XXXIII – DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – parábola das dez virgens

Mt 25,1-13

Caros irmãos e irmãs,

O texto Evangélico deste domingo nos convida a refletir sobre a Parábola das dez virgens. Elas traziam em suas mãos as lâmpadas acesas; ou seja, pequenas lamparinas com pavios alimentados a óleo e servia como uma tocha para iluminar o caminho. As dez virgens são divididas em dois grupos: “Cinco delas eram insensatas e cinco prudentes” (v. 2). Nos vv. 4 e 5 aparece já o modo de agir dos dois grupos. As insensatas pensam apenas no momento presente. Enchem as suas lâmpadas com óleo, mas não se preocupam de levar uma reserva de óleo (v. 4). As prudentes, ao contrário, contam com a possibilidade de atrasos e contratempos e levam uma reserva de óleo nos vasos. Na literatura sapiencial, o prudente é aquele que age de acordo com as exigências de Deus; o insensato, ao contrário, age conforme a sua cabeça.

O noivo, como de fato, atrasou-se (v. 5). O motivo do atraso não é mencionado no texto. Apenas é descrito o efeito desse atraso nas virgens, elas cansam: “Começam todas a cochilar e adormecem” (v. 5). Exatamente a meia noite, é dado o alarme da chegada do noivo. As virgens acordam e apressadamente tentam reanimar as lâmpadas. Neste momento, as insensatas percebem o erro que cometeram e tentam obter óleo com as prudentes (v. 8), que se negam a atender o pedido das companheiras alegando que o óleo que possuíam era insuficiente para todas; elas deviam antes, tentar comprar o óleo necessário com os vendedores (v. 9).

Em tais ocasiões não faltavam, certamente, vendedores nas proximidades especulando um bom negócio. Mas justamente neste momento, enquanto as insensatas procuram um vendedor de óleo, chega o noivo, e as virgens prudentes entram com ele para a festa. A porta da sala é fechada (v. 10). Mais tarde, chegam as cinco virgens insensatas com as suas lâmpadas reacesas e, encontrando a porta fechada, começam a chamar: “Senhor, abre-nos”. O noivo nega-se a abrir a porta alegando: “Em verdade vos digo, não vos conheço” (v. 12). E a parábola conclui com uma advertência: “Vigiai, pois, não sabeis o dia nem a hora” (v. 13). Este último versículo resume a mensagem que o Evangelista São Mateus quer que os cristãos assimilem: Vigilância. O esposo pode chegar de uma hora para outra, e é necessário estar sempre de prontidão para recebê-lo. Certamente a vigilância se refere, sobretudo, ao momento decisivo do encontro com Cristo, no fim da nossa vida.

A parábola toca nesta demora do retorno de Jesus, e no comportamento dos que se cansaram de esperar. Se a demora se prolonga, é preciso ter paciência. Adverte a Carta aos Hebreus: “É necessária a paciência para alcançardes os bens prometidos” (Hb 10,36). Inculcando a paciência na espera, São Pedro recorda a imensa paciência de Deus em esperar pela conversão dos pecadores: “Ele deseja que todos se arrependam dos pecados, porque Ele quer salvar a todos” (2Pd 2,9).

A história se repete conosco. Todos nós vivemos num ritmo de espera. Não apenas da nossa morte, mas também da chegada do Cristo para nos introduzir na Casa do Pai, onde há muitas moradas (cf. Jo 14,2). Só esperar pela morte é desesperador. Mas esperar por Ele, é caminhar de esperança em esperança. Ele chega em hora inesperada (v. 13). A Sabedoria consiste em estar sempre preparado (cf. Mt 24,44). A esta atitude a Escritura chama de “vigilância”.

Todo ambiente criado por Jesus nesta parábola é de expectativa. O texto está todo dominado pelo sentido de espera. Assim também é a vida cristã. Para as virgens da parábola, a espera é preenchida com duas preocupações: manter a lâmpada acesa e ir ao encontro do esposo. Transportando este fato para a nossa vida, isto significa que devemos viver na “vigilância” e na fidelidade. O que torna isso muito urgente é que não se sabe a hora. Aquelas virgens não sabiam a hora, também nós não sabemos.

A parábola tem como pano de fundo os rituais típicos dos casamentos judaicos. De acordo com os costumes, a cerimônia do casamento começava com a ida do noivo à casa da noiva, para levá-la para a sua nova casa. Normalmente, o noivo chegava atrasado, pois devia, antes, discutir com os familiares da noiva os presentes que ofereceria à família da sua amada. As negociações entre as duas partes eram demoradas e tinham uma importante função social. Enquanto isso, a noiva, vestida a caráter, esperava na casa do seu pai que o noivo viesse ao seu encontro. As amigas da noiva esperavam também, com as lâmpadas acesas, para acompanhar a noiva, entre danças e cânticos, até à sua nova casa. Era aí que tinha lugar a festa do casamento. É neste contexto que a parábola supõe.

O Reino de Deus é, aqui, comparado a com uma das celebrações mais alegres e mais festivas que os israelitas conheciam: o banquete de casamento. As dez jovens representam a totalidade do Povo de Deus, que espera ansiosamente a chegada do Messias (o noivo). Uma parte desse Povo (as virgens prudentes) está preparada e, quando o Messias finalmente aparece, pode entrar e fazer parte do Reino; outra parte (as jovens insensatas) não está preparada e não pode entrar no Reino de Deus. A parábola não critica as virgens por dormir, uma vez que ambos os grupos fazem isso. A parábola é, pois, no seu contexto original, um apelo aos israelitas no sentido de não perderem a oportunidade de participar da grande festa do Reino.

Na Parábola das dez virgens, cinco entram na festa, porque quando o esposo chega, têm óleo para acender as próprias lâmpadas; enquanto as outras cinco permanecem fora, porque insensatas, não tinham trazido óleo suficiente. Este “óleo”, indispensável para serem admitidas ao banquete nupcial, segundo Santo Agostinho (cf. Discursos 93, 4; PL 58.575) seria o símbolo do amor, que não se pode comprar, mas que recebemos como dom do Espírito Santo (cf. Gl 5,22), conservamos no íntimo e praticamos com as obras. Quem crê em Deus, que é Amor (cf. 1Jo 4,8), tem em si uma esperança invencível, como uma lâmpada com a qual podemos atravessar a noite para além da morte, e chegar à grande festa da vida. Cristo abre a porta às virgens sensatas que estavam acordadas e entram na festa de bodas. Puderam entrar porque encheram de azeite os seus frascos, e assim impediram que a caridade, que é a chama da alma, se extinguisse. Na nossa vida de cristãos, um exercício diário, sábio e prudente é colocar todos os dias nos vasos da nossa alma e no nosso coração a gota necessária de óleo para manter o nível da nossa reserva de amor.

Em várias passagens do Evangelho Jesus pede para repartirmos e dar aos necessitados o que temos. Aparentemente, na parábola, parece haver uma contradição. As virgens que tinham óleo de reserva, se negam a dividi-lo e, apesar disso, foram privilegiadas com a festa. Acontece que a parábola fala do momento, do encontro decisivo, onde só contam nossas obras pessoais, por isto, ninguém intercede por elas. Entrar ou não entrar no paraíso é uma decisão intransferível. O cultivo da fé, simbolizada na lâmpada acesa, pode ser favorecido por outros ao longo da vida. Mas na hora que o esposo chega, na hora do meu julgamento, ninguém pode me ajudar. Há um momento no qual se acende a luz na vida do cristão ao resplendor da vela batismal. Este é o alcance do freqüente simbolismo litúrgico da luz pascal. Devemos alimentar essa luz constantemente com o amor e a fidelidade diária. Que os ventos fortes da vida não apaguem esta chama da fé que tem início com o nosso batismo.

Terminemos nossa reflexão fixando o momento conclusivo da parábola: as virgens que estavam prontas entraram na sala do banquete e a porta se fechou. Nós evocamos este momento e o antecipamos em todas as missas com as palavras: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”, isto é, felizes os convidados para ceia das núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,9). Nós somos, portanto, como aquelas cinco virgens prudentes que se sentam à mesa com o esposo. Que todos nós, presentes a este banquete eucarístico, possamos nos encontrar um dia reunidos em seu Reino, no banquete eterno, que ninguém fique fora e a porta possa estar aberta para cada um de nós. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva