Arquivo da categoria: Homilias

Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – UM NOVO MANDAMENTO

Jo 13, 31-35

Caros irmãos e irmãs,

No evangelho deste domingo temos as palavras pronunciadas por Jesus aos seus discípulos, depois de lhes ter lavado os pés, na última ceia, imediatamente antes da sua Paixão: “Filhinhos… Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus sabe que lhe restam poucas horas de vida e sente a necessidade de deixar algumas instruções com um típico sabor testamentário. Inicia com a expressão “Filhinhos” (v. 33), fazendo lembrar um pai a transmitir aos seus filhos o que é essencial e verdadeiramente fundamental. Assim como os filhos consideram sagradas as palavras que o pai lhes diz no leito, antes da morte, também Jesus quer que os seus discípulos não esqueçam jamais as suas palavras.

Jesus fala em um “novo mandamento”. A expressão “novo”, utilizada por Jesus, não significa que até então era este mandamento desconhecido. O próprio Jesus tinha recordado que amar a Deus e ao próximo era o mandamento maior da Lei antiga (cf. Mc 12,28-31). A novidade deste novo mandamento é que não se trata do antigo e conhecido mandamento que ordenava “amar ao próximo como a si mesmo” (Lv 19,18). O “novo” deste mandamento consiste, exatamente, no “como eu vos amei”. Nem a palavra amar, nem o mandamento do amor são novos. Novo é amar como Jesus, amar em Jesus, por causa de sua palavra impressa em cada página do evangelho.

O Senhor indica que devemos amar como Ele nos amou. Ele amou a todos sem exceção, justos e pecadores. Na cruz, perdoou até os que o haviam condenado injustamente e rezou por eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

O verbo “agapaô” – traduzido do grego como amar, utilizado no texto, define, o amor como sinal de manifestação pelo outro até ao extremo, o amor que não guarda nada para si, mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência desse amor é o próprio Jesus, como prescreve o complemento da frase: “como eu vos tenho amado”. Amar consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor, e isso sem limites. Jesus é a norma, agora traduzida em palavras, o que ele mesmo manifestou com seus atos, para que os seus discípulos tenham uma referência. O amor, igual ao de Jesus, que os discípulos devem manifestar entre si, será visível para todos (v. 35). Trata-se de um amor universal, capaz de transformar todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir ainda mais neste amor.

O estilo divino desse amor de Cristo deve ser o modelo do nosso amor. De tal sorte que nossa presença junto aos irmãos seja uma sombra da presença do próprio Cristo. Um amor que presta em favor dos irmãos, os mais humildes serviços. Cristo se identifica com o outro, especialmente com os mais necessitados. É uma verdade que, mediante a fé, podemos ver o Cristo na pessoa do outro, pois será a partir deste amor a base do nosso julgamento final, pois ele mesmo disse: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber…”. E completa: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim eu o deixastes de fazer” (Mt 25,40-45).

Além de proclamar o mandamento do amor, Jesus deixou esta norma como sinal distintivo para os seus seguidores: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Por vontade expressa de Cristo é o amor o sinal de identificação de seus discípulos. O sinal que de agora em diante distinguirá seus discípulos deverá ser o amor mútuo. Como já nos diz o Evangelista São João: “Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20s). E ainda frisa: “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14).

Diante destas exigências apresentadas pelo evangelho, e lançando um olhar para cada um de nós, percebemos que somos fracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossa existência há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas não podemos perder a esperança. O Senhor prometeu estar presente na nossa vida, nos tornando capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos os obstáculos. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo que Ele quer. Amar os outros como Jesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real o seu Sacrifício de amor que gera amor.

A prática do amor mútuo é a expressão da fé em Jesus. O verdadeiro discípulo distingue-se pelo amor. A capacidade de amar-se mutuamente indica o quanto Jesus está agindo na vida do cristão. A presença salvadora de Jesus tem o efeito de desatar o nó do egoísmo, que afasta os indivíduos de seus semelhantes e, por consequência, de Deus também.

Em sua carta aos coríntios São Paulo ressalta que o amor é superior a todos os dons extraordinários. O amor é maior do que o dom de língua. O amor é maior do que o dom de profecia e conhecimento. O amor é maior do que o dom de milagres. Sem amor, até as melhores obras de caridade ficam isentas de valor (cf. 1Cor 13,1-3). O amor é melhor por causa da sua excelência intrínseca e também por causa da sua perpetuidade.

São Paulo define o amor como paciente e benigno, ou seja, o amor tem uma infinita capacidade de suportar e ter paciência com as pessoas, no sentido de reagir com bondade perante aqueles que o maltratam. São Paulo ainda explica que o amor não é ciumento, ufanoso e ensoberbecido. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses e não se ressente com o mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. E, por fim, diz São Paulo que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,4-7). E ainda segundo São Paulo, dentre as virtudes teologias: fé, esperança e caridade, a maior de todas é a caridade, ou seja, o amor (cf. 1Cor 13,13). Os textos sagrados nos mostram como o amor ao próximo deve ser a bússola da nossa vida. Esse ensinamento deve ser aplicado às circunstâncias em que nos encontramos habitualmente.

Podemos correr o risco de alegrarmos com o fracasso dos nossos inimigos. Há um mal intrínseco em nós mesmos. Podemos sentir um falso alívio quando vemos os nossos adversários fracassando e caindo, mas isto não é amor. O amor, além de perdoar, esquece e não mantém um registro do que foi dito e feito contra nós. A ausência de amor faz com que o cristão perca o seu significado diante de Deus.

Possamos hoje questionar a nós mesmos: “Estou vivendo e compartilhando este amor que Jesus pede? Estou testemunhando a todos, com gestos concretos, o amor de Deus?” Saibamos haurir diariamente da relação de amor com Deus pela oração, a força para transmitir o anúncio profético de salvação a todas as pessoas com as quais convivemos.

O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso, é preciso abandonar o caminho do erro, da arrogância e da violência utilizada, para obter posições de poder sempre maiores.

Peçamos ao Senhor o auxílio necessário para colocarmos em prática este mandamento novo do amor que Ele nos ordena a praticar. E nos faça abrir de par em par as portas do nosso coração para perdoar e amar verdadeiramente todos os nossos irmãos. Interceda por nós também a Virgem de Nazaré, para que possamos aprender de Jesus a verdadeira humildade e, imbuídos do amor, possamos difundir para todas as pessoas os seus frutos de alegria de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

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IV DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – O BOM PASTOR

Jo 10, 27-30

Caros irmãos e irmãs,

Este quarto domingo da Páscoa nos apresenta Jesus como o Bom Pastor. O trecho evangélico nos traz estas palavras de Jesus: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” (Jo 10,27-30). São quatro versículos que resumem a mensagem de Jesus e nos fazem compreender o sentido e o significado da figura do Pastor, que é o tema central apresentado pela Liturgia da Palavra deste domingo.

A imagem do pastor vem de longe. No Antigo Oriente, os reis costumavam designar-se a si mesmos como pastores dos seus povos. No Antigo Testamento, Moisés e Davi, antes de serem chefes e pastores do Povo de Deus, foram efetivamente pastores de rebanhos. Nas dificuldades do período do exílio, diante do fracasso dos pastores de Israel, isto é, dos chefes políticos e religiosos, o profeta Ezequiel traçou a imagem do próprio Deus como Pastor do seu povo. Através do profeta, Deus disse: “Como o pastor se preocupa com o seu rebanho… assim me preocuparei com o meu” (Ez 34, 12).

O próprio Deus é apresentado no salmo 23 como pastor de seu povo: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (Sl 23, 1). E o salmo 95 continua: “Ele é nosso Deus e nós, o povo de seu rebanho” (Sl 95, 7). O futuro Messias também é descrito com a imagem do pastor: “Como o pastor, ele pastoreia seu rebanho; recolhe em braços os cordeirinhos, leva-os no seio e trata com cuidado os recém-nascidos” (Is 40, 11). Como de fato, esta imagem ideal de pastor encontra sua plena realização em Cristo. Ele é o bom pastor que se compadece do povo porque o vê “como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). E Pedro identifica Jesus como “o pastor de nossas almas” (1Pd 2, 25) e a Carta aos Hebreus, faz uma referência a Cristo como “o grande pastor das ovelhas” (Hb 13, 20).

O evangelho apresenta apenas uma parte do grande discurso de Jesus sobre os pastores. Neste relato, o Senhor Jesus faz referências a algumas situações a respeito do verdadeiro pastor: ele dá a própria vida pelas suas ovelhas; ele as conhece e elas o conhecem. A frase que com grande vigor permeia todo o discurso sobre os pastores é esta: “O pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). O mistério da Cruz encontra-se no centro do serviço de Jesus como pastor. Este é o grande serviço que Ele presta a todos nós. Ele entrega-se a si mesmo, e não apenas num passado longínquo. Na sagrada Eucaristia, realiza isto todos os dias, doando-se a si mesmo mediante as mãos dos sacerdotes. Por isso, justamente, no âmago da vida sacerdotal encontra-se a celebração eucarística, onde o sacrifício de Jesus na cruz permanece contínua e realmente presente no meio de nós.

E Jesus ainda diz: “Minhas ovelhas escutam minha voz; eu as conheço e elas me seguem” (v. 27). Nesta frase, são duas relações que parecem totalmente diferentes e encontram-se entrelaçadas: a relação entre Jesus e o Pai e a relação entre Jesus e as ovelhas que lhe são confiadas. Em certos países, as ovelhas são criadas especialmente para a carne, em Israel se criavam, sobretudo, visando a lã e o leite. Por isso, permaneciam anos e anos em companhia do pastor, que acabava por conhecer o caráter de cada uma e passava a chamá-la com algum afetuoso apelido. Neste sentido, o pastor conhece as suas ovelhas e as suas ovelhas o conhecem.

Jesus busca esta inspiração para mostrar a sua unidade com o Pai. Trata-se de uma relação pessoal profunda. Um conhecimento do coração, próprio de quem ama e de quem é amado; de quem é fiel e de quem sabe que, por sua vez, se pode confiar. Um conhecimento de amor, em virtude do qual, é comparado com a imagem do pastor dedicado às suas ovelhas.

Grande parte da Judéia era uma planície de solo áspero e pedregoso, mais adequado ao pastoreio que à agricultura. Devido a escassez de ervas, o rebanho deveria ser transferido continuamente; não havia cercas e isso exigia a constante presença do pastor atento aos movimentos de seu rebanho. O pesadelo dos pastores de Israel eram os animais selvagens, lobos, hienas e salteadores. Em lugares tão isolados, constituíam uma ameaça constante. Era o momento em que se evidenciava a diferença entre o verdadeiro pastor e o assalariado, que se põe ao serviço de algum pastor só pelo pagamento que dele recebe. Frente ao perigo, o mercenário foge e deixa as ovelhas sob a ameaça do lobo ou do malfeitor; o verdadeiro pastor enfrenta o perigo para salvar o rebanho. Isso explica porque a liturgia nos propõe o Evangelho do bom pastor no tempo pascal. A Páscoa foi o momento em que Cristo demonstrou ser o bom pastor, porque na cruz, ele deu a vida pelas suas ovelhas.

As ovelhas, por sua vez, devem escutar a voz do Pastor e segui-lo (cf. v. 27). Isto significa que fazer parte do rebanho de Jesus é aderir a Ele, escutar as suas propostas, comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida de amor e de doação ao Pai e também aos irmãos. E nós, como ovelhas de Jesus, também precisamos “escutar a sua voz” e segui-lo… E devemos diferenciar a “voz” de Jesus, o nosso Pastor, de outros apelos através de um confronto permanente com a sua Palavra e através da participação nos sacramentos. Nos dias atuais podemos ouvir a voz do Senhor e reconhecê-lo através da pregação dos Apóstolos e dos seus sucessores.

E neste domingo em que também celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Todos os fiéis são exortados a rezar de modo particular para as vocações sacerdotais e também para a vida consagrada. Ainda hoje o Senhor continua chamando muitos pelo nome, como fez um dia com os Apóstolos na margem do Lago da Galileia, para que se tornem “pescadores de homens”, isto é, seus colaboradores mais diretos no anúncio do Evangelho e no serviço do Reino de Deus.

A Igreja antiga encontrou na escultura e nos ícones do seu tempo a figura do pastor que carrega uma ovelha nos próprios ombros. Para os cristãos, esta figura tornou-se, com toda naturalidade, a imagem daquele que foi à procura da ovelha perdida e a levou de volta ao redil. Por isto, peçamos também hoje ao Cristo Bom Pastor, para que, em nossas fraquezas e em nossas provações, e nas vezes em que também sentirmos perdidos e sem rumo, Ele também nos ampare e nos conduza de volta, nos carregue em seus ombros e nos faça retomar ao bom caminho, ao caminho da perfeição e da santidade. Que Ele também possa conceder o dom da perseverança a todos os sacerdotes. Que se mantenham fiéis às suas promessas e assimilem dia após dia os mesmos sentimentos e as atitudes de Jesus Bom Pastor.

E que a Virgem de Nazaré, a Mãe do Bom Pastor, que respondeu prontamente ao chamado de Deus dizendo: “Eis aqui a escrava do Senhor” (Lc 1, 38), nos ajude a acolher com alegria e disponibilidade o convite de Cristo para sermos os bons trabalhadores da sua vinha (cf. Mt 20,1-16). Que ela vele todos os dias por cada um de nós e nos proteja de todos os perigos. Ela é a Virgem do Sim. Ela também, como mãe, aprendeu a reconhecer a voz de Jesus, desde quando o trazia no seu ventre. Que ela também possa nos ajudar a reconhecer cada vez melhor a voz de Jesus, o Bom Pastor, que nos chama a segui-lo pelo caminho do bem. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO PASCAL – O DIÁLOGO DE JESUS COM PEDRO

Jo 21, 1-19

Meus caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos apresenta uma nova aparição de Jesus ressuscitado. Fundamentar a fé dos discípulos é o objetivo de tais aparições. Mas hoje começa também a despontar o tema do amor, em concreto, do amor a Jesus. Fé e amor, crer e amar são duas dimensões de uma mesma e única realidade: a vida com Cristo por meio do Espírito Santo.

Com as palavras de Pedro “Eu vou pescar”. E com o assentimento dos demais: “Nós vamos contigo” (v. 3), indica que após a morte e ressurreição de Jesus Cristo, a vida retomou para eles ao seu ritmo anterior. Deveriam voltar à antiga profissão de pescadores, retomando os barcos e as redes, mesmo se a vida já não era como antes.

A pesca é feita durante a noite. Eles buscaram na noite, e nada pescaram. A noite é sinônimo de trevas, de escuridão, de ausência de luz. Para os israelitas o mar simboliza lugar de escravidão e sofrimento, o símbolo de todas as forças inimigas do homem. Jesus já havia dito aos discípulos que “eles seriam pescadores de homens”. A missão deles seria a de enfrentar as ondas do mar para pescar os homens, para os tirar das águas salgadas e os livrar de todas as situações negativas que os impedem de viver.

Jesus aparece pela manhã, dissipando a escuridão. Ele mesmo já teria dito: “Eu estou no mundo, sou a luz do mundo” (Jo 9,4-5). Normalmente, os peixes caem na rede durante a noite, quando é escuro, e não de manhã, quando a água já é transparente. Contudo, o resultado da ação dos discípulos, durante a noite, sem Jesus, é um fracasso, o que faz lembrar uma outra frase dita por Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

O amanhecer coincide com a presença de Jesus. Jesus não está com eles no barco. Ele não acompanha os discípulos na pesca; a sua ação no mundo é exercida por meio dos discípulos. Concentrados no seu esforço inútil, os discípulos nem reconhecem Jesus quando ele se apresenta. O grupo está desorientado e decepcionado pelo insucesso, posto em evidência pela pergunta de Jesus: “Tendes alguma coisa de comer?” (v. 5). Mas Jesus dá a eles as indicações: “Lançai a rede… e haveis de encontrar!” (v.6). Apesar do momento inoportuno, por estar de manhã, momento em que os peixes retornam ao leito do mar, os discípulos confiaram nas palavras de Jesus e o resultado foi uma pesca milagrosamente abundante, a tal ponto que mal conseguiam arrastar a rede, devido à grande quantidade de peixes pescados (cf. v. 6).

O êxito da missão não se deve ao esforço humano, mas sim à presença viva e a Palavra do Senhor ressuscitado. É, então, graças a um sinal que os discípulos reconhecem o Ressuscitado. Jesus Cristo não tem mais necessidade de dizer quem Ele é. Eles sabem que Ele é o Senhor. Os discípulos fazem, nesse dia, a experiência da prodigalidade do amor de Deus: não conseguem arrastar as redes, dada a quantidade de peixe. Fazem também a experiência da universalidade da salvação: havia 153 grandes peixes, número que evoca, segundo São Jerônimo, todas as espécies de peixes enumerados na época. Também a este número pode ser dada uma outra interpretação simbólica. O número 153 é resultante de 50 x 3 + 3. Para os israelitas o número 50 indicava todo o povo; o número 3 significava a perfeição, a plenitude. O sentido deste detalhe curioso está no fato de que a comunidade cristã levará em frente de modo pleno e total a sua missão de salvação. Toda a humanidade é chamada a se libertar das águas impetuosas do mar através dos discípulos de Cristo, mas eles só poderão agir, tendo como guia a voz do Cristo Ressuscitado.

Os discípulos de Emaús reconhecem Jesus apenas na fração do pão. Os primeiros cristãos chamavam à Eucaristia a “fração do pão”. Mas Jesus oferece peixe. Sabemos que este se tornou bem cedo o símbolo de Cristo. Em grego, as primeiras letras da expressão “Jesus, Filho de Deus, Salvador” formam a palavra “peixe”, em grego: “ichtus”. Desde então, oferecendo-lhes peixe, Jesus ressuscitado diz aos discípulos que é verdadeiramente com Ele, o Filho de Deus, o único Salvador de todos os homens, que estarão doravante em comunhão, cada vez que partirem o pão eucarístico.

Em seguida Jesus come com os apóstolos o peixe assado nas brasas e, logo temos o diálogo entre Jesus e Pedro. Três perguntas: “Tu me amas?”; três respostas: “Tu sabes que te amo”. Após as respostas, Jesus confia a Pedro o pastoreio do seu rebanho, que só pode ser confiado a quem ama Jesus com o maior amor possível. Por isto diz a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas!”. Com estas palavras, Jesus confere de fato a Pedro a tarefa de supremo e universal pastor do rebanho de Cristo. Confere a ele esse primado que lhe havia prometido quando disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. E eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16, 18-19).

O que mais comove nesta significativa página do Evangelho é que Jesus permanece fiel à promessa feita a Pedro, apesar da infidelidade de Pedro, que não havia cumprido a promessa feita a Jesus de não o trair jamais, ainda à custa da sua própria vida (cf. Mt 26,35).

No diálogo entre Jesus e Pedro, revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo “philéo” expressa o amor de amizade, terno, mas não totalizante enquanto o verbo “agapáo” significa o amor sem reservas, total e incondicionado. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: “Simão, filho de Jonas, tu me amas? Jesus usa o verbo “agapáo”, que quer dizer, com um amor total e incondicionado (cf. Jo 21,15). Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: “Amo” “agapô”, ou seja, incondicionalmente”. Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: “Senhor, tu sabes que sou deveras teu amigo”, ou seja, “Tu sabes que te amo com o meu pobre amor humano”. Cristo insiste: “Simão, filho de Jonas, tu me amas com este amor total que eu quero?”. E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: “Kyrie, philéo”, que em outras palavras seria: “Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo”.

Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão, porém agora mudando o verbo para “philéo”. Simão Pedro compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o único de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (philéo)”. Na verdade, Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim, por isto conclui dizendo a Pedro: “Segue-me!” (Jo 21,19).

Podemos ainda destacar no texto evangélico deste domingo dois verbos: “pescar” e “apascentar”. Trata-se de duas operações que aparecem sucessivas no relato apresentado. A missão de Pedro é apascentar aqueles que pescou, ou seja, deve nutrir com a doutrina e os sacramentos aqueles que se converteram ao Evangelho. E como Pedro, todos os discípulos são chamados a “apascentar” as ovelhas e os cordeiros de Cristo, sendo, naturalmente, os primeiros e os mais generosos nesta doação de si mesmos.

O diálogo entre Jesus e Pedro deve ser ainda trasladado à vida de cada um de nós. Ao interrogar Pedro: “Tu me amas?”, Jesus interroga também cada um de nós. E qual é a nossa resposta? Hoje ele também nos convida a amá-lo, ele que em sua paixão e morte, demonstrou a prova de seu amor por cada um de nós. Que saibamos corresponder com generosidade a este seu amor.

E possamos acolher com alegria o mandato que o Cristo mesmo hoje nos faz: “Lançai a rede…” (v. 6). Este mandato de Jesus foi docilmente acolhido pelos santos que no mundo foram anunciadores da Ressurreição do Senhor e deram um testemunho válido de vida, mediante sinais do perdão e do amor fraterno, que é o testemunho mais próximo que nós também podemos dar, de que Jesus está vivo e ressuscitou para estar conosco. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO PASCAL: A PAZ ESTEJA CONVOSCO!

Jo 20,19-31

Meus caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo relata as aparições de Cristo ressuscitado a seus discípulos. Na primeira delas está ausente o Apóstolo Tomé, e presente na segunda, oito dias depois. Estas aparições confirmam o sepulcro vazio e revigoram decisivamente a fé dos Apóstolos e da comunidade eclesial, isto é, nossa própria fé na Ressurreição de Jesus. Neste relato, o evangelista João nos faz partilhar a emoção sentida pelos Apóstolos neste encontro com Cristo depois da sua ressurreição.

O texto evangélico descreve que Jesus, depois da Ressurreição, visitou os seus discípulos, entrando pelas portas fechadas do Cenáculo. Jesus mostra os sinais da paixão, chegando a conceder ao incrédulo Tomé que os tocasse. Na realidade, a condescendência divina permite-nos tirar proveito até da incredulidade de Tomé assim como dos discípulos crentes. De fato, tocando as feridas do Senhor, o discípulo hesitante cura não só a sua desconfiança, mas também a nossa.

Ao apóstolo é concedido que toque nas suas feridas para reconhecer, além da identidade humana do Jesus de Nazaré, também a sua verdadeira e mais profunda identidade, por isto diz: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28). A resposta de Tomé é um ato de fé, de adoração e de entrega sem limites. As dúvidas de Tomé viriam a servir para confirmar a fé dos que mais tarde haviam de crer em Jesus. Se a nossa fé for firme, também haverá muitos que se apoiarão nela. É necessário que essa virtude teologal vá crescendo em nós de dia para dia. Estas palavras pronunciadas pelo apóstolo Tomé têm servido de jaculatória para muitos cristãos, e como ato de fé na presença real de Cristo na Sagrada Eucaristia.

Podemos ainda sublinhar a saudação feita por Jesus tanto na primeira como na segunda aparição: “A paz esteja convosco!”. Não era apenas a saudação tradicional dos hebreus. Tinha um sentido da promessa de paz para aqueles que acolhessem a verdade da Ressurreição. E a promessa de paz se completou com o grande dom do perdão que nesse dia Jesus deixou nas mãos da Igreja, quando soprou sobre os apóstolos e disse a eles: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais não perdoardes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,22-23). É esta a missão da Igreja perenemente assistida pelo Espírito Santo: levar a todos o feliz anúncio, a jubilosa realidade do amor misericordioso de Deus. O Espírito de Jesus Cristo é poder de perdão e da Divina Misericórdia. Concede a possibilidade de iniciar de novo, sempre de novo. A Paz é o dom que Cristo deixou aos seus amigos (cf. Jo 14, 27), como bênção destinada a todos os povos. É a paz que Jesus Cristo adquiriu com o preço do seu Sangue e que comunica a quantos nele confiam.

Neste contexto podemos dizer que a confissão dos pecados é a festa da paz. E a fórmula atual com que o sacerdote absolve o penitente lembra o mistério da Ressurreição e a vinda do Espírito Santo. Declara que Deus, “pela morte e ressurreição de seu Filho reconciliou o mundo consigo, e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados”, e pede que “pelo ministério da Igreja” ele conceda ao penitente “o perdão e a paz”. É, portanto, uma festa de paz. Dessa paz que só pode existir, quando pecado for expulso. E o próprio Jesus vai dizer à mulher pecadora, que lava os seus pés com as próprias lágrimas: “A tua fé te salvou, vai em paz” (Lc 7,50). Para essa mulher o contato com Jesus significou paz, pois sentiu o restabelecimento da sua dignidade enquanto pessoa. E ainda no caso daquela mulher que sofria de um fluxo de sangue, havia doze anos, a ela também Jesus disse: “A tua fé te salvou, vai em paz” (Lc 8,48). Para ela o milagre foi a plenitude da regeneração da vida, o começo da paz. Por isso, a fé, entendida como adesão a Jesus, constitui o fundamento da paz.

Há um anexo inseparável entre a paz, dom do alto, e o Espírito Santo; não sem razão são representados com o mesmo símbolo da pomba. O perdão dos pecados passa a ser o grande presente pascal que recebemos. O perdão que traz a paz de Deus é causa de alegria em nós. A paz indica ainda o estado do homem que vive em harmonia com Deus, com o ambiente em que vive e consigo mesmo, como afirma o Sl 4,9: “Eu tranquilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida”.

Esta saudação “A paz esteja convosco” soa ainda como um eco das palavras dos anjos no dia do nascimento de Jesus em Belém: “Glória a Deus nas alturas e Paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14), onde Jesus é apresentado como o portador da paz ao mundo por excelência. Com Jesus nasce uma nova humanidade que responde à sede de vida e de harmonia da humanidade de todos os tempos. Ele é a plenitude da paz, porque oferece a possibilidade de uma felicidade e de paz que ultrapassam as barreiras dos povos e da própria morte. Os anjos e os pastores exprimem a nova proximidade entre o mundo de Deus: “Glória a Deus” e o mundo dos homens: “Paz aos homens” que, por sua vez, alude à possibilidade de uma nova fraternidade entre os seres humanos.

Talvez o conceito que na nossa língua mais se aproxima da expressão hebraica “shalom” é o de felicidade. Mas também indica o sentido de bem-estar de uma pessoa. Pode ainda indicar a ideia de se ter completado uma vida longa e feliz, daí a expressão “sheol”, que tem a mesma raiz. Simeão, já ancião, um homem justo, que esperava a consolação de Israel, certa vez tomando o menino Jesus nos braços e louvou a Deus, por ter podido ver realizada a sua esperança: “Agora, Senhor, podeis deixar o vosso servo partir em paz, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparastes diante de todos os povos: luz para iluminar as nações todas e glória de Israel, o vosso povo” (Lc 2,29-30). O louvor de Simeão começa por uma exclamação de felicidade realizada. Chegado ao fim de seus dias, amadurecido na esperança considera-se saciado e exprime essa felicidade pela palavra paz. Com a chegada do dom de Deus em Jesus, Simeão vê completar-se o sentido da sua vida; pode deixar este mundo como um homem feliz.

A paz é comunicada aos homens desde o momento em que Cristo veio ao mundo. E paz também é o anúncio de Jesus no momento em que ele está para deixar este mundo e voltar para o Pai. Assim diz Jesus no seu discurso de despedida: “Deixo-vos a paz, eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27). E após a ressurreição continua oferecendo a sua paz dizendo aos discípulos: “Recebei o Espírito Santo” (cf. Jo 20,22).

Ao longo da sua vida pública por diversas vezes Jesus ressaltou o valor da paz: E disse: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Aqui Jesus frisa bem o que se deve “fazer”. É o agir. É o trabalhar em prol da paz. São os que realizam a paz. Não tanto no sentido de que se reconciliam com os próprios inimigos, mas no sentido de que ajudam os inimigos a reconciliar-se. Trata-se de pessoas que amam a paz, tanto que não temem comprometer a própria paz pessoal intervindo nos conflitos a fim de promover a paz entre os que estão divididos.

Muitos santos deixaram fortes exemplos de uma demonstração do que podemos fazer em prol da paz. Certa vez São Francisco de Assis pediu em oração: “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz”. E todos nós somos chamados a ser um instrumento da paz do Senhor. Para sermos instrumentos de paz não podemos difundir o mal, nem sermos agentes do acusador, do semeador da cizânia. Não podemos espalhar o mal. Não podemos permitir que o mal prossiga em seu desenvolvimento.

A paz continua sendo fruto do Espírito Santo, isto é, graça e colaboração humana. A paz continua sendo um fenômeno da graça de Deus e do empenho daqueles que a compõem. Ela é fruto da união de cada um de nós, com todas suas notas de singularidade, em união dos corações na comunhão. Em outras palavras, é a concórdia que deve fazer parte do nosso cotidiano.

Na terra podemos descobrir os caminhos que levam à paz (cf. Lc 19,42), podemos “dirigir os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1,79). Podemos, num momento de graça, ter como que uma amostra e um primeiro sinal da paz que nos espera no céu. Lembrando a expressiva bênção de Aarão, peçamos: “Que o Senhor nos abençoe e nos guarde. Que o Senhor faça brilhar sobre nós a sua face e nos dê a sua graça! Que o Senhor volte para nós o seu olhar e nos dê a paz”. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

 

I DOMINGO DO TEMPO PASCAL – RESSURREIÇÃO DO SENHOR

Jo 20,1-9

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo a liturgia nos faz chegar ao domingo da Páscoa, quando somos convidados a olhar o túmulo vazio de Jesus e, com admiração e gratidão, refletir sobre o grande mistério da Ressurreição do Senhor. A vida venceu a morte!

Já na Vigília pascal, entoamos novamente o grito da alegria, o “Aleluia”, uma palavra hebraica conhecida em todas as línguas e que significa “Louvai o Senhor”. Este grito do Aleluia volta a ressoar para indicar a nossa alegria diante da Ressurreição do Senhor. Mas este aleluia pascal deve imprimir profundamente em nós o desejo de constantemente louvar o Senhor, pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós. E como consequência disso, cada cristão é chamado a ser proclamador de uma vida nova, deve fazer morrer em si o “velho homem”, o homem marcado pelo pecado; e fazer ressurgir o “homem novo”, configurado a Cristo res- suscitado.

O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos apresenta para este domingo começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “No primeiro dia da semana”. Significa que com a ressurreição de Jesus começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus. A primeira personagem em cena é Maria Madalena. Ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda quando o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”. Em seguida, ela corre, com medo, mas feliz, para comunicar esta notícia aos discípulos de Jesus. Na sequência, o texto evangélico nos apresenta a visita de Pedro e do discípulo que Jesus amava ao túmulo vazio. O evangelista São João narra com exatidão os detalhes da cena: as faixas de linho, que tinham envolvi- do o corpo, estavam lá depositadas e o pano da cabeça estava enrolado e colocado à parte (cf. v. 6-7). Esta minuciosa descrição do evangelista tem a finalidade de excluir a teoria do roubo do cadáver.

O túmulo vazio é um argumento decisivo em favor da ressurreição de Jesus. É isto, como de fato, que expressa na confissão do discípulo amado que vai até ao túmulo na companhia de Pedro: “Ele viu e acreditou” (v. 8). Isto supõe que o discípulo amado terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana. Mediante os sinais da morte: o túmulo, os lençóis, o sudário… o discípulo vê os sinais da vida. Na verdade, vê sem ter visto ainda, e já começa a crer ou a dar crédito, até que sua fé seja plenamente confirmada e esclarecida pelas aparições.

Com relação ao Apóstolo Pedro, parece que ele é vencido não só na corrida material, mas também na espiritual. O discípulo que Jesus amava, identificado pela tradição como o apóstolo João, mostra a sua fé na ressurreição; quanto Pedro, embora vendo as mesmas coisas, limita-se a constatar e não chegar ainda à fé na ressurreição (cf. Jo 20,3-10).

Também quando Jesus aparece junto ao mar de Tiberíades é mais uma vez o discípulo que Jesus amava que o reconhece, enquanto Pedro, só mais tarde o reconhece (cf. Jo 20,7). A não identificação do nome do discípulo que Jesus amava no texto, pode ser um indicativo de que todos nós devemos estar no lugar deste discípulo. Acreditar que Cristo ressuscitou para estar conosco.

Cada domingo, com a recitação do Credo, nós também renovamos a nossa profissão de fé na ressurreição de Cristo, acontecimento surpreendente que constitui a chave de volta do cristianismo. A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivi- da como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento e pregada como parte essencial do mistério pascal (cf. CIgC 638).

Na Igreja tudo se compreende a partir deste grande mistério, que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração eucarística. Mas existe um tempo litúrgico no qual esta realidade central da fé cristã, na sua riqueza doutrinal e inexaurível vitalidade, é proposta aos fiéis de modo mais intenso, para que cada vez mais a redescubram e mais fielmente a vivam: é o tempo pascal. Um tempo em que a Igreja revive, em cada celebração, onde temos a alegria de vivenciar a ressurreição do Cristo Senhor. Páscoa é a passagem de Jesus da morte para a vida, na qual se cumprem em plenitude as antigas profecias.

A morte do Senhor demonstra o amor imenso com que Ele nos amou até ao sacrifício por nós; mas só a sua ressurreição é “prova certa”, é certeza de que quanto Ele afirma é verdade que vale também para nós, para todos os tempos. E o Apóstolo São Paulo nos ensina na sua Carta aos Romanos: “Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou do entre os mortos, serás salvo” (Rm 10,9). O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus consequentemente torna-se frágil o testemunho dos crentes. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição, tudo desmorona. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas. Certamente é a fé na ressurreição que sustentou e deu coragem aos primeiros discípulos e também aos mártires ao longo da história. É o encontro com Jesus ressuscitado que motivou muitos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para O seguir e colocar a própria vida ao serviço do Evangelho.

Esta verdade marcou também de forma tão profunda na vida dos apóstolos que, após a ressurreição, sentiram novamente a necessidade de continuar propagando os ensinamentos do Mestre e, ao receberem o Espírito Santo, saíram pelo mundo inteiro, para anunciar a todos o que tinham visto com os próprios olhos e experimentaram pessoalmente. O mesmo pode-se dizer de São Paulo, cuja fé na ressurreição de Cristo o levou a dizer: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1Cor 15,14).

Podemos dizer ainda que a ressurreição de Cristo, e o próprio Cristo Ressuscitado, é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram… Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida” (1Cor 15,20-22). Cristo verdadeiramente ressuscitou! Não podemos reter somente para nós a vida e a alegria que Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos doá-la a quantos nos são próximos. É o nosso objetivo e a nossa missão continuar anunciando, assim como fez Maria Madalena, que Cristo Ressuscitou e caminha conosco ao logo da vida.

Na expectativa de que isto se realize, peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que possamos progredir sempre mais na fé, agora iluminada pela Ressurreição do Senhor, para que possamos ser para todos os que encontrarmos pelo nosso caminho, mensageiros da verdadeira luz e da alegria da Páscoa. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – DOMINGO DE RAMOS

Lc 23,1-49

Caros irmãos e irmãs,

Com o domingo de Ramos iniciamos a Semana Santa e somos chamados a reviver os últimos momentos de Cristo em sua peregrinação terrena. A celebração consta de dois momentos: Inicialmente temos o relato da sua gloriosa entrada na cidade de Jerusalém e, em um segundo momento, a leitura da sua gloriosa paixão.

Logo no início da celebração temos a descrição da entrada de Jesus em Jerusalém montado em um jumentinho. Os mantos são estendidos diante dele e uma voz faz ressoar: “Bendito aquele que vem em nome do Senhor” (Lc 19,38). Em um clima de alegria os ramos são agitados em um sinal de festa, e também nós somos chamados a agitar os nossos ramos e somos convidados a seguir o Cristo. Caminhamos com ele. Jesus entra em Jerusalém mostrando a sua condição de rei e Senhor, mas com o objetivo de subir ao calvário e para morrer pregado em uma cruz: o seu trono glorioso, pois ele passa pela morte para chegar à ressurreição.

No relato da Paixão de Jesus temos a descrição do evangelista São Lucas, que nos apresenta o Cristo Senhor que vem ao nosso encontro, para manifestar a todos, em gestos concretos, a bondade e a misericórdia de Deus. Essa ideia está presente no gesto de curar o guarda ferido no Jardim do Getsêmani (cf. Lc 22,51) e no perdão conferido aos seus adversários. Isto quer mostrar que o discípulo de Jesus não pode agredir ninguém, mas deve estar sempre disposto a curar as feridas provocadas pelos outros e a perdoar mutuamente.

Em um outro momento da narração observa-se um detalhe. Pedro, após haver negado o Mestre, saiu para fora e começa a chorar. São Lucas narra que o “Senhor, voltando-se, fixou o seu olhar em Pedro” (Lc 22,62). Um gesto comovente que mostra a compreensão de Jesus pela fraqueza do seu discípulo e é também o sinal do perdão que lhe concede. Jesus é compreensivo e misericordioso e a todos lança o seu olhar misericordioso e repleto de amor.

No relato da Paixão, podemos ainda testemunhar os sofrimentos de Jesus, em particular a sua angústia na agonia no monte das Oliveiras. Contudo, mesmo diante deste sóbrio quadro, o Evangelista São Lucas relata com uma certa sutileza a misericórdia do Pai, ao transcrever em seu Evangelho algumas frases de Jesus. Nossos olhos se voltam para os momentos finais de Cristo na cruz, quando diz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,24). Jesus não se limita a perdoar, vai mais longe. Ele sabe que a fonte de todo o amor e de todo o perdão não está nele, mas no Pai. Ele se apresenta diante do Pai como o intercessor a quem o Pai nada pode recusar. Ele se apaga, para que vejamos que é a vontade do Pai que se está a cumprir. É a oração de Jesus por nós.

Jesus foi crucificado no meio de dois criminosos, considerados perigosos bandidos, em razão dos erros praticados. Um deles zombava do Cristo, enquanto o outro, após repreender o seu companheiro, disse a Jesus: “Lembra-te de mim, quando estiveres no teu reino” (Lc 23,42). E Jesus, mesmo agonizante, lhe respondeu: “Em verdade, vos digo, hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). O ladrão, que a tradição conhece como São Dimas, passou a ser conhecido como o Bom Ladrão e deixou para nós um exemplo de uma oração simples, onde pede apenas para ser lembrando, mas o Senhor lhe concede muito mais: estar na nova humanidade dos redimidos.

Todos os evangelhos sinóticos falam da requisição de Simão de Cirene para auxiliar Jesus levar a sua cruz (cf. Mt 27,32; Mc 15,21); no entanto, só o evangelista São Lucas sublinha que Simão transporta a cruz “atrás de Jesus” (cf. Lc 23,26). Este dado quer nos mostrar o modelo do discípulo de Cristo: é aquele que toma a cruz de Jesus e o segue no seu caminho, pois ele mesmo já havia dito: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-me” (Lc 9,23). Possamos também nós acompanhar o Cristo neste momento. E com a atitude de Cireneu, que se coloca junto de Jesus, para auxiliá-lo a carregar a cruz, a dividir com ele este peso, possamos também lembrar de tantos que necessitam do nosso auxílio e da nossa ajuda, pois ele mesmo disse: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).

Logo no início da celebração litúrgica deste dia, a Igreja antecipa a sua resposta ao Evangelho, dizendo: “Sigamos o Senhor”. É o seguimento. Somos chamados a considerar o caminho de Jesus Cristo como o caminho justo: uma peregrinação, um ir juntamente com Jesus Cristo. Um ir naquela direção que Ele nos indicou e nos indica. Jesus caminha diante de nós, e vai para o alto. Ele seguiu adiante. Ele sobe a Jerusalém. Ele também quer nos conduzir para Deus, mas, ao mesmo tempo, deseja habitar entre nós, estar totalmente conosco.

O seu caminho conduz para além do cume do monte do Templo até à altura do próprio Deus. É esta a grande subida à qual Ele nos convida a fazer. Assim, na amplitude da subida de Jesus tornam-se visíveis as dimensões do nosso seguimento a meta para a qual Ele nos quer conduzir: até às alturas de Deus, à comunhão com Deus. É esta a verdadeira meta. É a comunhão com Ele. É o caminho. A comunhão com Ele é um estar a caminho, uma subida permanente rumo à verdadeira altura da nossa chamada.

A cruz faz parte da subida para a altura de Jesus Cristo, da subida até à altura de Deus. Jesus sobe à altura de Deus através da cruz. A cruz é expressão daquilo que o amor significa: só quem se perde a si mesmo, se encontra.

E como a multidão que segue Jesus rumo ao calvário, possamos viver estes dias participando das celebrações em clima de oração e de unidade com Ele. E que ao longo desta santa semana, que nos leva à Páscoa, possamos trafegar por este caminho que nos faz lembrar a humilhação de Cristo. É o caminho da humildade. Percorrendo este caminho Jesus se fez servo. Ele esvaziou-se de si mesmo para ser o servo de todos.

Possamos pedir a intercessão da Virgem Maria para que tenhamos sempre o desejo de caminhar com Cristo. E junto com Maria, possamos contemplar ao pé da cruz Aquele que deu a sua vida por nós. E saibamos ser no mundo um sinal expressivo e eficaz do seu amor, expresso no sofrimento, visando a nossa salvação. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

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V DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A MULHER ADÚLTERA

Jo 8, 1-11

Caros irmãos e irmãs,

Chegamos ao quinto domingo da quaresma e a Liturgia da Palavra nos propõe, para a nossa reflexão, o episódio evangélico de Jesus que salva uma mulher adúltera da condenação à morte (Jo 8,1-11). O texto nos apresenta uma disputa entre Jesus e os escribas e fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante. Segundo a prescrição contida na Lei de Moisés (cf. Lv 20,10 e Dt 22,22-24), são condenados à lapidação o homem e a mulher em adultério. A Lei deve ser aplicada? É este o problema apresentado a Jesus. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei.
Inicialmente Jesus é chamado pelos fariseus de “mestre” e lhe interrogam se é justo lapidar a mulher surpreendida em adultério. Eles conhecem a sua misericórdia e o seu amor pelos pecadores, e estão curiosos para ver como reagirá num caso como este, que segundo a Lei mosaica não deixava espaço a dúvidas. E se alguém falasse contra as prescrições da Lei, seria considerado injusto. Caso Jesus manifestasse a sua concordância com a Lei, colocava em contraste a sua bondade e a sua misericórdia; e se decidisse por conceder liberdade à mulher, não estaria cumprindo as prescrições da Lei.
Diante da questão apresentada, Jesus parece silenciar e põe-se a escrever no chão palavras misteriosas, que o evangelista não revela, mas pode nos fazer interpretar a respeito da fragilidade desse julgamento, pois o que se escreve na poeira da terra, será apagado pelo vento ou quando animais ou homens caminharem sobre as letras então desenhadas. Com isto, Jesus pode querer mostrar o frágil valor do julgamento realizado pelos escribas e fariseus, contudo, após algum tempo escrevendo na terra, pronuncia a frase que se tornou famosa: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe lançar uma pedra” (Jo 8, 7). Com o seu silêncio, Jesus parece também convidar cada um a refletir sobre si próprio. Por um lado, convida a mulher a reconhecer a culpa cometida; por outro, convida os seus acusadores a não se subtraírem ao exame de consciência. Com estas palavras Jesus fez os acusadores da mulher a entrarem em si mesmos e, refletir sobre si próprios. Foram eles atingidos por estas palavras e, por isto, um a um se retiraram.
A cena é cheia de dramaticidade: das palavras de Jesus depende a vida daquela mulher, mas também a sua própria vida. De fato, os acusadores fingem confiar a ele o julgamento, enquanto na realidade é precisamente a ele a quem querem acusar e julgar. Jesus sabe o que está no coração de cada homem, deseja condenar o pecado, mas salvar o pecador. O pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz. Enquanto os acusadores o interrogam com insistência, Jesus inclina-se e põe-se a escrever com o dedo no chão. Observa Santo Agostinho que aquele gesto mostra Cristo como o legislador divino: de fato, Deus escreveu a lei com o seu dedo nas tábuas de pedra (cf. S. AGOSTINHO, Comentário ao Evangelho de João, 33,5). Portanto Jesus é o Legislador, é a Justiça em pessoa.
Quando os acusadores “foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos” (v. 9), Jesus absolve a mulher do seu pecado e a introduz numa vida nova, orientada para o bem e diz à mulher: “Nem eu te condeno; vai e doravante não tornes a pecar” (v. 11). Deus deseja para nós apenas o bem e a vida. Ele provê a saúde da nossa alma por meio dos seus ministros, libertando-nos do mal com o Sacramento da Confissão, para que ninguém se perca, mas todos tenham a ocasião de se converter. Quando os escribas e fariseus se retiraram, Jesus nem sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida, mas a convida a seguir um caminho novo, um caminho de luz, na confiança de libertar-se do erro e do pecado, a partir do amor e do perdão oferecido por Deus.
Podemos observar que Jesus não rejeita a Lei, pede somente aos escribas e fariseus para ter um olhar sobre a própria vida antes de olhar a mulher e a condenar. Os detratores acabam por se condenar a si mesmos e se retiram, reconhecem que são pecadores, a começar pelos mais velhos… E à mulher pede para não voltar a pecar, dá a ela uma nova oportunidade.
Este fato pode se apresentar em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada sozinha, é exposta diante da opinião pública com “o seu pecado”, enquanto por detrás deste “seu” pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo “pecado do outro”, ou seja, co-responsável por este mesmo pecado. Às vezes ele passa a ser até acusador, como no caso descrito, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, só a mulher parece levar a maior culpa pelo erro. No caso da mulher adúltera, observa-se que ela foi abandonada e entregue à morte. Onde estava o homem com quem ela praticou o adultério? A Lei prescrevia apedrejar os adúlteros, então ele deveria também estar ali.
Lancemos um olhar para o momento da criação, quando Deus criou o homem e a mulher. A mulher foi confiada ao homem com a sua diversidade feminina, e também com a sua potencial maternidade. Também o homem foi confiado pelo Criador à mulher. Foram reciprocamente confiados um ao outro como pessoas feitas à imagem e semelhança do próprio Deus. Nesse ato de confiança está a medida do amor, do amor esponsal: para tornar-se “um dom sincero” um para o outro. Após o pecado original, forças opostas operam no homem e na mulher. O sexto mandamento da Lei de Deus nos diz: “Não cometerás adultério” (Ex 20, l4). E o próprio Cristo ainda completa no Sermão da montanha: “Todo aquele que olhar para uma mulher com mau desejo, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,28). Estas palavras, dirigidas diretamente ao homem, mostram a verdade fundamental da sua responsabilidade em relação à mulher: pela sua dignidade, pela sua maternidade, pela sua vocação. Por isso, cada homem deve olhar para dentro de si e ver se aquela que lhe é confiada na mesma humanidade, como esposa, não se tenha tornado objeto de adultério no seu coração; por isto a mulher não pode ser tomada como objeto de prazer, de exploração por parte do homem (cf. S. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica “Mulieris Dignitatem”, n. 13).
E podemos lembrar que no momento da criação, disse o Senhor: “O homem deixará o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Desta união procedem todas as gerações humanas. O adultério designa a infidelidade conjugal. Os profetas, no Antigo Testamento, já denunciavam a sua gravidade e viam no adultério um grave pecado, uma vez que quem o comete, falta aos seus compromissos, viola o vínculo matrimonial, lesa o direito do outro cônjuge e atenta contra a instituição do matrimônio. Compromete o bem da geração humana e dos filhos que têm necessidade da união estável dos pais (cf. CIgC, nº 2381).
Meus irmãos e irmãs, o Evangelho de hoje nos faz ainda compreender que o nosso verdadeiro inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa existência. Jesus despede-se da mulher adúltera com esta exortação: “Vai, e doravante não tornes a pecar”. O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar os outros.
Aprendamos com o Senhor Jesus a não julgar e a não condenar o nosso próximo. Como Cristo, sejamos também nós dispostos a perdoar, imitando os seus gestos e as suas atitudes. Se é verdade que Deus é justiça, não podemos esquecer que ele é sobretudo amor. Se ele odeia o pecado, é porque ama infinitamente cada pessoa humana. Ama cada um de nós, e a sua fidelidade é tão profunda que não se deixa desanimar nem sequer pela nossa rejeição.
E neste caminho quaresmal que estamos a percorrer e que se aproxima rapidamente da sua conclusão, sejamos acompanhados pela certeza de que Deus nunca nos abandona, e que o seu amor é nascente de alegria e de paz; é força que nos impele poderosamente ao longo do itinerário que percorremos rumo à perfeição.
Não paremos e nem abrandemos os nossos passos em direção à santidade de vida. Pelo contrário, orientemo-nos com todas as forças em direção à meta para a qual Deus nos chama. Peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a abrir o nosso coração ao arrependimento de nossas faltas e que ela interceda sempre por nós, agora e na hora do nosso encontro definitivo com Cristo. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

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IV DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

Lc 15,1-3.11-32

Caros irmãos e irmãs,

Em cada Celebração Eucarística, é o próprio Cristo que se faz presente no meio de nós, a nos iluminar com o seu ensinamento na Liturgia da Palavra e a nos alimentar com o seu Corpo e o seu Sangue na Liturgia Eucarística e na Comunhão. É Ele que nos ensina o caminho do acolhimento, do amor e do perdão. Neste tempo da quaresma a Igreja nos exorta a percorrer este itinerário e, para isto, o próprio Cristo nos mostra o caminho da conversão e da vida nova ao nos apresentar para a nossa reflexão a Parábola do Filho Pródigo, que é a leitura evangélica deste domingo.

O ponto de partida para a narração da Parábola é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2), comentam. O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo de escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável. Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho.

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de auto-suficiência. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1).

O filho exige do pai tudo aquilo a que tem direito. A lei judaica prescrevia que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade. Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus o porco é um animal impuro, pois servir aos porcos era sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos. Neste momento ele então percebe que está perdido. Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos. Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome.

O filho mais novo ao partir para um país distante geograficamente, desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do pai que ficara distante. Passa a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

E é neste momento que ele “entra em si mesmo” (cf. v.17). Podemos dizer que longe da casa do pai, em uma terra distante ele se afastou até de si mesmo. Ele vivia longe da verdade de sua existência. A sua mudança, a sua conversão, consiste em que ele reconhece que outrora partiu de si e agora ele regressa a si mesmo. E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai. As palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), nos permitem reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza.

E ao chegar à casa recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão. É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Ele regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver. Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente de que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida.

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, também pelo próprio ato de “tocar” este filho que regressava, depois de uma vida desordenada. Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, por se julgar puro e não podia se unir aos impuros.

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre observou o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai queira exercer a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus. Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16). Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para a verdadeira vida.

Mas a grande beleza deste texto se esconde na palavra grega “splanchnizomai”, normalmente traduzido para o português como: “movido de compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de parto. O filho “que estava morto e voltou à vida” (v. 24), renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso o pai exclama: “É preciso fazer festa e alegrar-se” (v. 24).

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai.

A verdadeira miséria do filho mais novo é de não ter ninguém atento a ele, que o olhe. Para os seres humanos, o olhar é vital. O filho sente a falta de um olhar de amor, sente fome de amor. Jesus quer mudar esta situação, renovando relações em que o amor possa circular de novo. Jesus lança o seu olhar de amor também sobre cada um de nós. Um olhar que é fonte de vida! Um olhar do qual não podemos fugir!

A segunda parte da parábola deste domingo é uma crítica à conduta do filho mais velho, mas também uma crítica da nossa própria conduta. Se estamos a serviço de Deus sem nunca ter desobedecido às suas leis, podemos correr o risco de faltar em nós o amor e a misericórdia. Com esta parábola é Deus que por meio de Cristo fala conosco.

Possamos também nós um dia receber este abraço do Pai a nos acolher em sua casa, participando do banquete que Ele nos preparou, em plena união com Ele e com os nossos irmãos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A PARÁBOLA DA FIGUEIRA ESTÉRIL

Lc 13,1-9

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste terceiro domingo de Quaresma traz novamente à nossa reflexão o tema da conversão e nos convida a reconhecer o mistério de Deus, que se torna presente na nossa vida, como ressalta na primeira leitura tirada do Livro do Êxodo e nos mostra Moisés, que, enquanto apascentava o rebanho, vê uma sarça em chamas, mas que não se consome. Aproxima-se para observar este prodígio, quando uma voz pronuncia o seu nome e o convida a tomar consciência da sua indignidade. Esta mesma voz lhe ordena a tirar as sandálias, porque o lugar é santo. E Deus revela a Moisés o seu próprio nome, ao dizer: “Eu sou aquele que sou!” (Ex 3,14), para que ele o comunique ao povo de Israel. Há algum tempo atraz esta expressão “Eu sou aquele que sou!” foi entendida em sentido filosófico: eu sou aquele que existe, isto é, o Ser absoluto, o único que existe por si mesmo. Atualmente os estudiosos da Sagrada Escritura descobriram algo que muda esse significado: o verbo “ser”, que deve ser entendido aqui no sentido de “estar presente”, ou seja, “eu existo para ti”. Deus é aquele que existe para a humanidade e para que todos possam sentir a sua presença a sua proximidade. É o anúncio do que Deus tornará um dia: o Emanuel, isto é, o Deus conosco.

No encontro com Moisés Deus também se revela como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó” (Ex 3,15). Ele é o Deus dos nossos pais, mas é também um Deus pessoal. É alguém que mantém relacionamentos de pessoa para pessoa, de geração a geração e continua na história a manter este mesmo relacionamento. É ele presente também no meio de nós, sensível aos gritos de quem sofre.

E agora, voltando o nosso olhar para a página do Evangelho prescrita para este domingo, encontramos dois acontecimentos históricos: um crime cometido por Pilatos e o desabamento de uma torre ao lado da piscina de Siloé. Dois fatos trágicos bem diversos: um provocado pelo homem e o outro acidental. Segundo a mentalidade da época, pensava-se que uma desgraça com vítimas era sinal de uma culpa pessoal grave. Mas Jesus diz: “E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não” (v. 4). E para ambos os casos conclui: “Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (v. 5). Com estas exortações, Jesus faz aos seus ouvintes um apelo à conversão. Essas pessoas não Foram punidas por causa dos seus pecados: foram vítimas de uma fatalidade. Mas este acontecimento pode ser interpretado como um apelo à conversão, que consiste na mudança no nosso modo de agir e de pensar.

Na segunda parte do Evangelho, referindo-se a um costume do seu tempo, Jesus apresenta a parábola de uma figueira plantada numa vinha. Esta figueira, contudo, é estéril, não dá frutos (v. 6-9). O diálogo que se desenvolve entre o dono e o vinhateiro, manifesta, por um lado, a misericórdia de Deus, que é paciente e deixa ao homem, ou seja, a todos nós, um tempo para a conversão; e, por outro, a necessidade de iniciar imediatamente a mudança de vida, para não perder as ocasiões que a misericórdia de Deus nos oferece para superar a nossa preguiça espiritual e corresponder ao amor de Deus com o nosso amor filial.

O Senhor Jesus, mais uma vez, toma por base a figura de uma árvore. Numa linguagem simples define o destino dos que, plantados por Deus para darem frutos, não os produziram. A narrativa serviu de lição para o povo de Israel e hoje, serve de lição para cada um de nós que compomos o grupo dos discípulos do Senhor. Ele nos escolheu, a fim de produzirmos frutos para o engrandecimento do seu reino.

A Sagrada Escritura com frequência faz referência à figueira, que duas vezes ao ano, na primavera e no outono, produz saborosos frutos. Em tempos remotos ela simbolizava a prosperidade e a paz (cf. 1Rs 4,25; Is 36,16). No deserto os israelitas sonhavam com uma terra rica em nascentes de água, trigais e figueiras (cf. Dt 8,8). No nosso texto, encontramos uma figueira no meio da vinha (v. 6). A vinha é uma plantação de videiras, cultivadas para produzir uvas. No Antigo Testamento, quando Deus se referia ao estado desejado para o povo de Israel, prometia que cada um se assentaria debaixo de suas videiras e figueiras, em alusão a paz, segurança e prosperidade (1Rs 4,25; Mq 4,4; Zc 3,10).

A parábola nos diz que um homem tinha uma figueira em sua vinha, algo muito comum em Israel. Ela ocupava uma certa área do terreno que podia ter sido usada para as videiras. Cada ano a árvore permanecia estéril, o que significava prejuízo para o seu proprietário. Ela absorvia umidade e nutrientes que serviam para as videiras. A figueira era como uma dívida, que aumentava na medida em que se passavam os anos. Por causa da sua localização, deduzimos que a árvore tinha sido muito bem cuidada. Outra árvore ou videira poderia ter sido plantada ali e, dentro de alguns anos, produziria frutos.

O proprietário deu instruções ao homem que cuidava da vinha para que cortasse a figueira. Mas ele pediu ao dono que tivesse ainda um pouco mais de paciência. Queria dar mais um ano à árvore, durante o qual cavaria o solo ao seu redor e a adubaria. O Antigo Testamento tinha utilizado a figueira como símbolo de Israel (cf. Os 9,10), por isto uma figueira tinha um papel importante na vida de um israelita, representava prosperidade e abastança e era muito comum para cada israelita ter pelo menos uma figueira em sua casa.

Na parábola, o proprietário é geralmente considerado como o representante de Deus e o agricultor, o próprio Cristo Jesus, o enviado à casa de Israel, a fim de cuidar da figueira especial “no meio da vinha” (Mt 15,24). O Evangelho de São João, referindo-se a Jesus, nos diz: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11); e frisa o tempo que Jesus oferece aos seus ouvintes como uma última chance para o arrependimento. O período de tempo limitado mencionado faz uma referência à urgência da nossa conversão.

O homem deve frutificar no tempo, isto é, durante a vida terrena. Todavia este seu agir no tempo, não pode fazer-lhe esquecer da sua outra dimensão essencial: a de um ser orientado para a eternidade: portanto, o homem deve, simultaneamente, frutificar também para a eternidade, pois sem esta perspectiva, ele continuará a ser uma figueira estéril.

O dono da vinha tinha uma predileção especial pela figueira, estabelecida no meio da sua plantação de videiras. Isso significa a escolha de Israel, no meio das outras nações. Espiritualmente falando, para Deus, o centro da Terra é Jerusalém, é Israel. Deus esperava que ela frutificasse, mas se decepcionou: “Foi procurar nela fruto, não o achando, disse ao vinhateiro; Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho” (vv. 6.7). Este período, segundo intérpretes da Bíblia, refere-se aos três anos do ministério terreno de Jesus, durante o qual, Ele, o Messias, como bom vinhateiro, fez tudo o que pôde, a fim de que a nação escolhida desse bons frutos para Deus.

Diante da frustração, em face da não produção dos frutos esperados, o dono da vinha ordenou ao vinhateiro que cortasse a figueira estéril. Mas Jesus procedeu com muito cuidado e zelo. Tamanha é a sua misericórdia, mostrando-se tolerante com a fraqueza humana. Neste ponto, temos grandes lições espirituais a observar. Ele escolheu Israel como seu representante entre os povos, daí a localização da figueira: no meio da vinha. Em contrapartida, esperou que desse fruto, mas ocorreu o contrário. Os judeus rejeitaram o seu plano. Assim, se desejamos fazer parte da vinha do Senhor, precisamos dar frutos, para não sermos cortados.

O ensinamento da parábola é claro: daquele que ouviu a mensagem do Evangelho, Deus espera frutos saborosos e abundantes. E o tempo da quaresma é um tempo de graça, como um novo tempo precioso que é concedido para que a figueira, que representa cada um de nós, produza frutos. Deus hoje nos convida a fazer uma mudança em nossa própria existência, para que possamos viver segundo o Evangelho, corrigindo algo no nosso agir, porque ele quer o nosso bem, a nossa felicidade e a nossa salvação. Possamos responder com um sincero esforço interior

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que ela possa nos acompanhar e nos amparar ao longo desse itinerário quaresmal, e para que ela interceda sempre por nós e nos ajude a redescobrir a grandeza de uma autêntica conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

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II DOMINGO DE QUARESMA – C: A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS

Lc 9, 28b-36

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo de Quaresma a liturgia da Palavra nos convida a meditar acerca das sugestivas narrações da Transfiguração de Jesus. No alto do Monte Tabor, na presença de Pedro, Tiago e João, testemunhas privilegiadas deste importante acontecimento, Jesus é revestido, também exteriormente, da glória de Filho de Deus que lhe pertence.

O quadro evangélico tem como fundo de cena o céu escuro ainda pela madrugada, quando Jesus se transfigurou diante dos olhos dos apóstolos. Seu rosto se tornou brilhante como o sol, e suas vestes ficaram alvas como a neve. Uma nuvem luminosa, sinal bíblico da presença de Deus, os envolveu. E apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Do meio da nuvem ouviu-se uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-o”. A alegria de todos foi tão grande, que Pedro exclamou: “Senhor, é bom estarmos aqui, façamos três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Lc 9,33).

E como o apóstolo Pedro, podemos também dizer: “É bom estarmos aqui” (Lc 9,33). É bom estarmos juntos, reunidos ao altar do Senhor. É bom estarmos na Casa do Senhor para escutarmos a mensagem que o seu Filho nos traz através do seu Evangelho. Este é o convite que o próprio Deus nos faz: “Escutai o que Ele diz” (Lc 9,35). Devemos escutá-lo porque só ele pode nos conduzir à Vida. Só ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68). Nós somos chamados a escutá-lo, mas também a fazer tudo o que ele nos disser (cf. Jo 2,5). Escutando a sua Palavra e praticando os seus ensinamentos seremos verdadeiramente discípulos de Cristo.

Neste domingo a primeira leitura nos apresenta a figura de Abraão, o modelo do crente que soube escutar a voz do Senhor. Diante do chamado do Senhor, ele deixou a própria terra, sustentado apenas pela fé e pela obediência ao seu Senhor. Com Abraão, também nós somos convidados a escutar e confiar nos desígnios de Deus. E nesta primeira Leitura temos a narração da aliança estabelecida por Deus com Abraão, que responde “esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18); por este motivo, ele torna-se pai na fé de todos os crentes, porque acreditou no Senhor. Como Abraão, também nós queremos prosseguir o nosso caminho quaresmal, renunciando às nossas próprias vontades para estarmos em conformidade com a vontade divina.

Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar também para a nossa própria transfiguração. Como nos exorta São Paulo: “O Senhor Jesus Cristo transformará o nosso corpo perecível, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso” (Fl 3, 21). Estas palavras do Apóstolo enfatizadas na segunda leitura deste domingo, nos recordam que a nossa pátria verdadeira está no céu e que Jesus transfigurará o nosso corpo mortal num corpo glorioso como o Seu. Como de fato, Jesus quis dar um sinal e uma profecia da sua Ressurreição gloriosa, da qual também nós somos chamados a participar.

O evangelista Lucas ressalta como este fato extraordinário se verifica precisamente num contexto de oração. Enquanto rezava, o rosto de Jesus mudou de aspecto (cf. Lc 9, 29). Jesus tinha o costume de subir ao monte para rezar (cf. Lc 6,12) e, normalmente, “à noite”, por lhe permitir estar a sós com o Senhor (cf. Mc 1,35; Lc 6, 12).

Por diversas vezes e sobretudo nos momentos mais urgentes e complexos, a oração de Jesus tornava-se mais prolongada e intensa. Na iminência da escolha dos doze Apóstolos, por exemplo, São Lucas sublinha a duração da oração preparatória de Jesus: “Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer a oração e passou toda a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos” (Lc 6, 12-13). Assim também deve ser a nossa oração, sinal da nossa amizade com Deus, a nossa intimidade com Ele. A oração deve ser entendida também como tempo para estar com o Senhor.

Sobressaem na oração três elementos: a fé em um Deus pessoal, vivo; a fé em sua presença efetiva; o diálogo entre o homem e Deus. Um diálogo pessoal, íntimo, profundo. Quem reza sabe que se encontra diante da Sabedoria Suprema, diante daquele que nos conhece. Assim, quem reza tem fé na presença ativa de Deus. É a fé viva da oração. Onde cessa a oração, cessa também a fé viva; e onde cessa a fé, cessa a oração. A oração é este diálogo, este colóquio com o Senhor.

E a exemplo de Cristo, que se colocava frequentemente em oração, sejamos também nós convidados a viver o itinerário quaresmal em espírito de oração e de penitência, a fim de nos preparar desde agora para receber a luz divina que resplandecerá na Páscoa.

Estamos no tempo da Quaresma, esses quarenta dias de oração e de penitência com que a Igreja nos prepara para a solene celebração da Páscoa. Quarenta era um número particularmente significativo no mundo bíblico. O dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites. O povo hebreu viveu quarenta anos de vida nômade no deserto. Moisés passou quarenta dias junto de Deus no Sinai. Também foi o prazo dado por Jonas aos ninivitas para a conversão. Mas, sobretudo, Jesus passou quarenta dias de jejum no deserto, o que inspirou o estabelecer-se na Igreja estes quarenta dias de penitência da Quaresma.

O tempo da Quaresma nos é oferecido, precisamente, como uma ocasião para nos colocarmos mais na escuta da Palavra de Deus que Se fez carne. Possamos aproveitar para aprofundar o nosso silêncio interior, tornando-nos mais atentos ao que Jesus quer dizer a cada um de nós.

E agora, ao celebrar a Eucaristia, Jesus nos dá o seu corpo e o seu sangue, para que de certa forma possamos saborear já aqui na terra a situação final, quando os nossos corpos mortais forem transfigurados à imagem do corpo glorioso de Cristo.

Como Pedro, Tiago e João, também nós somos convidados a subir ao Monte Tabor juntamente com Jesus, e a nos deixar deslumbrar pela Sua glória. E Maria, que como Abraão esperou contra toda a esperança, nos ajude a reconhecer em Jesus o Filho de Deus e o Senhor da nossa vida. E que esta quaresma possa constituir para cada um de nós um momento privilegiado de graça e possa trazer abundantes frutos de bem. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

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