Arquivo da categoria: Homilias

Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

VI – DOMINGO DO TEMPO DA PASCOA – B – Eu vos chamo amigos…

  • Jo 15,9-17

Caros irmãos e irmãs,

Chegamos ao sexto domingo do tempo pascal e o evangelho prescrito para este dia nos situa outra vez em Jerusalém, onde Jesus se encontra com os seus discípulos. As autoridades judaicas já haviam decidido pela morte de Jesus (cf. Jo 11,45-57). A morte na cruz é o cenário imediato. E Jesus está plenamente consciente disso. Os discípulos também já perceberam estes sinais e estão apreensivos. É neste contexto que podemos situar a última ceia de Jesus com os discípulos. Trata-se de uma “ceia de despedida” e tudo o que for dito por Jesus soa a “testamento final”. Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos ficarão no mundo, continuando a sua missão. Nesse momento de despedida, Jesus recorda aos discípulos o essencial da sua mensagem e se dirige a eles como amigos, escolhidos para serem colaboradores no trabalho apostólico.

Podemos extrair deste texto evangélico muitos ensinamentos, mas concentremos a nossa atenção nestas significativas palavras de Jesus: “Já não vos chamo servos… Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (cf. Jo 15,15). Ele nos oferece a sua amizade, lembrando que não existem segredos entre amigos: Cristo nos diz tudo quando ouve o Pai; nos oferece a sua plena confiança e, com a confiança, também o conhecimento. Ele nos revela o seu rosto, o seu coração, nos mostra a sua ternura, o seu amor apaixonado que vai até à loucura da cruz.

No início do texto Jesus diz: “Já não vos chamo servos…” (v.15). Como de fato, o conceito que predominava no Antigo Testamento para indicar o relacionamento do homem com Deus era o conceito de servidão. Deus é o Senhor, nós os seus servos. Ao ser chamado por Deus, responde, por exemplo, o jovem Samuel: “Fala Senhor, que teu servo escuta” (cf. 1Sm 3,1-10). No canto do “Benedictus”, Davi é apresentado como o “servo do Senhor”. E é exatamente isto que Maria diz no momento da anunciação do anjo: “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1,38). E, no canto do “Magnificat”, Maria volta a dizer: “Porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48). Agora Jesus nos diz a consoladora palavra: “Já não vos chamo servos… Eu vos chamo amigos” (Jo 15,15).

E sobre a amizade, a Sagrada Escritura nos apresenta ricos testemunhos. O Primeiro livro de Samuel nos narra o relacionamento de Davi e Jônatas como uma das mais belas experiências de amizade (cf. 1Sm 18). O Livro do Eclesiástico frisa: “Aqueles que amam e respeitam o Senhor encontrarão o amigo fiel; Amigo fiel é proteção poderosa, e quem o encontrar, terá encontrado um tesouro. Amigo fiel não tem preço, e o seu valor é incalculável. Amigo fiel é remédio que cura, e os que temem ao Senhor o encontrarão” (Eclo 5,16; 6,14-16). O Livro dos Provérbios observa: “Em todo o tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão” (Prov 17,17).

Os amigos verdadeiros são tesouros de inestimável valor, porque tornam o homem capaz de encarar e aceitar sua real condição: a fragilidade humana. A fragilidade desempenha importante papel na vida humana. É por causa dela que os homens precisam de amigos. Não somos fracos nos mesmos pontos, assim, cada um supre e completa o outro, compensando mutuamente as carências, deficiências e fragilidades. A amizade pode ter como origem um instinto de sobrevivência da espécie, com a necessidade de proteger e ser protegido. A amizade é uma experiência sublime; sua existência na vida de um ser humano é a principal prova de que ele não está sozinho. Amigo é companheiro, uma presença que nos impulsiona e torna qualquer dificuldade mais fácil de ser vencida. Uma amizade só se constrói com base na confiança, respeito e fidelidade. É uma das mais expressivas formas de amor. É uma virtude extremamente necessária à vida. Mesmo que possuamos diversos bens, riqueza, saúde, poder, ainda assim, não serão suficientes para nossa realização plena, pois nos falta a essencial e indispensável amizade. Certamente ninguém escolheria viver sem amigos (cf. T. MERTON, Homem algum é uma Ilha, Campinas, 2003, p. 150).

Uma amizade consolidada no tempo pode nos transformar, porque, antes de tudo, o amigo nos ama como somos. É com ele que partilhamos as alegrias e as tristezas e nele encontramos o apoio que faz diminuir as nossas mágoas. O que muitas vezes os pais não conseguem, um amigo consegue fazer, sobretudo, nos corrigir. Ele atinge o coração. O amigo é capaz de dizer as coisas como elas são. Ele nos diz as verdades que não gostaríamos de ouvir. Podem ocorrer rupturas, pode surgir o afastamento, mas os dias passam e a tendência é voltar atrás. Ambos se entendem. Não conseguem ficar longe um do outro. A amizade é mais forte que o desentendimento. Muitas vezes só a amizade é capaz de nos dobrar. Ter amigos é essencial. Ser amigo é o segredo da vida e da vitória. Porque na amizade há amor, amor puro, amor fraternal.

Para Santo Agostinho a amizade é um dom de Deus. E ainda sustenta: “Nem sempre aquele que é indulgente conosco é nosso amigo, nem o que nos castiga, nosso inimigo. São melhores as feridas causadas por um amigo que os falsos beijos de um inimigo. É melhor amar com severidade a enganar com suavidade” (S. AGOSTINHO, As confissões, Livro II, cap. 9, p. 55). Para São Tomás de Aquino “a amizade diminui a dor e a tristeza” (S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica, I-II, q. 36, a. 3). Segundo Aristóteles o “amigo é um outro eu… Sem amizade o homem não pode ser feliz… O verdadeiro amigo deve ser capaz de chegar até as últimas consequências, a ponto de doar não só os próprios bens, mas também a própria vida pelo amigo” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, Martin Claret, p. 173). O dar a vida pelos amigos tem, em Jesus, um valor infinitamente superior ao que pensaram os filósofos de todos os tempos.

Jesus entende o seu amor como um amor entre amigos. Não é um amor que vem de cima, é um amor que vê no outro um igual, quando a dedicação ao outro vem antes do próprio interesse. E o auge desse amor está na morte de Jesus pelos amigos que somos nós: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,15). Jesus deu a vida pelos seus amigos. Amigos que não o tinham compreendido, que no momento crucial o abandonaram e o traíram e renegaram. O amor do amigo é, tanto para os judeus quanto para os gregos, o maior bem e o cumprimento de seu desejo mais profundo.

Jesus chama os seus discípulos de amigos. Eles já não são servos que não sabem o que o senhor faz e que não têm acesso ao coração de seu amo. O servo está distante do seu senhor, ele está sempre no escuro e temeroso, enquanto os discípulos de Jesus são por ele amados incondicionalmente. Nessa imagem da amizade, o Evangelista São João descreve o mistério da nova relação de Deus com os homens, que se tornou realidade por Jesus. Somos amigos de Deus. E quando somos amigos, o amor flui espontaneamente. Na imagem do amigo, Jesus nos mostra a nossa dignidade. Passamos a ser íntimos dele. Ele se abriu conosco, nos revelou o mistério do Pai. Com isto percebemos como somos importantes para Jesus, a ponto de entregar a sua vida por nós (cf. A. GRÜN, Jesus, porta para a vida, São Paulo, p. 128). Sob este aspecto podemos compreender as palavras de São Paulo: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35), pois “Ele me amou e se entregou por mim!” (Gl 2,20). O cristianismo eleva o conceito de amizade, onde passa a ter o caráter de dom, vocação, comunhão como fruto da amizade que Cristo viveu com o Pai, tornando-se agora o referencial para o amor humano.

Há algo comovedor nesta declaração de Jesus: “Eu vos chamo amigos”. É uma afirmação que nos emociona. Quanta dignidade para nós termos um amigo, mas uma dignidade maior está em sermos amigos de Jesus. Mas não podemos esquecer que para Jesus, a amizade está também na comunhão das vontades: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,14). Nesta comunhão realiza-se a nossa redenção: sermos amigos de Jesus é também sermos amigos de Deus. Com isto, somos chamados a uma relação pessoal, cheia de confiança e de amizade com a pessoa de Jesus. Não podemos esquecer que a verdadeira amizade com Cristo se expressa na forma de viver, por isto, precisamos nos empenhar sempre em abrir o nosso coração à amizade com Cristo. Permitamos que ele seja nosso amigo, que ele participe da nossa vida e que possamos fazer sempre a sua vontade. Assim seja.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – Permanecei em mim e eu permanecerei em voz

Jo 15,1-8

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste quinto Domingo da Páscoa nos apresenta Jesus como a verdadeira videira plantada por Deus. O texto evangélico nos exorta a permanecermos unidos a Cristo, pois é dele que recebemos a vida em plenitude.

No Antigo Testamento, a “videira” e a “vinha” eram símbolos do Povo de Deus. O vinho é símbolo da alegria e do amor. Israel é muitas vezes comparado com a vinha fecunda, quando é fiel a Deus; mas, se se afasta dele, torna-se estéril, incapaz de produzir aquele “vinho que alegra o coração do homem”, como canta o Salmo 104. A vinha verdadeira de Deus é Jesus que, com o seu sacrifício de amor, nos oferece a salvação, nos abre o caminho para fazermos parte desta vinha.

A videira, escolhida aqui como elemento de comparação, é uma das plantas mais importantes no Oriente antigo. Por trás do mistério do vinho encontra-se a realidade de que Ele se fez fruto e vinho para nós, que o seu sangue, na Eucaristia, torna realidade esta grande efetividade da videira. Jesus exorta os seus discípulos a permanecer unidos a Ele como os ramos à videira. Trata-se de uma parábola verdadeiramente significativa, porque expressa com grande eficiência que a vida cristã é mistério de comunhão com Jesus: “Quem permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Um ramo que não dá fruto é um ramo improdutivo, um ramo morto. E para dar frutos necessitamos da seiva da videira, que é Cristo. Sem Ele nada podemos fazer, porque sem a seiva os ramos secam. O segredo da fecundidade espiritual é a união com Deus, união que se realiza sobretudo na Eucaristia. Deus se torna corpo conosco e sangue conosco, com isto, permanecemos na comunhão com o próprio Deus: “Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele” (Jo 6,56).

Se aceitamos permanecer com Jesus, Ele nos introduz na sua intimidade. Então podemos dar frutos que terão o sabor de Jesus. Isso se cumpre de modo pleno na Eucaristia, pela qual somos alimentados com o seu corpo e o seu sangue de Ressuscitado. Ele coloca em nós o poder da sua Vida, que passa pelo pão e pelo vinho, que vão vivificar cada célula do nosso corpo, isto é, cada detalhe da nossa vida, cada uma das relações que criamos com os outros.

E o trecho do Evangelho nos chama a permanecer na vinha do Senhor, a ser servidores do seu mistério. O verbo “permanecer” aparece várias vezes no evangelho. O ramo é uma extensão e um prolongamento da videira. O ramo que não permanece unido à videira, resseca e não dá fruto, é cortado e jogado ao fogo; não serve realmente para nada. Os discípulos são os “ramos” que estão unidos à “videira” que é Jesus e que dela recebem a vida. Estes “ramos”, no entanto, não têm vida própria e não podem produzir frutos por si próprios; eles necessitam da seiva que lhes é comunicada por Jesus. Por isso, são convidados a permanecer em Jesus (v. 4).

Com efeito, o ramo vive em virtude de sua união com a videira, e a construção se mantém, graças à firmeza de sua base, portanto, faltando-lhe apoio, desmoronar-se-á. Nós não devemos apenas nos unir a cristo, mas também nos incorporarmos plenamente a ele, pois qualquer separação nos causará a morte (cf. S. JOÃO CRISÓSTOMO, Homilias, PG 61-72-73). Para os discípulos, que são “os ramos”, interromper a relação com Jesus significa cortar a relação com a fonte de vida e condenar-se à esterilidade.

Por isso, o “agricultor”, Deus, atua no sentido de que o “ramo”, o discípulo, se identifique cada vez mais com a “videira”, Jesus Cristo, e produza frutos de amor, de doação e de serviço aos irmãos. A ação de Deus está no sentido de limpar o ramo, para que ele possa dar mais frutos. “Limpar” significa chamá-lo a um processo de conversão contínua que o leve a recusar caminhos de egoísmo e de fechamento, para se abrir ao amor. Dito de outra forma: a limpeza dos “ramos” se faz através de uma adesão cada vez mais fiel a Jesus e à sua proposta de amor (v. 2).

O cristão tem em Jesus a sua referência, se identifica e vive em comunhão com Ele. O cristão vive de Cristo, vive com Cristo e vive para Cristo. Precisamos ficar atentos para nunca interrompermos a nossa união com Ele e tornarmos ramos secos e estéreis; e para não sermos “ramos” secos, é preciso renovarmos a cada dia o nosso “sim” a Jesus e às suas propostas. Permanecendo nele, também as suas palavras permanecem em nós; peçamos então o que quisermos, pois tudo nos será concedido. Se o que pedimos não nos é dado, é porque não o pedimos de acordo com a nossa permanência nele (cf. S. AGOSTINHO, Tractatus 81,4: CCL 36, 531-532).

A vida de uma árvore se caracteriza pelos frutos que ela produz. Cabe aos discípulos de Cristo produzir frutos de verdade. Não é possível continuar unido a Cristo e receber a vida de Cristo, estando em ruptura com os nossos irmãos. Por isso, a Primeira Carta de João, que abre a liturgia da Palavra deste domingo, apresenta o tema do amor ao próximo. Os hereges afirmavam que o essencial da fé residia na vida de comunhão com Deus; mas, ocupados a olhar para o céu, negligenciavam o amor ao próximo (cf. 1Jo 2,9). A sua experiência religiosa era voltada para o céu, mas alienada das realidades do mundo. Para o Evangelista São João, o amor ao próximo é uma exigência central da vida cristã. Jesus demonstrou isto ao amar os homens até ao extremo de dar a vida por eles, na cruz. Também esta deve ser a atitude de cada discípulo de Jesus (cf. 1Jo 3,16). A realização plena do homem depende da sua capacidade de amar os irmãos.

O evangelista São João ainda ressalta que o amor se vive com ações concretas em favor dos irmãos (cf. v. 18). Se os nossos gestos não derramam amor sobre aqueles que caminham ao nosso lado, se não construímos a paz, se não somos arautos da reconciliação e se não defendemos a verdade, estamos a trair Jesus e a missão que Ele nos confiou. A vida de Jesus tem de transparecer nos nossos gestos e atingir o mundo e os homens, a partir de nós.

O verdadeiro “permanecer” em Cristo deve estar relacionado ao amor aos irmãos, como também na eficácia da oração, que nos garante este permanecer com ele. Cada um de nós é um ramo, que só vive se fizer crescer, a cada dia, na oração, na participação nos Sacramentos e na caridade a sua união com o Senhor. E quem ama Jesus, videira verdadeira, produz frutos de fé para uma abundância espiritual.

O evangelista São João nos ensina sabiamente de que modo estamos em Cristo e ele em nós, quando diz: “A prova de que permanecemos nele, e ele em nós, é que ele nos deu algo de seu Espírito (1Jo 4,13). Assim como a raiz faz chegar aos ramos sua seiva natural, também o Cristo Senhor concede àqueles que lhe estão unidos pela fé, o seu Espírito. Ele os conduz à santidade perfeita (cf. S. CIRILO DE ALEXANDRIA, Comentário sobre o Evangelho de São João, PG 74, 331-334).

Um caminho seguro para nos mantermos unidos a Cristo, como ramos ligados à videira, é recorrer constantemente à intercessão da Virgem Maria, para que ela possa continuar a velar sobre cada um de nós para estarmos sempre unidos à videira, que é Cristo e possamos permanecer solidamente enxertados nele, que é o caminho, a verdade e a vida. Assim seja.

  • D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
    Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DA PASCOA – Eu sou o Bom Pastor

Jo 10,11-18

Caros irmãos e irmãs,

Neste quarto domingo da Páscoa a Liturgia da Palavra nos propõe um trecho do Evangelho segundo São João, no qual Jesus é apresentado como “Bom Pastor”. É este, portanto, o tema central que a Palavra de Deus põe à nossa reflexão para este domingo. Cristo é apresentado como o modelo do Bom Pastor, que ama de forma gratuita e desinteressada as suas ovelhas, até ser capaz de dar a vida por elas.

Lançando um olhar para a história podemos constatar que no Antigo Oriente, os reis costumavam designar a si mesmos como pastores dos seus povos. No Antigo Testamento, Moisés e Davi, antes de serem chefes e pastores do Povo de Deus, foram efetivamente pastores de rebanhos. Uma das imagens mais usadas no Antigo Testamento para expressar o cuidado de Deus para com o seu povo, sobretudo o carinho com que o conduziu da escravidão do Egito para a Terra Prometida, é a imagem do pastor. Encontramos essas imagens nos livros dos profetas Isaías e Ezequiel (cf. Ez 34,12ss) e, de uma maneira muito viva, no salmo 22, onde lemos: “O Senhor é meu pastor, nada me falta”. O Salmo vai descrevendo como o pastor guia seu rebanho para verdes pastagens e para águas tranquilas; leva-o por caminhos seguros; infunde-lhe confiança pelo cajado que empunha em sua mão; e, mesmo que seja preciso atravessar um vale escuro, o rebanho não tem medo, porque sabe que está sendo bem guiado. De um lado está a dedicação total do pastor, e do outro, a confiança do rebanho.

Essas considerações que o Antigo Testamento nos revela a respeito de Deus concretizam-se plenamente em Jesus Cristo, o Deus conosco. E na liturgia deste Domingo pascal ouvimos uma vez mais proclamar que Jesus Cristo é o Bom Pastor (cf. Jo 10,11-15). O Pastor único de um só rebanho (v. 16). E o Pastor que dá a vida pelas ovelhas (vv. 15-18). O evangelho nos apresenta o retrato do Bom Pastor, tal como o próprio Cristo o delineou. Jesus faz um paralelo entre o pastor e o mercenário (v. 11-13). Existe uma grande diferença entre o comportamento de um e de outro. O mercenário é uma pessoa contratada para cuidar do rebanho de outra pessoa, e faz isto visando o seu salário; não faz por amor, como quem cuida daquilo que lhe é próprio. Limita-se a cumprir o seu contrato e determinadas obrigações, sem que o seu coração esteja com o rebanho. Ele tem uma função de enquadrar o rebanho e de o dirigir, mas a sua ação é sempre ditada por uma lógica de interesse. Por isso, quando sente que há perigo, abandona o rebanho à sua sorte, a fim de salvaguardar os seus objetivos pessoais e a sua posição. Esta comparação com o mercenário, “que não é pastor e não é dono das ovelhas” (v.12), faz ressaltar as qualidades do verdadeiro pastor, aquele que presta o seu serviço por amor e não por dinheiro. Está interessado em fazer com que as ovelhas tenham vida e se sintam felizes. A sua prioridade é o bem das ovelhas que lhe foram confiadas. Por isso, arrisca tudo em benefício do rebanho e está até disposto a dar a própria vida por essas ovelhas que ama.

O texto evangélico nos diz que Jesus é o modelo do verdadeiro pastor (v. 14-15). Ele conhece cada uma das suas ovelhas, tem com elas uma relação pessoal e única, conhece os seus sofrimentos, dramas, sonhos e esperanças. Esta relação que Jesus tem com as suas ovelhas é tão especial, que Ele até as compara à relação de amor e de intimidade que tem com o próprio Deus. Jesus também fala do conhecimento mútuo entre o pastor e o rebanho. O Verbo “conhecer”, no Evangelho de São João, como nas demais partes da Sagrada Escritura, não fica no plano intelectivo ou conceitual. É um conhecimento que cria comunhão de vida, relação pessoal, ativa, amorosa e recíproca. No caso de Jesus com os seus discípulos é tão profunda que é comparada por Ele ao mútuo conhecimento que há entre o Pai e o Filho: “Assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai, Eu dou minha vida pelas ovelhas” (v.15).

É este amor, pessoal e íntimo, que leva Jesus a pôr a própria vida ao serviço das suas ovelhas, e até a oferecer a própria vida para que todas elas tenham vida e tenham em abundância. Quando as ovelhas estão em perigo, Ele não as abandona, mas é capaz de dar a vida por elas. Nenhum risco, dificuldade ou sofrimento O faz desanimar. A sua atitude de defesa intransigente do rebanho é ditada por um amor sem limites, que vai até ao dom da vida.

Jesus insiste sobre esta característica essencial do verdadeiro pastor: “O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (Jo 10,11), o que é repetido várias vezes no texto. No final, conclui, dizendo: “É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem que recebi do meu Pai” (Jo 10,17-18). Esta é a característica qualificadora do pastor, como Jesus o interpreta pessoalmente, segundo a vontade do Pai que O enviou. A figura bíblica do pastor, que compreende principalmente a tarefa de reger o povo de Deus, de o manter unido e de o orientar, é uma função régia que se realiza plenamente em Jesus Cristo, na dimensão sacrifical, no ofertório da vida. Numa palavra, realiza-se no mistério da Cruz, ou seja, no gesto supremo de humildade e de amor.

Todos os anos a Igreja nos faz recordar esta definição que Jesus deu de si mesmo, sendo vista à luz da sua paixão, morte e ressurreição: “O bom pastor oferece a sua vida pelas ovelhas” (Jo 10, 11): estas palavras realizaram-se plenamente quando Cristo, obedecendo de maneira livre à vontade do Pai, se imolou na Cruz por cada uma das suas ovelhas.

No relato evangélico, Jesus explica ainda quem são as suas ovelhas e quem pode fazer parte do seu rebanho. Ao dizer: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz” (v. 16), Jesus deixa claro que a sua missão não se encerra nas fronteiras limitadas do Povo judeu, mas é uma missão universal, que se destina a dar vida a todos os povos da terra. Trata-se agora não só da unificação do Israel disperso, mas da unificação de todos os filhos de Deus, da humanidade da Igreja, dos judeus e dos pagãos. A missão de Jesus diz respeito à humanidade inteira e, por isso, à Igreja é confiada uma responsabilidade por toda a humanidade, a fim de que ela reconheça Deus, aquele Deus que, por todos nós, se fez homem em Jesus Cristo, sofreu, morreu e ressuscitou.

Na última aparição, pouco antes da Ascensão, Cristo ressuscitado constitui Pedro como pastor do seu rebanho. Cumpre-se então a promessa que fizera pouco antes da Paixão: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). Como bom pastor, conforme diz a tradição, Pedro também morrerá pelo seu rebanho. E às margens do lago de Tiberíades disse certa vez Jesus a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,16-17). Apascentar equivale a dirigir e governar. Pedro é constituído pastor e guia de toda a Igreja. Com isto, podemos dizer que também cada sacerdote é destinatário deste convite de Jesus no apascentar o rebanho do Senhor.

A Igreja muito deseja ter sacerdotes dignos e zelosos para sequenciar a missão que lhe foi confiada, apascentando o rebanho do Senhor. Este domingo em que lemos o Evangelho do Bom Pastor foi estabelecido como dia de orações pelas vocações, englobando tanto as vocações sacerdotais como as vocações para a vida consagrada, na qual de muitas maneiras está presente a atividade pastoral. Rezar pelas vocações é cumprir um pedido do Cristo, quando lamentou que fossem tão poucos os que trabalham na messe da Igreja e pediu que rezássemos ao Senhor, para que mande operários para nela trabalhar (cf. Mt 9,38). Os próprios candidatos ao ministério sacerdotal e ao estado religioso se sentirão motivados por nossas orações a cultivar com amor a vocação.

Com efeito, o presbítero é chamado a viver em si mesmo aquilo que Jesus experimentou pessoalmente, ou seja, a dedicar-se de maneira completa à pregação e à cura do homem de todos os males do corpo e do espírito, e depois, no final, a resumir tudo no gesto supremo do dar a vida pelos homens, gesto que encontra a sua expressão sacramental na Eucaristia, memorial perpétuo da Páscoa de Jesus.

A imagem do Bom Pastor que tomou sobre os seus ombros a ovelha perdida, que é a humanidade, e a levou de volta para o redil, tornou-se a imagem do verdadeiro Pastor, Jesus Cristo. E dentro deste contexto, contemplamos a solicitude paternal de Deus para com cada um de nós. Ele não nos deixa sozinhos! A consequência desta identificação de Jesus como verdadeiro e bom Pastor está ainda na afirmação que encontramos na segunda Leitura da liturgia da Palavra deste domingo: “Vede com que amor nos amou o Pai…” (1Jo 3,1). Peçamos a Ele que também nos conduza em seus ombros e nos carregue todos os dias; a fim de que possamos ser, por meio dele e com Ele, as melhores ovelhas do seu rebanho. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – Jesus apareceu no meio deles

Lc 24, 35-48

Meus caros irmãos,

Neste terceiro domingo do tempo pascal, a liturgia da Palavra traz mais uma vez ao centro da nossa atenção o mistério de Cristo ressuscitado. O episódio que o evangelista São Lucas nos relata no evangelho nos faz lançar o nosso olhar para Jerusalém, pouco depois da ressurreição. Os onze discípulos estão reunidos e já conhecem uma aparição de Jesus a Pedro (cf. Lc 24,34), bem como o relato do encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,35). Apesar de tudo, o ambiente é de medo, de perturbação e de dúvida, que aparece frequentemente nos evangelhos. Jesus ressuscitado não é reconhecido com facilidade. Quem consegue vê-lo sempre parece ter dúvidas. Maria Madalena o confunde com um jardineiro; os discípulos de Emaús pensam tratar-se de um viajante; os apóstolos o tomam por um fantasma; Pedro, no lago de Tiberíades, o confunde com um companheiro de pescaria. As dúvidas estão presentes em todas as aparições de Jesus após a sua ressurreição. Todos os relatos das aparições de Jesus falam das dificuldades que os discípulos sentiram em acreditar e em reconhecer Jesus após a ressurreição (cf. Mt 28,17; Mc 16,11.14; Lc 24,11.13-32.37-38.41; Jo 20,11-18.24-29; 21,1-8).

O medo e a insegurança também aparecem muitas vezes na Sagrada Escritura e, normalmente, no âmbito de uma experiência relacionada com o universo de Deus, como aconteceu com Moisés, no deserto do Sinai, quando um anjo lhe aparece na chama de uma sarça ardente (cf. At 7,30); o mesmo ocorre com Zacarias no Templo (cf. Lc 1,12) e com Maria, no momento da anunciação do anjo (cf. Lc 1,29). Tanto Zacarias como a Virgem de Nazaré ficam perturbados quando recebem o anúncio do nascimento de um filho. Também os apóstolos Pedro, Tiago e João, no momento da Transfiguração de Jesus no Monte Tabor, ficam movidos pelo medo, motivados pela experiência sobrenatural pela qual passaram. A mesma cena volta a repetir quando eles encontram com o Cristo Ressuscitado, que aparece para eles.

Na página evangélica, São Lucas narra que os dois discípulos de Emaús, regressando a Jerusalém, contaram aos Onze como o tinham reconhecido “ao partir do pão” (v. 35). E enquanto eles narravam a experiência do encontro que tiveram com o Senhor, Ele “esteve pessoalmente no meio deles” (v. 36). Mais uma vez, como tinha acontecido com os dois discípulos de Emaús, enquanto está à mesa e come, Cristo ressuscitado se manifesta, ajudando-os a compreender as Escrituras e a reler os acontecimentos da salvação à luz da Páscoa.

Visto que a ressurreição não cancela os sinais da crucifixão, Jesus mostra aos Apóstolos as mãos e os pés. E para os convencer, pede até algo para comer. Então os discípulos “Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.” (v. 42-43). Este gesto de tocar e comer nos ensina que o encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado foi um fato real e palpável. Graças a estes sinais os discípulos superaram a dúvida inicial e se abriram ao dom da fé; e esta fé permitiu que eles compreendessem o que estava escrito sobre Cristo “na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (v. 44).

É surpreendente que enquanto o grupo estava ouvindo o relato dos dois discípulos de Emaús e comenta a aparição de Jesus ressuscitado ao apóstolo Pedro, justamente quando Cristo aparece no meio deles, os discípulos sentem medo e resistem a crer no que seus olhos estão vendo. Mas eles, depois de um processo gradual de fé e com base em sua experiência e contato pessoal com o Senhor ressuscitado, acabaram por reconhecer que era o próprio Jesus de Nazaré, o mestre, que morreu e agora está vivo porque ressuscitou.

Os Apóstolos hesitam em crer na Ressurreição de Cristo. O testemunho de Maria Madalena e das outras mulheres, o de Pedro e o dos dois discípulos de Emaús, eram mais que suficientes, pois a tudo isso precedia a profecia da ressurreição, feita por Cristo, para que cressem. Há certamente, nesta conduta dos apóstolos, um grande temor, um medo de serem enganados. Ao mesmo tempo surge uma manifestação de timidez. Jesus oferece aos seus discípulos uma prova definitiva. Estando reunidos no Cenáculo, aparece a eles, para que, vendo-o, estejam convencidos da realidade de sua ressurreição.

Nas aparições temos uma catequese de Jesus para os seus discípulos, que se manifesta no gesto de mostrar as suas mãos e os seus pés com as chagas recentes de sua cruz, tocar, palpar, e até tomar parte na refeição deles, fato que não deixa de ser um sinal eucarístico, onde Jesus une o pão com a palavra, ao explicar algumas passagens da Sagrada Escritura que se referiam a Ele próprio. Assim completa o “sacramento” pascal da fé que se concretiza com a sua aparição, atestada por Maria Madalena, Pedro e pelos demais apóstolos.

O trecho do evangelho termina com as palavras: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Era uma difícil missão que Jesus lhes designava. Eles viviam ainda escondidos após a Sua morte, temerosos de serem reconhecidos pelas autoridades como discípulos do Senhor; e eis que agora Jesus lhes pede que saiam para proclamar que Ele ressuscitou dos mortos ao terceiro dia e para pregar em Seu nome a todos os povos a sua mensagem de conversão, de perdão e paz.

Os apóstolos serão testemunhas de toda esta verdade e ensinamento. Mas serão preparados com a grande força renovadora e fortalecedora de Pentecostes. Receberão o Espírito Santo. Neste tempo pascal nós também deparamos com um repetido convite de Jesus a vencer a incredulidade e a crer na sua ressurreição, porque somos chamados a também testemunhar precisamente este acontecimento extraordinário. A ressurreição de Cristo é o acontecimento central do cristianismo, verdade fundamental que se deve reafirmar com vigor em todos os tempos.

Na segunda leitura, o Apóstolo São João lembra que para conhecer Jesus Cristo, precisamos fazer a experiência do Amor: “Quem diz que conhece a Deus, mas não cumpre os seus mandamentos, é mentiroso, e a Verdade não está nele” (1Jo 2,4). E continua: “Por outro lado, o amor de Deus se realiza de fato em quem observa a Palavra de Deus. É assim que reconhecemos que estamos com ele” (1Jo 2,5). Essas narrativas nos dizem respeito, pois temos a possibilidade de reencontrar o Ressuscitado e a obrigação de testemunhar para que outros possam também encontrá-lo. E é pela vivência do amor que nós faremos que os outros o reconheçam.

Jesus nos garante a sua presença real entre nós, por meio da Palavra e da Eucaristia. Por conseguinte, assim como os discípulos de Emaús reconheceram Jesus ao partir o pão (cf. Lc 24, 35), também nós encontramos o Senhor na Celebração eucarística. Explica, a este propósito, Santo Tomás de Aquino: “É necessário reconhecer, segundo a fé católica, que Cristo está inteiramente presente neste Sacramento…” (cf. SANTO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, III, q. 76, a. 1). Santo Tomás ensina ainda que Cristo está presente nesse sacramento de dois modos: por virtude do sacramento e por natural concomitância. Por virtude do sacramento, sob as espécies ou acidentes de pão, está o corpo de Cristo, e, sob as espécies ou acidentes de vinho, está o sangue de Cristo. Pois Cristo disse: “Isto é meu Corpo”, “Este é meu Sangue”. Por natural concomitância, está na hóstia consagrada o que realmente está unido ao corpo de Cristo, isto é, seu Sangue, Alma e Divindade. E, ao Sangue, está unido, por natural concomitância, seu Corpo, Alma e Divindade. (cf. S. TOMÁS, Suma Teológica, III, q. 76, a. 1). E continua: “Deve crer-se que Cristo está todo inteiro, em cada uma das espécies do sacramento, se bem que de modo diverso (S. TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, III, q. 76, a. 2). Sob as espécies de pão, está o Corpo por virtude do sacramento, e o Sangue por real concomitância como se disse da Alma e da Divindade. Sob as espécies de vinho, está o Sangue de Cristo por virtude do sacramento, e o Corpo por real concomitância, como a Alma e a Divindade, já que agora, atualmente, não está o Sangue separado do seu Corpo, como esteve no tempo de sua Paixão e da morte. E no artigo 3 dessa mesma Questão 76, São Tomás explica que: “A substância do Corpo de Cristo está no sacramento por virtude do próprio sacramento, e sua quantidade dimensiva por real concomitância; daqui que o Corpo de Cristo está no sacramento de modo como a substância está nas dimensões, não do modo como está a quantidade dimensiva dos corpos que se ajusta à quantidade dimensiva do lugar.

É evidente que toda a natureza da substância está em cada parte das dimensões que a encerram, como em cada parte do ar está toda a sua natureza, e, em cada parte do pão, toda a natureza do pão, quer estejam o pão e o ar divididos, de fato, em partes, quer não estejam, de fato, divididos. Daqui que seja coisa clara que Cristo está todo inteiro em cada parte da espécie de pão, não só quando este é partido, mas também quando a hóstia permanece inteira” São Tomás, Suma Teológica, III, Q. 76, a. 3).

A páscoa traz também a nós uma mensagem de paz. “A paz esteja convosco” (v. 36), é o que mais uma vez repete Jesus. Prestes a se entregar pela nossa redenção, Jesus Cristo deixa aos seus discípulos a paz. Depois de sua morte, é novamente a paz que ele oferece, duradoura e eficaz. Jesus nos convida a acolher o dom da sua paz, mas também a sermos construtores da cultura da paz onde estivermos.

Que a Virgem Maria possa nos amparar com a sua intercessão, para que possamos responder com a nossa vida a proposta que Jesus nos fez, de sermos testemunhas da sua ressurreição, propagando a todos os dons pascais da alegria e da paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – A paz esteja convosco

Jo 20,19-31

Caros irmãos e irmãs

Para este domingo temos o relato do texto evangélico que nos apresenta duas das manifestações de Jesus aos seus apóstolos: uma na tarde do dia da Ressurreição, e outra, oito dias depois. Fixando inicialmente o nosso olhar na segunda aparição, somos atraídos pela reação de Tomé, porque, como ele, muitas vezes sentimos a tentação da dúvida e queremos ver sinais para nos sentirmos mais seguros na fé. Jesus compreendeu isso, mas ao mesmo tempo, proclamou o valor da fé dos que acreditam sem terem visto sinais. Estaremos nós entre os que acreditam na Palavra de Deus, como nos é transmitida pela Igreja, ou necessitamos ver para crer? Ouvimos no Evangelho: “Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam!” (Jo 20,29). São as palavras dirigidas por Jesus a Tomé, que estava ausente quando o Mestre, ressuscitado, apareceu pela primeira vez aos Apóstolos. Eles disseram a Tomé: “Vimos o Senhor” (Jo 20,25), mas Tomé, recusando-se a acreditar, diz: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (Jo 20,25).

Tomé é a figura de todos aqueles que, como ele, não receberam o anúncio da ressurreição diretamente de Jesus, mas através do testemunho dos Apóstolos. No fundo, Tomé representa todas as gerações vindas após Jesus, mas teve ele a felicidade de ver e tocar em Jesus Ressuscitado. E a visão que teve de Jesus ressuscitado foi tão forte que aumentou a sua fé, a ponto de reconhecer Jesus como seu Senhor e seu Deus: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28), exclamou.

Os Apóstolos são as testemunhas oculares da Ressurreição de Cristo e devido a este testemunho são eles os primeiros enviados: “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós” (Jo 20,21). Outros lhes sucederão, e Cristo dirá a respeito deles: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29). Por sua vez, eles tornar-se-ão testemunhas, porque acreditarão nas testemunhas oculares. E assim, de geração em geração, também todos nós somos convidados a ver, com os olhos da fé, Cristo vivo e presente no meio de nós.

O relato evangélico começa com uma saudação aos apóstolos: “A paz esteja convosco”. Esta é a saudação pascal. Jesus usa as mesmas palavras que dissera antes de morrer: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14,27). O primeiro fruto da morte redentora do Senhor foi trazer a paz aos corações angustiados. No seu nascimento, os anjos anunciaram a paz de Deus aos homens: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14). Antes de sua paixão o Senhor já nos prometera que nos deixaria a paz. Agora, vencedor da morte e mensageiro da vida, confirma sua promessa: Anuncia a paz aos Apóstolos e a todos nós.

Também no evangelho temos Jesus ressuscitado a comunicar aos Apóstolos, com seu “sopro”, o Espírito Santo e o poder de perdoar os pecados. É um verdadeiro poder exercido pela Igreja no sacramento da penitência. Vimos que Jesus “soprou”; um gesto que indica que a comunicação do Espírito Santo, antecipação parcial do dom de Pentecostes, é a comunicação da vida que Deus concede. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7, quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, a quem infundiu a vida. Com o “sopro”, conforme lemos no Livro do Gênesis, por ocasião da criação, o homem tornou-se um ser vivente; e agora, com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos, para serem transmissores de uma nova vida também aos outros, munidos pelo Espírito Santo.

Jesus transmite aos Apóstolos a energia, a força necessária para que possam sequenciar a missão de pescadores de homens, para que a salvação atinja todos os lugares e em todos os tempos da história humana: “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós” (Jo 20,21). E do poder de perdoar os pecados, conferido por Jesus aos apóstolos, está intimamente ligado ao dom do Espírito Santo, como indicam as sucessivas palavras de Jesus: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 21,22-23).

Os sacerdotes, em nome de Jesus Cristo, perdoam os fiéis arrependidos de seus pecados cometidos depois do Batismo. O sacramento do perdão foi instituído sob um duplo sentido: de paz e de alegria. A confissão é o sacramento que proclama a misericórdia do Senhor. Somente ele é capaz de desfazer a desordem causada pelo pecado e restabelecer no coração do homem a paz. Paz que designa muito mais do que a tranquilidade da ordem, mas certamente o estado do homem que vive em harmonia com Deus.

O perdão sacramental é a volta para os braços de Deus. A fórmula atual com que o sacerdote absolve o penitente lembra o Mistério da Ressurreição e a vinda do Espírito Santo. Declara que Deus, “pela morte e ressurreição de seu filho reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados” e pede que “pelo ministério da Igreja” seja concedido ao penitente “o perdão e a paz”. Por isso, o perdão dos pecados é uma festa de paz e alegria. E essa paz só pode existir mediante o perdão.

Também no decorrer da Celebração eucarística vemos sucessivos momentos em que fazemos uma referência à paz. A Santa Missa é marcada do início ao fim pela palavra paz. Uma das fórmulas de saudação que podem ser usadas pelo celebrante no início da Missa é esta: “A graça e a paz de Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam sempre convosco”. Também no final da Missa diz o celebrante: “Ide em paz”. Além disso, somos também chamados a reconciliar uns com os outros antes da comunhão, ofertando a paz aos nossos vizinhos da celebração. Esta saudação tradicional, torna-se aqui algo novo; torna-se o dom daquela paz que só Jesus pode dar, porque é o fruto da sua vitória radical sobre o mal. A “paz” que Jesus oferece aos seus amigos é o fruto do amor de Deus. Também antes da Comunhão, a liturgia põe nos lábios do sacerdote uma vibrante invocação pela paz: “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja; dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade. Vós que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo”.

Todos nós temos necessidade de saborear plenamente a riqueza e o poder da paz de Cristo! São Bento, no seu tempo, foi um grande arauto da paz, porque a acolheu na sua existência e a fez frutificar em obras de autêntica renovação cultural e espiritual. Precisamente por isso, na entrada de muitos mosteiros beneditinos, é posta como mote a palavra “pax”. Com efeito, a comunidade monástica é chamada a viver em conformidade com esta paz, que é dom pascal por excelência. Somente aprendendo, com a graça de Cristo, a combater e a vencer o mal dentro de nós e nos relacionamentos com o próximo, podemos tornar-nos construtores de paz.

Que esta paz, que também é um dos frutos do Espírito Santo, possa estar sempre em cada um de nós. E não podemos esquecer que todo cristão deve ser um agente da paz. Ser um promotor da paz significa tomar iniciativas de paz, promover a caridade, a união, o respeito e o amor. São Francisco de Assis, certa vez pediu em oração: “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz”. Que o Senhor nos dê a sua paz e faça de nós um canal a transmitir a sua paz. Que possamos derrubar os muros da inimizade, do egoísmo e nos abrir ao Espírito Santo, anunciando com a nossa vida a paz que o Cristo trouxe e quer conferir a cada um de nós.

A Virgem Maria, a quem invocamos como Rainha da Paz, interceda por nós para sermos em todos os lugares fiéis testemunhas da paz e da fraternidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

RESSURREIÇÃO DO SENHOR

Jo 20,1-9

Caros irmãos e irmãs,

Com o Domingo da Ressurreição iniciamos um novo período litúrgico, o tempo pascal. Páscoa significa “passagem”. A origem desta festa perde-se na noite dos tempos. Inicialmente, era uma festa de pastores, que no início da primavera, imolavam um cordeiro do rebanho. Os hebreus transformaram esta festa pastoril no “memorial” da libertação do Egito. Era imolado o cordeiro pascal, sinal da “passagem” de Deus, que fez passar o povo eleito da escravidão para a terra da liberdade. Para os cristãos é a festa principal do ano litúrgico, em que se “comemora” a morte de Cristo na cruz e a sua Ressurreição.

Neste domingo somos chamados a lançar o nosso olhar para o sepulcro vazio e contemplar o radiante mistério da ressurreição do Senhor. Ouvimos mais uma vez ecoar o confortador anúncio: “Cristo ressuscitou!”.

Ao celebrarmos a Ressurreição do Senhor, recordamos as palavras dirigidas pelo anjo às mulheres que choravam ao lado do túmulo vazio. Elas foram de manhã cedo ao sepulcro onde receberam do anjo a notícia que modificou o decurso da história: “Não vos assusteis. Procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui!” (cf. Mc 16, 6). Diz ainda o anjo às mulheres que tinham ido ao sepulcro: “Porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo?” (cf. Lc 24,5). Destas suas palavras, podemos tirar um ensinamento: nunca cansarmos de procurar Cristo ressuscitado, pois Ele dá a vida em abundância àqueles que O encontram. As próprias mulheres, depois de um receio inicial, sentem uma grande alegria quando encontram o Mestre vivo (cf. Mt 28,8-9).

O texto do Evangelho nos fala exatamente do primeiro impacto e das primeiras testemunhas: Maria Madalena, Pedro e o discípulo que Jesus amava. Madalena, enquanto mulher, pertencia à categoria de pessoas discriminadas, sem credibilidade oficial para os seus testemunhos. Ela é a primeira personagem a entrar em cena. É a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, quando ainda o sol não tinha nascido, na manhã do primeiro dia da semana. Este “primeiro dia” nos faz lembrar o início de uma nova realidade, um novo tempo, o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

Maria Madalena foi a primeira pessoa que Deus escolheu para dar a notícia ao apóstolo Pedro e ao outro discípulo: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram” (Jo 20,2). Pedro e o outro discípulo, onde a tradição aponta como o evangelista São João, dirigiram-se ao sepulcro, mas João chegou primeiro. E nos diz o texto bíblico que ele “viu e acreditou” (Jo 20, 8). O Apóstolo João viu o mesmo que Pedro: um túmulo vazio, com as ligaduras e o sudário. Mas João acreditou. João foi o único entre os apóstolos, que ficou junto à cruz até o fim. Deixou-se invadir por um amor sem falhas.

O texto começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, com uma chave teológica: “no primeiro dia da semana”. Significa que aqui começou um novo ciclo – o da nova criação, o da salvação definitiva. Este é o “primeiro dia” de um novo tempo e de uma nova realidade – o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

Todo o cristão é chamado a reviver esta experiência de Maria de Magdala. É um encontro que muda a vida: o encontro como um Homem único, que nos faz sentir toda a bondade e a verdade de Deus, que nos liberta do mal, não de modo superficial e passageiro, mas nos liberta radicalmente, nos cura completamente e restitui a nossa dignidade, como fez com Maria Madalena, que a restabeleceu na sua dignidade e a fez renascer, libertando-a do mal; concedendo-lhe um futuro novo e uma vida nova.

Inicialmente, os discípulos acreditaram que a morte tinha triunfado e pensavam que Jesus estava prisioneiro do sepulcro. A comunidade nascida de Jesus era, em consequência, uma comunidade perdida, desorientada, insegura, desamparada, que ainda não descobrira que a morte tinha sido derrotada. Por isso, procurou Jesus no túmulo, mas, diante do sepulcro vazio, tomou consciência da ressurreição e percebeu que a morte não tinha vencido Jesus.

Saulo de Tarso, outrora temido perseguidor dos cristãos, a caminho de Damasco encontrou Cristo ressuscitado e foi por Ele “conquistado”. Aconteceu em Paulo aquilo que ele há de escrever mais tarde aos cristãos de Corinto: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação; vazia também é a vossa fé” (1Cor 15,14). A ressurreição de Jesus constitui artigo fundamental da fé cristã. Na verdade, talvez queira alguém pensar que a mensagem do cristianismo é tão rica e bela que ela pode dispensar o anúncio da ressurreição de Jesus. Verifica-se, porém, que nos escritos do Novo Testamento e nos da imediata Tradição cristã é tal a ênfase na ressurreição de Jesus que ela deve ocupar lugar primordial e indispensável no conjunto das verdades da fé.

Santo Agostinho também afirmou: “Resurrectio Domini, spes nostra”, ou seja: “a ressurreição do Senhor é a nossa esperança” (cf. S. AGOSTINHO, Sermão 261,1). Cristo ressuscitou para nos dar a esperança. Desde a alvorada de Páscoa, uma nova primavera de esperança invade o mundo; desde aquele dia, a nossa ressurreição já começou, porque a Páscoa indica o início de uma nova condição: Jesus ressuscitou para que Ele mesmo viva em nós, e, nele, possamos já saborear a alegria da vida eterna.

É isto que a Igreja proclama com alegria: anuncia a esperança, que Deus tornou inabalável e invencível ao ressuscitar Jesus Cristo dos mortos; comunica a esperança, que ela traz no coração e quer partilhar com todos. Esperança, para que guie a humanidade para o porto seguro da salvação que é o coração de Cristo, a Vítima pascal, o Cordeiro que redimiu o mundo. O Ressuscitado precede-nos e acompanha-nos pelas estradas do mundo. É Ele a nossa esperança, é Ele a verdadeira paz do mundo.

E, a partir desse tempo pascal, volta a ressoar o cântico do Aleluia, palavra hebraica universalmente conhecida, que significa “Louvai o Senhor”. O aleluia desabrochou nos corações dos primeiros discípulos de Jesus naquela manhã de Páscoa, em Jerusalém. Deixemos que o aleluia pascal se imprima profundamente também em nós, como expressão de uma vida de união com o Cristo Ressuscitado, a quem devemos louvar e agradecer pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós. Celebrar a Páscoa é celebrar a concretização do amor de Deus por nós. Celebrar a Páscoa é também encontrar ou reencontrar a alegria interior, dar testemunho desta alegria e ser construtor do amor e da paz.

A Virgem Maria, que esteve junto de seu divino Filho em cada momento da sua vida, interceda sempre por cada um de nós e nos faça acolher com fé o dom da Páscoa e, assim como Maria Madalena, sejamos também nós testemunhas do Senhor ressuscitado para todas as pessoas que encontrarmos. Assim seja.

VI DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Domingo de Ramos

Mc 14,1-15,47

Caros irmãos e irmãs,

A celebração da Semana Santa é sempre um momento propício para uma rica catequese, que já impressionava os cristãos desde os primeiros séculos. Celebrar a Semana Santa é reviver aquilo que constitui o coração da História: O mundo salvo por Cristo, pela sua obediência até a morte de cruz. A Semana Santa, que começa com o domingo de Ramos, atualiza na comunidade cristã os mistérios centrais da Redenção: Paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo e, por esta razão, deve alcançar entre nós o nível de uma autêntica vivência da fé. Toda a nossa vida é, em certo sentido, uma contínua Semana Santa, pois somos sempre chamados a ouvir o convite que Jesus dirigiu aos seus discípulos no horto das Oliveiras: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38).

A ação litúrgica deste domingo começa com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, como o Messias, montado em um jumentinho, segundo fora profetizado há muitos séculos antes (cf. Zc 9,9). Como nos narra o texto evangélico deste domingo (cf. Mc 11,1-10), Jesus chega a Jerusalém vindo de Betfagé e do Monte das Oliveiras, isto é, seguindo a estrada por onde deveria vir o Messias. Naquele momento, o entusiasmo apodera-se dos discípulos e também dos outros peregrinos. Muitos pegam os seus mantos e colocam sobre o jumentinho, enquanto os ramos de árvores são postos nos caminhos por onde Jesus iria passar.

Nesta entrada de Jesus em Jerusalém as pessoas recitam um versículo do Salmo 118: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mt 21,9). Esta aclamação festiva, transmitida pelos quatro evangelistas, é um brado de bênção, um hino de exultação que exprime a convicção unânime de que, em Jesus, Deus visitou o seu povo e que o Messias finalmente chegou.

Jesus entra na Cidade Santa montado em um jumento, animal típico das pessoas simples do campo e, além disso, um jumento que não lhe pertencia, mas que Jesus havia pedido emprestado para esta ocasião, o que não o assemelhava aos poderosos do mundo, mas o fazia chegar de forma simples e humilde. O Evangelista João narra, inicialmente, que os discípulos não O compreenderam. Somente depois da Páscoa entenderam que Jesus, agindo deste modo, estava a cumprir os anúncios dos profetas, compreenderam que o seu agir derivava da Palavra de Deus e que a levava ao seu cumprimento.

O Domingo de Ramos é o grande portal de entrada na Semana Santa, semana em que o Senhor Jesus caminha até ao ponto culminante da sua existência terrena. Ele sobe a Jerusalém para dar pleno cumprimento às Escrituras e ser pregado no lenho da cruz, o trono de onde reinará para sempre, atraindo a Si a humanidade de todos os tempos e oferecendo a todos o dom da redenção. Sabemos, pelos Evangelhos, que Jesus dirigiu-se para Jerusalém juntamente com os Doze e que, pouco a pouco, se foi unindo a eles uma multidão cada vez maior de peregrinos. São Marcos ressalta que, já na saída de Jericó, havia uma “grande multidão” que seguia Jesus (cf. Mc 10, 46). Assim também nós, pela procissão que realizamos neste dia, fazemos dele um dia particular em que devemos ir ao encontro de Cristo, desejando acompanhá-lo pelas nossas cidades, a fim de que Ele permaneça conosco e possa estabelecer sua morada em nós.

A liturgia deste domingo tem seu ápice na leitura da narrativa da paixão do Senhor (cf. Mc 14,1-15,47). Para muitos cristãos é a única ocasião que têm para ouvir, no decurso de uma assembleia litúrgica, esta parte do Evangelho. A celebração se abre com o “Hosana!” E culmina com o “Crucifica-o!” Mas o texto evangélico nos convida a contemplar a paixão e morte de Jesus: É o momento supremo de uma vida feita a serviço do homem. O relato do Evangelista São Marcos está fundamentado em acontecimentos concretos e apresenta Jesus como o Filho de Deus que aceita cumprir o projeto do Pai, mesmo quando esse projeto passa por um destino de cruz.

Pode-se destacar ainda no relato da paixão apresentado por São Marcos, o interrogatório ao qual Jesus é submetido no palácio do sumo sacerdote. Em um certo momento Jesus não hesita em esclarecer os fatos e em deixar clara a sua divindade. Quando o Sumo sacerdote perguntou a Jesus diretamente se Ele era “o Messias, o Filho de Deus bendito” (Mc 14,61), Jesus responde imediatamente: “Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo poderoso vir sobre as nuvens do céu” (Mc 14,62). A expressão “eu sou” (egô eimi) nos leva ao nome de Deus no Antigo Testamento: “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14). Na perspectiva do evangelista São Marcos, esta é a afirmação que confirma a divindade de Jesus. A referência ao “sentar-se à direita do Todo poderoso” e ao “vir sobre as nuvens” sublinha, também, a dignidade divina de Jesus, que um dia aparecerá como juiz soberano da humanidade inteira. O sumo sacerdote percebe perfeitamente o alcance da afirmação de Jesus, o que o faz manifestar a sua indignação rasgando as vestes e condenando Jesus como blasfemo.

O centurião romano, junto da cruz de Jesus, confirma: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Mais do que uma afirmação histórica, esta frase deve ser vista como uma “profissão de fé” que o Evangelista São Marcos nos convida a fazer. Depois de tudo o que foi testemunhado ao longo do Evangelho em geral, e no relato da paixão, a conclusão é óbvia: Jesus é mesmo o Filho de Deus que veio ao encontro da humanidade para lhe apresentar uma proposta de salvação.

Ao perceber a morte próxima, Jesus faz uma oração dizendo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mc 15,34). Esta oração de Jesus indica que a sua natureza humana se une a cada um de nós. Como qualquer outro ser humano, Jesus também experimenta a solidão, o abandono, o sentimento de impotência, a sensação de fracasso. No âmago do seu drama, Jesus sente que foi abandonado por Deus. Mas, com isto, parece se solidarizar com cada homem que sofre e experimenta a fragilidade, o drama e a debilidade que a vida pode oferecer. Em todos os relatos da paixão, Jesus aparece a enfrentar sozinho este abandono. São Marcos sublinha a solidão de Jesus, nesses momentos dramáticos.

Abandonado pelos discípulos, escarnecido pela multidão, condenado pelos líderes, torturado pelos soldados, Jesus percorre na solidão e indiferença de todos, o seu caminho de morte. Contudo, podemos frisar que apesar destes relatos, sublinhando como Jesus se comporta ao longo de todo o processo que conduz à sua morte, nota-se que ele nunca se descontrola, nunca recua, nunca resiste, mas está sempre sereno e digno, enfrentando o seu destino de cruz. A atitude de Jesus é a atitude de quem sabe e está decidido a cumprir a missão que o Pai lhe confiou.

Possamos nestes dias da Semana Santa estar unidos à Virgem Maria no Monte Calvário, permanecendo ela aos pés da Cruz, velando com ela o Cristo morto, aguardando também com ela o dia luminoso da ressurreição. Que ela interceda por nós e nos faça direcionar os nossos passos no caminho da verdade e do bem. Assim seja.

V DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – O grão de trigo que cai na terra e morre

Jo 12,20-33

Caros irmãos e irmãs,

Muito oportunamente a liturgia nos faz meditar um texto do Evangelho de São João para este quinto domingo da Quaresma, enquanto se aproximam os dias da Paixão do Senhor. Na medida em que peregrinamos para o fim desse tempo quaresmal, vai adquirindo figura mais nítida a meta que ela propõe: A celebração da Páscoa do Senhor. O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos propõe para este domingo nos permite ver como Jesus viveu interiormente o aproximar-se da “sua hora”. Em sua alma começou já a agonia do Getsêmani: “Agora sinto-me angustiado” (v. 27), mas sobretudo pelas palavras por Ele pronunciadas: “Pai, glorifica o teu nome”, o que indicam que a morte de Cristo é a uma prefiguração do mistério pascal, onde se realiza a sua própria glorificação.

Falando da sua já próxima morte gloriosa, Jesus usa ainda uma imagem simples e ao mesmo tempo sugestiva, tendo como referência o ambiente agrícola, refere-se ao grão de trigo para nos transmitir um ensinamento que põe luz, antes de tudo, em seu caso pessoal, e depois também no de seus discípulos: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto” (v. 24). Jesus compara-se a si mesmo com um grão de trigo que se desfaz, para produzir muitos frutos para todos.

Neste contexto, temos uma importante lição sobre o valor da renúncia e da mortificação. O que Jesus está dizendo é principalmente o anúncio de sua morte e ressurreição. É Ele esse divino grão de trigo, que vai cair no solo da morte, mas vai ressuscitar e dar vida a um infinito número de fiéis. O grão de trigo, para se transformar em espiga, deve desaparecer debaixo da terra. Ao ser colocada debaixo da terra, a semente parece perder-se e morrer, mas em seguida, aquecida pelos raios do sol, reaparece multiplicada em uma espiga que anuncia a vitória da vida.

Se o grão de trigo quer dar fruto, é preciso que ele passe pela terra onde vai apodrecer, mas o seu percurso sequencia fazendo surgir frutos. Jesus quer dar a vida, Ele escolhe passar pela morte, dando então a maior prova de seu amor pela humanidade.

Sabemos que o grão enterrado na terra sofre uma profunda transformação. O seu invólucro exterior deve rebentar e acabar por desaparecer para que o germe, até então escondido, possa crescer e produzir novos grãos. Na morte de Jesus acontece o desabrochar da Ressurreição.

Mas a história do pequeno grão de trigo ajuda também, em outro versículo, a entender a nós mesmos e o sentido de nossa existência. Depois de ter falado de trigo, Jesus acrescenta: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 16, 25). Cair em terra e morrer não é, portanto, só o caminho para dar fruto, mas também para “salvar a própria vida”, isto é, para seguir vivendo.

A morte é a capacidade do grão liberar a vida que possui. Podemos constatar a lógica humilde e paciente do grão de trigo que se abre para dar a vida. Jesus é o grão de trigo semeado para que nossa fome possa ser saciada. E através de Jesus Cristo presente no Sacramento da Eucaristia, Deus quer continuar a renovar a humanidade. Mediante o pão e o vinho consagrados, nos quais estão realmente presentes o seu Corpo e o seu Sangue, Cristo nos transforma, tornando-nos capazes, pela graça do Espírito Santo, de viver segundo a sua própria lógica de entrega, como grãos de trigo unidos a Ele e nele.

É necessário que Jesus, grão de trigo, que se faz Eucaristia, morra e dê fruto, e este fruto somos todos nós que nele acreditamos e nele temos a vida eterna. Jesus entregará ao Pai a sua vida, para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-lo, contemplá-lo e experimentá-lo como nossa Luz e nossa Vida. É o próprio Cristo que está conosco, pois Ele mesmo disse: “Eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20)

O pão, formado por muitos grãos de trigo, e o vinho, feito pela união de muitas uvas, encerram também um sentido de união: tornam-se pão os grãos moídos, tornam-se vinho as uvas esmagadas graças à união, unificação. Tudo isto indica também que nós, participantes do Banquete Eucarístico, por mais numerosos que sejamos, devemos nos tornar um só pão, um só vinho, quer dizer, devemos formar, unidos em Cristo, um só corpo, como nos diz São Paulo: “Uma vez que há um só pão, nós embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão” (1Cor 10,17).

No cenário evangélico temos ainda uma referência a alguns gregos que vieram a Jerusalém adorar a Deus no Templo; mas quiseram encontrar-se com Jesus, tomar contato com a salvação que Ele veio oferecer. Com isto, o autor do Quarto Evangelho sugere que o Templo e o culto antigo já não são mais os lugares onde o homem encontra Deus e a salvação; agora, quem estiver interessado em encontrar a verdadeira salvação deve dirigir-se ao próprio Jesus.

Estes homens gregos não se dirigem diretamente a Jesus, mas aos discípulos. Haverá aqui, talvez, um aceno à responsabilidade missionária da comunidade de Jesus, encarregada da missão de levar Jesus a todos os povos da terra. O fato de Filipe falar primeiro com André e só depois os dois irem contar o que se passa a Jesus, reflete a dificuldade com que as primeiras comunidades cristãs deram o passo para a evangelização dos pagãos. O Evangelista João quer, provavelmente, sugerir que integrar os pagãos na comunidade de Jesus não é uma decisão individual, mas uma decisão que a comunidade tomou depois de haver consultado o Senhor.

No pedido destes anônimos gregos podemos ver a sede que existe no coração de cada homem de ver e de conhecer Cristo; e a resposta de Jesus orienta-nos para o mistério da Páscoa; manifestação gloriosa da sua missão salvífica: “Chegou a hora em que será glorificado o Filho do Homem” (Jo 12,23).

A pergunta dos gregos revela muito mais do que desejavam: “Ver Jesus”. Muito possivelmente, todos querem ver Jesus. Mas o fato de apenas ver Jesus não transforma ninguém em discípulo. Sempre houve o número de pessoas que seguiam Jesus de longe. Ao tomar certa distância de alguém, estamos nos ausentando de qualquer compromisso.

A Carta aos Hebreus que a Liturgia da Palavra nos apresenta como segunda leitura para este domingo nos exorta à vivência do compromisso cristão e nos traz uma longa reflexão sobre o sacerdócio de Cristo (cf. Hb 5,7-9). O trecho apresentado se detém, sobretudo, na reação experimentada por Cristo diante do sofrimento e da morte. Ele dirigiu-se ao Pai, pedindo que o ajudasse e, se fosse possível, que o poupasse da dor e da morte (v. 7). Sentiu Ele a necessidade de invocar o Pai para descobrir a sua vontade e para ter a força necessária para cumpri-la.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria para que possamos fazer desse tempo da quaresma uma boa ocasião para “ver Jesus” e seguir fielmente os seus ensinamentos e que saibamos viver na fraternidade e na paz, sempre mais fortalecidos na fé naquele que é o princípio e fim de todas as coisas. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – O encontro de Jesus com Nicodemos

  1. Jo 3,14-21

Caros irmãos e irmãs,

No nosso itinerário rumo à Páscoa, chegamos ao quarto domingo da Quaresma, tradicionalmente designado como domingo “Laetare”, uma expressão em latim que quer dizer “alegra-te”. A Liturgia da Palavra nos convida à alegria também porque se aproxima a Páscoa, o dia da vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte. Mas também deve ser sinal de alegria para nós o “estar na casa do Senhor”, como nos diz o Sl 122: “Que alegria quando vi que me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor’” (Sl 122,1).

Mas a nossa alegria torna-se ainda mais completa, quando na Casa do Senhor, encontramos a fonte principal da alegria cristã que é a Eucaristia, que Cristo nos deixou como alimento espiritual, enquanto somos peregrinos nesta terra. A Eucaristia alimenta nos fiéis de toda época essa alegria profunda: é a presença de Deus entre nós. Ao recebermos a Eucaristia temos um encontro profundo com o Senhor. É o Cristo que também passa a ter sua morada em nós. É o Deus que passa a estar conosco.

A razão mais profunda desta alegria consiste ainda na mensagem oferecida pelas leituras bíblicas que a liturgia da Palavra nos propõe para este domingo. Elas recordam que, apesar da nossa indignidade, somos os destinatários da misericórdia infinita de Deus. É o que nos confirma o Apóstolo Paulo na segunda leitura, onde nos lembra que “Deus, rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo” (Ef 2,4-5). Para expressar esta realidade de salvação, o Apóstolo, ao lado da palavra misericórdia, “eleos”, usa a do amor, “ágape”, retomada na significativa frase de abertura da página evangélica deste domingo: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Portanto, se é infinito o amor misericordioso de Deus, que chegou a ponto de dar o seu único Filho em resgate pela nossa vida, grande é inclusive a nossa responsabilidade. Com efeito, cada um deve reconhecer que está enfermo, para poder ser curado; cada um deve confessar o próprio pecado, para que o perdão de Deus, já conferido na Cruz, possa ter efeito no seu coração e na sua vida.

No meio do nosso caminho quaresmal, neste quarto domingo da Quaresma, somos convidados a meditar sobre este tema que está no centro do anúncio cristão, isto é, o grande amor de Deus pela humanidade. As palavras, pronunciadas por Jesus durante o colóquio com Nicodemos, exprimem de modo sintético e eficaz o tema principal dessa liturgia dominical. Nicodemos é membro do Sinédrio de Jerusalém. Trata-se de um homem bondoso, que foi atraído pelas palavras e pelo exemplo do Senhor e, por isto, vai ao seu encontro.

No diálogo entre Jesus e Nicodemos encontramos três etapas. Na primeira (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus acrescenta que isso não é suficiente: o essencial é reconhecer Jesus como o enviado do Pai. Na segunda (cf. Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica ser necessário um novo nascimento, a partir “da água e do Espírito”. Na terceira etapa, Jesus descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai, tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz (cf. Jo 3,9-21).

Jesus sabe que a Cruz é o ápice da sua missão: com efeito, a Cruz de Cristo é o auge do amor, que nos concede a salvação. É Ele mesmo que nos diz no Evangelho: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3,14-15). Jesus se refere a esse episódio e o interpreta como um símbolo daquilo que está para lhe acontecer. Ele também será levantado na cruz, e todos aqueles que o contemplarem encontrarão a salvação para a sua vida.

Olhar para Jesus levantado na cruz, quer dizer acreditar nele (v. 15), isto é, aceitar com fé a mensagem que Ele, do alto da cruz, dirige para todos. Com o seu supremo gesto de amor, declara que a única maneira de realizar a própria vida é a de doá-la por amor, como Ele fez. Neste sentido, precisamos identificar a nossa vida com a de Cristo, isto é, vivê-la a serviço dos irmãos. Este é o caminho para obtermos a salvação. Assim Jesus manifesta o seu amor e indica a todos o caminho a ser percorrido para alcançar a salvação, a vida plena (v. 14). A cruz é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus por toda a humanidade.

No texto evangélico também temos uma significativa expressão pronunciada por Jesus: “Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus” (Jo 3,21). Deus continua nos exortando a erguermos os olhos para um futuro de esperança, e nos promete a força para o realizar. Como diz São Paulo na segunda leitura, Deus criou-nos em Cristo Jesus para levarmos uma vida justa, uma vida em que pratiquemos boas obras segundo a sua vontade (cf. Ef 2,10). E Ele nos criou para vivermos na luz e sermos luz para o mundo.

Jesus é a Luz verdadeira que com sua vinda ao mundo ilumina todo homem (cf. Jo 1,8). Jesus afirma ser a luz do mundo para não caminharmos nas trevas, mas para termos a luz da vida (cf. Jo 8,12). Crer na luz é se tornar filho da luz (Jo 12,36). Quem crê em Jesus não fica nas trevas, mas na luz (cf. Jo 12,46). Devemos praticar, pois, a verdade. Precisamos irradiar a luz da fé, da esperança e do amor nas nossas famílias e nos ambientes em que fizermos presença. Saibamos ser testemunhas da verdade santa que torna livres todas as pessoas.

Saibamos crescer na amizade com Jesus, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6): uma amizade nutrida e aprofundada através da oração humilde e perseverante. Procuremos conhecer a vontade de Deus a nosso respeito, ouvindo diariamente a sua palavra e permitindo que esta Palavra penetre em nosso coração, para dar copiosos frutos.

O Evangelho desse domingo também nos ensina que uma verdadeira reconciliação só pode ser fruto de uma conversão, de uma mudança do coração, de um novo modo de pensar. Só a força do amor de Deus pode mudar os nossos corações e fazer-nos triunfar sobre o poder do pecado e do erro. Quando estávamos “mortos pelos nossos pecados” (cf. Ef 2,5), o seu amor e a sua misericórdia deram-nos a reconciliação e a vida nova em Cristo.

Muitas vezes somos mais inclinados às trevas do que à Luz, porque estamos apegados aos nossos pecados. Mas só quando nos abrirmos à Luz, só confessando sinceramente as nossas culpas a Deus, encontraremos a paz verdadeira, a alegria autêntica. Então, é importante nos aproximarmos com regularidade do Sacramento da Penitência, em particular neste tempo da Quaresma, para receber o perdão do Senhor e intensificar o nosso caminho de conversão.

Peçamos também à Virgem Maria, aquela que na Ladainha invocamos como “causa de nossa alegria”, para que possamos “apressar” os nossos passos para este encontro com Cristo; este encontro que só traz alegria e paz ao nosso interior. Que ela interceda sempre por nós e nos direcione no caminho do bem e da santidade. Assim seja.
D. Anselmo Chagas de Paiva OSB

III DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Os vendilhões do templo

Jo 2,13-25.

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra nos apresenta como primeira leitura os dez mandamentos, um importante tema para nossa meditação neste tempo quaresmal (cf. Ex 20,1-3.7-8.12-17). Os mandamentos da lei de Deus são normas que sintetizam a vida moral de cada cristão. São preceitos divinos, através dos quais, são construídos o fundamento e o alicerce sobre os quais se formará e erguerá a estrutura equilibrada e firme da vida terrena do homem em relação a Deus, à família, à sociedade, e aos indivíduos de um modo geral.

No conjunto, forma essa lei fundamental que está na consciência de toda a humanidade e que, se faltasse, tornaria impossível uma convivência pacífica e honesta entre os homens. No Monte Sinai esta Lei é transmitida pela autoridade pessoal de Deus. No fim da exposição da Lei, feita por Moisés, o povo se comprometeu a cumpri-la e foram todos aspergidos com o sangue dos novilhos imolados. Era a promulgação da carta nacional e religiosa de um novo povo.

Os dez mandamentos foram prescritos em tábuas de pedra, e foram conservadas na Arca, chamada, por isso mesmo, a “Arca da Aliança”. Jesus atestou a perenidade do Decálogo, que é o conjunto dos dez mandamentos de Deus, pois ele mesmo os praticava e era a base da sua pregação. Fiel às Escrituras e conforme o exemplo de Jesus, a Igreja reconheceu no Decálogo um significado e uma importância primordiais. O Decálogo forma uma unidade orgânica, onde cada mandamento remete a todo o conjunto. Transgredir um mandamento é infringir toda a Lei. Esta Lei é uma instrução paterna de Deus, na qual são apresentados os caminhos para a felicidade e para a harmonia entre as pessoas, com base no respeito mútuo, com a finalidade de gerar uma boa convivência entre as pessoas.

E a Quaresma é o tempo favorável para tudo isto, é o tempo da renovação interior, do perdão dos pecados, um tempo em que somos chamados a reconciliação com Deus e também com o nosso próximo; um tempo de descobrir de novo o Sacramento da Penitência e da Reconciliação, que nos faz passar das trevas do pecado para a luz da graça e da amizade com Jesus. Não podemos esquecer o grande vigor que este Sacramento tem para a vida cristã: ele nos faz crescer na união com Deus, fazendo-nos recuperar a alegria perdida e experimentar a consolação de nos sentirmos acolhidos pessoalmente pelo abraço misericordioso de Deus.

O Evangelho deste terceiro domingo do tempo da quaresma nos mostra Jesus expulsando do templo de Jerusalém os vendedores de animais e os cambistas. É uma das poucas vezes em que o Evangelho nos mostra uma cena onde aparece a cólera de Jesus, motivada pelo desrespeito de muitos pela Casa de Deus. Tínhamos a convicção de que Jesus se mantivesse sempre calmo, manso, tranquilo, mas nessa ocasião ele mostra um aspecto diferente.

Jesus repudiou tudo aquilo energicamente, fazendo até um chicote de cordas para expulsar todos aqueles profanadores dizendo-lhes: “Tirem isso daqui! Não façam da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v. 16). Neste momento alguns judeus perguntaram: “Que sinal nos mostras para agir assim?” (v. 18). Na verdade, o sinal que Jesus dará como prova da sua autoridade será precisamente a sua morte e Ressurreição, quando responde: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19). E o próprio evangelista São João frisa: “Ele falava do templo do seu corpo” (v. 21). Os discípulos bem o reconheceram depois da Ressurreição e creram no que ele havia dito (cf. Jo 2,13-22).

A casa de oração havia sido transformada em uma casa de negócios, um covil de mercadores. Os negociantes estavam vendendo os animais para os sacrifícios prescritos pela Lei do Antigo Testamento. O templo enquanto lugar de oração, de fraternidade e de acolhida, tinha sido transformado em ponto de exploração e enriquecimento ilícito; porque, para alguns, a fé perdera a sua profundidade e os fiéis tinham-se tornado vítima da ganância dos ricos. Nisto consistia a profanação da casa de Deus. O gesto de Jesus é de limpeza, de purificação, e a atitude que Ele repudia pode ser encontrada nos textos proféticos, segundo os quais não é do agrado de Deus o culto exterior, feito de sacrifícios materiais e fundamentado em interesses pessoais (cf. Is 1,11-17; Jr 7,2-11). Este gesto de Jesus é uma exortação ao culto autêntico, à correspondência entre liturgia e vida; uma evocação válida para todas as épocas, e também hoje para nós.

Expulsando os vendedores e os animais (v. 15), Jesus queria dizer que aqueles sacrifícios não tinham mais valor. Os judeus acreditam que Deus habita no templo de Jerusalém e é ali que eles vão para oferecer-lhe sacrifícios. Julgam eles que lhe agradam o perfume do incenso e o sangue das vítimas. Mas Jesus mostra que em breve Deus constituirá para si um novo templo, no qual serão oferecidos sacrifícios que lhe agradam. No diálogo com a Samaritana, Jesus já havia dito: “…chegou a hora na qual nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Os verdadeiros adoradores lhe prestarão culto em espírito e verdade. São estes, em verdade os adoradores que ele quer” (Jo 4,21-24).

Com esta ação da expulsão dos vendilhões, Jesus pretende purificar o templo de tudo aquilo que não condiz com a casa de Deus. Para o evangelista São João o templo já não é mais importante em si mesmo, na sua grandiosidade material; a sua importância está em ser símbolo de Jesus de Nazaré. Por isso, pode até ser destruído em três dias, mas não pode ser manchado. Com a Páscoa de Jesus começa um novo culto, o culto do amor, e um novo templo que é Ele mesmo, Cristo ressuscitado, mediante o qual cada fiel pode adorar Deus Pai “em espírito e verdade” (Jo 4, 23).

A Igreja primitiva durante os primeiros séculos celebrou o culto e a Eucaristia nas casas ou nas catacumbas. Com o passar de algum tempo, mesmo na era dos Apóstolos, se tornou necessário o encontro de algum local comum para as celebrações litúrgicas. Só mais tarde sugiram as Igrejas, as basílicas e as catedrais.

Somos o corpo vivo, o templo vivo, e é o Espírito Santo quem nos dá a vida, quem nos une. A Igreja, templo e corpo, formada por todos os batizados é a manifestação visível da presença do Senhor Ressuscitado. Por isso ela celebra os sacramentos, todos decorrentes da Eucaristia, com a qual somos alimentados e nutridos. É ela, a Igreja, aquela que louva o Senhor com sua liturgia, a esposa sem ruga e sem mancha, que foi purificada pelo próprio esposo, o Cordeiro Imolado.

O Apóstolo São Paulo nos ensina: “Vosso corpo é templo do Espírito Santo; portanto, glorifiquem a Deus com vosso corpo” (1Cor 6,17). Com a vida de Jesus, o Templo de Jerusalém estava para perder seu sentido. O verdadeiro lugar de adoração de Deus é agora o próprio corpo glorificado de Jesus: “O templo reconstruído em três dias” (v. 19). Jesus é o centro do culto em espírito e verdade. Jesus ressuscitado é o templo do novo culto. Toda oração e toda oferenda a Deus devem ser feitas, a partir de então, em Cristo Jesus, para que sejam um culto espiritual vivo, santo e agradável a Deus (cf. Rm 12,1).

Saibamos também nós, enquanto membros de Cristo, ter para com a casa de Deus o mesmo zelo que Jesus demonstrou ter. Que o Senhor nos faça percorrer este tempo quaresmal seguindo um itinerário de conversão e de penitência, para podermos eliminar da nossa vida todo o pecado, purificando assim o nosso corpo que é templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,17). Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ