XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A oração do Pai nosso

 

Lc 11,1-13

 

Caros irmãos e irmãs,

 

O Evangelho deste domingo nos apresenta Jesus recolhido em oração.  Ele tinha o costume de passar noites e noites em oração; horas e horas em intimidade com o Senhor.  Em todos os momentos da vida Jesus estava rezando. Ele fazia da sua vida uma oração e da oração a sua vida.  Este exemplo de Cristo despertou em um dos seus discípulos o desejo de aprender a rezar como ele, por isto lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1), e Jesus respondeu: “Quando orardes, dizei: Pai Nosso…”.  E ensinou a eles a oração do Pai Nosso (cf. Lc 11, 2-4).

 

A Oração do Pai nosso é a mais bela de todas as orações, sendo rezada milhões de vezes por dia pelos cristãos, em toda a terra, às vezes até de maneira muito espontânea, em certos momentos de dor ou de alegria coletiva.  É também o mais profundo itinerário daquilo que significa a oração, pois nos faz começar invocando Deus como nosso Pai. É a intimidade que deve existir entre filho e Pai; e entre Pai e filho. Deus é Pai de todos nós, por isto a oração está no plural, para indicar que toda oração deve ser para todos.

 

Uma das maiores graças que recebemos pelo sacramento do batismo, está no fato de podermos tratar Deus como Pai.  Quando chamamos a Deus de “nosso Pai”, precisamos lembrar de que devemos ter um comportamento de filhos de Deus.  Podemos invocar a Deus como “Pai” porque, pelo batismo, somos incorporados e adotados como filhos de Deus.  Jesus nos ensina a chamar Deus de Pai e a recorrer a Ele como filhos. Em Deus vemos um pai cheio de bondade e amor.

 

Na oração do Pai Nosso, pedimos inicialmente que o nome de Deus seja santificado e que seu reino venha até nós.  Começamos pedindo aquilo que deve estar acima de tudo, dominando nossos afetos e aspirações. Pedimos que o nome de Deus seja conhecido, honrado e amado por todos.  Desejamos que o nome de Deus seja conhecido como santo e seja glorificado. E pedimos que o nome de Deus seja santificado pelas nossas alegrias, nossos sofrimentos, nosso trabalho, nossas orações e por toda a nossa vida.  

 

A oração tem início com um louvor a Deus.  O objetivo da oração é elevar nosso pensamento para o alto, e de desprender-nos da materialidade das coisas do tempo, que muitas vezes podem nos impedir de rezar bem.  Após esta inovação a Deus como Pai, seguem os pedidos.  Os sete pedidos da Oração do Pai Nosso, normalmente são divididos em duas partes, na primeira parte pedimos pelo que é eterno e na segunda, pelo que é transitório.  

 

O número sete na Sagrada Escritura significa a plenitude, plenitude de tudo aquilo que o homem precisa. Então, esta oração é fundamental para o cristão, pois contém aquilo que precisamos para nossa vida, para a experiência da nossa fé em Deus e os pedidos em nosso benefício: o pão de cada dia, o perdão dos nossos pecados, a libertação das tentações e de todo o mal. 

 

Pedimos que Deus perdoe as nossas ofensas, porque também nós perdoamos uns aos outros.  E o ideal do perdão nos é apresentado por Jesus: “Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão” (Mt 5,24). E agora Jesus nos manda dizer que queremos ser perdoados, pois nós também perdoamos.  A nossa sorte está em nossas mãos: como perdoamos, assim também nos será perdoado. A oração do Pai Nosso nos ensina a dizer: “Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.  Este “como” indica que o perdão que podemos receber de Deus está condicionado ao perdão que também nós devemos oferecer ao irmão que errou contra nós.  O próprio Cristo também nos exorta: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros ‘como’ eu vos amei” (Lc 13,34). É a unidade do perdão mútuo que torna possível a reconciliação, tendo como exemplo o próprio Cristo, que na cruz perdoou os seus adversários (cf. Lc 26,34).

 

 Assim adquirem vida as palavras do Senhor sobre o perdão, esse amor que ama até o extremo do amor.  A oração cristã chega até o perdão dos inimigos. O perdão é um ponto alto da oração cristã; o dom da oração não pode ser recebido a não ser num coração em consonância com a compaixão divina. O perdão dá também testemunho de que, em nosso mundo, o amor é mais forte que o pecado. O perdão é a condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com seu Pai e dos homens entre si (cf. CIgC 2844).

 

Na parte final da oração, pedimos ao Senhor: “Não nos deixeis cair em tentação”.  É um pedido que atinge a raiz do nosso pecado, que é fruto do consentimento na tentação. Pedimos ao nosso Pai que não nos “deixe cair” nas ciladas do inimigo tentador. Nós pedimos que o Senhor não nos deixe enveredar pelos caminhos que conduzem ao pecado. Este pedido implora o Espírito de discernimento e de fortaleza, para que possamos vencer a tentação.  

 

Este “não cair em tentação” envolve uma decisão do coração. É a luta contra o mal e neste combate não conseguimos a vitória, a não ser através da oração. Foi pela força da oração que Jesus venceu o tentador no deserto, o que sequenciou até o último combate de sua agonia.  Também somos chamados a seguir este exemplo de Cristo, para isto necessitamos estar sempre em vigilância. Esta vigilância consiste em “guardar o coração”, e Jesus pede ao Pai que “nos guarde em seu nome” (cf. CIgC, n. 2863).

 

Isto nos faz lembrar uma significativa oração pronunciada pelo sacerdote no decorrer da Santa Missa, logo após a oração do Pai Nosso: “Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados por vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda do Cristo Salvador”.  Com isto temos o último pedido: “Mas livrai-nos do mal”. O cristão pede a Deus, com a Igreja, que manifeste a vitória sobre tudo aquilo que nos impede de viver dignamente a nossa união com Ele. 

 

Com isto, podemos observar que a oração do Pai Nosso acolhe e expressa também as necessidades humanas, materiais e espirituais. E precisamente por causa das necessidades e das dificuldades de cada dia, Jesus exorta com vigor: “Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto” (Lc 11,9-10). Não é um pedir para satisfazer as próprias vontades, mas para manter viva a amizade com Deus. 

 

Para demonstrar a eficácia da oração perseverante é que Jesus nos apresenta também, no final do Evangelho, uma pequena parábola, para nos ensinar que uma oração bem feita sempre será ouvida.  Nesta parábola Jesus nos fala em pedra e pão, peixe, serpente, ovo e escorpião. Quer Ele nos ensinar que, se o que pedimos é bom, é útil à nossa salvação, se pedimos com fé e perseverança, Deus nos concederá.  

 

Com isto Jesus nos ensina duas importantes lições, que devem dominar nossas orações: a perseverança e a confiança.  De noite, não é fácil atender ao amigo inoportuno. No entanto, o pedido perseverante e confiante consegue tudo. Jesus também quer nos ensinar que, mesmo depois de “fechada a porta”, a oração será atendida, pois sua eficácia é importante.

 

A oração do Pai Nosso é realmente um compêndio de todo o Evangelho.  É a mais perfeita das orações. Nela, não só pedimos tudo quanto podemos desejar corretamente, mas ainda, segundo a ordem em que convém desejá-lo. De modo que esta oração não só nos ensina a pedir, mas ordena também todos os nossos afetos (cf. CIgC 2763).

 

Peçamos também nós ao Senhor com a mesma consciência do discípulo do Evangelho: “Mestre, ensina-nos a rezar”, para que, através da oração, possa ser cumprida a vontade de Deus em cada um de nós.  Assim seja. 

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Marta e Maria

 

Lc 10, 38-42

 

Caros irmãos e irmãs,

 

O Evangelho deste domingo traz um relato onde sobressaem duas mulheres, que são duas irmãs, Marta e Maria, e vivem em Betânia com o irmão Lázaro, que, neste relato, não aparece. Jesus passa por esta aldeia e, segundo o texto, fica hospedado na casa de Marta. Este pormenor dá a entender que, das duas, Marta é a mais idosa, a que governa a casa. Como de fato, depois de Jesus ter entrado, Maria senta-se aos seus pés e o escuta, enquanto Marta estava atarefada com muitos serviços, certamente devido à presença do ilustre hóspede.

 

A cena nos mostra uma irmã que está trabalhando e a outra atenta à presença do Mestre e das suas palavras. Marta parece que não resiste e protesta: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!”. Mas Jesus, com calma, responde: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (v. 42).

 

A cena é profundamente humana.  Jesus é hóspede em casa desta família amiga.  Marta se esforça para dar conta do serviço caseiro, enquanto Maria, sentada aos pés de Jesus, escuta a sua palavra.  Podemos notar que ao responder a Marta, Jesus não condena sua atividade e seu zelo pelo serviço a sua pessoa, mas a adverte de um perigo: a inquietação da qual pode ser vítima.  Ao dizer “Marta, Marta…”, exprime nesta repetição do nome um sinal do afeto de Jesus para com ela e um meio de torná-la mais atenta à lição que ele quer dar. Jesus chama a atenção de Marta por ela preocupar-se demais com as coisas materiais e procura mostrar que, acima das preocupações materiais, devem existir o cuidado e a solicitude para com o lado espiritual.

 

Jesus indica o alimento espiritual da alma como algo mais importante e até mesmo indispensável.  Jesus quer a união do trabalho e da oração. Assim será a perfeição da vida: a oração, indispensável; o trabalho, necessário.

 

As atitudes das duas irmãs Marta e Maria são para nós ações complementares diante do Reino.  Marta representa a atividade serviçal, o trabalho e a preocupação de cada dia, mas com o perigo que pode ter de nos roubar o tempo que necessitamos para escutar em silêncio a palavra de Deus.  Em Marta e Maria estão representados os dois caminhos através dos quais se pode servir ao Senhor. As atividades exteriores acabam com a morte. A união de nossa alma com Deus perdura para sempre. Maria se ocupa do único necessário: a própria salvação.  Marta quer o mesmo fim, mas se ocupa demais com o trabalho material.

 

Também na nossa vida cristã a oração e a ação permaneçam sempre profundamente unidas. Uma oração que não leva à ação concreta a favor do irmão doente e necessitado de ajuda, é uma prece incompleta. Mas, do mesmo modo, quando no serviço eclesial só prestamos atenção à ação, quando damos mais importância às coisas, às funções e às estruturas, esquecendo-nos da centralidade de Cristo, sem reservar tempo ao diálogo com Ele na oração, corremos o risco de nos servirmos a nós mesmos, e não a Deus presente no irmão necessitado.

 

São Bento resumia o estilo de vida que indicava aos seus monges com estas palavras: “Ora et labora”, ou seja, oração e trabalho. É da contemplação de uma forte relação de amizade com o Senhor que nasce em nós a capacidade de viver e de anunciar o amor de Deus, a sua misericórdia, a sua ternura pelo próximo. E inclusive o nosso trabalho com o irmão em necessidade, a nossa tarefa de caridade nas obras de misericórdia nos levam ao Senhor.

 

Muitos outros santos também experimentaram uma profunda unidade de vida entre oração e ação, entre o amor total a Deus e o amor aos irmãos. São Bernardo, que é um modelo de harmonia entre contemplação e laboriosidade, insiste precisamente na a importância do recolhimento interior e da oração para se defender dos perigos de uma atividade excessiva, independentemente da condição em que se encontra e da tarefa que está a cumprir. São Bernardo afirma que as ocupações excessivas, uma vida frenética, terminam muitas vezes por endurecer o coração e fazer sofrer o espírito (cf. BENTO XVI, Audiência geral de 25 de abril de 2012).

 

Não podemos perder-nos no ativismo puro, mas devemos deixar-nos penetrar sempre na nossa atividade pela luz da Palavra de Deus e assim aprender a caridade autêntica, o serviço verdadeiro ao outro, que necessita do nosso auxílio.

 

Nesta narração evangélica fica acentuado a vocação para o primado da vida espiritual, para a necessidade de nos alimentarmos com a Palavra de Deus, a fim de darmos luz e sabor às tarefas quotidianas.  Trata-se de um convite que é particularmente oportuno em qualquer tempo. Em ambos os casos, não há oposição entre os momentos de oração e da escuta de Deus e a atividade quotidiana e o exercício da caridade. A admoestação de Jesus a Marta frisa a prioridade que devemos dar a Deus frente às atividades cotidianas. 

 

As palavras de Cristo dirigidas a Marta devem encontrar eco no nosso coração. Seguindo, portanto, a eloquência dessas palavras, peçamos a Deus para que abra os nossos corações, para atentamente escutarmos as palavras do seu Filho Jesus. Que nós também possamos, no nosso trabalho, reservar um tempo para o Senhor. 

 

No nosso dia a dia por vezes, as nossas inúmeras ocupações nos fazem ser como Marta: ativos e sempre preocupados com nossos afazeres. Mas outras vezes nos sentimos como Maria, paramos para refletir, para escutar o Cristo que nos fala em cada página do evangelho.  Saibamos ouvi-lo, mas saibamos também, a exemplo de Marta e Maria, abrir sempre as portas da nossa casa para que ele possa entrar, para que ele possa estar com cada um de nós. 

 

Procuremos também nós ter aquilo que não nos pode ser tirado, e para que isto venha a se concretizar, peçamos também a intercessão da Virgem Maria, Mãe da escuta e do serviço, que nos ensine a meditar no nosso coração a Palavra do seu Filho, a rezar com fidelidade, ela que preferiu alimentar-se daquilo que dizia o Senhor.  Saibamos também nós escutar atentamente a Palavra de Deus e colocá-la em prática, e que essa mesma Palavra de Deus possa dar sentido ao nosso agir quotidiano. Assim seja.

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ).

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do bom samaritano

 

Lc 10,25-37

 

Caros irmãos e irmãs,

 

O Evangelho deste domingo inicia com a pergunta feita por um doutor da Lei faz a Jesus: “Mestre, o que devo fazer para possuir a vida eterna?” (Lc 10,25). Sabendo ser ele um perito nas Sagradas Escrituras, Jesus convida aquele homem a dar ele mesmo a resposta, que de fato formula perfeitamente, citando os dois mandamentos principais: amar a Deus com todo o seu coração, mente e forças e amar o próximo como a si mesmo. Então o doutor da Lei, quase para se justificar, pergunta: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10,29).

 

O escriba responde corretamente à pergunta por ele mesmo formulada. A palavra da Escritura é evidente, mas a maneira como deve ser aplicada na prática da vida pode levantar algumas questões que se debatiam.   Na pergunta do escriba há uma dimensão mais profunda do que parece. Em uma perspectiva judaica, a questão trata dos limites do amor ao próximo. 

 

Na época de Jesus, os mestres de Israel discutiam, precisamente, quem era o próximo. Naturalmente, havia opiniões mais abrangentes e opiniões mais particularistas e exclusivistas; mas havia consenso entre todos no sentido de excluir da categoria “próximo” os inimigos, segundo a Lei, o “próximo” era apenas o membro do Povo de Deus (cf. Ex 20,16-17; 21,14.18.35; Lv 19,11.13.15-18). Jesus, no entanto, tinha uma perspectiva diferente. É precisamente para explicar a sua perspectiva que ele conta a parábola do bom samaritano.

 

Para melhor entender a parábola, convém também ter presente o quadro da relação entre judeus e samaritanos. Trata-se de dois grupos que as vicissitudes históricas tinham separado e cujas relações eram, no tempo de Jesus, bastante conflituosas.  A parábola nos situa em uma estrada de cerca de 30 quilômetros, entre a cidade santa de Jerusalém e a cidade de Jericó. Na época de Jesus era uma estrada perigosa, geralmente com a presença de bandos armados. Um homem não identificado, embora, pelo contexto, possamos imaginar tratar-se de um judeu, foi assaltado pelos bandidos e deixado caído na beira da estrada. Trata-se, portanto, de um homem ferido, abandonado e necessitado de ajuda.

 

Pela estrada passaram sucessivamente um sacerdote, que conhecia a Lei e que exercia funções litúrgicas no templo e um levita, ligado à instituição religiosa judaica e que exercia, também, funções litúrgicas no templo. Ambos passaram adiante: ou o medo de enfrentar a mesma sorte, ou as preocupações com a pureza legal, que os impediam de tocar um cadáver, ou a pressa, ou a indiferença diante do sofrimento alheio, os impediam de parar. Apesar dos seus conhecimentos religiosos, eles não tiveram qualquer sentimento de misericórdia por aquele homem. 

 

Quem ia ao Templo, como o sacerdote, tinha uma desculpa plausível, porque a lei proibia agir no santuário a quem tivesse tocado em sangue ou algo de impuro.  Talvez por isso, o sacerdote e o levita se esquivam. A piedade deles é reta segundo a letra da lei; mas inoperante, sem consequências. É uma piedade que se empenha em salvar a si mesmo.  

 

Então aparece no caminho um homem da Samaria, provavelmente um comerciante, que tinha de passar por esta estrada muitas vezes e que era conhecido do proprietário da estalagem mais próxima; um samaritano, portanto alguém que não pertence à comunidade de Israel e não precisava, consequentemente, olhar para o assaltado como seu próximo.  No entanto, foi ele que parou, sem medo de correr riscos ou de adiar os seus esquemas pessoais, cuidou do ferido e o curou.

 

O samaritano parece desconhecer a lei e não conhece suficientemente a grandeza da religião e do seu templo. Ele ama a quem está necessitando e a quem tem em si uma dignidade que só vem de Deus.  Ele realiza isto numa consciência clara, mas ele o faz numa disponibilidade generosa, capaz de receber a graça de Deus. O único interesse dele é o outro. O samaritano não exige do homem atacado pelos ladrões nada em troca. Tudo indica que este homem atacado pelos ladrões não o pagará nada; não o devolverá nada, e talvez nem lhe será útil. Mas o samaritano não se preocupou com isto.

 

Ao concluir a parábola Jesus pergunta ao escriba qual deles foi o próximo daquele homem ferido na estrada. Em sua resposta o legista judeu evita qualquer menção que pudesse resultar em um elogio ao samaritano. Não faz referência a ele, mas responde por meio de rodeios: “Aquele que usou de misericórdia para com ele” (v. 37), ao que Jesus responde: “Vai e faze a mesma coisa” (v. 37).

 

Esta parábola faz parte de uma série de imagens e narrações tomadas da vida diária, pelas quais Jesus quer fazer compreender o amor profundo de Deus por cada ser humano, especialmente quando se encontra na doença e no sofrimento. Ao mesmo tempo, porém, com as palavras finais da parábola do Bom Samaritano: “Vai e faze a mesma coisa” (Lc 10,37), o Senhor indica qual é a atitude que cada um dos seus discípulos deve ter para com os outros, particularmente se necessitados de cuidados. Jesus espera de nós uma solicitude concreta, como a do bom samaritano, para com aqueles que estão feridos no corpo e no espírito, para quem pede ajuda, ainda que desconhecido e sem recursos.

 

Recordemos que o próprio Senhor nos deu o exemplo; ele mesmo se fez próximo de nós: sendo Deus se fez homem, veio viver a nossa aventura, partilhar a nossa sorte, para nos dar a sua vida.  O amor ao próximo só corresponde ao mandato e ao exemplo de Cristo, se estiver unido ao amor a Deus. Jesus, que dá a vida pelos pecadores, é sinal vivo da bondade de Deus; do mesmo modo o cristão, através da sua generosa dedicação, faz com que os irmãos, com os quais entra em contato, experimentem o amor misericordioso e providente do Pai celeste. 

 

Todos nós podemos também nos colocar no lugar daquele que estava à margem do caminho. Quantas vezes isso pode acontecer com cada um de nós? Quantos vezes também nós sentimos abandonados e à margem do caminho? O relato da parábola do bom samaritano é o que melhor expressa, de acordo com ensinamentos de Cristo, o que é ser verdadeiramente humano. O samaritano é uma pessoa que vê em seu caminho alguém ferido, aproxima, reage com misericórdia e o ajuda no que pode. Não podemos fugir de quem sofre, tal como fizeram o sacerdote e o levita. Isto não é correto. A misericórdia é o princípio fundamental da atuação de Deus e o que configura toda a vida, a missão e o projeto de Jesus. 

 

Perante a dor e o sofrimento, o essencial, segundo o Evangelho, é a misericórdia. Deus enviou o seu Filho, Deus se fez homem para nos salvar, ou seja, para nos dar a sua misericórdia. Jesus diz isto claramente, resumindo o seu ensinamento para os discípulos: “Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). O cristão deve ser necessariamente misericordioso, porque esta é a mensagem central do Evangelho.  A partir da fé cristã podemos dizer que a misericórdia é a única ação verdadeiramente humana diante do sofrimento alheio que, uma vez interiorizada, se transforma em princípio de atuação e de ajuda solidária a quem sofre. 

 

O novo nesta parábola é a atitude que Jesus exige frente à lei e frente à vida do próximo: o amor.  O amor será sempre necessário e exigirá o compromisso pessoal e voluntário. Quem ama e serve gratuitamente o outro como próximo, vive e age segundo o Evangelho e participa da missão da Igreja. Possa a atitude do bom samaritano inspirar todas as nossas ações ao longo da nossa vida. Peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que possamos ser artífices da solidariedade e novos construtores da civilização do amor e da fraternidade.  Assim seja. 

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A messe é grande, mas os operários são poucos.

 

Lc 10,1-12.17-20

 

Caros irmãos e irmãs,

 

A Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece algumas reflexões com uma temática missionária. O texto do Evangelho começa por nos apresentar o número dos discípulos enviados: setenta e dois (v. 1). Trata-se, evidentemente, de um número simbólico e certamente esse número se refere à totalidade das nações pagãs que habitavam a terra. Significa, portanto, que a proposta de Jesus é uma proposta universal, destinada a todos os povos, de todas as raças.

 

Em seguida, o Evangelista São Lucas assinala que os discípulos foram enviados dois a dois. Viajar aos pares era um costume dos judeus na época.  A própria Sagrada Escritura nos mostra isto na passagem em que nos narra o episódio dos dois discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13ss). O envio desta forma podia ser uma medida prática para defesa e ajuda mútua contra bandidos ou outros perigos. Trata-se de assegurar que o seu testemunho tem valor jurídico (cf. Dt 17,6; 19,15); e de sugerir que o anúncio do Evangelho é uma tarefa comunitária; eles devem ser ajuda mútua e dar testemunho de amor fraterno.  A ação missionária não é feita por iniciativa pessoal e própria, mas em comunhão com os irmãos.

 

Jesus ainda quer assinalar que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho dele.  Depois desta apresentação inicial, São Lucas passa a descrever a forma como a missão deve ser concretizada. Há, em primeiro lugar, um aviso acerca da dificuldade da missão: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (v. 3).  É uma referência a uma possível hostilidade do mundo e das pessoas perante a mensagem do Evangelho.

 

Muito evangelizadores experimentaram esta incompreensão ao longo de seu trabalho missionário. Na segunda leitura São Paulo nos diz: “Quanto a mim, Deus me livre de me gloriar, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (6, 14).  Como de fato, no seu ministério, São Paulo experimentou o sofrimento, a fraqueza e a derrota, mas também a alegria e a consolação. Mas foi precisamente o ter-se deixado configurar à morte de Jesus que fez São Paulo participar na sua ressurreição, na sua vitória.

 

A fecundidade pastoral, a fecundidade do anúncio do Evangelho não deriva do sucesso nem do insucesso vistos segundo critérios de avaliação humana, mas de conformar-se com a lógica da cruz de Jesus, que é a lógica de sair de si mesmo e dar-se, a lógica do amor. É a cruz que garante a fecundidade da nossa missão. E é da cruz, supremo ato de misericórdia e amor, que se renasce como “nova criação” (Gl 6,15). Como de fato, na segunda leitura (cf. Gl 6,14-18), o Apóstolo São Paulo certifica que a Cruz constituiu o centro da sua vida, deu-lhe a força para enfrentar as penitências ásperas e os momentos mais exigentes, desde a juventude até à última hora: ele estava sempre consciente de que a salvação provém dela.

 

No Evangelho também encontramos uma exigência de pobreza e simplicidade para esta missão: os discípulos não devem levar consigo nem bolsa, nem alforje, nem sandálias; não devem deter-se a saudar ninguém pelo caminho (v. 4); também não devem saltar de casa em casa (v. 7). Essas indicações de não levar nada para o caminho sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força da Palavra.  A indicação de não saudar ninguém pelo caminho indica a urgência da missão, que não permite deter-se nas demoradas saudações típicas da cortesia oriental, podiam impedir o motivo urgente do anúncio do reino; a indicação de que não devem saltar de casa em casa sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não deter em uma hospitalidade mais confortável.

 

O anúncio fundamental a ser apresentado pelos discípulos deve ser o de paz. Eles devem começar por anunciar “a paz” (v. 5-6). Não se trata da saudação normal entre os judeus, mas do anúncio dessa paz messiânica que antecede ao Reino. É a paz como um dom divino que é reconciliação e bênção. É o anúncio desse mundo novo de fraternidade, de harmonia com Deus e com os outros, de bem-estar, de felicidade, o que é sugerido pela palavra hebraica “shalom”. Além de serem arautos de Jesus, os discípulos são como reservatórios dessa paz.  Portanto, se não houver na casa alguém digno dessa paz ela retornará ao enviado que a desejou. Esse anúncio deve ser complementado por gestos concretos, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (v. 9). Ao chegarem em uma casa devem dizer: “A paz esteja neste casa!” (v. 5). Não o dizem somente com a boca, mas irradiam aquilo de que estão repletos; pregam a paz e possuem a paz. 

 

Além da paz que já traduz o conteúdo do anúncio (v.5), Jesus explicita melhor a relação gesto e palavra ao afirmar: “Curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: o Reino de Deus está próximo de vós” (v.9). Tal relação se evidencia no retorno da missão: “Eis que vos dei o poder de pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo” (v.19).  Serpentes e escorpiões são conhecidos por serem portadores de um mortífero veneno, mas no Antigo Testamento eram considerados como símbolo de todo gênero de males. Lembremos as serpentes do deserto que eram vencidas com a serpente de bronze fundida por ordem de Moisés. Já no livro do Gênesis a serpente é tida como a causadora de todo o mal na terra (Gn 3,1-14) e o escorpião é símbolo do castigo divino (cf. 1Rs 12,11.14). No final do Evangelho de São Marcos temos que os discípulos “pegarão em serpentes e nada sofrerão” (Mc 16,18) é uma referência, embora tímida, deste poder que Jesus entrega a seus discípulos: um poder sobre toda força maligna, como é o inimigo, entendido como Satanás.

 

Finalmente, o retorno dos discípulos confirma a eficácia do poder de Jesus que se operou neles: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!” (v.17). Confirma também a eficiência do conteúdo da mensagem salvífica do Evangelho, na sua relação gesto e palavra, e dá validade aos meios empregados. Assim Jesus esclarece que o Reino é sinal da vitória espiritual sobre Satanás (v.18) e a vitória material sobre os males e limitações sofridas pelo homem.  São Lucas faz ressaltar o entusiasmo dos discípulos pelos bons frutos da missão, e traz esta expressão de Jesus: “Não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10,20).

 

Este texto do Evangelho deve despertar em todos os batizados a consciência de que também são missionários de Cristo, chamados a preparar-lhe o caminho mediante as palavras e o testemunho da vida. Mas também nós somos chamados a pedir ao dono da messe que envie mais operários para a sua messe. A missão de anunciar o Evangelho não está reservada apenas ao grupo dos doze ou dos setenta e dois, mas é confiada a todos os discípulos, para irem até aos confins da terra levando a Boa Nova da salvação. É toda a Igreja que é constituída missionária. E se os operários são poucos, é talvez porque os batizados não estão ainda suficientemente conscientes da sua missão.

 

Todos nós devemos ser transmissores do bom odor de Cristo e estar sempre em uma união com cada vez mais intensa com ele pela oração.  Peçamos também a intercessão da Virgem Maria, para que ela nos proteja sempre para que possamos desenvolver este nosso compromisso de evangelizadores, gerando bons frutos na vinha do Senhor.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

 

Mt 16,13-19

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Celebramos neste domingo a solenidade dos santos Pedro e Paulo, que, por graça do Espírito Santo, tornaram-se as pedras fundamentais do cristianismo.  Esta solenidade nos faz recordar o martírio destes dois apóstolos, que foram mortos por ocasião da perseguição de Nero, por volta do ano 64.  

 

Pedro, que tinha o nome de Simão, foi um dos primeiros apóstolos a deixar as suas redes de pescador para seguir o Cristo e tornar-se pescador de homens (cf. Lc 5,1-11). E junto do apóstolo Pedro está São Paulo, que passou de perseguidor a perseguido por aceitar a missão para a qual Jesus o convidou. Missão que ele cumpriu com dedicação e especial criatividade: levar seus ensinamentos a todos os pagãos e também ao povo de Israel.

 

A referência a estes dois santos atravessa toda a liturgia da palavra deste domingo. A primeira e a segunda leituras falam, respectivamente, dos Santos Pedro e Paulo ressaltando precisamente a ação de Deus em relação a eles. Sobretudo o texto dos Atos dos Apóstolos descreve com abundância de pormenores a intervenção do anjo do Senhor, que liberta Pedro das correntes e o conduz para fora da prisão de Jerusalém, onde o rei Herodes o tinha feito encarcerar (cf. At 12,1-11). Paulo, por sua vez, escrevendo a Timóteo quando já sentia próximo o fim da sua vida terrena, faz um balanço do qual sobressai que o Senhor lhe tinha estado sempre próximo, o libertou de tantos perigos e ainda o libertará introduzindo-o no seu Reino eterno (cf. 2Tm 4, 6-8.17-18).

 

O tema é reforçado pelo Salmo responsorial (cf. Sl 33), e encontra um particular desenvolvimento também no trecho evangélico da confissão de Pedro, onde ele, antes de qualquer outro, reconhece Jesus como o Messias, e, com base nas suas palavras: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16), foi ele escolhido para ser a pedra fundamental da Igreja: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja” (16, 18). Com isto, é conferida a Pedro uma tarefa particular que ele deve desempenhar mediante as imagens da rocha que se torna a pedra de fundamento e do poder das chaves.

 

A promessa feita por Jesus a Pedro ocorre perto das fontes do Rio Jordão, em um momento que marca uma mudança decisiva no caminho de Jesus: agora o Senhor direciona os seus passos para Jerusalém e, pela primeira vez, diz aos discípulos que este caminho para a Cidade Santa é o caminho da cruz.  Contudo, sabendo que a sua morte estava próxima, Jesus institui a Eucaristia, e logo após a instituição deste sacramento, instrui os seus discípulos acerca do ministério que eles devem exercer e que deve ter como base o serviço, a exemplo do próprio Cristo que se encontra no meio deles como aquele que serve (cf. Lc 22,27ss).  Neste momento Jesus dirige a Pedro estas palavras: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos (Lc 22,31s).

 

O texto parece ressaltar que Satanás pediu para poder examinar os discípulos como o grão. Isto recorda um trecho do livro de Jó, no qual Satanás pede a Deus a permissão para provar Jó, exemplo do homem fiel a Deus (cf. Jó 1,6,22). O diabo quer colocar Deus à prova, que parecer permitir que o diabo exerça o seu domínio, aproveitando a fragilidade do homem. 

 

No caso de Jó, Deus concede a Satanás a liberdade exigida, precisamente para poder com ela defender a sua criatura, o homem e a si mesmo. Acontece assim também com os discípulos de Jesus, onde  Deus dá uma certa liberdade ao diabo. De fato Jesus fala a Pedro: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lc 22,32). A oração de Jesus é o limite colocado ao poder do maligno. A oração de Jesus é a proteção da Igreja.

 

Jesus reza de modo especial por Pedro, visando a estabilidade da sua fé. Esta oração de Jesus guarda e protege a fé de Pedro, a mesma que ele confessou em Cesareia de Filipe: “Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 16), conforme sublinha o evangelho deste domingo.  Mas Pedro já havia dito antes a Jesus: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8); mostrando a Jesus a sua fragilidade enquanto ser humano. Por isto, Jesus sabe que a fé de Pedro precisa ser fortalecida sempre de novo, precisamente também perante a cruz e todas as contradições do mundo. Jesus não reza só pela fé pessoal de Pedro, mas pela sua fé como serviço aos outros. É precisamente isto que ele pretende dizer com as palavras: “E tu, uma vez convertido, fortaleça os teus irmãos” (Lc 22,32).

 

Estas palavras profetizam a debilidade de Simão que, perante uma criada, negará que conhece Jesus:  “E tu, uma vez convertido” o Senhor, que lhe prediz a queda, também lhe promete a conversão. E o evangelista São Lucas busca um pormenor que vale a pena recordar. A terceira negação de Pedro, coincide com o momento em que Cristo passa carregando a cruz e neste momento, “voltando-se, o Senhor fixou os olhos em Pedro…” (Lc 22,61).  E neste instante, após experimentar o olhar de amor de Jesus, ele sai e chora amargamente (cf. Lc 22,62).

 

E depois, após a sua ressurreição, o Senhor vai confiar a Pedro a tarefa de apascentar os irmãos, tendo como base o amor. Jesus o interroga por três vezes: “Pedro, tu me amas?”; ao que ele, também por três vezes responde: “Eu te amo”, e Jesus, de imediato responde: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-19).  Mas este ofício confiado a Pedro, ancorado no amor, está também sedimentado na oração de Jesus: “Eu rezei por ti…” (Lc 22,32). É isto que lhe dá a segurança da sua perseverança através de todas as misérias humanas. E o Senhor lhe confia esta missão no contexto da Ceia, simultaneamente ao dom da Eucaristia. A Igreja, fundada na instituição da Eucaristia, no seu íntimo é comunidade eucarística e desta forma comunhão com o Corpo do Senhor.  Mas mesmo neste contexto, Jesus prediz a Pedro que o seu caminho irá também em direção à cruz. 

 

A promessa feita por Cristo de que o poder do inferno não prevalecerá sobre a sua Igreja, se justifica, pois foi ela edificada tendo como base o amor e a sua própria presença: “Eu estarei convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt 28,20).  Estas palavras podem ter também um significativo valor ecumênico, dado que um dos efeitos típicos da ação do maligno é precisamente a divisão. De fato, as divisões são sintomas da força do pecado, que pode continuar agir. Mas a palavra de Cristo é clara: “Não prevalecerão” (Mt 16,18), pois a unidade da Igreja está radicada na sua união com Cristo (cf. BENTO PP XVI, Homilia na missa de 29 de junho de 2006).

 

Celebrar os Apóstolos Pedro e Paulo constitui um testemunho de fé na Igreja “una, santa, católica, apostólica”. Pedro é, efetivamente, a pedra que se apoia diretamente sobre a pedra angular que é Cristo. Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado, diferentes, mas complementares. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária.

 

Possamos nós também imitar o exemplo destes dois grandes evangelizadores. Que o Senhor nos faça ter uma fé firme, como a de Pedro, e rica de impulso apostólico como a de Paulo, para sermos sal e luz em nossa sociedade, aceitando a mensagem de amor pela qual Pedro e Paulo sofreram o martírio. Também nos ajude a Virgem Maria, para que o nosso encontro com a Palavra do Senhor possa transformar completamente a nossa vida, para que estejamos dispostos a seguir com determinação o Mestre que deu a sua própria vida por cada um de nós. Assim seja. 

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.

XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Segue-me!

Lc 9,51-62

 

Caros irmãos e irmãs,

 

As leituras bíblicas da santa Missa deste domingo ressaltam o tema da vocação de seguir o Cristo e as suas exigências. O Evangelho mostra Jesus a caminhar para Jerusalém, meta final onde, Jesus, na sua Páscoa derradeira, deve morrer e ressuscitar, elevar a cumprimento a sua missão de salvação. Ao longo desse caminho Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do Reino de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz.  Os discípulos também são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus. 

 

Se Jesus parece exigente para com aqueles que O querem seguir, é porque Ele mesmo é exigente quanto à sua própria caminhada. É caminhando que Jesus convida a segui-lo. Então, aqueles que o seguirem poderão dizer como Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7). 

 

Ao longo do seu caminho até Jerusalém, Jesus encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais prometem segui-lo onde quer que ele vá. Ele os admoesta dizendo: “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”, ou seja, não tem uma habitação estável e quem escolhe trabalhar com Ele na sua vinha, jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9,57-58.61-62). A outro jovem o próprio Cristo diz: “Segue-me!”, pedindo-lhe um desapego total dos vínculos familiares (cf. Lc 9,59-60).  Essas exigências podem parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus, que se torna presente na própria pessoa de Jesus Cristo. Em última análise, trata-se daquela radicalidade que é devida ao amor de Deus, ao qual Jesus é o primeiro a obedecer. Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, pois está a serviço dos outros (cf. Gl 5, 16).

 

Jesus chamou muitos para segui-lo. Podemos lembrar de Pedro e dos demais apóstolos. Podemos lembrar mais precisamente do evangelista e também apóstolo São Mateus (cf. Mt 9,9). Antes que Jesus o chamasse, ele desempenhava a profissão de publicano e, por isso, era considerado pecador público, excluído da “vinha do Senhor”. Mas, tudo muda quando Jesus, passando ao lado da sua mesa de impostos,  fixa nele o seu olhar e diz: “Segue-me!” Foi precisamente isto que o evangelista São Mateus fez: Levantou-se e seguiu-o.

 

Também São Paulo experimentou a alegria de ser chamado pelo Senhor para trabalhar na sua vinha. Mas como ele mesmo confessa, foi a graça de Deus que agiu nele, aquela graça que, de perseguidor da Igreja, o transformou em Apóstolo das nações. A ponto de o levar a dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1,21). Paulo compreendeu bem que trabalhar para o Senhor já é, nesta terra, uma recompensa.

 

A proposta que Jesus faz às pessoas ao dizer-lhes “Segue-me!” (v. 59), é exigente e exaltante. São elas convidadas a entrar no âmbito da sua amizade, a escutar de perto a sua Palavra e a viver com Ele; ensina-lhes a dedicação total a Deus e a propagação do seu Reino, segundo a lei do Evangelho: “Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24)

 

O encontro de Jesus com o jovem rico (cf. Mc 10, 17-22), na narração evangélica de São Marcos sublinha: “Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele” (Mc 10, 21). No olhar do Senhor, está o coração deste encontro e de toda a experiência cristã. 

 

Jesus convida o jovem rico a ir mais além da satisfação das suas aspirações e dos seus projetos pessoais, dizendo-lhe: “Vem e segue-me!” (Mt 19,21). Ao jovem rico Jesus ainda diz: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres… depois vem e segue-me” (Mt 19,21). Estas palavras inspiraram numerosos Cristãos ao longo da história da Igreja para seguir Cristo numa vida de pobreza radical, confiando na Providência Divina. Entre estes generosos discípulos de Cristo encontrava-se também São Bento, São Francisco de Assis e tantos outros que, sem hesitações, responderam o chamado do divino Mestre.

 

A vocação cristã deriva de uma proposta de amor do Senhor e só pode realizar-se graças a uma resposta de amor.  Jesus convida os seus discípulos a segui-lo com uma confiança sem reservas em Deus. Os santos acolheram este convite exigente e, com humilde docilidade, põe-se a seguir Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição na lógica da fé, às vezes humanamente incompreensível, consiste em viver segundo o Evangelho.

 

Como de fato, muitos são aqueles que deixam a família de origem, os estudos, o trabalho, os seus bens, para se consagrar a Deus, como resposta radical à vocação divina. Para seguir Jesus Cristo é preciso estar livre de todas as ataduras, pois quem olha para trás, não está apto para o Reino de Deus (cf. Lc 9,62).  Só vivemos a verdadeira liberdade se sairmos de nós mesmos, num desapego que nos colocar a caminho com o Senhor para cumprirmos a sua vontade.

 

A exemplo de muitos discípulos de Cristo, possamos também nós acolher com alegria o convite a seguir Jesus, para vivermos intensa e fecundamente neste mundo. Com efeito, mediante o batismo, Ele chama cada um a segui-lo com ações concretas, a amá-lo sobre todas as coisas e a servi-lo nos irmãos. Infelizmente, o jovem rico não acolheu o convite de Jesus e retirou-se pesaroso. Não encontrara coragem para se desapegar dos bens materiais a fim de possuir o bem maior proposto por Jesus.

 

Jesus nunca se cansa de estender o seu olhar de amor sobre nós, chamando-nos a ser seus discípulos; a alguns, porém, Ele propõe uma opção mais radical. Possamos estar sempre disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de predileção especial. Ele sabe dar alegria profunda a quem responde com coragem.

 

Também hoje, o seguimento de Cristo é exigente; significa aprender a ter o olhar fixo em Jesus, a conhecê-lo intimamente, a escutá-lo na Palavra e a encontrá-lo nos Sacramentos; significa aprender a conformar a nossa própria vontade à dele.  Deus serve-se de nós segundo o seu plano de amor, segundo a modalidade que Ele estabelece e pede-nos para favorecer a ação do Espírito; devemos ser os bons colaboradores do Senhor, para a eficaz realização do seu Reino.

 

Possamos ser atraídos pelos exemplos luminosos dos Santos que souberam dar ao mundo um testemunho do Senhor. São eles os protagonistas do amor e do bem, exemplos vivos de esperança e testemunhas de um amor que nada teme, nem sequer a morte.

 

Que a Virgem Maria, a Mãe de Deus e nossa, que corespondeu sem reservas o chamado do Senhor,  nos ajude a sermos capazes de ouvir a voz de Deus e de seguir com determinação e decisão o caminho da santidade.  Assim seja. 

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento-RJ