XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – “Procurai entrar pela porta estreita!” (Lc 13,24).

Lc 13,22-30

 

Prezados irmãos e irmãs,

 

O Evangelho deste domingo nos convida a meditar sobre o tema da salvação. Jesus está em direção à cidade de Jerusalém e, ao longo do caminho, alguém aproxima-se dele e o interroga: “Senhor, são poucos os homens que se salvam?” (v. 23). Uma pergunta que sempre aparece na curiosidade dos que refletem sobre a vida eterna: são muitos ou poucos os que se salvam?  Este interrogar-se pela salvação e desejar a vida eterna é consequência lógica da nossa fé na vida futura, que é também o objeto de nossa esperança. 

 

Esta pergunta fazia parte da preocupação dos contemporâneos de Jesus. Os hebreus restringiam a salvação unicamente aos membros do povo eleito e aos seus descendentes pela via do sangue de Abraão e dos patriarcas.  Para eles, a circuncisão, a observância material da lei e a prática do culto era não só o sinal, mas garantia de salvação. 

 

Diante da pergunta deste interlocutor anônimo, Jesus não responde diretamente à questão apresentada, mas começa por uma exortação catequética, preferindo apresentar uma norma de salvação, ilustrando com a parábola da porta que se fecha para alguns e abre para outros, para o acesso à vida eterna.  Com isto, usando a imagem da porta estreita, Jesus mostra a todos o caminho da salvação: “Procurai entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão” (v. 24). 

 

A imagem da porta volta várias vezes no Evangelho e evoca a porta da casa, do lar, onde encontramos segurança, amor e tranquilidade. Jesus nos diz que existe uma porta que nos faz entrar na família de Deus, no calor da sua casa, na comunhão com Ele. Esta porta é o próprio Jesus, pois Ele disse: “Eu sou a porta” (Jo 10,9).  Cristo é a porta da vida em plenitude. Através dele encontramos a nós mesmos e encontramos os outros. Ele nos ajuda a abrir as portas do nosso coração aos outros. E Cristo ainda completa: “Quem entrar por mim tem a vida!” (Jo 10,9). Quem entrar por Ele não fica desiludido, não sairá defraudado e encontrará orientação para a vida. Cristo é a porta que dá sentido à vida; uma porta sempre aberta.

 

Sendo Cristo a porta, também Ele é a passagem para a salvação que nos conduz ao Pai. Uma porta que permanece aberta e para todos, sem distinções, sem exclusões nem privilégios. Porque Jesus não exclui ninguém. Ele nos espera junto a esta porta. Precisamos ter coragem para entrar por esta porta. Todos estão convidados a passar por ela, para estar com Cristo, para que Ele transforme a nossa vida, a renove e infunda em nós a alegria plena e duradoura.

 

Podemos passar diante de muitas portas que nos convidam a entrar, prometendo uma felicidade passageira.  Não tenhamos medo de passar pela porta da fé que é Jesus, de deixar que Ele entre cada vez mais na nossa vida.  Abramos de par em par a porta para ele entrar e iluminar a nossa existência com uma luz que jamais se apaga. A Sagrada Escritura fala da Sua vinda diária a cada pessoa: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20).

 

Sabemos que a porta é estreita, e, por isto, para passarmos por ela, precisamos fazer-nos pequenos. Para reconhecermos que somos pecadores e que somos necessitados da sua salvação, do seu perdão, do seu amor, precisamos ter a humildade de acolher a sua misericórdia e de nos deixarmos renovar por Ele.  Mas, como a porta é estreita, muitos procurarão entrar, mas não conseguirão (v.24), para poder entrar, é preciso lutar, esforçar-se, fazer-se pequeno.

 

Na realidade, para todos a porta é “estreita”, por isto, a necessidade de empenho e mortificação. Seguindo os ensinamentos de Jesus, entrar no “Reino” é, em primeiro lugar, esforçar-se por “entrar pela porta estreita” (v. 24). A imagem da “porta estreita” é sugestiva para significar a renúncia ao erro e ao pecado que impedem ao homem de viver em conformidade com as leis de Deus. O homem é sempre chamado a evitar o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio que nos separa de Deus.

 

Jesus nos chama a “entrar pela porta estreita” que, por sua vez, significa fazer-se simples, humilde, servidor, capaz de amar os outros até ao extremo e de fazer da vida um dom. Em outras palavras, significa seguir Jesus no seu exemplo de amor e de entrega. Jesus mesmo é o modelo para todos aqueles que querem “entrar pela porta estreita”. É o seu exemplo que é proposto a todos os seus discípulos.

 

Como nos domingos anteriores, o Evangelho uma vez mais nos convida a considerar o futuro que nos espera e para o qual devemos nos preparar durante nossa peregrinação terrena. Jesus Cristo é o único Redentor e nos chama para o banquete da vida imortal. Mas com uma única e igual condição: a de esforçar-se em segui-lo e imitá-lo, carregando, como Ele fez, a própria cruz e dedicando a vida ao serviço do próximo. Portanto, é esta a condição para entrar na vida celestial.

 

No último dia, nos recorda também a Sagrada Escritura, seremos julgados segundo as nossas obras.  E se realizamos o bem, ele nos dirá: “Vinde benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós… porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber.  Era forasteiro e me acolhestes…” (Mt 25,31ss). Isto sintetiza que a verdadeira amizade com Jesus se expressa na forma de viver: a bondade do coração, a misericórdia, o amor e o empenho sincero e honesto pela paz e a reconciliação. Tudo isso, podemos dizer, é o que nos qualifica como bons operários do Senhor e nos permitirá entrar pela porta estreita, para termos acesso à vida eterna.

 

Como de fato, a tarefa da salvação é árdua e supõe empenho e sacrifício da nossa parte.  Em nenhum lugar se fala de facilidades. Ao contrário, se fala de uma permanente luta contra o mal.  O livro de Jó nos dirá: “A vida do homem na terra é uma batalha” (Jó 7,1). E, embora a luta seja árdua, jamais nos faltará a graça de Deus para vencer as dificuldades.

 

O Apóstolo São Paulo nos lembra que os atletas, nas olimpíadas, se submetem a um rigoroso regime e uma forte preparação com exercícios para conseguir ganhar uma medalha (cf. 1Cor 9,24-25).  Nós somos convidados também a percorrer um caminho de luta para conseguir um prêmio de eternidade. É a severa disciplina que todos nós somos convidados a tomar parte.

 

A mensagem do Evangelho deste domingo é para todos um convite de Jesus à conversão radical do coração, a fim de conquistar o Reino de Deus, porque somente se formos esforçados o alcançaremos (cf. Mt 11,12).  A conversão deve ser urgente, antes que a porta venha a fechar; amanhã poderá ser tarde. Temos uma sensação muito desagradável quando perdemos o trem, o ônibus ou o avião, numa viagem previamente planejada, sobretudo se isto ocorre por nossa culpa, por isso, devemos nos empenhar para não chegarmos demasiadamente atrasados para obtermos a vida eterna, para chegarmos ao Reino de Deus.  

 

Em cada Santa Missa é o próprio Cristo que vem ao nosso encontro, para ser Ele mesmo o alimento que comunica vida: “Se não comerdes a carne do Filho Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós” (Jo 6,53). Façamos de cada Eucaristia uma ocasião de abrir a porta do nosso coração para Jesus entrar, fazer morada e comunicar a sua vida conosco. Ao entrar pela porta de Jesus, a porta da fé e do Evangelho, saibamos deixar para trás atitudes mundanas, os maus costumes e os erros.

 

Se queremos verdadeiramente passar por esta porta estreita, devemos ainda nos empenhar em conhecer os ensinamentos do Senhor e colocá-los em prática, a exemplo dos santos e a exemplo de Maria, a mãe de Jesus e nossa.  E que ela, invocada pelo povo cristão como Porta do Céu, possa nos guiar a cada dia pelos caminhos que nos levam a esta porta e, ao chegarmos, que ela possa estar aberta para cada um de nós. Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Lc 1,39-56

 

Caros irmãos e irmãs

 

Neste domingo celebramos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, uma verdade que a Igreja professou desde os primeiros séculos, proclamada como dogma pelo Papa Pio XII em 1950, com a bula “Munificentissimus Deus”, onde declarava ser este dogma “revelado por Deus que a imaculada Mãe de Deus, a Virgem Maria, tendo terminado o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (DS 3903). Ao proclamar a Assunção da Virgem Maria, o Papa Pio XII ressaltou, implicitamente, a dignidade do corpo humano.  O homem chega à glória da eternidade, quando sabe valer-se dos órgãos do corpo terreno para fazer o bem, para estar a serviço de Deus e dos irmãos, foi isto que levou Maria à glorificação final. Todos nós podemos e devemos fazer o mesmo. Guardar a dignidade do corpo na terra, para que Deus o glorifique no céu.

 

O evangelho nos remete ao limiar da casa de Zacarias, onde Maria, apressadamente, vem ter com Isabel, a quem se vê unida por um mistério análogo; e vem partilhar com ela a sua própria alegria. E neste encontro, João Batista exaltou de alegria no ventre de Isabel, porque o Salvador, presente em Maria, estava próximo. E Isabel reconheceu em Maria a Mãe do Salvador, a bendita entre todas as mulheres. Na saudação de Isabel temos a sequência do que se ouviu do Anjo Gabriel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu….” (Lc 1,42.45). E nesse instante, brota dos lábios de Maria o cântico do “Magnificat”, onde os seus sentimentos exprimem a consciência do cumprimento das promessas do Senhor (cf. Lc 1,54).

 

O primeiro movimento deste cântico mariano (cf. Lc 1, 46-50) é uma espécie de voz solista que se eleva em direção ao céu para alcançar o Senhor. Com efeito, observe-se o ressoar constante da primeira pessoa: “A minha alma… o meu espírito… meu salvador… me chamarão de bem-aventurada… fez grandes coisas em mim…”. A alma desta oração mariana é, portanto, a celebração da graça divina que transbordou no coração e na sua existência, tornando-a a Mãe do Senhor. Ouvimos precisamente a voz de Nossa Senhora que fala assim do seu Salvador, que fez maravilhas na sua alma e no seu corpo.

 

A estrutura íntima do seu canto é, portanto, o louvor, o agradecimento, a alegria. É um testemunho pessoal de Maria, que está consciente de ter uma missão a cumprir pela humanidade e a sua vicissitude insere-se no âmbito da história da salvação. E assim pode dizer: “A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem” (v. 50). Com este louvor ao Senhor, Maria dá voz a todas as criaturas beneficiadas pela misericórdia de Deus.

 

O cântico inicia com a palavra “Magnificat”: a minha alma “engrandece” o Senhor, ou seja, “proclama grande” o Senhor. É importante que Deus seja grande entre nós, porque somente se Deus está presente, temos uma orientação, uma estrada comum a seguir. Neste mesmo cântico Maria diz: “Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. A Mãe do Senhor profetiza os louvores marianos da Igreja para todo o futuro, a devoção mariana do Povo de Deus até o fim dos tempos. Louvando Maria, a Igreja respondeu a esta profecia feita por ela, naquele momento de graça. E estas palavras não deixam de ser um complemento às palavras de Isabel, pronunciadas no momento em que estava ela repleta do Espírito Santo: “Bendita aquela que acreditou”. E Maria, também cheia do Espírito Santo, sequencia, afirmando: “Todas as gerações me chamarão de bem-aventurada”. 

 

Maria é bem “bem-aventurada”, é bendita para sempre. Este é o contexto da Solenidade que a Igreja celebra neste domingo. É bem-aventurada porque está unida a Deus, vive com Deus e em Deus. O Senhor, na vigília da sua Paixão, ao despedir-se dos apóstolos, disse: “Eu vou preparar-vos, na casa do Pai, uma morada. E há muitas moradas na casa do meu Pai”. Quando Maria dizia: “Eu sou a tua serva, faça-se em mim segundo a tua vontade” preparava aqui na terra a morada para Deus; de corpo e alma, tornou-se morada de Deus.

 

Maria torna-se a tenda de Deus, a morada onde Deus vem habitar. Santo Agostinho diz: “Antes de conceber o Senhor no corpo, já O tinha concebido na alma”. Reservou ao Senhor o espaço da sua alma e assim tornou-se realmente o autêntico Templo onde Deus encarnou, tornando-se presente nesta terra. Deste modo, como morada de Deus na terra, nela já está preparada a sua morada eterna, já está preparada esta morada para sempre. E é nisto que consiste todo o conteúdo do dogma da Assunção de Maria à glória do céu de corpo e alma. Maria é “bem-aventurada” porque se tornou totalmente, de corpo e alma e para sempre a morada do Senhor. Se isto é verdade, Maria não nos convida apenas à admiração, à veneração, mas também nos orienta, nos indica o caminho da vida e nos mostra como podemos tornar-nos bem-aventurados, como podemos encontrar a vereda da felicidade.

 

Maria, com a sua total disponibilidade, abriu as portas ao Salvador do mundo. Foi grande e heróica a obediência da sua fé; foi precisamente através desta fé que Maria se uniu perfeitamente a Cristo, na morte e na glória. Olhando para ela fortalece em nós a fé no que esperamos, e, ao mesmo tempo, compreendemos melhor o sentido e o valor da nossa peregrinação neste mundo.

 

Também as palavras do Apóstolo São Paulo, na segunda leitura (cf. 1Cor 15,20-26), nos ajudam a compreender o significado desta solenidade que celebramos. Em Maria, que subiu ao Céu no termo da sua vida terrestre, resplandece a vitória definitiva de Cristo sobre a morte, que entrou no mundo em virtude do pecado de Adão. Foi Cristo, o “novo” Adão, que venceu a morte, oferecendo-se em sacrifício no calvário, em atitude de amor obediente ao Pai. Assim, Ele nos resgatou da escravidão do pecado e do mal. No triunfo da Virgem, a Igreja contempla aquela que o Pai escolheu como verdadeira Mãe do seu Filho Jesus, a quem associou intimamente ao desígnio salvífico da Redenção. Por isso, Maria constitui um sinal consolador da nossa esperança.

 

Em cada celebração eucarística, o Filho de Deus é doado a nós. Quem participa da comunhão leva consigo agora de modo particular o Senhor ressuscitado. Como Maria levou no seu ventre um frágil e pequeno ser humano, totalmente dependente do amor da mãe, assim, Jesus Cristo, sob a espécie do pão, se confiou a nós. É Jesus mesmo que se doa tão inteiramente nas nossas mãos! Possamos nós ter por ele o mesmo amor que tem a sua mãe Maria! Possamos leva-lo a todos, como Maria o levou a Isabel, suscitando júbilo e alegria! A Virgem doou ao Verbo de Deus um corpo humano, para que pudesse entrar no mundo. Doemos também nosso corpo ao Senhor, tornemos o nosso corpo cada vez mais um instrumento do amor de Deus, um templo do Espírito Santo!

 

Possamos aprender com Maria os caminhos que nos levam à glória do céu. Que saibamos estar na escola daquela que “guardava e meditava tudo em seu coração” (Lc 2,16). Que ela interceda por nós, para que, dizendo “não” ao erro e ao pecado, saibamos preparar o nosso encontro definitivo com Cristo, no final da nossa peregrinação terrestre. 

 

Contemplando Nossa Senhora da Assunção no céu compreendemos melhor que a nossa vida, não obstante seja marcada por provações e dificuldades, está sempre direciona para Deus, para a plenitude da alegria e da paz. Entendemos que o nosso morrer não é o fim, mas o ingresso na vida que não conhece a morte. O nosso crepúsculo no horizonte deste mundo é um ressurgir na aurora do mundo novo, do dia eterno. Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Vigiai!

Lc 12,32-48

 

Caros irmãos e irmãs,

 

A Palavra de Deus que a liturgia deste domingo nos propõe, exorta cada um de nós à vigilância.  Jesus começa dirigindo uma admoestação aos seus discípulos, dizendo: “Não temas…”. Eles sentem medo.  Sabem que são poucos e fracos diante de um mundo hostil.  

 

Na Sagrada Escritura a primeira vez que aparece a palavra “medo” é imediatamente após nossos primeiros pais terem cometido o pecado: “Ouvi teus passos no jardim, por isso tive medo…” (Gn 3,10).  O medo se nos apresenta nas suas mais diferentes facetas. Medo de Deus; medo de comprometer-se; medo da própria afetividade; medo do passado; medo do que é novo; medo de assumir-se cristão em locais públicos.

 

No Novo Testamento o anjo aparece a José e diz a ele: “Não tenhas medo!”. O Anjo Gabriel diz a Zacarias: “Não tenhas medo!”. E o mesmo anjo diz também a Maria: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus!”.  Não ter medo é o primeiro obstáculo que nós precisamos vencer para nos aproximarmos do Cristo. 

 

O medo nos destrói e nos corrói por dentro e não nos permite dar passos firmes na fé, e seguir adiante. O medo nos leva a enterrarmos os próprios talentos que Deus nos deu. O contrário de não ter medo significa confiar, ter a certeza, ter a convicção, a fé única neste Deus que nos ama e quer o nosso bem.

 

Mesmo quando o “mar” à nossa volta parece querer nos engolir, Jesus vem em socorro de nossas limitações, e nos estende a sua mão. Ele não nos quer acomodados em nossa falsa segurança. Se queremos seguir os seus passos, Ele sempre nos diz como disse a Pedro: “Venha!”. Na nossa falta de fé, duvidamos. Não somente de nós mesmos, mas do Senhor. Ele nos encoraja e nos levanta: “Homem de pouca fé, por que duvidaste” (Mt 14,31), ao mesmo tempo em que nos estende a sua mão.

 

O Senhor a todo momento continua a nos dizer: “Não tenhas medo!” (Lc 12,31). É necessário que, como Pedro digamos que aceitamos seguir os passos de Cristo, apesar dos riscos. Precisamos reconhecer nossas fraquezas, mas também nossas capacidades.

 

Esta exortação “Não tenhas medo” precisa ser lida numa dimensão muito ampla. Não devemos ter medo porque o homem foi redimido por Deus, e a redenção perpassa toda a história humana. Ele é a luz que resplandece nas trevas (cf. Jo 1,5).   Jesus já dizia aos apóstolos: “Não tenhas medo!” (Lc 24,36) e após a sua ressurreição, disse também às mulheres “Não tenhas medo!” (Mt 28,10). 

 

Nós somos movidos pelos nossos medos: medo de doenças, medo da morte, medo de algo não dar certo, medo de não conseguir. Medo dos nossos próprios fracassos, medo dos nossos erros, das nossas incertezas, das pessoas, da violência.  O medo é nossa condição existencial; ele nos acompanha da infância até a morte. Não precisamos ter medo, porque o Senhor está com cada um de nós. Ele mesmo disse: “Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).  Lembremos também do que diz o salmista: “O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o protetor de minha vida, de quem terei medo?” (Sl 26,1).

 

A mensagem do evangelho é exigente. E Cristo, a este propósito, jamais iludiu os seus discípulos e aqueles que o escutavam. Ao contrário, com muita firmeza os preparava para toda espécie de dificuldades internas e externas, levando sempre em conta o fato de que eles podiam também decidir deixá-lo (cf. Jo 6,67).  Portanto, se Jesus diz com insistência “Não tenham medo!”, certamente não diz isso para anular de algum modo o que exige. Antes, com estas palavras, confirma toda a verdade do Evangelho e todas as exigências nele contidas. Se o homem aceita a mensagem de Jesus, em atitude de fé encontra também na graça, a força necessária para enfrentar tudo isso.  

 

A página evangélica deste domingo nos apresenta ainda uma catequese sobre a vigilância. Propõe aos discípulos de todas as épocas uma atitude de espera serena e atenta do Senhor, que vem ao nosso encontro para nos libertar e para nos inserir numa dinâmica de comunhão com Deus. O evangelista São Lucas reúne no evangelho três parábolas ligadas ao tema da vigilância. 

 

A primeira parábola nos mostra que um Senhor viaja para ir a uma festa de casamento e deixa em casa os seus empregados.  Eles sabem que o patrão voltará, mas não sabem quando. Poderia ser durante a noite ou antes do amanhecer e eles devem estar a postos para recebê-lo (v. 35-38).  Com esta parábola, Jesus convida os seus discípulos a se manterem vigilantes como os serviçais que, durante a noite, conservam as lâmpadas acesas, cingidos os rins e a túnica dobrada.  A vida dos discípulos é, portanto, uma espera vigilante, uma permanente disponibilidade para receber o Senhor que vem. 

 

A segunda parábola nos fala de alguém que guarda na sua casa uma grande soma de dinheiro e fica perturbado porque sabe que o ladrão não avisa, chega de repente (v. 39-40).  Esta parábola aponta para a incerteza da hora em que o Senhor virá. A imagem do ladrão que chega a qualquer hora, sem ser esperado é uma imagem sugestiva para mostrar que o discípulo fiel é aquele que está sempre preparado, a qualquer hora e em qualquer circunstância, para acolher o Senhor que vem. A parábola também nos alerta sobretudo a sermos otimistas, a cultivarmos a esperança e, ao mesmo tempo, continuarmos vigilantes.

 

A terceira parábola constitui uma resposta de Jesus a Pedro, que lhe pergunta quem deve manter-se vigilante.  Jesus lhe responde que todos devem vigiar (v. 41-48). É uma vigilância permanente para sermos encontramos prontos na espera do Senhor que vem.  Ele pode chegar quando menos esperamos. 

 

Através dessas três parábolas, Jesus explica como a espera do cumprimento da sua vinda deve impelir ainda mais a uma vida intensa, rica de obras boas:  “Vendei os vossos bens e dai-os de esmola. Fazei para vós bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, do qual o ladrão não se aproxima e a traça não corrói” (Lc 12,33). Trata-se de um convite a utilizar os nossos bens sem egoísmo, nem sede de posse ou de domínio, mas segundo a lógica de Deus, a lógica da atenção ao próximo, a lógica do amor.

 

A vida dos discípulos de Jesus precisa ser uma espera vigilante e atenta, pois o Senhor está permanentemente vindo ao nosso encontro a desafiar-nos para nos despirmos das cadeias que nos escravizam e para percorrermos, com ele, um novo caminho.

 

Deus nosso Pai nos confiou a vida, para que a façamos frutificar em aventura de amor. Isso deveria nos preservar do “espírito de possessão” e abrir o nosso coração para aprender sem cessar a receber e praticar a caridade para com o nosso próximo.

 

A Virgem Maria, a quem veneramos como mãe, do céu interceda sempre por nós e nos ajude a não esquecer que aqui, na terra, estamos apenas de passagem, e nos ensine a viver os ensinamentos do seu filho Jesus que “está à direita do Pai, todo poderoso e de lá virá julgar os vivos e os mortos”, como recitamos na nossa profissão de fé.  Assim seja.

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do rico insensato

Lc 12,13-21

 

Caros irmãos e irmãs,

 

O Evangelho deste domingo nos recorda precisamente o erro de basear a própria felicidade na posse dos bens terrenos.  O ensinamento de Jesus é introduzido pelo pedido de uma pessoa do meio da multidão: “Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12, 13).  Alguém queixa-se a Jesus porque o irmão não quer repartir com ele a herança. Segundo as tradições judaicas, o filho primogênito de uma família de dois irmãos recebia dois terços das possessões paternas (cf. Dt 21,17). É possível que só fossem repartidos os bens móveis e que, para guardar intacto o patrimônio da família, a casa e as terras fossem atribuídas ao primogênito. O homem que interpela Jesus é, provavelmente, o irmão mais novo, que ainda não tinha recebido a sua parte. Era frequente naquele tempo, que os rabinos assumissem o papel de juízes em casos similares. 

 

Jesus parece não querer envolver-se em questões de direito familiar e a tomar posição por um irmão contra outro e responde ao seu interlocutor: “Amigo, quem me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?” (v. 14). O que estava em causa na questão era a cobiça, a luta pelos bens, o apego excessivo ao dinheiro. A conclusão que Jesus tira (v. 15) explica porque Ele não aceita envolver-se na questão: o dinheiro não é a fonte da verdadeira vida. A cobiça dos bens não conduz à vida plena, não responde às aspirações mais profundas do homem, não conduz a um autêntico amadurecimento da pessoa. 

 

Ao responder a questão apresentada, Jesus chama a atenção dos ouvintes para o desejo dos bens terrenos com a parábola do rico insensato que, tendo acumulado para si uma colheita abundante, deixa de trabalhar, dissipa os seus bens divertindo-se e chega a se iludir com relação ao futuro. Na Sagrada Escritura, o homem insensato é aquele que está alheio à compreensão da experiência das coisas visíveis, pois nada dura para sempre, tudo passa: tanto a juventude, como a força física, bem como as comodidades e funções de poder. Por conseguinte, fazer depender a própria vida de realidades tão passageiras é insensatez.  Através da “parábola do rico insensato”, Jesus denuncia a falência de uma vida voltada apenas para os bens materiais. 

 

Ao contar esta parábola, Jesus convida os seus discípulos a desapegar-se dos bens.  Não podemos viver na escravatura do dinheiro e dos bens materiais, como se eles fossem o mais importante da nossa vida. A preocupação excessiva com os bens, a busca obsessiva dos bens, constitui uma experiência de egoísmo, de fechamento, de desumanização, que centraliza o homem em si próprio e o impede de estar disponível para os valores verdadeiramente importantes, os que não passam. Quando o coração está cheio de cobiça, de avareza, de egoísmo, quando a vida se torna um combate obsessivo pelo “ter”, quando o verdadeiro motor da vida é a ânsia de acumular, o homem torna-se insensível aos outros e a Deus. É capaz de explorar, de escravizar o irmão e de cometer injustiças. 

 

Com esta parábola Jesus nos ensina a preparar para a vida futura.  A vida presente é passageira, os bens temporais acabam. Os espirituais são eternos.  A vida neste mundo é como um tempo de preparação para a vida eterna. E as riquezas deste mundo não nos acompanharão após a morte.  A virtude é a única riqueza que nos acompanha ao concluirmos a nossa peregrinação terrena. 

 

Esta temática apresentada no Evangelho aparece também na primeira leitura, retirada do livro do Eclesiastes (cf. Ecl 1,2;2,21-23), onde temos uma reflexão acerca da fragilidade de uma vida voltada para o acumular bens. Diz o texto: “Um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou. Também isso é vaidade e grande desgraça” (Ecl 2,21).  Com um impressionante pessimismo, o autor parece negar qualquer possibilidade de encontrar um sentido para a vida. Defende que o homem é incapaz de ter acesso à sabedoria e que estamos fatalmente condenados a repetir os mesmos desafios. 

 

Na verdade, o texto proclama a inutilidade de qualquer esforço humano. Não adianta trabalhar, esforçar-se, preocupar-se em construir algo se teremos, no final, de deixar tudo a outro que nada fez. E o texto resume a sua frustração e o seu desencanto nesse refrão que se repete várias vezes em todo o livro: “tudo é vaidade”.

 

Contudo, a grande lição que o texto  nos deixa é a demonstração da incapacidade do homem, por si só, em encontrar uma saída, um sentido para a sua vida. Este pessimismo apresentado na primeira leitura nos leva a reconhecer a nossa impotência e a nossa fraqueza em construir uma vida voltada apenas para o humano e para o material. Constatando que em si próprio e apenas por si próprio o homem não pode encontrar o sentido da vida. A reflexão deste livro nos leva a olhar para algo que está mais à frente e que, só podemos entender, quando somos iluminados pela fé, pois só em Deus e com Deus seremos capazes de encontrar o sentido da vida e preencher a nossa existência. 

 

A Sagrada Escritura está toda impregnada de lições sobre o desapego dos bens da terra, sobretudo no Novo Testamento.  Desde a lição de pobreza do presépio, até o despojamento total da cruz. Desde o Sermão da Montanha, que se abre com a bem-aventurança dos pobres: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3); até o triste episódio do jovem que recusou o chamado de Jesus, porque não quis desligar-se de suas muitas riquezas (Mt 19,16-22).  Só a filosofia do Evangelho pode curar o mundo moderno da idolatria do dinheiro, e fazer descobrir quanto o homem desapegado do dinheiro torna-se soberanamente livre para adorar a Deus e servir aos irmãos.

 

A preocupação exagerada com as coisas materiais demonstra falta de confiança na Providência Divina.  Mas, se confiamos em Deus e cremos em sua providência, nada nos faltará. Jesus nos manda que procuremos exclusivamente o Reino de Deus, desprezando as necessidades materiais, devemos, contudo, procurar os meios de subsistência, pois isto é um dever natural.  Ele pede que coloquemos em primeiro lugar as preocupações espirituais, mas sem desprezar as outras. Devemos trabalhar guiados pela fé, reconhecendo que tudo vem de Deus e que o ser humano nada é sem a bênção divina.

 

A riqueza, mesmo sendo em si um bem, não deve ser considerada um bem absoluto. Sobretudo, não garante a salvação, aliás poderia até comprometê-la. Precisamente deste risco Jesus, na hodierna página evangélica, adverte os seus discípulos. É sabedoria e virtude não apegar o coração aos bens deste mundo, porque tudo é passageiro, tudo pode acabar. O verdadeiro tesouro que devemos procurar está nas “coisas do alto, onde se encontra Cristo sentado à direita do Pai”. Recorda-nos isto São Paulo na segunda leitura, na carta aos Colossenses, acrescentando que a nossa vida “já está escondida com Cristo em Deus” (cf. Cl 3,1-3).

 

Estamos concluindo o mês de julho e neste dia 31 recordamos a figura de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Viveu no século XVI, converteu-se lendo a vida de Jesus e de alguns Santos, durante um longo período de convalescência devido a uma ferida que lhe fora causada em batalha. Permaneceu tão profundamente impressionado por aquelas páginas, que decidiu deixar tudo para seguir o Senhor.  E iniciando o mês de agosto, celebramos a memória litúrgica de um outro grande santo, fundador dos Redentoristas, trata-se de Santo Afonso Maria de Ligório, que viveu no século XVIII e se destacou como um grande pregador e moralista. Também no mês de agosto, precisamente no dia 4, lembramos ainda São João Maria Vianney, que devido ao seu exemplo de bom e fiel sacerdote, tornou-se o modelo para todos os padres. O compromisso comum destes Santos consistia em viver segundo o evangelho e servir a Igreja. Estes homens souberam acumular aquilo que não se corrompe e escolheram o que não se decompõe com o tempo: a vida com Deus. 

 

Possamos pedir esta graça a Virgem Maria, que mais do que qualquer outra criatura, participou no mistério de Cristo. Que ela interceda sempre por nós e nos ampare no nosso caminho de fé para que não nos deixemos dominar pela ganância e pelo egoísmo, mas procuremos sempre o que é válido aos olhos do Senhor. Assim seja.

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ