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Festa do Batismo do senhor

Lc 3,15-16.21-22

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo, depois da solenidade da Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor, que conclui o tempo litúrgico do Natal. É uma oportunidade propícia para que todos os cristãos redescubram a alegria e a beleza do seu Batismo que, vivido com fé, é uma realidade sempre atual: renova em nós a imagem do homem novo, na santidade dos pensamentos e das ações.

A liturgia da Palavra nos apresenta para esta celebração um texto evangélico que nos faz voltar o olhar para Jesus com a idade de trinta anos, fazendo-se batizar por João no rio Jordão. João Batista tinha o costume de administrar um batismo de penitência e utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida. Ele era chamado de João, o “Batista”, ou seja, o que batizava, e pregava este batismo a Israel, para preparar a eminente vinda do Messias. Dizia a todos que depois dele viria outro, maior que ele, que não batizaria com água, mas com o Espírito Santo (cf. Mc 1,7-8).

Jesus se une àquela multidão e se direciona ao encontro de João, para ser batizado por ele, embora não necessitasse deste símbolo de purificação. Jesus quis ser batizado porque ainda não se manifestara como o Messias. Não convinha, pois, que fosse diferente dos outros. Jesus faz-se batizar não por necessidade, mas para dar um grande exemplo de humildade.

No momento do batismo de Jesus, o Espírito Santo desce sobre ele em forma de pomba, de maneira visível. E uma grande luz brilha no céu, como se o céu se abrisse. A pomba era o símbolo da paz, do amor puro, da inocência e da simplicidade (cf. Ct 2,14). O Espírito Santo ilumina os corações, transmite a luz divina, restaura a paz. Nos relata o evangelista São Lucas: “O céu se abriu e o Espírito Santo desceu” (Lc 3,21-22). E todos puderam ouvir as palavras: “Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti eu ponho toda a minha complacência ” (v. 22). O Pai, o Filho e o Espírito Santo descem e temos a própria voz do Pai a indicar a presença de Jesus Cristo, seu Filho unigênito, no mundo.

A cena do batismo de Jesus, de algum modo acontece no batismo de cada catecúmeno. Não se vê o céu se abrir, mas a nossa fé nos garante que o Pai do céu está dizendo: “Este é o meu filho querido”. Como de fato, no dia do nosso batismo a voz do Pai nos chamou para sermos seus filhos em Cristo e sermos membros da Igreja, local onde iremos encontrar os meios necessários para o desenvolvimento do dom sublime da fé. E a Igreja, desde Pentecostes, vem celebrando o Sacramento do Batismo. Em sua pregação, São Pedro já dizia: “Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo… Recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,38). Jesus, no dia do seu batismo recebeu o Espírito, como nós o recebemos. Muito embora, o Espírito Santo já habitasse nele, em plenitude, desde o instante da sua concepção divina.

É o Espírito Santo que nos impulsiona a viver a vida nova conferida pelo Batismo. A água derramada sobre a cabeça de cada batizado não significa apenas ablução, purificação, significa vida, e vida nova, mas é também um “renascer”, um nascer de novo: “Quem não renascer pela água e pelo Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É importante lembrarmos as palavras pronunciadas por João Batista no Evangelho: “Eu vos batizo com água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu… Ele há de vos batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E podemos perguntar o significado deste fogo a que João Batista se refere. Antes, devemos lembrar que o Batismo administrado por João era um ato de penitência, com a finalidade de pedir perdão pelos pecados e a possibilidade de começar uma nova existência. No Batismo instituído por Cristo é o próprio Deus que age, é Jesus que age através do Espírito Santo. Neste Batismo está presente o fogo do Espírito Santo. É Deus que age em nós, para sermos seus filhos.

Pelo batismo, com o derramamento da água sobre as nossas cabeças fomos assinalados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, fomos mergulhados nesta “fonte” de vida que é o próprio Deus e que nos constituiu seus verdadeiros filhos. A água é o elemento da fecundidade. Sem água não há vida. E assim, em todas as grandes religiões a água é vista como símbolo da purificação, da fecundidade, símbolo da vida.

Na cena evangélica está presente uma eloquente manifestação da Santíssima Trindade: O Pai do Céu que fala das nuvens entreabertas; o Espírito Santo em forma de pomba; e o Filho unigênito, saindo das águas do rio Jordão. Esta é uma viva referência ao batismo cristão, que é ministrado, segundo a ordem de Jesus, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que o Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão (cf. CIgC 1213). Quando recebemos o Batismo, todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas do pecado. Com efeito, naqueles que foram regenerados, não resta nada que os impeça de entrar no Reino de Deus. Porém, certas consequências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas do caráter (cf. CIgC, n. 1264).

O Batismo também aparece sempre ligado à fé (cf. At 16,31-33). Segundo o apóstolo São Paulo, pelo Batismo o crente comunga na morte de Cristo; é sepultado e ressuscita com Ele (cf. Rm 6,3-4). E, em nossos dias, a fé é um dom que se deve redescobrir, cultivar e testemunhar.

Somos incorporados a Cristo pelo Batismo e com este sacramento o cristão recebe um sinal espiritual indelével da sua pertença a Cristo. É um sacramento que imprime caráter, ou seja, uma marca que nunca apaga, nem mesmo mediante o pecado, embora esta fragilidade possa impedir o Batismo de produzir os frutos de salvação. Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo Batismo.

Com esta festa em que recordamos o Batismo do Senhor, peçamos a Ele que nos conceda a graça de viver a beleza e a alegria de sermos bons cristãos e que aprendamos a conhecê-lo e a amá-lo com todas as forças e a servi-lo fielmente e sendo portadores de uma vida cristã coerente.

Peçamos também a Virgem de Nazaré, a filha predileta do Senhor, para que nós, já revestidos com a veste branca do batismo, sinal da nova dignidade de filhos de Deus, durante toda a nossa vida, sejamos discípulos fiéis de Cristo e corajosas testemunhas do Evangelho. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Solenidade Da Epifania do Senhor

Mt 2,1-12

Caros irmãos e irmãs!

Neste domingo celebramos a solenidade da Epifania do Senhor e, mais uma vez, somos colocados diante da rica e abundante Palavra de Deus que nos ilumina. Celebramos a manifestação de um Deus que se revelou na história como luz do mundo, para guiar a humanidade em direção à terra prometida.

A primeira leitura deste domingo, tirada do Livro do profeta Isaías (cf. Is 60,1-6), e o trecho do Evangelho de São Mateus (Mt 2,1-12), colocam lado a lado, a promessa e o seu cumprimento. Aparece diante de nós a visão do profeta que, depois das humilhações padecidas pelo povo de Israel, vê o momento em que a grande luz de Deus surgirá sobre toda a terra, de maneira que os reis das nações se inclinarão diante dele e depositarão aos seus pés os seus tesouros mais preciosos.

O texto do Evangelho nos coloca diante da cena dos magos que vêm do Oriente para adorar o Senhor. Os magos eram astrônomos que viram na imagem da estrela uma mensagem de esperança e, guiados por ela, são conduzidos até a Judéia. São também identificados como homens sábios, que se colocam a caminho para encontrar o verdadeiro Deus.

Como os magos estavam à procura do recém-nascido, rei dos judeus, parece então normal que fossem à cidade régia de Israel e entrassem no palácio do rei. Certamente eles presumiram que deveria ter nascido lá o futuro rei. Mas, para encontrar definitivamente a estrada que os levaria ao verdadeiro herdeiro do rei Davi, precisam, antes, da indicação das Sagradas Escrituras, ou seja, da Palavra de Deus.

Os magos questionam sobre o local onde deveria nascer o menino. Mas observemos a reação à pergunta dos magos: “O rei Herodes ficou alarmado e com ele toda Jerusalém” (Mt 2,3). Esta perturbação de Herodes perante a notícia do nascimento de um misterioso pretendente ao trono era certamente bem compreensível. Herodes é um homem do poder, que consegue ver no outro apenas o rival. E, no fundo, considera Deus também como um rival, antes, como o rival mais perigoso. O rei Herodes mostra interesse pelo Menino, não para o adorar, mas para o eliminar.

É interessante notar que em Jerusalém a estrela tinha desaparecido por completo. Depois do encontro dos magos com a Palavra da Escritura, a estrela resplandece de novo para eles. E o texto bíblico nos diz, referindo-se à reação dos magos: “Revendo a estrela, alegraram-se” (Mt 2,10). É a alegria do homem, que foi atingido no coração pela luz de Deus e pode ver realizada a sua esperança.

No mundo antigo, os corpos celestes eram considerados como forças divinas que decidiam o destino dos homens e dominavam o mundo. Os planetas têm nomes de divindades. Nesta linha de pensamento, se situa a narrativa da estrela que aparece no evangelho a guiar os magos. Não é a estrela que determina o destino do Menino, mas o Menino que guia a estrela (cf. BENTO XVI, A infância de Jesus, São Paulo, 2012, p. 79ss).

E o texto do Evangelho ainda diz: “Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se, adoraram-no” (Mt 2,11). Na presença do Menino Jesus, os magos fazem uma prostração; ou seja, é a homenagem que se presta a um Rei e Deus. A partir disso, pode-se explicar o significado das oferendas que realizam. Não são presentes práticos, que pudessem talvez revelar-se úteis naquele momento para a Sagrada Família; mas são dons que exprimem o reconhecimento da dignidade real daquele a quem são oferecidos. Ouro e incenso aparecem mencionados no livro do profeta Isaías (cf. Is 60,6), como presentes de homenagem, que devem ser oferecidos pelos povos ao Deus de Israel.

Nos três presentes, a tradição da Igreja viu representados três aspectos do mistério de Cristo: O ouro indica a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade, e a mirra, o mistério da sua Paixão. Como de fato, o Evangelista São João nos narra que, para ungir o corpo de Jesus, Nicodemos fez uso da mirra (cf. Jo 19,39). A mirra afasta os vermes dos cadáveres e preserva os corpos da corrupção. Assim, através da mirra, o mistério da Cruz está de novo ligado à realeza de Jesus e preanuncia-se de maneira misteriosa a sua morte já na adoração dos magos.

Mas, com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, esta oferenda de presentes ao Menino Jesus recém-nascido, indica o reconhecimento da sua divindade. Ou seja, a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem também a sua autoridade. A consequência a que isto dá origem é imediata. Os magos regressam apressados às suas terras, mas já não podem continuar pelo mesmo caminho, já não podem regressar para junto de Herodes, já não podem ser aliados com aquele soberano poderoso e cruel. Foram conduzidos por um outro caminho; em uma outra direção.

O texto nos diz: “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2,12). Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para proclamar a descoberta. No entanto, os Magos, que escolheram o Menino como soberano o protegeram da fúria de Herodes e foram transformados após o encontro com a Verdade, descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza, um novo caminho: o caminho da fé.

Santo Agostinho, fazendo uma referência a este texto, completa: “Também nós, reconhecendo Cristo, nosso rei… O honramos como se tivéssemos oferecido ouro, incenso e mirra; só nos falta dar testemunho dele, percorrendo um caminho diferente daquele pelo qual viemos” (S. AGOSTINHO, Sermo 202, In Epiphania Domini 3,4).

Muitos viram a estrela, mas só poucos compreenderam a sua mensagem. Os estudiosos da Escritura do tempo de Jesus conheciam perfeitamente a palavra de Deus. Eram capazes de dizer sem qualquer dificuldade o que se podia encontrar nela a respeito do lugar onde o Messias teria nascido, mas, como Santo Agostinho diz: “…enquanto davam indicações aos romeiros a caminho, eles permaneciam inertes e imóveis” (S. AGOSTINHO, Sermo 199, In Epiphania Domini 1,2).

Estes estudiosos da Palavra de Deus não se deslocaram, não caminharam em direção a Jesus. Eles não conseguiram ver a estrela, não alcançaram a luz do mundo; enquanto os magos deixam-se guiar pela luz do menino e reconhecem nele o Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Com isso, podemos afirmar que Cristo vem como luz a iluminar os povos, mas muitos ainda vivem nas trevas e não conseguem ver a luz que é o próprio Cristo. Tenhamos consciência de que o Menino é a luz a nos iluminar. E é esta luz que devemos seguir e por esta luz devemos nos deixar iluminar.

Peçamos ao Senhor que Ele nos faça seguir o mesmo itinerário percorrido pelos magos e nos coloquemos a caminho. Que a luz da estrela de Belém nos conduza ao Encontro do Menino Deus e após este encontro, possamos também nós seguir por um outro caminho: o caminho da conversão, o caminho da santidade, o caminho de uma vida nova. E com os magos, ajoelhemo-nos diante daquele que nasceu para nós e está nos braços da sempre Virgem Maria Mãe de Deus. Possamos também oferecer-lhe os nossos dons: não mais ouro, incenso e a mirra, mas a nossa decisão de segui-lo até o fim, fazendo sempre a sua vontade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO – C – A visitação de Maria a Isabel

Lc 1,39-45

Meus caros irmãos e irmãs,

Nestes dias em que nos preparamos para o Natal, somos convidados a contemplar a ação de um Deus que ama de tal forma a humanidade que envia ao nosso encontro o seu Filho, a fim de nos conduzir à comunhão com Ele.

Neste quarto domingo do tempo do Advento, à distância de poucos dias do Natal do Senhor, o Evangelho narra a visita de Maria à sua prima Isabel. Este episódio apresenta com grande simplicidade o encontro de duas importantes mulheres, ambas grávidas, na expectativa do nascimento de seus respectivos filhos. Ambas ressaltam a gratidão ao Senhor pela obra nelas operada.  Isabel, já idosa, simboliza Israel que espera o Messias, enquanto que a jovem Maria traz em si o cumprimento desta expectativa, em benefício de toda a humanidade.

Na Anunciação o anjo Gabriel tinha falado a Maria da gravidez de Isabel (cf. Lc 1,36) como prova do poder de Deus. A esterilidade, não obstante ela fosse idosa, tinha-se transformado em fertilidade. E Isabel, acolhendo Maria, reconhece que nela está para se realizar a promessa de Deus à humanidade e exclama: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (v. 42). São palavras que aparecem no Antigo Testamento, mais precisamente no Cântico de Débora (cf. Jz 5,24) para celebrar Jael, a mulher que, apesar da sua fragilidade, foi o instrumento de Deus para libertar o Povo de Israel das mãos de Sísara, um cruel comandante do exército que tencionava decepar os Israelitas.

Algo incomum para uma mulher, olhando o contexto da época.  Com isto, observa-se que Deus pode usar de instrumentos frágeis para operar maravilhas.  Aplicando a Maria, pode-se também constatar que Deus uma vez mais usa instrumentos simples para realizar suas obras de salvação.  Através de Maria ele realizou um marcante acontecimento histórico: deu à humanidade o seu próprio Filho. Através do anjo Gabriel, Deus dirige-se a Maria e a escolhe para gerar o Salvador do mundo.

A manifestação de alegria de João Batista no seio de sua mãe Santa Isabel, é o sinal do cumprimento da expectativa: Deus está para visitar o seu povo. Isabel interpreta este movimento que ela experimenta como um sinal divino e como uma saudação de seu filho ao filho de Maria.  Em sua alegria, Isabel ainda ressalta a posição privilegiada de sua parenta dizendo: “…e bendito é o fruto do teu ventre” (v. 42).  Ao fruto do ventre de Maria, Isabel chama de Kyrios mou: “Meu Senhor” (v. 43).  No uso do título Kyrios Jesus é reconhecido como Deus, e como o seu Deus.  Maria também é apresentada como a mulher de fé (v. 45), porque acreditou na veracidade e na fidelidade da promessa de Deus.

No texto evangélico temos a exaltação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (v. 43).  Davi pronunciou uma frase semelhante a esta: “Como pode estar a Arca do Senhor em minha casa?” (2Sm 6,9). A Arca continha as tábuas da Lei, o maná e o cajado de Aarão (cf. Hb 9, 4), era o sinal da presença de Deus no meio do seu povo. João Batista, ainda para nascer, exulta de alegria diante de Maria, a nova Arca da nova Aliança, que traz no seio Jesus, o Filho de Deus feito homem.

Outro detalhe significativo nos põe em paralelo com a visita de Maria e a Arca da Aliança.  Maria, bem como a Arca, permanecem durante três meses em uma casa da Judéia.  A Arca é recebida com danças, com gritos de alegria, com hinos festivos e é portadora de bênçãos para a família que a recebe (cf. 2Sm 6,10-11) e Maria, ao entrar na casa de Zacarias, faz pular de alegria João Batista, o menino que está no seio de Isabel e representa o povo do Antigo Testamento, que está à espera do Messias.  Com isto, fica evidente que Maria é a nova Arca da Aliança, como entoamos na Ladainha de Nossa Senhora.

A cena da Visitação expressa também que Jesus é o Deus que vem ao encontro da humanidade e tem uma mensagem de salvação que concretiza as promessas feitas pelo Senhor aos antepassados; logo, a presença de Jesus provoca a alegria em todos aqueles que esperam a concretização das promessas de Deus que se realizam com sua chegada. Promessas de um mundo de justiça, amor, paz e felicidade para todos.  Por isto, dirá o anjo aos pastores: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).  Através de Jesus, Deus vai oferecer a paz e a salvação a todos e isso gera alegria, por parte de todos aqueles que anseiam pela concretização das suas promessas.

Finalmente, temos a resposta de Maria: “A minha alma engrandece o Senhor”. A resposta de Maria retoma um salmo de ação de graças (cf. Sl 34,4), destinado a dar graças ao Senhor porque protege os humildes e os salva, apesar da prepotência dos opressores. É um salmo de esperança e de confiança, que exalta a preocupação de Deus para com os pobres, vítimas da injustiça e da opressão. Sugere-se, claramente, que a presença de Jesus, através dessa mulher simples e frágil que é Maria, é um sinal do amor de Deus, preocupado em trazer a salvação a todos os que são vítimas da injustiça. Com Jesus, chegou esse novo tempo de paz e de felicidade anunciado pelos profetas.

Com a celebração do Santo Natal já próximo, devemos nos preparar para o encontro com Jesus, o Emanuel, Deus conosco. Nascido na pobreza de Belém, Ele deseja fazer-se companheiro de viagem de todos. O dom surpreendente do Natal é precisamente este: Jesus veio para cada um de nós e nele nos tornamos irmãos. Estejamos preparados espiritualmente para receber o Menino Jesus. Ele vem para nós. É seu desejo vir para habitar no nosso coração. Para que isso aconteça é indispensável que estejamos disponíveis e nos preparemos para recebê-lo, prontos a dar-lhe espaço dentro de nós, nas nossas famílias, na nossa cidade. Que seu nascimento nos encontre preparados para festejar o Natal.  Com a consciência de que é Ele o protagonista da fé.

Neste tempo de Natal saibamos imitar Maria, e com a mesma alegria e disposição que a levou a ir às pressas para estar com Isabel (cf. Lc 1,39), possamos nós também ir ao encontro do Senhor que vem.  À Maria, Arca da Nova e Eterna Aliança, confiemos o nosso coração, para que o torne digno de acolher a visita de Deus no mistério do seu Natal.

Que o Senhor encontre um abrigo no nosso coração e na nossa vida. Na verdade, não devemos apenas levá-lo no coração, devemos também levá-lo ao mundo, de forma que também nós possamos gerar Cristo para as pessoas do nosso tempo.   Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ