Solenidade Da Epifania do Senhor

Mt 2,1-12

Caros irmãos e irmãs!

Neste domingo celebramos a solenidade da Epifania do Senhor e, mais uma vez, somos colocados diante da rica e abundante Palavra de Deus que nos ilumina. Celebramos a manifestação de um Deus que se revelou na história como luz do mundo, para guiar a humanidade em direção à terra prometida.

A primeira leitura deste domingo, tirada do Livro do profeta Isaías (cf. Is 60,1-6), e o trecho do Evangelho de São Mateus (Mt 2,1-12), colocam lado a lado, a promessa e o seu cumprimento. Aparece diante de nós a visão do profeta que, depois das humilhações padecidas pelo povo de Israel, vê o momento em que a grande luz de Deus surgirá sobre toda a terra, de maneira que os reis das nações se inclinarão diante dele e depositarão aos seus pés os seus tesouros mais preciosos.

O texto do Evangelho nos coloca diante da cena dos magos que vêm do Oriente para adorar o Senhor. Os magos eram astrônomos que viram na imagem da estrela uma mensagem de esperança e, guiados por ela, são conduzidos até a Judéia. São também identificados como homens sábios, que se colocam a caminho para encontrar o verdadeiro Deus.

Como os magos estavam à procura do recém-nascido, rei dos judeus, parece então normal que fossem à cidade régia de Israel e entrassem no palácio do rei. Certamente eles presumiram que deveria ter nascido lá o futuro rei. Mas, para encontrar definitivamente a estrada que os levaria ao verdadeiro herdeiro do rei Davi, precisam, antes, da indicação das Sagradas Escrituras, ou seja, da Palavra de Deus.

Os magos questionam sobre o local onde deveria nascer o menino. Mas observemos a reação à pergunta dos magos: “O rei Herodes ficou alarmado e com ele toda Jerusalém” (Mt 2,3). Esta perturbação de Herodes perante a notícia do nascimento de um misterioso pretendente ao trono era certamente bem compreensível. Herodes é um homem do poder, que consegue ver no outro apenas o rival. E, no fundo, considera Deus também como um rival, antes, como o rival mais perigoso. O rei Herodes mostra interesse pelo Menino, não para o adorar, mas para o eliminar.

É interessante notar que em Jerusalém a estrela tinha desaparecido por completo. Depois do encontro dos magos com a Palavra da Escritura, a estrela resplandece de novo para eles. E o texto bíblico nos diz, referindo-se à reação dos magos: “Revendo a estrela, alegraram-se” (Mt 2,10). É a alegria do homem, que foi atingido no coração pela luz de Deus e pode ver realizada a sua esperança.

No mundo antigo, os corpos celestes eram considerados como forças divinas que decidiam o destino dos homens e dominavam o mundo. Os planetas têm nomes de divindades. Nesta linha de pensamento, se situa a narrativa da estrela que aparece no evangelho a guiar os magos. Não é a estrela que determina o destino do Menino, mas o Menino que guia a estrela (cf. BENTO XVI, A infância de Jesus, São Paulo, 2012, p. 79ss).

E o texto do Evangelho ainda diz: “Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se, adoraram-no” (Mt 2,11). Na presença do Menino Jesus, os magos fazem uma prostração; ou seja, é a homenagem que se presta a um Rei e Deus. A partir disso, pode-se explicar o significado das oferendas que realizam. Não são presentes práticos, que pudessem talvez revelar-se úteis naquele momento para a Sagrada Família; mas são dons que exprimem o reconhecimento da dignidade real daquele a quem são oferecidos. Ouro e incenso aparecem mencionados no livro do profeta Isaías (cf. Is 60,6), como presentes de homenagem, que devem ser oferecidos pelos povos ao Deus de Israel.

Nos três presentes, a tradição da Igreja viu representados três aspectos do mistério de Cristo: O ouro indica a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade, e a mirra, o mistério da sua Paixão. Como de fato, o Evangelista São João nos narra que, para ungir o corpo de Jesus, Nicodemos fez uso da mirra (cf. Jo 19,39). A mirra afasta os vermes dos cadáveres e preserva os corpos da corrupção. Assim, através da mirra, o mistério da Cruz está de novo ligado à realeza de Jesus e preanuncia-se de maneira misteriosa a sua morte já na adoração dos magos.

Mas, com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, esta oferenda de presentes ao Menino Jesus recém-nascido, indica o reconhecimento da sua divindade. Ou seja, a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem também a sua autoridade. A consequência a que isto dá origem é imediata. Os magos regressam apressados às suas terras, mas já não podem continuar pelo mesmo caminho, já não podem regressar para junto de Herodes, já não podem ser aliados com aquele soberano poderoso e cruel. Foram conduzidos por um outro caminho; em uma outra direção.

O texto nos diz: “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2,12). Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para proclamar a descoberta. No entanto, os Magos, que escolheram o Menino como soberano o protegeram da fúria de Herodes e foram transformados após o encontro com a Verdade, descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza, um novo caminho: o caminho da fé.

Santo Agostinho, fazendo uma referência a este texto, completa: “Também nós, reconhecendo Cristo, nosso rei… O honramos como se tivéssemos oferecido ouro, incenso e mirra; só nos falta dar testemunho dele, percorrendo um caminho diferente daquele pelo qual viemos” (S. AGOSTINHO, Sermo 202, In Epiphania Domini 3,4).

Muitos viram a estrela, mas só poucos compreenderam a sua mensagem. Os estudiosos da Escritura do tempo de Jesus conheciam perfeitamente a palavra de Deus. Eram capazes de dizer sem qualquer dificuldade o que se podia encontrar nela a respeito do lugar onde o Messias teria nascido, mas, como Santo Agostinho diz: “…enquanto davam indicações aos romeiros a caminho, eles permaneciam inertes e imóveis” (S. AGOSTINHO, Sermo 199, In Epiphania Domini 1,2).

Estes estudiosos da Palavra de Deus não se deslocaram, não caminharam em direção a Jesus. Eles não conseguiram ver a estrela, não alcançaram a luz do mundo; enquanto os magos deixam-se guiar pela luz do menino e reconhecem nele o Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Com isso, podemos afirmar que Cristo vem como luz a iluminar os povos, mas muitos ainda vivem nas trevas e não conseguem ver a luz que é o próprio Cristo. Tenhamos consciência de que o Menino é a luz a nos iluminar. E é esta luz que devemos seguir e por esta luz devemos nos deixar iluminar.

Peçamos ao Senhor que Ele nos faça seguir o mesmo itinerário percorrido pelos magos e nos coloquemos a caminho. Que a luz da estrela de Belém nos conduza ao Encontro do Menino Deus e após este encontro, possamos também nós seguir por um outro caminho: o caminho da conversão, o caminho da santidade, o caminho de uma vida nova. E com os magos, ajoelhemo-nos diante daquele que nasceu para nós e está nos braços da sempre Virgem Maria Mãe de Deus. Possamos também oferecer-lhe os nossos dons: não mais ouro, incenso e a mirra, mas a nossa decisão de segui-lo até o fim, fazendo sempre a sua vontade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO – C – A visitação de Maria a Isabel

Lc 1,39-45

Meus caros irmãos e irmãs,

Nestes dias em que nos preparamos para o Natal, somos convidados a contemplar a ação de um Deus que ama de tal forma a humanidade que envia ao nosso encontro o seu Filho, a fim de nos conduzir à comunhão com Ele.

Neste quarto domingo do tempo do Advento, à distância de poucos dias do Natal do Senhor, o Evangelho narra a visita de Maria à sua prima Isabel. Este episódio apresenta com grande simplicidade o encontro de duas importantes mulheres, ambas grávidas, na expectativa do nascimento de seus respectivos filhos. Ambas ressaltam a gratidão ao Senhor pela obra nelas operada.  Isabel, já idosa, simboliza Israel que espera o Messias, enquanto que a jovem Maria traz em si o cumprimento desta expectativa, em benefício de toda a humanidade.

Na Anunciação o anjo Gabriel tinha falado a Maria da gravidez de Isabel (cf. Lc 1,36) como prova do poder de Deus. A esterilidade, não obstante ela fosse idosa, tinha-se transformado em fertilidade. E Isabel, acolhendo Maria, reconhece que nela está para se realizar a promessa de Deus à humanidade e exclama: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (v. 42). São palavras que aparecem no Antigo Testamento, mais precisamente no Cântico de Débora (cf. Jz 5,24) para celebrar Jael, a mulher que, apesar da sua fragilidade, foi o instrumento de Deus para libertar o Povo de Israel das mãos de Sísara, um cruel comandante do exército que tencionava decepar os Israelitas.

Algo incomum para uma mulher, olhando o contexto da época.  Com isto, observa-se que Deus pode usar de instrumentos frágeis para operar maravilhas.  Aplicando a Maria, pode-se também constatar que Deus uma vez mais usa instrumentos simples para realizar suas obras de salvação.  Através de Maria ele realizou um marcante acontecimento histórico: deu à humanidade o seu próprio Filho. Através do anjo Gabriel, Deus dirige-se a Maria e a escolhe para gerar o Salvador do mundo.

A manifestação de alegria de João Batista no seio de sua mãe Santa Isabel, é o sinal do cumprimento da expectativa: Deus está para visitar o seu povo. Isabel interpreta este movimento que ela experimenta como um sinal divino e como uma saudação de seu filho ao filho de Maria.  Em sua alegria, Isabel ainda ressalta a posição privilegiada de sua parenta dizendo: “…e bendito é o fruto do teu ventre” (v. 42).  Ao fruto do ventre de Maria, Isabel chama de Kyrios mou: “Meu Senhor” (v. 43).  No uso do título Kyrios Jesus é reconhecido como Deus, e como o seu Deus.  Maria também é apresentada como a mulher de fé (v. 45), porque acreditou na veracidade e na fidelidade da promessa de Deus.

No texto evangélico temos a exaltação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (v. 43).  Davi pronunciou uma frase semelhante a esta: “Como pode estar a Arca do Senhor em minha casa?” (2Sm 6,9). A Arca continha as tábuas da Lei, o maná e o cajado de Aarão (cf. Hb 9, 4), era o sinal da presença de Deus no meio do seu povo. João Batista, ainda para nascer, exulta de alegria diante de Maria, a nova Arca da nova Aliança, que traz no seio Jesus, o Filho de Deus feito homem.

Outro detalhe significativo nos põe em paralelo com a visita de Maria e a Arca da Aliança.  Maria, bem como a Arca, permanecem durante três meses em uma casa da Judéia.  A Arca é recebida com danças, com gritos de alegria, com hinos festivos e é portadora de bênçãos para a família que a recebe (cf. 2Sm 6,10-11) e Maria, ao entrar na casa de Zacarias, faz pular de alegria João Batista, o menino que está no seio de Isabel e representa o povo do Antigo Testamento, que está à espera do Messias.  Com isto, fica evidente que Maria é a nova Arca da Aliança, como entoamos na Ladainha de Nossa Senhora.

A cena da Visitação expressa também que Jesus é o Deus que vem ao encontro da humanidade e tem uma mensagem de salvação que concretiza as promessas feitas pelo Senhor aos antepassados; logo, a presença de Jesus provoca a alegria em todos aqueles que esperam a concretização das promessas de Deus que se realizam com sua chegada. Promessas de um mundo de justiça, amor, paz e felicidade para todos.  Por isto, dirá o anjo aos pastores: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).  Através de Jesus, Deus vai oferecer a paz e a salvação a todos e isso gera alegria, por parte de todos aqueles que anseiam pela concretização das suas promessas.

Finalmente, temos a resposta de Maria: “A minha alma engrandece o Senhor”. A resposta de Maria retoma um salmo de ação de graças (cf. Sl 34,4), destinado a dar graças ao Senhor porque protege os humildes e os salva, apesar da prepotência dos opressores. É um salmo de esperança e de confiança, que exalta a preocupação de Deus para com os pobres, vítimas da injustiça e da opressão. Sugere-se, claramente, que a presença de Jesus, através dessa mulher simples e frágil que é Maria, é um sinal do amor de Deus, preocupado em trazer a salvação a todos os que são vítimas da injustiça. Com Jesus, chegou esse novo tempo de paz e de felicidade anunciado pelos profetas.

Com a celebração do Santo Natal já próximo, devemos nos preparar para o encontro com Jesus, o Emanuel, Deus conosco. Nascido na pobreza de Belém, Ele deseja fazer-se companheiro de viagem de todos. O dom surpreendente do Natal é precisamente este: Jesus veio para cada um de nós e nele nos tornamos irmãos. Estejamos preparados espiritualmente para receber o Menino Jesus. Ele vem para nós. É seu desejo vir para habitar no nosso coração. Para que isso aconteça é indispensável que estejamos disponíveis e nos preparemos para recebê-lo, prontos a dar-lhe espaço dentro de nós, nas nossas famílias, na nossa cidade. Que seu nascimento nos encontre preparados para festejar o Natal.  Com a consciência de que é Ele o protagonista da fé.

Neste tempo de Natal saibamos imitar Maria, e com a mesma alegria e disposição que a levou a ir às pressas para estar com Isabel (cf. Lc 1,39), possamos nós também ir ao encontro do Senhor que vem.  À Maria, Arca da Nova e Eterna Aliança, confiemos o nosso coração, para que o torne digno de acolher a visita de Deus no mistério do seu Natal.

Que o Senhor encontre um abrigo no nosso coração e na nossa vida. Na verdade, não devemos apenas levá-lo no coração, devemos também levá-lo ao mundo, de forma que também nós possamos gerar Cristo para as pessoas do nosso tempo.   Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO – C – Alegrai-vos sempre no Senhor!

Lc 3,10-18

Caros irmãos e irmãs,

Neste terceiro Domingo de Advento, conhecido como domingo “Gaudete”, a Liturgia da Palavra nos convida à alegria. O Advento é um tempo de compromisso e de conversão, para preparar a vinda do Senhor, mas a Igreja nos faz antecipar o júbilo do Natal já próximo. Como de fato, o Advento é também tempo de alegria, porque desperta nos corações dos fiéis a expectativa da vinda do Salvador. Este aspecto jubiloso está presente nas leituras bíblicas deste Domingo, bem como o tema da conversão em vista da manifestação do Salvador, anunciado por João Batista.

O convite do Apóstolo São Paulo aos fiéis de Tessalônica: “Irmãos, andai sempre alegres” (1Ts 5,16), exprime bem o clima litúrgico deste domingo “Gaudete”, expressão oriunda da palavra latina com que começa o canto de entrada da Santa Missa, segundo o gradual monástico: “Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete…” é uma exortação feita por São Paulo aos Filipenses, mas também endereçada a cada um de nós: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: Alegrai-vos…” (Fl 4,4-5). O tema da alegria aparece ainda como uma súplica ao Senhor na oração da coleta: “…daí chegarmos às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”.

E neste cenário de alegria e festa é que somos conduzidos ao encontro com o Senhor que está para chegar. Ele vem para dar uma vida nova ao seu povo e nos conduzir à terra prometida. Alegria porque também muito em breve estaremos celebrando o Natal do Senhor! Uma celebração que, por si só, nos remete à alegria, já manifestada no momento da anunciação do anjo a Maria: “Alegra-te, cheia de graça, porque o Senhor está contigo”. A causa da alegria em Maria é a proximidade de Deus. E João Batista, ainda não nascido, saltará de alegria no seio de Isabel ante a proximidade do Menino Jesus, o Messias que está para chegar.

O anjo dirá aos pastores, homens simples que vigiavam o rebanho durante a noite: “Eu vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10). E acrescenta: “Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor”. O Salvador que esperavam era o Messias. Para eles o anúncio do nascimento do Salvador foi causa de alegria. Em meio a tantas luzes que dissipam as trevas, podemos também lembrar de outra passagem do livro do profeta Isaias que disse: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1). E exulta de alegria ao anunciar: “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado” (Is 9,5).

Já na primeira Leitura temos um convite insistente à alegria. O trecho começa com esta expressão: “Alegra-te, filha de Sião! …Exulta e rejubila-te com todo o teu coração, filha de Jerusalém!” (Sf 3,14), que é semelhante à do anúncio do anjo a Maria: “Ave, cheia de graça!” (Lc 1,26). O motivo pelo qual a filha de Sião pode exultar é este: “O Senhor, está no meio de ti” (Sf 3,15.17). O profeta Sofonias deixa entender que esta alegria é recíproca: somos convidados a alegrar-nos, mas também o Senhor se rejubila pela sua relação conosco; com efeito, o profeta escreve: “Ele rejubila-se por causa de ti, e renova-te o seu amor e exulta de alegria por ti” (v. 17).

A alegria que é prometida neste texto tem o seu cumprimento em Jesus, que se encontra no seio de Maria, a “Filha de Sião”, e assim estabelece a sua morada no meio de nós (cf. Jo 1,14). Com efeito, vindo ao mundo Ele nos concede a sua alegria, como Ele mesmo confia aos seus discípulos: “Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). O amor de Deus por nós não só perdoa as nossas faltas, mas provoca a conversão, nos transforma e nos renova. Daí o convite à alegria: Deus está no meio de nós, nos ama, e, apesar de tudo, insiste em fazer caminho conosco.

O Evangelho vem na sequência daquele que refletimos no domingo passado: o profeta João Batista indica, com pormenores concretos, como proceder para percorrer esse caminho de conversão e preparar a vinda do Senhor. A primeira parte do Evangelho (v. 10-14), nos apresenta uma pergunta: “O que devemos fazer?”. Sugere uma abertura à proposta de salvação que vem de Deus. João Batista propõe, então, três atitudes concretas para quem quer fazer a experiência de conversão e de encontro com o Senhor. Recomenda a sensibilidade às necessidades de quem nada tem e a partilha dos bens; aos publicanos, pede que não explorem, que não se deixem convencer por esquemas de enriquecimento ilícito, que não despojem ilegalmente os mais pobres; aos soldados, pede que não usem de violência, que não abusem do seu poder contra fracos e indefesos. João Batista põe em relevo os “crimes contra o irmão”: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um crime contra Deus; quem o comete, fecha o seu coração e a sua vida à proposta de salvação que Cristo veio trazer.

Na segunda parte do Evangelho (v. 15-18), João Batista anuncia a chegada do batismo no Espírito Santo, contraposto ao batismo “na água” realizado por João, que é apenas uma proposta de conversão; mas o batismo ministrado por Jesus consiste em receber essa vida de Deus que atua no coração do homem, transforma o homem velho em homem novo, capaz de partilhar a vida e amar como Jesus. Faz-se, aqui, referência a essa transformação que Cristo operará no coração de todos os que estão dispostos a acolher a sua proposta. Começará, para eles, uma nova vida, uma vida purificada, uma vida de onde o pecado e o egoísmo foram eliminados, uma vida segundo Deus.

João Batista indica que devemos seguir o Cristo com fidelidade e coragem. E proclama com determinação: “Eu batizo-vos com a água, mas eis que virá Outro, mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias” (v. 16). Observamos a grande humildade de João, ao reconhecer que a sua missão consiste em preparar o caminho para Jesus. Afirmando “Eu batizo-vos com a água”, quer dar a entender que a sua unção é simbólica. Com efeito, ele não pode eliminar nem perdoar os pecados: batizando com a água, ele só pode indicar que é necessário mudar de vida.

Esta é a razão pela qual podemos prosseguir nosso itinerário com alegria, como nos exortou a fazer o apóstolo Paulo, porque a nossa salvação já está próxima. O Senhor vem! Com esta consciência empreendemos o itinerário do Advento, nos preparando para celebrar com fé o extraordinário acontecimento do Natal do Senhor. Vigilantes na oração, procuremos também preparar o nosso coração para acolher o Salvador que virá para nos mostrar a sua misericórdia e para nos doar a salvação.

Esta vinda de Deus, que se fez menino e nosso irmão, para permanecer conosco e compartilhar a nossa condição humana, se traduz em alegria. Somos chamados à alegria por estar se aproximando a sua chegada. Ele está próximo e em breve o Cristo estará conosco no Natal. Só o pecado nos afasta dele, porém, mesmo quando nos afastamos, Ele não deixa de nos amar e continua próximo de nós com a sua misericórdia e disponibilidade a perdoar e nos acolher no seu amor. E este já é um grande motivo de alegria: saber que o Senhor está sempre conosco.

Efetivamente, a alegria só é completa quando reconhecemos a sua misericórdia, quando nos tornamos atentos aos sinais da sua bondade e realmente sentimos que esta bondade de Deus está conosco, e agradecemos aquilo que recebemos dele todos os dias.

Como foi possível constatar, a liturgia deste dia nos exorta à alegria, mas também nos exorta à conversão. Abramos o nosso espírito a este convite; corramos ao encontro do Senhor que vem, invocando e imitando a Virgem Maria que, silenciosa e orante, esperou e preparou a Natividade do Redentor, que vem ao mundo para nos proporcionar a alegria e a paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II domingo do tempo do advento – C – Preparai os caminhos do senhor!

Lc 3,1-6

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo do advento, a Liturgia da Palavra nos faz um apelo à conversão, à renovação, no sentido de eliminar todos os obstáculos que impedem a chegada do Senhor ao nosso mundo e ao coração dos homens. Esta missão é uma exigência que é feita a todos os batizados, chamados a dar testemunho da salvação que Jesus Cristo veio trazer.

Lançando inicialmente um olhar para a primeira leitura, retirada do livro do Profeta Baruc, seu conteúdo sugere que o “caminho” de conversão é um verdadeiro êxodo da terra da escravidão para a terra da felicidade e da liberdade. Durante o percurso, somos convidados a despir-nos de todas as cadeias que nos impedem de acolher a proposta de uma vida nova que Deus nos faz. Somos convidados a viver este tempo numa serena alegria, confiantes no Senhor que não desiste de nos apresentar uma proposta de salvação, apesar dos nossos erros e dificuldades.

A reflexão sobre este texto pode ser feita lembrando que o advento é um tempo favorável, que nos possibilita sair da terra da escravidão para a terra da liberdade. Neste tempo somos especialmente confrontados com as cadeias que ainda nos prendem e somos convidados a percorrer um novo caminho de regresso à cidade nova da alegria e da paz. Uma das frases da Primeira Leitura nos diz: “Vê os teus filhos… estão cheios de alegria porque Deus se lembrou deles” (Br 5,5). E é exatamente nesta atmosfera de alegria e de confiança serena na ação salvadora do nosso Deus que somos convidados a viver este tempo de mudança e a preparar a vinda do Senhor.

O Evangelho apresenta o profeta João Batista, a nos convidar a uma transformação total quanto à forma de pensar e de agir, quanto aos valores e às prioridades da vida. Para que Jesus possa caminhar ao encontro da humanidade é necessário que os corações estejam livres e disponíveis para acolher a Boa Nova do Reino. É esta missão profética que Deus continua, hoje, a confiar-nos.

Antes de começar a descrever a ação salvadora de Jesus no meio dos homens, São Lucas vai apresentar João Batista, o profeta que veio preparar a chegada do Messias de Deus. O evangelista começa por situar o quadro de João Batista num determinado enquadramento histórico. Nomeia 7 personagens, desde o imperador Tibério César, até ao sumo sacerdote Caifás, num esforço de situar no tempo os acontecimentos da salvação. É uma história concreta, com acontecimentos concretos, que podem ser ligados a um determinado momento histórico vivido. A figura de João Batista aparece como “uma voz que grita no deserto” a exortar-nos a preparar os caminhos do coração para que o Cristo Jesus possa ir ao encontro de cada homem.

E o evangelista São Lucas situa num espaço geográfico a atividade profética de João: ele prega em “toda a região do rio Jordão”. Trata-se de uma região bastante povoada, sobretudo depois das construções de Herodes e de Arquelau. O anúncio profético de João destina-se aos homens, que são convidados a acolher o Messias que está para fazer a sua aparição no mundo. Finalmente, concretiza-se o âmbito da missão: João “proclama um batismo de conversão, para a remissão dos pecados”. Para acolher o Messias que está para chegar, é necessário um processo de conversão que leve a um rever a vida, as prioridades, os valores; pois somente nos corações verdadeiramente transformados, o Messias encontrará lugar.

Provavelmente o batismo administrado por João era o batismo de imersão na água, um rito comum na cultura judaica. Significava a morte a um passado que ficava simbolicamente sepultado na água. Utilizava-se no âmbito civil para indicar, por exemplo, a emancipação do escravo; e, no religioso, para a conversão do recém-convertido, indicando o início de uma nova vida, ou seja, a mudança de vida: o passado de injustiça e de erros fica sepultado.

Devemos distinguir entre a figura externa e a mensagem de João. Ele se apresentava vestido como um dos antigos profetas, especialmente Isaías (cf. 2Rs 1, 8). Vestia uma túnica de pele e a amarrava com um cinto. Esta forma de vestir foi copiada pelos outros profetas. A vestimenta externa de João era um tecido de pelos de camelo, o mesmo com o qual se teciam as lonas das tendas dos nômades do deserto. Servia de proteção contra os raios solares e, como capa, o protegia da chuva. Além dessa veste extremamente rústica, havia na vida de João um outro detalhe que chamava a atenção das multidões, sua comida: gafanhotos e mel silvestre. Tudo indicava a austeridade de João e sua independência dos homens, de modo a depender unicamente de Deus.
Enquanto prosseguimos o caminho do Advento, enquanto nos preparamos para celebrar o Natal de Cristo, ressoa também em nós esta chamada de João Batista à conversão: “Arrependei-vos, dizia, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3,1-2). É um convite urgente a abrir o coração e a acolher o Filho de Deus que vem entre nós. O Pai, escreve o evangelista João, não julga ninguém, mas confiou ao Filho o poder de julgar, porque é Filho do homem (cf. Jo 5, 22.27). E é hoje, no presente, que se decide o nosso destino futuro; é com o comportamento concreto que temos nesta vida que decidimos o nosso destino eterno. No findar dos nossos dias na terra, no momento da morte, seremos avaliados com base na nossa semelhança ou não com o Menino que está para nascer na pobre gruta de Belém, porque é Ele o critério de medida que Deus deu à humanidade. O Pai celeste que no nascimento do seu Filho Unigênito nos manifestou o seu amor misericordioso, nos chama a seguir os seus passos fazendo da nossa existência um dom de amor.
Mediante o Evangelho, João Batista continua a falar através dos séculos, a cada geração. As suas palavras claras e duras ressoam também para os homens e as mulheres do nosso tempo. A “voz” do grande profeta pede que preparemos o caminho ao Senhor que vem, nos desertos de hoje, desertos exteriores e interiores, sequiosos da água viva que é Cristo.
João Batista, portanto, tem um grande papel a desempenhar, mas sempre em função de Cristo. Quanto a nós, hoje temos a tarefa de ouvir aquela voz para conceder a Jesus, Palavra que nos salva, espaço e acolhimento no coração. Neste Tempo de Advento, preparemo-nos para ver, com os olhos da fé, na Gruta humilde de Belém, a salvação de Deus (cf. Lc 3,6).
Escutemos o convite de Jesus no Evangelho e nos preparemos para reviver com fé o mistério do nascimento do Redentor, que encheu o universo de alegria; preparemo-nos para acolher o Senhor no seu incessante vir ao nosso encontro nos acontecimentos da vida, na alegria ou no sofrimento, na saúde ou na doença; preparemo-nos para encontrá-lo na sua vinda última e definitiva.

Continuemos o nosso caminho ao encontro do Senhor que vem, permanecendo prontos para o receber no coração e na vida inteira, o Emanuel, o Deus que vem habitar conosco. Confortados pela sua palavra, invoquemos a proteção materna de Maria, Virgem da esperança, que ela nos guie a uma verdadeira conversão interior, para que possamos sintonizar os nossos pensamentos e ações com a mensagem do Evangelho, e assim possamos preparar dignamente a vinda do Senhor que está para chegar. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ