecemos que também nós temos necessidade dessa paciência. Esquecemos que também nós erramos e precisamos sempre do seu perdão e da sua misericórdia.

Jesus explica no Evangelho: “O inimigo que semeou o joio é o diabo” (v. 39). O inimigo de Deus e das almas sempre lançou mão de todos os meios humanos possíveis para instabilizar a vida do homem e a sua unidade com a importância da família estavelmente constituída, a unidade e a indissolubilidade do matrimônio, e a vida humana respeitada e protegida desde o momento da concepção. 

Jesus compara o Reino dos céus a um campo de trigo, para nos levar a compreender que dentro de nós foi semeado algo de pequeno e escondido que, no entanto, possui uma força vital e perene. Mesmo com os eventuais obstáculos, a semente irá se desenvolver e o fruto amadurecerá. Este fruto só será bom, se o terreno da vida for cultivado em conformidade com a vontade divina. Isto significa que devemos estar prontos para conservar a graça recebida desde o dia do Batismo, continuando a alimentar a fé no Senhor; isto nos fortalece e impede que o mal ganhe raízes em nós. 

Deus é sempre paciente com cada um de nós, os pecadores. A paciência de Deus com o joio nos convida a rejeitar toda atitude de rigidez, intolerância, incompreensão e vingança nas nossas relações com os outros. O senhor da parábola não aceita a intolerância, a impaciência e o radicalismo dos seus servos que pretendem cortar o mal pela raiz e arrancá-lo, correndo o risco de serem injustos, de se enganarem, colocando o mal e o bem no mesmo ambiente. Às vezes, somos demasiados ligeiros em julgar e condenar. A Palavra de Deus nos convida a moderar a nossa dureza, a nossa intolerância, a nossa intransigência e a contemplar os irmãos, com as suas falhas, defeitos, diferenças e comportamentos. Saibamos olhar as pessoas com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.

Para que possamos transformar o joio em trigo, devemos ser a semente de mostarda, pequena, insignificante, mas que cresce até aninhar os pássaros em seus ramos. Devemos ser o fermento, que leveda toda a massa da farinha, o mundo em que vivemos.  O fermento é também a figura de cada um de nós. Vivendo no meio do mundo devemos conquistar com o nosso exemplo e com a nossa palavra novas almas para o Senhor.  O joio e o trigo estão presentes em toda parte. Frequentemente nos deparamos com o joio da desunião, da inveja, das fofocas. Fiquemos atentos pois, dentro de cada um de nós, há trigo e joio.

Que o Senhor nos faça ser o trigo do amor, da dedicação e da colaboração. Que seja afastado de nós o joio do ódio, da discórdia, da calúnia… É preciso saber valorizar a semente de trigo presente no coração de cada pessoa; cultivá-la com paciência e amor. Respeitar o processo de amadurecimento de cada pessoa, sendo paciente e misericordioso.   A Palavra de Deus nos convida, contudo, a não perder a confiança e a esperança.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que ela nos ajude a seguir sempre o Senhor Jesus, na oração e na caridade, colocando em prática os seus ensinamentos e semeando em todos os lugares a semente da unidade, do bem e da paz.  Assim seja. 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – A parábola do semeador

Caros irmãos e irmãs

A Igreja nos convida neste domingo a lançar um olhar para o campo. Jesus dirige-se à multidão com a conhecida parábola do semeador, onde o próprio Jesus se identifica com aquele que semeia, que difunde a boa semente da Palavra de Deus, e constata os vários efeitos que ela alcança, de acordo com o modo de acolher o seu anúncio. Alguns ouvem superficialmente a Palavra, mas não a acolhem; outros a recebem, mas não têm constância e perdem tudo; há ainda aqueles que são dominados pelas preocupações e seduções do mundo; e, finalmente, aqueles que ouvem de modo receptivo, como o terreno bom e então a Palavra produz fruto em abundância.

As parábolas têm, primeiramente, um sentido didático: Jesus falava do Reino com imagens tiradas da natureza e das situações da vida diária do povo. Era fácil compreender, era acessível aos simples.  Mas, por serem simples e cheias de figuras, as parábolas somente poderiam ser compreendidas por quem tivesse um coração humilde e bom.

O quadro apresentado no texto supõe as técnicas agrícolas usadas na Palestina de então: primeiro, o agricultor lançava a semente à terra; depois, é que passava a arar o terreno. Assim, compreende-se porque uma parte da semente caiu à beira do caminho, outra em lugares pedregosos onde não havia muita terra e outra entre os espinhos. Isto acontecia porque a semeadura não era feita depois que a terra estava preparada, mas antes.

As diferenças do terreno significam, nesta comparação, as diferentes formas como é acolhida a semente. Mas o que é significativo no texto é o número surpreendente de frutos que a semente lançada na “boa terra” produz: trinta, sessenta, cem por um.  Dizem que cinquenta por um é o máximo, nas melhores terras, mas a parábola coloca-se acima das estatísticas.  Levando em conta que, na época, uma colheita de sete por um era considerada farta, os trinta, sessenta e cem, por um deviam parecer aos ouvintes de Jesus algo de surpreendente, de exagerado. Um grande milagre.

E o verdadeiro protagonista desta parábola é precisamente a semente, que produz frutos, em conformidade com o terreno onde ela caiu. Os primeiros três terrenos são improdutivos: ao longo da estrada a semente é comida pelos pássaros; no terreno pedregoso, os rebentos secam-se imediatamente porque não têm raízes; no meio dos arbustos a semente é sufocada pelos espinhos. E no terreno fértil, e somente neste terreno, a semente germina e produz frutos.

Jesus não se limitou a apresentar a parábola; também a explicou aos seus discípulos. A semente que caiu ao longo do caminho indica quantos ouvem o anúncio do Reino de Deus, mas não o acolhem; assim, sobrevém o Maligno e a leva embora. Com efeito, o maligno não quer que a semente do Evangelho germine no coração dos homens. Esta é a primeira comparação.

O segundo caso consiste na semente que caiu no meio das pedras: ela representa as pessoas que escutam a palavra de Deus e que a acolhem imediatamente, mas de modo superficial, porque não têm raízes e são inconstantes; e quanto se apresentam as dificuldades e as tribulações, estas pessoas deixam-se abater repentinamente.  É quando o homem se fecha à Palavra de Deus e, consequentemente, esta Palavra de Deus torna-se ineficaz.

O terceiro caso é o da semente que caiu entre os arbustos: Jesus explica que se refere às pessoas que ouvem a palavra, mas por causa das preocupações mundanas e da sedução da riqueza, é sufocada. Finalmente, a semente que caiu no terreno fértil representa quantos escutam a palavra, aqueles que a acolhem, cultivam e compreendem, e ela dá fruto. 

Jesus mesmo explica o sentido da parábola: a semente é a Palavra de Deus que é lançada nos nossos corações e é sempre fecunda.  Cada o dia Jesus continua semeando. Quando aceitamos a Palavra de Deus e deixamos que ela entre na nossa vida, certamente ela irá germinar, crescer e dará frutos.  Jesus nos diz que as sementes, que caíram à beira do caminho, em meio às pedras e em meio aos espinhos não deram fruto. Pode acontecer isto, também com cada um de nós. Podemos ser como as sementes que caíram à beira do caminho: escutamos o Senhor, mas na nossa vida não muda nada, continuamos no mesmo erro, nada altera.

Também pode acontecer de sermos como aquele terreno pedregoso: acolhemos Jesus com entusiasmo, mas somos inconstantes; diante das dificuldades, não temos a coragem de ir contra a corrente. Também podemos ser como aquele terreno com espinhos: o mundo acaba sufocando em nós as Palavras do Senhor. 

Todos nós, no fundo, queremos ser um terreno bom, onde a Palavra de Deus possa dar muitos frutos.  Se o semeador é Jesus e a semente é a Palavra, o terreno somos nós. E aqui está a nossa responsabilidade: tornar o nosso coração uma terra boa!  Nós seremos o terreno bom na medida em que tivermos a capacidade de nos deixar transformar pelo Evangelho, de adequar a ele nosso modo de pensar, de julgar os valores; numa palavra, de nos converter.

O Apóstolo Pedro certa vez disse a Jesus: “Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,69). Como de fato, também nós devemos estar sempre convictos de que “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4,4). A parábola do semeador e da semente nos faz um alerta sobre a importância de ouvirmos a palavra de Jesus e colocar em prática os seus ensinamentos. E que possamos ser como aquele “terreno bom” para darmos muitos frutos. Sejamos também semeadores incansáveis da paz, do perdão e da esperança.  O acolhimento do Evangelho não depende nem da semente, nem de quem semeia; mas depende da qualidade da terra.

Esta parábola deve tocar a cada um de nós e nos fazer recordar que somos o terreno onde o Senhor lança todos os dias a semente da sua Palavra e do seu amor. E podemos perguntar: Com que disposição estamos acolhendo a Palavra de Deus?  Ela está fazendo efeito em nós?  Também não podemos esquecer que, de certo modo, também somos semeadores. Deus lança sementes boas, e também aqui podemos interrogar-nos: Que tipo de semente sai do nosso coração e da nossa boca? As nossas palavras podem fazer muito bem, mas também podem fazer mal. Podem curar e podem ferir. Podem animar e podem deprimir. 

A Virgem de Nazaré soube ser o terreno bom onde a semente da Palavra de Deus foi acolhida e guardada em seu coração (cf. Lc 2,19).  Com o seu exemplo, peçamos também a ela que nos ensine a acolher a Palavra em nosso coração, em nossa vida; e que possamos cultivá-la e a fazer frutificar em nós e nos outros. Terreno bom foram também os apóstolos e os discípulos de Jesus, que acolheram a Palavra e a pregaram ao mundo e, em muitos casos, irrigaram a terra com o próprio sangue.  Podemos também lembrar de muitos Santos que souberam fazer da Palavra de Deus, uma luz para os seus caminhos.  Lembremos ainda de São Bento, que ao longo da sua vida fez da Palavra de Deus uma escuta profunda e perseverante.  Seguindo estes exemplos, saibamos ser a terra boa, onde a semente da Palavra do Senhor possa produzir muitos e muitos frutos.  Assim seja. 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – …eu vos darei descanso.

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo faz ressaltar a alegria que emerge de um coração de quem percebe a grandeza do amor de Deus.  Mas sublinha que a descoberta deste amor está reservada para os humildes e simples, tema que perpassa as leituras deste domingo. 

A primeira leitura nos faz ler um texto do livro do profeta Zacarias (cf. Zc 9,9-10), onde temos uma referência ao cortejo real: “Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta” (v. 9).  Nota-se pelo texto a humildade do rei, através da forma como ele vem montado, sobre um animal de carga, e não sobre o cavalo, como ostentavam os reis e monarcas da época. O cavalo era a montaria própria do rei que ia para a guerra, o jumento era usado quando se queria expressar um caráter amistoso.  Além disso, o texto do profeta Zacarias afirma que esse rei eliminará todo poderio militar e seu domínio difundirá a paz por toda a terra, entre todas as nações.

Na segunda leitura continuamos a ler a carta de São Paulo aos Romanos, onde o autor expõe, de forma serena e clara, a sua reflexão sobre a salvação. Na perspectiva do Apóstolo São Paulo, a salvação é um dom não merecido, porque vivemos mergulhados no pecado (cf. Rm 1,18-3,20).  Deus oferece a salvação aos homens por pura bondade, através de Jesus Cristo (cf. Rm 5,12-8,39).

O texto que hoje nos é proposto faz parte de um capítulo em que São Paulo reflete sobre a vida no Espírito. O pensamento teológico de São Paulo atinge aqui um dos seus pontos culminantes: todos os grandes temas paulinos  se cruzam neste texto. O Espírito Santo aparece como o elemento fundamental que dá unidade a toda esta reflexão. Ele está presente por detrás desse projeto salvador que Deus tem em favor do homem e do qual São Paulo não se cansa de dar testemunho.

Ora, Jesus ofereceu aos seus discípulos o mesmo Espírito. Os discípulos precisam estar conscientes de que, se viverem como Jesus e se fizerem da vida um dom a Deus e aos irmãos, receberão essa mesma vida nova e definitiva em Cristo Jesus.  São Paulo convida os cristãos a tirarem as conclusões práticas desta realidade: se viverem “segundo a carne”, morrerão, ou seja, não entrarão no Reino de Deus; mas, se viverem segundo o Espírito, ressuscitarão para a vida nova.

Temos neste texto uma das mais interessantes e sugestivas antíteses paulinas: a “carne” e o “Espírito”. Viver “segundo a carne” é, na perspectiva de Paulo, viver em oposição a Deus, ou seja, viver fechado a Deus, alheio aos ensinamentos do Senhor e aos seus mandamentos. Enquanto que “viver segundo o Espírito” é viver em relação com Deus, escutando as suas propostas e sugestões, na obediência aos projetos de Deus e na doação da própria vida aos necessitados.

A passagem evangélica, por sua vez, nos traz um convite consolador de Jesus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (v. 28).  É também um convite a ir ao encontro de Jesus e a aceitar os seus ensinamentos. Jesus promete dar a todos o descanso, mas sob uma condição: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (v. 29).

Entre os fariseus do tempo de Jesus, a imagem do “jugo” era aplicada à Lei de Deus, a suprema norma de vida (cf. Eclo 6,24-30).  Entende-se como jugo, uma estrutura ou barra de madeira que é colocada sobre um ou dois animais que estejam puxando uma carga pesada. O jugo equilibra a carga, tornando-a mais fácil de ser levada. Além de seu significado literal, o conceito de jugo também aparece em muitas escrituras como metáfora de escravidão ou servidão (cf. Jr 28,2). 

Para os fariseus, por exemplo, a Lei não era um “jugo” pesado, mas um “jugo” glorioso, que devia ser carregado com alegria.  Na realidade, tratava-se de um “jugo” pesadíssimo. A impossibilidade de cumprir, no dia a dia, os 613 mandamentos da Lei escrita e oral, criava consciências pesadas e atormentadas. Os crentes, incapazes de estar em regra com a Lei, sentiam-se condenados e malditos, afastados de Deus e indignos da salvação. A Lei aprisionava em lugar de libertar e afastava os homens de Deus ao invés de os conduzir para a comunhão com Ele.

Os “sábios e inteligentes” estavam convencidos de que o conhecimento da Lei lhes dava o conhecimento de Deus. A Lei era o canal de união com Deus; por isso, apresentavam-se como detentores da verdade, representantes legítimos de Deus, capazes de interpretar a vontade e os planos divinos. 

Mas o “jugo” de Cristo é a lei do amor, é o seu mandamento, deixado por ele aos seus discípulos (cf. Jo 13,34; 15,12). O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. 

No evangelho deste domingo Jesus faz um convite aos humildes para que aceitem o seu “jugo”, que é o descanso e a tranquilidade.  Como de fato, mansidão e humildade são duas virtudes postas em prática por Jesus, ao longo de seu ministério.  Jesus também quis nos ensinar este caminho.  Ele se fez manso e humilde para poder dizer-nos: Aprendei de mim (v. 29). 

Por isto, só quem se entrega a Deus, pelo ato de total abandono que é o amor, pode ser assumido pela graça que nos dá a real participação no reino de Deus, que sempre se inicia e se planifica no amor.  Por isso também, seu jugo é leve, porque nos liberta do farto da morte e nos faz participantes da vida de Deus.  Só o divino amor, que opera em nós a fé, pode nos fazer andar até ele: “Vinde a mim, todos vós” (v. 28).

Um dos mais belos frutos da humildade é esse que está no evangelho deste domingo: o ter os olhos abertos para entender as verdades de Deus, enquanto que os soberbos e os arrogantes e aqueles que presumem ser sábios, ficam alheios diante destes ensinamentos: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e aos doutores e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). 

Jesus repete também a tantos inteligentes e sábios honestos que existem no mundo de hoje seu convite: “Vinde a mim, todos vós, que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (v. 28).  E que este convite possa chegar também a cada um de nós.

Peçamos ao Senhor que ele nos conceda também um coração puro e simples, desprendido e disponível para o outro.  Um coração capaz de olhar com amor misericordioso para todos, sem julgar ninguém. Um coração puro e simples, capaz de compreender que tudo é dom gratuito de Deus e tudo deve dar gratuitamente.  Um coração aberto ao perdão, que não seja invejoso e não guarde rancor e tudo desculpa (cf. 1Cor 13,4-7).

Que a Virgem Mãe nos ajude a ter um coração puro e simples e nos faça aprender de Jesus a verdadeira humildade, a carregar com decisão o seu jugo leve, para experimentar a paz interior e tornarmos capazes de confortar aqueles que percorrem com provações o caminho da vida.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade litúrgica dos Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja, no linguajar dos santos padres, com dois estilos diferentes para uma mesma vocação missionária.  Pedro, apóstolo dos judeus, Paulo dos gentios ou pagãos.  Originariamente o primeiro foi um singelo pescador da Galileia; o segundo, um douto fariseu de Tarso. Tocados por Cristo, converteram-se em dois apaixonados pela difusão da mensagem do Senhor até o martírio, em Roma, Pedro no ano 64 e Paulo em 67.

Pedro e Paulo foram os nossos primeiros mestres da fé e, com os trabalhos e os sofrimentos do apostolado por eles realizado, contribuíram para a expansão do cristianismo em um momento difícil, tendo em vista as perseguições da época; por isto, seguindo o exemplo do Mestre e, na certeza de uma vitória final, selaram seu testemunho com sangue; através do martírio.

O texto evangélico nos apresenta uma dupla interrogação feita por Jesus aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” e “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Jesus os convida tomar consciência desta diferente perspectiva e ouve a resposta dos seus discípulos acerca do pensamento das pessoas, que o identificam como um profeta. Isto, entretanto, não basta, é necessário aprofundar, ir além, reconhecer a singularidade da sua pessoa, a sua novidade; é preciso reconhecer Jesus como o Messias, o filho de Deus vivo.  Diante da confusa resposta, Jesus transfere a pergunta aos seus discípulos; e Pedro, tomando a palavra, responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).  Possamos também nós hoje, fazer nossa essa resposta de Pedro: “Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16).

A resposta de Pedro não é fruto de seu próprio raciocínio, mas uma revelação do Pai ao humilde pescador da Galileia, como confirma o próprio Jesus, dizendo: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16,17).  É por causa desta confissão que Jesus diz: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra construirei a minha Igreja” (v. 18).  Pedro estava tão próximo do Senhor que se tornou ele mesmo uma rocha de fé e de amor sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja. Com efeito, o Senhor conclui dizendo: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Com base nesta confissão de Pedro é conferida a ele uma tarefa particular, manifestada mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra de fundamento ou pedra angular, a das chaves e a de ligar e desligar. Mediante estas imagens sobressai claramente o fato de que Pedro é inseparável do encargo pastoral que lhe foi confiado em relação ao rebanho de Cristo, o que vem a se concretizar no encontro de Cristo ressuscitado com Pedro, conforme nos narra o Evangelho de São João, quando o Senhor Ressuscitado confia a Pedro a missão de apascentar o seu rebanho (cf. 21,15-19).

O paralelismo entre esses dois apóstolos Pedro e Paulo não pode diminuir o alcance do caminho histórico feito por Simão Pedro com o seu Mestre e Senhor que, desde o início, lhe atribuiu a característica de “rocha”.  Na verdade, Pedro será o cimento de rocha sobre a qual estará o edifício da Igreja; terá as chaves do Reino dos céus para abrir e fechar a quem lhe pareça justo; por último, poderá atar e desatar, ou seja, poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e continuará sendo de Cristo. É sempre a Igreja de Cristo e não de Pedro. 

O poder conferido a Pedro não é um poder segundo as modalidades deste mundo. É o poder do bem, da verdade e do amor. Sua promessa é verdadeira: os poderes da morte e as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja que Cristo edificou sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e que Ele, precisamente desta forma, continua a edificar.

Esta posição preeminente que Jesus quis entregar a Pedro, se constata também depois da sua ressurreição.  Por ocasião da ressurreição de Cristo, Maria Madalena corre a Pedro e a João para informar que a pedra foi removida da entrada do sepulcro (cf. Jo 20,2), e João lhe cederá o passo quando os dois chegam ao túmulo vazio (cf. Jo 20,4-6). Posteriormente, Pedro será entre os apóstolos, a primeira testemunha da aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24,34; 1Cor 15,5). No Concílio de Jerusalém, Pedro ainda desempenha uma função diretiva (cf. At 15 e Gl 2,1-10), e, precisamente pelo fato de ser a testemunha da fé autêntica, o próprio Paulo reconhecerá nele um papel de “primeiro” (cf. 1Cor 15,5; Gl 1, 18; 2,7). 

Podemos ainda ressaltar o testemunho de fé e a árdua luta que os Apóstolos Pedro e Paulo tiveram de enfrentar pela causa do Evangelho. Também nisto seguiram com fidelidade o modelo de Cristo: deram a vida em prol do Evangelho. Estes dois Apóstolos, tendo o olhar fixo no mistério pascal, não duvidaram da necessidade de anunciar o Cristo, mesmo diante das dificuldades e dos desafios: era o início da realização do plano de Deus. Era a vitória sobre as forças do mal, conquistada em primeiro lugar por Cristo e depois pelos seus discípulos, mediante a fé. E sobre esta base encontramos os fundamentos firmes da fé apostólica, sobre a qual está edificada a missão da Igreja.  A rocha representa a firmeza, não só no que se refere à duração, mas também no que tange à solidez dos seus ensinamentos, oriundos da Sagrada Escritura.

O Apóstolo Paulo, cujo nome antes da conversão era Saulo, nasceu em Tarso e foi inicialmente um fariseu zeloso, a ponto de perseguir e aprisionar os cristãos, sendo responsável pela morte de muitos deles. Mas o encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco marcou a mudança decisiva na sua vida. Realizou-se então a sua completa transformação, uma verdadeira conversão espiritual. Tornou-se, de cruel perseguidor dos cristãos, a um fervoroso apóstolo do Evangelho. A partir daquele momento, tudo o que antes constituía para ele um valor tornou-se paradoxalmente, segundo as suas palavras, perda e lixo (cf. Fl 3,7-10). A partir daquele momento todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Os Apóstolos Pedro e Paulo são testemunhas insignes da fé, dilataram o Reino de Deus com os seus diversos dons e, a exemplo do próprio Cristo, selaram com o sangue a sua pregação evangélica.  O exemplo destes grandes santos possa iluminar as nossas mentes e acender em nós o desejo de realizar todos os dias a vontade de Deus, a fim de que possamos permanecer fiéis ao Evangelho, para cujo serviço eles consagraram a sua própria vida, anunciando os ensinamentos do Cristo, caminho, verdade e vida, a todos os povos.  São Pedro e São Paulo, rogai por nós!  Amém.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – Não tenhais medo

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste domingo nos faz ler um texto do evangelho de São Mateus, onde o evangelista reúne várias recomendações pronunciadas por Jesus.  Após ter escolhido os 12 Apóstolos para enviá-los em missão e tendo conferido a eles a autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar todas as enfermidades (cf. Mt 10,1s), Jesus não os ilude prometendo sucesso e honrarias, mas pelo contrário, ressalta que eles serão enviados “como ovelhas entre lobos” (Mt 10,16). Assim como o próprio Jesus é perseguido e passará por muitos sofrimentos, também para os Apóstolos não será diferente: “Se me perseguiram, também a vós hão de perseguir…” (Jo 15,20).  Eles devem permanecer conscientes da missão e de suas exigências.

Lançando um olhar para o texto evangélico chama a nossa atenção que por três vezes Jesus fala aos Apóstolos em não ter medo: “Não temais” (v. 26), “não tenhais medo” (v. 28.31).  Ao medo se contrapõe a coragem e não faz parte da atitude cristã.  Jesus nos pede para ter coragem e perseverança diante das dificuldades. A coragem de não desanimar diante dos fracassos e frustrações. 

O verbo “temer” na Sagrada Escritura tem uma rica gama de significados. De acordo com o contexto, pode significar tanto ter medo, pavor que leva à fuga, como reverenciar ou ter temor religioso ,que leva à comunhão.  Essa expressão, dirigida aos seus Apóstolos, tem como objetivo mostrar a eles que no seguimento de Cristo, na missão a eles confiada, é necessário superar o medo da perseguição e da morte, inclusive as oposições dos próprios familiares (cf. Mt 10,34s).

O convite ao domínio sobre o medo aparece com alguma frequência tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento.  A Abraão Deus diz para não ter medo, na hora mesma que o chama para sair de sua terra e dirigir-se a um país desconhecido (cf. Gn 15,1). Aos profetas diz: “Não temas, eu estou contigo” (Is 41,10).  No momento da anunciação disse o anjo Gabriel: “Não tenhas medo, Maria!” (Lc 1,30). Na realidade, havia motivo para ela ter medo, pois era grande a sua responsabilidade, ser a mãe do Filho de Deus! Um peso acima das forças de um ser humano. Esta palavra: “Não tenhas medo!” certamente penetrou profundamente no coração de Maria. Podemos imaginar que em várias situações ele precisou superar o medo, sobretudo nos momentos difíceis pelos quais precisou passar. 

Também a Zacarias, ao anunciar o nascimento de João Batista, disse o Anjo: “Não temas!” (Lc 1,13).  O mesmo também foi dito a José: “Não temas! (Mt 1,20).  Cristo falava assim aos Apóstolos, a Pedro, em várias circunstâncias e, especialmente depois da sua Ressurreição.  E insistia: “Não tenham medo!”  Sentia com efeito que estavam com medo.  Eram temerosos porque não tinham certeza se aquele que viam era o mesmo Cristo que conheciam.  Ficaram com medo quando Ele foi preso; tiveram mais medo ainda quando, ressuscitado, lhes apareceu.

Certa vez o Apóstolo Pedro disse a Jesus: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um homem pecador!” (Lc 5,8).  Assim como Pedro nós também devemos tomar consciência desta verdade.  Somos pecadores.  Mas Cristo lhe respondeu: “Não tenhas medo!” (Lc 5,10).   Esta expressão é rica de significado e tem profundas raízes no Evangelho.  É uma exortação do próprio Cristo.  Nós não precisamos ter medo, porque ele mesmo disse: “Eu estarei convosco todos os dias” (Mt 28,20). 

Na verdade, nós vivemos inúmeros temores. Temos medo da miséria e da pobreza, medo das enfermidades e dos sofrimentos, medo da solidão e medo da morte. Na sociedade em que vivemos, temos um sistema de certezas bem desenvolvido. Mas sabemos que no momento do sofrimento profundo, na hora da última solidão da morte, nenhuma certeza poderá proteger-nos. A única certeza válida em tais momentos é aquela vinda do Senhor, a nos dizer: “Não tenhas medo, eu estou sempre contigo”. Nós podemos vacilar, mas no final caímos sempre nas mãos de Deus.

É precisamente neste contexto que o Evangelho deste domingo nos situa. Ao enviar os Apóstolos em missão, Jesus lhes assegura a sua presença, a sua ajuda, a sua proteção, a fim de que eles possam superar o medo e a angústia que resultam da perseguição. As palavras de Jesus correspondem à última bem-aventurança: “Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mt 5,11s).

No evangelho Jesus nos fala que se Deus cuida até dos pássaros, cuidará  mais ainda dos Apóstolos e de cada um de nós que somos seus filhos.  Por isso Jesus conclui afirmando: “Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (v. 30s).  Se Deus cuida dos mais insignificantes seres de sua criação, como é o caso de um humilde pardal, quanto mais se preocupará conosco, seus filhos. 

Jesus sabe que o medo é um grande impedimento ao anúncio do Evangelho e, por isso, é necessário que os Apóstolos tenham coragem para superá-lo. Mesmo se a morte vier alcançar o discípulo, por causa do testemunho, não deve ser temida, pois Deus é o Senhor da vida.  O mundo de hoje é um mundo povoado de ameaças por todos os lados, mas quem caminha com Deus não tem medo.  Isso vale para nossa vida de cada dia.  Quem está com Deus não será desamparado.

No final de cada celebração Eucarística diz o Sacerdote:  “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”. E conhecemos ainda aquela nossa frase tão familiar: “Vá com Deus” ou “Deus o acompanhe!”.  Quem caminha com Deus não caminha no escuro, por isso não tem medo.  E o próprio salmista nos ensina a dizer: “O Senhor é minha luz e minha salvação.  De quem terei medo?” (Sl 26,1).

Também não devemos ter medo de dar um testemunho da nossa vida cristã, da nossa fé.  Entre os muitos medos que nos invadem e nos atormentam, um deles é o medo religioso.  São muitos, hoje em dia, os cristãos dominados pela vergonha e são muitas vezes medrosos.  Diante de um ambiente social pouco favorável à fé cristã e inclusive difusamente hostil, uma das tentações mais frequentes do cristão é o medo disfarçado, que se manifesta, por exemplo, em um silêncio cauteloso.

O Senhor não nos promete um caminho fácil.  Não nos promete êxito e sucesso, mas nos anuncia o mesmo caminho que ele próprio percorreu: Contradições, incompreensões, perseguições.  Na realidade, se olharmos bem o caminho de Cristo e como Ele chegou até a morte de cruz, ao sermos perseguidos por sua causa é sinal evidente de que vamos por seu caminho, não pelo nosso caminho; uma vez que Ele mesmo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).  E se quisermos seguir pelo Seu caminho, como Ele nos pediu, é necessário lembrarmo-nos sempre do seu ensinamento: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

Peçamos ao Senhor o dom da perseverança no seguimento do Cristo para, com coragem e sem medo, demonstrarmos a nossa fé para a sociedade em que vivemos e que tanto necessita do nosso autêntico testemunho. Assim como Maria, que esteve fiel ao seu filho até mesmo no momento da cruz, possamos também manter a fidelidade a Ele a todo instante.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – A escolha dos doze apóstolos

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo, a Palavra que vamos refletir nos recorda a presença constante de Deus no mundo e a vontade que Ele tem de oferecer a todos a sua vida e a sua salvação. No entanto, a intervenção de Deus na história humana concretiza-se através daqueles que ele chama e envia, para serem sinais vivos do seu amor e testemunhas da sua bondade. Os textos bíblicos, que ouvimos neste décimo primeiro Domingo do tempo comum trazem para nós ricos ensinamentos e descrevem como Deus quer atuar no mundo, estabelecendo conosco laços de laços de comunhão e de familiaridade. 

Na primeira Leitura, o autor sagrado narra o pacto de Deus com Moisés e com Israel no Sinai. É uma das grandes etapas da história da salvação, um daqueles momentos que transcendem a própria história, nos quais desaparece a fronteira entre Antigo e Novo Testamento e se manifesta o desígnio perene do Deus da Aliança: o desígnio de salvar a todos mediante a santificação de um povo, ao qual Deus propõe que se torne “a sua propriedade entre todos os povos” (cf. Ex 19, 5). Nesta perspectiva, o povo é chamado a tornar-se uma “nação santa”. O modo como se deve entender a identidade deste povo manifestou-se gradualmente ao longo dos acontecimentos salvíficos já no Antigo Testamento; depois, revelou-se plenamente com a vinda de Jesus Cristo.

E seqüenciando este desejo de Deus em instaurar a salvação da humanidade, o evangelho nos narra a missão dos doze apóstolos escolhidos por Jesus. Sensibilizado pela necessidade do “rebanho sem pastor” (9,35), Jesus manda seus discípulos como operários da colheita messiânica (9,36-38). Em um primeiro momento, a missão se restringe à região de Israel (10,5), sem entrar nos povoados e cidades dos gentios espalhados na terra da Palestina e na diáspora. Depois da Ressurreição, porém, a missão se estenderá ao mundo inteiro (cf. Mc 16,15). Os discípulos devem anunciar a chegada do Reino por palavras e sinais, ou seja, curas e prodígios, assim como Jesus o fez.

 

Os doze Apóstolos não eram homens perfeitos, escolhidos pela sua irrepreensibilidade moral e religiosa. Eram discípulos de Jesus cheios de entusiasmo e de zelo, mas, ao mesmo tempo, marcados pelos seus limites humanos, às vezes até graves. Portanto, Jesus não os chamou porque já eram santos, completos, perfeitos, mas para que fossem transformados em novos homens, para com o exemplo, pudessem transformar as pessoas e a também a história.

A missão que os apóstolos recebem é a de pregar e de curar. Eles serão os colaboradores e os continuadores da missão de Jesus e deverão levar a proposta de salvação de Deus a todo o mundo.  Eles responderam positivamente a esse chamamento e seguiram Jesus; durante a caminhada que fizeram com Jesus, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus sinais. Após serem instruídos por Jesus podem agora ser enviados ao mundo, a fim de anunciar a todos a chegada do “Reino de Deus”.

No texto evangélico São Mateus explica inicialmente que a missão dos apóstolos é uma expressão da solicitude de Deus, que quer a salvação ao seu povo. O texto usa a expressão “messe” para indicar que essa missão é urgente.  O pedido que deve ser feito ao Senhor da messe é um apelo para que a comunidade contemple a missão como uma obra de Deus, que deve ser sequenciada com os seus critérios, por isso, a importância da oração. 

São Mateus também deixa claro que a iniciativa do convite é de Jesus: Ele os chamou (cf. Mt 10,1). Não há qualquer explicação sobre as razões que o levaram a essa escolha: falar de vocação e de eleição é falar de um mistério insondável, que depende de Deus e que o homem nem sempre consegue compreender e explicar. O texto ressalta ainda o número dos discípulos: “doze”. Trata-se de um número simbólico, que lembra as doze tribos de Israel que formavam o antigo Povo de Deus. Por isso, pondo os doze no centro da sua nova comunidade, Jesus faz compreender que veio para completar o desígnio do Pai celeste. Esses “doze” discípulos representam simbolicamente a totalidade do novo Povo de Deus.

Em seguida, São Mateus define a missão que Jesus lhes confiou: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8). Os espíritos impuros, as doenças e as enfermidades representam tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de chegar à vida em plenitude. A missão dos discípulos é, pois, lutar contra tudo aquilo que destrói a vida e o impede de chegar a uma felicidade plena.  Essas orientações de Jesus querem ressaltar que a palavra de Deus a ser transmitida deve ser acompanhada por uma prática transformadora.

Também o texto nos traz os nomes dos doze apóstolos: Simão Pedro; André; Tiago, filho de Zebedeu; João; Filipe; Bartolomeu; Tomé; Mateus; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o cananeu; e Judas Iscariotes. As listas apresentadas pelos vários evangelistas apresentam diferenças, seja na ordem dos nomes, seja nos próprios nomes. Em todo caso, Pedro encabeça sempre a lista e Judas a conclui.  O nome de Pedro  vem no início, talvez por ser um personagem forte e que, ao longo da caminhada com Jesus, assumiu um certo protagonismo no grupo dos discípulos.

A missão dos discípulos aparece como um prolongamento da missão de Jesus. O anúncio, que é confiado aos discípulos, é o anúncio que Jesus fazia; os gestos que os discípulos são convidados a fazer para anunciar o Reino de Deus são os mesmos que Jesus fez; os destinatários da mensagem que Jesus apresentou são os mesmos da mensagem que os discípulos apresentam. 

Como cenário de fundo desta catequese sobre o envio dos discípulos está o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Deus nunca se ausentou da história dos homens. Ele continua a construir a história da salvação e a insistir em levar o seu Povo ao encontro da verdadeira felicidade.

O Senhor Jesus continua a dizer a todos nós, e muito especialmente neste tempo de tantas inquietações, que a “messe é grande, mas os operários poucos” (Mt 10,37).  E a messe que não se recolhe a tempo, perde-se.  Para que haja muitos operários que trabalhem lado a lado e com entusiasmo neste campo do mundo, o próprio Senhor nos ensina o caminho a seguir: “Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” (Mt 10 10,37). 

Precisamos pedir com frequência ao Senhor para que possa, no povo cristão, ressurgir muitos homens e mulheres que descubram o sentido vocacional da sua vida; e sejam bons e santos operários no campo do Senhor e saibam corresponder generosamente a esse chamado.

Lancemos uma vez mais o nosso olhar para Maria, a Virgem de Nazaré, que correspondeu, mais do que qualquer outra pessoa, à vocação de Deus, que se fez serva e discípula da Palavra até conceber no seu coração e na sua carne o Cristo Senhor para oferecê-lo à humanidade. Que ela interceda sempre por nos, para que possamos permanecer no amor de Cristo e possamos dar frutos abundantes, para glória de Deus e para a salvação do mundo.  Assim seja. 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE SANTÍSSIMA TRINDADE

Caros irmãos e irmãs! 

Neste domingo que se segue ao Pentecostes, a Igreja celebra a Solenidade da Santíssima Trindade: Deus Pai, Filho e Espírito Santo: Um só Deus em três Pessoas. Acreditamos e adoramos um Deus que é Uno e Trino, que é Pai e criou todas as coisas visíveis e invisíveis, conforme professamos na oração do credo; e fez de nós homens, a mais predileta de todas as suas criaturas; pois só a nós foi dada a dignidade de sermos chamados filhos de Deus. Encontramos no Novo Testamento explícitas fórmulas trinitárias, onde manifestam as três Pessoas divinas, como no momento da anunciação do Anjo Gabriel a Maria (cf. Lc 1,32-35), no Batismo de Jesus (cf. Mt 3,16) e no momento da Transfiguração (cf. Lc 17,1-5). 

O domingo da Santíssima Trindade, de certa maneira, recapitula a revelação de Deus que aconteceu nos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, a sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo.  É também uma oportunidade para a reflexão sobre a nossa vida de batizados. Fomos batizados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, conforme a missão confiada por Jesus aos seus apóstolos: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Pelo Batismo é lavado o pecado original e, com isto, nos tornamos filhos de Deus e, concomitantemente, recebemos a graça santificante; e passamos a ser herdeiros do trono da graça divina. 

A Trindade divina começa a habitar em nós a partir do momento em que recebemos o Batismo: “Eu te batizo – diz o ministro – em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, o que recordamos todas as vezes que fazemos em nós mesmos o sinal da cruz. Fazemos este sinal antes da oração, para que nos coloquemos espiritualmente em ordem; somos chamados a concentrar em Deus o nosso pensamento, para que, pela oração, permaneça em nós o que Deus nos doou.

Através do sinal da cruz expressamos as três verdades fundamentais da nossa fé.  Quando falamos: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, proclamamos o mistério da Santíssima Trindade e levamos as pontas dos dedos da mão direita aberta, dizendo: “Em nome do Pai”, em seguida descemos com a mão na vertical e tocamos na altura do coração, continuando: “…e do Filho”; com isto ressaltamos o mistério da Encarnação: o Filho de Deus que desceu ao seio da virgem Maria. Em seguida, levando a mão direita em cada ombro, fazemos referência ao Espírito Santo.  Com isto, completamos a cruz, para indicar o modo como Jesus morreu: numa cruz, formada por uma haste vertical e uma haste horizontal.

No sinal da cruz está contido o anúncio que gera a fé e inspira a oração.  Assim, a Santíssima Trindade ocupa o centro da nossa fé. Todas as vezes que fazemos o sinal da Cruz, estamos relembrando e fazendo memória, à fé que professamos: a fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Os cristãos têm também o costume de persignar-se, fazendo três cruzes com o dedo polegar da mão direita, uma vez na testa, outra na boca e outra no peito. Existe uma explicação que nos diz que a cruz na testa é para Deus nos livrar dos maus pensamentos; na boca, para nos livrar das más palavras; e, no peito, para nos livrar das más ações.

Mas existe também um sentindo Litúrgico mais abrangente e expressivo: A cruz na testa lembra que o Evangelho deve ser entendido, estudado, conhecido; a cruz nos lábios lembra que o evangelho deve ser proclamado, anunciado, que é a missão de todo cristão; e a cruz no peito, à altura do coração, nos indica que o evangelho, acima de tudo, deve ser guardado em nós, mas também deve ser vivido, pregado e testemunhado por todos. 

Também o diácono ou o sacerdote, ao proclamar o Evangelho, deve fazer o sinal da cruz no texto a ser lido e, em seguida, persignar-se, indicando, com isso, que cada palavra pronunciada seja um despertar para cada cristão tornar-se luz e sal para o mundo. Neste momento também os fiéis repetem este mesmo gesto, para que possam se preparar para ouvir, com dignidade, a Palavra de Deus. Devemos nos colocar de pé, indicando, com essa posição, que estamos prontos para seguir, dispostos a caminhar com Jesus, para onde Ele nos levar.

Lançando um olhar para a liturgia da palavra deste domingo, deparamos com a primeira leitura tirada do Livro do Êxodo, onde temos a revelação do amor de Deus, depois de um grave pecado, cometido pelo povo que estava a caminho da terra prometida. Deus, por intercessão de Moisés, perdoa e o convida a subir novamente ao monte para receber de novo a sua lei: os dez mandamentos e renovar o pacto com o seu povo.  Moisés pede então a Deus de revelar-se, de fazer visível o seu rosto. Mas Deus não mostra sua face, revela por sua vez o seu ser pleno de bondade com estas palavras: “Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel” (Ex 34,6).

Por conseguinte, todas essas palavras “misericordioso”, “clemente” e “paciente” e “rico em bondade” nos falam de uma relação, em particular de um ser vital que se oferece, que deseja preencher todas as lacunas, todas as faltas, que quer doar e perdoar, que deseja estabelecer um vínculo sólido e duradouro com cada um de nós. Também em outros textos encontramos essa fórmula, com algumas variantes, mas sempre a insistência é colocada sobre a misericórdia e sobre o amor de Deus que nunca se cansa de perdoar (cf. Jo 4,2; Gl 2,13; Sl 86,15; 103,8; 145,8). 

Ainda no Novo Testamento, São João resume esta expressão dizendo: “Deus é amor” (cf. 1Jo 4,8). Também o Evangelho deste domingo certifica: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu único Filho” (Jo 3,16), que viveu por nós, que venceu o mal perdoando os pecados, acolhendo a todos. Mas é sobre a cruz que o Filho de Deus nos concede a participação à vida eterna, que vem comunicada com o dom do Espírito Santo.

Deus se comunica conosco e se expressa no Filho e no Espírito Santo. Mas Deus é o amor mais original; por isso os três não deixam de ser um.  E como tudo é criado segundo o amor de Deus, todo o universo tem em si o reflexo deste amor unificador.  E Jesus nos mostrou o rosto de Deus, uno na sua essência e trino nas pessoas: Deus é amor; amor Pai, amor Filho e amor Espírito Santo. Pensar que Deus é amor é muito importante para nós, porque nos ensina a amar, a doar-nos ao próximo como Jesus se doou a nós, e caminha conosco. Jesus caminha com cada um de nós pelas estradas da vida.

Nas cartas de São Paulo encontramos frequentemente a referência às três pessoas da Santíssima Trindade, como, por exemplo, na segunda carta aos coríntios, que a liturgia usa entre as fórmulas de saudação feita pelo sacerdote no início da Celebração Eucarística: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor 13,13).  Com efeito, toda a graça que nos é dada em nome da Trindade, vem do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Assim como toda a graça nos vem do Pai por meio do Filho, assim também não podemos receber nenhuma graça senão no Espírito Santo.  Realmente, participantes do Espírito Santo, possuímos o amor do Pai, a graça do Filho e a comunhão do mesmo Espírito (cf. Santo Ambrósio, Ep. 1ad serapionem, 28-30: PG 26,599).

Concluindo estas reflexões, esteja em nossos lábios a oração de Moisés, conforme nos apresenta a primeira leitura: “Senhor, caminha conosco, perdoa as nossas culpas e nossos pecados e nos acolhe como propriedade tua” (Ex 34, 9).

Peçamos o auxílio da Virgem Maria por cada um de nós, pois em seu coração humilde e repleto de fé, Deus preparou para si uma morada digna, para completar o mistério da salvação. O Amor divino encontrou nela uma correspondência perfeita e foi no seu seio, pela ação do Espírito Santo, que o Filho de Deus se fez homem para habitar entre nós. Com a sua intercessão, possamos progredir na fé e fazer da nossa vida um contínuo louvor ao Pai, por meio do Filho no Espírito Santo. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

Caros irmãos e irmãs

A Igreja celebra neste domingo o dia de Pentecostes. No Antigo Testamento, Pentecostes era uma festa agrícola: cinquenta dias depois de recolher os primeiros frutos da colheita, oferecia-se a Deus as primícias do trabalho.  Este é o motivo do nome hebraico da festa: “Pentecostes”. Era um momento de agradecer a Deus pelas primeiras colheitas; por isso era conhecida também como “Festa das Colheitas” ou “Festa das Primícias”. Era o momento adequado para levar os primeiros frutos amadurecidos ao Templo como oferenda a Deus.

Esta festa teve um desabrochar bem específico no Novo Testamento. Pouco antes da sua ascensão, Jesus disse aos discípulos: “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade” (Jo 14,16-17). Pois foi cinquenta dias depois da Páscoa que aconteceu em Jerusalém a descida do Espírito Santo, mistério de infinita significação para a Igreja. Isto realizou-se no dia do Pentecostes, quando os apóstolos estavam reunidos em oração no Cenáculo com a Virgem Maria (cf. At 1,13s). É o dom solene do Espírito Santo, sem o qual não seria completa em nós a ação do Cristo ressuscitado.  Pentecostes é o complemento da Páscoa.  É o ponto de partida para a difusão do Evangelho no mundo.

A efusão do Espírito Santo na Igreja nascente foi o cumprimento de uma promessa de Deus, muito mais antiga, anunciada e preparada em todo o Antigo Testamento. Na primeira página do livro do Gênesis, ao narrar a criação do mundo e descrever o caos inicial, se diz que “o espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,2). Era a referência a um grande vendaval cósmico e materializava o sopro vivificador de Deus, que vinha dar força e vida ao mundo que nascia.

Também a Sagrada Escritura especifica que Deus insuflou pelas narinas do homem um sopro de vida para infundir-lhe a própria vida (cf. Gn 2,7). Depois do pecado original, o espírito vivificador de Deus irá manifestar diversas vezes na história dos homens, suscitando profetas para exortar o povo eleito a se voltar para Deus e a observar fielmente os seus mandamentos. 

A primeira leitura (cf. At 2,1-11), nos faz voltar novamente ao início do Antigo Testamento, onde temos a antiga história da construção da Torre de Babel, descrita como um reino no qual os homens concentraram tanto poder que pensaram que já não precisavam de fazer referência a um Deus distante e, deste modo, eram tão fortes que podiam construir sozinhos um caminho que leva ao céu, para abrir as suas portas e pôr-se no lugar de Deus.

Enquanto os homens estavam a trabalhar juntos, construindo a torre, repentinamente deram-se conta de que estavam a construir um contra o outro. Enquanto tentavam ser como Deus, corriam o perigo de nem sequer ser mais homens, porque tinham perdido um elemento fundamental próprio da pessoa humana: a capacidade de se aproximarem, de se compreenderem e de trabalhar juntos (cf. Gn 11,1-9).

Por outro lado, a narração do Pentecostes contida no livro dos Atos dos Apóstolos, apresenta o novo curso da obra de Deus, principiado com a ressurreição de Cristo, que voltou para o Pai e agora envia o sopro divino, o Espírito Santo. Esta abertura de horizontes confirma a novidade de Cristo na dimensão do espaço humano: o Espírito Santo supera as divisões e vai além dos muros e barreiras. A contraposição entre Babel e o Pentecostes está, com efeito na afirmação de São Paulo: “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si” (Gl 5,22-23).  Por esta razão, a dispersão ocorrida em Babel se contrapõe à unidade manifestada em Pentecostes. 

O relato da descida do Espírito Santo, descrito na primeira leitura, mostra a sua ação por meio do grupo apostólico no dia de Pentecostes. O contraste entre a situação de antes e depois do dom do Espírito Santo é significativa. Antes: medo, tristeza, portas fechadas, não comunicação, dúvida, angústia, silêncio e clandestinidade, como nos relata o texto evangélico (cf. Jo 20,19).  Depois: coragem, alegria, abertura, comunicação, paz, fé, segurança e proclamação profética em plena rua.  Uma vez batizados com o Espírito Santo, são visíveis nos apóstolos a força e o dinamismo que vem do alto, que a narrativa da primeira leitura reflete.

Em Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. Três grandes elementos caracterizam a descida do Espírito Santo: o vento, o fogo, as línguas.  O vento lembra exatamente o “Espírito”, para o qual na língua hebraica se usava a mesma palavra “ruah”, que significa “vento”, “respiração”, “sopro”.  Era o termo concreto de que se usava para indicar o misterioso sopro de Deus, que é o Divino Espírito Santo.  

A chama do Espírito Santo desceu sobre os discípulos reunidos, pousou sobre cada um e acendeu neles o fogo divino, um fogo de amor, capaz de transformar. O receio desapareceu, o coração sentiu uma nova força, as línguas soltaram-se e começaram a falar com franqueza, de modo que todos pudessem compreender o anúncio de Jesus Cristo. Onde havia divisão e indiferença, surgiram unidade e compreensão.

A chama do Espírito Santo acendeu e infundiu nos apóstolos o novo ardor de Deus. Realiza-se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito:  “Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já tivesse sido ateado!” (Lc 12,49). Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os Apóstolos levaram esta chama divina até aos extremos confins da terra; abriram assim um caminho para a humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus, que com o seu fogo quer renovar a face da terra. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se consumir (cf. Ex 3,2). É uma chama que arde, mas não destrói; aliás, ardendo faz emergir a parte melhor e mais verdadeira do homem, como numa fusão faz sobressair a sua forma interior, a sua vocação à verdade e ao amor. 

Esta solenidade que celebramos deve também nos fazer redescobrir o sacramento da Confirmação e voltar a encontrar o seu valor e significado. Quem recebeu os sacramentos do Batismo e da Confirmação deve lembrar que se tornou “templo do Espírito Santo” e, por isto, deve dar frutos de santidade e torna-se um cristão completo, porque a Confirmação aperfeiçoa a graça batismal (cf. CIgC, n. 1302-1304). É mediante os sacramentos do Batismo, da Confirmação e em seguida, de modo continuativo, da Eucaristia, que o Espírito Santo nos faz filhos de Deus, membros da sua Igreja e chamados a professar a nossa fé na presença e na ação do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro.

Nesta Solenidade de Pentecostes, também nós queremos estar espiritualmente unidos à Virgem Maria, que em Nazaré o Espírito Santo desceu sobre ela, a fim de que se tornasse a Mãe de Deus (cf. Lc 1,35). Peçamos a sua intercessão sempre por nós, para que sejamos fortalecidos pela ação do Espírito Santo e saibamos viver e testemunhar com alegria mensagem do Cristo Senhor.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ