Arquivo da categoria: Homilias

Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

XXXIII – Domingo do tempo comum – A – parábola dos talentos

Mt 25,14-30

Caros irmãos e irmãs,

O trecho evangélico escolhido para este domingo é a parábola dos talentos. O texto nos diz que um homem, ao ausentar-se para uma viagem, distribuiu talentos a três servos, para que tomassem conta deles e os fizessem frutificar. A um deu cinco talentos, a outro, dois; e a um terceiro, apenas um talento. O talento era uma antiga moeda romana, de grande valor. Cada talento correspondia a um salário de vinte anos de trabalho de um operário comum; algo semelhante a 35 quilos de ouro; portanto, uma grande quantia. Logo, mesmo aquele que recebeu só um talento, recebeu uma enorme quantia; o que sublinha a imensa generosidade de Deus nos seus dons. A cada um ele os deu “conforme a sua capacidade” (v. 15), para que esses dons pudessem ser desenvolvidos e usados para fazer o bem a si mesmo, aos outros e ao Reino de Deus.

Mesmo diante desta diferença na distribuição dos talentos, chama inicialmente a nossa atenção, o fato de os dois últimos não reclamarem pelo fato de haver sido dado mais ao primeiro; os que têm menos não ficam com inveja do que recebeu mais, e este não despreza os outros dois. Sabem com segurança que tudo é do senhor. São eles apenas administradores, e cada qual deverá prestar contas na proporção do valor que lhe foi confiado. Por isto, não sentiram inveja e nem se revoltaram.

O servo que recebera cinco talentos negociou e conseguiu lucrar mais cinco. O que recebera dois, negociou também e lucrou outros dois. O terceiro, porém, sem coragem e omisso, escondeu debaixo da terra o talento recebido, para devolvê-lo na volta ao patrão. No retorno do patrão, os dois primeiros entregaram o lucro conseguido, e foram elogiados, o que o fez confiar a eles quantias maiores e os convidou: “Vem participar da minha alegria!” (v. 21). Ao terceiro, que entregou o talento que guardara escondido, temendo as exigências do patrão, recebeu severas admoestações: “Servo mau e preguiçoso!” (v. 26). E mandou que tirassem o talento e o entregassem ao que tinha dez. Em seguida, foi ele lançado nas trevas, onde haveria choro e ranger de dentes (v. 30).

Na parábola o patrão louva os discípulos que se empenharam em fazer frutificar os bens confiados a eles; e condena o discípulo que se instala no medo e na preguiça e não põe a render os talentos a ele confiados. Em conformidade com o costume da época, o ato de enterrar o dinheiro era considerado a forma mais segura contra o roubo ou eventuais guerras. Ele considerou enterrar o talento, como um prejuízo inaceitável, pois ele pensava que o capital deveria receber uma taxa de retorno razoável.

O patrão que seguiu em viagem deixou um total de 8 talentos; ao retornar, os 8 haviam se transformado em 15. Mas, o ganho de uma pessoa não ocorre à custa de um outro. O empreendimento eficaz do primeiro servo não prejudica as possibilidades do terceiro servo. Isto indica que seremos julgados, no juízo final, individualmente, não no conjunto.

Nesta parábola, o patrão pode ser identificado com o próprio Jesus que, antes de deixar este mundo, entregou bens consideráveis aos seus servos, ou seja, os discípulos. Os talentos são os dons que Deus, através de Jesus, ofereceu aos homens. Eles podem ser a Palavra de Deus, os valores do Evangelho, os sacramentos, o amor, a partilha, a misericórdia, a fraternidade e também o perdão, que o Senhor nos concede, sobretudo, no Sacramento da Confissão. Esses talentos recebidos devem dar frutos copiosos, sobretudo através do nosso testemunho. São os bens mais preciosos que recebemos do Senhor. Trata-se de um grande patrimônio que Ele nos confia. Nossa responsabilidade está em conservar todo este patrimônio, mas também fazê-lo multiplicar. Nós somos os depositários desses bens. Eles devem dar frutos e não podem ser enterrados.

Na perspectiva da nossa parábola, esses talentos que Jesus deixou aos seus discípulos necessitam dar frutos. A parábola apresenta os dois servos que investiram e multiplicaram os talentos recebidos como referência para cada um de nós. Eles se preocuparam em não deixar parados os talentos recebidos do patrão, fizeram investimentos, não se acomodaram e não se deixaram influenciar pelo medo. A parábola condena fortemente o servo que devolveu intactos os bens recebidos. Ele teve medo e, por isso, não correu riscos; não tirou desses bens qualquer fruto e impediu que os bens do seu senhor se desenvolvessem. O seu mal foi o de não fazer o bem. Ele, como de fato, não fez nada de mal, não estragou o talento, antes o guardou na terra. Mas, não fazer nada de mal, não basta para Deus.

Através desta parábola, o Evangelista São Mateus nos exorta a estarmos alertas e vigilantes. Não podemos esquecer os compromissos assumidos com o Cristo Senhor. O cristão não pode deixar na gaveta os dons recebidos de Deus. No mundo, somos as testemunhas de Cristo. É com o nosso coração que Jesus continua a amar os pecadores do nosso tempo; é com as nossas palavras que Jesus continua a consolar os que estão tristes e desanimados; é com os nossos braços abertos que Jesus continua a acolher cada irmão que está sozinho e abandonado.

Os dois primeiros servos da parábola que, talvez correndo riscos, fizeram frutificar os bens recebidos do patrão, mostram como devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Aquele servo que escondeu o talento sem o valorizar, comportou-se como se o seu dono não voltasse mais, como se não chegasse o dia em que lhe seriam pedidas as contas da sua ação. Com esta parábola, Jesus quer ensinar aos seus discípulos como melhor usar os dons recebidos de Deus, que chamou cada homem à vida e a ele deu muitos talentos. Ao comentar esta página evangélica, São Gregório Magno observa que o Senhor não deixa faltar a ninguém a sua caridade, o seu amor: “Por isso, meus irmãos, é necessário que dediqueis toda a atenção na conservação da caridade, em cada ação que deveis realizar” (S. GREGÓRIO MAGNO, Homilias sobre os Evangelhos 9, 6).

O buraco feito no terreno pelo servo mau e preguiçoso (v. 26) indica o medo de arriscar, que bloqueia a fecundidade do amor. Em um primeiro momento, a parábola parece falar dos bens materiais por causa da entrega dos talentos, ou seja, da enorme quantia recebida pelos três servos. Mas, na verdade, o grande tesouro que Jesus deixa em nossas mãos para fazer frutificar é sua Palavra divina. Não podemos guardar na gaveta a Palavra de Deus, mas, sim, fazê-la circular na nossa vida, nos nossos relacionamentos, nos nossos ambientes. São Paulo ressalta que a pregação do Evangelho produz frutos e cresce a partir do momento que o povo escuta e conhece a verdade e a graça de Deus (cf. Cl 1,6). Este é o grande talento deixado por Jesus: A palavra pregada, a Palavra escutada, a Palavra que se torna graça e verdade.

Saibamos ficar atentos e vigilantes, como nos exorta a parábola. O Senhor, quando voltar irá cobrar de cada um de nós os frutos do seu amor. A caridade é o bem fundamental que ninguém pode deixar de fazer frutificar (cf. 1Cor 13,3). O patrão ficou feliz com os administradores fiéis que multiplicaram os talentos recebidos. Mas, ficou ofendido com aquele que por medo e preguiça, enterrou o talento. Isso mostra que não podemos permitir que o medo, que vem da falta de fé, ou a preguiça, nos leve a enterrar nossos talentos, deixando-os infrutíferos.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, ela que também se fez Serva do Senhor, para que saibamos trabalhar com os talentos que também nós recebemos, fazendo-os frutificar na vida cotidiana e para que sejamos “servos bons e fiéis”, para um dia participar “na alegria do nosso Senhor”. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXXIII – DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – parábola das dez virgens

Mt 25,1-13

Caros irmãos e irmãs,

O texto Evangélico deste domingo nos convida a refletir sobre a Parábola das dez virgens. Elas traziam em suas mãos as lâmpadas acesas; ou seja, pequenas lamparinas com pavios alimentados a óleo e servia como uma tocha para iluminar o caminho. As dez virgens são divididas em dois grupos: “Cinco delas eram insensatas e cinco prudentes” (v. 2). Nos vv. 4 e 5 aparece já o modo de agir dos dois grupos. As insensatas pensam apenas no momento presente. Enchem as suas lâmpadas com óleo, mas não se preocupam de levar uma reserva de óleo (v. 4). As prudentes, ao contrário, contam com a possibilidade de atrasos e contratempos e levam uma reserva de óleo nos vasos. Na literatura sapiencial, o prudente é aquele que age de acordo com as exigências de Deus; o insensato, ao contrário, age conforme a sua cabeça.

O noivo, como de fato, atrasou-se (v. 5). O motivo do atraso não é mencionado no texto. Apenas é descrito o efeito desse atraso nas virgens, elas cansam: “Começam todas a cochilar e adormecem” (v. 5). Exatamente a meia noite, é dado o alarme da chegada do noivo. As virgens acordam e apressadamente tentam reanimar as lâmpadas. Neste momento, as insensatas percebem o erro que cometeram e tentam obter óleo com as prudentes (v. 8), que se negam a atender o pedido das companheiras alegando que o óleo que possuíam era insuficiente para todas; elas deviam antes, tentar comprar o óleo necessário com os vendedores (v. 9).

Em tais ocasiões não faltavam, certamente, vendedores nas proximidades especulando um bom negócio. Mas justamente neste momento, enquanto as insensatas procuram um vendedor de óleo, chega o noivo, e as virgens prudentes entram com ele para a festa. A porta da sala é fechada (v. 10). Mais tarde, chegam as cinco virgens insensatas com as suas lâmpadas reacesas e, encontrando a porta fechada, começam a chamar: “Senhor, abre-nos”. O noivo nega-se a abrir a porta alegando: “Em verdade vos digo, não vos conheço” (v. 12). E a parábola conclui com uma advertência: “Vigiai, pois, não sabeis o dia nem a hora” (v. 13). Este último versículo resume a mensagem que o Evangelista São Mateus quer que os cristãos assimilem: Vigilância. O esposo pode chegar de uma hora para outra, e é necessário estar sempre de prontidão para recebê-lo. Certamente a vigilância se refere, sobretudo, ao momento decisivo do encontro com Cristo, no fim da nossa vida.

A parábola toca nesta demora do retorno de Jesus, e no comportamento dos que se cansaram de esperar. Se a demora se prolonga, é preciso ter paciência. Adverte a Carta aos Hebreus: “É necessária a paciência para alcançardes os bens prometidos” (Hb 10,36). Inculcando a paciência na espera, São Pedro recorda a imensa paciência de Deus em esperar pela conversão dos pecadores: “Ele deseja que todos se arrependam dos pecados, porque Ele quer salvar a todos” (2Pd 2,9).

A história se repete conosco. Todos nós vivemos num ritmo de espera. Não apenas da nossa morte, mas também da chegada do Cristo para nos introduzir na Casa do Pai, onde há muitas moradas (cf. Jo 14,2). Só esperar pela morte é desesperador. Mas esperar por Ele, é caminhar de esperança em esperança. Ele chega em hora inesperada (v. 13). A Sabedoria consiste em estar sempre preparado (cf. Mt 24,44). A esta atitude a Escritura chama de “vigilância”.

Todo ambiente criado por Jesus nesta parábola é de expectativa. O texto está todo dominado pelo sentido de espera. Assim também é a vida cristã. Para as virgens da parábola, a espera é preenchida com duas preocupações: manter a lâmpada acesa e ir ao encontro do esposo. Transportando este fato para a nossa vida, isto significa que devemos viver na “vigilância” e na fidelidade. O que torna isso muito urgente é que não se sabe a hora. Aquelas virgens não sabiam a hora, também nós não sabemos.

A parábola tem como pano de fundo os rituais típicos dos casamentos judaicos. De acordo com os costumes, a cerimônia do casamento começava com a ida do noivo à casa da noiva, para levá-la para a sua nova casa. Normalmente, o noivo chegava atrasado, pois devia, antes, discutir com os familiares da noiva os presentes que ofereceria à família da sua amada. As negociações entre as duas partes eram demoradas e tinham uma importante função social. Enquanto isso, a noiva, vestida a caráter, esperava na casa do seu pai que o noivo viesse ao seu encontro. As amigas da noiva esperavam também, com as lâmpadas acesas, para acompanhar a noiva, entre danças e cânticos, até à sua nova casa. Era aí que tinha lugar a festa do casamento. É neste contexto que a parábola supõe.

O Reino de Deus é, aqui, comparado a com uma das celebrações mais alegres e mais festivas que os israelitas conheciam: o banquete de casamento. As dez jovens representam a totalidade do Povo de Deus, que espera ansiosamente a chegada do Messias (o noivo). Uma parte desse Povo (as virgens prudentes) está preparada e, quando o Messias finalmente aparece, pode entrar e fazer parte do Reino; outra parte (as jovens insensatas) não está preparada e não pode entrar no Reino de Deus. A parábola não critica as virgens por dormir, uma vez que ambos os grupos fazem isso. A parábola é, pois, no seu contexto original, um apelo aos israelitas no sentido de não perderem a oportunidade de participar da grande festa do Reino.

Na Parábola das dez virgens, cinco entram na festa, porque quando o esposo chega, têm óleo para acender as próprias lâmpadas; enquanto as outras cinco permanecem fora, porque insensatas, não tinham trazido óleo suficiente. Este “óleo”, indispensável para serem admitidas ao banquete nupcial, segundo Santo Agostinho (cf. Discursos 93, 4; PL 58.575) seria o símbolo do amor, que não se pode comprar, mas que recebemos como dom do Espírito Santo (cf. Gl 5,22), conservamos no íntimo e praticamos com as obras. Quem crê em Deus, que é Amor (cf. 1Jo 4,8), tem em si uma esperança invencível, como uma lâmpada com a qual podemos atravessar a noite para além da morte, e chegar à grande festa da vida. Cristo abre a porta às virgens sensatas que estavam acordadas e entram na festa de bodas. Puderam entrar porque encheram de azeite os seus frascos, e assim impediram que a caridade, que é a chama da alma, se extinguisse. Na nossa vida de cristãos, um exercício diário, sábio e prudente é colocar todos os dias nos vasos da nossa alma e no nosso coração a gota necessária de óleo para manter o nível da nossa reserva de amor.

Em várias passagens do Evangelho Jesus pede para repartirmos e dar aos necessitados o que temos. Aparentemente, na parábola, parece haver uma contradição. As virgens que tinham óleo de reserva, se negam a dividi-lo e, apesar disso, foram privilegiadas com a festa. Acontece que a parábola fala do momento, do encontro decisivo, onde só contam nossas obras pessoais, por isto, ninguém intercede por elas. Entrar ou não entrar no paraíso é uma decisão intransferível. O cultivo da fé, simbolizada na lâmpada acesa, pode ser favorecido por outros ao longo da vida. Mas na hora que o esposo chega, na hora do meu julgamento, ninguém pode me ajudar. Há um momento no qual se acende a luz na vida do cristão ao resplendor da vela batismal. Este é o alcance do freqüente simbolismo litúrgico da luz pascal. Devemos alimentar essa luz constantemente com o amor e a fidelidade diária. Que os ventos fortes da vida não apaguem esta chama da fé que tem início com o nosso batismo.

Terminemos nossa reflexão fixando o momento conclusivo da parábola: as virgens que estavam prontas entraram na sala do banquete e a porta se fechou. Nós evocamos este momento e o antecipamos em todas as missas com as palavras: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”, isto é, felizes os convidados para ceia das núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,9). Nós somos, portanto, como aquelas cinco virgens prudentes que se sentam à mesa com o esposo. Que todos nós, presentes a este banquete eucarístico, possamos nos encontrar um dia reunidos em seu Reino, no banquete eterno, que ninguém fique fora e a porta possa estar aberta para cada um de nós. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva

Dia de finados – Eu sou a ressureição e a vida

(Jo 11,25)
2 de novembro

Caríssimos irmãos e irmãs,

Neste dia 2 de novembro celebramos o dia de Finados, momento de fazer memória aos parentes e amigos já falecidos, em uma manifestação pública de afeto. Para os cristãos, este é também o momento de olhar para o futuro e ter o conforto de saber que o nosso destino está em Deus e que a morte nada mais é do que o nascimento para a vida eterna. A Igreja nos convida neste dia a comemorar todos os fiéis defuntos, a voltar o nosso olhar a tantos rostos que nos precederam e que concluíram o caminho terreno. Para nós cristãos a morte é iluminada pela ressurreição de Cristo e para renovar a nossa fé na vida eterna.

A liturgia do dia de Finados poderia ser chamada também de liturgia da esperança, pois, a vitória sobre a morte é o critério da esperança do cristão. Diante da morte a resposta do cristão deve ser: “A vida não é tirada, mas transformada”. E esta resposta baseia-se na fé na Ressurreição de Jesus. Somos unidos com Ele na vida e na morte. Somente quem pode reconhecer uma grande esperança na morte, pode também viver uma vida a partir da esperança. O homem tem necessidade de eternidade e esse desejo de eternidade foi o que Jesus veio trazer quando disse: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá” (Jo 11,25-26).

A Palavra de vida e de esperança é um profundo conforto para nós, face ao mistério da morte, especialmente quando atinge as pessoas que nos são mais queridas. Embora nos tenhamos entristecido porque tivemos que nos separar delas, e ainda nos amargura a sua falta, a fé nos enche de íntimo alívio perante o pensamento de que, como aconteceu para o Senhor Jesus e sempre graças a Ele, a morte já não tem qualquer poder sobre eles (cf. Rm 6,9). Passando, nesta vida, através do Coração misericordioso de Cristo, eles entraram “num lugar de descanso” (Sb 4,7).

Nossa vida é medida pelo tempo, ao longo do qual passamos por mudanças, envelhecemos e, como acontece com todos os seres vivos da terra, a morte aparece com o fim normal da vida, é a conclusão da peregrinação terrestre do homem. Mas graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo. São Paulo nos conforta dizendo: “Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro” (Fl 1,21); e nos diz ainda: “Se com Ele morrermos, com Ele viveremos” (2Tm 2,11). Na morte, Deus chama o homem a si. É por isso que o cristão pode sentir, em relação à morte, uma aspiração semelhante à de São Paulo: “O meu desejo é partir e ir estar com Cristo” (Fl 1,23). E cada cristão pode transformar a sua própria morte em um ato de obediência e de amor para com o Pai, a exemplo de Cristo.

Cremos firmemente que, da mesma forma que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos, e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre (cf. Jo 6,39ss). Crer na ressurreição dos mortos foi, desde os primeiros tempos, um elemento essencial da fé cristã. E o próprio Jesus liga a fé na ressurreição à sua própria pessoa: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Também recitamos o Credo e rezamos: “Creio na ressurreição dos mortos, na vida eterna”. E com relação à morte Santa Teresinha do Menino Jesus dizia: “Eu não morro, entro na vida”. E a Igreja nos encoraja à preparação para a morte e a pedir à Mãe de Deus que interceda por nós “agora e na hora da nossa morte”, como rezamos quotidianamente na oração da Ave Maria.

E ao nos dirigirmos aos cemitérios para rezar pelos nossos defuntos, somos convidados, mais uma vez, a renovar com coragem e com força a nossa fé na vida eterna, e mais, viver com esta grande esperança e testemunhá-la ao mundo. Diante da morte, nada mais consolador do que a mensagem do próprio Cristo. Ele sabia que iria passar por este caminho, pelo caminho da dor que culminaria com a sua morte de cruz. Mas após o terceiro dia ocorreu a ressurreição. E São Paulo vem ainda nos confirmar: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé” (1Cor 15,14).

É ainda São Paulo que nos assegura: “Assim como Cristo ressuscitou dos mortos, mediante a glória do Pai, caminhemos nós também numa vida nova” (Rm 6,4). Vem também à mente as palavras de conforto pronunciadas pelo Cristo Senhor: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2).

Jesus Cristo ilumina o mistério da dor e nos ensina a olhar a morte além da angústia e do medo. Ele venceu o lado angustiante da morte, através da sua Ressurreição, pela qual foi possível abrir a porta da esperança para a eternidade. Cristo transformou a morte, que anteriormente era vista como um túnel escuro e sem saída, em uma passagem luminosa, um caminho para a Páscoa.

Cristo morreu e ressuscitou e nos abriu a passagem para a casa do Pai, o Reino da vida e da paz. Quem segue Jesus nesta vida é recebido onde Ele nos precedeu. Portanto, enquanto visitamos os cemitérios, recordemo-nos que ali, nos túmulos, repousam só os despojos dos nossos entes queridos na expectativa da ressurreição final. As suas almas, como diz a Sagrada Escritura, já “estão nas mãos de Deus” (Sb 3,1). Portanto, o modo mais justo e eficaz de os honrarmos é rezar por eles, oferecendo atos de fé, de esperança e de caridade em união ao Sacrifício Eucarístico (cf. BENTO PP XVI, Angelus, 1 de novembro de 2009).

O dia de finados é sempre excelente ocasião, não somente para rezar pelos nossos irmãos já falecidos, mas também para alagarmos nosso conceito de vida, pensarmos no modo como estamos vivendo, bem como reforçarmos a nossa esperança de um dia estarmos todos diante do Pai. Portanto, a nossa oração pelos defuntos é útil e também necessária, enquanto ela não só os pode ajudar, mas ao mesmo tempo torna eficaz a sua intercessão em nosso benefício (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 958).

Pensemos também na cena do Calvário e nas palavras pronunciadas por Jesus do alto da Cruz ao bom ladrão, que a tradição identificou como São Dimas e que está à sua direita: “Em verdade eu te digo: Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). Possamos também refletir sobre os dois discípulos que caminhavam na estrada de Emaús, quando, depois de terem percorrido uma parte do caminho com Jesus ressuscitado, o reconhecem e partem para Jerusalém para anunciar a Ressurreição do Senhor (cf. Lc 21,13-35).

Cada Santa Missa possui um valor infinito e é o que temos de mais valioso para oferecer pelas almas. Também podemos oferecer por elas as indulgências que lucramos na terra: as nossas orações; a melhor maneira de demonstrarmos o nosso amor pelos nossos parentes e amigos e por todos os que nos precederam e esperam o seu encontro definitivo com Deus.

Nas nossas orações, peçamos para que também nós, peregrinos na terra, mantenhamos sempre orientados os olhos e o coração para a meta derradeira pela qual aspiramos: a casa do Pai, o Céu. E que o Senhor nos conceda, no final da nossa peregrinação terrestre, uma morte santa e que possamos estar entre os seus escolhidos para que Ele possa dizer neste dia a cada um de nós: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei como herança o reino que para vós está preparado desde a criação do mundo” (Mt 25,34). Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

Solenidade de todos os santos – As bem aventuranças

Mt 5,1-12

Meus caros irmãos e irmãs

Iniciamos o mês de novembro com a solenidade de Todos os Santos. O nosso coração e o nosso pensamento se voltam para muitos homens e mulheres que souberam viver uma profunda unidade com Deus. É um dia em que recordamos não apenas os santos canonizados, muitos deles já têm a sua festa própria ao longo do ano, mas, sobretudo, os santos anônimos e desconhecidos. Abrange todos aqueles que foram justificados pela fé em Cristo. Recordamos aqueles que vivem para sempre diante de Deus.

Como leitura evangélica, temos o texto das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), visando ressaltar que a sua vivência total é o melhor caminho para se chegar à santidade. A prática das bem-aventuranças é a marca e o selo dos santos descrita por Jesus, para sublinhar a dinâmica da santidade. Esta é a meta espiritual, à qual todos os batizados estão chamados a alcançar, seguindo o caminho das bem-aventuranças traçadas por Jesus e que a liturgia nos indica como leitura para a solenidade de hoje.

É o mesmo caminho traçado por Jesus e que os santos se esforçaram em percorrer. Em sua existência terrena, de fato, foram misericordiosos, puros de coração, trabalhadores pela paz, perseguidos pela justiça. E Deus os fez partícipes de sua própria felicidade: Agora são consolados, herdeiros da terra, saciados, em síntese: “deles é o Reino dos Céus” (cf. Mt 5, 3.10).

Todos os santos sempre foram e são contemporaneamente, embora em medida diversa, pobres de espírito, mansos, aflitos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz e perseguidos pela causa do Evangelho. E assim devemos ser também nós. Além disso, na base desta página evangélica é evidente que a bem-aventurança cristã, como sinônimo de santidade, não está separada de um eventual sofrimento ou pelo menos de dificuldade.

Portanto, santos são os pobres em espírito, cujo coração está centrado em Deus. Pobres de espírito são os humildes, os que têm coração desapegados dos bens terrenos. Para isso, não é necessário ter nada, mas é preciso usar o que se tem conforme o espírito do Evangelho. A verdadeira riqueza não consiste nos tesouros desta terra, mas na graça, na virtude, nos merecimentos e na amizade com Deus.

Santos são os mansos, que por não responderem à violência com violência, herdarão um bem inalcançável pelos violentos. Os mansos são aqueles que, conformados com a vontade de Deus, suportam com paciência as adversidades desta vida. São aqueles que usam de mansidão, que tratam o próximo com bondade, tolerando pacientemente suas impertinências, sem queixas ou atitudes de vingança.

Santos são os aflitos, que são impotentes diante de situações dramáticas, e não pretendem ter solução para tudo. Há muitos que não entendem a razão dos sofrimentos e se revoltam contra Deus. Jesus diz que os aflitos são felizes. De fato, se souberem aceitar com resignação as provas que Deus envia, se souberem sofrer com ânimo as misérias e dificuldades da vida, a recompensa será a consolação de Deus.

Santos são os famintos e sedentos de justiça, que não pactuam com a maldade, nem se deixam levar pela lógica da dominação. Deus mesmo haverá de realizar seu ideal e fazê-los contemplar o reino da justiça. Trata-se daquela justiça interior que torna o homem agradável a Deus, quando se esforça por cumprir sempre a vontade de Deus. O primeiro passo para conseguir a santidade é desejá-la. Por isso, Jesus diz que são felizes os que têm fome e sede de justiça, isto é, aqueles que realmente desejam ser santos. Mas é necessário que este desejo seja eficaz. Isto é, que empreguemos os meios necessários para consegui-lo.

Santos são os misericordiosos, cujo destino consistirá em viver a comunhão definitiva com o Deus, que também é misericórdia. Os misericordiosos são, de modo geral, aqueles que têm sentimentos de compaixão para com os aflitos e os miseráveis de toda espécie. São misericordiosos os que são caridosos e se compadecem das misérias do próximo e também que perdoam. Quem for misericordioso receberá também a misericórdia divina. E Deus será misericordioso conosco à medida que o formos com nosso próximo.

Santos são os puros de coração, que não agem com segundas intenções nem falsidade, mas sim, com transparência. São os que fogem de todo pecado e praticam a pureza. Ser puro é ter uma alma livre de afetos desordenados e conserva a pureza de coração. Por isso, serão recompensados com a visão de Deus, em todo seu esplendor.

Santos são os promotores da paz, que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, a fim de que o mundo seja mais fraterno. Promover a paz consiste em esquecer as injúrias. A paz, que gera a felicidade, não é aquela que está apenas nos lábios, mas a que repousa no coração. Os promotores da paz serão chamados filhos de Deus.

Santos são também os perseguidos por causa da justiça, os que lutam para fazer valer o projeto de Deus para a humanidade. São eles humilhados, agredidos, marginalizados, por parte daqueles que praticam a injustiça e fomentam a opressão e a morte. Nesta última bem-aventurança, os perseguidos são convidados a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.

Portanto, todos os seres humanos são chamados à santidade que, em última análise, consiste em viver como filhos de Deus, naquela “semelhança” com ele segundo a qual foram criados. Todos os seres humanos são filhos de Deus, e todos devem tornar-se aquilo que são, através do caminho exigente da liberdade. Deus nos convida a fazer parte do seu povo santo. O caminho é Cristo e ninguém chega ao Pai senão por meio dele (cf. Jo 14,6).

As bem-aventuranças traçam o mapa deste caminho. As oito bem-aventuranças são os sinais que indicam a direção a seguir. É um caminho, mas foi o primeiro que Jesus percorreu. E certa ocasião ele disse: “Quem me segue não andará nas trevas” (Jo 8,12). E noutra ocasião acrescentou: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).

Uma das respostas próprias dos fiéis no momento da Oração Eucarística diz: “Caminhamos na estrada de Jesus”. É este o convite que o Senhor hoje nos faz. Os santos caminharam na estrada de Jesus e souberam seguir o Cristo. É por esse caminho que caminhamos para o céu. E é por isso que hoje estão na Casa de Deus para sempre. É um convite solene e luminoso lançado à terra dos homens, para que sigamos o mesmo caminho. Caminhando com Cristo, podemos conquistar a alegria, a alegria verdadeira!

Peçamos a Virgem Maria, aquela que todas as gerações a proclamam de “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48), que ela nos faça caminhar na via da santidade e nos conduza ao seu filho Jesus e saibamos reconhecer que temos necessidade de Deus, da sua misericórdia e do seu perdão, para um dia entrarmos no seu Reino, Reino de justiça, de amor e de paz.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXX – DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – O maior mandamento da Lei

Mt 22,34-40

Caros irmãos e irmãs,

O domingo é o dia litúrgico por excelência, no qual os fiéis se reúnem para lembrar a paixão, a ressurreição e a glória do Senhor Jesus e dar graças a Deus, escutando a Palavra e participando da Eucaristia (cf. SC 106). A conservação e a alimentação da fé estão ligadas à participação da celebração Eucarística, que deve ser sempre o centro da comunidade paroquial dos fiéis (cf. CIC, cân. 528).

O Evangelho deste domingo se insere em mais uma controvérsia entre Jesus e o grupo dos fariseus. Mais uma vez, querem testar os conhecimentos de Jesus sobre a Lei e um deles pergunta qual é o maior mandamento da Lei (v. 36). Este questionamento não tem como objetivo conhecer a verdade, e sim colocar Jesus à prova, para experimentá-lo (cf. v. 35). Jesus não hesita e responde imediatamente: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento” (v. 37-39). Na sua resposta, Jesus cita o Shemá, a oração que o israelita recita várias vezes ao dia (cf. Dt 6,4-9; Nm 15,37-41): a proclamação do amor íntegro e total devido a Deus, como o único Senhor.

Com efeito, a exigência principal para cada um de nós é que Deus esteja presente na nossa vida. Como diz a Escritura, Ele deve imbuir todas as camadas do nosso ser e enchê-las completamente: o coração deve conhecê-lo e deixar-se tocar por Ele; e assim também a alma, as energias da nossa vontade e das nossas escolhas, bem como a inteligência e o pensamento, para que possamos dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Jesus ainda acrescenta algo sobre o segundo mandamento que, na realidade, não tinha sido perguntado pelo doutor da lei: “O segundo é semelhante ao primeiro: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (v. 39). O aspecto surpreendente da resposta de Jesus consiste no fato de que Ele estabelece uma relação de semelhança entre o primeiro e o segundo mandamento, definido também esta vez com uma fórmula bíblica tirada do código levítico de santidade (cf. Lv 19, 18).

Esta questão do maior mandamento da Lei era, no tempo de Jesus, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. Os rabinos, ao estudar a Bíblia, tinham chegado a compor uma lista dos mandamentos nela contidos. Uma tarefa difícil, considerando que na Lei de Moisés foram identificados um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a serem colocadas em prática. Como discernir dentre eles o maior? Os guias religiosos de Israel ensinavam que todos esses mandamentos tinham a mesma importância e eram igualmente obrigatórios; discutia-se, porém, qual seria o primeiro e o maior de todos esses mandamentos. Para alguns rabinos o preceito do sábado valia mais do que todos os outros mandamentos, enquanto que para outros o amor a Deus e ao próximo estaria em primeiro lugar.

A resposta de Jesus, portanto, supera o horizonte estreito da pergunta. O importante, na perspectiva de Jesus, não é definir qual o mandamento mais importante, mas encontrar a raiz de todos os mandamentos. E, na perspectiva de Jesus, essa raiz gira à volta de dois mandamentos: o amor a Deus e o amor ao próximo.

A originalidade deste ensinamento está, por um lado, no fato de Jesus aproximar um mandamento do outro, pondo-os em perfeito paralelo e, por outro, no fato de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos. Deste modo, Jesus oferece a cada homem o critério fundamental sobre o qual devemos delinear a nossa própria vida.

Jesus ainda acrescenta em sua resposta que é preciso “amar o próximo como a si mesmo” (v.39). As palavras “como a si mesmo” significam que é preciso amar totalmente, de todo o coração. Já o Evangelista São João nos diz: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas não ama seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20). É preciso reconhecer que Deus está presente no irmão que sofre e este amor deve ser manifestado no auxílio que podemos dar, sobretudo, para aqueles que se encontram em maior fragilidade.

É com estes menores de seus irmãos que Jesus também se identifica, pois ele mesmo disse: “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes… Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes… Em verdade vos digo: todas as vezes que deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que deixastes de fazer” (Mt 25,31-46).

Cristo deixou aos seus discípulos o mandamento do amor: “Como eu vos amei, assim amai-vos também vós uns aos outros” (Jo 13,24). E ainda ressaltou: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34-35). E São Paulo, com uma fórmula ainda mais lapidária, sintetiza assim a vida nova dos batizados em Cristo: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois o que ama o outro cumpriu a lei… Portanto a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13, 8-10).

Também a primeira Leitura, tirada do Livro do Êxodo (cf. Ex 22,20-26), nos orienta para esta mesma direção, insiste sobre o dever do amor; um amor testemunhado concretamente nas relações entre as pessoas: devem ser relações de respeito, de colaboração, de ajuda generosa. O próximo a ser amado é também o estrangeiro, o órfão, a viúva e o indigente, aqueles cidadãos que não têm defensor algum.

Na segunda Leitura podemos ver uma aplicação concreta do máximo mandamento do amor numa das primeiras comunidades cristãs. São Paulo procura exortar os tessalonicenses: “Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1Ts 1,6). Os ensinamentos que tiramos da experiência dos Tessalonicenses é que o amor pelo próximo nasce da escuta atenta da Palavra divina. Por isto, é importante ouvir a Palavra e vivê-la no dia a dia.

Que a escuta renovada da Palavra de Deus possa fazer brotar em nós uma autêntica renovação na fé e na santidade de vida. Peçamos, uma vez mais, a materna intercessão da Virgem Maria, que nas Bodas de Caná exortou a fazer tudo quanto Jesus dissesse (cf. Jo 2,5), para que saibamos reconhecer na nossa vida a primazia da Palavra de Deus, que é também um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são caminhos permanentes de salvação para todos. Assim seja!

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

XXIX – DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – O que é de César e o que é de Deus

Mt 22,15-21

Caros irmãos e irmãs,

O evangelho deste domingo nos fala sobre a legitimidade do tributo a pagar a César, que contém a conhecida resposta de Jesus: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). Com efeito, os interlocutores de Jesus, discípulos dos fariseus e herodianos, fizeram-lhe uma pergunta: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” (v. 16-17).

Esta questão apresentada a Jesus é delicada. Diz respeito à obrigação de pagar os tributos ao imperador de Roma. As províncias romanas pagavam o tributo, quantia estipulada por Roma e que todos os habitantes do Império, com exceção das crianças e dos velhos, deviam pagar. Era considerado um sinal infamante da sujeição a Roma. A Palestina do tempo de Jesus estava sob o domínio do Império Romano. E a moeda que circulava era a moeda romana, na qual havia a imagem do Imperador, onde ele era qualificado não só como “Augusto” e “Pontífice Máximo”, mas também como “deus”: “Divius”. Isso era intolerável para os judeus de consciência reta.

Em outras palavras, a pergunta que colocam para Jesus é, portanto, esta: é lícito pactuar com esse sistema gerador de escravidão e de injustiça? Os partidários de Herodes e os saduceus, a alta aristocracia sacerdotal, estavam perfeitamente de acordo com o tributo, pois aceitavam naturalmente a sujeição a Roma. Os partidários da dinastia de Herodes (cf. Mc 3,6), eram expressamente escolhidos para que fossem transmitir à autoridade romana a declaração hostil a César que, como esperavam, Jesus devia pronunciar. Os movimentos revolucionários, no entanto, estavam frontalmente contra, pois, consideravam o Imperador um usurpador do poder. Os fariseus, embora não aceitando o tributo, tinham uma posição intermédia e não propunham uma solução violenta para a questão.

Mas, Jesus é sincero e ensina o caminho de Deus segundo a verdade, sem se preocupar com ninguém. Ele mesmo é aquele caminho de Deus, que nós somos chamados a percorrer. Se Jesus viesse a pronunciar a favor do pagamento do tributo, seria acusado de colaboracionismo e de defender a usurpação pelos romanos do poder que pertencia a Deus; mas se caso Jesus se pronunciasse contra o pagamento do imposto, seria acusado de revolucionário, inimigo da ordem romana, estaria contra o poder de Roma.

No entanto, Jesus não se deixou amarrar por nenhum dos lados da questão polêmica, fundada em situações políticas, pequenas diante da grandeza do Reino de Deus. Jesus pediu aos seus interlocutores que lhe mostrassem uma das moedas do imposto. Eles apresentaram a Jesus a moeda de um denário. Justamente onde estava a efígie do Imperador com seus títulos de honra. “De quem é esta imagem e esta inscrição que aqui está?” Perguntou-lhes Jesus. E responderam: “De César”. Por isto, declarou Jesus: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,19-21).

Com esta informação, certamente, Jesus quis sugerir que o homem não pode nem deve eximir-se das suas obrigações para com a sociedade em que está integrado. Em qualquer circunstância, ele deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o bem comum. A isso, chama-se “dar a César o que é de César”. No entanto, o mais importante é que o homem reconheça a Deus como o seu único Senhor. As moedas romanas têm a imagem de César – que sejam dadas a César.

O homem, no entanto, não tem em si a imagem de César, mas a imagem de Deus. Podemos ler as palavras de Deus no livro do Gênesis: “Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança…” (Gn 1,26-27). Portanto, o homem pertence somente a Deus, deve entregar-se a Ele e reconhecê-lo como o seu único Senhor. Jesus vai muito além da questão que lhe puseram. Na abordagem de Jesus, a questão deixa de ser uma simples discussão acerca do pagamento ou do não pagamento de um imposto, para se tornar um apelo a que o homem reconheça Deus como o seu Senhor e realize a sua vocação essencial de entrega a Deus, uma vez que ele foi criado por Deus, pertence a Deus e transporta consigo a imagem do seu Senhor e seu Criador.

Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar; mas isso não significa que o cristão viva à margem do mundo e fique ausente das suas responsabilidades na construção do mundo. O cristão deve ser um cidadão exemplar, que cumpre com a sociedade os seus deveres e colabora ativamente na construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre pontualmente as suas obrigações tributárias, com coerência e lealdade. Não foge aos impostos, não aceita esquemas de corrupção, não infringe as regras legalmente definidas. Vive de olhos postos em Deus; mas não deixa de lutar por um mundo melhor. São Paulo irá lembrar sobre os deveres dos cristãos perante os poderes públicos e irá dizer explicitamente: “Pague-se o imposto a quem se deve o imposto” (Rm 13,7).

A primeira leitura, tirada do Livro de Isaías, diz-nos que Deus é um só, é único; não existem outros deuses fora do Senhor (cf. Is 45,1.4-6). Isso nos apresenta o sentido teológico da história: o suceder-se das grandes potências encontram-se sob o domínio supremo de Deus; nenhum poder terreno pode colocar-se no seu lugar. O homem nunca pode deixar Deus de lado. Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Trazemos a marca de Deus. Por isto cada homem é chamado a uma relação pessoal com o nosso Criador.

Também a segunda leitura retirada da primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses (cf. 1Ts 1,1-5), lembra- nos, antes de tudo, que sempre somos chamados a dar Graças a Deus. E o próprio anúncio de evangelização deve ser precedido, acompanhado e seguido pela oração. Com efeito, escreve o apóstolo: “Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-nos sem cessar de vós nas nossas orações” (v. 2).

Neste sentido, o “dar a Deus o que é de Deus”, significa abrir-se à sua vontade e dedicar a ele toda a nossa vida, cooperando para o seu Reino de misericórdia, amor e paz. Devemos também ter consciência de que só Deus é o Senhor do homem, e não há outro. A criatura não pode pertencer a mais ninguém, mas somente a Deus, o seu Criador. Isto também sinaliza que devemos respeitar cada criatura, pois a imagem de Deus está impressa no rosto de cada pessoa. É preciso redescobrir esta novidade perene a cada dia.

Os santos souberam “dar a Deus o que é de Deus”, dedicando toda a sua vida ao Senhor, a quem devemos amar sobre todas as coisas. E, sobretudo, a Virgem Maria, Senhora da escuta fiel e modelo de santidade, fez isto de uma maneira admirável. Peçamos a sua intercessão para que saibamos também nós dar a Deus o que é de Deus. E ela, que não teve medo de fazer a vontade do Senhor ao longo de toda a sua existência, nos ajude a acolher na fé os ensinamentos do seu Divino Filho e nos faça colocá-los em prática cotidianamente. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – Parábola dos convidados para o banquete

Mt 22,1-14

Caros irmãos e irmãs

A liturgia da Palavra deste domingo utiliza a imagem do banquete para descrever a comunhão que Deus deseja estabelecer com todos. No ambiente sóciocultural do mundo bíblico, o banquete manifesta o momento da partilha, da convivência, da comunhão e do estabelecimento de laços familiares entre os convivas. Além de um acontecimento social, o banquete tem frequentemente, uma dimensão religiosa. Os banquetes sagrados celebram e potenciam a comunhão entre Deus e os fiéis, como nos relatam as passagens bíblicas dos sacrifícios de comunhão celebrados no Templo de Jerusalém (cf. Lv 3).

Quem organizava um banquete, procurava fazer uma seleção cuidadosa dos convidados: a presença de pessoas inadequadas poderia abalar, consideravelmente, o perfil da família; e, por outro lado, a presença à mesa de pessoas importantes realçava a sua relevância. Neste sentido, o profeta Isaías, na segunda leitura, anuncia que Deus, no futuro, vai oferecer um banquete e todos serão convidados. Trata-se, portanto, de uma iniciativa de Deus. Os que aceitarem este convite, estarão em comunhão total com Deus (cf. Is 26,6-10).

No Evangelho, dando sequência ao tema do banquete, o evangelista São Mateus, nos apresenta duas parábolas diferentes: a dos convidados para o “banquete” (v. 1-10) e a do convidado que se apresentou sem o traje adequado (v. 11-14). As duas parábolas estão unidas pela mesma proposta.

A primeira parábola (vers. 1-10) ressalta a figura de um rei que organiza um banquete para celebrar o casamento do seu filho. Convidou várias pessoas, mas os convidados recusaram o convite, cada um apresentando as suas desculpas. Trata-se de um quadro gravíssimo: recusar o convite era uma ofensa grave. Mas, entretanto, como se isso não bastasse, esses convidados manifestaram um desprezo inconcebível pelo rei, matando os seus servos. O convite do rei encontra inclusive reações hostis, agressivas; mas isto não faz diminuir a sua generosidade. Ele não desanima, e envia os seus servos a convidar muitas outras pessoas. A recusa dos primeiros convidados tem como efeito a extensão do convite a todos, sem nenhuma exceção. O rei resolveu, apesar de tudo, manter a festa e mandou que fossem trazidos para o “banquete” todos os que estivessem nas “encruzilhadas dos caminhos”. Todos foram convidados para sentar junto à mesa do rei.

Na parábola, Deus é o rei que convidou Israel para o “banquete” do encontro, da chegada dos tempos messiânicos; para as bodas do seu filho, uma alusão a Jesus Cristo. Os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei recusaram o convite. Então, Deus convidou todos para o banquete, inclusive os pecadores que, segundo a teologia oficial da época, estavam fora da comunhão com Deus. Para Jesus, o sentar-se à mesa com os pecadores é uma forma privilegiada de lhes dizer que Deus os acolhe com amor e que quer estabelecer com eles relações de familiaridade, sem excluir ninguém do seu convívio. Mas, a mensagem da parábola também é esta: trata-se de um convite urgente à conversão.

A segunda parábola é a parábola do convidado que se apresentou na festa sem o traje nupcial (11-14). Segundo o protocolo oriental, o rei não participava no banquete, porém, num certo momento entrava na sala para receber o obséquio e o agradecimento dos convidados. No Oriente, desde os tempos remotos, os reis costumavam presentear aos seus hóspedes com roupas idôneas para a solenidade das suas audiências ou para o privilégio do comparecimento diante deles. O homem da parábola que não tinha o traje da festa, não quis prover-se desta veste, que ficava na entrada do palácio, o que indica uma falta de respeito não menos grave que a daqueles que rejeitaram o convite do Rei. O rei que organizou o banquete mandou, então, lançá-lo fora da sala onde se realizava a festa. Assim como aqueles que recusaram o convite, ele também foi condenado ao inferno.

Fica doloroso e chega até a ser contraditório perceber que em um certo momento da festa um homem é expulso de uma maneira tão violenta, porque não estava com a veste adequada. Mas, o objetivo da parábola é apresentar uma advertência para aqueles que aceitaram o convite de Deus para a festa do Reino, aderiram à proposta de Jesus e receberam o batismo, mas é ainda necessário vestir um estilo de vida que ponha em prática os ensinamentos de Jesus. Quem foi batizado e aderiu ao banquete do Reino, mas recusa o traje do amor, do serviço e da misericórdia; e continua com as vestes do egoísmo, da arrogância, por isso, não pode participar da festa do encontro e da comunhão com Deus.

São Gregório Magno, em um comentário sobre esta parábola, explica que aquele hóspede respondeu ao convite do Senhor para participar no seu banquete, de certa forma, tem a fé que lhe abriu a porta da sala, mas falta-lhe algo essencial: a veste nupcial, que é a caridade, o amor. Aqueles que foram chamados e comparecem, de alguma maneira, têm fé. É a fé que lhes abre a porta; mas falta-lhes o hábito nupcial do amor. Quem não vive a fé com amor, não está preparado para as núpcias e é expulso (cf. S. GREGÓRIO MAGNO, Homilia 38, 9; PL 76, 1287). Quem estava sem a veste poderia ser um dos fariseus que não obedeceram ao Cristo. Não aceitaram o convite à conversão que Ele veio trazer.

Nós também somos convidados para o banquete da Eucaristia, banquete da Igreja, banquete das núpcias do Cordeiro. Para participarmos deste banquete também necessitamos trajar a veste do Batismo, aquela veste branca, que deve ser o sinal da nossa pureza, manifestada pelo profundo amor a Deus e ao próximo e pelas boas obras que realizamos. Não podemos participar da Eucaristia, sendo portadores de ações contrárias aos princípios ensinados pelo Evangelho. Mediante a pergunta do Rei: “Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?”, observamos que “o homem nada respondeu!” (v. 12). Por esta razão a parábola termina dizendo: “Muitos são os chamados, poucos são os escolhidos” (Mt 22,14). Um dia também teremos que prestar contas a Deus e a Ele pertence o julgamento; a nós, compete conservar pura a veste do nosso Batismo.

Pode-se ainda observar que os servos encarregados de levar o convite, estão divididos em três grupos. Os primeiros dois grupos representam os profetas do Antigo Testamento, até João Batista. Eles cumpriram a missão de preparar Israel para receber Jesus como o Messias. O terceiro grupo representa os apóstolos e todos nós. Os convidados recolhidos ao longo dos caminhos são identificados como bons e maus; são pessoas do mundo inteiro. O povo de Deus é composto por gente boa e por gente má; é um campo onde encontramos o trigo e o joio; é uma rede onde pode apanhar todas as espécies de peixes. Para nós, a parábola é um convite para abrir o coração e as portas das Igrejas a todas as pessoas, a todos aqueles que são rejeitados pela sociedade.

O Banquete Eucarístico do qual participamos é o Banquete que o rei, o Pai eterno, nos preparou: Banquete da aliança do seu Filho com a humanidade. Conforme nos fala o Livro do Apocalipse: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9). Este Cordeiro, é o próprio Jesus dado e recebido em comunhão.

Possamos acolher com alegria este convite e sermos dignos de participar dessa mesa sagrada. E que possamos estar entre os felizes convidados para a ceia do Senhor e que, dentre os muitos convidados, possamos nós estar entre os escolhidos. E, ao participarmos desta ceia, possamos estar revestidos do homem novo, com modéstia, perdão mútuo e caridade. Assim seja.

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – Parábola dos vinhateiros homicídios

Mt 21,33-43

Caros irmãos e irmãs

O simbolismo da vinha era muito usado pelos profetas e sábios do Antigo Testamento, certamente, porque esta era uma das características da região de Israel, singularmente caracterizada pelo cultivo da videira. A imagem da vinha descreve com frequência na Sagrada Escritura, o projeto divino de salvação e se apresenta como uma significativa alegoria da aliança de Deus com o seu povo. No Antigo Testamento, a vinha é também imagem do amor para com o próximo e da solidariedade para com o outro (cf. Ex 23,11; Dt 24,21; Dt 23, 24; Lv 25,3), concretizado em ações que resultam no interesse do homem para consigo e para com o próximo. O próprio Evangelho é o vinho novo, fervilhante de vida, que Jesus vai colocar nos odres novos dos corações renovados pela sua pregação. A vinha aparece ainda como símbolo do povo que o Senhor escolheu. Assim como a vinha, o homem exige cuidado, atenção e requer uma dedicação paciente e fiel. É deste modo que Deus age com cada um de nós e é, também, assim que devemos agir com as pessoas, no âmbito do convívio fraterno.

E dentro deste cenário, a liturgia da Palavra deste domingo nos apresenta a Parábola dos vinhateiros homicidas, destinada a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto de salvação que Deus oferece aos homens através do seu Filho Unigênito. A carta aos hebreus também assinala: “Muitas vezes e de muitas maneiras Deus falou a nossos pais por meio dos profetas: por último nos falou em seu Filho a quem constituiu herdeiro de tudo” (Hb 1,1s).

No texto evangélico Jesus retoma o cântico do Profeta Isaías (cf. Is 5,1-7), com algumas adaptações, fazendo ressonâncias à nova hora da história da salvação. Jesus começa contando que o dono de um campo plantou uma vinha e a cercou de todos os cuidados, para que ela pudesse crescer com segurança e a seu tempo, dar frutos, que seriam transformados em vinho no lagar construído junto à própria vinha. Esse proprietário teve que viajar e a arrendou para vinhateiros que, no momento oportuno, lhe entregariam os lucros obtidos com a produção.

Na época da colheita, o proprietário mandou emissários seus para receber o que lhe era devido. Mas os vinhateiros prenderam uns, apedrejaram outros e mataram alguns. Um segundo grupo de emissários, mandados em seguida, foi tratado da mesma maneira (v. 35-36). O texto ainda diz: “O proprietário, por fim, enviou-lhe o seu próprio filho, pensando ‘ao meu filho eles vão respeitar’. Mas os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!’ Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram” (v. 37-39).

Observa-se aqui uma alusão ao fato que Jesus foi crucificado no Gólgota, fora dos muros da cidade de Jerusalém. A decisão de matar o filho, como nos narra a parábola, para “ficar com a herança”, refletiria igualmente um aspecto da legislação judaica (cf. 1Rs 21,15) e romana de então. Essa legislação previa que terceiros poderiam entrar na posse de todo e qualquer bem, quando deixasse de existir um legítimo proprietário. Jesus ainda cita, nesta parábola, um versículo do Salmo 118: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (v. 22). A expressão “pedra angular” significa a última pedra, com a qual se completa a abóbada e que garante a consistência, quanto a pedra fundamental, isto é, a primeira pedra de um edifício, sobre a qual cairá o peso inteiro da construção.

Podemos identificar nesta parábola que a vinha é Israel; o dono é Deus; os arrendatários, os chefes do povo judeu; os mensageiros, os profetas; o filho morto, Cristo Jesus, e o castigo de justiça é a entrega da vinha a outros. Quem seriam estes outros? Trata-se, pois, da Igreja que é o novo Povo de Deus, o novo e verdadeiro Israel de Deus (cf. Gl 6,16).

A mensagem que a parábola nos deixa é que também nós somos chamados a produzir muitos frutos. Por isso, nos fala a segunda leitura (cf. Fl 4,6-9) que devemos praticar “tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, amável, puro e louvável; tudo o que é virtuoso”. Esses são os frutos maduros que devemos produzir e não as uvas amargas do egoísmo, da rivalidade agressiva, competição desleal, intolerância e violência. Todos nós somos pecadores e também podemos ter a tentação de nos apoderarmos da vinha, por causa da ganância que nunca falta em nós, seres humanos. O sonho de Deus parece sempre confrontar com os nossos interesses pessoais. Podemos também ser como os vinhateiros infiéis, se não nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo.

Sem a ação do Espírito Santo em nós, podemos correr o risco de também querermos eliminar o Cristo da nossa vida. Muitos são os que parecem perder a sua identidade religiosa, talvez sob a influência da cultura moderna. Mas, porém, quando o homem elimina Deus de seu horizonte, quando declara que Deus para ele não existe, está construindo uma falsa felicidade. Quando o homem rejeita Deus, ele se proclama proprietário absoluto de si mesmo e único dono da criação. Por isto, surge a tentação da ganância, tanto pelo dinheiro como pelo poder. O homem torna-se violento e pode até matar em nome do poder.

A Sagrada Escritura, no relato do assassinato de Abel por seu irmão Caim, revela, desde o começo da história humana, a presença da cólera e da cobiça no homem, consequências do pecado original (cf. Gn 4,10-11). A partir de então, o homem tornou-se inimigo de seu semelhante. No Sermão da Montanha, Jesus recorda o mandamento da lei de Deus: “Não matarás” (Mt 5,21), e acrescenta a proibição da cólera, do ódio e da vingança. A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2270).

Os vinhateiros homicidas da parábola são os que matam em nome de um pressuposto direito, mas, matar alguém é matar o Filho de Deus presente em cada criatura humana. Se a cólera chega ao desejo deliberado de matar o próximo ou de feri-lo com gravidade, atenta gravemente contra a caridade, constituindo um pecado mortal. Lemos no Evangelho: “Todo aquele que se encolerizar contra seu irmão terá de responder no tribunal” (Mt 5,22).

Mas, nas palavras de Jesus há uma promessa consoladora: a vinha não será destruída. O proprietário não abandona a sua vinha e a confia a outros servidores fiéis. Jesus, após sua morte, não permanecerá no túmulo, mas será o início de uma vitória definitiva. Após a sua dolorosa paixão e morte seguirá a glória da ressurreição. A vinha continuará então dando uva e será arrendada pelo dono “a outros lavradores que lhe pagarão o produto em seu tempo” (Mt 21, 41). A consoladora mensagem que recolhemos destes textos bíblicos é a certeza de que o mal e a morte não têm a última palavra, mas que ao final Cristo vence.

A imagem da vinha, com suas implicações morais, doutrinais e espirituais, voltará ao discurso da Última Ceia, quando ao despedir-se dos apóstolos, o Senhor dirá: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o ramo que der fruto, para que produza mais fruto” (Jo 15,1-2). A Eucaristia que constantemente celebramos e na qual oferecemos a Deus o pão, fruto da terra e do trabalho do homem, e o vinho, como fruto da videira, é o sacramento que nos irmana no compromisso de construir um mundo novo. Peçamos ao Senhor, que nos entrega seu corpo e o seu sangue, no sacramento da Eucaristia, que nos faça ser a terra boa, capaz de produzir copiosos frutos de amor e de acolhimento, e que possa nos propiciar o acesso à vida eterna. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

XXVI – DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – parábola dos dois filhos chamados á vinha

Caros irmãos e irmãs

O texto evangélico deste domingo nos apresenta uma cena ocorrida na cidade de Jerusalém, onde os líderes judeus encontraram Jesus no Templo e perguntaram a Ele com que autoridade agia e quais eram as suas credenciais (cf. Mt 21,23-27). Jesus responde convidando-os a pronunciarem-se sobre a origem do batismo de João. Os líderes judaicos não quiseram responder, pois se dissessem que João Batista não vinha de Deus, temiam a reação da multidão, por ser considerado por muitos como um profeta; se admitissem que o batismo de João viesse de Deus, temiam eles um questionamento de Jesus acerca da não aceitação da sua mensagem. Na sequência, Jesus apresenta três parábolas, destinadas a ilustrar a recusa de Israel em acolher a proposta de salvação.

Uma das parábolas ilustra duas atitudes diversas de dois filhos mediante a ordem do pai. Os dois filhos são convidados pelo pai para irem trabalhar na vinha. O primeiro filho respondeu: “‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi” (v. 29). O outro filho, ao contrário, disse ao pai: “‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi” (v. 30). Em seguida, Jesus pergunta sobre qual dos dois cumprira a vontade do pai; e os ouvintes respondem: “O primeiro” (v. 31).

Jesus dirige esta parábola aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo de Israel, isto é, aos peritos de religião do seu povo. Eles começam por dizer “sim” à vontade de Deus; mas não aceitaram a mensagem de João Batista e a de Jesus. Por isso, as palavras finais da parábola são fortes: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele” (v.31-32).

Esta parábola nos ensina que, na perspectiva de Deus, o importante não é quem se comportou bem e não escandalizou os outros; mas, quem cumpriu realmente, a vontade do Pai. É certo que os fariseus, os sacerdotes, os anciãos do povo, disseram “sim” a Deus ao aceitar a Lei de Moisés, mas, posteriormente, eles também se recusaram a acolher o convite de João à conversão, assim como o filho que disse “sim”, e depois não foi trabalhar na vinha. Isto mostra que não são as palavras que contam, mas o agir, os atos de conversão e de fé.

João Batista mostrou o caminho da salvação, mas, os escribas e os fariseus, que se envaideciam por serem fiéis seguidores da vontade divina, não lhe deram importância. Teoricamente, eram os cumpridores da Lei, porém, não souberam ser dóceis ao querer divino, manifestado também através da mensagem de Cristo. Em contrapartida, aqueles que, num primeiro momento disseram “não”, por exemplo, os cobradores de impostos e as prostitutas, posteriormente disseram “sim”: acolheram a mensagem e se converteram, acolhendo a proposta do Reino apresentada por Jesus (v. 32). Atenderam ao apelo à conversão e arrependeram-se: como o filho que em princípio disse “não vou”, mas depois foi. O importante é fazer a vontade de Deus.

Também em nossos dias, Deus continua tendo dois filhos: alguns, no batismo, dizem “sim”, mas depois, na vida concreta, transformam o “sim” em “não”. Todos nós devemos ter consciência de que também somos chamados a trabalhar na vinha do Senhor. Os chamados de Deus, nós os conhecemos pela Sua Palavra, contida na Sagrada Escritura. O Senhor continua a nos dizer: “Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática!” (Lc 11, 28).

Deus não leva em conta as aparências, por isso, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Não é suficiente apenas ouvir a pregação, mas é necessário colocar em prática os ensinamentos. Deus respeita a nossa liberdade; não nos constrange. Ele aguarda o nosso “sim”.

O filho que foi trabalhar na vinha representa os pecadores e os marginalizados que aceitaram a mensagem de Jesus. O próprio evangelista Mateus está entre eles, pois ele era cobrador de impostos (cf. Mt 9,9s). Jesus mostra que estes irão preceder os demais no Reino de Deus. Este linguajar “preceder, entrar antes” é um modo de afirmar a exclusão. Não é que os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes e os outros entrarão depois. Na verdade, os primeiros entram e os segundos ficam fora. E isso está de acordo com a parábola, pois o filho mais novo diz inicialmente “sim”, mas não vai trabalhar na vinha. É o que afirma também Jesus: “Digo-vos, pois, se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mt 5,20).

A parábola procura ressaltar que devemos ser humildes, imitando o próprio Cristo, que cumpriu com fidelidade a vontade do Pai. É o que nos diz São Paulo na segunda leitura: “Não façais nada por rivalidade ou vanglória, mas cada um de vós, com toda humildade, considere os outros superiores a si mesmo” (Fl 2,3). São estes os mesmos sentimentos de Cristo que, despojado da glória divina por amor a nós, fez-se homem e se rebaixou até morrer crucificado (cf. Fl 2,5-8). O apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida que São Paulo faz aos Filipenses, também é dirigido a todos nós: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos.

Nesta leitura, São Paulo sublinha o amor de Jesus Cristo pela virtude da obediência. Naqueles tempos, a morte de cruz era a mais infame, pois estava reservada aos piores criminosos. Eis porque a máxima expressão do amor de Cristo pelos planos salvíficos do Pai consistiu em ser obediente até à morte. Cristo obedece por amor; este é o sentido da obediência cristã. A obediência é o oposto da soberba, que nos inclina a fazer a vontade própria. São Bento, em sua Regra, faz um grande elogio à obediência, ao mesmo tempo em que condena a soberba (cf. RB 7).

Para os discípulos de Jesus a humildade é uma virtude. A palavra latina “humilitas”, tem a ver com “humus”, isto é, com a aderência à terra, à realidade. As pessoas humildes vivem com ambos os pés na terra; mas, sobretudo, escutam Cristo, a Palavra de Deus, que ininterruptamente renova a cada um de nós. É a humildade que nos torna cada dia conscientes de que não somos nós que construímos o Reino de Deus, mas é sempre a graça do Senhor que age em nós; é a humildade que nos impele a dedicarmos inteiramente ao serviço de Cristo, sendo fiéis operários da sua videira.

Peçamos ao Senhor que nos conceda a graça de progredirmos sempre na humildade, fundamento de todas as virtudes, pois, pela humildade, reconhecemos a nossa pequenez diante da grandeza do Senhor, que a todo o momento nos chama a trabalhar na sua vinha. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XIX – DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – Jesus caminha sobre o mar

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da palavra deste domingo traz para a nossa reflexão um texto do Evangelho de São Mateus, onde nos apresenta o episódio de Jesus que caminha sobre o mar (cf. Mt 14,22-33). Após multiplicar os pães e os peixes, Jesus convida os seus discípulos a entrar no barco e a precedê-lo, na outra margem, enquanto Ele despede a multidão, ficando, em seguida, na completa solidão para rezar em uma montanha até de madrugada.

Entretanto, começa uma forte tempestade e, precisamente no meio da tempestade, Jesus chega ao barco onde estavam os discípulos, caminhando sobre as águas do mar (v. 26). No contexto da catequese judaica, só Deus “caminha sobre o mar” (Jó 38,16; Sl 77,20); só Ele acalma as ondas e as tempestades (cf. Sl 107,25-30). Jesus é, portanto, o Deus que vela pelo seu povo e que não deixa que a força da morte, simbolizada pelo mar, destrua o homem. 

Ao ver Jesus andando sobre as águas, os discípulos ficam apavorados e pensam que é um fantasma, mas Ele tranquiliza-os: “Coragem, sou eu. Não tenhais medo!” (v. 27). Com isto, Jesus transmite aos discípulos a certeza de que eles nada têm a temer, porque Ele é o Deus que vence as forças da morte e lhes dá ânimo para vencerem as adversidades.

Em seguida, Pedro, tomado por um impulso de amor pelo seu Mestre, quer ir até Ele, mas ao mesmo tempo, parece pedir uma prova, para confirmar ser mesmo Jesus: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (v. 28); então, Jesus lhe diz: “Vem!” (v. 29). O Apóstolo Pedro desce do barco e começa a caminhar sobre as águas; no entanto, o vento impetuoso parece forte e ele começa a afundar. Então, clama: “Senhor, salva-me!” (v. 30), e Jesus lhe estende a mão e o segura. 

Na perícope do Evangelho, chama a nossa atenção esta atitude de Pedro, que deixa o barco e começa a caminhar ao encontro de Jesus.  Ele começa a caminhar sobre a água, mas começa a afundar no momento em que desvia o seu olhar de Jesus, deixando-se abalar pelas adversidades que o circundam. Mas o Senhor está sempre presente, e quando Pedro o invoca, Jesus o salva do perigo. Na figura de Pedro, com os seus impulsos e as suas debilidades, está descrita a nossa própria fé: sempre frágil, mas, mesmo assim, caminha ao encontro do Senhor ressuscitado, no meio das tempestades e dos perigos do mundo. 

Pedro caminha sobre as águas, não pelas suas próprias forças, mas pela graça divina, na qual crê; mas, ao sentir-se dominado pela dúvida, quando deixa de fixar o olhar em Jesus e tem medo do vento, quando não confia plenamente na palavra do Mestre, é então que corre o risco de afundar no mar da vida, e é assim também para nós: se olharmos unicamente para nós mesmos, não conseguiremos suportar os ventos, atravessar as tempestades, as águas agitadas que muitas vezes fazem parte do nosso quotidiano.

Pela fé, precisamos confiar que o Senhor está sempre próximo, a nos estender a sua mão, a nos amparar nos momentos difíceis. Jesus comunicou aos seus discípulos o poder para que pudessem vencer todos os males deste mundo que se opõem à vida. No entanto, enquanto enfrentam as ondas e os ventos, os discípulos oscilam entre a confiança em Jesus e o medo.

Um outro detalhe assinalado pelo texto está no fato do episódio ocorrer à noite, momento em que o barco é açoitado pelos ventos e pelas ondas, e navega com dificuldades. Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles. A noite representa as trevas, a escuridão, o medo, a insegurança em que navegam os discípulos de Jesus, sem saber exatamente que caminhos percorrer, nem para onde ir.  

Também a cena final é muito importante. “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’” (v. 32s).  No barco encontram-se todos os discípulos, irmanados pela experiência da debilidade, da dúvida, do medo e da “pouca fé”. No entanto, quando Jesus volta àquele barco, o clima muda imediatamente: todos estão unidos na fé, por isto, se colocam de joelhos, reconhecem no seu Mestre o Filho de Deus. Quantas vezes também acontece conosco a mesma coisa! Sem Jesus, longe de Jesus, somos amedrontados e chegamos a pensar que não aguentaremos. Falta a fé! Mas Jesus está sempre ao nosso lado, sempre presente e pronto para nos segurar, a nos estender a mão.

O Evangelista São Mateus observa esta reação nos discípulos, porém, foram encorajados pela presença do Senhor. Isso é comprovado na profissão de fé manifestada por eles ao dizer: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”.  Com isto, a desconfiança inicial dos discípulos se transforma em fé firme. Como de fato, esta confissão reflete a fé dos verdadeiros discípulos, que encontram em Jesus o Deus que vence o “mar”, o Senhor da vida a transmitir força e coragem aos seus discípulos para vencer o mal e lhes estende a mão, na tentativa de reanimá-los e não os deixa afundar.  

Podemos ainda dizer que todos nós estamos dentro de uma barca que é a Igreja, que parece estar sempre a ponto de afundar, devastada pelas ondas de numerosos perigos, da pouca fé, da coerência insuficiente dos cristãos, de tantas ideologias que a atacam de todos os lados, mas nesta barca encontra-se Cristo.  O que salva a barca não são as qualidades e a coragem dos marinheiros; a garantia segura contra o naufrágio é a fé.  A barca de Pedro continua navegando e enfrentando tempestades das mais diversas realidades.  Por isto, jamais podemos desviar o nosso olhar do Cristo, pois se isto acontecer, certamente pereceremos. 

Como seguidores de Jesus, de certa maneira, esta é também a nossa experiência.  Quantas vezes também somos abalados pelos sofrimentos e pelas dificuldades oriundas de ventos fortes e tempestades a nos atingir.  Quantas vezes somos submergidos pelo “mar” da frustração, do desânimo, da desilusão. Quantas vezes sentimos que afundamos na dúvida, no medo, no desespero e somos incapazes de enfrentar as tempestades, as forças das ondas que nos atingem.

É neste momento que também nós devemos segurar nas mãos de Jesus e, como Pedro, gritar: “Senhor, salva-me!” (v. 30).  Que Ele nos conceda a virtude da esperança e nos conduza com segurança pelos caminhos da vida e nos faça encontrar a sua mão. Que Ele também nos leve a estender aos outros a nossa mão, sobretudo, para aqueles que dela necessitarem. 

Também nós caminhamos no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade, porque constantemente a barca da vida é agitada pelos ventos.  Peçamos que o Senhor Jesus venha ao nosso encontro, venha ao nosso socorro. E que ele possa dizer também a cada um de nós: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!”.

Que possamos todos nós ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida, com coragem e confiança, sem desviar o nosso olhar daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6).  E somente se tomarmos a mão do Senhor, se nos deixarmos orientar por Ele, o nosso caminho será justo e bom.  

Peçamos, pois, que Deus infunda em nossos corações a graça do Espírito Santo, criando em nós, que o ousamos chamá-lo de Pai, o espírito de filhos, para que o contemplemos como é, e sejamos conduzidos às heranças prometidas. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ