VII DOMINGO DO TEMPO PASCAL – A – Solenidade da Ascensão do Senhor

Caros irmãos e irmãs

A Igreja celebra neste domingo a Solenidade da Ascensão do Senhor ao céu, o último mistério da vida do Senhor aqui na terra. É o mistério da fé que o livro dos Atos dos Apóstolos coloca quarenta dias depois da ressurreição (cf. At 1,3-11). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos e os ensinou a respeito da vida de unidade com Deus. É necessário frisar que o número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.

O Texto do Evangelho nos situa na Galileia, região setentrional da Palestina, conhecida por ser uma região próspera e povoada, de solo fértil e bem cultivado. A sua situação geográfica fazia desta terra o ponto de encontro de muitos povos; por isso, um número importante de pagãos fazia parte da sua população. Isto fazia com que os judeus desprezassem os habitantes da Galileia a ponto de dizer que da Galileia “não podia sair nada de bom” (Jo 1,46).

No entanto, foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a sua vida. Foi, também, na Galileia que Ele começou a anunciar o Evangelho e começou a reunir à sua volta um grupo de discípulos (cf. Mt 4,12-22). Para o Evangelista São Mateus, esse fato sugere que o anúncio de Jesus tem uma dimensão universal: destina-se a judeus e pagãos.

Na primeira leitura, retirada do Livro dos Atos dos Apóstolos, temos a mensagem essencial da solenidade que celebramos neste domingo: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projeto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus, a mesma vida que espera todos aqueles que percorrem o mesmo “caminho” que Jesus percorreu. 

O texto dos Atos dos Apóstolos ainda nos apresenta a frase dita pelos anjos aos Apóstolos: “Homens da Galileia, por que ficais aí a olhar para o céu?” (At 1,11). Com isto os anjos dizem aos Apóstolos que é hora de começar a imensa tarefa que os espera, e que não devem perder um só instante.  Com a Ascensão termina a missão terrena de Cristo e começa a dos seus discípulos. Eles não podem ficar a olhar para o céu, mas precisam ir para junto do povo, a fim de continuar a missão que Jesus confiou a eles.  E o próprio Jesus promete permanecer com eles de maneira invisível, mas real e eficaz, até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20).

Agora a nossa missão é santificar o mundo e, para isto, Cristo estará sempre conosco. É a promessa que ele mesmo deixou: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (v. 20).  São Mateus conclui assim seu evangelho sem mencionar a partida de Jesus porque, apesar de sua exaltação gloriosa à nova existência, Jesus permanece com os seus discípulos. A sua presença física sucede no tempo da Igreja numa presença nova, invisível, mas real. Jesus continua vivo e operante na comunidade cristã; onde dois ou mais se reúnem em seu nome (cf. At 18,20).  Cristo continua presente entre nós pela fé, pela palavra, pelos sacramentos, em especial pela Santíssima Eucaristia.

Jesus não está mais fisicamente entre nós, mas nos espera na casa do Pai e nos convida a não permanecer olhando para o alto, mas a estar juntos, unidos na oração, para invocar o dom do Espírito Santo. Só mesmo quem “renasce do alto”, isto é, do Espírito de Deus, está habilitado para entrar no Reino de Deus (cf. Jo 3,3-5).

Ainda do Evangelho sobressai uma palavra que revela a nossa missão: Sequenciar o anúncio da Sua mensagem. O Senhor envia os seus discípulos a anunciá-lo com o poder do Espírito Santo: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28, 19). É um ato de grande confiança de Jesus aos seus discípulos.  Ele confia e acredita em nós e envia-nos a continuar a sua missão; apesar das nossas fraquezas.

O texto dos Atos dos Apóstolos faz também uma referência à nuvem (v. 9) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. No Antigo Testamento a nuvem é um símbolo privilegiado para exprimir a presença de Deus junto ao seu povo (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24).  Em última análise, apresentar o Senhor envolvido na nuvem evoca o mesmo mistério expresso pelo simbolismo do sentar-se à direita de Deus. Em Cristo, que subiu ao céu, o ser humano entrou de novo na intimidade de Deus; o homem já encontra para sempre um espaço em Deus. A palavra céu, não indica um lugar acima das estrelas, mas algo muito mais ousado e sublime: indica o próprio Cristo, em quem Deus e o homem estão para sempre inseparavelmente unidos. O céu é o ser do homem em Deus. E nós nos entramos no céu, na medida em que nos aproximamos de Jesus e entramos em comunhão com Ele. 

O texto da primeira leitura ainda ressalta: “Mas recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra”. Com estas palavras Jesus despede-se dos Apóstolos. Imediatamente depois, o autor sagrado acrescenta que Cristo “foi elevado à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos” (At 1,9). É o mistério da Ascensão, que neste domingo celebramos.

Mas ainda podemos refletir sobre a expressão “foi elevado”. Com efeito, o uso do verbo “elevar” tem origem no Antigo Testamento, e refere-se à tomada de posse da realeza. Portanto, a Ascensão de Cristo significa a tomada de posse do Filho do homem crucificado e ressuscitado na realeza de Deus sobre o mundo. Este acontecimento é descrito como uma ação do poder de Deus, que introduz Jesus no espaço da proximidade divina. 

Em sua Regra, São Bento nos recomenda a nada antepor a Cristo (cf. RB 72,11). Devemos conservar o nosso coração fixo em Cristo, a nada antepor a Ele. A oração, para a qual todas as manhãs o sino do Mosteiro, com as suas badaladas graves, convida os monges a se unir ao Senhor; é a vereda que nos conduz diretamente ao coração de Deus; é o respiro da alma que nos restitui a paz nas tempestades da vida.  Que esta união com Deus pela oração e a escuta atenta da sua palavra possa alimentar a nossa fé e tornar-nos profetas da verdade e do amor.

Nesta Solenidade da Ascensão, enquanto dirigimos o nosso olhar para o Céu, onde Cristo subiu e está sentado à direita do Pai, fortaleçamos os nossos passos na terra para prosseguir com entusiasmo e coragem o nosso caminho, a nossa missão de dar testemunho e de viver o Evangelho em todos os ambientes.  Seja a nossa esperança estimulada para também nós alcançarmos o céu, onde o próprio Cristo foi preparar para nós uma morada (cf. Jo 14,2).

Peçamos uma vez mais à intercessão da Virgem de Nazaré, para que possamos contemplar os bens celestiais, que o Senhor nos promete, e a tornar-nos testemunhas cada vez mais eficazes da sua vida e da sua Ressurreição.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO PASCAL – A – Não vos deixarei órfãos

Caros irmãos e irmãs,

 O Evangelho deste sexto domingo do tempo pascal nos mostra que Jesus garante aos seus discípulos: “Não vos deixarei órfãos” (v.18) e promete o “Paráclito”; que conduzirá a comunidade cristã em direção à verdade; e a levará a uma comunhão cada vez mais íntima com o Pai. Estas palavras de Jesus soam como a um “testamento final”: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os seus discípulos vão continuar no mundo. Jesus fala a eles do caminho que percorreu e que ainda deverá percorrer, até à consumação da sua missão e convida os discípulos a seguir o mesmo caminho de entrega a Deus e de amor radical para com os irmãos.

 E Jesus assegura aos seus discípulos que vai estar presente ao lado deles, dando-lhes a coragem para prosseguir a missão a eles confiada.   É neste contexto que Jesus fala no envio do “Paráclito” que estará sempre com os discípulos (v. 16). A palavra grega “paráklêtos”, utilizada pelo evangelista São João, pertence ao vocabulário jurídico e designa, nesse contexto, aquele que ajuda ou defende o acusado. Pode, portanto, traduzir-se como “advogado”, “auxiliar”, “defensor” e também como “consolador”.

No Antigo Testamento, Deus é o grande consolador de seu povo e São Paulo assim o identifica: “Deus da consolação” (Rm 15, 4). O Espírito Santo, sendo aquele que continua a obra de Cristo, não podia deixar de definir-se, também Ele, como “o Consolador que estará convosco para sempre” (v. 16), como Jesus o apresenta.

O termo Paráclito significa ainda “intercessor”, exprime a ideia de uma assistência dada aos fiéis, como a de um advogado que encoraja seus clientes e defende suas causas.  Os discípulos, com isto, não seriam deixados à própria sorte, numa espécie de perigosa orfandade. Eles teriam sempre a quem recorrer, pois o Espírito Santo estaria continuamente com eles.

O Espírito Santo desempenhará, neste contexto, um duplo papel: em termos internos, conservará a memória da pessoa e dos ensinamentos de Jesus, ajudando os discípulos a interpretar esses ensinamentos à luz dos novos desafios; por outro lado, dará segurança aos discípulos, irá guiá-los e defendê-los quando eles enfrentarem a oposição e a hostilidade do mundo. Nas mais diversas situações é o Espírito Santo que conduzirá essa comunidade em marcha pela história, ao encontro da verdade, da liberdade plena, da vida definitiva.

No Evangelho o termo “Paráclito” é também apresentado como o “Espírito da Verdade” (v. 17).  A comunidade cristã poderia correr o risco de ser levada pelo espírito da mentira.  Por isso, precisava da presença constante do Espírito da Verdade para que todos os discípulos de Jesus pudessem continuar no bom caminho.  É o Espírito Santo que os conduzirá em direção à verdade e à vida.   

Enquanto esteve com os discípulos, Jesus os instruiu e os defendeu; mas, após a sua ascensão, será o Espírito Santo que ensinará e cuidará da comunidade de Jesus.  A sua ação se processa no interior da pessoa para ensiná-los a verdade pura e levá-los ao ensinamento de Cristo, a verdade total e dirigi-los, com seus dons, no caminho da verdade e da santidade.

A palavra “verdade” é um dos eixos sobre os quais caminhou a história da salvação no Antigo Testamento.  E, no Novo, o próprio Jesus diz de si mesmo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a vida” (Jo 14,6).  A Verdade também é uma contraposição ao erro.  A morte de Jesus, de certa maneira, era o fim de um mundo cheio de falsidades e erros, e a vitória da verdade se concretiza no único Deus e Redentor.  O Espírito Santo paráclito ajudaria aos apóstolos a compreender esse fato novo.

Em muitos momentos a humanidade procurou a verdade.  Foram muitos os que, como Pilatos, se perguntaram: “O que é a verdade?” (Jo 18,38).  E Jesus se apresenta como a Verdade e diz que veio ao mundo para dar testemunho da Verdade (Jo 18,37). Ele também promete o Espírito Santo que conduzirá os apóstolos para a Verdade (Jo 16,13).  Esta é a missão da Igreja e a nossa missão: defender a Verdade, e torná-la vitoriosa num mundo tantas vezes dominado pelo erro, o que o torna incapaz de conhecer a Verdade, pois, para conhecê-la, pressupõe os olhos da fé.

Depois de garantir aos discípulos o envio do “Paráclito”, Jesus reafirma que não os deixará “órfãos” no mundo. A palavra utilizada “órfãos” é bem significativa.  No Antigo Testamento, o “órfão” é o protótipo do desvalido, do desamparado e vítima de todas as injustiças. Jesus é claro: os seus discípulos não vão ficar indefesos, pois Ele vai estar ao lado deles.  E garante aos discípulos que mesmo indo para o Pai, irá encontrar forma de continuar presente e de acompanhar, passo a passo, a caminhada dos seus discípulos.

O Espírito Santo é quem inspira e dá vigor à pregação dos Apóstolos, que assumiram a missão de proclamar a Boa Nova.  O Paráclito dá a estes mensageiros a valentia, a perseverança, a imaginação e a linguagem apropriada para comunicar a todos o evento tão significativo e base da nossa fé: a ressurreição de Jesus Cristo.  Os apóstolos são os enviados pelo Espírito Santo, para, no mundo, serem os instrumentos utilizados para proclamar  o mundo a glória do plano de Deus.

Em cada celebração Eucarística nossa presença é a resposta à nossa fé em Deus.  Ao estarmos reunidos sentimos de maneira especial a presença do Espírito da Verdade entre nós.  Ele é o nosso único intercessor.  Toda Eucaristia nos reúne para compartilhar na comunidade o pão e o vinho, o Corpo e Sangue de Cristo.  Jesus uma vez mais se se doa a cada um de nós para darmos testemunho de seu amor aonde quer que estejamos.  Assim, nutridos com seu corpo e sangue seguimos adiante em nosso discipulado pedindo que cada vez mais o Espírito da Verdade seja o centro de nosso existir e de nosso atuar.

Também hoje a vocação da Igreja é a evangelização através dos discípulos de Jesus Cristo, onde, pelo Batismo, somos assim inseridos, fazendo parte da grande família de Deus. O Batismo abre o nosso coração para a ação do Espírito Santo, e quando chegamos a uma idade madura, recebemos ainda o sacramento da Confirmação, também conhecido como Crisma e, com isto, somos vinculados mais perfeitamente à Igreja e somos chamados a difundir e a defender a fé com a nossa palavra e com a nossa conduta, como verdadeiras testemunhas de Cristo. Mediante este sacramento nosso compromisso na Igreja torna-se ainda maior. Somos chamados a proclamar o Evangelho, porque o Espírito Santo também está conosco e nos proverá todo o necessário para esta missão.  

E como discípulos de Cristo, saibamos imitar os apóstolos, os santos e, sobretudo, a Virgem Maria, aquela que, por meio do Espírito Santo, recebeu a mensagem do anjo Gabriel e aceitou a missão de ser a mãe do Salvador.  Que ela interceda por todos nós, para que, participando regularmente na Eucaristia, nos tornemos também testemunhas da Verdade e do bem em todos os lugares, e que o anúncio do Evangelho atinja o coração de muitas pessoas e multipliquem e alarguem no mundo os espaços nos quais os homens reencontrem a alegria de viver como filhos de Deus.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO PASCAL – A – Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

Caros irmãos e irmãs

O trecho do Evangelho deste domingo é o primeiro dentre os três discursos de despedida, pronunciados por Jesus durante a Última Ceia, onde procura consolar e animar os apóstolos: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (v. 1). Estas palavras nos permitem identificar a situação da comunidade à qual o evangelista se dirige. No primeiro século do cristianismo eram grandes as perseguições e os discípulos de Jesus certamente estavam perturbados, desanimados e desorientados, por isto, estas exortações de ânimo e de esperança dirigidas a eles. 

Em seguida, Jesus anuncia a sua partida para a casa do Pai, isto é, sua morte e ressurreição: “Vou preparar um lugar para vós” (v.2). Essas palavras visam acender nos discípulos a certeza da volta de Jesus, quando estiver preparado também o nosso lugar junto a Ele. Com isto, a morte do cristão torna-se semelhante à morte do Cristo, como vai dizer São Paulo: “Meu desejo é partir e ir estar com Cristo” (Fl 1,23). A Páscoa renova em nós esta fé, revigora em nós a esperança de estar na intimidade com Deus, em Jesus Cristo.  

Também nesta mesma passagem do evangelho Jesus afirma: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (v. 6). É esta a outra razão para que os seus discípulos fiquem em paz: na pessoa de Jesus, na sua vida, morte e ressurreição está o caminho para viver a vida verdadeira. Cristo é o caminho que conduz ao Pai, a verdade que dá significado à existência humana, e a fonte daquela vida que é alegria eterna com todos os Santos no Reino dos céus.

Ao dizer: “Eu sou o caminho”, Jesus quer afirmar que só Ele nos conduz ao Pai. Ele é o Caminho, isto é, não há outro. E ressalta: “Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v. 6). Ao se identificar como “caminho”, Jesus retoma uma imagem conhecida dos seus ouvintes.  Todos eles sabiam que para se ir de um lugar a outro, faz-se necessário o uso de uma estrada, isto é, chão para se caminhar.  O Salmo 25,4, diz: “Mostra-me, Senhor, o teu caminho”. Jesus não é apenas alguém que ensina o caminho.  Ele é o próprio Caminho, por onde temos de passar. Jesus torna-se o caminho único que leva ao Pai. Esta é uma grande novidade do Novo Testamento: Jesus é o único acesso das criaturas para Deus (v. 6). É através de Jesus que nós chegamos à comunhão com Deus. Portanto, para os cristãos, para cada um de nós, o Caminho para o Pai é deixar-nos guiar por Jesus, pela sua palavra de Verdade, e acolher o dom da sua Vida. 

A palavra “verdade” é usada aqui no sentido bíblico, que é diferente do sentido comum e atual.  Significa: revelação. Dizendo “Eu sou a Verdade” (v. 6), Jesus quer afirmar que ele é a única revelação do Pai.  Não há outro meio de conhecermos algo sobre Deus e o sobrenatural a não ser por Jesus Cristo.  Ele não é apenas um mestre que ensina a Verdade. Ele é a própria verdade, que devemos conhecer e com a qual devemos nos identificar. Ele não é apenas alguém que promove a vida ou que transmite a vida, Ele é a própria Vida que devemos viver. Também somos chamados a nos associarmos a São Paulo que diz: “Para mim o viver é Cristo” (Fl 2,21). Por conseguinte, só crendo em Cristo, só permanecendo unidos a Ele, os seus discípulos, entre os quais estamos nós também, podemos continuar a sua ação permanente na história.

A fé em Jesus exige que o sigamos quotidianamente nas simples ações que compõem o nosso dia. Santo Agostinho afirma que era necessário que Jesus dissesse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), porque quando se conhece o caminho, só falta conhecer a meta, e a meta é o Pai (cf. S. AGOSTINHO, Tratactus in Ioh., 69, 2: CCL 36, 500). Portanto, para os cristãos seguir o caminho para o Pai é deixar-se guiar por Jesus, pela sua palavra de Verdade, e acolher o dom da sua Vida. 

O Evangelho nos ensina que a verdadeira liberdade floresce quando nos afastamos do jugo do pecado, que ofusca as nossas percepções e enfraquece a nossa determinação. Deus criou o homem com uma vocação inata para a verdade e, por isso, dotou-o de razão. Todo o ser humano deve perscrutar a verdade e optar por ela quando a encontra, mesmo correndo o risco de enfrentar sacrifícios. A verdadeira liberdade é um dom gratuito de Deus, o fruto da conversão à sua verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32). 

Jesus ainda nos exorta: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,31). Com efeito, a verdade é um anseio do ser humano, e procurá-la supõe sempre um exercício de liberdade autêntica. Muitos, todavia, preferem os atalhos e procuram evitar essa tarefa. Alguns, como Pôncio Pilatos, ironizam a possibilidade de conhecer a verdade (cf. Jo 18,8), proclamando a incapacidade do homem de alcançá-la ou negando que exista uma verdade para todos.

Esta atitude produz uma transformação no coração, tornando as pessoas frias, vacilantes, distantes dos demais e fechadas em si mesmas. São pessoas que lavam as mãos, como o governador romano, e deixam correr o rio da história sem se comprometer. Quando nos colocamos no “pensamento de Cristo” (cf. Fl 2,5), novos horizontes se abrem. À luz da fé, dentro da comunhão com Cristo, passamos também a ser luz do mundo e sal da terra (cf. Mt 5,13-14).

Tenhamos sempre consciência de que somente Jesus é o caminho que conduz à felicidade eterna, a verdade que satisfaz os desejos mais profundos de cada coração, e a vida que oferece alegria e esperança sempre nova a nós e ao nosso mundo. Não hesitemos em seguir Jesus Cristo, pois somente nele encontramos a verdade sobre Deus. Quem pratica o mal e adere ao pecado, torna-se escravo do pecado e nunca alcançará a liberdade (cf. Jo 8,34). Somente renunciando ao ódio e ao nosso coração endurecido e cego é que seremos livres, e uma vida nova germinará em nós.

Imitemos o Filho de Deus que é o Caminho, não apenas pelos Seus exemplos e ensinamentos, mas também porque Ele se identifica com a Verdade e a Vida. Também devemos ter o compromisso de anunciar o Cristo a todos. Esta é a tarefa principal da Igreja, comunicar a mensagem de Salvação, para que a Palavra de Deus se difunda e o número dos discípulos se multiplique (cf. At 6,7).

Invoquemos a proteção maternal da Virgem Maria para que nos faça abrir o nosso coração ao Cristo Senhor, para que ele entre em nossa vida e nos faça olhar o futuro com esperança.  Que tenhamos sempre consciência de que só Ele é o Caminho que conduz à felicidade que não termina; a Verdade que satisfaz as mais nobres aspirações humanas e a Vida cheia de alegria e paz.  Assim seja.

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO PASCAL – A – Eu sou a porta das ovelhas!

Caros irmãos e irmãs,

Neste quarto domingo do tempo pascal celebramos o “Domingo do Bom Pastor”, onde a Liturgia da Palavra nos apresenta um trecho do Evangelho segundo São João, sendo Jesus apresentado como o Bom Pastor. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em abundância. 

A Sagrada Escritura nos apresenta a figura do pastor desde a mais longínqua antiguidade: “Caim era lavrador, Abel era Pastor (cf. Gn 4,2). Também Davi foi pastor em Belém (cf. 1Sm 16,11) a quem é atribuído o Sl 22 onde descreve a imagem de Deus como Pastor. O Salmo sublinha como o pastor guia seu rebanho para verdes pastagens e para águas tranquilas. O salmista acentua a dedicação total do pastor e a confiança total do rebanho.

No Novo Testamento esta imagem é transferida para Jesus Cristo, o Deus conosco.  Em diversos momentos, Jesus vai assumir essa figura de pastor, como acentua, por exemplo, o Evangelho deste domingo, cujo texto está dividido em duas parábolas. Na primeira parábola (cf. Jo 10,1-6), Jesus se apresenta como o Pastor. E como Bom Pastor Ele conhece as “ovelhas” e as chama pelo nome, mantendo com cada uma delas uma relação única, especial, pessoal. Elas fazem parte do rebanho de Jesus e escutam a sua voz. O pastor caminhará à frente das ovelhas e elas o seguem (v. 4). Ele indica o caminho, pois Ele próprio é o caminho (cf. Jo 14,6) que leva à vida. Isso significa, concretamente, tornar-se discípulo, aderir a Jesus, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu na entrega total aos projetos de Deus e na doação aos irmãos. 

Muito cedo a Igreja utilizou esta imagem do pastor para indicar a presença de Jesus a cuidar de seu rebanho, conforme testemunham nas antigas ilustrações das catacumbas, sejam em pinturas ou esculturas, onde, normalmente, o pastor traz a ovelha nos ombros, como narra a Sagrada Escritura. Assim como um rebanho ficava aos encargos e cuidados de uma pessoa, da mesma maneira nós somos guiados e protegidos por Jesus. 

Na segunda parte (cf. Jo 10,7-9), Jesus se apresenta como a porta. No que diz respeito às ovelhas, isto significa que Jesus é o único lugar de acesso para que elas possam encontrar as pastagens para nutrir a vida. Passar pela porta que é Jesus significa segui-lo, acolher as suas propostas. A porta é um dos símbolos do Cristo. Ele disse: “Eu sou a porta” (Jo 10,9). Através dele encontramos a nós mesmos e encontramos os outros. E Cristo ainda completa: “Quem entrar por mim tem a vida!” (Jo 10,9). Quem entrar por Ele não fica desiludido, não sairá defraudado e encontrará orientação para a vida. Cristo é a porta que está sempre aberta. E cada um de nós também é chamado a passar por esta porta.

No tempo de Jesus, os pastores costumavam constuir nos campos um abrigo para a noite. Um retângulo cercado por pequeno muro de pedra, com uma única porta e, propositadamente, estreita.  Durante a noite vários pastores levavam ao abrigo suas ovelhas e um deles ficava de vigia a noite toda.  Pela manhã, cada pastor chamava suas ovelhas, elas saíam pela única porta estreita, ele as contava e as levava a pastar.  Mas também as cidades naquela época eram muradas.  Em Jerusalém, sobretudo, eram famosas as muralhas de Salomão e Herodes.  Entrava-se e saía-se das cidades somente pela porta.  Por isso, a porta significava proteção e segurança.  Era na porta da cidade que se recebiam os que chegavam e se despediam os que partiam. 

Jesus, ao se comparar com uma porta, está dizendo que somente por Ele se entra no abrigo, somente por ele se entra na cidade de Deus, no Reino dos Céus. Mas também está dizendo que somente nele podemos encontrar segurança e proteção. 

Ele é o único caminho pelo qual se pode entrar no Reino de Deus.  O pastor abre a porta para as ovelhas.  Jesus se compara a este Pastor que abre as portas e nos leva ao Pai. Jesus é o caminho seguro e certo para toda a humanidade. A porta dá acesso à salvação e por ela entram os fiéis na casa de Deus.  

A atitude do rebanho em relação ao Bom Pastor é apresentada pelo Evangelista com dois verbos específicos: ouvir e seguir. Estas palavras designam as características fundamentais daqueles que vivem o seguimento do Senhor. Antes de tudo, é pela escuta da sua Palavra, que a fé nasce e se alimenta. Só quem presta atenção à voz do Senhor é capaz de avaliar na própria consciência as justas decisões para agir segundo Deus. Por conseguinte, da escuta deriva o seguir Jesus: agimos como discípulos após ouvir e aceitar interiormente os ensinamentos do Mestre, para vivê-los no cotidiano. 

Com muita espontaneidade esse título de pastor passou a ser aplicado aos ministros da Igreja.  Aliás, Pedro foi oficialmente constituído pastor do rebanho de Cristo. As palavras de Jesus dirigidas a Pedro indicam a sua missão de guardar todo o rebanho do Senhor: “Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15-17).  Assim Pedro é constituído pastor e guia de toda a Igreja.  Essa imagem de pastor passará também a ser o modelo daqueles que são chamados ao ministério episcopal.  Na ordenação de um bispo, ao receber as insígnias de sua dignidade, é entregue a ele o báculo, símbolo mais evidente do pastor.  

O Bom Pastor será ainda o ideal de todo aquele que se dedica ao anúncio do Reino, modelo do serviço e da exposição da própria vida aos perigos, por causa do rebanho que lhe é confiado. Efetivamente a missão de Cristo prossegue ao longo da história, através da obra dos Pastores aos quais Ele confia o cuidado do seu rebanho.  Como fez com os primeiros discípulos, Jesus continua a escolher para si novos colaboradores que cuidam do seu rebanho mediante o ministério da Palavra e dos Sacramentos.  

A Igreja celebra ainda neste domingo o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. E não só vocações sacerdotais, mas também religiosas, uma vez que os religiosos, ao lado dos sacerdotes da Igreja, colaboram na edificação do reino de Deus.  Hoje somos também convidados a pedir ao Senhor por aqueles que estão se preparando para o sacerdócio e também por todos os ministros da Igreja.  Jesus disse aos apóstolos “vem e segue-me” (Mt 19,21).  Este mesmo chamado deve ressoar aos ouvidos dos homens de nosso tempo.  E neste contexto litúrgico, de modo particular e significativo, peçamos ao Senhor que jamais deixe de suscitar pessoas que O sigam de modo total na orientação do seu rebanho.  Peçamos também que ele sustente as vocações, em especial os sacerdotes, para que possam ser autênticos ministros do Cristo Bom Pastor, para que os fiéis, mediante a Palavra e os sacramentos, “tenham vida” e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10).

O bom exemplo de um sacerdote é um incentivo para outros jovens seguirem o Cristo com igual disponibilidade. Por isto, neste dia dedicado às vocações, peçamos ao “Senhor da messe” que possa continuar enviando operários para a sua vinha, porque “a messe é grande” (Mt 9, 37). Fortalecidos pela alegria pascal e pela fé no Ressuscitado, confiemos as nossas intenções à Virgem Maria, a quem invocamos como Porta do Céu e Mãe de todas as vocações, para que, com a sua intercessão, suscite e ampare numerosas e santas vocações para o serviço do Reino de Deus. Amém.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ