I DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – A – A tentação no deserto

Caros irmãos e irmãs

    Na última quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas iniciamos o itinerário penitencial da quaresma. As cinzas nos lembram a fragilidade de cada homem e, ao mesmo tempo, nos orientam a olhar para o Cristo que, com a sua morte e ressurreição, resgatou o homem da escravidão do pecado e do erro. A quaresma é um caminho de quarenta dias que nos levará ao Tríduo Pascal, onde celebraremos a memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor. 

    Com efeito, quarenta é o número simbólico com que o Antigo e o Novo Testamento representam momentos significativos da experiência de fé do Povo de Deus. Trata-se de um número que exprime o tempo da expectativa, da purificação, do regresso ao Senhor e da consciência de que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, cadenciado pela soma dos dias; mas, indica uma perseverança paciente, uma prova longa, um período suficiente para ver as obras de Deus. É o tempo das decisões maduras e sábias.

    O número quarenta aparece antes de tudo na história de Noé que, devido ao dilúvio, permanece quarenta dias e quarenta noites na arca, juntamente com a sua família e com os animais que Deus lhe tinha dito que levasse consigo. E espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar na terra firme (cf. Gn 7,4.12; 8,6). Também por quarenta dias e por quarenta noites, em jejum, Moisés permanece no Monte Sinai, na presença do Senhor para receber a Lei (cf. Ex 24,18).  E ainda quarenta são os anos de viagem do povo judeu da terra do Egito para a Terra prometida, tempo propício para experimentar a fidelidade de Deus. O profeta Elias emprega quarenta dias para chegar ao Horeb, o monte onde se encontra com Deus (cf. 1Rs 19,8). Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obter o perdão de Deus (cf. Gn 3,4). Quarenta são também os anos dos reinos de Saul (cf. At 13,21), de Davi (cf. 2Sm 5,4-5) e de Salomão (cf. 1Rs 11,41), os três primeiros reis de Israel. O livro dos Atos dos Apóstolos nos diz que Jesus, depois da sua ressurreição, durante 40 dias, apareceu aos discípulos (cf. At 1,3). E antes de começar a vida pública, Jesus retira-se no deserto por quarenta dias, sem comer nem beber (cf. Mt 4,2), alimenta-se da Palavra de Deus, que utiliza como arma para derrotar o diabo. As tentações de Jesus evocam as que o povo judeu enfrentou no deserto, mas que não soube vencer. 

    Com este recorrente número quarenta é descrito um contexto espiritual que permanece atual e válido, e a Igreja, precisamente mediante os dias do período quaresmal, tenciona conservar o seu valor perdurável e fazer com que a sua eficácia esteja presente. A liturgia cristã desse tempo quaresmal tem a finalidade de favorecer um caminho de renovação espiritual, à luz desta longa experiência bíblica e, sobretudo, para aprender a imitar Jesus, que nos quarenta dias transcorridos no deserto, ensinou a vencer a tentação tendo como base a Palavra de Deus.

    Nós também somos chamados a enfrentar o mal e a lutar contra os seus efeitos. A este propósito ressoa para nós o exemplo do próprio Cristo que a Liturgia da Palavra nos convida a meditar neste primeiro domingo da quaresma, ao nos propor a página evangélica que nos fala das tentações de Jesus no deserto (cf. Mt 4,1-11).  Com este relato bíblico temos o exemplo que Jesus deixa para nós, na tentativa de vencer o mal, o maligno. A cena das tentações antecede a vida pública de Jesus, segue-se imediatamente ao seu batismo (cf. Mt 3,13-17). Com isto, podemos observar que após receber o batismo e o Espírito Santo, será possível afrontar e vencer a tentação e o mal. 

    O texto nos diz que as tentações ocorreram no deserto: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” (Mt 4,1). O deserto, de acordo com o imaginário judaico, é o lugar onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono do Senhor; embora seja, também, o lugar do encontro com Deus e o lugar onde o povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus. O deserto é ainda o lugar do silêncio, da pobreza, da solidão, onde o homem permanece desprovido de uma ajuda material, sendo ameaçado pela morte, pois onde não há água também não há vida, e onde o homem sente mais intensa a tentação. Jesus vai ao deserto, e ali padece a tentação de deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir em uma outra direção, mais cômoda e de poder.

    A perícope evangélica apresentada por São Mateus ressalta as opções de Jesus em três momentos. Inicialmente, o tentador sugere a Jesus que transforme as pedras em pão (v.3). O pão é um alimento essencial à vida, no entanto, Jesus responde: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (v. 4). A resposta de Jesus está em conformidade com Dt 8,3 e sugere que o seu alimento, isto é, a sua prioridade é o cumprimento da vontade do Pai. 

    A segunda tentação apresentada pelo evangelho nos fala da soberba da vida (v.5-7), e o tentador usa uma passagem bíblica (cf. Sl 91,11s), mas novamente o Senhor Jesus respondeu com uma outra passagem da Sagrada Escritura (cf. Dt 6,16), afirmando que seria errado abusar de seus próprios poderes: “Não tentarás o Senhor teu Deus!” (v. 7).

    Na terceira tentação Satanás diz a Jesus: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (Mt 4,9). É a forma mais radical da tentação. Todo pecado tem algo disso em si: querer possuir uma felicidade, que não se responsabilize nem diante dos outros, nem diante de Deus.  Jesus nos mostra o único caminho: “Vai-te, Satanás… Adorarás somente ao Senhor teu Deus!” (Mt 4,10).

    Ao longo da sua vida, diante das diversas provocações que os adversários lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua total fidelidade à vontade de Deus. E neste tempo quaresmal a Igreja nos indica os meios adequados para o combate quotidiano das sugestões do mal, são eles: a oração, os sacramentos, a penitência, a escuta atenta da Palavra de Deus, a vigilância e o jejum.  Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do tentador. 

    E a quaresma é um tempo em que devemos ouvir com mais atenção a voz de Deus, para vencer as tentações do maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Um tempo para estarmos mais próximos de Deus, usando as armas da fé. Ao longo desta quaresma, por várias vezes seremos exortados à conversão, que significa seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja um guia de vida. Deixar que Deus nos transforme significa reconhecer que somos criaturas que quotidianamente dependemos de Deus e do seu amor.  Por isto, devemos renovar o nosso compromisso de direcionar os nossos passos no caminho de uma conversão concreta e decisiva. E, para isto, invoquemos a assistência maternal de Nossa Senhora, para que, neste caminho quaresmal, possamos obter copiosos frutos de conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

QUARTA-FEIRA DE CINZAS – A esmola, a oração e o jejum

Caros irmãos e irmãs,

    Com a Quarta-feira de Cinzas, começamos um novo caminho quaresmal, um caminho que se estende por quarenta dias e nos conduz à alegria da Páscoa do Senhor, à vitória da Vida sobre a morte.

    A Igreja começa a Quaresma com as palavras do Profeta Joel: “Mas agora diz o Senhor, convertei-vos a mim de todo o coração com jejuns, com lágrimas, com gemidos” (Jl 2, 12).  A Igreja nos propõe em primeiro lugar este forte apelo que o profeta Joel dirige ao povo de Israel, e também a cada um de nós neste início da quaresma.

    A imposição das cinzas, que neste dia os fiéis recebem, é um gesto próprio e exclusivo do primeiro dia da quaresma. Trata-se de um gesto que nos faz compreender a atualidade da admoestação do profeta Joel, que ressoou na primeira Leitura, advertência que conserva também para nós a sua validez saudável: aos gestos exteriores devem corresponder sempre a sinceridade da alma e a coerência das obras.  Não teria valor rasgar as vestes, se o coração permanece distante do Senhor, isto é, do bem e da justiça.

    As cinzas benzidas, impostas sobre a nossa cabeça, são um sinal que nos recorda a nossa condição de criaturas, que nos convida à penitência e a intensificar o compromisso de conversão para seguir cada vez mais o Senhor. A Igreja benze hoje as cinzas, tiradas dos ramos benzidos no domingo de Ramos do ano passado. A cinza, como sinal de humildade, recorda ao cristão a sua origem e o seu fim: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” (Gn 2,7). E no sinal das cinzas reconheçamos toda a verdade das palavras dirigidas por Deus ao primeiro homem: “Recorda-te que és pó e em pó te hás de retornar” (Gn 3,19).

    A Quaresma nos faz recordar a existência cristã é um combate incessante, no qual devem ser utilizadas as “armas” da oração, do jejum e da penitência, para lutarmos contra o pecado, morrer para si mesmos para viver em Deus é o itinerário ascético que cada discípulo de Jesus está chamado a percorrer com humildade e paciência e perseverança. O jejum e as outras práticas quaresmais são consideradas, pela tradição cristã, “armas” espirituais para combater o mal, as paixões negativas e os vícios.

    O que deve ser importante é o voltar para Deus, com o coração sinceramente arrependido, para obter a sua misericórdia (cf. Jl 2, 12-18). Um coração renovado e um espírito novo: é isto que pedimos com o Salmo penitencial por excelência, como repetimos no refrão: “Perdoai-nos, Senhor, porque pecamos”.

    Na Quaresma sentiremos ressoar com insistência o convite a converter-nos e a crer no Evangelho.  Que este convite possa nos encontrar abertos para acolher este apelo que a Igreja nos faz. Não fiquemos surdos ao apelo à conversão que nos é dirigido nomeadamente com o rito austero – tão simples e ao mesmo tempo tão sugestivo – da imposição das cinzas. Confiantes na misericórdia do Senhor, iniciemos o nosso itinerário quaresmal. 

    Que a Virgem Maria, fiel discípula do Senhor, nos ajude em nosso santo propósito a sermos cada vez mais bons e perfeitos filhos do Senhor. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – O amor aos inimigos

Caros irmãos e irmãs,

    Nestes últimos domingos do tempo comum, a liturgia vem alimentando nossa espiritualidade com significativos textos. Para hoje, somos convidados a meditar um dos tesouros da radicalidade evangélica apresentada por Jesus aos seus discípulos, onde Ele continua a propor, de forma muito concreta, a sua Lei de santidade.

    Em um primeiro momento, o Evangelho faz uma referência à chamada “lei de talião” (vv. 38-42), consagrada na conhecida fórmula “olho por olho, dente por dente” e que aparece em vários textos do Antigo Testamento (cf. Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21). Trata-se de uma expressão que se tornou proverbial, e que descreve a falta de compaixão, a recusa de usar a clemência em relação ao culpado. Essa lei tinha sido imposta para defender o réu das vinganças sem limites, das represálias brutais, dos excessos nas punições.  Nos tempos antigos, quem conseguisse capturar o responsável por alguma maldade cometida, podia submetê-lo a punições severas, visando a dissuadi-lo, como também dissuadir os demais, a não cometer erros semelhantes. A pessoa teria que pagar não só pelo seu crime, mas também por todos os outros crimes cujos responsáveis não tinham sido descobertos.

    Esta vingança era um método antiquado e desumano de praticar a justiça, mas servia para manter a ordem naquela sociedade.  Neste contexto social, foi introduzida esta nova norma: “Olho por olho, dente por dente”, alicerçada sob a ideia da recusa do perdão, baseada em uma justiça exigente de igualdade, que acaba fazendo surgir, pela sua própria dureza, um convívio atroz.

    Contudo, Jesus propõe algo novo, pois, na sua perspectiva, é preciso interromper o curso da violência e, para isso, propõe aos seus discípulos a não resposta às eventuais provocações e a não retribuir o outro com o mal, mas com o bem.  O Senhor nos adverte não só a receber com paciência os golpes que nos ferem, mas a apresentar com humildade a outra face. A finalidade da lei era ensinar a não fazer ao outro aquilo que não queremos que nos façam. Por isto, somos chamados a amputar as nossas más ações. 

    Com o objetivo de tornar mais clara a sua proposta, Jesus apresenta alguns casos concretos. Inicialmente, pede para não responder com a mesma moeda àquele que nos agride fisicamente, mas que se desarme o violento, oferecendo a outra face (v. 39); em seguida, Jesus recomenda que, diante de uma exigência exorbitante, ocorra a entrega da túnica, isto é, da peça de roupa mais fundamental, que não era tirada a não ser aquele que era vendido como escravo (cf. Gn 37,23), a resposta está em entregando ainda mais (v. 40).

    Um outro exemplo que o Evangelho nos apresenta,  refere-se ao amor aos inimigos: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (v. 44). Trata-se de uma nova norma apresentada por Jesus.  Uma novidade que exige uma autêntica revolução das mentalidades. Para Jesus, o amor deve atingir a todos, sem exceção, inclusive aos inimigos. Fica, assim, abolida qualquer discriminação; sendo retiradas todas as barreiras que separam os homens. Isto porque Deus também não faz discriminação no seu amor. Ele é o Pai que não distingue entre amigos e inimigos, que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre bons e maus, e oferece o seu amor a todos, inclusive aos indignos (v. 45). Esta é a nova visão do mundo e dos seus valores que o Cristo veio trazer à terra.

    Para avaliar adequadamente o significado da lei em nossa vida espiritual é bom estarmos advertidos de que a retidão e a sinceridade são conquistas laboriosas que podemos atingir com o auxílio da graça do Senhor. A atitude postulada pelo Evangelho consiste em não apenas suportar passivamente as injúrias recebidas, mas colocar uma iniciativa positiva de amor e de bem: amar o inimigo, retribuir com o bem em troca do mal.  É também o que nos diz o apóstolo São Paulo: “A ninguém pagarás o mal com o mal… não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12,14s).

    Nisto, observa-se a identidade que devemos ter para com o nosso Criador, quando o Evangelho também acentua: “Haveis, pois, de ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Estas palavras são dirigidas a cada batizado. Somos chamados a imitar a santidade e a perfeição de Deus, sendo perfeitos na compaixão, no amor, no perdão e na misericórdia. 

    Com estes ensinamentos, Jesus nos mostra a raiz e a causa de todos os males, como também o remédio que nos traz o bem.  A nossa perfeição é viver como filhos de Deus, cumprindo concretamente a sua vontade. Isto pode parecer uma meta inatingível, porém, as normas concretas apresentadas pelo Evangelho mostram como é o comportamento de Deus, o que deve se tornar também a regra do nosso agir. Na verdade, a nossa linguagem deve ser sempre a do Evangelho. 

    Os ensinamentos do Senhor têm como objetivo a nossa purificação para não incorrermos ao pecado.  Neste sentido, o próprio Cristo é o maior exemplo para todos nós, pois ele mesmo nos diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e achareis repouso para as vossas almas” (Mt 11,29). 

    E na segunda leitura, São Paulo ainda nos adverte: “Sois templo de Deus… o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós” (1Cor 3, 16-17). Neste templo que somos nós, celebra-se uma liturgia existencial: a da bondade, do perdão, do serviço; numa palavra, a liturgia do amor.  O templo que somos nós, não pode ser profanado e exige vigilância e zelo. Se estivermos conscientes desta realidade, e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro, eloquente e eficaz. Nós somos como uma construção sagrada onde Deus mora. 

    O convite de Cristo a nos deixarmos envolver pela sua exigente proposta evangélica ressoa com vigor para cada um de nós.  A liturgia da Palavra deste domingo nos estimula a rever a nossa relação com Jesus, a procurar o seu rosto sem nos cansarmos.  E para testemunharmos com maior zelo e ardor estas atitudes de santidade, saibamos amar aqueles que nos são hostis; abençoemos quem fala mal de nós; saudemos com um sorriso a quem talvez não o mereça; saibamos esquecer as humilhações sofridas e deixemo-nos guiar sempre pelo Espírito de Cristo.

    Somos hoje chamados à santidade e à perfeição. O caminho do cristão é um caminho que exige, de cada ser humano, um compromisso sério.  Já na primeira leitura (cf. Lv 19,1-2.17-18), temos um apelo veemente à santidade: viver na comunhão com o Deus e também com o próximo. 

    Saibamos colocar em prática as palavras do Cristo que assim diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, sereis filhos do vosso Pai que está nos Céus” (Mt 5, 44-45). Quem acolhe o Senhor na própria vida e o ama com todo o coração é capaz de um novo início, um começar de novo. Se estivermos conscientes desta realidade e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro e eficaz.  

    Invoquemos a Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, para que nos ensine a viver no amor e na santidade.  Assim seja. 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB.
Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – Assim foi dito aos antigos; eu, porém, vos digo.

Caros irmãos e irmãs! 

    O evangelho deste domingo sublinha que o “pleno cumprimento” da lei consiste principalmente na obediência às regras estabelecidas. Obedecer corretamente a uma lei é procurar descobrir e praticar a intenção do legislador, o que ele tinha em mente ao promulgá-la. É o que chamamos espírito da lei. Isso vai muito além da obediência literal, que só vê o que a lei diz em si, sem considerar o seu sentido mais profundo.

    No caso da Sagrada Escritura, as leis do Antigo e do Novo Testamento vieram do mesmo autor, que é Deus. Suas palavras são as de um Pai que só quer o bem dos filhos. Também nós devemos receber essas leis com amor de filhos. São Paulo já ressalta: “Não és mais escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro; tudo isso, por graça de Deus” (Ef 4,7). Fazemos parte da família de Deus, é assim que devemos ver as leis que Ele nos deixou. Deus implantou na alma humana uma luz intelectual pela qual o homem conhece que o bem deve ser praticado e o mal, evitado.

    Na primeira parte do Evangelho deste domingo (v. 17-19), o evangelista São Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai (cf. Ex 20,1-21). A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso ser vista como a expressão concreta de uma adesão total a Deus. Os fariseus achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas. Eram eles rigorosos na observância da letra da Lei, mas não eram capazes de penetrar no âmago de seu espírito, onde está a verdade, a justiça, o amor. 

    Para iluminar esta verdade, Jesus dá alguns exemplos práticos que a Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece.  A Lei de Moisés prescreve o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspectiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao outro.  Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos de Jesus não se limitam a cumprir a letra da Lei; eles têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os levem a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do outro. 

    Não basta não matar, é preciso não se encolerizar contra o outro, não lhe dirigir palavras injuriosas.  Se uma arma pode matar o corpo, uma palavra dura pode matar o coração, por isto Jesus deixa para os cristãos uma norma a ser observada.  A este propósito, São Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação, a inimizade pode ser uma forma de matar o outro, por isto, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois é uma mentira a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos (cf. Mt 5,24).

    A vida humana é sagrada, por isto deve ser respeitada, pois desde a sua origem, postula a ação criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. Só Deus é o Senhor da vida, desde o seu começo até ao seu termo: ninguém, em circunstância alguma, pode reivindicar o direito de dar a morte diretamente a um ser humano inocente (cf. CIgC n. 2258).

    A Sagrada Escritura, na narrativa da morte de Abel pelo seu irmão Caim (cf. Gn 4,8-12), revela, desde os primórdios da história humana, a presença da cólera e da inveja no coração do homem, consequências do pecado original. O homem tornou-se inimigo do seu semelhante. No evangelho deste domingo é lembrado este preceito da lei de Deus: “Não matarás” (Mt 5, 21) bem como a proibição da ira, do ódio e da vingança. Cristo exige do seu discípulo que ofereça a outra face (cf. Mt 5, 22-26.38-39) e que ame os seus inimigos (cf. Mt 5, 44).

    No evangelho temos ainda uma referência ao adultério: “Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” (v. 27-28). E podemos ainda ler: “Não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19,6).  Adultério é o termo que designa a infidelidade conjugal. Aquele que o comete, falta aos seus compromissos. Viola o sinal da aliança, que é o vínculo matrimonial, lesa o direito do outro cônjuge e atenta contra a instituição do matrimônio, ferindo o contrato em que assenta. Compromete o bem da geração humana e dos filhos que têm necessidade da união estável dos pais (cf. CIgC, n. 2381).

    A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e aponta a raiz do problema, por isto disse o Senhor que olhar com desejos libidinosos para uma mulher já é cometer adultério no coração.  E, mais ainda: se na Lei antiga tinha entrado o divórcio, a lei do Evangelho não o admite. Quem repudiar a mulher com a qual estiver legitimamente casado, faz com que ela adultere; e quem se casar com a repudiada comete adultério (v. 31-32). Jesus veio restaurar a criação na pureza das suas origens. 

    A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei precisa ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida (cf. Gn 2,18-24). Amar quer dizer não só desejar, mas respeitar, merecer e aprender o mútuo respeito, tendo sempre diante dos olhos o vínculo que no matrimônio une dois seres humanos. Amar é ter a consciência de que tal união é indissolúvel, dura, por instituição divina, até a morte.

    No dia do casamento, ambos disseram um para o outro: “Eu te recebo por minha esposa… Eu te recebo por meu esposo e te prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te todos os dias da nossa vida”. Este é o vínculo matrimonial que surge do amor recíproco, se exprime mediante o juramento conjugal. Cada união nasce através do pacto entre um casal, mas tendo como base a unidade e a indissolubilidade, ordenado à procriação e à educação da prole (cf. Código de Direito Canônico, cân. 1055), sinal da estabilidade da família, que sempre deve ser respeitada. Nesta comunhão que se instaura e se desenvolve entre os cônjuges, em virtude do pacto de amor conjugal, o homem e a mulher “já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19,6), ambos são chamados a crescer continuamente nesta comunhão através da fidelidade quotidiana à promessa matrimonial do recíproco dom total (cf. FC, 19).

    Em Caná da Galiléia, ao lado dos esposos recém-casados estava a Virgem Maria, a mãe do Senhor. Ela disse aos servos: “Fazei tudo que Ele vos disser” (Jo 2,5). Que junto a todos os cônjuges, desde o início do matrimônio, possa estar ela a mostrar o caminho a seguir e, com sua presença materna, possa interceder sempre por cada casal, para que o ambiente familiar seja sempre o lugar da união, da alegria e da paz. Que ela guie também os nossos passos na fidelidade à Lei que Cristo deixou para nós, para que posamos ser conduzidos, com o coração dilatado, à vida plena. Assim seja.

D.Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – A – Sal da terra e luz do mundo

Caros irmãos e irmãs

Relemos neste domingo umas das mais belas imagens com que Jesus comparou seus discípulos, na maioria pescadores que deixaram tudo para segui-lo. A eles disse: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14). Inicialmente, Jesus chama seus discípulos de sal da terra porque o sal serve para preservar muitos alimentos da corrupção. Essa é a missão dos discípulos. Eles devem salvar os homens da corrupção moral. O sal serve ainda para dar gosto e sabor, e a missão dos discípulos de Jesus é semelhante: devem eles preservar e salvar os homens da corrupção do pecado por meio do exemplo e da palavra.

Jesus adverte que se o sal se corromper, para nada mais serve, por isto é lançado fora e pisado pelos homens (v. 13). Na Palestina, as pessoas pobres frequentemente recolhiam sal nas margens do mar morto. Este sal, como vinha cheio de impurezas, facilmente se deteriorava, por isto, era jogado fora e pisado pelos homens. Os orientais, naqueles tempos, tinham o costume de jogar nas estradas todo e qualquer lixo. Vale lembrar que naquele tempo a população era menor e não adotava os costumes de higiene que temos hoje, como a coleta de lixo. O sal corrompido se tornava lixo e era então pisado e desprezado por todos.

E Jesus compara os seus discípulos ao sal, pois cabia aos discípulos transmitir à comunidade o sabor dos ensinamentos do Divino Mestre. O sal é feito para dar gosto, para dar sabor aos alimentos. É o sal que tempera os alimentos. “Temperar” quer dizer dar gosto justo; nem sal demais, nem sal de menos. Ele vem a significar, então, que o discípulo de Cristo deve representar na comunidade o equilíbrio, o bom senso, a prudência própria do homem sábio, o homem da harmonia, da tranquilidade e da paz.

O sal é a primeira das imagens à qual Jesus apela para definir a identidade de seus discípulos. Elemento familiar a qualquer cultura, desde sempre foi empregado para dar sabor à comida. Inclusive, até a aparição do frio industrial, geladeira ou frigorífico, era praticamente o único meio para preservar os alimentos que se corrompem facilmente, especialmente a carne. Mas, além disso, na cultura bíblica e judaica, o sal significava também a sabedoria, por esta razão, nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber e sabedoria pertencem à mesma raiz semântica e família linguística. Neste sentido, o sal acaba sendo um simbolismo feliz, de grande riqueza expressiva, para sinalizar a missão do seguidor de Jesus no meio da sociedade.

O sal é ainda um protagonista muito especial no âmbito culinário. Sua presença discreta na comida não é detectada; mas sua ausência não pode ser dissimulada. O sal dissolve-se completamente nos alimentos e se perde em agradável sabor. Essa é sua condição: passar despercebido, mas atuar eficazmente. Como símbolo religioso o sal significa que o cristão deve temperar o mundo, com o seu exemplo e testemunho. Por isto, o uso do sal, no ritual do batismo, representa o sabor com o qual cada cristão deve temperar o mundo. Devido a estas características do sal, a lei judaica prescrevia colocar um pouco de sal em cima da oferenda apresentada a Deus, em sinal de aliança: “Salgarás toda a oblação que ofereceres, e não deixarás de pôr na tua oblação sal da aliança de teu Deus; a toda a oferenda juntarás uma oferenda de sal a teu Deus” (Lv 2,13).

O simbolismo da luz, por sua vez, tem um longo e fecundo itinerário bíblico: desde a primeira página do Livro do Gênesis, que descreve a criação da luz por Deus, passando depois para a coluna de fogo que guiava o povo israelita em seu êxodo do Egito, e continuando pela luz dos tempos messiânicos anunciada pelos profetas, especialmente pelo profeta Isaías, para chegar à plena luz da revelação de Cristo Jesus. Ele afirmou de si mesmo: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não anda em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

E Jesus disse também: “Vós sois a luz do mundo” (v. 14). Naturalmente, um reflexo da grande luz da verdade e da santidade, que é o próprio Cristo. Acende-se se uma luz para que ilumine. Ninguém acende uma lâmpada para escondê-la debaixo de uma vasilha, mas para colocá-la em lugar alto, a fim de que brilhe para todos os que estão na casa. Ninguém deve fazer o bem com a finalidade de ser visto, seria vaidade. Mas, por outro lado, sua vida deve ser tão digna e tão pura, que possa servir de luz para o caminho dos outros.

Jesus compara seus discípulos à luz, por isto, devem eles iluminar o mundo com a doutrina que receberam de Jesus. Iluminar com a vida exemplar e santa e devem ter em mira a glória de Deus e a salvação das almas, luz para iluminar o caminho, para que todos caminhem em busca da verdadeira fé. A verdade e a doutrina da salvação devem ser propagadas por toda parte. Jesus diz que ninguém acende uma luz para escondê-la. A fé cristã é uma luz, a única luz e deve estar acima de tudo para iluminar.

Destas considerações nasce uma lição: o testemunho que devemos dar de nossa vida e o serviço que podemos prestar aos outros. E neste serviço Jesus concretiza a nossa identidade: luz e sal da terra. Bela maneira de expressar a nossa tarefa, a tarefa de cada cristão: ser sal da terra, ser luz do mundo, sal humilde, que atua por dentro, que não se nota, mas que é indispensável, a tal ponto que se perder o seu sabor não serviria mais para nada.

Somos chamados a ser aquele que ilumina. E aquele que crê em Jesus se converte em luz para si mesmo e para os outros. A palavra do Senhor era para o povo Israelita “a lâmpada para os seus passos e luz em seu caminho” (Sl 118,105). Também o novo Povo de Deus, a comunidade dos fiéis que seguem a Cristo, tem a missão de ser luz do mundo. A fé em Cristo é a luz do cristão. Jesus se serve de um dos elementos simbólicos mais significativos da vida humana. A luz é símbolo de vida, de alegria e felicidade. Está indissoluvelmente ligada à vida, a ponto de se identificar com ela. A luz se torna símbolo do próprio Deus, da vida divina. Deus não é só Criador da luz (cf. Gn 1,3-5), Ele se manifesta como luz que exprime sua glória, que salva e dá a vida ao homem (cf. Is 10,17; 60,19). Neste sentido, ressalta o apóstolo Paulo: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Cor 1,5).

No Antigo Testamento, o Servo do Senhor é anunciado como “luz das nações” (Is 51,4). A luz de Deus, a sua vida, apareceu visivelmente em Jesus (cf. Jo 1,4.9). Ele é a luz do mundo (cf. Jo 3,19) que ilumina todo homem. Como o sol ilumina a estrada, assim o Cristo ilumina o caminho da humanidade para Deus, fonte de vida e de alegria. Em forma exortativa, o evangelho dá uma indicação sobre testemunho do cristão: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5,16). O agir do cristão deve ser um espelho do agir de Deus, um reflexo de sua glória que não atrai a atenção para si, mas para Deus. Os cristãos recebem, portanto, uma missão em relação a todos os homens: com a fé e com a caridade podem orientar, consagrar, tornar fecunda a humanidade.

Todos nós somos também discípulos do Senhor e somos chamados, através da nossa vida cristã, a dar sabor aos mais diversos ambientes, para preservá-los da corrupção, como faz o sal. Mas se perdermos sabor e cancelarmos a nossa presença de sal e luz, perderemos a eficiência. Peçamos uma vez mais a intercessão da Virgem Maria, ela que também é chamada pelo povo cristão de Nossa Senhora da Luz, para que possamos ser, em todos os instantes, sal e luz para todos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ