III DOMINGO DO TEMPO COMUM – C -JESUS NA SINAGOGA

Lc 1,1-14;4,14-21

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo coloca no centro da nossa reflexão o início da pregação de Jesus. O Evangelista São Lucas, que nos acompanha durante este ano litúrgico, apresenta um significativo texto em que narra o começo do ministério de Jesus na sinagoga de Nazaré e tem seus paralelos sinóticos em Mc 6,1-6 e Mt 13,53-58. É o começo da intervenção salvífica de Deus em Jesus Cristo.

O texto evangélico nos situa em Nazaré, a cidade onde Jesus foi criado e, em um dia de sábado, Jesus entra na sinagoga da cidade. O culto sinagogal, como era o costume, consistia na leitura da palavra de Deus feita por turno, por alguns membros da comunidade. Lia-se inicialmente um trecho do livro da Lei ou seja, os primeiros cinco livros da Bíblia, e, em seguida, uma passagem dos livros dos Profetas, que pudesse elucidar o texto lido. Jesus se apresenta para ler o trecho profético e fazer o comentário. Ele escolhe um texto do profeta Isaías Is 61,1-2, que assim diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim (…) enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração e para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os prisioneiros e para publicar o ano da graça do Senhor” (v. 17-19). É um texto em que descreve como é que o Messias concretizará a sua missão.

É significativo cada momento da narrativa sobre o fato ocorrido naquela manhã na sinagoga de Nazaré. Inicialmente Jesus abre o volume que lhe é entregue. Em seguida, após a leitura, enrola o volume, o entrega ao assistente e toma o seu assento. Naquele tempo, quem se sentava para instruir os outros era considerado mestre. O evangelista São Lucas quer frisar que Jesus se tornou o nosso mestre. Todos os livros do Antigo Testamento têm a finalidade de nos conduzir até Ele. Nas celebrações dominicais sempre temos uma leitura tirada de algum livro do Antigo Testamento, porque estes textos são indispensáveis, visando nos preparar a escutar o Cristo.

Podemos dizer que neste trecho do Evangelho temos um programa que Jesus irá realizar ao longo da sua vida terrena. A sua missão consiste em fazer realizar a boa nova e elucidar que algo novo chegou ao coração e à vida de todos os prisioneiros do sofrimento, da opressão, da injustiça, do desânimo, do medo. O que é mais significativo, no entanto, é a “atualização” que Jesus faz desta profecia: Ele se apresenta como o profeta que Deus ungiu com o seu Espírito, a fim de concretizar essa missão.

E neste texto Jesus manifesta de forma bem nítida a consciência de que foi investido do Espírito de Deus e enviado para transformar tudo o que rouba a vida e a dignidade do homem. É ele que vem anunciar a plenitude da bênção de Deus para a humanidade. Ele vem, como diz o texto, para anunciar o Evangelho aos pobres. No sermão das bem-aventuranças, lemos: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). Neste sermão Jesus se refere aos indigentes, aos carentes, aos fracos, aos humilhados. São os que trabalham dignamente e possuem apenas o trivial, os que vivem em condição de miséria absoluta. São ainda os desprovidos de socorro humano e material e que recorrem exclusivamente ao socorro de Deus e, por isso, são felizes. São felizes por não acumularem tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem. São felizes porque foram cativados a servir a Deus e amar ao próximo. São felizes por terem encontrado a alegria do ser.

Jesus é aquele que também vem dar a vista aos cegos, não só os curando miraculosamente como sinal do seu poder, mas iluminando cada pessoa, para que ela possa conhecer a luz da fé e os preceitos da Lei de Deus. Ele vem livrar os cativos de toda a escravidão, quer material, quer espiritual, que desfigura a humanidade. Ele vem implantar no mundo a alegria da liberdade dos filhos de Deus.

Nas páginas do Evangelho encontramos uma orientação muito clara aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não têm como retribuir. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho (cf. FRANCISCO, Carta Encíclica “Evangelii Gaudium”, 48).

Jesus, após ler o trecho do livro do profeta Isaías, diz: “Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir” (v. 21). Ele anuncia repentinamente que essa palavra se cumpre hoje, nele. Na verdade o próprio Jesus é o “hoje” da salvação na história, porque leva a cumprimento a plenitude da redenção. O termo “hoje” já nos é apresentado com as palavras que o anjo dirigiu aos pastores: “Hoje nasceu para vós, na Cidade de Davi, um Salvador, o Cristo Senhor” (Lc 2, 11).

Aquele “hoje” pronunciado por Jesus naquele sábado em Nazaré vale para todo o sempre, porque Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8). Este trecho interpela também a nós. Esta passagem do Evangelho também nos convida a interrogar-nos sobre a nossa capacidade de escuta. Antes de poder falar de Deus e com Deus, é preciso ouvi-lo, e a liturgia da Igreja é a escola desta escuta do Senhor que nos fala. Enfim, nos diz que cada momento pode tornar-se um “hoje” propício para a nossa conversão.

Também nós hoje somos chamados a anunciar aos necessitados uma palavra de estímulo e de esperança. Cada dia pode tornar-se o “hoje” salvífico, porque a salvação é história que continua para a Igreja e para cada discípulo de Cristo.

O “Hoje” é a novidade de Jesus e indica que o tempo está em desenvolvimento e que a história da humanidade está atravessando um momento excepcional de graça. O “hoje” prolonga-se no tempo da Igreja, o nosso tempo é o “hoje” de Deus.

A escuta da Palavra de Deus deve nos conduzir, como conduziu o povo da primeira leitura, a um exame de consciência, ao arrependimento e à conversão. A Palavra proclamada também é geradora de festa, de alegria e de felicidade: “Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza” (Ne 8,9), como consta na primeira leitura. O fato de Deus ainda hoje nos dirigir a sua palavra salvadora é fonte de alegria e de festa. Além disto, a Palavra de Deus é sempre palavra de salvação, que tem o seu pleno cumprimento em Jesus de Nazaré. E nele começa o eterno “hoje” da salvação que deve ser continuado pela ação da Igreja.

Cada momento pode tornar-se um “hoje” propício para a nossa conversão. Saibamos aproveitar o “hoje” que Deus nos concede em prol da nossa salvação. E que a participação em cada Celebração Eucarística, onde nos alimentamos não só do corpo e do sangue do Senhor, mas também da Palavra, lida e explicada, possa nos fazer compreender melhor a Palavra de Deus, Palavra de salvação para o nosso “hoje” concreto de cada dia.

À Virgem Maria, a quem sempre devemos ter como modelo e guia, peçamos que interceda incessantemente por cada um de nós, para que saibamos reconhecer e acolher, em cada dia da nossa vida, a presença de Deus, o Salvador nosso e de toda a humanidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

Festa do Batismo do senhor

Lc 3,15-16.21-22

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo, depois da solenidade da Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor, que conclui o tempo litúrgico do Natal. É uma oportunidade propícia para que todos os cristãos redescubram a alegria e a beleza do seu Batismo que, vivido com fé, é uma realidade sempre atual: renova em nós a imagem do homem novo, na santidade dos pensamentos e das ações.

A liturgia da Palavra nos apresenta para esta celebração um texto evangélico que nos faz voltar o olhar para Jesus com a idade de trinta anos, fazendo-se batizar por João no rio Jordão. João Batista tinha o costume de administrar um batismo de penitência e utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida. Ele era chamado de João, o “Batista”, ou seja, o que batizava, e pregava este batismo a Israel, para preparar a eminente vinda do Messias. Dizia a todos que depois dele viria outro, maior que ele, que não batizaria com água, mas com o Espírito Santo (cf. Mc 1,7-8).

Jesus se une àquela multidão e se direciona ao encontro de João, para ser batizado por ele, embora não necessitasse deste símbolo de purificação. Jesus quis ser batizado porque ainda não se manifestara como o Messias. Não convinha, pois, que fosse diferente dos outros. Jesus faz-se batizar não por necessidade, mas para dar um grande exemplo de humildade.

No momento do batismo de Jesus, o Espírito Santo desce sobre ele em forma de pomba, de maneira visível. E uma grande luz brilha no céu, como se o céu se abrisse. A pomba era o símbolo da paz, do amor puro, da inocência e da simplicidade (cf. Ct 2,14). O Espírito Santo ilumina os corações, transmite a luz divina, restaura a paz. Nos relata o evangelista São Lucas: “O céu se abriu e o Espírito Santo desceu” (Lc 3,21-22). E todos puderam ouvir as palavras: “Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti eu ponho toda a minha complacência ” (v. 22). O Pai, o Filho e o Espírito Santo descem e temos a própria voz do Pai a indicar a presença de Jesus Cristo, seu Filho unigênito, no mundo.

A cena do batismo de Jesus, de algum modo acontece no batismo de cada catecúmeno. Não se vê o céu se abrir, mas a nossa fé nos garante que o Pai do céu está dizendo: “Este é o meu filho querido”. Como de fato, no dia do nosso batismo a voz do Pai nos chamou para sermos seus filhos em Cristo e sermos membros da Igreja, local onde iremos encontrar os meios necessários para o desenvolvimento do dom sublime da fé. E a Igreja, desde Pentecostes, vem celebrando o Sacramento do Batismo. Em sua pregação, São Pedro já dizia: “Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo… Recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,38). Jesus, no dia do seu batismo recebeu o Espírito, como nós o recebemos. Muito embora, o Espírito Santo já habitasse nele, em plenitude, desde o instante da sua concepção divina.

É o Espírito Santo que nos impulsiona a viver a vida nova conferida pelo Batismo. A água derramada sobre a cabeça de cada batizado não significa apenas ablução, purificação, significa vida, e vida nova, mas é também um “renascer”, um nascer de novo: “Quem não renascer pela água e pelo Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É importante lembrarmos as palavras pronunciadas por João Batista no Evangelho: “Eu vos batizo com água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu… Ele há de vos batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E podemos perguntar o significado deste fogo a que João Batista se refere. Antes, devemos lembrar que o Batismo administrado por João era um ato de penitência, com a finalidade de pedir perdão pelos pecados e a possibilidade de começar uma nova existência. No Batismo instituído por Cristo é o próprio Deus que age, é Jesus que age através do Espírito Santo. Neste Batismo está presente o fogo do Espírito Santo. É Deus que age em nós, para sermos seus filhos.

Pelo batismo, com o derramamento da água sobre as nossas cabeças fomos assinalados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, fomos mergulhados nesta “fonte” de vida que é o próprio Deus e que nos constituiu seus verdadeiros filhos. A água é o elemento da fecundidade. Sem água não há vida. E assim, em todas as grandes religiões a água é vista como símbolo da purificação, da fecundidade, símbolo da vida.

Na cena evangélica está presente uma eloquente manifestação da Santíssima Trindade: O Pai do Céu que fala das nuvens entreabertas; o Espírito Santo em forma de pomba; e o Filho unigênito, saindo das águas do rio Jordão. Esta é uma viva referência ao batismo cristão, que é ministrado, segundo a ordem de Jesus, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que o Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão (cf. CIgC 1213). Quando recebemos o Batismo, todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas do pecado. Com efeito, naqueles que foram regenerados, não resta nada que os impeça de entrar no Reino de Deus. Porém, certas consequências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas do caráter (cf. CIgC, n. 1264).

O Batismo também aparece sempre ligado à fé (cf. At 16,31-33). Segundo o apóstolo São Paulo, pelo Batismo o crente comunga na morte de Cristo; é sepultado e ressuscita com Ele (cf. Rm 6,3-4). E, em nossos dias, a fé é um dom que se deve redescobrir, cultivar e testemunhar.

Somos incorporados a Cristo pelo Batismo e com este sacramento o cristão recebe um sinal espiritual indelével da sua pertença a Cristo. É um sacramento que imprime caráter, ou seja, uma marca que nunca apaga, nem mesmo mediante o pecado, embora esta fragilidade possa impedir o Batismo de produzir os frutos de salvação. Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo Batismo.

Com esta festa em que recordamos o Batismo do Senhor, peçamos a Ele que nos conceda a graça de viver a beleza e a alegria de sermos bons cristãos e que aprendamos a conhecê-lo e a amá-lo com todas as forças e a servi-lo fielmente e sendo portadores de uma vida cristã coerente.

Peçamos também a Virgem de Nazaré, a filha predileta do Senhor, para que nós, já revestidos com a veste branca do batismo, sinal da nova dignidade de filhos de Deus, durante toda a nossa vida, sejamos discípulos fiéis de Cristo e corajosas testemunhas do Evangelho. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB