XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Cuidado para não serdes enganados!

Lc 21,5-19

 

Caros irmãos e irmãs, 

 

Estamos prestes a concluir o ano litúrgico e muito em breve iniciaremos o tempo do advento, no qual iremos nos preparar para o Natal do Senhor e também para a sua segunda vinda. A primeira leitura (cf. Ml 3,19-20) e o Evangelho (cf. Lc 21,5-19) incidem no tema escatológico propício destes últimos domingos do tempo comum.

 

O Evangelho nos traz uma profecia e uma promessa. A profecia é sobre o fim dos tempos. E a promessa é sobre como o Senhor recompensará todos aqueles que se mantiverem fiéis à sua Palavra.  O texto nos mostra Jesus em Jerusalém, para a última e mais importante página da sua vida terrena: a sua morte e ressurreição. Está perto do templo, “adornado de belas pedras” (v.5). No momento em que pessoas estão a comentar sobre a beleza exterior do templo, Jesus diz: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (v.6). E acrescenta: “Haverá grandes terremotos e, em diversos lugares, fome e epidemias; surgirão fenômenos espantosos e grandes sinais no céu” (v. 11).   Com isto, Jesus nos mostra que tudo aquilo que vemos passa. Mesmo os reinos mais poderosos, os edifícios mais sagrados e as realidades mais firmes do mundo não duram para sempre; mais cedo ou mais tarde, caem.

 

Mediante as colocações de Jesus, as pessoas apresentam a ele duas perguntas: “Quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?” (v. 7).  Perante estes questionamentos Jesus responde que não devemos nos enganar pelos falsos pregadores, pelas pregações e previsões que amedrontam. Mesmo diante deste cenário, somos chamados a perseverar no bem e colocar plena confiança em Deus, que não desilude: “Não se perderá um só cabelo da vossa cabeça” (v. 18). 

 

Estas imagens apocalípticas apresentadas no Evangelho eram também usadas pelos pregadores populares da época de Jesus, para ressaltar a queda do velho mundo, ou seja, o mundo do pecado, do egoísmo, da exploração; e também para ressaltar o surgimento de um mundo novo. A questão é, portanto, esta: no tempo intermediário entre a queda de Jerusalém e a segunda vinda de Jesus, o Reino de Deus irá se manifestar e nascerá um mundo novo: um mundo de esperança e de felicidade. 

 

No tempo de Jesus era bastante comum a ideia de que o mundo antigo já estava corrompido e deveria desaparecer, para que pudesse surgir um mundo novo.  Pensava-se que, na hora da passagem do mundo antigo para o novo, os homens seriam tomados por um grande pavor, os povos e as nações se envolveriam em tumultos, violências, doenças, calamidades e guerras. Este modo de falar, estas imagens, chamadas de apocalípticas, eram comuns no tempo dos apóstolos. Também Jesus as usou para dizer aos seus discípulos que tinha chegado o tempo da passagem do mundo antigo para o mundo novo.  Trata-se de imagens que indicam ao mesmo tempo anúncio de alegria e de esperança. Por esta razão, Jesus exorta aos seus discípulos: “Não fiqueis apavorados” (v. 9).

 

Esta exortação de Jesus é sempre atual, também para nós deve ecoar esta exortação: “Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome” (v. 8). Trata-se de um convite ao discernimento. Com efeito, também hoje existem falsos pregadores, que procuram substituir-se a Jesus; personagens que desejam atrair a si as mentes e os corações. Jesus alerta: “Não sigais essa gente!” (v. 8).

 

Os cristãos são advertidos para as dificuldades e perseguições que marcarão a caminhada histórica da Igreja pelo tempo, até a segunda vinda de Jesus. Contudo, lembra que os fiéis não estarão sós, pois Deus estará sempre presente. Será com a força Divina que eles enfrentarão os adversários e resistirão à tortura, à prisão e à morte; será com a ajuda de Deus que eles poderão até resistir à dor pela traição de seus próprios familiares e amigos. As palavras de alento deixadas pelo evangelista São Lucas enfatizam a certeza de que Deus não abandona os seus filhos. É essa presença constante e amorosa do Senhor que lhes permitirá enfrentar a morte. É essa força de Deus que levará os discípulos de Jesus a vencer o desânimo, a adversidade e o medo, permitindo renascer a esperança e a coragem para superar as adversidades do mundo presente.  É o percurso que todos nós somos chamados a percorrer, até a segunda vinda de Jesus Cristo.

 

No meio de todos os desastres e perseguições, Deus está conosco: “Nem um só cabelo cairá de vossas cabeças. Pela vossa perseverança é que haveis de salvar-vos” (v. 18).  Na alma verdadeiramente cristã jamais morre a esperança. Mesmo quando tudo parece obscuro, temos a certeza da presença sábia e misericordiosa de Deus. O evangelista São Lucas deixa os cristãos de sobreaviso para as dificuldades e perseguições que marcarão a caminhada histórica da Igreja pelo tempo, até a segunda vinda de Jesus. Quando São Lucas escreve este texto, tem ele presente a experiência de uma Igreja que caminha e luta para tornar realidade o Reino de Deus e que, nessa luta, conhece os sofrimentos, as dificuldades, a perseguição e o martírio. Mas o evangelista lembra que mesmo nestas provações Deus não abandona os seus filhos.

 

No texto do Evangelho encontramos ainda a admoestação do Senhor: “Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos alarmeis; é preciso que estas coisas sucedam primeiro, mas não será logo o fim” (v. 9). Como de fato, desde o início, a Igreja vive na expectativa orante da vinda do seu Senhor, perscrutando os sinais dos tempos e advertindo os fiéis de correntes religiosas, que cada vez anunciam a iminência do fim do mundo.  Mas o fim do mundo para cada um de nós pode ser também a hora da nossa morte. Não falando quando isso acontecerá, Jesus queria ensinar que devemos estar sempre vigilantes e preparados.

 

Diante deste contexto pode surgir o perigo de um certo desânimo e a atividade diária do trabalho pode perder o sentido perante esta iminente segunda vinda do Senhor, por isto, alguns tessalonicenses estavam deixando o trabalho, para viver na ociosidade, “ocupados em não fazer nada” (2Ts 3,11), por esta razão adverte São Paulo na segunda leitura: “Quem não quer trabalhar, também não deve comer” (2Ts 3,10). São Paulo recorda o seu próprio exemplo de dedicação ao trabalho dia e noite, para não ser um peso para ninguém (cf. 2Cor 11,8). O trabalho tem o seu valor e constitui uma participação da humanidade na ação criadora de Deus, a quem deve imitar, não só pelo trabalho em si, mas também pelo descanso, já que Deus apresentou ao homem a sua própria obra da criação sob a forma de trabalho e descanso (cf. Gn 2,2).

 

Saibamos viver fielmente a nossa vocação cristã, não tenhamos medo de dar o bom testemunho de Cristo, para que possamos ser aprovados diante do juízo final. Nossa vida neste mundo é semente de eternidade. Que o Senhor nos conceda a graça de vivermos a santidade que nos fará ganhar o reino de Deus, e que a nossa vida esteja sempre cimentada sobre uma fé firme e perseverante. 

 

Possamos também nós aceitar o convite de Cristo a enfrentar os acontecimentos quotidianos confiando no seu amor providente. Que Ele seja a nossa força e o nosso sustento perante as guerras e as revoluções. Não tenhamos receio do futuro, mesmo quando ele parecer de aspecto tenebroso.  Peçamos ao Senhor que nos conceda a graça de sermos portadores da esperança e que tenhamos sempre a coragem necessária para superar todas as dificuldades. Assim seja. 

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento – RJ