XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – Duas curas milagrosas a favor de duas mulheres

Mc 5,21-43

Caros irmãos e irmãs

Neste domingo, o evangelista São Marcos nos apresenta a narração de duas curas milagrosas operadas por Jesus em favor de duas mulheres em uma única narrativa: a ressurreição da filha de um dos chefes da Sinagoga, chamado Jairo, e a recuperação da saúde de uma mulher que sofria de hemorragia (cf. Mc 5,21-43). O lecionário fornece uma leitura abreviada, mas aconselha-se a leitura integral do texto. De fato, os três evangelhos sinóticos mostram as duas curas em um relacionamento seguido e um está de certa forma ligado ao outro.

As duas mulheres beneficiárias das ações de Jesus neste Evangelho têm algo em comum: a primeira estava doente há 12 anos e a menina, filha de Jairo, morreu aos 12 anos. Segundo os textos bíblicos do Novo Testamento, por três vezes Jesus trouxe alguém de volta à vida.

Para o povo de Israel, o percurso destas duas mulheres era sinal de um fracasso. Uma mulher está perdendo a sua vida, uma vez que sangue é princípio e sinal de vida na mentalidade semítica, e por doze anos sofre uma doença que não encontra cura na medicina. A menina, aos doze anos, perde a sua vida. Além da cura da filha de Jairo, temos também a ressurreição do filho da viúva de Naim (cf. Lc 7,11-17) e a ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11,1-46).

Em ambos os casos, realiza-se a salvação da pessoa, algo mais profundo e transcendental que o resultado físico, embora importante à saúde e à vida; algo que está além dos limites da enfermidade e da morte. É difícil aceitar o fato de se estar doente e também aceitar o doente. De fato, olhar nos olhos de um homem enfermo ou moribundo significa tomar profunda consciência dos próprios limites humanos, da inevitabilidade da morte; significa sentir a própria precariedade e achar-se de mãos vazias em face do outro. No Novo Testamento, Jesus é apresentado como o Salvador dos enfermos, alguém que cura não apenas as doenças do corpo, mas também as doenças morais, e também o pecado (cf. Mc 2,1-2).

A história começa quando Jairo pede a Jesus como um pai desesperado: “A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva” (v. 23). Enquanto Jesus e seus discípulos seguem para a casa de Jairo, uma mulher doente atingida por um fluxo de sangue não diz nada, mas se contenta em tocar as vestes de Jesus, porque se considera impura. A lei estabelece que a mulher que estivesse sofrendo de perdas de sangue não podia ser admitida nos encontros comunitários e deveria ser evitada, como se fosse uma leprosa: “Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne, estará sete dias na sua separação, e qualquer um que a tocar, será imundo até à tarde” (Lv 15,19). Aquele que tivesse contato com a mulher, antes de retomar as atividades religiosas, deveria se submeter a cerimônias de purificação (cf. Lv 15,25-27). A perda contínua de sangue causa muita fraqueza no enfermo. Entretanto, a dor maior era talvez não da doença física, mas da doença social.

O que parece ser uma interrupção inconveniente, por conta da cura da mulher, enquanto a filha morria, na verdade, pode se dizer que contribuiu para a salvação da filha de Jairo. O fato pode ter contribuído para fortalecer a sua fé. O texto evangélico nos diz que a mulher, não identificada, foi atingida por uma doença desconfortável e humilhante e a atinge em sua intimidade. E é causa de uma impureza religiosa. O sangue é símbolo da vida, mas quando sai do corpo, pode tornar-se sinal da morte próxima e, por isto, causa repugnância. Mas ela sente um forte impulso para estar com Jesus, para tocar nele: “Se tocar, ainda que seja na orla do seu manto, estarei curada” (v. 28). Mas ela vê um obstáculo: a multidão e o medo de transgredir as leis da época. Porém quando ouviu falar que o Messias prometido, Jesus, estava por perto, a fé genuína se acendeu no seu íntimo. Ela decide agir de forma discreta, porque o fluxo sanguíneo, segundo a legislação, a fez impura e tocar uma outra pessoa estaria contrariando a lei e ela poderia ser apedrejada (cf. Lv 15,25). Ela aproxima-se de Jesus por detrás, tocando a orla do seu manto. Neste momento, ela é atingida por uma força vital que restabelece a sua saúde: “No mesmo instante se lhe estancou a fonte de sangue, e ela teve a sensação de estar curada” (v. 29). Assustada ao ser descoberta pela pergunta e pelo olhar de Jesus, diz ele à mulher: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e sê curada do teu mal” (v. 34).

A mulher em questão nem por seu nome era conhecida. Ficou marcada como a mulher do fluxo de sangue. Mas graças à sua fé, foi restaurada na sua dignidade, restabelecida na sociedade que a excluía devido a doença. E a sua cura vem como uma consequência da fé, que é sempre fonte de vida e de felicidade.

Após a cura da hemorroíssa, é retomado o relato da filha de Jairo. E, estando Jesus com seus discípulos de sua casa lhe comunicam a triste notícia da morte de sua filha. Ele esperava que Jesus impusesse suas mãos sobre a menina para restabelecer a sua saúde. Na concepção judaica de retribuição, a morte de uma criança era considerada como um castigo, devido a algum pecado cometido pelos pais. A morte da filha significava para Jairo uma dupla perda: a da filha e também da sua posição social. Ele poderia ser considerado como um pecador castigado por Deus. Mas, diante da notícia, nesse momento difícil de prova, Jesus anima Jairo dizendo: “Não tenha medo. Basta que tenha fé” (v. 36).

Já na casa de Jairo, Jesus ouve o ruído das lamentações e dos flautistas (v. 38). Segundo a concepção judaica, este costume tinha como objetivo afastar os espíritos maus, que tentavam apoderar-se do espírito do morto. Mas diante deste cenário, Jesus diz: “A criança não morreu, mas dorme” (v. 39). Jesus toma a mão da menina e ordena que ela se levante (v. 41). E o evangelista conserva a ordem de Jesus em aramaico: “Talita cumi”, que quer dizer: “Menina, levanta-te”. O relato termina com a constatação do milagre (v. 42) e o espanto de todos diante da intervenção salvífica de Deus. Jesus também ordena que dê de comer à menina, isto para frisar a volta da realidade e também para acentuar o contexto da ressurreição.

Nas duas cenas do evangelho deste domingo, a fé humilde, que suplica pela boca do pai da menina e pelo gesto de tocar o manto de Jesus pela mulher, é também modelo de disposição para se aproximar de Cristo. Em ambos os casos a finalidade é o aperfeiçoamento da fé dos dois pedintes. Na narrativa observa-se que ao redor de Jesus se encontra uma grande multidão (v. 31). Certamente são os seus discípulos que o seguiam. Podemos imaginar que muitos encostavam nele, mas somente uma mulher o “tocou”, e sua vida passou por uma grande transformação. Isto pode acontecer também com cada um de nós. Muitas vezes temos contatos diretos com Jesus, pelo Sacramento da Eucaristia, por exemplo, ou através da sua Palavra, mas não somos transformados. Talvez falte em nós uma fé mais forte e sólida. A proximidade com Jesus precisa, necessariamente, produzir em nós mudanças. Se isto não acontece, significa que as suas palavras ainda não atingiram o nosso coração.

Por isto, precisamos pedir que ele mesmo nos ajude a crescer na fé, e que esta fé possa transbordar em amor, para que sejamos verdadeiramente transformados e renovados a cada dia. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XII SEMANA DO TEMPO COMUM – A tempestade em alto mar

Mc 4,35-41

Meus caros irmãos e irmãs

Façamos uma breve reflexão sobre as leituras que a Liturgia da Palavra nos convida a ouvir neste domingo. Inicialmente, lancemos o nosso olhar para a primeira leitura, retirada do Livro de Jó (cf. Jó 38,1.8-11), que nos faz pensar a respeito de certos temas fundamentais sobre os quais o homem sempre se interroga, como, por exemplo, a questão do sofrimento do justo inocente, a situação do homem diante de Deus e a atitude de Deus face ao homem. O livro nos apresenta o triste itinerário de um homem bom e justo chamado Jó, repentinamente atingido por uma série de tormentos que lhe roubam a riqueza, a família e a própria saúde.

Diante desse drama o próprio Jó se interroga acerca da origem do sofrimento, Deus se dirige a Jó e lhe recorda a sua condição de criatura, limitada e finita e mostra como só Ele conhece as leis que regem o universo e a vida; e frisa a sua preocupação e o seu amor para com cada ser criado. Deus tem uma lógica, um plano, um projeto que ultrapassa infinitamente aquilo que cada homem pode entender. A história termina com Jó a reconhecer a transcendência de Deus e a incompreensibilidade dos seus projetos, a entregar-se nas mãos do Criador com humildade e confiança.

No texto evangélico temos o episódio narrado pelo evangelista São Marcos durante a travessia no Lago de Tiberíades, designado frequentemente por Mar da Galileia, um lago de água doce, alimentado, sobretudo, pelas águas do rio Jordão. As tempestades que se levantavam neste mar podiam aparecer subitamente. Para a teologia judaica, o mar era uma realidade assustadora, indomável e desordenada, onde residiam os poderes do mal que o homem não conseguia controlar. Só Deus era capaz de dominar o mar e as forças hostis que nele se alojavam, como é possível constatar pela primeira leitura (cf. Jó 38,1.8-1) e também pelo salmo responsorial (cf. Sl 106).

Unido a este ambiente onde estão os discípulos de Jesus, temos ainda um outro aspecto, o “anoitecer”. Os discípulos estão no barco com Jesus em alto mar, em um ambiente difícil e perigoso, rodeados pelas forças do mal. O fato ocorre no anoitecer, o que nos faz lembrar das trevas, da falta de luz. E neste cenário surge também o medo e a falta de solução e de perspectivas: “Estamos perecendo” (v. 38).

Um detalhe que chama a nossa atenção é que Jesus está no barco, mas são os seus discípulos os encarregados da navegação, pois cabe a eles a tarefa de conduzir a comunidade pelo mar da vida. Isto mostra também a nossa missão: Ir ao encontro do homem, mesmo em um ambiente de provações e de dificuldades. Mas também os discípulos não podem esquecer que o Cristo caminha com eles, como ele mesmo disse: “Eu estou convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt 28,20).

Diante das provações da vida somos levados a questionar a presença de Deus e somos tentados a perguntar: “Onde está Deus?” No entanto, as palavras de Jesus ao final do Evangelho de São Mateus nos garantem a sua presença em uma união contínua: “Todos os dias”. Por isso, no abismo mais profundo de nossa crise e sofrimento, tenhamos esta certeza: não estamos sozinhos, Jesus está conosco. Ainda que passemos por crises e sofrimentos, Cristo está conosco “com o seu bastão e com o seu cajado” (Sl 22,4), isto é, com toda a sua autoridade.

Assim como no evangelho, muitas vezes, ao nos depararmos com a perplexidade da dor e sofrimento, também somos levados a dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Sl 21). Neste contexto de abandono e de dor, o homem eleva um lamento doloroso a Deus, que parece estar distante e em silêncio. Mas Deus parece silenciar porque está junto daquele que sofre. Um silêncio de amor compadecido e solidário. Um amor paciente que tudo pode, mas não pode reagir a violência com violência.

Na mentalidade do homem, tanto do passado como do presente, Deus parece dormir diante da injustiça e da violência. Mas a tempestade que também hoje deixa desorientados os próprios navegantes, é o esmorecimento da fé e a pouca força de nossa esperança. Os discípulos, assustados pela forte tempestade, acordam o Cristo que dorme: “Senhor, salva-nos, pois estamos perecendo!” (v. 38) Mas Jesus, logo depois de acalmar a tempestade, repreende os seus discípulos pela falta de fé e confiança: “Como sois medrosos! Ainda não tendes fé?” (v. 40).

Este gesto solene de acalmar o mar tempestuoso é claramente um sinal do senhorio de Cristo sobre os poderes negativos e leva a pensar na sua divindade: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (v. 41). Com isto Jesus mostra uma vez mais a sua divindade e, como Deus, coloca limites ao mar e liberta os homens dos poderes malignos. Por isto, mesmo diante dos sofrimentos pelos quais passamos, sempre devemos estar, sobretudo nestes momentos, fortalecidos pela fé naquele que nunca nos abandona. São Paulo nos conforta dizendo: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus ” (Rm 8, 28). As dores e dificuldades que atingem os homens devem ser vistas como um sinal de que é em tais circunstâncias, por piores que pareçam, que ele nos dá a conhecer o seu amor, provando-nos a fidelidade, pedindo-nos uma fé mais firme.

Uma conhecida história nos fala que certa vez um homem teve um sonho, e neste sonho via dois pares de pegadas que haviam ficado gravadas na areia do deserto. Compreendia que um par de pegadas eram as suas e o outro par de pegadas eram as de Jesus, que caminhava a seu lado. Em um certo momento, um par de pegadas desaparece, e compreende que isso sucedeu precisamente em um momento difícil de sua vida. Então se lamenta com Cristo, que o deixou sozinho, em um momento da provação. “Mas, eu estava contigo!”, respondeu Jesus. “Como é possível que estivesse comigo, se na areia só se vê um par de pegadas?”. “Eram as minhas, respondeu Jesus. Nesses momentos, eu havia te carregado”. Lembremos disso, quando também nós sentimos a tentação de nos queixar com o Senhor por nos deixar sozinhos nos momentos de dificuldades.

Peçamos que o Senhor venha também ao nosso auxílio e nos ajude a estar sempre cientes da sua presença entre nós, sobretudo nos momentos de provações. E como outrora no lago da Galileia, também hoje, no mar da nossa existência, Jesus é aquele que vence as forças do mal e alivia o nosso desespero.

No seu amor infinito, Deus está sempre perto daqueles que sofrem. A enfermidade pode ser uma estrada para se descobrir outros aspectos de si mesmos e novas formas de encontro com Deus. Cristo escuta o clamor daqueles cuja barca é ameaçada pela tempestade (cf. Mc 4,35-41). Ele está presente junto deles para os ajudar na travessia e guiá-los em direção ao porto da serenidade recuperada.

Lancemos uma vez mais o nosso olhar para a Virgem Maria, a quem invocamos como Consoladora dos aflitos, para que ela possa interceder sempre por nós, para sermos sempre mais fortalecidos na fé e na confiança naquele que é o Bom Pastor, capaz de nos conceder um futuro de paz e de serenidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XI SEMANA DO TEMPO COMUM – As parábolas da semente e do grão de mostarda

 Mc 4,26-34

Meus caros irmãos e irmãs, A liturgia da palavra deste domingo traz para a nossa reflexão duas breves parábolas contadas por Jesus: a da semente que cresce sozinha e a do grão de mostarda (cf. Mc 4, 26–34). Nestas parábolas temos a exposição de como o Reino de Deus se expande com uma força que não depende do ser humano, mas do próprio Deus. Através dessas imagens, tiradas do mundo da agricultura, o Cristo Senhor quer ilustrar as razões da nossa esperança e do nosso compromisso na história. A primeira parábola ressalta: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou” (v. 27-29). Esta parábola tem uma estrutura bastante simples e evoca o mistério da criação e da redenção, da obra fecunda de Deus. Ele é o Senhor do Reino, o homem é o seu colaborador humilde que contempla e rejubila com a obra criadora divina e dela espera pacientemente os frutos. O texto mostra que o agricultor semeia com a certeza de que o seu trabalho não será infecundo. Ele confia na força da semente e na fertilidade do terreno. Após ser semeada, a semente nasce e cresce independente da ação do agricultor. Deste modo, podemos lembrar da afirmação de São Paulo: “Eu plantei, Apolo regou; mas era Deus quem fazia crescer. Aquele que planta nada é; aquele que rega nada é; mas importa somente Deus, que dá o crescimento” (cf. 1Cor 3, 6-7). No contexto da parábola, Jesus indica que o Reino tem uma força intrínseca que independe dos trabalhadores. O objetivo da parábola é também o de chamar a atenção dos ouvintes para o Reino de Deus e é um recurso retórico que faz parte do método utilizado por Jesus na evangelização. A semente que germina e cresce por si mesma exprime a ação de Deus que comunica amor e vida a todos. O Reino de Deus é comparado não apenas ao trabalho do camponês ou à semente que é lançada à terra, mas deve-se observar todo o modo de crescimento da planta. Jesus quer mostrar que o Reino de Deus é tão misterioso como este processo de desenvolvimento de uma semente que brota e se torna uma planta grandiosa. Para o homem antigo este processo constituía um milagre de Deus. Depois de lançada a semente, não se faz mais nada, senão esperar com paciência o tempo da colheita. Na linguagem evangélica, a semente é também símbolo da Palavra de Deus, cuja fecundidade é recordada por esta parábola. Do mesmo modo como a semente humilde se desenvolve na terra, também a Palavra age com o poder de Deus no coração de quem a ouve. Deus confiou a sua Palavra à nossa terra, ou seja, a cada um de nós, com a nossa humanidade concreta. Podemos ser confiantes, porque a Palavra de Deus é palavra criadora (cf. Gn 1,1ss). A criação nasce do “Logos” e esta feliz certeza é apresentada nos Salmos: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro da sua boca todos os seus exércitos” (Sl 33,6); e ainda: “Ele falou e as coisas existiram. Ele mandou e as coisas subsistiram” (Sl 33,9). E o Evangelista São João nos ensina que o “Logos” indica originariamente o Verbo eterno, ou seja, o Filho unigênito, gerado pelo Pai antes de todos os séculos e consubstancial a Ele: o Verbo estava junto de Deus, o Verbo era Deus. Mas este mesmo Verbo, afirma São João, “fez-se carne” (Jo 1,14) e veio habitar entre nós; por isso, Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, é realmente o Verbo de Deus, ou seja, a Palavra de Deus, que se fez consubstancial a nós (cf. BENTO XVI, Exortação Apostólica “Verbum Domini”, n. 7). Esta Palavra, sendo acolhida em nosso coração, certamente dará os seus frutos, porque o próprio Deus a faz germinar e crescer. E nós, chamados à comunhão com Deus e entre nós, devemos ser anunciadores deste dom. A Palavra de Deus, ao ser anunciada, penetra na mente e no coração, e quem a escuta nunca mais consegue permanecer o mesmo. É inevitável que aconteça uma transformação interior. Na segunda parábola Jesus conta: “O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes. Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra” (v. 32-33). São palavras que fazem referência ao Livro do profeta Ezequiel, do qual é tirada a primeira leitura (cf. Ez 17,22-24). Os dois textos aludem ao desenvolvimento do Reino de Deus na história do mundo. Nesta segunda parábola o texto menciona uma semente específica, o grão de mostarda, considerada a menor de todas as sementes. Porém, embora seja pequena, está cheia de vida, e dela nasce um rebento capaz de romper o terreno, de sair à luz do sol e de crescer até se tornar “a maior que todas as hortaliças” (cf. Mc 4,32): a debilidade é a força da semente, o romper-se é o seu poder. E assim é o Reino de Deus: uma realidade humanamente pequena, formada por quem não confia na própria força, mas na força da misericórdia de Deus. A semente germina e cresce, porque é a bondade de Deus que a faz crescer. A mostarda é uma planta da família da couve, de grandes folhas, flores amarelas e pequenas sementes. Existem duas espécies principais de mostarda: a branca e a preta. A branca chega a ultrapassar 1 metro de altura e a preta pode chegar de 3 a 4 metros, sendo esta uma espécie de mostarda comum nas margens do lago de Tiberíades e seu tronco se torna lenhoso. Por isso, os árabes têm o costume de falar em árvores de mostarda. As sementes de mostarda, na época, eram vistas como modelo de algo insignificante. Mas ao utilizar este exemplo, Jesus põe em destaque a simplicidade de qualquer realidade que começa em comparação com a grandeza dos resultados. A inexpressiva semente que se transforma em uma árvore acolhedora dos pássaros exprime que a fé dos discípulos, desprezível para muitos, pode gerar o mundo novo de fraternidade e paz. O acento destas duas parábolas está justamente na força do contraste. Nelas, o Reino de Deus representa um “crescimento” e um “contraste”: o crescimento que se verifica graças a um dinamismo da própria semente e o contraste que existe entre a pequenez da semente e a grandeza daquilo que ela produz. A mensagem é clara: para que ocorra o seu crescimento faz-se necessário a nossa colaboração, o Reino de Deus é antes de tudo dom do próprio Senhor para nós. Uma outra mensagem que podemos tirar dessas parábolas está no fato de sabermos esperar o tempo de Deus, ter paciência, manter a calma e acompanhar o desenvolvimento da semente que, sozinha, germina, cresce e produz frutos abundantes. Para sermos discípulos de Cristo é preciso ter a paciência de uma semente que dia e noite cresce, brota, desabrocha, amadurece em um processo longo, silencioso e quase anônimo. Obtemos ainda destas duas parábolas um ensinamento importante: O Reino de Deus requer a nossa colaboração, mas é sobretudo iniciativa e dom do Senhor. A nossa obra frágil, aparentemente muito pequena face à complexidade dos problemas do mundo, se for inserida em Deus, terá êxitos. Possamos semear este grão de mostarda no campo do nosso coração, pois se assim fizermos, será ele um jardim bem irrigado, um manancial de águas que nunca param de correr (cf. Is 58,11). Jesus Cristo é também este grão de mostarda que cai na terra e se multiplica para nós. Saibamos ser a terra boa, capaz de acolher e sermos anunciadores da sua mensagem salvadora e que ela possa produzir bons e saborosos frutos de santidade, unidade e paz e que sejam esses frutos recolhidos no celeiro do Reino dos Céus. Assim seja. D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB Mosteiro de São Bento/RJ

LITÚRGICA DA PALAVRA – 11/06 FESTA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Antífona de entrada Sl 32,11.19
Eis os pensamentos do seu coração, que permanecem ao longo das gerações: libertar da morte todos os homens e conservar-lhes a vida em tempo de penúria.

Oração do dia
Concedei, ó Deus todo-poderoso, que, alegrando-nos pela solenidade do Coração do vosso Filho, meditemos as maravilhas de seu amor e possamos receber, desta fonte de vida, uma torrente de graças. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

PRIMEIRA LEITURA
Meu coração comove-se no íntimo

Leitura da Profecia de Oséias 11,1.3-4.8c-9

Assim diz o Senhor:
‘Quando Israel era criança, eu já o amava,
e desde o Egito chamei meu filho.
Ensinei Efraim a dar os primeiros passos,
tomei-o em meus braços,
mas eles não reconheceram que eu cuidava deles.
Eu os atraía com laços de humanidade,
com laços de amor;
era para eles como quem leva uma criança ao colo,
e rebaixava-me a dar-lhes de comer.
Meu coração comove-se no íntimo
e arde de compaixão.
Não darei largas à minha ira,
não voltarei a destruir Efraim,
eu sou Deus,
e não homem;
o santo no meio de vós,
e não me servirei do terror.
Palavra do Senhor.

Salmo responsorial
Is 12,2-3.4bcd.5-6 (R.3)
R. Com alegria bebereis do manancial da salvação.

Eis o Deus, meu Salvador, eu confio e nada temo;*
o Senhor é minha força, meu louvor e salvação.
Com alegria bebereis no manancial da salvação.
R.
e direis naquele dia: ‘Dai louvores ao Senhor,
invocai seu santo nome, anunciai suas maravilhas,*
entre os povos proclamai que seu nome é o mais sublime. R.

Louvai cantando ao nosso Deus, que fez prodígios e portentos,*
publicai em toda a terra suas grandes maravilhas!
Exultai cantando alegres, habitantes de Sião,*
porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!’ R.

SEGUNDA LEITURA
Conhecer o amor de Cristo que
ultrapassa todo conhecimento

Leitura da Carta de São Paulo aos Efésios 3,8-12.14-19

Irmãos:
Eu, que sou o último de todos os santos,
recebi esta graça de anunciar aos pagãos
a insondável riqueza de Cristo
e de mostrar a todos como Deus realiza
o mistério desde sempre escondido nele,
o criador do universo.
Assim, doravante, as autoridades e poderes nos céus
conhecem, graças à Igreja,
a multiforme sabedoria de Deus,
de acordo com o desígnio eterno
que ele executou em Jesus Cristo, nosso Senhor.
Em Cristo nós temos, pela fé nele,
a liberdade de nos aproximarmos de Deus
com toda a confiança.
É por isso que dobro os joelhos diante do Pai,
de quem toda e qualquer família recebe seu nome,
no céu e sobre a terra.
Que ele vos conceda, segundo a riqueza da sua glória,
serdes robustecidos, por seu Espírito,
quanto ao homem interior,
que ele faça habitar, pela fé,
Cristo em vossos corações,
que estejais enraizados e fundados no amor.
Tereis assim a capacidade de compreender,
com todos os santos, qual a largura, o comprimento,
a altura, a profundidade,
e de conhecer o amor de Cristo,
que ultrapassa todo conhecimento,
a fim de que sejais cumulados até
receber toda a plenitude de Deus.
Palavra do Senhor.

Aclamação ao Evangelho
Mt 11,29

R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
V. Tomai sobre vós o meu jogo e de mim aprendei, que sou manso e humilde de coração

EVANGELHO
Um soldado abriu-lhe o lado com uma
lança e logo saiu sangue e água

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João 19,31-37

Os judeus queriam evitar
que os corpos ficassem na cruz durante o sábado,
porque aquele sábado era dia de festa solene.
Então pediram a Pilatos
que mandasse quebrar as pernas aos crucificados
e os tirasse da cruz.
Os soldados foram e quebraram as pernas de um
e depois do outro que foram crucificados com Jesus.
Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto,
não lhe quebraram as pernas;
mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança,
e logo saiu sangue e água.
Aquele que viu, dá testemunho
e seu testemunho é verdadeiro;
e ele sabe que fala a verdade,
para que vós também acrediteis.
Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura,
que diz: ‘Não quebrarão nenhum dos seus ossos.

X DOMINGO DO TEMPO COMUM – B – O pecado de Adão e Eva

Mc 3,20-35.

Caríssimos irmãos e irmãs

O Evangelista São Marcos ressalta na perícope evangélica deste domingo que os adversários de Jesus criticam suas atitudes e salientam que a sua mensagem é contrária à doutrina oficial, isto é, a dos escribas e fariseus. Eles alegam que o comportamento de Jesus não está de acordo com as sagradas tradições dos antigos por não respeitar o sábado, não estimular os seus discípulos a jejuar, por ser amigo dos pecadores e por não observar as normas que proíbem contatos com pessoas impuras. Muitos o consideram um herege (Jo 8,48.52) e o acusam ainda de expulsar o demônio pelo poder de Belzebu, o Príncipe dos demônios. A palavra Belzebu – seria interesante recordar – vem do nome de um deus filisteu de Acaron, cujo nome era “Baal das moscas” – Baal Zebud. A mesma palavra foi deformada pelos judeus, e ficou Beelzebul, que significa “o Senhor das esterqueiras”. De qualquer maneira é um nome depreciativo com que os israelitas chamavam o chefe dos espíritos malignos. Como está no evangelho, os escribas insistem em dizer que Jesus estaria expulsando os demônios pelo poder de Belzebu. Uma colocação inconveniente à qual Jesus responde ser impossível um demônio expulsar o próprio demônio.

Jesus se dirige a eles e esclarece: Satanás, por sua própria natureza, é inimigo do homem, é homicida: tudo o que ele faz é contra a vida e a felicidade do homem. Ora, tudo aquilo que Jesus realiza é exatamente o contrário: ele socorre o homem e o recupera; restitui-lhe a saúde e comunica-lhe a vida. Quanto à intervenção de seus parentes, Jesus explica que sua verdadeira família não é a do sangue, mas a da fé operante: os que fazem a vontade do Pai (v.35). Para poder fazer parte de sua família é preciso escutar a sua palavra e cumprir a vontade de Deus.

Neste horizonte neotestamentário, meditemos a primeira leitura que nos faz voltar ao livro do Gênesis (cf. Gn 2,4b-3,24), cujo objetivo é falar sobre a origem da vida e do pecado e tem uma finalidade teológica, que tenciona ensinar como o mundo e o homem apareceram e nos diz, em particular, que na origem da vida está Deus e que na origem do mal e do pecado estão as opções erradas do homem. Trata-se, portanto, de uma página importante de catequese que sempre devemos reler.

Em um primeiro momento, o autor sagrado descreve a criação do paraíso e do homem e apresenta a criação de Deus como um espaço ideal de felicidade, onde tudo é bom e o homem vive em comunhão total com o Criador e com as outras criaturas. Em um segundo momento, é apresentado o pecado do homem e da mulher, mostrando como as opções erradas do primeiro casal humano influenciaram na sua comunhão com Deus, trazendo desequilíbrio para o próprio homem. E, finalmente, o texto apresenta o homem e a mulher confrontados com o resultado das suas opções e as consequências que daí surgiram para ambos e para as gerações vindouras.

Na perspectiva do texto do Gênesis, Deus criou o homem e a mulher para a felicidade. Mas o homem, que Deus criou livre e feliz, fez escolhas indevidas e, com isto, introduziu na criação dinamismos de sofrimento e de morte. Os personagens apresentados no texto são Deus, que “passeia no jardim à brisa do dia” (v. 8), e ainda Adão e Eva, que se esconderam de Deus por entre o arvoredo do jardim (v. 8).

O texto começa com uma pergunta do Criador a Adão: “Onde estás?” A resposta do homem já é uma confissão da sua culpabilidade: “Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me” (v. 9-10). A vergonha e o medo são sinais de uma perturbação interior, de uma ruptura com a anterior situação de inocência, de harmonia, de serenidade e de paz. Como é que o homem chegou a esta situação? Evidentemente, desobedecendo a Deus e percorrendo caminhos contrários àqueles que Deus lhe havia proposto. A resposta do homem revela que ele tem consciência da sua culpa.

Depois desta constatação, a segunda pergunta feita por Deus ao homem é meramente retórica: “Terias tu comido da árvore, da qual te proibira de comer?” (v. 11). A árvore em causa é a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, significa o orgulho, o prescindir de Deus e das suas propostas, o querer decidir por si só o bem e o mal, o pôr-se a si próprio em lugar de Deus, o reivindicar autonomia total em relação ao criador. A situação do homem, perturbado e em ruptura, é já uma resposta clara à pergunta de Deus. Ao desobedecer a Deus, o homem fez a opção por um caminho de independência em relação a Ele. Daí a vergonha e o medo.

Ao defender-se, o homem acusa a mulher e, ao mesmo tempo, acusa veladamente o próprio Deus pela situação em que se encontra: “A mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi” (v. 12). Adão representa a humanidade que esqueceu os dons de Deus e vê em Deus um adversário; por outro lado, a resposta de Adão mostra, igualmente, uma humanidade que quebrou a sua unidade e se instalou na falta de solidariedade, no ódio. Escolher caminhos contrários aos de Deus não pode senão conduzir a uma vida de ruptura com Deus e com os outros irmãos.

Em seguida, a mulher se defende: “A serpente enganou-me e eu comi” (v. 13). Entre os povos cananeus, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade. Os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos e, com frequência, abandonavam o Senhor Deus para seguir os rituais religiosos dos cananeus e assegurar, assim, a fecundidade dos campos e dos rebanhos. Na época em que o livro do Gênesis foi escrito, a serpente era, pois, o “fruto proibido”, que seduzia os crentes e os levava a abandonar a Lei de Deus. A “serpente” é, neste contexto, um símbolo literário de tudo aquilo que afastava os israelitas de Deus. A resposta da “mulher” confirma aquilo que até agora estava sugerido: a humanidade que Deus criou ignorou as suas propostas e enveredou por outros caminhos.

A serpente é um animal que passa toda a sua existência comendo o pó da terra. O autor vai servir-se deste dado para ilustrar a condenação radical de tudo aquilo que leva o homem a afastar-se de Deus para seguir outros caminhos. A inimizade e a luta entre a “descendência” da mulher e a “descendência” da serpente, ressaltadas no texto, podem ser uma explicação do autor sagrado para o fato de a serpente inspirar horror aos seres humanos e todos procurarem “esmagar a sua cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher”, o Messias, o Cristo Jesus, acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça. Nisto consiste a relação da primeira leitura com o Evangelho, onde Cristo é apresentado como o novo Adão, aquele que é capaz de expulsar o demônio tentador.

O autor sagrado, na verdade, não fala de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher, mas do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos. Ele está apenas a ensinar que a raiz de todos os males está no fato de o homem virar as costas para a lei de Deus e construir o mundo a partir de critérios próprios.

Um dos mistérios que mais questiona os nossos contemporâneos é o mistério do mal. Esse mal que vemos todos os dias torna sombria e assustadora esta nossa morada que é o mundo em que vivemos. Mas o mal nunca vem de Deus. Deus nos criou para a vida e para a felicidade e nos deu todas as condições para imprimirmos à nossa existência uma dinâmica de vida, de felicidade, de realização plena. O mal resulta das nossas escolhas erradas. Quando o homem escolhe viver alheio às propostas de Deus, ele constrói o sofrimento e passa a viver no pecado. O tempo em que vivemos é um tempo de vigilância, pois a serpente continua a armar ciladas para os nossos calcanhares.

Saibamos dizer “não” ao pecado e ao erro. E peçamos ao Senhor que nos ajude a combater o mal e nos faça parte da sua família, ou seja, que possamos ouvir as suas palavras e colocá-las em prática todos os dias. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.