XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – O verdadeiro pão do céu

Jo 6,24-35

Caros irmãos e irmãs

A liturgia da Palavra deste domingo nos apresenta como primeira leitura um texto do Livro do Êxodo, onde temos uma das grandes questões do Pentateuco: a marcha pelo deserto, e faz lembrar que Deus acompanha o seu povo rumo à Terra Prometida e o alimenta com o pão necessário à vida (cf. Ex 16,2-4.12-15). O episódio começa com a murmuração do povo “contra Moisés e contra Aarão” (v. 2), que lembra do tempo em que passou no Egito e que comia “pão com fartura” (v. 3). A resposta de Deus é “fazer chover pão do céu” (v. 4) e dar ao seu povo o alimento em abundância (v. 12). O objetivo não é só satisfazer as necessidades materiais do povo, mas se revelar a eles como o Deus da bondade e do amor, que cuida e caminha com todos.

O texto evangélico nos faz lançar um olhar retrospectivo para as leituras do último domingo, quando Jesus alimentou a multidão com cinco pães e dois peixes, na outra margem do Lago de Tiberíades (cf. Jo 6,1-15). O texto bíblico nos diz que, ao cair da tarde desse dia, Jesus e os discípulos voltaram a Cafarnaum (cf. Jo 6,16-21). O episódio evangélico deste domingo sequencia o mesmo tema e nos situa no dia seguinte ao da multiplicação dos pães e dos peixes. A multidão que tinha sido alimentada pelos pães e pelos peixes ainda estava do outro lado do lago e ao notar que Jesus tinha regressado a Cafarnaum, dirigiu-se ao seu encontro. Confrontado com a multidão, Jesus profere um discurso onde explica o sentido do gesto precedente que havia realizado: a multiplicação dos pães e dos peixes; e nos ensina que é preciso esforçar-se por conseguir, não só o alimento que mata a fome física, mas, sobretudo, o alimento que sacia a fome de vida. Ao preocupar-se apenas com o alimento material, esquecem o essencial: o alimento que dá a vida definitiva. Esse alimento que dá a vida eterna é o próprio Jesus que o traz (v. 27).

Nesta passagem evangélica Jesus diz: “O meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu” (v. 32). A Eucaristia é, então, dom do Pai, um dom que prolonga o da encarnação: Deus tanto amou o mundo, que deu a nós na encarnação, e continua a dar na Eucaristia, o seu Filho unigênito (cf. Jo 3,16). A Eucaristia vem, pois, do Pai. Mas o mais importante é que a Eucaristia nos conduz ao Pai. Quem se alimenta do pão que é Jesus, ou seja, quem nele crê, tem a vida eterna, porque se predispõe a fazer sempre a vontade de Deus.

A vida que vem a nós na Eucaristia é a vida que tem como fonte e princípio o Pai e que, através de Jesus Cristo, se derramou sobre o mundo, pois o próprio Jesus nos diz: “Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim” (Jo 6,57). No momento da apresentação das oferendas, dirigindo-se a Deus Pai, diz o Sacerdote: “Bendito sejais, Senhor, Deus do Universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade. Fruto da terra e do trabalho humano que agora Vos apresentamos e para nós vai se tornar o Pão vida”. É significativo constatarmos que o pão que recebemos é fruto da bondade de Deus. Mas o pão que oferecemos é também o pão que recebemos, a Eucaristia.

Na liturgia da missa, isso é posto em evidência pelo fato de que tudo se dirige ao Pai. A Oração Eucarística, pronunciada pelo sacerdote, é um diálogo em que a Igreja, corroborada pelo Espírito Santo, por meio de Jesus, está voltada para Deus. O fato de que esse Sacramento tenha assumido o nome “Eucaristia”, que quer dizer “Ação de Graças”, expressa precisamente isto: que a transformação da substância do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo é fruto do dom que Cristo fez de si mesmo, dom de um amor mais forte do que a morte. Por esta razão a Eucaristia é o alimento de vida eterna, Pão da vida. Tudo procede de Deus, da onipotência do seu amor Uno e Trino.

A palavra “comunhão”, que usamos também para designar a Eucaristia, resume em si as dimensões vertical e horizontal do dom de Cristo. Quando recebemos a comunhão, expressão referida ao gesto de comer o Pão eucarístico, entramos em comunhão com a própria vida de Jesus, no dinamismo desta vida que se doa a nós e por nós. Santo Agostinho nos ajuda a compreender a dinâmica da comunhão eucarística quando faz referência a uma espécie de visão que teve, na qual Jesus lhe disse: “Eu sou o alimento dos fortes. Cresce e receber-me-ás. Tu não me transformarás em ti, como o alimento do corpo, mas és tu que serás transformado em mim” (S. AGOSTINHO, Confissões VII, 10, 18).

Portanto, enquanto o alimento corporal é assimilado pelo nosso organismo e contribui para o seu sustento, no caso da Eucaristia trata-se de um Pão diferente: não somos nós que o assimilamos, mas é ele que nos assimila a si, de tal modo que nos tornamos membros do corpo de Jesus Cristo, um só com ele. É o próprio Cristo que, na comunhão eucarística, nos transforma em si. Assim a Eucaristia, enquanto nos une a Cristo, nos abre também aos outros, tornando-nos membros uns dos outros (cf. BENTO PP XVI, Homilia, quinta-feira, 23 de junho de 2011).

O caminho que percorremos nesta terra é sempre um caminho marcado pela procura da nossa realização, da nossa felicidade. Temos fome de vida, de amor, de paz, de esperança, de transcendência e procuramos, de muitos modos, saciar essa fome; mas continuamos sempre insatisfeitos, tropeçando nos nossos erros, em tentativas falhas de realização, em propostas que parecem sedutoras, mas que só geram escravidão e dependência. Precisamos ter consciência de que só em Cristo Jesus podemos encontrar o “pão” que mata a nossa fome de vida. Só em Cristo podemos ser homens novos, como nos diz São Paulo na segunda leitura (cf. Ef 17,20-24). Ele é o “pão” enviado por Deus para dar a vida ao mundo. É esta a questão central que o Evangelho deste domingo nos propõe.

Mas para termos acesso a esse “pão” que desce do céu para dar a vida ao mundo precisamos aderir a Jesus e escutar o seu chamamento, acolher a sua Palavra, assumir e interiorizar os seus valores, segui-lo como. A nossa adesão a Jesus deve partir de uma profunda convicção de que só Ele é o “pão” que nos dá a vida.

O ápice da passagem do evangelho deste domingo está nesta frase: “Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu” (v. 32). Jesus é um pão sobre o qual o Pai imprimiu o seu sinal. Com isto, ao recordarmos a peregrinação de Israel durante os quarenta anos no deserto, quando o Senhor fez cair do céu o pão como alimento, como vimos na primeira leitura, devemos ter sempre consciência de que a Hóstia Sagrada é, hoje, o nosso maná com o qual o Senhor nos alimenta; é verdadeiramente o pão do céu, mediante o qual ele se doa a si mesmo por cada um de nós. Saibamos redescobrir a beleza e o significado do Sacramento da Eucaristia, onde recebemos o próprio Cristo que deseja estar sempre conosco.

E por feliz coincidência, hoje a Igreja nos faz lembrar o dia do padre. E é precisamente na Eucaristia que se encontra o segredo da nossa santificação, mas, sobretudo, da santificação de cada sacerdote. Em virtude da sagrada ordenação, o presbítero recebe a dádiva e o compromisso de repetir sacramentalmente os gestos e as palavras com que Jesus instituiu na última Ceia o Sacramento da Eucaristia. Nas mãos de cada sacerdote renova-se este grande milagre de amor, do qual ele é chamado a tornar-se uma testemunha e um anunciador cada vez mais fiel (cf. MND, 30). Sabemos que a validade do Sacramento não depende da santidade do celebrante, mas a sua eficácia, para ele mesmo e para os outros, será tanto maior quanto mais ele o viver com fé profunda, amor ardente e fervoroso espírito de oração.

Muitos sacerdotes tornaram-se exemplos de santidade, de fé e de devoção à Eucaristia; dentre tantos, podemos citar São João Maria Vianney, cujo dia celebramos aos 4 de agosto. Foi ele um humilde pároco de Ars, na França. Mediante a santidade de vida e o zelo pastoral, ele conseguiu fazer daquele pequeno povoado um modelo de comunidade cristã, animada pela Palavra de Deus e pelos Sacramentos. Peçamos a sua intercessão por cada sacerdote, para que saibam viver e dar testemunho deste Mistério da fé que é depositado em suas mãos para a salvação do mundo. Interceda também por cada um de nós a Virgem Maria, ela que ofereceu ao mundo o Pão da vida, nos ensine a viver sempre em profunda união com ele. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – A multiplicação dos pães

Jo 6,1-15

Meus caros irmãos e irmãs,

A partir deste domingo, a liturgia interrompe a leitura do Evangelho de São Marcos e intercala um longo trecho do Evangelho de São João, que contém a narrativa da multiplicação dos pães e o discurso eucarístico de Jesus na sinagoga de Cafarnaum (cf. Jo 6). Tudo isto tem seu motivo prático: o Evangelho de São Marcos é o mais breve de todos e não chega a preencher todo o ano litúrgico e, por isso, é integrado com o Evangelho de São João, que não é lido no ciclo dos anos litúrgicos. O importante é que, durante quatro domingos teremos a oportunidade de desenvolver uma catequese sobre o Sacramento da Eucaristia.

Iniciemos a nossa reflexão tendo como referência o texto da primeira leitura que nos é proposto para este domingo (cf. 2Rs 4,42-44), em que nos é dito que um homem de Baal trouxe a Eliseu o pão das primícias: vinte pães de cevada e trigo novo que deviam ser apresentados diante do Senhor, a quem deveriam ser consagrados para depois serem revertidos em benefício do sacerdote (cf. Lv 23,20). Ao ser entregue a Eliseu, ele, no entanto, não conservou os dons para si, mas mandou reparti-los. O servo do profeta não acreditava que os alimentos oferecidos chegassem para cem pessoas; no entanto, ainda sobraram. A descrição de uma milagrosa multiplicação de pães de cevada e de grãos de trigo sugere que, quando o homem é capaz de partilhar os dons recebidos de Deus, esses dons chegam para todos e ainda sobram.

No Evangelho o mesmo tema se repete. Jesus, o Deus que veio ao encontro dos homens, percebe a “fome” da multidão que o segue e propõe saciá-la. Aos discípulos, aqueles que vão continuar até ao fim dos tempos a mesma missão que o Pai lhe confiou, Jesus os convida a assumirem o dom da partilha, concretizada na distribuição do pão. A multidão que segue Jesus tem fome e não tem o que comer (vv. 5-6). Esta referência nos leva ao Livro do Êxodo quando, no deserto, o Povo que caminhava para a terra prometida sentiu fome (cf. Ex 16,4ss).

Ao procurar uma solução para saciar a fome dos que ouviam a sua Palavra, Jesus envolve os seus próprios discípulos e ouve a pergunta: “Onde haveremos de comprar pão para lhes dar de comer?” (v. 5). O Evangelista São João nota que Jesus põe a questão aos discípulos, representados por Filipe, para os “experimentar” (v. 6). Filipe constata a impossibilidade de resolver o problema, dentro do quadro econômico vigente: “Duzentos denários não bastariam para dar um pedaço a cada um” (v. 7). O denário era uma moeda de prata da época romana e tinha o valor de uma dracma, o salário diário de um trabalhador no tempo de Jesus (cf. Mt 20,2.9.13). Então Deus respondeu à necessidade do Povo e lhe deu comida em abundância. Os discípulos raciocinam em termos financeiros, mas Jesus procura dar ênfase à partilha.

André, porém, apresenta uma solução: “Há aqui um menino, que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos” (v. 9). No entanto, o próprio Apóstolo André não está convicto dos resultados, quando completa: “Mas o que é isso para tantas pessoas?” A figura do “menino”, anônimo, é significativa: quer pela idade, quer pela condição, pois trata-se de alguém ainda frágil em sua estrutura física e também social.

Jesus ordena aos discípulos que façam sentar aquela multidão, em seguida ele tomou aqueles pães e peixes, deu graças ao Pai e distribuiu-os, como nos relata o Evangelho: “Tomou os pães e deu graças. Em seguida, distribuiu-os a quantos estavam sentados” (Jo 6,11). As palavras pronunciadas por Jesus sobre o pão, que é compartilhado, junto com a ação de graças, são paralelas às palavras da Última Ceia e evocam a Eucaristia, o Sacrifício de Cristo para a salvação do mundo. A palavra “Eucaristia” quer dizer “Ação de Graças” e é o grande encontro permanente do homem com Deus, em que ele mesmo se faz nosso alimento e se oferece a si próprio para nos transformar nele mesmo.

Os pães e os peixes foram sendo distribuídos fartamente, sinal da bondade de Deus, operada pelas mãos de Jesus. A multidão fica admirada com o prodígio da multiplicação dos pães; mas o dom que Jesus oferece é a plenitude de vida para o homem faminto. Jesus sacia não só a fome material, mas aquela mais profunda, a fome do sentido da vida, a fome de Deus.

Na cena, a atitude do menino tem uma especial relevância. Diante da dificuldade de alimentar tantas pessoas, põe ele em comum o pouco de que dispõe: cinco pães e dois peixes (v.8). O milagre se realiza a partir de uma primeira partilha modesta daquilo que um simples menino possuía.

O final do relato também tem algo a nos dizer. Quando todos se saciaram, Jesus ordenou: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca. Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido” (v. 12-13). O número doze era o número dos apóstolos e era o símbolo da universalidade dos bens de Deus. A recomendação de Jesus para recolher os pedaços que sobraram indica que é aos Apóstolos e aos sacerdotes que Jesus incumbiu esta missão de conservar como o maior tesouro sobre a terra, a divina Eucaristia, e de levá-la aos doentes, por isto chamamos de reserva eucarística. E, quanto aos fiéis, devem conservar religiosamente os frutos e as graças da comunhão recebida.

Na Oração do Pai Nosso, em sua segunda parte, o próprio Senhor Jesus nos ensina a pedir: “O pão nosso de cada dia dai-nos hoje”. O Pai, que nos dá a vida, não pode deixar de nos dar o alimento necessário à vida. Este pedido de pão que fazemos na Oração do Pai Nosso não pode ser isolado de uma frase dita por Jesus na parábola do Juízo Final: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35). Mas, devemos também lembrar que “o homem não vive apenas de pão, mas de tudo aquilo que procede da boca de Deus” (Dt 8,3; Mt 4,4). Há também na terra não apenas a fome de pão, mas também a fome de ouvir a palavra de Deus (cf. Am 8,11).

Assim, devemos lembrar também da palavra de Deus a ser acolhida na fé, e do Corpo de Cristo a ser recebido na Eucaristia. A Eucaristia deveria ser também o nosso Pão quotidiano. No milagre da multiplicação dos pães, quando o Senhor proferiu a bênção, partiu e distribuiu os pães através dos seus discípulos para alimentar a multidão, o que prefigura a superabundância deste único pão da sua Eucaristia.

Que a nossa oração ampare o compromisso comum para que nunca falte a ninguém o Pão do céu que dá vida eterna e o necessário para uma vida digna e se afirme a lógica da partilha e do amor. Que o Senhor nos faça redescobrir a importância de nos alimentarmos não só de pão, mas de verdade, de amor, de Cristo, do corpo de Cristo, participando fielmente e com grande consciência na Eucaristia, para estarmos cada vez mais intimamente unidos a ele.

Peçamos também ao Senhor que nos conceda ouvidos atentos de discípulos para acolher e transmitir a sua Palavra e que tenhamos sempre fome do verdadeiro Pão, que é a Eucaristia, e que ela seja vivificante para cada um de nós. A Virgem Maria nos acompanhe com a sua materna intercessão e venha em nosso auxílio para que o nosso coração esteja sempre aberto à compaixão pelo próximo e à partilha fraterna dos dons que possuímos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – Eram como ovelhas sem pastor…

Mc 6,30-34

Caros irmãos e irmãs,

 O Evangelho deste domingo nos recorda que, depois da experiência da missão, os Apóstolos voltaram felizes, mas também cansados. E Jesus deseja dar a eles um pouco de descanso; então, retira-se com eles para um lugar deserto, a fim de que possam repousar. O texto ressalta: “Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer. Então foram sozinhos, de barco, para um lugar deserto e afastado. Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles. Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6,31-34).

Este texto evangélico nos mostra uma cena simples, mas bem sugestiva, que nos faz voltar a atenção para a figura do pastor. Inicialmente, Jesus convida seus discípulos a separar-se da multidão, do seu trabalho, para se retirar com ele a “um lugar deserto”. Ele convida os seus discípulos para um lugar solitário para um descanso e também para oração. O deserto, em muitas páginas da Sagrada Escritura, é apresentado como o local onde Deus fala ao seu povo. Com isto, Jesus também ensina aos seus discípulos sobre a necessidade de fazer um equilíbrio entre a ação e a contemplação, passar do contato com as pessoas ao diálogo secreto e regenerador consigo mesmo e com Deus.

A vida de apostolado deve ter, periodicamente, momentos para uma necessária revisão de vida, para estabelecer novos planos e para alimentar as forças espirituais na oração e na comunhão fraterna. Ao lado do trabalho missionário, é indispensável o recolhimento e a meditação. Esta é a razão dos retiros espirituais. As pessoas que se dedicam ao apostolado, além da oração e atos de piedade diários, necessitam de algum tempo especial para cuidar da própria santificação.

Todos devem ir a um lugar solitário, para estar com o Cristo e para usufruir da sua presença. Por vezes, mergulhamos em um ativismo descontrolado e podemos perder as referências; por esta razão, devemos sempre ter o tempo e a disponibilidade para um encontro pessoal com Jesus. Estar na companhia de Jesus sempre será a maior de todas as virtudes do homem; portanto, devemos reservar um tempo para estar em unidade com Jesus, pois com ele é possível partilhar os acontecimentos da vida, do trabalho, da missão e então se reabastecer junto ao Mestre dos mestres.

Cada evangelizador, cada sacerdote, perante as múltiplas tarefas a serem realizadas, sempre estará no perigo de se deixar levar pelo ativismo e esquecer que toda a sua atuação só tem o devido valor enquanto está a serviço da sua própria fé e, sem esta fé, somos funcionários da Igreja e não portadores de Deus. Não podemos esquecer que a obra de Deus se realiza através de nós.

Mas, observando o texto evangélico, podemos constatar que Jesus e os seus discípulos não puderam descansar o suficiente naquele dia. Com isto, nota-se que as necessidades das ovelhas estão em primeiro lugar. Diante da multidão desorientada, Jesus sente uma profunda compaixão, pois estava ele diante das “ovelhas sem pastor” (v. 34), um sinal da sua preocupação e do seu amor para com todos. Revela a sua sensibilidade e manifesta a sua solidariedade para com aqueles que necessitam da sua atenção. Esta comoção de Jesus nos convida também a imitá-lo diante das necessidades dos outros que esperam de seus pastores um gesto de bondade, de acolhimento e de atenção: “E começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas…” (v. 34). Pelo seu ensinamento, Jesus quer levar o povo ao conhecimento da verdade e uma vez mais se apresenta como o Bom Pastor, pronto para procurar as ovelhas perdidas e para reuni-las ao seu redor.

Hoje a Igreja, através dos seus ministros, tem uma missão importante: dar sequência a este agir do verdadeiro Pastor, Jesus Cristo. O sacramento da ordem constitui, como presbíteros, homens frágeis e débeis, tornando-os, no meio do povo, em um outro Cristo, em um outro “Bom Pastor”. São eles os diretos colaboradores de Cristo, que também os enviou como servos do Evangelho e pede-lhes que sejam construtores de unidade e ministros de misericórdia. Também cada batizado deve ser um autêntico evangelizador. Para isto, é necessário uma fiel participação na Eucaristia de cada domingo para ouvir os ensinamentos do Senhor. Nota-se, com isto, a importância da pausa dominical, em comunhão com o Senhor, para a recuperação constante das energias espirituais necessárias para superar as dificuldades da vida.

Todos nós somos chamados a anunciar com vigor e alegria o Evangelho, que sempre nos mostra as razões da nossa esperança (cf. 1Pd 3,15). Esta é a nossa missão, como hoje nos recordam os textos bíblicos: sermos anunciadores da palavra de Deus. Uma tarefa que é particularmente urgente para nós. Também hoje muitos andam errantes por este mundo, como ovelhas sem pastor. A esses devemos convidá-los a fazer uma experiência de fé com o Cristo Senhor.

Os que encontraram o Senhor ressuscitado sentiram a necessidade de o anunciar aos outros, como fizeram os dois discípulos de Emaús. Eles, depois de ter reconhecido o Senhor ao partir o pão, partiram imediatamente, voltaram para Jerusalém e encontraram reunidos os onze e contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho (cf. Lc 24,33-35). Esta tarefa não perdeu a sua urgência. Aliás, “a missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, ainda está bem longe do seu pleno cumprimento… uma visão de conjunto da humanidade mostra que tal missão ainda está no começo e que devemos empenhar-nos com todas as forças no seu serviço” (RM, 1).

Continua, como um sempre, atual e urgente convite de Jesus Cristo formulado após a sua ressurreição e antes de subir ao Céu: “Ide, pois, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho ordenado” (Mt 28,19). E acrescentou: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Este mandato confiado aos apóstolos, foi desenvolvido por muitos santos, em especial, por São Paulo, que assumiu como missão este mandato do Cristo. Para São Paulo, somente em Cristo a humanidade pode encontrar a redenção e a esperança. Por isso, sentia urgência em anunciar a todos a promessa de uma vida nova em Jesus Cristo (cf. 2Tm 1,1), a fim de que todos os povos pudessem estar inseridos na mesma herança e tornar-se participantes da promessa por meio do Evangelho (cf. Ef 3,6). Ele estava consciente de que, desprovida de Cristo, a humanidade permanece “sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2,12).

São Paulo nos faz lembrar que anunciar o Evangelho não é um título de glória, a ponto de ele mesmo dizer: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16). No caminho de Damasco, ele tinha experimentado e compreendido que a redenção e a missão são obras de Deus e do seu amor. O amor a Cristo levou São Paulo a percorrer inúmeras cidades e povoados para anunciar a mensagem de Salvação a todos os povos (Ef 6, 20).

Possamos também nós imitar muitos santos que souberam anunciar o Cristo Senhor e experimentaram a presença de Deus na própria vida e souberam anunciá-lo pela Palavra e pelo exemplo. Na verdade, devemos também em oração pedir ao Senhor que suscite em muitos este apelo, pois ele mesmo disse: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe para que mande trabalhadores para a sua messe” (Lc 10,2). Que o Senhor faça aumentar o número de vocações ao sacerdócio e ao trabalho missionário atuando no campo da evangelização.

Peçamos também à Virgem Maria, a quem invocamos como mãe e intercessora, para sejamos autênticos operários da vinha do Senhor e bons anunciadores do Evangelho. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – B: Ide por todo o mundo…

Mc 6,7-13.
Caros irmãos e irmãs,
O Evangelho deste domingo apresenta o primeiro envio em missão dos Doze Apóstolos. Com efeito, o termo “apóstolo” significa, precisamente, “enviados, mandados”. O fato fundamental é que este episódio mostra o começo da missão apostólica, o envio do primeiro grupo de missionários, que se prolongou, sem interrupção, até os nossos dias. Eles são enviados por Deus. Como no Antigo Testamento Deus mandava seus profetas, no Novo Testamento, Jesus, que é o Deus-conosco, manda seus apóstolos. Jesus os envia dois a dois e dá a eles instruções que o Evangelista São Marcos resume em poucas palavras: “Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois; e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos. Ordenou-lhes que não levassem coisa alguma para o caminho, senão somente um bordão; nem pão, nem mochila, nem dinheiro no cinto; que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas” (Mc 6, 7-9).

O texto começa com o relato da iniciativa de Jesus, que chama os Doze, enviando-os para uma missão (v. 7). Todos os Apóstolos foram enviados, sem excluir ninguém, o que vem especificar a urgência de compartilhar com os outros o dom recebido. Uma tarefa reservada não para alguns, mas para todos. O texto também procura enfatizar que a iniciativa do chamamento dos discípulos é de Jesus: Ele “chamou-os” (v. 7). Não há qualquer explicação sobre os critérios que levaram a essa escolha, que depende sempre de Deus. Também no texto temos o número dos discípulos que são enviados: “doze”. Trata-se de um número simbólico, que representa a totalidade do Povo de Deus, do novo Povo de Deus. É a sua totalidade que é enviada em missão, a fim de continuar a obra de Jesus junto aos homens.

É provável que o envio “dois a dois” tenha a ver com o costume judaico de viajar acompanhado, para ter ajuda e apoio em caso de necessidade; pode também pensar-se que esta exigência de partir em missão “dois a dois” tenha a ver com a lei judaica, de acordo com a qual eram necessárias duas testemunhas para dar credibilidade a um anúncio (cf. Dt 19,15; Mt 18,16). Essa exigência sugere também que a evangelização tem sempre uma dimensão comunitária.

Este ato indica ainda o sinal da caridade fraterna em ação, onde ninguém age isoladamente. No auxílio mútuo, ambos encontrarão forças para suportar e vencer as dificuldades e ataques que poderão surgir por causa da mensagem transmitida. Com isto, Jesus indica que, dentre os sinais que devem brilhar na evangelização, sobressai, em primeiro lugar, a caridade fraterna. Os discípulos nunca devem trabalhar sozinhos. Ao enviar os Apóstolos dois a dois, mostra que a missão deve ser iluminada pelo testemunho de mútua unidade e compreensão: “Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

Os Apóstolos devem ir ao encontro de todos, às suas casas e em seus ambientes com uma missão: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (cf. Mc 16,15). E esta é a dimensão universal da tarefa confiada: “Pelo mundo inteiro, a toda a criatura” (Mc 16,15), ao que o evangelista São Lucas completa: “Todos os povos” (Lc 24,47); e que o Livro dos Atos dos Apóstolos sublinha: “até aos confins do mundo” (At 1,8), mostra também a garantia, dada pelo Senhor, de que, nesta tarefa, não ficarão os Apóstolos sozinhos, mas receberão a força e os meios para desenvolver a missão: a força do Espírito Santo e a assistência de Jesus: “Eles, partindo, foram pregar por toda a parte, e o Senhor cooperava com eles” (Mc 16,20).

O Evangelho apresenta ainda outras recomendações aos Apóstolos: Uma só túnica para vestir; um só par de sandálias, um cajado e nada mais. Despojamento absoluto de bens materiais, que significa o desapego, mas, ao mesmo tempo, a confiança na providência de Deus. A preocupação com os bens materiais pode roubar-lhes a liberdade e a disponibilidade para a missão. Por outro lado, essa atitude de pobreza e de despojamento ajudará também os discípulos a perceber que a eficácia da missão não depende da abundância dos bens materiais, mas sim da ação de Deus.

Chama a nossa atenção o fato de Jesus recomendar o cajado, considerado a arma do pobre. Razão pela qual no Evangelho de São Mateus, Jesus proíbe o seu uso (cf. Mt 10,10), pois os seus discípulos devem ser construtores da paz, portanto, devem renunciar a todos os instrumentos que exijam o uso da violência. Contudo, neste trecho do Evangelho de São Marcos, Jesus permite o seu uso, porque este instrumento tem um expressivo significado. É o utensílio que acompanha o profeta itinerante (cf. 2Rs 4,29). No Livro do Êxodo, Moisés e Aarão, em dupla, como bem ressalta o Evangelho deste domingo, usam o cajado para lutar contra as forças do faraó e libertar o povo do Egito. Moisés, usando um cajado, opera prodígios (cf. Ex 7,9-12), estende a mão sobre a nação egípcia e provoca a chegada dos gafanhotos (cf. Ex 10,13), divide o Mar Vermelho (cf. Ex 14,16) e faz jorrar água do rochedo (cf. Ex 17,5). O cajado é o símbolo do poder de Deus.

Em seguida, o texto apresenta a missão que Jesus lhes confiou: “Deu-lhes poder sobre os espíritos imundos” (v.7). Os espíritos imundos ou impuros representam aqui tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de chegar à vida em plenitude. A missão dos discípulos é, pois, lutar contra tudo aquilo que destrói a vida e a felicidade do homem, ou seja, o pecado. O discípulo sente-se convidado a confiar, a ser amigo de Jesus, a compartilhar a sua sorte, a partilhar a sua vida; deve aprender a viver na confiança da amizade de Jesus.

Uma outra instrução refere-se ao comportamento dos discípulos diante da hospitalidade que lhes for oferecida (v.10-11). Quando forem acolhidos numa casa, devem aí permanecer algum tempo, certamente para formar uma comunidade, e não devem saltar de um lugar para o outro, ao sabor das amizades, dos interesses próprios ou alheios ou das suas próprias conveniências pessoais. Quando não forem recebidos num lugar, devem, ao sair, “sacudir o pó dos pés”: trata-se de um gesto que os judeus praticavam quando regressavam do território pagão e que simboliza a renúncia à impureza. Aqui, deve significar o repúdio pelo fechamento às propostas de Deus.

É preciso estarmos atentos para não interpretar mal a frase de Jesus sobre ir sacudindo também o pó dos pés quando não forem recebidos. É testemunho “para” eles, não contra eles, para fazê-los entender que os missionários não estavam com interesses econômicos ou materiais, por isto, não queriam levar nem sequer seu pó. Eles estavam pregando a salvação e, rejeitando-a, eles privavam a si mesmos de um grande bem. A Igreja hoje continua esta missão de anunciar no Evangelho e quer compartilhar o dom recebido, cumprindo o mandato do próprio Cristo: “de graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8).

A outra indicação muito importante do trecho evangélico é que os Doze não podem contentar-se com pregar a conversão: segundo as instruções e o exemplo de Jesus, a pregação deve ser acompanhada da cura dos doentes. Por conseguinte, a missão apostólica deve abranger sempre os dois aspectos de pregação da Palavra de Deus e de manifestação da sua bondade, mediante gestos de caridade, de serviço e de dedicação.

O convite de Jesus a evangelizar foi dirigido em primeiro lugar aos apóstolos, e hoje a seus sucessores, mas não só a eles. Estes devem ser os guias, os animadores dos outros, na missão comum. Peçamos a intercessão da Virgem de Nazaré para cada um de nós, e que possamos responder com generosidade a este chamado do Senhor, para anunciar o seu Evangelho de salvação com as palavras e, antes de tudo, com o nosso testemunho de vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO

Mt 16,13-19

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade litúrgica dos Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja, no linguajar dos santos padres, com dois estilos diferentes para a mesma vocação missionária. Pedro, apóstolo dos judeus, Paulo, dos gentios ou pagãos. Originariamente o primeiro foi um singelo pescador da Galileia; o segundo, um sábio fariseu de Tarso. Tocados por Cristo, tornaram-se grandes difusores da mensagem do Senhor até o martírio, em Roma: São Pedro no ano 64 e São Paulo em 67.

O texto evangélico nos apresenta uma dupla interrogação feita por Jesus aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v.13) e “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v.15). Jesus os convida tomar a consciência desta diferente perspectiva e ouve a resposta dos seus discípulos acerca do pensamento das pessoas, que o identificam como um profeta. Isto, entretanto, não basta. É necessário aprofundar, ir além, reconhecer a singularidade da sua pessoa. Perante uma resposta ainda não convincente, Jesus transfere a pergunta aos seus discípulos; e Pedro, tomando a palavra, responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

A resposta de Pedro não é fruto de seu próprio raciocínio, mas uma revelação do Pai ao humilde pescador da Galileia, como confirma o próprio Jesus, dizendo: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16,17). É por causa desta confissão que Jesus diz: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18). Pedro estava tão próximo do Senhor que se tornou ele mesmo uma rocha de fé e de amor sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja. E Jesus ainda completa: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Com base nesta confissão de Pedro, é conferida a ele uma tarefa particular, manifestada mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra de fundamento ou pedra angular, a das chaves e o ato de ligar e desligar. A chave representa a autoridade sobre a casa (Is 22, 22) e a expressão “ligar e desligar” está relacionada à linguagem rabínica, aplicando-se tanto no contexto das decisões doutrinais como no do poder disciplinar, ou seja, a faculdade de infligir ou levantar a excomunhão.

Chama também a nossa atenção o número das chaves que são dadas a Pedro. Jesus apresenta a palavra no plural: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (v. 19). A iconografia nos mostra a imagem do Apóstolo com duas chaves. O mesmo pode-se constatar no brasão pontifício, onde vemos uma de prata e outra de ouro. Alguns interpretam também essas duas chaves como a Palavra de Deus, por meio da qual os homens são instados a mudar de vida e, em seguida, os sacramentos, com os quais Jesus renova a natureza humana, tornando-a parte de seu sagrado corpo místico. Jesus já abriu as portas do Reino dos Céus, mas deixou sob a responsabilidade de seus administradores a condução do povo até a travessia destas mesmas portas. Os sacerdotes, com a Palavra e os sacramentos, devem conduzir o homem pelas estradas que levam ao Reino Celeste.

Mediante estas imagens sobressai claramente o fato de que Pedro é inseparável do encargo pastoral que lhe foi confiado em relação ao rebanho de Cristo, o que vem a se concretizar no encontro de Cristo ressuscitado com Pedro, conforme nos narra o Evangelho de São João, quando o Senhor Ressuscitado confia a ele a missão de apascentar o seu rebanho (cf. 21,15-19).

São Pedro torna-se o cimento de rocha sobre o qual estará o edifício da Igreja; terá as chaves do Reino dos céus para abrir e fechar a quem lhe pareça justo; por último, poderá atar e desatar, ou seja, poderá estabelecer ou proibir o que considere necessário para a vida da Igreja, que é e continuará sendo de Cristo. É sempre a Igreja de Cristo e não de Pedro. Quem edifica a Igreja é Cristo. Pedro é um instrumento, a primeira pedra do edifício. Jesus explicou o sentido de “ligar e desligar” quando disse a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15).

O Apóstolo São Pedro que, por dom de Deus, tornou-se uma rocha firme, surge aqui como ele é na sua fraqueza humana: uma pedra na estrada, uma pedra onde se pode tropeçar. Contudo, mesmo no âmbito da fragilidade do homem, a ação de Deus pode transformar a própria história. O poder conferido a Pedro não é um poder segundo as modalidades deste mundo. É o poder do bem, da verdade e do amor. Sua promessa é verdadeira: os poderes da morte e as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja que Cristo edificou sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e que ele, precisamente desta forma, continua a edificar.

Esta posição de destaque que Jesus quis entregar a Pedro se constata também depois da sua ressurreição, quando Maria Madalena corre a Pedro e a João para informar que a pedra foi removida da entrada do sepulcro (cf. Jo 20,2) e João lhe cederá o passo quando os dois chegam ao túmulo vazio (cf. Jo 20,4-6). Posteriormente, Pedro será, entre os apóstolos, a primeira testemunha da aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24,34; 1Cor 15,5). No Concílio de Jerusalém, Pedro ainda desempenha uma função diretiva (cf. At 15 e Gl 2,1-10) e, precisamente pelo fato de ser a testemunha da fé autêntica, o próprio Paulo reconhecerá nele um papel de “primeiro” (cf. 1Cor 15,5; Gl 1,18; 2,7).

Podemos ainda ressaltar o testemunho de fé e a árdua luta que os Apóstolos Pedro e Paulo tiveram de enfrentar pela causa do Evangelho. Também nisto seguiram com fidelidade o modelo de Cristo: deram a vida em prol do Evangelho. Estes dois Apóstolos, tendo o olhar fixo no mistério pascal, não duvidaram da necessidade de anunciar o Cristo, mesmo diante das dificuldades e dos desafios: era o início da realização do plano de Deus. Era a vitória sobre as forças do mal, conquistada em primeiro lugar por Cristo e depois pelos seus apóstolos, mediante a fé, sobre a qual está edificada a missão da Igreja. A rocha representa a firmeza, não só no que se refere à duração, mas também no que tange à solidez dos seus ensinamentos, oriundos da Sagrada Escritura.

O Apóstolo Paulo, cujo nome antes da conversão era Saulo, era natural de Tarso. Foi inicialmente um fariseu zeloso, a ponto de perseguir e aprisionar os cristãos, sendo responsável pela morte de muitos deles. Mas o encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco marcou a mudança decisiva da sua vida. Realizou-se, então, a sua completa transformação, uma verdadeira conversão espiritual. Tornou-se, de cruel perseguidor dos cristãos, em fervoroso apóstolo do Evangelho. A partir do encontro com Cristo a caminho de Damasco, todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Os Apóstolos Pedro e Paulo são testemunhas insignes da fé; dilataram o Reino de Deus com os seus diversos dons e, a exemplo do próprio Cristo, selaram com o sangue a sua pregação evangélica. A iconografia tradicional apresenta São Paulo com a espada, que representa o instrumento do seu martírio, enquanto São Pedro é apresentado com as chaves nas mãos, sinal da autoridade recebida do próprio Cristo.

Que o exemplo destes grandes santos possa iluminar as nossas mentes e acender em nós o desejo de realizar todos os dias a vontade de Deus, a fim de que possamos permanecer fiéis ao Evangelho, cujo serviço eles consagraram a própria vida, anunciando os ensinamentos do Cristo a todos os povos. Que São Pedro e São Paulo possam interceder por nós, para que possamos, assim como eles, sermos perseverantes na fé e na santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ