XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do rico e do pobre Lázaro

 

Lc 16,19-31

 

Caros irmãos e irmãs,

 

O Evangelho deste domingo nos propõe refletir sobre a parábola do rico e do pobre Lázaro.  Trata-se de um texto dirigido a alguns fariseus, como representantes daqueles que amam o dinheiro e vivem só em função dele.  Jesus ressalta nesta parábola a vida de dois homens; um vive luxuosamente e realiza todos os dias grandes festas, enquanto o outro, com o nome de Lázaro, está na miséria, tem fome e encontra-se doente. No entanto, com a morte de ambos, a sorte se transforma radicalmente.  Quando morreu o rico, foi para um lugar de tormentos, enquanto que Lázaro foi “levado pelos anjos ao seio de Abraão”.

 

O texto da parábola não diz como foi a vida de Lázaro.  Não sinaliza se ele cometeu más ações ou se foi um modelo de virtudes; se trabalhava duramente ou se foi um homem acomodado e que nada quis fazer para mudar a sua triste situação.  A parábola não diz se Lázaro foi um homem humilde e educado, se frequentava a Sinagoga para rezar, se foi um trabalhador exemplar e quais os motivos o levaram à pobreza extrema. Não encontramos referências às ações boas ou más praticadas pelos personagens.

 

O outro personagem é apresentado como “um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias” (v. 19). O único pecado do rico parece ter sido o de viver somente para si.   O rico personifica o uso inadequado da riqueza. O luxo desenfreado ocupa um lugar de destaque na parábola; o importante para ele era isto. O texto da parábola mostra que o rico pensa unicamente em satisfazer-se a si mesmo, sem se preocupar minimamente com o mendigo que está à sua porta.

 

Ele foi incapaz de enxergar Lázaro, pobre e cheio de feridas, que estava à sua porta.  A narrativa nos diz que Lázaro “queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas” (v. 21).  Quando Abraão nega ao rico uma gota de água, não o repreende por alguma falta. Limita-se a lembrá-lo que ele foi rico e que na terra teve muitos prazeres, ao passo que Lázaro sofreu.  Não explica o motivo da inversão da posição de ambos após a morte.

 

O pobre representa a pessoa da qual só Deus se ocupa: em contraposição ao rico, ele tem um nome, Lázaro, abreviação de “Eleazaro”, que significa precisamente “Deus ajuda”. Mesmo sendo esquecido por todos, Deus não o esquece; quem não tem valor aos olhos dos homens é precioso aos do Senhor. Não deixa de ser impressionante que Jesus chame o pobre pelo nome, mas ignore o nome do rico!  Esta é a única parábola em que Jesus dá um nome a um dos protagonistas. O rico é descrito com todo o aparato que o rodeava: vestes luxuosas, festas esplêndidas e quotidianas. Mas não tem nome, ele é apenas “o rico”.  Isto mostra que o dinheiro, quando passa a ser o centro da nossa vida, quando se apodera de nós, pode nos dominar e fazer com que percamos a própria identidade.

 

A narração do texto mostra como a iniquidade terrena é invertida pela justiça divina; depois da morte, Lázaro é acolhido “no seio de Abraão”, isto é, Lázaro estava à sua direita, lugar de honra no banquete celeste. Em conformidade com o imaginário judaico, os eleitos se juntarão com os patriarcas e profetas.  O rico, por sua vez, termina “no inferno entre os tormentos” (v. 23). Trata-se de um alerta a todos nós, pois é durante a nossa peregrinação neste mundo que devemos corrigir os nossos atos, não é possível fazê-lo após a morte.

 

Esta parábola também nos faz lembrar do texto das bem-aventuranças de Lc 6,20-26, onde Jesus ressalta: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus.  Felizes vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados…” (Lc 6,20-21). Não podemos do mesmo modo esquecer também de uma outra admoestação do Senhor, referindo-se ao momento do juízo final: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40). 

 

A parábola nos faz lembrar a comunidade dos primeiros cristãos, quando não havia entre eles nenhum necessitado, pois eram “um só coração e uma só alma”; souberam construir uma verdadeira fraternidade (cf. At 4,32ss).  Realizavam aquela partilha que falta na parábola: os que possuíam terras ou casas, vendiam e traziam o dinheiro e o colocava aos pés dos apóstolos; e distribuía-se a cada um, segundo a necessidade de cada um (cf. At 4,34-35).

 

Nesta história, Jesus ensina que não somos donos dos bens que Deus colocou em nossas mãos, ainda que os tenhamos adquirido de forma legítima: somos apenas administradores, encarregados de partilhar aquilo que pertence a todos. Esquecer isto é viver de forma egoísta.  O pecado do rico foi não ter visto Lázaro, a quem poderia ajudar, ele demonstrou sofrer de uma forte cegueira, porque não consegue olhar para além do seu mundo, feito de banquetes e roupa fina. Na verdade, o rico não utilizou os seus bens conforme o desígnio de Deus.  

 

O pobre Lázaro é vítima do pecado do rico que não lhe deu atenção, que não o viu.  Aliás, parece ter sido ele ignorado por todos. Temos aqui uma descrição muito realista do que são muitas vezes as nossas relações. Somos normalmente indiferentes aos sofrimentos dos outros. A indiferença é verdadeiramente um pecado que pode matar. Nomeando o pobre Lázaro, Jesus nos faz recordar que para Deus cada ser humano é visto como único. Jesus veio compensar o olhar vazio e anônimo do rico.  O que se reprova no rico da parábola é isto: não ter tido compaixão e amor para com o pobre que estava à sua porta, a cada dia morrendo aos poucos, sendo corroído pela fome.

 

Mas a mensagem da parábola vai além: recorda que, enquanto estivermos neste mundo, devemos ouvir o Senhor que nos fala mediante a Sagrada Escritura e viver segundo a sua vontade. Portanto, esta parábola nos ensina que o nosso destino eterno está condicionado pela nossa atitude. Compete a nós seguir o caminho que Deus nos mostrou para alcançar a vida, e este caminho é o amor, entendido como serviço aos outros, na caridade de Cristo, como fizeram inúmeros santos e, dentre tantos, podemos mencionar São Vicente de Paulo, que estimulado pelo amor a Cristo, organizou formas estáveis de serviço aos mais pobres, aos doentes e aos necessitados. E como também não mencionar Santa Teresa de Calcutá, a missionária da caridade, que tanto trabalhou pela causa dos pobres.

 

Neste mês de setembro, celebramos o mês da Bíblia e a parábola também insiste em nos mostrar que a Sagrada Escritura nos aponta o caminho seguro para que possamos assumir a atitude correta em relação aos bens que possuímos. O rico ficou surdo às interpelações da Palavra de Deus: ele não se deixou transformar por ela. Até mesmo os milagres são inúteis, quando o homem não acolhe no seu coração os ensinamentos do Senhor. Só a Palavra de Deus pode fazer com que o homem corrija seus erros, saia do seu egoísmo, aprenda a amar e a partilhar.

 

O texto da parábola conclui com a atenção dirigida aos cinco irmãos, que ficaram em casa.  Nós somos, em certo sentido, esses cinco irmãos. A nós agora foi enviado “alguém que ressuscitou dos mortos”.  Deus nos enviou o seu filho Jesus Cristo em pessoa e nos mostrou o caminho da salvação.

 

Possamos pedir ao Senhor que venha em nosso auxílio e nos faça colocar em prática os seus ensinamentos e sermos mais atentos aos irmãos mais necessitados, a partilhar com eles o muito ou o pouco que temos e a difundir no mundo o valor e a importância da solidariedade autêntica, para que juntos cheguemos um dia à glória da vida eterna.  Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do administrador infiel

 

Lc 16,1-13

 

Caríssimos irmãos e irmãs,

 

No Evangelho deste domingo Jesus nos conta uma parábola que provoca em nós uma certa admiração porque fala de um administrador desonesto que é elogiado (v. 8).  O texto nos fala de um homem rico, que tinha um administrador acusado de ser desonesto, porque dissipava os bens de seu patrão. Por isso, o patrão planeja a sua demissão, mas, antes de deixar o emprego o administrador teve que prestar contas de sua gestão.  Assustado e despreparado para outro tipo de trabalho, tratou de fazer amigos para garantir o seu futuro.

 

O administrador entendeu que, no futuro, mais do que de dinheiro, precisaria de amigos. Ele avalia a situação em que se encontra e sabe que antes de deixar a administração, ele deve fechar as contas com o seu patrão.  Ele tem consciência que são muitos os devedores e, por isso, começa a refletir: “O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. Ah! Já sei o que fazer para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração’. Então ele chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão. E perguntou ao primeiro: “Quanto deves ao meu patrão?’ Ele respondeu: ‘Cem barris de óleo!’ O administrador disse: ‘Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve cinquenta!”(v. 6).

 

Esta dívida correspondia a 3.650 litros, ficou reduzida a 1.825 litros de óleo. Trata-se de uma economia bem expressiva, correspondente a um ano de salário. A pergunta, em seguida, vem para o segundo devedor: “‘E tu, quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. O administrador disse: ‘Pega a tua conta e escreve oitenta’” (v.7).  Estas cem medidas de trigo correspondem a 27 toneladas, equivalentes a 42 hectares de terra. A dívida fica reduzida a oitenta medidas, ou seja, 5,5 toneladas a menos.

 

Na parábola, pode-se perceber que o patrão é taxativo ao dizer ao administrador: “Já não podes mais administrar meus bens” (v.2). Ao receber esta informação, o administrador não esboça nem mesmo uma autodefesa. Ele parece estar consciente das suas falhas e sabe perfeitamente que as informações recebidas pelo patrão são verdadeiras e logo pensa em soluções para garantir a sua sobrevivência de forma tranquila. O texto apresenta um elogio do patrão ao administrador pela sua esperteza (v.8), entretanto, o patrão não voltou atrás em sua decisão de despedir o administrador infiel.

 

Como homem de negócios ele calcula e busca saídas para a emergência dentro do sistema econômico que conhece.  Ele age com interesse e busca cúmplices, pois os devedores de seu patrão passam a ser devedores de seus favores. Estes devedores passam a dever muito menos ao empresário e se sentem na obrigação de reconhecer a ajuda daquele administrador.

 

Certamente, no futuro, estes devedores não esquecerão que foram favorecidos pela generosidade do administrador.  Para melhor compreender esta parábola, faz-se necessário um retorno histórico. No tempo de Jesus não havia na Palestina uma remuneração salarial aos administradores, eles recebiam uma porcentagem, em conformidade com os negócios realizados. Os administradores de então, como os publicanos ou cobradores de impostos, não costumavam ter um salário fixo, mas uma comissão de acordo com as transações comerciais que conseguissem.  Na parábola, o administrador não reduz o valor que o seu patrão tinha estipulado. O desconto que oferece aos devedores é o resultado da não cobrança da sua parte, ou seja, da sua comissão. Ele oferece esta parte em troca da amizade dos devedores, pois, na sua reflexão, muito mais importante que ter dinheiro é ter amigos.

 

Um empresário não poderia ficar indiferente diante de um prejuízo de 1.825 litros de óleo e 5,5 toneladas de trigo.  Este patrão louva o seu antigo administrador, que não o havia prejudicado nessa operação. Por isto, tudo indica que o administrador renunciou ao que estava acostumado a lucrar com as comissões sobre os negócios.  Ele renuncia à sua comissão, ao seu próprio ganho, ao dinheiro que lhe era devido, com o objetivo de conquistar amigos.

 

A mensagem da parábola está no fato de que, a única maneira de fazer frutificar para a eternidade os nossos talentos e capacidades pessoais, assim como as riquezas que possuímos, é partilhá-las com os irmãos, sendo bons administradores daquilo que Deus nos confia.  Uma outra grande lição que deve ficar dessa parábola é a de fazer um bom uso do dinheiro em vista da eternidade. No final da parábola, Jesus aponta outro caminho: investir o dinheiro e os bens que temos, poucos ou muitos, em criar amigos nas moradas eternas do Reino, pois serão eles que nos acolherão na vida eterna.  

 

A parábola não apresenta o administrador como modelo a ser seguido, evidentemente que Jesus não está convidando a imitar a sua desonestidade, mas a sua habilidade, sua esperteza. Como de fato, esta breve parábola conclui-se com estas palavras: “O senhor elogiou o administrador desonesto por ter procedido prudentemente” (Lc 16,8). O dinheiro em si não é desonesto, mas pode fechar o homem a um egoísmo cego. Em vez de usá-lo em benefício próprio, é preciso pensar também nas necessidades dos outros, imitando o próprio Cristo, como nos diz São Paulo, que “sendo rico se fez pobre por nós, a fim de nos enriquecer pela pobreza” (2Cor 8,9).

 

Esse administrador teria todos os motivos para não dar nenhum desconto àqueles que deviam para o seu patrão, pois ele precisaria desse valor logo depois, tendo em vista que seria demitido. Mas ele vê que na vida, os bens materiais ficam, perecem, são realidades terrenas. Os relacionamentos, com Deus e com os irmãos, ao contrário, permanecem. Também nós devemos ter consciência de que mais importante do que os bens materiais são os relacionamentos que fazemos com os irmãos e com Deus. 

 

A parábola do administrador infiel é uma imagem da vida do homem. Tudo o que temos é dom de Deus, e nós somos os seus administradores, mais tarde ou mais cedo também teremos de prestar contas a Ele. Trata-se, pois, de um apelo ao esforço e à vigilância tendo em vista o último dia, quando se haverá de dizer a cada um: “Presta contas da tua administração!” (Lc 16,2). O uso do dinheiro exige uma grande honestidade, tanto nos negócios mais importantes, como nos mais insignificantes, porque “quem é fiel no pouco é também fiel no muito” (Lc 16,10).  Hoje, como ontem, a vida do cristão exige a coragem de ir contra a corrente, de imitar sempre o Cristo, que também nos ensinou a não servir a Deus e ao dinheiro (cf. Lc 16,13).

 

Peçamos a Virgem Maria que interceda sempre por nós e nos faça usar com sabedoria evangélica, isto é, com solidariedade generosa, os bens terrenos e que possamos sempre ter consciência que Deus é o nosso único Bem.  E que ele mesmo nos faça desapegar dos bens terrenos, para desejarmos apenas os bens eternos, pois só eles não levarão à verdadeira felicidade. Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento / RJ

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do Filho Pródigo

Lc 15,1-32 

 

Caros irmãos e irmãs, 

 

Para este domingo a liturgia da Palavra propõe à nossa meditação o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, uma das páginas mais profundas e comoventes de toda Sagrada Escritura. É belo pensar que no mundo inteiro, onde a comunidade cristã se reúne para celebrar a Eucaristia dominical, ressoa neste dia esta Boa Nova de verdade e de salvação: Deus é amor misericordioso. O evangelista São Lucas recolheu neste capítulo três parábolas sobre a misericórdia divina: as duas mais breves são as parábolas da ovelha desgarrada e da moeda perdida (cf. Lc 15,1-10); a terceira, a mais longa, é a conhecida parábola do Pai misericordioso, também habitualmente chamada de parábola do filho pródigo.

 

O ponto de partida para a narração das três Parábolas é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus, comentam: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2).  O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável. Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho. 

 

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no abraço, no beijo, no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1). 

 

No início da parábola observa-se que o filho exige do pai tudo aquilo que ele tem direito. A lei judaica previa que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade.   Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus, o porco é um animal impuro – servir aos porcos é sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos. Neste momento, ele então percebe que está perdido. Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos. Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome. 

 

O filho mais novo ao partir para um país distante geograficamente, desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do Pai que ficara distante. Passa então a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

 

E é neste momento que ele “entra em si mesmo”, como diz o Evangelho (cf. Lc 15,17).  Podemos dizer que longe da casa do pai, em um país distante ele se afastou até de si mesmo.  Vivia longe da verdade de sua existência. A sua mudança, a conversão, consiste em que ele reconhece que outrora partiu de si e agora ele regressa a si mesmo.  E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai. As palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), nos permitem reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza.  

 

E, ao chegar à casa, recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão.  É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver.  Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida. 

 

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, também pelo próprio ato de tocar este filho que regressava, depois de uma vida desordenada.  Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, pois se julga puro, incapaz se unir aos impuros.

 

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre fez o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai exerça a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas, que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus.  Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

 

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16).  Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para uma vida nova.

 

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai. 

 

O encanto deste texto esconde-se no verbo “splanchnizomaim”, uma palavra grega comumente traduzida como: “movido por compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de um parto. O filho “que estava morto e voltou à vida”, renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso, o Pai exclama: “É preciso alegrar-se”. Esta é a grande proposta de cada cristão: renascer, voltar ao Pai como homem novo e aceitar o irmão exatamente como ele é, ou seja, com suas limitações; abraçá-lo quando vem ao nosso encontro, trazendo as suas cicatrizes e as suas fragilidades.

 

Assim como o filho pródigo, quantos de nós também estamos perdidos e somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos passos para o caminho da conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus.  Possamos ser determinados em nossa decisão a deixar para trás uma vida de erro e de pecado, para irmos em direção à casa do Pai. E ao chegarmos, queira esse Pai de misericórdia ter compaixão também de nós, que ele possa correr ao nosso encontro, a nos abraçar e a nos acolher de novo em sua casa. Assim seja. 

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Carregar a cruz atrás do Cristo

Lc 14,25-33

 

Caríssimos irmãos e irmãs,

 

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos convida a tomar consciência do quanto é exigente seguir o Senhor.  O tema principal que sobressai nas leituras bíblicas é o da primazia do Criador em nossa vida. Já na primeira leitura, tirada do Livro da Sabedoria (cf. Sb 9,13-9), nos sugere indiretamente o motivo desta primazia absoluta de Deus: nele encontramos respostas para as perguntas do homem de todos os tempos que procura a verdade acerca da divindade e de si mesmo. Sem Deus ficamos enfraquecidos e, sem a oração, isto é, sem a união interior com Ele, nada podemos fazer, como disse claramente Jesus aos seus discípulos durante a Última Ceia (cf. Jo 15,5).

 

No trecho evangélico temos o caminho a ser percorrido por cada seguidor de Jesus. Ele próprio apresenta as condições necessárias aos seus discípulos: amá-lo mais do que qualquer outra pessoa e mais do que a própria vida; carregar a própria cruz e segui-lo, renunciando a tudo o que possui. É o que ele diz: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (v. 26). E continua: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (v. 27).

 

Para compreender estas palavras de Jesus é preciso lembrar que o Evangelista São Lucas escreveu o seu Evangelho num contexto de perseguições. Alguns cristãos preferiam morrer a renegar a sua fé. Outros esquivavam, procurando salvar os seus bens, a família e a própria vida. O Evangelista São Lucas quis não tanto condenar estas fraquezas na fé, mas apresentar um encorajamento àqueles que se mantinham firmes na fé, até à morte. Eram esses, os mártires, os que seguem Jesus até no mistério da sua morte na cruz.  Para sermos discípulos de Jesus, nada podemos antepor ao nosso amor por Ele, devemos carregar também a nossa própria cruz e segui-lo.

 

Jesus bem sabe qual é o caminho que o Pai lhe pede para percorrer: o caminho da cruz, do sacrifício de si mesmo pelo perdão dos nossos pecados. A obra de Jesus é precisamente uma obra de misericórdia, de perdão, de amor. E este perdão universal e esta misericórdia passam através da cruz. E Jesus conta com os seus discípulos para que possam continuar a missão que o Pai lhe confiou.  E Ele dirá aos seus seguidores: “Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós… Àqueles que perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20,21.22). O discípulo de Jesus renuncia a todos os bens porque encontrou em Cristo o Bem maior e reconhece nos outros bens um valor menor, tais como, os vínculos familiares e as outras relações.

 

Lembremos que em todos os séculos o Senhor chamou homens e mulheres para que o seguissem.  Eles deixaram tudo e tornaram, no mundo, um sinal luminoso do amor de Deus. Basta pensar em pessoas como São Lourenço, Santa Luzia, São Bento, São Francisco de Assis, Santa Clara, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Ávila e muitos outros. Todos eles souberam deixar tudo, para estar à disposição de todos.

 

Para explicar esta exigência, Jesus usa duas parábolas: a da torre para construir e a do rei que vai para a guerra. Esta segunda parábola diz: “Qual o rei que, ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz” (Lc 14,31-32). Trata-se de uma parábola, mas, na verdade, existe uma guerra mais profunda que todos nós devemos combater. É a decisão forte e corajosa de renunciar ao mal e às suas seduções e escolher o bem. Esta guerra deve ser contra o mal, contra o ódio, a violência, ao erro e ao pecado. Apenas o amor de Deus nos torna livres e isto constitui o centro da mensagem que o Senhor nos quer comunicar no trecho evangélico, aparentemente tão severo deste domingo. Com a sua palavra Ele afirma que podemos contar com o seu amor, o amor de Deus feito homem. Reconhecer isto é a sabedoria da qual nos falou a primeira leitura. 

 

Inspirados na Carta de São Paulo a Filêmon (cf. Fm 9-10.12-17), que a liturgia da Palavra nos faz ler na segunda leitura, que é a mais breve de todas as cartas de São Paulo. Endereçada a Filêmon, aparentemente um membro destacado da Igreja de Colossos, São Paulo trata da questão de Onésimo, escravo de Filêmon, que havia fugido da casa do seu senhor. Ao encontrar-se com Paulo, ligou-se a ele e, com este convívio, transmitiu-lhe a fé, fazendo-o cristão e, ao mesmo tempo, seu colaborador.

 

No entanto, a situação podia tornar-se delicada, pois, de acordo com o princípio legal, ao dar guarda a um escravo fugitivo, Paulo poderia ser cúmplice de uma grave infração ao direito privado. Enfim, Onésimo corria o risco de ser preso, devolvido ao seu senhor e severamente castigado. É neste contexto que Paulo resolve enviar Onésimo a Filêmon, levando consigo uma carta, onde explica a Filêmon a situação e intercede pelo escravo fugitivo, pedindo que o receba, já não como escravo, mas como um irmão em Cristo. E insinua que, sendo possível, lhe devolva Onésimo, já que ele vem sendo de grande utilidade para Paulo. É um significativo texto, carregado de sentimentos fraternos.

 

A nova fraternidade cristã supera a separação entre escravos e livres e insere na história um episódio de promoção da pessoa que levará à abolição da condição de escravo de Onésimo.  Desta experiência particular de São Paulo com Onésimo, entendemos o impulso da promoção humana dado pelo Cristianismo ao caminho da civilização, do perdão, do amor e da fraternidade entre as pessoas. 

 

Para Paulo, o amor deverá ser a suprema e insubstituível norma que dirige e condiciona as palavras, os comportamentos, as decisões. Ora, o amor tem consequências bem práticas, que os membros da comunidade cristã não podem esquecer. Implica ver em cada homem um irmão, independentemente do seu estatuto social. Todos são “filhos de Deus” e irmãos em Cristo. A conversão ao amor exige o reconhecimento da igualdade fundamental de todos os homens.  A partir do amor, devemos descobrir que todos são filhos do mesmo Deus e irmãos em Cristo; a partir do amor, o escravo descobre a afirmação clara da sua dignidade de homem. É esta a questão fundamental que o texto nos apresenta.

 

E a Eucaristia que estamos a celebrar é o Sacramento do amor, que nos recorda o essencial: a caridade e o amor de Cristo que renova os homens e o mundo. Sentimos estas manifestações nas expressões de São Paulo na Carta a Filêmon. Nesta pequena carta sente-se de fato toda a mansidão e ao mesmo tempo o poder irresistível da caridade, que é a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e também da humanidade. Portanto, devemos sempre lembrar do mandamento antigo e sempre novo: “Amai-vos uns aos outros como o Cristo nos amou” (Jo 13,34).  

 

Peçamos a Maria que nos ensine a colocar em prática os ensinamentos de seu Filho Jesus, para que possamos segui-lo todos os dias e, iluminados pelo Espírito Santo, sejamos no mundo, seus discípulos e testemunhas do amor e da misericórdia de Deus.  Assim seja. 

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Quem se humilha, será elevado

Lc 14,1.7-14

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos propõe uma reflexão sobre alguns valores importantes para o nosso quotidiano: a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado…  Na primeira leitura, tirada do Livro do Eclesiástico (cf. Eclo 3,19-21.30-31), a humildade é enfatizada como um caminho agradável a Deus, que proporciona ao homem êxito e felicidade.  O texto nos apresenta uma instrução de um pai ao seu filho, na qual mostra a humildade como uma das qualidades fundamentais que todos nós devemos cultivar. É na humildade e na simplicidade que reside o segredo da sabedoria e do bem. 

 

O homem que se deixa dominar pelo orgulho torna-se egoísta, injusto e despreza os outros, sente-se superior aos demais e pratica, com frequência, gestos de prepotência, que o torna temido, mas nunca admirado ou amado. Precisamos reconhecer que tudo o que somos e temos é um dom de Deus e que as nossas qualidades não dependem dos nossos méritos, mas somente de Deus. 

 

Na página do Evangelho encontramos Jesus como hóspede na casa de um chefe dos fariseus.  Os fariseus formavam um dos principais grupos da sociedade palestina desta época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todas as atividades religiosas dos israelitas. A preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torá, quer escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizar a Lei, esquecia das pessoas e não praticava o amor e a misericórdia. Os fariseus se consideravam puros, porque viviam de acordo com a Lei e desprezavam os que não cumpriam os seus preceitos integralmente; não eram propriamente modelos de humildade. Isso talvez explique a luta pelos lugares de honra que o Evangelho faz referência.

 

O relato evangélico nos situa no contexto de um banquete, que no mundo semita, era o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham do mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade, de irmandade. Jesus aparece muitas vezes em banquetes, para mostrar o sentido da comunhão, do encontro e da familiaridade, sinais que caracterizam o reino de Deus. 

 

Observando que os convidados escolhiam os primeiros lugares à mesa, Jesus contou uma parábola, ambientada num banquete nupcial, dizendo: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados” (Lc 14,8-10). Alguém que ocupa logo o primeiro lugar, já não pode ser convidado pelo anfitrião para subir a um lugar melhor; só pode ser rebaixado, isto quando aparece alguma pessoa mais importante. Por isto, é melhor ocupar o último lugar, para poder receber o convite de ocupar um lugar de maior destaque. 

 

No final da parábola Jesus sugere ao chefe dos fariseus que convide à sua mesa não os amigos, os parentes ou os vizinhos ricos, mas as pessoas mais pobres e marginalizadas, que não têm como retribuir esse gesto (cf. Lc 14,13-14). Os fariseus escolhiam cuidadosamente os seus convidados. Nas suas refeições, não convinha comparecer alguém de nível menos elevado, pois nesta refeição, não convinha estabelecer obrigatoriamente laços com pessoas tidas como desclassificadas. Os fariseus também tinham a tendência, própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas, de convidar aqueles que podiam retribuir da mesma forma. A questão é que, dessa forma, tudo se tornava um intercâmbio de favores e não gratuidade e amor desinteressado.

 

Jesus reprova esta prática e ressalta ser preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (v.13), considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus e, por isso, estavam proibidos de entrar no Templo (cf. 2Sm 5,8) para não profanar o lugar sagrado (cf. Lv 21,18-23). No entanto, para Jesus, são esses que devem ser os convidados para o banquete.  Com isto, Jesus fala do banquete celeste, quando todos estarão unidos por laços de familiaridade e comunhão, para o qual todos são convidados, inclusive os que a cultura social e religiosa tantas vezes exclui. O acesso a este banquete escatológico não ocorre pelo jogo de interesse, mas pela gratuidade e pelo amor. Na verdade, a verdadeira recompensa, só Deus nos dará. Para participar deste banquete é necessário ser humilde, simples e estar a serviço do outro.  E Jesus conclui a parábola dizendo: “Aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 14,11). A humildade é uma grande virtude humana, porque, em primeiro lugar, representa o modo de agir do próprio Deus. É o caminho escolhido por Cristo que “identificado como homem, se humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,7-8).

 

Nesta parábola podemos encontrar uma mensagem importante e atual.  Cristo nos convida a seguir o itinerário da humildade. Hoje somos chamados a um compromisso honesto e a um profundo interesse pelo bem comum. A humildade é, portanto, o resultado de uma vitória do amor sobre o egoísmo e da graça sobre o pecado. Esta parábola faz pensar também na nossa posição em relação a Deus. O “último lugar” pode representar a condição da humanidade atingida pelo pecado. A primeira leitura nos diz: “Quanto maior fores, tanto mais te deves humilhar, e assim encontrarás benevolência diante de Deus” (Eclo 3,18). 

 

Humildade vem do latim “humilis”, que por sua vez deriva de “humus”, que quer dizer “terra”. Humilde é, pois, quem está ao nível do solo e se move perto da terra. Algo que corresponde exatamente à nossa pequenez e condição de criatura, parte insignificante do cosmos. Humilde é aquele que, com sabedoria e realismo, reconhece a distância que o separa do seu Criador. Por isso, Santa Teresa diz que “humildade é caminhar na verdade”.

 

A humildade é também muito cara para São Bento, que escreveu em sua Regra um longo capítulo dedicado a ela, ressaltando o seu valor e a sua importância para chegarmos ao reino celeste (cf. RB 7). Possamos nós seguir o modelo dos santos, que souberam praticar a humildade; e também o exemplo do próprio Cristo, que se revelou como “manso e humilde de coração” (cf. Mt 11,29).  A humildade que o Senhor nos ensinou e que os Santos puderam testemunhar, cada qual segundo a originalidade da sua própria vocação, constitui um estilo de vida, um modelo para cada um de nós.

 

No cântico do “Magnificat” Maria nos diz que Deus “olhou para a humildade da sua serva” (Lc 1,48). A humildade de Maria é aquilo que Deus mais aprecia. Peçamos a ela, modelo de uma vida humilde e santa, que interceda sempre por nós e nos faça direcionar nossos passos pelo caminho da humildade, para podermos, um dia, sermos dignos da recompensa divina.  Assim seja. 

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ