III DOMINGO DO TEMPO PASCAL – A – O encontro de Jesus com os discípulos de Emaús

Caros irmãos e irmãs,

    Neste terceiro domingo do tempo pascal o texto evangélico nos apresenta uma narrativa da aparição de Cristo ressuscitado a dois discípulos que caminhavam de Jerusalém para Emaús.  Ao longo do texto o evangelista São Lucas coloca nos lábios de um dos peregrinos: “Nós esperávamos…” (v. 21). Este verbo no passado mostra a perda da esperança dos caminhantes… nós tínhamos acreditado… tínhamos seguido… tínhamos esperado… mas, tudo chegou ao fim. Também Jesus de Nazaré, que havia se mostrado como profeta poderoso em obras e em palavras, fracassou, e ficamos desiludidos (v. 21ss).

    Este drama dos discípulos de Emaús aparece como um reflexo da situação de muitos cristãos do nosso tempo. Parece que a esperança da fé fracassou. A própria fé entra em crise, por causa de experiências negativas que nos fazem sentir abandonados pelo Senhor. Mas este caminho de Emaús em que estamos, pode se converter então em caminho de purificação e amadurecimento da nossa fé em Deus. Também hoje podemos entrar em diálogo com Jesus, escutando sua Palavra. Também hoje Ele parte o pão para nós e se entrega como nosso pão. O nosso encontro com Cristo Ressuscitado é possível também hoje, quando nos encontramos ao redor do altar e nos alimentamos da Palavra de Deus e da Sua presença real na Eucaristia.

    Na sequência do relato evangélico, o autor ressalta a presença de Jesus, que se faz companheiro de viagem destes discípulos em caminhada, interroga-os sobre o que se passou nestes dias em Jerusalém, escuta as suas preocupações, torna-se o confidente das suas frustrações.  Os dois homens contam a história do Mestre, cuja proposta os seduziu; mas a versão que relatam termina no túmulo: falta a fé no Senhor ressuscitado.

    Quando Jesus se aproxima dos caminhantes, eles não têm olhos para reconhecê-lo, porque a desilusão lhes perturba o espírito.  Nem sequer as notícias do sepulcro vazio e de sua ressurreição, anunciada pelos anjos, constatada por Maria Madalena e as verificações posteriores do fato foram capazes de fazer brotar neles a esperança.  Os discípulos de Emaús se sentem tristes e derrotados. Estão eles desanimados e sem vida. Não acreditam e nem esperam mais nada. 

    Os três, Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado, chegam, finalmente, à aldeia de Emaús. Os discípulos continuam a não reconhecer Jesus, mas o convidam a ficar com eles: “Fica conosco Senhor!”. A noite e os perigos da estrada são os pretextos dos dois discípulos para ficar na segurança transmitida por aquele homem, que imediatamente aceita o convite, pois sabe que a hora de revelar toda verdade aos discípulos se aproxima: o momento da partilha do pão.

    Enquanto comiam, “Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 30-31). Estas palavras usadas pelo evangelista São Lucas para descrever os gestos de Jesus evocam a celebração eucarística da Igreja primitiva. Dessa forma, São Lucas recorda aos membros da sua comunidade que é possível encontrar Jesus vivo e ressuscitado e que continua a fazer-se companheiro dos homens nos caminhos de sua história. 

    Neste texto evangélico é possível também constatar a estrutura da Santa Missa: na primeira parte, a escuta da Palavra através da Sagrada Escritura; na segunda, a liturgia eucarística e a comunhão com Cristo presente no Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. O evangelista, para contar o que os discípulos de Emaús narram, utiliza uma expressão que, na Igreja primitiva, possuía um preciso significado eucarístico: “O tinham reconhecido ao partir o pão” (v. 35). É neste momento decisivo que os olhos dos discípulos se abrem e eles reconhecem Jesus (v. 31). A partir de então é supérflua a presença física de Jesus entre eles.  Jesus desaparece porque a comunidade possui os dois sacramentos da Sua presença: a Palavra e a Eucaristia.  Basta viver isto para sentir o Cristo vivo em nosso meio.

    Na última cena da nossa história os discípulos a retomam o caminho, regressam a Jerusalém e anunciam aos irmãos que Jesus está, efetivamente, vivo. Há um grande esforço que deve ser realizado para que cada cristão se transforme em testemunha, a anunciar com vigor e com alegria o acontecimento da morte e da ressurreição de Cristo.  Ao fazer a experiência do encontro com Cristo vivo e ressuscitado na celebração eucarística, cada crente é, implicitamente, convidado a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e a testemunhar que Jesus está vivo e presente na história e na caminhada dos homens.

    Em nossa caminhada pela vida fazemos frequentemente a experiência do desencanto, do desalento, do desânimo, como ocorreu inicialmente com os discípulos de Emaús. As crises, os fracassos, o desmoronamento daquilo que julgávamos seguro e em que apostamos tudo, bem como a falência dos nossos sonhos, nos deixam frustrados, perdidos, sem perspectivas. Então, parece que nada faz sentido e que Deus desapareceu do nosso horizonte.  No entanto, de acordo com o evangelho deste domingo,  mesmo diante das dificuldades e dos temores, Jesus, vivo e ressuscitado, caminha ao nosso lado. Ele é esse companheiro de viagem que encontra formas de vir ao nosso encontro, mesmo que nem sempre sejamos capazes de reconhecê-lo imediatamente, mas só Ele pode encher o nosso coração de esperança.

    E hoje, possamos fazer nossa a súplica dos discípulos de Emaús: Fica conosco, Senhor, nos acompanhe ao longo do nosso itinerário da nossa vida. Fica conosco, porque ao redor de nós as sombras vão se tornando mais densas e necessitamos da sua luz para iluminar o nosso caminho.  Fica conosco, Senhor, se porventura ao redor de nossa fé surgirem as névoas da dúvida, do cansaço ou da dificuldade. Iluminai todos os dias as nossa mente com a tua Palavra.

    Fica conosco Senhor e sede a força a nos sustentar perante as dificuldades cotidianas, venha em nosso auxílio e fortalecei cada um de nós, diante das provações e dos sofrimentos que porventura vierem surgir. Ficai conosco Senhor, nos momentos de desânimo, nos momentos de decepção.  Fica conosco no entardecer da nossa vida. Concedei-nos o dom da unidade, ajudai-nos a cultivar o bem e a paz; fazei com que o nosso coração se abra ao perdão e à reconciliação. Acompanha-nos, como fizeste com os discípulos de Emaús, no nosso caminho pessoal e familiar. Ficai conosco, ficai em nossas casas, em nossos lares.  Abri os nossos olhos, para que saibamos sempre reconhecer os sinais da tua presença a caminhar com cada um de nós, a sanar as nossas dores e a curar as nossas feridas.

    Hoje queremos repetir as palavras dos discípulos: “Senhor, ficai conosco!” (Lc 24,29). Ficai conosco e ajudai-nos a caminhar sempre ao longo da senda que leva à Casa do Pai. Ficai conosco na vossa palavra – naquela palavra que se torna sacramento: a Eucaristia da vossa presença. E é justamente no Santíssimo Sacramento do altar que Jesus mostra a sua vontade de ficar conosco, de viver em nós, de doar-se a nós, pois só Ele pode transformar a nossa vida, os nossos pensamentos, o nosso coração.  

    Intercedei também por nós a Virgem de Nazaré, para que cada cristão e cada comunidade, revivendo a experiência dos discípulos de Emaús, redescubra a graça do encontro transformador com o Senhor Ressuscitado. Assim seja. 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

II DOMINGO DO TEMPO PASCAL – A – Jesus aparece aos Apóstolos

Caros irmãos e irmãs,

    Nestes dias a Igreja canta sua fé e a sua alegria pascal, porque celebramos a Ressurreição do Cristo Senhor. Ressoa ainda em nossos ouvidos o Salmo: “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117,24). Cada domingo da Páscoa se reveste de uma solenidade especial, com leituras apropriadas, ressaltando o importante momento litúrgico.  E neste domingo, a primeira leitura nos apresenta um significativo trecho do Livro dos Atos dos Apóstolos, onde sintetiza o estilo de vida dos primeiros cristãos: comunidade de fé, comunidade de vida, comunidade de oração e ainda descreve os primeiros tempos da Igreja, como comunidade da Palavra e da Eucaristia:  “Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna e à fração do pão” (At 2,42), costume que se perpetua até os nossos dias.

    Em cada domingo, somos chamados a imitar estes exemplos dos primeiros cristãos e nos reunimos para ouvir os ensinamentos dos apóstolos e para participar na fração do pão e na oração comum.  Que possamos continuar sendo esta comunidade fraterna e reunida em seu nome, para que o próprio Cristo possa estar no meio de nós.

    O Evangelho nos apresenta as duas aparições de Jesus aos seus discípulos: uma na tarde do dia da Ressurreição, e a outra, oito dias depois. O texto que nos é proposto está dividido em duas partes bem distintas. Na primeira parte (v. 19-23), descreve-se uma “aparição” de Jesus aos discípulos. Pode-se observar em um primeiro momento a situação de insegurança e de fragilidade em que a comunidade estava: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, e Jesus aparece no meio deles, “no centro” (v. 19). Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-se como ponto de referência como um fator de unidade.

    Os discípulos estão reunidos ao seu redor, pois ele é o centro onde todos vão buscar as forças necessárias para que possam vencer o “medo” e a hostilidade do mundo.  A estes discípulos, enfraquecidos pelo medo, ao anoitecer, sinal de trevas de um mundo indiferente, Jesus transmite duplamente a paz (v. 19 e 21). É o “shalom” hebraico, que tem o sentido de harmonia, serenidade, tranquilidade, confiança. Assegura-se, assim, aos discípulos que ele venceu aquilo que o assustava, ou seja, a morte, a opressão, a apatia do mundo; e que, de agora em diante, os discípulos não têm razão para ter medo. Jesus já havia dito muitas vezes a eles: “Não tenhais medo”.

    Em seguida, vimos que Jesus “soprou” (v. 22) sobre os discípulos reunidos à sua volta. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto de Gn 2,7, quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida. Com o “sopro” de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente.  Ao soprar sobre os Apóstolos, Jesus transmite a eles a vida nova que os fará homens novos. Com isto, eles passam a ser portadores do Espírito Santo, a vida de Deus, para poderem, como Jesus, doar-se também aos outros. 

    Na segunda parte do Evangelho (vv. 24-29), encontramos uma catequese sobre a fé, onde o apóstolo Tomé faz uma experiência de Cristo vivo.  O texto nos faz rever a experiência do encontro dos apóstolos com o Cristo ressuscitado, que aparece no cenáculo, na noite do mesmo dia da ressurreição, “o primeiro da semana”, e sucessivamente “oito dias depois” (cf. Jo 20,19.26). Aquele dia, chamado posteriormente de “domingo”, que quer dizer “dia do Senhor”, o dia em que a comunidade cristã se reúne para celebrar a Eucaristia. Com efeito, com a celebração do Dia do Senhor os primeiros cristãos iniciam um culto diverso em relação ao sábado judaico.

    Em cada Celebração Eucarística temos um encontro com o Senhor Ressuscitado, que torna-se realmente presente no meio da comunidade, fala-nos nas Sagradas Escrituras e parte para nós o Pão de vida eterna. Através destes sinais nós vivemos a mesma experiência dos apóstolos, isto é, o fato de ver Jesus e ao mesmo tempo de não o reconhecer; de tocar o seu corpo e estar em comunhão com Ele.

    O texto evangélico nos diz que Jesus “apareceu”; ou seja, ele “deixou-se ver”.  Na verdade, depois da ressurreição, Jesus pertence a uma esfera da realidade, que normalmente se subtrai aos nossos sentidos.  Não pertence mais ao mundo perceptível com os sentidos, mas ao mundo de Deus. Por conseguinte, só pode vê-lo aquele a quem ele próprio o concede.  Ele deixa as suas chagas serem tocadas por Tomé, todavia, Ele não é um homem que voltou a ser como antes da morte. Impressiona, acima de tudo, o fato de os discípulos, em certas aparições, em um primeiro momento não o reconhecerem.  Isto acontece não só aos discípulos de Emaús, mas também a Maria Madalena e, depois, uma vez mais, junto do mar de Tiberíades. Em outras palavras trata-se de um reconhecer a partir de dentro.

    Jesus chega estando as portas fechadas, apresenta-se de improviso no meio dos apóstolos, atingidos pelo medo.  E, correlativamente, desaparece, como no fim do encontro com os discípulos de Emaús. Jesus aparece plenamente corpóreo, mas não está ligado às leis da corporeidade e liberdade dos vínculos do corpo, manifesta-se a essência peculiar, misteriosa, da nova existência do Ressuscitado.  Com efeito, ele é o mesmo, ou seja, Homem de carne e osso, e Ele é também o novo, aquele que entrou em um gênero diverso de existência. O fato é que Jesus é verdadeiramente homem; e como homem, Ele sofreu e morreu; agora vive de modo novo na dimensão do Deus vivo; aparece como verdadeiro homem, todavia, a partir de Deus: e ele mesmo é Deus.  Jesus não voltou à existência empírica, sujeita à lei da morte, mas ele vive de modo novo na comunhão com Deus (cf. BENTO PP XVI, Jesus de Nazaré: Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, Rio de Janeiro, 2011, p. 238).  

    É importante conhecermos alguns símbolos pascais, que se revestem de expressivos significados. Dentre estes símbolos, pode-se destacar o Círio Pascal, que representa o Cristo ressuscitado, vencedor das trevas e da morteA palavra “círio” vem do latim “cereus”, que se pode traduzir por de cera. É o símbolo de Cristo – Luz -, e é colocado sobre uma coluna ou candelabro, devidamente ornamentado, até o dia de Pentecostes. Desde os primeiros séculos o Círio é um dos símbolos mais expressivos do Tempo Pascal. Nele encontramos uma inscrição em forma de cruz, acompanhada da data do ano em curso e das letras Alfa e Ômega, a primeira e a última letra do alfabeto grego, para indicar que a Páscoa do Senhor Jesus, é o princípio e fim do tempo e da eternidade, e nos alcança com força sempre nova no ano concreto em que vivemos. O Círio Pascal tem ainda incrustados em sua cera cinco cravos de incenso que simbolizam as cinco chagas do Cristo.

    Uma vez concluído o tempo Pascal, o Círio é conservado no batistério. É usado durante os batismos e nas exéquias, para ressaltar o princípio e o fim da vida temporal, para simbolizar que um cristão participa da luz de Cristo ao longo de todo o seu caminho terreno, como garantia de sua incorporação definitiva à Luz da vida eterna. Além do simbolismo da luz, o Círio Pascal tem também o marco de uma oferenda, como cera que se consome em honra de Deus, espalhando sua Luz. A Ressurreição de Cristo nos faz lembrar que também devemos ser luz, a fim de levarmos a luz aos outros. Para isso, devemos estar unidos a Cristo, como diz São Paulo: Instaurar todos em Cristo (Ef 1,10). 

    Contudo, possamos todos nós fazer esta mesma experiência de Tomé e, com ele, coloquemos também as nossas mãos no lado traspassado de Jesus e professemos: “Meus Senhor e meu Deus” (Jo 20,28).  Que possamos reconhecer no Cristo Ressuscitado o nosso Senhor e o nosso Deus, assim como fizeram também muitos santos, que souberam edificar a Igreja com o testemunho de fé, de amor e de coragem, e anunciaram Jesus Cristo com os seus ensinamentos e com o testemunho de vida. Que eles possam interceder por nós, para que possamos também, sem cessar, buscar a santidade e continuar a nossa peregrinação a caminho da pátria celeste.  Assim seja. 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

DOMINGO DA RESSUREIÇÃO DO SENHOR

Caros irmãos e irmãs,

    Neste domingo a liturgia nos faz chegar ao domingo da Páscoa, quando somos convidados a olhar o túmulo vazio de Jesus e, com admiração e gratidão, refletir sobre o grande mistério da Ressurreição do Senhor. A vida venceu a morte!

    Já na Vigília pascal, entoamos novamente o grito da alegria, o “Aleluia”, uma palavra hebraica conhecida em todas as línguas e que significa “Louvai o Senhor”.  Este grito do Aleluia volta a ressoar para indicar a nossa alegria diante da Ressurreição do Senhor. Mas este aleluia pascal deve imprimir profundamente em nós o desejo de constantemente louvar o Senhor, pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós.  E como consequência disso, cada cristão é chamado a ser proclamador de uma vida nova, deve fazer morrer em si o “velho homem”, o homem marcado pelo pecado; e fazer ressurgir o “homem novo”, configurado a Cristo ressuscitado. 

    O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos apresenta para este domingo começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “No primeiro dia da semana”. Significa que com a ressurreição de Jesus começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus. 

    A primeira personagem em cena é Maria Madalena. Ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda quando o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”.  Em seguida, ela corre, com medo, mas feliz, para comunicar esta notícia aos discípulos de Jesus.  

    Na sequência, o texto evangélico nos apresenta a visita de Pedro e do discípulo que Jesus amava ao túmulo vazio.  O evangelista São João narra com exatidão os detalhes da cena: as faixas de linho, que tinham envolvido o corpo, estavam lá depositadas e o pano da cabeça estava enrolado e colocado à parte (cf. v. 6-7). Esta minuciosa descrição do evangelista tem a finalidade de excluir a teoria do roubo do cadáver.

    O túmulo vazio é um argumento decisivo em favor da ressurreição de Jesus. É isto, como de fato, que expressa na confissão do discípulo amado que vai até ao túmulo na companhia de Pedro: “Ele viu e acreditou” (v. 8). Isto supõe que o discípulo amado terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana.  Mediante os sinais da morte: o túmulo, os lençóis, o sudário… o discípulo vê os sinais da vida. Na verdade, vê sem ter visto ainda, e já começa a crer ou a dar crédito, até que sua fé seja plenamente confirmada e esclarecida pelas aparições.  

    Com relação ao Apóstolo Pedro, parece que ele é vencido não só na corrida material, mas também na espiritual.  O discípulo que Jesus amava, identificado pela tradição como o apóstolo João, mostra a sua fé na ressurreição; quanto Pedro, embora vendo as mesmas coisas, limita-se a constatar e não chegar ainda à fé na ressurreição (cf. Jo 20,3-10).  

    Também quando Jesus aparece junto ao mar de Tiberíades é mais uma vez o discípulo que Jesus amava que o reconhece, enquanto Pedro, só mais tarde o reconhece (cf. Jo 20,7).  A não identificação do nome do discípulo que Jesus amava no texto, pode ser um indicativo de que todos nós devemos estar no lugar deste discípulo. Acreditar que Cristo ressuscitou para estar conosco. 

    Cada domingo, com a recitação do Credo, nós também renovamos a nossa profissão de fé na ressurreição de Cristo, acontecimento surpreendente que constitui a chave de volta do cristianismo.  A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento e pregada como parte essencial do mistério pascal (cf. CIgC 638).

    Na Igreja tudo se compreende a partir deste grande mistério, que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração eucarística. Mas existe um tempo litúrgico no qual esta realidade central da fé cristã, na sua riqueza doutrinal e inexaurível vitalidade, é proposta aos fiéis de modo mais intenso, para que cada vez mais a redescubram e mais fielmente a vivam: é o tempo pascal. Um tempo em que a Igreja revive, em cada celebração, onde temos a alegria de vivenciar a ressurreição do Cristo Senhor.  Páscoa é a passagem de Jesus da morte para a vida, na qual se cumprem em plenitude as antigas profecias. 

    A morte do Senhor demonstra o amor imenso com que Ele nos amou até ao sacrifício por nós; mas só a sua ressurreição é “prova certa”, é certeza de que quanto Ele afirma é verdade que vale também para nós, para todos os tempos. E o Apóstolo São Paulo nos ensina na sua Carta aos Romanos: “Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou do entre os mortos, serás salvo” (Rm 10, 9).

    O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus consequentemente torna-se frágil o testemunho dos crentes. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição, tudo desmorona. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas. Certamente é a fé na ressurreição que sustentou e deu coragem aos primeiros discípulos e também aos mártires ao longo da história. É o encontro com Jesus ressuscitado que motivou muitos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para O seguir e colocar a própria vida ao serviço do Evangelho. 

    Esta verdade marcou também de forma tão profunda na vida dos apóstolos que, após a ressurreição, sentiram novamente a necessidade de continuar propagando os ensinamentos do Mestre e, ao receberem o Espírito Santo, saíram pelo mundo inteiro, para anunciar a todos o que tinham visto com os próprios olhos e experimentaram pessoalmente.  O mesmo pode-se dizer de São Paulo, cuja fé na ressurreição de Cristo o levou a dizer: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1Cor 15,14).

    Podemos dizer aina que a ressurreição de Cristo, e o próprio Cristo Ressuscitado, é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram… Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida” (1Cor 15,20-22).  Cristo verdadeiramente ressuscitou! Não podemos reter somente para nós a vida e a alegria que Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos doá-la a quantos nos são próximos. É o nosso objetivo e a nossa missão continuar anunciando, assim como fez Maria Madalena, que Cristo Ressuscitou e caminha conosco ao logo da vida.

    Na expectativa de que isto se realize, peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que possamos progredir sempre mais na fé, agora iluminada pela Ressurreição do Senhor, para que possamos ser para todos os que encontrarmos pelo nosso caminho, mensageiros da verdadeira luz e da alegria da Páscoa.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SEXTA-FEIRA SANTA

Caros irmãos e irmãs,

    A sexta-feira santa é o único dia do ano em que não se celebra missa. A eucaristia é a celebração de Deus vivo e, por isto, não faz sentido celebrar a eucaristia no dia em que Cristo morre. A Igreja está recolhida, em oração. Dia de penitência. Dia de jejum. Dia de abstinência de carne. Dia em que devemos voltar nossos pensamentos para viver os sofrimentos atrozes vividos pelo Salvador e Redentor da humanidade.

    A liturgia nos faz sentir, de maneira especial, o significado do sofrimento de Cristo, e as duas leituras que preparam o Evangelho são fundamentais para penetramos no Mistério que celebramos. A leitura da Paixão segundo João constitui o modo privilegiado de acesso ao mistério pascal, que neste dia revivemos, sobretudo como morte do Senhor. A primeira Leitura (cf. Is 52,13-53,12) é o quarto canto do Servo de Javé. Nesta leitura retirada do livro do profeta Isaías, a Igreja nascente encontrou, através das nuvens da história antiga, o fio que a existência de Jesus retornou e levou ao fim: a doação da vida do justo, pela salvação dos homens e mulheres, pela salvação dos irmãos, mesmo dos que o rejeitaram e mesmo daqueles que o traíram.

    Já a segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus (cf. Hb 4,14-16;5,7-9), coloca em evidencia que Jesus participou em tudo de nossa condição humana. Assim, devemos nos colocar perante o mistério de hoje: Jesus, se fazendo homem em tudo, exceto no pecado, morre pela salvação da humanidade, para o perdão de nossos pecados, inaugurando o novo tempo: o tempo da salvação e da glória.

    Nesta celebração acompanhamos os passos do Senhor em sua paixão até a sua entrega total na cruz. Contemplando e adorando o Senhor Crucificado, elevamos nossa oração por todas as pessoas com quem o sangue de Cristo nos fez irmãos, especialmente os que sofrem, prolongando hoje, o mistério de sua cruz.

    Neste dia, somos chamados a contemplar a Paixão e Morte de Jesus. Somos levados a contemplar e vivenciar o mistério da iniqüidade humana na pessoa de Jesus sim, mas, sobretudo, o mistério do Seu triunfo definitivo. O rito da apresentação e adoração da cruz vem como conseqüência lógica da proclamação da paixão de Cristo. A Igreja ergue diante dos fiéis o sinal do triunfo do Senhor, que Ele mesmo havia dito: “Quando levantarem o Filho do Homem, saberão que Eu sou” (Jo 8,28). Enquanto apresenta a cruz, o celebrante canta por três vezes: “Eis o lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”. A assembléia, cada vez, responde: “Vinde, adoremos!”.

    E neste dia, a liturgia nos convida a lançar um olhar para o Calvário de Cristo. E lá podemos também contemplar Maria, silenciosa aos pés da cruz, com o coração retalhado de dor, Maria é figura da humanidade redimida. Nesta Sexta-feira Santa somos também convidados a contemplar o mistério da cruz de Cristo, através do olhar maternal de Maria. O evangelista São João refere-nos que aos pés da cruz, onde o Senhor entrega a vida, estavam a mãe de Jesus, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena; e ainda o próprio evangelista São João (cf. Jo 19,25). Jesus foi praticamente abandonado por todos. Os discípulos se dispersaram, restando apenas João, aquele que Jesus amava, segundo a tradição, os miraculados desapareceram, as multidões que o seguiam e o aclamaram como Messias nas ruas de Jerusalém, pediram a sua condenação. Só Maria, sua mãe, acompanhada por duas amigas, e João, são fiéis até ao fim.

    Eles vencem o medo e superam a dor e não evitam a cruz. Essa é a primeira atitude que podemos aprender com Maria: não ter medo da cruz, contemplá-la com amor, porque aquele crucificado é a encarnação do amor. Aproximamos da cruz porque nela está suspenso alguém que nos ama infinitamente, nosso Senhor e Mestre. Naquela cruz joga-se o nosso destino; ali somos gerados para uma vida nova, nas núpcias misteriosas entre Deus e a humanidade; e Maria, que dera à luz o Verbo encarnado, surge como Mãe da nova humanidade, participando como mulher e Mãe nesse parto doloroso da humanidade redimida. Jesus explicita essa nova maternidade de Maria, ao dizer-lhe, referindo-se a São João: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,26). A maldição que tinha caído sobre outra mulher, Eva, a primeira mãe da humanidade, condenada a dar à luz os seus filhos na dor (cf. Gn 3,16) é vencida na dor de Maria. Também ela, aos pés da cruz, gera os novos filhos na dor, mas a sua dor é o sofrimento da redenção.

    Aos pés da Cruz está Maria como co-redentora. Quis Deus que entre ela e o seu Filho, houvesse uma unidade de missão, e essa missão Maria a aceitou, desde o primeiro momento, na obediência da fé. Ao anjo disse: “Eu sou a Serva do Senhor, cumpra-se em mim a tua Palavra” (Lc 1,38). Essa obediência total à vontade do Pai será a atitude contínua de Jesus. A Sua fidelidade é uma obediência que, segundo São Paulo, encontra a sua máxima expressão naquela Cruz: humilhando-Se ainda mais, obedeceu até à morte na cruz (cf. Fl 2,8).

    E na Carta aos Hebreus diz-se que Ele, “apesar de ser Filho, aprendeu, de quanto sofrera, o que é obedecer” (Hb 5,8). Aprender a obediência, aprofundar a atitude de abandono à vontade de Deus, eis algo que Maria não deixou de aprofundar, desde a anunciação até à cruz. Aos pés da cruz, tal como Seu Filho, Maria obedece, abandona-se ao desígnio misterioso de Deus e percebe, na cruz, qual era a vontade de Deus. A sua obediência é, agora, mais radical e profunda, pois percebe que é mais exigente aceitar a vontade de Deus acerca do Seu Filho do que acerca dela própria.

    Aprendamos com Maria a obedecer à vontade do Senhor, quando nos convida à conversão, quando nos atrai para a intimidade, quando nos envia em missão, quando nos interpela a sermos santos, como ele é Santo. A cruz de Cristo é, em cada momento, um apelo à conversão, um convite à confiança, um desafio de amor.

    Contemplando Maria, aos pés da cruz, aprenderemos, com ela, a abraçar a nossa cruz, isto é, as nossas provações, os nossos sofrimentos e que possamos fazer deles a oferta eucarística e hóstia de louvor, para a redenção do mundo. Assim seja.

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

TRÍDUO PASCAL – Quinta-feira Santa – Ceia do Senhor

Caros irmãos e irmãs,

    Neste domingo a liturgia nos faz chegar ao domingo da Páscoa, quando somos convidados a olhar o túmulo vazio de Jesus e, com admiração e gratidão, refletir sobre o grande mistério da Ressurreição do Senhor. A vida venceu a morte!

Já na Vigília pascal, entoamos novamente o grito da alegria, o “Aleluia”, uma palavra hebraica conhecida em todas as línguas e que significa “Louvai o Senhor”.  Este grito do Aleluia volta a ressoar para indicar a nossa alegria diante da Ressurreição do Senhor. Mas este aleluia pascal deve imprimir profundamente em nós o desejo de constantemente louvar o Senhor, pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós.  E como consequência disso, cada cristão é chamado a ser proclamador de uma vida nova, deve fazer morrer em si o “velho homem”, o homem marcado pelo pecado; e fazer ressurgir o “homem novo”, configurado a Cristo ressuscitado. 

    O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos apresenta para este domingo começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “No primeiro dia da semana”. Significa que com a ressurreição de Jesus começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus. 

    A primeira personagem em cena é Maria Madalena. Ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda quando o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”.  Em seguida, ela corre, com medo, mas feliz, para comunicar esta notícia aos discípulos de Jesus.  

    Na sequência, o texto evangélico nos apresenta a visita de Pedro e do discípulo que Jesus amava ao túmulo vazio.  O evangelista São João narra com exatidão os detalhes da cena: as faixas de linho, que tinham envolvido o corpo, estavam lá depositadas e o pano da cabeça estava enrolado e colocado à parte (cf. v. 6-7). Esta minuciosa descrição do evangelista tem a finalidade de excluir a teoria do roubo do cadáver.

    O túmulo vazio é um argumento decisivo em favor da ressurreição de Jesus. É isto, como de fato, que expressa na confissão do discípulo amado que vai até ao túmulo na companhia de Pedro: “Ele viu e acreditou” (v. 8). Isto supõe que o discípulo amado terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana.  Mediante os sinais da morte: o túmulo, os lençóis, o sudário… o discípulo vê os sinais da vida. Na verdade, vê sem ter visto ainda, e já começa a crer ou a dar crédito, até que sua fé seja plenamente confirmada e esclarecida pelas aparições.  

    Com relação ao Apóstolo Pedro, parece que ele é vencido não só na corrida material, mas também na espiritual.  O discípulo que Jesus amava, identificado pela tradição como o apóstolo João, mostra a sua fé na ressurreição; quanto Pedro, embora vendo as mesmas coisas, limita-se a constatar e não chegar ainda à fé na ressurreição (cf. Jo 20,3-10).  

    Também quando Jesus aparece junto ao mar de Tiberíades é mais uma vez o discípulo que Jesus amava que o reconhece, enquanto Pedro, só mais tarde o reconhece (cf. Jo 20,7).  A não identificação do nome do discípulo que Jesus amava no texto, pode ser um indicativo de que todos nós devemos estar no lugar deste discípulo. Acreditar que Cristo ressuscitou para estar conosco. 

    Cada domingo, com a recitação do Credo, nós também renovamos a nossa profissão de fé na ressurreição de Cristo, acontecimento surpreendente que constitui a chave de volta do cristianismo.  A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento e pregada como parte essencial do mistério pascal (cf. CIgC 638).

    Na Igreja tudo se compreende a partir deste grande mistério, que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração eucarística. Mas existe um tempo litúrgico no qual esta realidade central da fé cristã, na sua riqueza doutrinal e inexaurível vitalidade, é proposta aos fiéis de modo mais intenso, para que cada vez mais a redescubram e mais fielmente a vivam: é o tempo pascal. Um tempo em que a Igreja revive, em cada celebração, onde temos a alegria de vivenciar a ressurreição do Cristo Senhor.  Páscoa é a passagem de Jesus da morte para a vida, na qual se cumprem em plenitude as antigas profecias. 

    A morte do Senhor demonstra o amor imenso com que Ele nos amou até ao sacrifício por nós; mas só a sua ressurreição é “prova certa”, é certeza de que quanto Ele afirma é verdade que vale também para nós, para todos os tempos. E o Apóstolo São Paulo nos ensina na sua Carta aos Romanos: “Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou do entre os mortos, serás salvo” (Rm 10, 9).

    O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus consequentemente torna-se frágil o testemunho dos crentes. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição, tudo desmorona. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas. Certamente é a fé na ressurreição que sustentou e deu coragem aos primeiros discípulos e também aos mártires ao longo da história. É o encontro com Jesus ressuscitado que motivou muitos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para O seguir e colocar a própria vida ao serviço do Evangelho. 

    Esta verdade marcou também de forma tão profunda na vida dos apóstolos que, após a ressurreição, sentiram novamente a necessidade de continuar propagando os ensinamentos do Mestre e, ao receberem o Espírito Santo, saíram pelo mundo inteiro, para anunciar a todos o que tinham visto com os próprios olhos e experimentaram pessoalmente.  O mesmo pode-se dizer de São Paulo, cuja fé na ressurreição de Cristo o levou a dizer: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1Cor 15,14).

    Podemos dizer ainda que a ressurreição de Cristo, e o próprio Cristo Ressuscitado, é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram… Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida” (1Cor 15,20-22).  Cristo verdadeiramente ressuscitou! Não podemos reter somente para nós a vida e a alegria que Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos doá-la a quantos nos são próximos. É o nosso objetivo e a nossa missão continuar anunciando, assim como fez Maria Madalena, que Cristo Ressuscitou e caminha conosco ao logo da vida.

    Na expectativa de que isto se realize, peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que possamos progredir sempre mais na fé, agora iluminada pela Ressurreição do Senhor, para que possamos ser para todos os que encontrarmos pelo nosso caminho, mensageiros da verdadeira luz e da alegria da Páscoa.  Assim seja.

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – A – Domingo de Ramos

Caros irmãos e irmãs

    Neste último domingo da quaresma, celebramos o domingo de Ramos e, com ele, temos a abertura da Semana Santa que é a grande semana de fé cristã, o tempo litúrgico mais forte, mais rico em conteúdo e de maior intensidade religiosa de todo o ano cristão, porque nela celebramos os mistérios centrais de nossa fé: a morte e a ressurreição de Cristo. E a Liturgia nos oferece dois evangelhos: o da entrada de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11) e o Evangelho em que Jesus é condenado e crucificado no Calvário, no qual contemplamos a paixão e a morte de Jesus.

    A entrada de Jesus em Jerusalém é recordada nas igrejas com a bênção dos ramos e a procissão; a leitura da paixão e morte de Cristo ocorre na celebração da missa. Isso tem uma razão histórica. Em Roma, não havia a Semana Santa. Celebrava-se no sexto domingo da quaresma a Paixão e Morte de Cristo e, no domingo seguinte, a Páscoa do Senhor. Somente no século XI é que a Procissão de Ramos, costume nascido em Jerusalém, chegou a Roma, e esta cerimônia passou a fazer parte da liturgia romana.

    Juntamente com os seus discípulos e uma multidão crescente de peregrinos, Jesus sobe da planície da Galiléia para a Cidade Santa, onde entra montado em um jumento, ou seja, um animal próprio das pessoas simples do campo e, além disso, um jumento que não lhe pertencia, mas que havia sido emprestado para esta ocasião. O evangelista São João nos narra que, num primeiro momento, os discípulos não compreenderam esta atitude de Jesus. Apenas posteriormente, após a Páscoa, ao perceber que ele, com sua atitude, estava cumprindo o anúncio dos profetas e as prescrições contidas na Palavra de Deus.  O livro do profeta Zacarias já dizia: “Não temas, Filha de Sião, olha o teu Rei que chega sentado na cria de uma jumenta” (Zc 9,9).

    A entrada em Jerusalém é testemunho da herança profética no coração daquele povo que estava a espera do Messias. É, ao mesmo tempo, verificação e confirmação do Evangelho, por Ele anunciado. Como de fato, o Messias devia revelar-se precisamente como tal rei: manso, montado num jumento, no potrinho de uma jumenta.  Com essa entrada de Jesus em Jerusalém, é Ele aclamado pela multidão: “Hosana! Bendito seja o que vem em nome do Senhor” (Mc 11,9). Esta palavra faz parte do rito da festa dos tabernáculos, durante o qual os fiéis caminham ao redor do altar, tendo nas mãos alguns ramos compostos de palmas, mirtos e salgueiros.

    Pois bem, com as palmas nas mãos, as pessoas elevam este clamor diante de Jesus, e o identificam como aquele que vem em nome de Deus. Esta expressão tornou-se, há muito tempo, a designação da chegada do Messias. Com esta aclamação, o povo reconhece que Jesus verdadeiramente vem em nome do Senhor e traz a presença de Deus para junto do homem. Este brado de esperança de Israel, esta aclamação a Jesus durante o seu ingresso em Jerusalém, tornou-se na Igreja exaltação de todos os fiéis para aclamar o Cristo presente na Eucaristia, para uma vez mais, estar conosco. Neste domingo de Ramos, devemos também reviver, de maneira litúrgica, aquele acontecimento profético. Repetimos as mesmas palavras pronunciadas pela multidão quando Jesus entrou em Jerusalém. Seguramos nas mãos os nossos ramos e aclamamos o Cristo que vem.

    E no decorrer da liturgia da Santa Missa, temos ainda o relato da paixão de Jesus, onde são descritos os sofrimentos que culminaram com a sua morte. O Domingo de Ramos é a única ocasião, além da Sexta-Feira Santa, em que se lê o Evangelho da Paixão de Cristo no curso de todo o ano litúrgico. Neste relato, o evangelista São Mateus, em conformidade com a sua narração, vê na paixão de Jesus o caminho do justo sofredor e, ao mesmo tempo, o começo de um novo mundo. 

    Também o evangelista São Mateus ressalta com insistência em seu evangelho que tudo o que está acontecendo com Jesus foi previsto pelos profetas.  No decorrer da última Ceia, Jesus já havia dito: “O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito dele” (Mt 26,24). O mesmo ocorre quando, no Jardim das Oliveiras, no momento em que os guardas se aproximam para prender o Cristo como se fosse um bandido. Neste momento ele diz: “…tudo isto aconteceu para se cumprir o que os profetas escreveram” (Mt 26,56). 

    Um outro ensinamento apresentado pelo evangelista São Mateus está na não violência, ao narrar a frase de Jesus dirigida a Pedro, que tinha empunhado a espada para defender o seu Mestre: “Guarda a espada na bainha! pois todos os que usam a espada pela espada morrerão” (v. 52). Este acontecimento deixa para nós mais uma lição do Cristo, pois a sua missão é dar a vida pelo irmão e jamais agredi-lo.

    Em um mundo que associa às vezes a vingança ou mesmo o ódio e a violência ao nome de Deus, esta é uma mensagem de grande atualidade e de significado muito concreto. Na hora da paixão de Jesus, este amor manifesta-se em toda a sua força. Nos últimos momentos da sua vida terrena, na ceia com os seus amigos, Jesus diz: “Como o Pai me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor… Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós” (Jo 15,9.11). Jesus quer introduzir os seus discípulos e cada um de nós, pela prática do perdão e do amor, a uma alegria plena.

     Neste tempo em que celebramos a caminhada de Jesus Cristo na dor e no sofrimento, possamos também nós nos preparar para celebrar a sua Ressurreição, participar do amor de Deus que redimiu o mundo e iluminou a história. Saibamos viver este tempo precioso reavivando a fé em Jesus Cristo, para entrar no circuito de amor, extensivo a cada irmão que encontramos na nossa vida.

     Neste domingo de Ramos, vamos nós também ao encontro de Jesus. Deixemos que ele nos guie, a fim de aprendermos do próprio Deus o modo reto de ser.  É Jesus quem abre o seu coração e nos revela o fulcro de toda a sua mensagem redentora: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Ele mesmo amou até entregar sua vida por nós sobre a cruz. Também nós devemos seguir esta mesma inspiração. O Senhor conta com cada um de nós e nos chama de amigos. Só aos que se ama desta maneira é capaz de dar a vida proporcionada com sua graça. Tenhamos sempre a alegria de caminhar com Jesus, de estar com Ele e, como Simão de Cirene, o auxiliando a levar a cruz.

    Possamos nestes dias participar das celebrações em espírito e devoção.  É um momento propício para avivarmos a fé que dá sentido a nossa vida e assimilarmos os sentimentos próprios de uma união com Jesus Cristo. Que a Virgem Maria interceda sempre por nós e nos ensine a alegria do encontro com Cristo, o amor com que o devemos contemplar ao pé da cruz, para sermos sempre mensageiros da sua Palavra e da sua paz.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ