CORPUS CHRISTI – B

Mc 14,12-16.22-26

Caros irmãos e irmãs

Estamos hoje celebrando a festa do Santíssimo Sacramento, tradicionalmente conhecida como “Corpus Christi”. Esta celebração, nascida no século XIII, é um festivo desdobramento da Quinta-feira Santa, por ocasião da Última Ceia, na véspera de sua Paixão, quando instituiu o sacramento da Eucaristia, Jesus tomou o pão, abençoou-o e o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo: “’Tomai e comei, isto é o meu corpo. Fazei isto em memória de mim’. Da mesma forma, tomou o vinho e, dando graças, o distribuiu, dizendo: ‘Tomai e bebei, este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de vós. Toda vez que dele beberdes, fazei-o em memória de mim’” (Mt 26,26ss; 1Cor 10,23-27).

Estas palavras que Jesus falou durante a Última Ceia repetem-se cada vez que se renova o Sacrifício eucarístico, e elas ressoam com notável poder evocativo neste dia em que celebramos a Solenidade de Corpus Christi. Elas nos levam novamente ao Cenáculo e trazem a atmosfera espiritual daquela noite, quando, celebrando a Páscoa com os seus, o Senhor Jesus antecipou no mistério o sacrifício que seria consumado no dia seguinte sobre a cruz. A instituição da Eucaristia surge como antecipação e aceitação de Jesus pela sua morte. E a Igreja, desde seus primeiros dias, celebra sempre esse mistério, com o nome de fração do pão, mais tarde Santa Missa e Eucaristia, que é “fonte e ápice de toda a vida cristã” (LG 11).

No relato da instituição da Eucaristia, ao dizer “Este é o meu sangue”, Jesus faz uma referência à linguagem sacrificial de Israel e se apresenta como o verdadeiro e definitivo sacrifício, no qual se realiza a expiação dos pecados, o que, nos ritos do Antigo Testamento, não fora ainda plenamente realizado. A esta expressão se seguirão outras duas narrativas bem significativas. Em primeiro lugar, Jesus Cristo disse que seu sangue era “derramado em favor de muitos”, com uma compreensível referência aos cantos do Servo encontrados no livro do profeta Isaías (cf. Is 53). Com o acréscimo de “o sangue da aliança”, Jesus deixa claro que, graças à sua morte, finalmente se torna efetiva a aliança feita por Deus com seu povo. A antiga aliança fora estabelecida no Monte Sinai com o rito sacrificial de animais, como ouvimos na primeira leitura, e o povo eleito, libertado da escravidão no Egito, havia prometido seguir as orientações do Senhor (cf. Ex 24,3).

Na verdade, Israel, com a construção do bezerro de ouro, mostrou-se incapaz de se manter fiel à aliança divina, que foi transgredida frequentemente, adaptando ao coração de pedra a Lei que era para ensinar o caminho da vida. Mas o Senhor não abdicou de sua promessa e, através dos profetas, chamou a atenção para a dimensão interior da aliança e anunciou que gravaria esta nova lei nos corações dos fiéis (cf. Jr 31,33), transformando-os com o dom do Espírito (cf. Ez. 36, 25-27). E foi durante a Última Ceia que fez com os discípulos esta nova aliança, não a confirmando com sacrifícios de animais, como no passado, mas com o seu sangue, tornado “sangue da nova aliança”. Isto vem bem evidenciado na segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus, onde o autor sagrado declara que Jesus é o “mediador de uma nova aliança” (Hb 9,15). Tornou-se isto graças ao seu sangue ou, mais precisamente, graças ao dom de si, dando pleno valor ao seu sangue.

Na cruz, Jesus é ao mesmo tempo vítima e sacerdote: vítima digna de Deus porque sem mancha, e sumo sacerdote que oferece a si mesmo, sob o impulso do Espírito Santo, e intercede por toda a humanidade. A cruz é, portanto, mistério de amor e de salvação, que purifica a consciência do pecado e santifica-nos, esculpindo a nova aliança em nossos corações; a Eucaristia, renovando o sacrifício da cruz, nos faz capazes de viver fielmente a comunhão com Deus.

São Leão Magno recorda que “a nossa participação no corpo e sangue de Cristo não tende a nada mais que nos transformar naquilo que recebemos” (S. LEÃO MAGNO, Sermão 12, PL 54). E quando recitamos a oração do Pai Nosso, dizemos: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, nos faz pensar, naturalmente, no pão de cada dia. Esta questão contém, no entanto, algo mais profundo. O termo grego “epioúsios”, que traduzimos como “quotidiano”, é visto por alguns Padres da Igreja como um sinal de referência à Eucaristia, o pão da vida eterna que é dado na Santa Missa, a fim de que, neste contexto, o mundo futuro possa começar em nós.

Jesus, como sinal da presença, escolheu o pão e o vinho. A oração com a qual a Igreja, durante a liturgia da missa, entrega este pão ao Senhor, o apresenta como fruto da terra e do trabalho do homem. Nele fica recolhido o cansaço humano, o trabalho cotidiano de quem cultiva a terra, de quem semeia, colhe e, finalmente, prepara o pão. Contudo, o pão não é só um produto nosso, algo que nós fazemos: é fruto da terra e, portanto, é também um dom. O fato de que a terra dê fruto não é mérito nosso; só o Criador podia dar-lhe a fertilidade. E a água, da qual temos necessidade para preparar o pão, não podemos produzi-la nós mesmos. Deste modo, começamos a compreender porque o Senhor escolhe o pão como seu sinal. A criação, com todos os seus dons, aspira, além de si mesma, a algo que é ainda mais significativo.

Certa vez Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica só; mas se morre, dá muito fruto” (Jo 12,24). No pão, feito de grãos moídos, esconde-se o mistério da Paixão. A farinha, o grão moído, pressupõe o morrer e o ressuscitar do grão. O ser moído e cozido manifesta uma vez mais o mesmo mistério da Paixão. Só através do morrer chega o ressurgir, chega o fruto e a nova vida. O Deus que morre desse modo nos leva à vida. Sucedeu realmente com Cristo o que nos mitos era uma expectativa e o que o próprio grão esconde como sinal da esperança da criação. Através de seu sofrimento e de sua morte livre, Ele se converteu em pão para todos nós e, deste modo, em esperança viva e crível: Ele nos acompanha em todos os nossos sofrimentos, até a morte. Os caminhos que Ele percorre conosco e através dos quais nos conduz à vida são caminhos de esperança.

O pão, feito de muitos grãos de trigo, encerra também um acontecimento de união: o converter-se em pão de grãos moídos é um processo de unificação. Nós mesmos, dos muitos que somos, temos que converter-nos em um só pão, em seu corpo, como nos diz São Paulo (cf. 1Cor 10,17). Deste modo, o pão converte-se ao mesmo tempo em esperança e tarefa. Este sinal do pão nos recorda também a peregrinação de Israel durante os quarenta anos no deserto. A Hóstia é o maná com o qual o Senhor nos alimenta, é verdadeiramente o pão do céu, com o qual Ele verdadeiramente faz a entrega de si mesmo. Na procissão, seguimos este sinal e deste modo seguimos a Ele mesmo. E a Igreja escolheu o dia da quinta-feira para ser a celebração de “Corpus Christi”, porque foi neste dia, antes da sua Paixão, morte e ressurreição, que o Senhor Jesus instituiu o Sacramento da Eucaristia. Por isso, também podemos dizer que a Eucaristia é o sacramento da morte e da ressurreição de Cristo.

E celebramos a solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo na quinta-feira depois da Santíssima Trindade, para colocar em evidência precisamente aquela Vida que nos dá a Eucaristia. Ao recebermos o Corpo e o Sangue de Cristo dados em alimento, somos chamados de maneira particular a tornarmos discípulos fiéis e semelhantes a Cristo, a unirmos sem reservas ao Filho amado do Pai, por obra do Espírito Santo. E participando da mesa Eucaristia, nós somos aqueles filhos que não podem deixar de viver unidos na comunhão com os irmãos.

Desde os primeiros séculos, os cristãos sabiam que a comunhão com Deus era somente para quem estava preparado. É o próprio São Paulo que, com um santo fervor, ameaça: “Quem come o pão e bebe o corpo do Senhor indignamente, será culpado no corpo e no sangue do Senhor. Examine-se, pois, cada um a si mesmo, antes de comer desse pão e beber desse cálice; porque quem come e bebe, come e bebe sua própria condenação, se não distingue o corpo” (1Cor 11,27-29). Por isto, estejamos sempre preparados para o encontro quotidiano com Cristo e que isto seja para cada um de nós um apelo constante à santidade, à espera do retorno do Senhor!

Peçamos mais uma vez a Virgem de Nazaré que interceda sempre por nós e nos auxilie na nossa caminhada quotidiana, para que possamos chegar rumo à meta do céu, alimentados pelo Corpo e Sangue de Cristo, pão da vida eterna e remédio da imortalidade divina. Assim seja.