Arquivo da categoria: Homilias

Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

II domingo do tempo do advento – C – Preparai os caminhos do senhor!

Lc 3,1-6

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo do advento, a Liturgia da Palavra nos faz um apelo à conversão, à renovação, no sentido de eliminar todos os obstáculos que impedem a chegada do Senhor ao nosso mundo e ao coração dos homens. Esta missão é uma exigência que é feita a todos os batizados, chamados a dar testemunho da salvação que Jesus Cristo veio trazer.

Lançando inicialmente um olhar para a primeira leitura, retirada do livro do Profeta Baruc, seu conteúdo sugere que o “caminho” de conversão é um verdadeiro êxodo da terra da escravidão para a terra da felicidade e da liberdade. Durante o percurso, somos convidados a despir-nos de todas as cadeias que nos impedem de acolher a proposta de uma vida nova que Deus nos faz. Somos convidados a viver este tempo numa serena alegria, confiantes no Senhor que não desiste de nos apresentar uma proposta de salvação, apesar dos nossos erros e dificuldades.

A reflexão sobre este texto pode ser feita lembrando que o advento é um tempo favorável, que nos possibilita sair da terra da escravidão para a terra da liberdade. Neste tempo somos especialmente confrontados com as cadeias que ainda nos prendem e somos convidados a percorrer um novo caminho de regresso à cidade nova da alegria e da paz. Uma das frases da Primeira Leitura nos diz: “Vê os teus filhos… estão cheios de alegria porque Deus se lembrou deles” (Br 5,5). E é exatamente nesta atmosfera de alegria e de confiança serena na ação salvadora do nosso Deus que somos convidados a viver este tempo de mudança e a preparar a vinda do Senhor.

O Evangelho apresenta o profeta João Batista, a nos convidar a uma transformação total quanto à forma de pensar e de agir, quanto aos valores e às prioridades da vida. Para que Jesus possa caminhar ao encontro da humanidade é necessário que os corações estejam livres e disponíveis para acolher a Boa Nova do Reino. É esta missão profética que Deus continua, hoje, a confiar-nos.

Antes de começar a descrever a ação salvadora de Jesus no meio dos homens, São Lucas vai apresentar João Batista, o profeta que veio preparar a chegada do Messias de Deus. O evangelista começa por situar o quadro de João Batista num determinado enquadramento histórico. Nomeia 7 personagens, desde o imperador Tibério César, até ao sumo sacerdote Caifás, num esforço de situar no tempo os acontecimentos da salvação. É uma história concreta, com acontecimentos concretos, que podem ser ligados a um determinado momento histórico vivido. A figura de João Batista aparece como “uma voz que grita no deserto” a exortar-nos a preparar os caminhos do coração para que o Cristo Jesus possa ir ao encontro de cada homem.

E o evangelista São Lucas situa num espaço geográfico a atividade profética de João: ele prega em “toda a região do rio Jordão”. Trata-se de uma região bastante povoada, sobretudo depois das construções de Herodes e de Arquelau. O anúncio profético de João destina-se aos homens, que são convidados a acolher o Messias que está para fazer a sua aparição no mundo. Finalmente, concretiza-se o âmbito da missão: João “proclama um batismo de conversão, para a remissão dos pecados”. Para acolher o Messias que está para chegar, é necessário um processo de conversão que leve a um rever a vida, as prioridades, os valores; pois somente nos corações verdadeiramente transformados, o Messias encontrará lugar.

Provavelmente o batismo administrado por João era o batismo de imersão na água, um rito comum na cultura judaica. Significava a morte a um passado que ficava simbolicamente sepultado na água. Utilizava-se no âmbito civil para indicar, por exemplo, a emancipação do escravo; e, no religioso, para a conversão do recém-convertido, indicando o início de uma nova vida, ou seja, a mudança de vida: o passado de injustiça e de erros fica sepultado.

Devemos distinguir entre a figura externa e a mensagem de João. Ele se apresentava vestido como um dos antigos profetas, especialmente Isaías (cf. 2Rs 1, 8). Vestia uma túnica de pele e a amarrava com um cinto. Esta forma de vestir foi copiada pelos outros profetas. A vestimenta externa de João era um tecido de pelos de camelo, o mesmo com o qual se teciam as lonas das tendas dos nômades do deserto. Servia de proteção contra os raios solares e, como capa, o protegia da chuva. Além dessa veste extremamente rústica, havia na vida de João um outro detalhe que chamava a atenção das multidões, sua comida: gafanhotos e mel silvestre. Tudo indicava a austeridade de João e sua independência dos homens, de modo a depender unicamente de Deus.
Enquanto prosseguimos o caminho do Advento, enquanto nos preparamos para celebrar o Natal de Cristo, ressoa também em nós esta chamada de João Batista à conversão: “Arrependei-vos, dizia, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3,1-2). É um convite urgente a abrir o coração e a acolher o Filho de Deus que vem entre nós. O Pai, escreve o evangelista João, não julga ninguém, mas confiou ao Filho o poder de julgar, porque é Filho do homem (cf. Jo 5, 22.27). E é hoje, no presente, que se decide o nosso destino futuro; é com o comportamento concreto que temos nesta vida que decidimos o nosso destino eterno. No findar dos nossos dias na terra, no momento da morte, seremos avaliados com base na nossa semelhança ou não com o Menino que está para nascer na pobre gruta de Belém, porque é Ele o critério de medida que Deus deu à humanidade. O Pai celeste que no nascimento do seu Filho Unigênito nos manifestou o seu amor misericordioso, nos chama a seguir os seus passos fazendo da nossa existência um dom de amor.
Mediante o Evangelho, João Batista continua a falar através dos séculos, a cada geração. As suas palavras claras e duras ressoam também para os homens e as mulheres do nosso tempo. A “voz” do grande profeta pede que preparemos o caminho ao Senhor que vem, nos desertos de hoje, desertos exteriores e interiores, sequiosos da água viva que é Cristo.
João Batista, portanto, tem um grande papel a desempenhar, mas sempre em função de Cristo. Quanto a nós, hoje temos a tarefa de ouvir aquela voz para conceder a Jesus, Palavra que nos salva, espaço e acolhimento no coração. Neste Tempo de Advento, preparemo-nos para ver, com os olhos da fé, na Gruta humilde de Belém, a salvação de Deus (cf. Lc 3,6).
Escutemos o convite de Jesus no Evangelho e nos preparemos para reviver com fé o mistério do nascimento do Redentor, que encheu o universo de alegria; preparemo-nos para acolher o Senhor no seu incessante vir ao nosso encontro nos acontecimentos da vida, na alegria ou no sofrimento, na saúde ou na doença; preparemo-nos para encontrá-lo na sua vinda última e definitiva.

Continuemos o nosso caminho ao encontro do Senhor que vem, permanecendo prontos para o receber no coração e na vida inteira, o Emanuel, o Deus que vem habitar conosco. Confortados pela sua palavra, invoquemos a proteção materna de Maria, Virgem da esperança, que ela nos guie a uma verdadeira conversão interior, para que possamos sintonizar os nossos pensamentos e ações com a mensagem do Evangelho, e assim possamos preparar dignamente a vinda do Senhor que está para chegar. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

I DOMINGO DO ADVENTO – C – Vigiai!

Lc 21,25-28.34-36

Meus caros amigos,

Com este domingo iniciamos o Advento, formado pelas quatro semanas que precedem o Nascimento de Jesus Cristo. Um tempo litúrgico de grande sugestão religiosa, porque está impregnado de esperança e de expectativa espiritual, tempo de preparação para o Natal do Senhor. A partir deste domingo, a Igreja se veste de roxo para esperar, em atitude de vigilância, em oração e penitência, para este grande momento: A chegada do nosso Salvador.

Com a entrada do Advento a liturgia da Igreja recomeça a sua caminhada cíclica. No mundo exterior, as lojas especializadas já vão iluminando e ornamentando os seus ambientes. Ao lado disso, nossa consciência cristã é convidada a viver o espírito litúrgico deste tempo de preparação para o Natal. É uma ocasião em que o povo cristão revive o duplo movimento do espírito: por um lado, eleva o olhar rumo à meta final da sua peregrinação na história, que é a vinda gloriosa do Senhor Jesus; por outro, recorda com emoção o seu nascimento em Belém. A esperança dos cristãos orienta-se para o futuro, mas permanece sempre bem arraigada num acontecimento do passado.

A palavra “advento” significa “vinda”, “presença”. No mundo antigo indicava a visita do rei ou do imperador a uma província; na linguagem cristã refere-se à vinda de Deus, à sua presença no mundo; um mistério que envolve totalmente o cosmos e a história, mas que conhece dois momentos culminantes. São Bernardo de Claraval nos ensina que existem três dessas vindas de Jesus. A primeira ocorreu há mais de dois mil anos, na humildade de uma manjedoura, em Belém. A terceira será a vinda definitiva, no fim dos tempos, quando Jesus se assentará no trono da glória para julgar os atos da humanidade. A segunda vinda, por sua vez, é uma vinda intermediária, que pode acontecer todos os dias, por meio dos sacramentos, sobretudo pela Confissão e pela Eucaristia. E é justamente essa a vinda para a qual devemos nos preparar no tempo do Advento (cf. S. BERNARDO DE CLARAVAL, Obras completas, Madrid, 1953, p. 177).

Nada melhor para assimilarmos o verdadeiro espírito deste período de preparação para o Natal do que relembrarmos as palavras cheias de sabedoria, que aparecem no prefácio das missas das duas primeiras semanas. Referindo-se ao Divino Salvador, elas dizem: “Revestido da nossa fraqueza, Ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da Salvação. Revestido da sua glória, Ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens outrora prometidos e que hoje vigilantes esperamos”.

E as leituras deste primeiro domingo do advento nos permitem descobrir o que é, na sua realidade, este tempo: um misto de recordação, de presença e de expectativa, como é, aliás, toda a liturgia da Igreja. Expectativa é também o que ecoa do texto evangélico. Nele Jesus faz chegar até nós aquelas palavras que impregnam todo o tempo do Advento: Ficai atentos! Vigiai! O Evangelista São Lucas já nos apresenta uma proclamação de esperança: Aproxima-se o tempo da salvação do homem.

O Natal, de fato, é o primeiro passo de um caminho que vai terminar na glória da segunda vinda de Cristo. Por isso, somos convidados a Vigiar. A liturgia deste domingo nos ajuda a refletir sobre como deve ser esta atitude cristã de espera. Vigilância é a grande palavra. Porém, não uma vigilância feita de susto e de terror, mas feita de confiança em Deus que nos ama. Somos convidados à vigilância porque o Cristo está para chegar.

A palavra “vigiai” é hoje dirigida também a cada um de nós, porque cada um, na hora que só Deus conhece, será chamado a prestar contas da própria existência. Isto exige um justo desapego dos bens terrenos, um arrependimento sincero dos próprios erros, uma caridade laboriosa em relação ao próximo e uma entrega humilde e confiante a Deus.

No Advento, a liturgia nos repete com freqüência e nos assegura que Deus “vem”: vem para estar conosco, em cada uma de nossas situações; vem para viver entre nós, para viver conosco e em nós; vem para preencher as distâncias que nos dividem e separam; vem para nos reconciliar com Ele e entre nós. Ele vem na história da humanidade para tocar à porta de cada homem e de cada mulher de boa vontade, para oferecer aos indivíduos, às famílias e aos povos o dom da fraternidade, da concórdia e da paz.

No texto evangélico encontramos uma série de imperativos para nos aproximar do assombro desta espera: levantai-vos, erguei a cabeça, tende cuidado, estai acordados, ficai de pé (cf. Lc 21,34-36). Vale a pena escutar este grito do nosso coração que continuamente nos exige o milagre de uma novidade que não acabe. Acolher na nossa vida o Filho de Deus que vem ao mundo, eis o compromisso deste Advento.

O tempo do Advento nos leva a recordar Aquele que já chegou, e a acolher sua vinda incessantemente presente. Por último, prepara-nos para o dia da sua volta prometida. Este é o paradoxo da nossa fé: recordar quem veio, a partir da acolhida de quem nunca foi embora, para preparar-nos para receber quem voltará. O paradoxo consiste em que o sujeito é a mesma pessoa: Jesus Cristo. Este é o tempo que nos prepara para a celebração do Natal cristão. Levantemos! Despertemos!

O Senhor Jesus veio no passado, vem no presente e virá no futuro. Ele abraça todas as dimensões do tempo, porque morreu e ressuscitou e, compartilhando nossa precariedade humana, permanece para sempre e nos oferece a própria estabilidade de Deus. Nesta ânsia pela vinda do Senhor, sempre podemos crescer mais, para que sua chegada seja preparada do modo mais perfeito possível. Portanto, a liturgia deste domingo nos ensina o dinamismo do crescimento, com vistas ao reencontro definitivo com nosso Senhor. O cristão é aquele que, em cada dia, sente que há um caminho novo a fazer. É nesta atitude que somos chamados a viver este tempo de espera pelo Messias.

Os abalos e catástrofes cósmicos que expressam a vinda do Filho do Homem são vistos numa perspectiva de transformação do universo e do próprio homem. Por isso, a reação humana em face destas realidades tremendas não é de temor, mas de confiança, de esperança. De fato, os fiéis se erguem, levantando a cabeça em vez de se prostrarem e se curvarem, pois, reconhecem a proximidade da própria salvação (v. 28). E a vida do homem desenvolve-se no amor do Senhor, não obstante todas as dolorosas experiências da destruição e da morte, a caminho da final realização em Deus.

O Advento traz consigo o convite à paz de Deus para todos os homens. E necessário construirmos esta paz e continuamente a reconstruirmos em nós mesmos e com os outros: nas famílias, nas relações com os vizinhos, nos ambientes de trabalho e na vida da sociedade inteira.

Saibamos estar prontos a encontrar o Salvador, que vem revelar-nos o rosto do Pai celeste. Que o Senhor nos conceda a graça de iniciarmos com impulso e boa vontade o itinerário do Advento, indo com as boas obras ao encontro de Cristo, nosso Redentor.

Peçamos também à Virgem Maria, aquela que foi escolhida por Deus para ser a mãe do Salvador, que ela nos guie e nos acompanhe neste caminho do Advento. Ela espera com grande recolhimento interior o nascimento do seu Filho, que é o Messias. Todos os seus pensamentos se dirigem para Jesus, que nascerá em Belém. Assim, possamos também nós, aproveitar este tempo para uma preparação adequada na espera daquele que Vem. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXXIV – DTC – Solenidade de Cristo, Rei do Universo

Jo 18,33b-37

Caros irmãos e irmãs

Celebramos neste último domingo do tempo comum a solenidade de Cristo Rei do Universo, instituída pelo papa Pio XI, para afirmar a soberania de Jesus Cristo sobre o mundo. A Palavra de Deus que nos é proposta para este encerramento do ano litúrgico nos convida a tomar consciência da realeza de Jesus. Deixa claro, no entanto, que essa realeza não pode ser entendida à maneira dos reis deste mundo: é uma realeza que se concretiza de acordo com a vontade de Deus.

O texto evangélico nos apresenta uma cena do processo de Jesus diante de Pilatos, o governador romano da Judeia, que desempenhou o seu ofício entre os anos 26 e 36. O doloroso interrogatório começa com uma pergunta de Pilatos: “Tu és o Rei dos judeus?” (v. 33). Esta pergunta revela qual era a acusação apresentada pelas autoridades judaicas contra Jesus, que responde a esta pergunta de Pilatos dizendo: “Tu o dizes, eu sou Rei”. E acrescenta: “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (v. 37). Com esta resposta, Jesus se apresenta como o Messias que Israel esperava e confirma a sua identidade de rei (v. 36).

Jesus reforçou essa resposta, citando e aplicando a si mesmo aquilo que o profeta Daniel havia dito do Filho do homem que vem entre as nuvens do céu e recebe o reino que nunca passará, como consta na primeira leitura: “Eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam; seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7,13-14). Uma visão grandiosa na qual Cristo aparece dentro da história e acima dela, temporal e eterno. São Palavras que preveem um rei que domina de mar a mar até aos confins da terra, com um poder absoluto, que nunca será destruído. Esta visão do profeta Daniel é esclarecida e realiza-se em Cristo, o verdadeiro Messias.

No texto evangélico, observa-se ainda que Pilatos não consegue entender que um rei renuncie ao poder e à força e fundamente a sua realeza no amor e na doação da própria vida. Jesus confirma a sua realeza e define o sentido e o conteúdo do seu reinado: “Dar testemunho da verdade” (v. 37). Para o Evangelista São João, a “verdade” é a realidade de Deus. Essa “verdade” manifesta-se nos gestos de Jesus, nas suas palavras, nas suas atitudes e, de forma especial, no seu amor vivido até ao extremo do dom da vida. Essa verdade opõe-se à mentira, que é o egoísmo e o pecado, ou seja, tudo aquilo que empalidece a vida do homem e o impede de ser feliz.

Os reis deste mundo apoiam-se na força das armas e impõem aos outros o seu domínio e a sua autoridade; a realeza desses reis baseia-se no poder e na ambição, podendo gerar injustiça e sofrimento. Mas, Jesus é um rei diferente, é prisioneiro, indefeso e abandonado pelo povo. Ele não se impõe pela força, mas veio ao mundo para amar a todos e a todos servir, em total conformidade com a vontade do Pai. A realeza de Jesus procede de Deus. Na narração da Paixão, pode-se observar como os próprios discípulos, apesar de terem partilhado a vida com Jesus e ouvido as suas palavras, pensavam num reino político, instaurado mesmo com o uso da força (cf. Jo 18,10-11).

O drama que se desenrola no palácio de Pilatos é o drama da humanidade que procura onde está a verdade. Jesus disse inicialmente: “Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (v.37). A verdade só pode ser encontrada em Jesus, pois só ele é o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Mas o desenrolar deste interrogatório entre Jesus e Pilatos chega a uma conclusão dolorosa e humilhante. Jesus foi preso e é condenado ao suplício da cruz, onde encontramos o centro desse percurso de revelação da realeza de Jesus Cristo, que se concretiza no mistério da sua morte e ressurreição. Jesus entregou-se livremente à sua paixão em total obediência à vontade do Pai.

No momento em que Jesus foi pregado na cruz, os sacerdotes e os escribas zombavam e diziam: “Salva-te a ti mesmo, desce da Cruz!” (Mc 15,30). Outros diziam: “Salva-te a ti mesmo!”. Se Jesus tivesse descido da Cruz, teria cedido à tentação do príncipe deste mundo; ao contrário, ele não pode salvar-se a si mesmo precisamente para poder salvar os outros, porque entregou a sua vida por nós, por cada um de nós.

E quem compreendeu este reinado de Cristo foi um dos malfeitores que estava também pregado na cruz, conhecido como o “bom ladrão”, que tradição o identificou como São Dimas. Ele suplica: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!” (Lc 23, 42). Este bom ladrão soube aproveitar o momento e ganhou o reino dos céus.

E foi oferecendo-se a si mesmo no sacrifício de expiação que Jesus se torna o Rei do Universo, como ele mesmo declarará ao aparecer aos Apóstolos depois da ressurreição: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28, 18). Seu poder é o poder divino de dar a vida eterna, de libertar do mal, de derrotar o domínio da morte. É o poder do amor, que do mal sabe obter o bem, enternecer um coração endurecido, levar paz ao conflito mais áspero, acender a esperança na escuridão mais cerrada. Cristo veio para “dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37), como declarou diante de Pilatos. Escolher Cristo nos assegura aquela paz e alegria que só ele pode dar.

Cristo é a verdade. E esta verdade é Cristo. A verdade de Cristo verificou-se na vida dos santos de todos os séculos. Os santos constituem o grande vestígio de luz na história, que assegura: Esta é a vida, este é o caminho, esta é a verdade. Assim aconteceu com São Paulo, com São Bento, com São Francisco de Assis e muitos outros santos. Eles ouviram no coração a voz de Cristo. Compreenderam que Cristo os chamava para uma missão. Tal é a consequência deste primeiro encontro com a voz de Cristo.

E que possamos pedir como o bom ladrão: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!”. Também nós devemos dizer todos os dias, como repetimos na oração do Pai Nosso: “Venha a nós o vosso reino”. E que possamos seguir Jesus, nosso Rei, e dar testemunho dele com toda a nossa existência.

Peçamos também a intercessão da Virgem de Nazaré, a humilde serva do Senhor, que no momento da anunciação, ouviu do Anjo Gabriel, que o seu Filho herdaria o trono de Davi e o seu reinado não teria fim (cf. Lc 1,32-33). Ela acreditou nestas palavras antes mesmo de dá-lo ao mundo. Que ela, coroada como a Rainha do céu e da terra, interceda por cada um de nós, para que o amor de Deus possa reinar também em nossos corações e que saibamos seguir Jesus, nosso Rei, como ela fez, e dar testemunho dele ao mundo com toda a nossa existência. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – B.Minhas palavras não passarão

Mc 13, 24-32

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos faz um convite à esperança. A primeira leitura anuncia aos crentes perseguidos e desanimados a chegada iminente do tempo da intervenção de Deus para salvar o Povo fiel. É esta a esperança que deve sustentar os justos, chamados a permanecerem fiéis a Deus, apesar da perseguição e do sofrimento. Nesta leitura, retirada do livro do profeta Daniel (cf. Dn 12,1-3), o autor utiliza símbolos que evocam a transfiguração dos ressuscitados.

Essa vida nova não será como a do mundo presente, mas será uma vida transfigurada. A mensagem de esperança que o nosso texto nos deixa destinava-se a animar os crentes que sofriam a perseguição numa época e num contexto particulares. No entanto, é uma mensagem válida para os cristãos de todos os tempos e lugares. É a certeza de que Deus nunca abandona o seu povo e a vitória final será daqueles que se mantiverem fiéis aos seus ensinamentos.

O trecho do Evangelho nos apresenta uma parte do discurso de Jesus proferido em Jerusalém antes da páscoa, onde fala sobre os últimos tempos utilizando algumas imagens de tipo apocalíptico: “O sol vai se escurecer e a lua não brilhará mais, as estrelas cairão do céu e as forças que estão nos céus serão abaladas” (v. 24-25). Na mentalidade apocalíptica, os terremotos, incêndios, guerras eram sinais de um fim do mundo que estava para chegar.

Antigamente os astros do céu eram considerados divindades, com influência sobre a vida dos homens. Podiam conceder benefícios ou provocar tragédias, por esta razão era preciso conquistar a sua amizade, oferecendo-lhes orações e sacrifícios. Visando refutar a religião dos que adoravam o sol, a lua e as estrelas, os profetas afirmavam que um dia estes corpos celestes haviam perdido a sua luz e caído (cf. Is 13,10; 34,4; Gl 2,10). Com estas afirmações os profetas mostravam que o mundo pagão, representado por estes astros, teria sido destruído e Jesus retoma estas imagens visando confortar os seus discípulos e prepará-los para os últimos acontecimentos.

E o texto do Evangelho segue dizendo: “Então verão vir o Filho do Homem sobre as nuvens, com grande poder e glória” (v. 26). A expressão “Filho do homem” é uma referência ao próprio Jesus Cristo, que relaciona o presente e o futuro; as antigas palavras dos profetas encontraram o seu centro no Messias de Nazaré. Ele é o verdadeiro acontecimento que, no meio dos transtornos do mundo, permanece o ponto firme e estável. E Jesus ainda diz: “Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (v. 30). Nestas reflexões, apesar de nos assustar, encontramos uma mensagem de esperança, porque, após todas as trevas e tribulações, depois de todos os horrores e os erros do nosso caminho humano, virá o “Filho do Homem” para nos confortar com a sua palavra eterna, a única que não passará, para devolver-nos com força e com ternura, a verdade da nossa vida.

O modo como Jesus descreveu o fim dos tempos se encaixava no horizonte teológico da época. Como de fato, esperavam-se abalos e outros fenômenos terríveis, quando Deus interviesse, definitivamente, na História. A intenção de Jesus, porém, era a de levar os seus discípulos à vigilância, de maneira a estarem sempre preparados para o encontro com o Senhor.

E Jesus ainda sublinha: “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13,30). As palavras “o céu e a terra”, indicam todo o universo, a criação inteira. Jesus sublinha que tudo isto irá passar. O mundo é provisório; tudo deve terminar. Não só a terra, mas também o céu, aqui entendido precisamente em sentido cósmico, não como sinônimo de Deus. Contudo, Jesus afirma que as suas palavras “não passarão” (v. 30), ou seja, estão da parte de Deus e por isso suas palavras são eternas e devem orientar a nossa vida e as nossas preocupações. As palavras de Jesus nos ensinam que não somos provisórios. Somos destinados à vida eterna.

Com efeito, sabemos que na Sagrada Escritura a Palavra de Deus está na origem da criação: todas as criaturas, a partir dos elementos cósmicos: sol, lua, firmamento, obedecem à Palavra de Deus. Este poder criador da Palavra divina concentrou-se em Jesus Cristo, Verbo feito carne, e passa também através das suas palavras humanas, que são o verdadeiro “firmamento” que orienta o pensamento e o caminho do homem sobre a terra. O núcleo em volta do qual se centra o discurso de Jesus é ele mesmo, o mistério da sua pessoa e da sua morte e ressurreição, a sua vinda no fim dos tempos.

A exortação de Jesus não passa com o tempo, eternas são todas as suas palavras. Elas não passarão, embora tudo o mais perca seu valor. Tudo passa, nos recorda Santa Teresa de Ávila, só Deus basta. Só ele é eterno e a sua Palavra não muda, por isto, deve ser ela base e alicerce para os nossos atos e o nosso comportamento. É absolutamente certa a vinda do Cristo Senhor e há necessidade de nos mantermos vigilantes e preparados para colhê-lo. É também firme a palavra do Senhor que apresenta o amor como critério do juízo final, a recompensa para quem se mantiver fiel e a comunhão definitiva com o Pai, como destino último do cristão. Por conseguinte, o discípulo sensato deixa-se guiar pelos ensinamentos de Jesus.

Em cada celebração eucarística, após a consagração do pão e do vinho, dizemos: “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda!”. Embora Cristo tenha dito que ninguém conhece o momento do seu regresso, enquanto isto, podemos perguntar: Estou preparado para encontrar-me com o Cristo quando ele voltar? O nosso objetivo final é o encontro com o Senhor ressuscitado. E quantos de nós pensamos nisto? Haverá um dia no qual estaremos frente a frente com o Senhor. É esta a nossa esperança: estar com o Senhor. O problema não é quando os sinais premonitórios dos últimos tempos acontecerão, mas se estamos preparados para este encontro. Na verdade, somos chamados a viver o presente, construindo o nosso futuro com serenidade e confiança em Deus.

Por meio da parábola da figueira (v. 28-29), Jesus nos ensina a manter uma atitude vigilante que nos leve a discernir, a distinguir os sinais da presença de Deus no mundo e na história. O aparecimento nas figueiras de novos ramos e de novas folhas acontece a cada ano e anuncia ao agricultor a chegada do verão e do tempo das colheitas; da mesma forma, os cristãos são convidados a esperar, com confiança, a chegada do mundo novo e a perceber, nos sinais de desagregação do mundo velho, o anúncio de que um novo tempo está para chegar. Assim também devemos estar atentos e certos da vinda do Senhor, por isso, somos convidados a preparar o nosso coração para o acolher. Não podemos ficar desanimados. Jesus nos convida a ter uma atitude atenta, vigilante para descobrir assim sua presença no meio de nós. Somos chamados a ter coragem para não nos deixar desanimar pelas diferentes dificuldades que podem acontecer. É necessário ficar atentos, estar ligados para redescobrir nos acontecimentos do dia a dia, os apelos de Deus presentes no meio de nós.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a trilhar sempre o caminho do bem, observando a sua Palavra e que saibamos também ser a terra boa que acolheu a Palavra de Deus com disponibilidade, de modo que toda a nossa existência seja transformada e nos conduza à vida eterna. E seguindo o Cristo pelo caminho da cruz, possamos alcançar juntos à glória da ressurreição. A Virgem de Nazaré nos ajude a confiar em Jesus, aquele que é o fundamento firme da nossa vida, e a perseverar com alegria no seu amor para que possamos estar sempre preparados para o encontro definitivo com ele. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento / RJ

SOLENIDADE DE TODOS SANTOS – As bem aventuranças

Mt 5,1-12

Meus caros irmãos e irmãs

Iniciamos o mês de novembro com a solenidade de Todos os Santos. O nosso coração e o nosso pensamento se voltam para muitos homens e mulheres que souberam viver uma profunda unidade com Deus. É um dia em que recordamos não apenas os santos canonizados, muitos deles já têm a sua festa própria ao longo do ano, mas, sobretudo, os santos anônimos e desconhecidos. Abrange todos aqueles que foram justificados pela fé em Cristo. Recordamos aqueles que vivem para sempre diante de Deus.

Como leitura evangélica, temos o texto das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), visando ressaltar que a sua vivência total é o melhor caminho para se chegar à santidade. A prática das bem-aventuranças é a marca e o selo dos santos descrita por Jesus, para sublinhar a dinâmica da santidade. Esta é a meta espiritual, à qual todos os batizados estão chamados a alcançar, seguindo o caminho das bem-aventuranças traçadas por Jesus e que a liturgia nos indica como leitura para a solenidade de hoje.

É o mesmo caminho traçado por Jesus e que os santos se esforçaram em percorrer. Em sua existência terrena, de fato, foram misericordiosos, puros de coração, trabalhadores pela paz, perseguidos pela justiça. E Deus os fez partícipes de sua própria felicidade: Agora são consolados, herdeiros da terra, saciados, em síntese: “deles é o Reino dos Céus” (cf. Mt 5, 3.10).

Todos os santos sempre foram e são contemporaneamente, embora em medida diversa, pobres de espírito, mansos, aflitos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz e perseguidos pela causa do Evangelho. E assim devemos ser também nós. Além disso, na base desta página evangélica é evidente que a bem-aventurança cristã, como sinônimo de santidade, não está separada de um eventual sofrimento ou pelo menos de dificuldade.

Portanto, santos são os pobres em espírito, cujo coração está centrado em Deus. Pobres de espírito são os humildes, os que têm coração desapegados dos bens terrenos. Para isso, não é necessário ter nada, mas é preciso usar o que se tem conforme o espírito do Evangelho. A verdadeira riqueza não consiste nos tesouros desta terra, mas na graça, na virtude, nos merecimentos e na amizade com Deus.

Santos são os mansos, que por não responderem à violência com violência, herdarão um bem inalcançável pelos violentos. Os mansos são aqueles que, conformados com a vontade de Deus, suportam com paciência as adversidades desta vida. São aqueles que usam de mansidão, que tratam o próximo com bondade, tolerando pacientemente suas impertinências, sem queixas ou atitudes de vingança.

Santos são os aflitos, que são impotentes diante de situações dramáticas, e não pretendem ter solução para tudo. Há muitos que não entendem a razão dos sofrimentos e se revoltam contra Deus. Jesus diz que os aflitos são felizes. De fato, se souberem aceitar com resignação as provas que Deus envia, se souberem sofrer com ânimo as misérias e dificuldades da vida, a recompensa será a consolação de Deus.

Santos são os famintos e sedentos de justiça, que não pactuam com a maldade, nem se deixam levar pela lógica da dominação. Deus mesmo haverá de realizar seu ideal e fazê-los contemplar o reino da justiça. Trata-se daquela justiça interior que torna o homem agradável a Deus, quando se esforça por cumprir sempre a vontade de Deus. O primeiro passo para conseguir a santidade é desejá-la. Por isso, Jesus diz que são felizes os que têm fome e sede de justiça, isto é, aqueles que realmente desejam ser santos. Mas é necessário que este desejo seja eficaz. Isto é, que empreguemos os meios necessários para consegui-lo.

Santos são os misericordiosos, cujo destino consistirá em viver a comunhão definitiva com o Deus, que também é misericórdia. Os misericordiosos são, de modo geral, aqueles que têm sentimentos de compaixão para com os aflitos e os miseráveis de toda espécie. São misericordiosos os que são caridosos e se compadecem das misérias do próximo e também que perdoam. Quem for misericordioso receberá também a misericórdia divina. E Deus será misericordioso conosco à medida que o formos com nosso próximo.

Santos são os puros de coração, que não agem com segundas intenções nem falsidade, mas sim, com transparência. São os que fogem de todo pecado e praticam a pureza. Ser puro é ter uma alma livre de afetos desordenados e conserva a pureza de coração. Por isso, serão recompensados com a visão de Deus, em todo seu esplendor.

Santos são os promotores da paz, que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, a fim de que o mundo seja mais fraterno. Promover a paz consiste em esquecer as injúrias. A paz, que gera a felicidade, não é aquela que está apenas nos lábios, mas a que repousa no coração. Os promotores da paz serão chamados filhos de Deus.

Santos são também os perseguidos por causa da justiça, os que lutam para fazer valer o projeto de Deus para a humanidade. São eles humilhados, agredidos, marginalizados, por parte daqueles que praticam a injustiça e fomentam a opressão e a morte. Nesta última bem-aventurança, os perseguidos são convidados a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.

Portanto, todos os seres humanos são chamados à santidade que, em última análise, consiste em viver como filhos de Deus, naquela “semelhança” com ele segundo a qual foram criados. Todos os seres humanos são filhos de Deus, e todos devem tornar-se aquilo que são, através do caminho exigente da liberdade. Deus nos convida a fazer parte do seu povo santo. O caminho é Cristo e ninguém chega ao Pai senão por meio dele (cf. Jo 14,6).

As bem-aventuranças traçam o mapa deste caminho. As oito bem-aventuranças são os sinais que indicam a direção a seguir. É um caminho, mas foi o primeiro que Jesus percorreu. E certa ocasião ele disse: “Quem me segue não andará nas trevas” (Jo 8,12). E noutra ocasião acrescentou: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).

Uma das respostas próprias dos fiéis no momento da Oração Eucarística diz: “Caminhamos na estrada de Jesus”. É este o convite que o Senhor hoje nos faz. Os santos caminharam na estrada de Jesus e souberam seguir o Cristo. É por esse caminho que caminhamos para o céu. E é por isso que hoje estão na Casa de Deus para sempre. É um convite solene e luminoso lançado à terra dos homens, para que sigamos o mesmo caminho. Caminhando com Cristo, podemos conquistar a alegria, a alegria verdadeira!

Peçamos a Virgem Maria, aquela que todas as gerações a proclamam de “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48), que ela nos faça caminhar na via da santidade e nos conduza ao seu filho Jesus e saibamos reconhecer que temos necessidade de Deus, da sua misericórdia e do seu perdão, para um dia entrarmos no seu Reino, Reino de justiça, de amor e de paz.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXXI DTC – O PRIMEIRO DE TODOS OS MANDAMENTOS

Mc 12,28-34

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos faz recordar o ensinamento de Jesus sobre o maior mandamento: amar a Deus e amar ao próximo. No texto evangélico temos a figura de um escriba que faz uma pergunta a Jesus sobre qual é o maior mandamento da Lei; ao que Jesus responde, tendo como fundamento a própria Sagrada Escritura: “O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que este não existe” (Mc 12,29-31).

Analisemos inicialmente alguns significativos aspectos dessa res- posta de Jesus ao escriba. Comecemos pelo primeiro mandamento: Deus deve ser amado “de todo coração, de toda a alma, de todo o espírito e de todas as forças” (v. 30). O livro do Deuteronômio cita somente coração, alma, força (cf. Dt 6,4). Jesus acrescenta também a palavra espírito. Amar a Deus de todo o coração significa aderir a ele plenamente, aceitar total- mente a sua lógica, identificar-se com o seu projeto. Quer dizer também ter um só coração, não dividido, um coração que não se apega a outros deuses, que não se deixa seduzir por ídolos, que ama um único Senhor.

Quando o texto usa a expressão de “toda a alma” (v. 30), indica que devemos amar a Deus com a própria vida. A palavra “alma” em hebraico nefes, vem da raiz nfs, que pode ser traduzida como soprar, respirar (cf. Ex 23,12). Como a respiração é sinal de vida, a palavra toma então o sentido de hábito vital (cf. 1Rs 17,22); força vital, vida (cf. Sl 34,23). Os rabinos ensinavam que o verdadeiro israelita ama o Senhor mesmo quando a sua vida é tirada. No texto evangélico ainda temos a expressão “de todas as tuas forças” (v. 30), o que indica amar a Deus com as próprias capacidades. No tempo de Jesus a expressão “força” significava também os bens materiais. Neste sentido, o verdadeiro israelita deverá estar disposto a sacrificar tudo o que possui para mostrar a sua dedicação à fé.

E quando se diz “de toda a mente” (v. 30), mostra que a adesão a Deus deve ser fruto de uma escolha consciente, bem ponderada, em conformidade com a razão, que consiste no sustentáculo para a solidez da fé, que é precisamente isto: uma entrega confiante ao Senhor. Esta adesão a Deus não está isenta de conteúdo: com ela estamos conscientes de que o próprio Deus nos é indicado em Cristo, mostrou o seu rosto e fez-se realmente próximo de cada um de nós. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “O ato de fé só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Mas não é menos verdade que crer é um ato autentica- mente humano. Não é contrário nem à liberdade nem à inteligência do homem” (CIgC, n. 154). Crer é confiar no desígnio providencial de Deus sobre a história, como fez o patriarca Abraão, como fez Maria de Nazaré e como fizeram muitos e muitos santos.

É desta nascente, deste amor de Deus, que deriva para nós o duplo mandamento: “O amor a Deus e ao próximo como a si mesmo” (vv. 30-31). E este amor a Deus e ao próximo constitui os dois lados de uma única medalha: vividos juntos, pois são inseparáveis. O compro- misso religioso proposto aos crentes, tanto do Antigo, como do Novo Testamento resume-se no amor a Deus e no amor ao próximo, que estão intimamente associados. Amar a Deus significa viver para Ele, por aquilo que Ele é e pelo que Ele faz. Por isso, amar a Deus quer dizer investir todos os dias as próprias energias para sermos seus colaboradores, servindo de modo incondicional o nosso próximo, procurando perdoar de forma ilimitada e cultivando relações de comunhão e de fraternidade.

O evangelista São Marcos não se preocupa em especificar quem é o próximo, porque o próximo é a pessoa que encontramos no nosso caminho. Também não considera que a questão seja posta a Jesus para o embaraçar ou colocá-lo à prova. O escriba que coloca a pergunta parece ser um homem sincero e bem intencionado, genuinamente preocupado em estabelecer a hierarquia correta dos mandamentos da Lei. No tempo de Jesus, a questão do maior mandamento da Lei tornou-se objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei.

O texto explica que é preciso “amar o próximo como a si mesmo”. As palavras “como a si mesmo” (v. 31) não significam qualquer espécie de condicionalismo, mas que é preciso amar totalmente, de todo o coração. Em outras passagens do Novo Testamento Jesus explica aos seus discípulos que é preciso amar os inimigos e orar pelos perseguidores (cf. Mt 5,43-48). Trata-se, portanto, de um amor sem limites, sem medida e que não distingue entre bons e maus, amigos e inimigos. São Lucas, ao contar este mesmo episódio que o Evangelho de hoje nos apresenta, acrescenta-lhe a história do “bom samaritano”, explicando que esse “amor aos irmãos” pedido por Jesus é incondicional e deve atingir todo aquele que encontrarmos nos caminhos da vida, mesmo que ele seja um estrangeiro ou inimigo (cf. Lc 10,25-37).

Em conformidade com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total dos seus projetos. Amar a Deus é cumprir a sua vontade e colocar em prática os seus ensinamentos. E a vontade de Deus é que façamos da nossa vida um dom de amor, de ser- viço, de entrega aos irmãos, a todos os irmãos com quem nos cruzamos nos caminhos da vida.

No Evangelho de São João, Jesus diz “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,17) e na sua primeira carta o mesmo evangelista São João afirma: “Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Em verdade, quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). Ainda nos escritos de São João observamos que ressoa intensamente o apelo ao amor fraterno quando volta a dizer: “Quem ama o seu irmão permanece na luz e não corre perigo de tropeçar. Mas quem tem ódio ao seu irmão está nas trevas” (1Jo 2,10-11). E ainda frisa: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte” (1Jo 3,14).

O Apóstolo São Paulo também tem o mesmo pensamento: “Quem ama o seu próximo já cumpriu toda a lei, pois o perfeito cumprimento da lei é o amor” (Rm 13,8-10). E São Paulo ainda frisa: “Toda a lei encontra a sua plenitude num único preceito: ‘Amarás o próximo como a ti mesmo’” (Gl 5,14). Com isto, só o amor rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; e só o amor nos possibilita construir uma grande família onde todos possam viver na fraternidade e na unidade. Portanto, estes dois mandamentos apresentados por Jesus não podem ser separados, pois são eles a manifestação de um único amor.

Amar a Deus é aceitar os seus dons, participar do seu projeto em benefício do próximo e tornar-se instrumento do seu amor. Deus, que é amor, criou-nos por amor e para que possamos amar os outros, permanecendo unidos a Ele. Seria ilusório pretender amar o próximo, sem amar a Deus; e seria igualmente ilusório pretender amar a Deus, sem amar o próximo. As duas dimensões do amor, a Deus e ao próximo, na sua unidade, caracterizam o discípulo de Cristo. A Virgem Maria nos ajude a acolher e testemunhar este ensinamento luminoso na vida de todos os dias. Peçamos a sua intercessão para que saibamos crescer na fé e ser um vivo testemunho de amor a Deus e aos irmãos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXX SEMANA DO TEMPO COMUM – B – Coragem! Ele te chama.

Mc 10,46-52

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos traz a descrição do encontro de Jesus com o cego Bartimeu, apresentado como “um mendigo sentado à beira do caminho”. A cena evangélica situa-se na direção que levava Jesus de Jericó a Jerusalém, às margens do rio Jordão. Trata-se de um mendigo e cego, sentado à beira dessa estrada com seu manto estendido para recolher esmolas. Esta cena era freqüente nos tempos de Jesus. Se alguém era cego, não tinha outro meio de vida senão pedir esmolas. Não havia os recursos de recuperação que temos hoje, sobretudo o espírito de ajuda fraterna, fruto do cristianismo, implantado e ampliado no mundo.

Certamente o cego Bartimeu deve ter ouvido mais barulho do que o habitual e perguntou o que acontecia ou quem estava passando; responderam-lhe que era Jesus. Então, ele começou a gritar: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!” Deve ter feito isso com tanta força e insistência, que chegou a incomodar os que faziam parte do cortejo de Jesus.

A narração da cura, propriamente dita, é feita em forma de diálogo entre Jesus e o cego (vv. 50-52). Jesus toma a iniciativa e manda chamar o cego, que liberta-se de sua capa e coloca-se diante de Jesus. Longe de o proibir que usasse um título messiânico referente a sua pessoa “Filho de Davi”, começa o diálogo, quando Jesus pergunta: “O que queres que eu te faça?” A resposta do cego é um pedido confiante: “Rabôni, que eu veja!” (v. 51). Ao que Jesus responde: “Vai, a tua fé te curou”. É o que o Senhor queria deixar patente: a fé do suplicante desencadeia o favor divino.

O texto nos mostra que Bartimeu quer sair desta situação de dependência custe o que custar. Ele não está satisfeito com a vida que leva, tem esperança de dias melhores e se decide a agir. Quando sabe que Jesus passa pelo seu caminho, grita pedindo socorro. Em seu brado encontramos o uso de um título messiânico – ele chama Jesus de “Filho de Davi”. Este é o nome que o povo usava para se referir ao Messias. Jesus não o repreende por usar este nome, afinal está subindo a Jerusalém e não há mais como interpretar este título de modo errôneo, visto que doará em breve sua vida. No fundo trata-se de uma profissão de fé, Bartimeu sabe que Jesus é o Messias e pede seu auxílio. Neste momento, muitos exigem que o cego se cale, mas ele grita ainda mais alto.

O homem, apesar de ser mendigo e cego, vê quem Jesus é com mais clareza do que os discípulos e a multidão que têm estado com Jesus o tempo todo! A expressão “Filho de Davi” refere-se também a esperança secular do povo de Israel, de que Deus enviaria um Salvador. E aquele homem, embora cego, percebeu, pela luz do Espírito de Deus, que Jesus era a realização desta esperança. Foi por isso que o cego tinha toda certeza de ser curado, de ser atendido pelo Filho de Deus.

Mas Deus sempre ouve o clamor dos que sofrem e Jesus manda chamar o cego. Outro detalhe de grandioso ensinamento: não é ele que chama diretamente, mas manda que chamem o doente. O texto não nos diz quem foi chamar o cego, mas certamente foi algum discípulo do Senhor. O chamado de Deus nos vem por intermédio de nossos irmãos. A tarefa do seguidor de Jesus não é impedir alguém de se encontrar com o Mestre, mas de encaminhá-lo para ele.

Quando o cego é chamado, lhe é dito que deve ter coragem, pois foi chamado pelo Senhor! O cego se levanta, dá um pulo e joga fora seu manto indo ao encontro de Jesus. O manto de um pobre era sua única posse (cf. Ex 22,26) e Bartimeu tem a coragem de largar o que tinha. Trata-se aqui do desapego dos bens materiais para se colocar a caminho seguindo o Senhor. No seguimento de Jesus sempre é necessário deixar algo, os apóstolos deixaram os barcos (cf. Mt 4,20), a Samaritana deixou o balde na beira do poço de Jacó (cf. Jo 4,28). Ao deixar de lado o manto, o cego deixa sua segurança, desapega-se de sua vida passada e deseja iniciar nova caminhada.

O manto podia estar colocado debaixo do cego, como almofada, ou nos seus joelhos, para recolher as moedas que lhe atiravam; em qualquer caso, este manto é tudo o que o mendigo possui, a única coisa de que ele pode separar-se. O jogar fora o manto significa, portanto, o deixar tudo o que se possui para ir ao encontro de Jesus. É um corte radical com o passado, com a vida antiga, com a anterior situação, com tudo aquilo em que se apostou anteriormente, a fim de começar uma vida nova ao lado de Jesus. No mesmo instante o cego recobrou a vista e passou a seguir Jesus pelo caminho, não sem antes abandonar o manto.

O fato de o cego seguir pelo mesmo caminho mostra que ele não recuperou apenas a vista exterior, mas teve também uma recuperação interior, espiritual. Crendo, compromete-se com o Cristo, enveredando por um caminho pouco atraente. As aventuras que o esperam não prometem felicidade. Jesus já está quase no final do seu caminho; os apóstolos estavam assustados; Bartimeu, no entanto, o seguia. Encontrou ele a Luz e abandonou sua cegueira; achou o tesouro e deixou de pedir esmola; descobriu o sentido da vida e se colocou a caminho, abraçando aquele que é Caminho e Caminhante conosco.

Em certo sentido também nascemos cegos. Há outros olhos que devem ainda abrir-se ao mundo, além dos físicos: os olhos da fé! Permitem vislumbrar outro mundo muito além do que vemos com os olhos do corpo: o mundo de Deus, da vida eterna, o mundo do Evangelho, do mundo que não termina nem mesmo com o fim do mundo. O “cego” é um símbolo de todos os homens e mulheres que vivem na escuridão, privados da “luz”, prisioneiros dessas cadeias que os impedem de chegar à plenitude da vida

Deus é a luz e dá a luz aos que desejam ver. Ele é a luz do mundo. A missão do Servo é trazer a luz (cf. Is 42,6-7). Jesus é a luz que pode iluminar aos que estão nas trevas e nas sombras da morte (cf. Lc 1,79). Luz e vida são duas experiências de plenitude e encontro. Bartimeu vai ao Encontro de Jesus que é a luz e a vida. Este encontro fez de Bartimeu um homem novo.

Luz é também a palavra de Deus que ilumina o caminho: “Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119,105); “Tu és Senhor a minha luz; meu Deus, ilumina minha trevas (cf. Sl 18,29). A luz sempre nos chega por Deus. O relato do Evangelho põe em ação o dom da luz. Essa luz que é a primeira palavra de Deus ao mundo: “Faça-se a luz! E a luz apareceu” (Gn 1,3). Desde o primeiro instante da criação tudo clama por luz: “Em ti está a fonte da Vida e em tua luz veremos a luz” (Sl 36,10). Mas o evangelho de São João nos adverte: “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz… Quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz… Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,19-21).

Muitas vezes encontramos na bíblia a cegueira espiritual que vem do orgulho, da ignorância, do ódio e do pecado (cf. Jo 12,40; Mt 15,14; Rm 2,19; 1Jo 2,11). Jesus é a luz que vem para iluminar a todos, tirar da escuridão e das trevas. Muitos não aceitaram o Senhor e vários ainda não o aceitam, pois não se deixam iluminar por Deus.

A vista física é símbolo da luz espiritual restabelecida ou encontrada. Bartimeu passou da indigência mais radical para fazer parte da família espiritual de Jesus. Todos nós temos uma cegueira espiritual que nasce do pecado. Esta cegueira não nos permite ver bem para onde devemos ir, qual é a nossa vocação e nosso destino.

Deixemo-nos também ser curados por Jesus, que quer nos dar a luz de Deus! Confessemos nossa cegueira, nossa miopia. Tenhamos certeza que Cristo dá a luz da fé a quem o acolhe. A oração do cego Bartimeu: “Filho de Davi, Jesus, tende piedade de mim!”, comoveu o coração de Cristo, que pára, o manda chamar e o cura. Peçamos ao Senhor que também tenha piedade de cada de um nós, nos cure e purifique. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB.
Mosteiro de São Bento/RJ

XXIX Semana do tempo comum B – Quem quiser ser o primeiro, seja servo de todos

Mc 10,35-45

Caros irmãos e irmãs,

Continuamos a percorrer neste domingo, com Jesus e com os seus discípulos, o caminho para Jerusalém. O Evangelista São Marcos observa que, nesta fase, Jesus vai à frente e os discípulos o seguem (cf. Mc 10,32). Jesus continua a sua catequese e, mais uma vez, lembra a eles que, em Jerusalém, será entregue nas mãos dos líderes judaicos e se cumprirá o seu destino de cruz (cf. Mc 10,33-34). Durante esse caminho, Jesus vai completando a sua catequese sobre as condições necessárias para integrar a comunidade messiânica. O texto que nos é proposto demonstra que os discípulos continuam a raciocinar em termos de poder, de autoridade, de grandeza e vêem na proposta do Reino Messiânico a ser instaurado por Jesus a oportunidade de realizar os seus sonhos humanos.

Logo no início do evangelho é ressaltada a pretensão de Tiago e de João, filhos de Zebedeu que, apoiados pela mãe, reivindicam um lugar de honra no Reino que vai ser instaurado, um à direita e outro à esquerda de Jesus. Os dois irmãos, Tiago e João, se apresentam a Jesus dizendo: “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir” (v. 35). Eles parecem exigir esta honra: “Queremos”, dizem.

Diante desta manifestação de ambição, honrarias e privilégios, Jesus não se mostra de forma alguma condescendente, porque toda ambição contraria os fundamentos da sua proposta. Em relação a João e Tiago, Jesus é severo: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” (v. 38). E para ajudá-los a superar a própria incompreensão, serve-se de duas figuras: a do cálice e a do batismo.

O cálice é uma referência aos sofrimentos pelos quais Jesus teria que passar. Em sua agonia na cruz, teria dito: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice” (Lc 22,42). Esta imagem do cálice aparece ainda com freqüência na Sagrada Escritura. O cálice indica o destino, favorável ou não de uma pessoa. Jesus está ciente que o aguarda um cálice de sofrimentos, um cálice dos quais gostaria de ser poupado. Com esta imagem do cálice, Ele assegura aos dois discípulos a possibilidade de serem associados plenamente ao seu destino de sofrimento, mas sem garantir os desejados lugares de honra. A sua resposta é um convite a segui-lo pelo caminho do amor e do serviço, rejeitando a tentação mundana de querer sobressair perante os outros.

Já o batismo, de acordo com o texto, é uma referência ao mar de sofrimentos nos quais Jesus será mergulhado. A imagem do batismo tem o mesmo sentido: indica a passagem através das águas da morte. Os sofrimentos e as aflições que o justo deve suportar são freqüentemente comparados pela Bíblia a uma imersão em águas profundas ou à agitação de águas impetuosas (cf. Sl 69,2-3; 42,8). Evoca a participação e imersão na paixão e morte de Jesus (cf. Rm 6,3-4).

Certamente Tiago e João imaginam que o Reino proposto por Jesus seria algo poderoso e glorioso e, por isto, almejam, desde logo, lugares de honra ao lado dele. O fato mostra como Tiago e João, mesmo depois de toda a catequese que receberam durante o caminho para Jerusalém, ainda não entenderam a lógica do Reino de Deus e ainda continuam a refletir e a sentir de acordo com a lógica do mundo. Para fazer parte da comunidade do Reino de Deus é preciso, portanto, que os discípulos estejam dispostos a percorrer, com Jesus, o caminho do sofrimento que irá culminar com a morte. Apesar de Tiago e João manifestarem, com toda a sinceridade, a sua disponibilidade para percorrer este caminho, Jesus não lhes garante uma resposta positiva a esta pretensão.

Na segunda parte do nosso texto (vv. 41-45), temos a reação indignada dos discípulos à pretensão dos dois irmãos, o que indica que todos eles tinham as mesmas pretensões e revela que Tiago e João estavam longe de ter assimilado o pensamento do Mestre. Novamente Jesus toma a palavra e outra vez lhes ensina. Foi preciso que Jesus mostrasse qual deve ser a atitude dos seus discípulos, tendo a si mesmo como referência: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (v. 45). Na tradição bíblica, a expressão “Filho do Homem” indica aquele que recebe de Deus “as soberanias, a glória e a realeza” (Dn 7,14). Jesus enche de novo sentido esta imagem, especificando que ele tem a soberania enquanto servo, a glória enquanto capaz de se humilhar, a autoridade real enquanto disponível ao dom total da vida. Assim, Jesus se apresenta como o modelo a ser seguido. Sua vida sempre foi pautada como um serviço, aos pecadores, aos desprezados, aos últimos. O ponto culminante dessa vida de doação e de serviço foi a morte na cruz, expressão máxima e total do seu amor.

E Jesus aproveita a circunstância para reiterar a sua instrução. Inicia recordando a eles o modelo dos governantes das nações e dos grandes do mundo (v. 42). Eles afirmam sua autoridade absoluta, dominam os povos pela força e submetem-nos, exigem honras, privilégios e títulos, promovem-se à custa da comunidade, exercem o poder de uma forma arbitrária. Ora, este esquema não pode servir de modelo para os seus discípulos. Eles devem ter como referência a lei do amor e do serviço. Os seus membros devem sentir-se “servos” dos irmãos, dedicados em servir com humildade e simplicidade, sem qualquer pretensão de mandar ou de dominar.

Jesus ainda enfatiza: “Quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos” (v. 44). Para os seguidores de Cristo a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço. Jesus nos convida a servir e partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu. Chama a nossa atenção que, quando por ocasião da redação do Evangelho de São Marcos, um dos dois irmãos, Tiago, já teria dado a sua vida por Cristo, morrendo como mártir em Jerusalém (cf. At 12,2) e o outro, João, estaria pregando o evangelho, dando, assim, prova de que compreenderam o ensinamento do Mestre.

A mensagem que o Evangelho deste domingo nos deixa está no sentido do serviço e aponta para a porta que leva à grandeza evangélica: estar a serviço do próximo. É o caminho que o próprio Cristo percorreu até à cruz, em um itinerário de doação e de amor. Muitos santos deixaram se guiar por esta lógica. Podemos citar São Vicente de Paulo e Santa Teresa de Calcutá, pois com coragem heróica eles assumiram o serviço generoso aos irmãos mais necessitados.

Jesus disse certa vez: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). É uma verdade fundamental para compreender o sentido do serviço que devemos realizar em prol dos mais necessitados. Esta é a base para a vivência do Evangelho de Jesus. Os santos tiveram consciência de que, ao tocar os corpos enfraquecidos dos pobres, tocavam o corpo de Cristo. O serviço que eles realizavam destinava-se ao próprio Jesus, escondido nos mais humildes. O que realça o significado mais profundo desse serviço está no gesto de amor feito aos famintos, aos sequiosos, aos estrangeiros, a quem está doente ou na prisão, pois neles está o próprio Cristo (cf. Mt 25,34ss).

Peçamos ao Senhor que nos faça colocar em prática o dom do serviço e da humildade e que sejamos bons e autênticos servidores da paz, do amor e da fraternidade, levando a todos, a esperança e a paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento / RJ Continue lendo XXIX Semana do tempo comum B – Quem quiser ser o primeiro, seja servo de todos

XXVIII SEMANA DO TEMPO COMUM B – O desapego dos bens materiais

Mc 10,17-30

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos fala de alguém que veio correndo ao encontro de Jesus e lhe faz uma pergunta: “Bom Mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (v.17). Com este questionamento tem início o breve diálogo de Jesus com um jovem, assim identificado no Evangelho de São Mateus (cf. Mt 19,6). A pergunta do Evangelho contempla o futuro, mas é um compromisso com o presente: o sentido da vida.

Antes de dar sua resposta, Jesus questiona a pergunta: “Por que me chamas de bom?” (v. 18). Ao contrário dos rabinos e doutores da lei, que amavam títulos honrosos, Jesus dirige tudo a Deus: Somente Deus é bom no sentido pleno do termo. Mas, aquele jovem, anônimo, percebeu que Jesus é bom e que é mestre. Um mestre que não engana. Quem reconhece o bem é sinal que ama. E quem ama, na feliz expressão de São João, conhece a Deus (cf. 1Jo 4,7). O jovem do Evangelho teve uma percepção de Deus em Jesus Cristo. Ele se ajoelha diante de Jesus, mostrando o reconhecimento da divindade de Jesus Cristo. Trata de uma pessoa bem intencionada, realmente preocupada com a obtenção da vida eterna. Em um curto diálogo manifesta o seu desejo sincero de alcançar a vida eterna, vivendo a sua existência terrena de maneira honesta e virtuosa.

No Antigo Testamento, a ideia de vida eterna aparece, pela primeira vez em Dn 12,2. Para alguns teólogos da época do judaísmo helenístico, os justos que se mantiverem fiéis a Deus e à Lei não serão condenados ao sheol, local onde os espíritos dos mortos levam uma existência obscura, no reino das sombras, mas ressuscitarão para uma vida nova, de alegria e de paz (cf. 2Mac 7,9.14.36). A vida eterna, segundo os teólogos desta época, parece já incluir a ideia de imortalidade (cf. Sb 3,4; 15,3). Provavelmente é isto que inquieta o jovem e ele deseja saber o que é necessário fazer para ter acesso a essa vida imortal que Deus reserva aos justos. De acordo com a catequese feita pelos mestres de Israel, quem vivesse de acordo com os mandamentos da Lei, receberia de Deus a vida eterna. Reconhecendo a divindade de Jesus, o jovem quer certificar a verdade.

Em sua catequese Jesus mesmo explicita: “Conheces os mandamentos?” O jovem explica a Jesus que desde sempre a sua vida foi vivida em consonância com os mandamentos da Lei de Deus (v. 20). É uma afirmação segura e serena, que o próprio Jesus não contesta. As questões por ele apresentadas mostram a sua inquietação, a sua procura, a sua busca da definição do verdadeiro caminho para a vida eterna. Jesus reconhece a sinceridade, a honestidade, a verdade da busca deste homem; por isso, olha para ele “com amor” (v. 21).

O Evangelho nos assegura que aquele jovem era muito rico. A própria juventude é uma riqueza singular. É preciso descobri-la e valorizá-la. Jesus convida o homem rico a dirigir os seus passos em uma outra direção: segui-lo, pois para ganhar a vida eterna é preciso estar com Jesus. Mas antes de fazer o convite a segui-lo, Jesus fixa nele um olhar cheio de amor: o olhar de Deus (cf. v. 21). E compreende qual é o ponto frágil daquele homem: precisamente o seu apego aos muitos bens que possui e, por isso, lhe propõe que dê tudo aos pobres, de modo que o seu tesouro já não esteja na terra, mas no céu. Aquele homem, porém, em vez de aceitar com alegria o convite de Jesus, sai entristecido (cf. v. 23), porque não consegue desapegar-se das suas riquezas.

É este olhar de amor que tudo transforma. Jesus quer fazer compreender ao jovem rico que lhe falta o essencial: deixar-se amar em primeiro lugar, descobrir que todos os seus bens materiais nunca poderão preencher a necessidade vital de todo o homem que consiste em ser amado. As riquezas podem ser um obstáculo ao amor. As riquezas do jovem o impediram de identificar o olhar de Jesus. Fechado em sua riqueza, ele partiu, saiu de perto de Jesus, mas Jesus não lhe retirou o seu amor, acompanhou-o sempre com o seu olhar de amor.

Com esta passagem, Jesus mostra aos seus discípulos a incompatibilidade entre o Reino e o apego às riquezas. Na perspectiva dos teólogos de Israel, as riquezas são uma bênção de Deus (cf. Dt 28,3-8); mas a catequese tradicional também está consciente de que colocar a confiança e a esperança nos bens materiais envenena o coração do homem, torna-o orgulhoso e auto-suficiente e o afasta de Deus e das suas propostas (cf. Sl 49,7-8; 62,11).

Jesus nos ensina a não centralizar a própria vida nos bens passageiros deste mundo, mas assumir a partilha e a solidariedade para com os irmãos mais necessitados, seguir o próprio Jesus no seu caminho de amor e de entrega (v. 21). Apesar de toda a sua boa vontade, o jovem não está preparado para a exigência deste caminho e afasta-se triste. São Marcos explica que ele estava demasiado preso às suas riquezas e não estava disposto a renunciar a elas (v. 22).

Frente a reação alarmada e desorientada dos discípulos face a esta exigência de radicalidade, temos a pergunta: “Quem pode, então, salvar-se?” (v. 26). Neste momento, Jesus pronuncia palavras de conforto, apresentando o poder de Deus como incomparavelmente maior do que a debilidade humana: “Aos homens é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível” (v. 27). A ação de Deus, gratuita e misericordiosa, pode mudar o coração do homem.

Com esta passagem do Evangelho, Jesus ressalta que para um rico é muito difícil entrar no Reino de Deus, mas não impossível; de fato, Deus pode conquistar o coração de uma pessoa que possui muitos bens e levá-la à solidariedade. Somos chamados a estar no caminho de Jesus Cristo, o qual “sendo rico, fez-se pobre por vós, para que nos tornássemos ricos por meio da sua pobreza” (2Cor 8, 9).

O convite dirigido ao jovem “Vem e segue-me”, é hoje estendido também a cada um de nós. Esta é a vocação cristã que brota de uma proposta de amor do Senhor, concretizada graças à nossa resposta de amor. Muitos santos acolheram este convite exigente e se colocaram, com docilidade humilde, no seguimento de Cristo.

A história da Igreja nos apresenta relevantes exemplos de pessoas ricas, que usaram os próprios bens de modo evangélico, alcançando também a santidade. Pensemos em São Francisco de Assis, São Bento, Santa Isabel da Hungria, São Francisco Xavier e em muitos outros, que deixaram seus bens e seguiram o Cristo, que a todo momento nos chama à santidade. Ao contrário do jovem rico do Evangelho, saibamos aceitar o convite de Jesus, para segui-lo com o coração desapegado dos bens terrenos, que não nos garantem a vida eterna.

E, para animar os nossos passos nesta direção, peçamos a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do nosso Brasil, cuja solenidade celebramos no dia 12, que ela nos conduza, com seu auxílio materno, no caminho da perfeição e nos acompanhe ao longo de toda a nossa vida. E ela, a Mãe de Deus, a quem invocamos como Sede da Sabedoria, nos faça acolher com alegria o convite de Jesus para entrar na plenitude da vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento / RJ

XXVII SEMANA DO TEMPO COMUM B – O que Deus uniu

Mc 10,2-16

Meus caros irmãos e irmãs,

As leituras bíblicas, que compõem a Liturgia da Palavra deste domingo, nos apresentam o projeto de Deus para o homem e para a mulher, e sinalizam o tema do matrimônio presente no Evangelho e na primeira leitura. A mensagem da Palavra de Deus pode ser resumida na expressão contida no livro do Gênesis e retomada pelo próprio Jesus no Evangelho: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24, Mc 10,7-8), cujo objetivo é formar uma comunidade de amor, estável e indissolúvel.

Lançando um olhar inicial para a primeira leitura (cf. Gn 2,18-24), observa-se que Deus colocou o homem no Jardim do Éden, um ambiente de felicidade material, onde todas as exigências da vida humana se supriam. Contudo, o homem não estava plenamente realizado, pois lhe faltava alguém com quem pudesse compartilhar a sua vida. E ao constatar a solidão do homem, Deus quis encontrar para ele uma companhia adequada e apresentou diante dele “todos os animais do campo e todas as aves do céu”, a fim de que os chamasse pelos seus respectivos nomes (v. 19). O fato de “dar um nome” indica um ato de domínio e de posse. O fato de Deus ter conduzido os animais para que o homem lhes desse um nome era, na perspectiva do texto bíblico, o reconhecimento por parte de Deus da autonomia do homem e a sua associação à obra criadora do Senhor Deus. No entanto, o homem não encontrou, nesse mundo animal que Deus lhe confiou, “uma auxiliar semelhante a ele” (v. 20), Diante disso, Deus reconhece que “não é bom que o homem esteja só” (v. 18).

A nova ação de Deus começa com um “sono profundo” do homem. Depois, Deus tirou uma de suas costelas para criar a mulher. Em seguida o Senhor Deus a conduz ao homem. O homem, ao despertar do “sono profundo”, acolhe a mulher com uma expressão de alegria e a reconhece como a companhia que lhe faltava, o seu complemento, o seu outro eu: “Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23). O homem (v. 23) dá à sua companheira o nome de “mulher” (em hebraico: ‘ishah) porque foi tirada do homem (em hebraico: ‘ish). A proximidade das duas palavras sugere a proximidade entre o homem e a mulher, a sua igualdade fundamental em dignidade, a sua complementaridade, o seu parentesco. E o texto termina com uma frase que diz: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne” (v. 24).

Pode-se observar que Deus criou o homem e a mulher para ser auxílio mútuo e para partilhar a vida no amor. É no amor e não na solidão que o homem encontra o sentido para a sua existência. O Homem e a mulher são iguais em dignidade. Eles são “da mesma carne”, em igualdade de ser participantes do mesmo destino; completam-se um ao outro e, na perspectiva de uma ajuda mútua, chegam à plena realização. São, portanto, iguais em dignidade. Esta realidade exige que homem e mulher se respeitem um ao outro.

O texto do evangelho nos apresenta mais um ensinamento de Jesus, desta vez respondendo a uma pergunta dos fariseus sobre o matrimônio e o divórcio. Os fariseus eram os fanáticos observantes da lei e, a Lei de Israel permitia o divórcio (cf. Dt 24,1); mas não era totalmente clara acerca das razões que poderiam fundamentar a rejeição da mulher pelo marido. A mulher, por sua vez, era autorizada a obter o divórcio em tribunal somente no caso de o marido estar afetado pela lepra ou exercer um ofício repugnante. É nesta discussão de contornos pouco claros que os fariseus procuram envolver Jesus. A pergunta dos fariseus insere-se, provavelmente, na tentativa de encontrar razões para eliminar Jesus.

Diante da questão posta pelos fariseus “pode um homem repudiar a sua mulher?” (v. 2), Jesus começa por recordar-lhes o estado da questão na perspectiva da Lei: “O que vos ordenou Moisés?” (v. 3). Não significa que Jesus está se identificando com o posicionamento da Lei a propósito da questão do divórcio. Efetivamente, a Lei de Moisés permitia o divórcio, contudo, essa condescendência da Lei não resulta do projeto de Deus para o homem e para a mulher, mas é o resultado da “dureza do coração” dos homens. Em contraste com a permissividade da Lei, Jesus vai apresentar o projeto primordial de Deus para o amor do homem e da mulher. Fazendo referência ao Livro do Gênesis, Jesus explica que, no projeto original de Deus, o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se completarem, para se ajudarem, para se amarem. Unidos pelo amor, o homem e a mulher formarão “uma só carne”. A separação será sempre o fracasso do amor; não está prevista no projeto original de Deus. Jesus reitera que a relação entre o homem e a mulher deve se enquadrar no projeto inicial de Deus. A perspectiva de Deus é que marido e mulher, unidos pelo amor, formem uma comunidade de vida estável e indissolúvel. Ambos, em igualdade de circunstâncias, são responsáveis pela edificação da comunidade familiar.

A vocação para o matrimônio está inscrita na própria natureza do homem e da mulher, tais como saíram das mãos do Criador, e ao criá-los Deus os fez imagem do amor. E este amor, que Deus abençoa, está destinado a ser fecundo e a realizar-se na obra comum do cuidado da criação, conforme podemos ler na própria Sagrada Escritura: “Deus abençoou-os e disse-lhes: ‘Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a’” (Gn 1,28).

A união matrimonial do homem e da mulher é indissolúvel: foi o próprio Deus que a estabeleceu: “Não separe, pois, o homem o que Deus uniu” (Mt 19,6). É seguindo a Cristo, na renúncia e nas provações que os esposos poderão compreender o sentido original do matrimônio e vivê-lo com a ajuda de Cristo. E o Apóstolo São Paulo exorta: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, a fim de a santificar” (Ef 5,25-26): e acrescenta imediatamente: “É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja” (Ef 5,32).

E este é também o amor oferecido aos esposos no Sacramento do matrimónio. É o amor que alimenta o seu relacionamento, através de alegrias e dores, de momentos tranquilos e difíceis. É o amor que suscita o desejo de gerar filhos, de os esperar, acolher, criar e educar. É o próprio amor que, no Evangelho, Jesus manifesta às crianças: “Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham” (Mc 10, 14).

O vínculo matrimonial é, portanto, estabelecido pelo próprio Deus, de maneira que o matrimônio ratificado e consumado entre batizados não pode jamais ser dissolvido. Este vínculo, resultante do ato humano livre dos esposos e da consumação do matrimônio, é, a partir de então, uma realidade irrevogável. Pela sua própria natureza, o amor dos esposos exige a unidade e a indissolubilidade e são chamados a crescer sem cessar na sua comunhão, através da fidelidade quotidiana à promessa da mútua doação total que o matrimônio implica (cf. CIgC, n. 1644). Esta é uma consequência da doação de si mesmos que os esposos fazem um ao outro.

O matrimônio está ligado à fé e, nos tempos atuais, somos capazes de compreender toda a verdade desta afirmação, em contraste com a dolorosa realidade de muitos matrimônios que, infelizmente, acabam mal. Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha, o matrimônio é chamado a ser o sujeito da nova evangelização, testemunho da unidade querida por Deus em cada circunstância da vida, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, como prometeram no rito sacramental.

Possamos pedir a intercessão da Virgem Maria e do seu esposo São José pela estabilidade conjugal de todos os casais. E com eles, invocamos uma especial efusão do Espírito Santo, para que ilumine do alto todos os cônjuges, tornando fecunda a relação conjugal e, desta união, tendo como base o amor e o bem, possam no mundo, ser um testemunho eficaz da partilha, da unidade e da paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento / RJ