XII SEMANA DO TEMPO COMUM – C

 E vós, quem dizeis que eu sou?

Lc 9,18-24

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Neste domingo o texto evangélico traz uma pergunta formulada por Jesus aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”  Os discípulos respondem: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou” (v.19). Na opinião do povo, Jesus é comparado aos grandes personagens apresentados pela Sagrada Escritura, mas não o reconhecem como Messias, certamente porque a postura de Jesus não correspondia àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.

 

Contudo, a reação das pessoas é de admiração e enaltecimento, pois recordam João Batista, o maior dos profetas; Elias, o profeta que surgiu como um fogo, cuja palavra queimava como uma tocha (cf. Eclo 48,1).  Na verdade o povo enaltece, admira, mas não reconhece a verdadeira identidade de Cristo.

 

Jesus viveu numa época de enormes dificuldades para o Povo de Deus.  E esse sofrimento gerou grande expectativa messiânica. Todos sonhavam com a chegada do Messias anunciado pelos profetas. Neste período apareceram várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”; o que criou-se um clima de ebulição, visto que arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram chacinados pelas tropas romanas.

 

Muitos pensavam que o Messias seria um herói, um guerreiro forte semelhante a Sansão, um rei vitorioso como Davi, um político inteligente como Salomão etc. Aparentemente, Jesus não é considerado pelo povo como o novo Messias, mas o identificam como o novo Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus.

 

Em seguida temos a segunda pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” As perguntas que Cristo faz, as respostas que são dadas pelos seus discípulos e, finalmente, por Pedro, constituem uma espécie de exame da maturidade da fé daqueles que vivem mais perto de Cristo.  Pedro responde em nome dos Doze, com uma profissão de fé que se diferencia de modo substancial da opinião que as pessoas têm sobre Jesus; com efeito, ele reconhece Jesus como o “Cristo de Deus” (v. 20). Ou, de acordo com a narração do Evangelista São Mateus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

 

Esta confissão de fé apresentada por Pedro está intrinsecamente vinculada à primeira frase que no trecho evangélico, diz estar Jesus em um lugar afastado, em um momento de oração (v. 19). Um momento em que os próprios discípulos testemunham a unidade de Jesus com Deus.  Frequentemente o evangelista São Lucas observa que Jesus, antes de cumprir algum gesto importante ou antes de transmitir um ensinamento com um significado extraordinário, ele se recolhe em oração. Temos nesta indicação que pela oração também podemos descobrir o rosto do Senhor e o conteúdo mais autêntico da sua missão.

 

Jesus não desmente a afirmação de Pedro, mas ordena que não a digam a ninguém. Dizer que Jesus é o Messias significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, a linhagem davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos. Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um Messias, poderoso e vitorioso e apressa-se a esclarecer possíveis equívocos.

 

Ele é o enviado de Deus para libertar os homens, no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida. No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz. Ele não é o Messias que todos estão esperando. Por isto, logo em seguida, o texto do Evangelho esclarece: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 22).  Com isto, Jesus mostra que não lhe espera o triunfo, mas a humilhação, o sofrimento e a morte. Porém, Deus transforma este seu sofrimento em caminho para a glorificação.

 

Na teologia do evangelista São Lucas, Jesus será revelado como Messias pelo sofrimento e pela paixão (cf. Lc 27,7.26.46).  Sua missão messiânica consiste em vencer a morte pela cruz (cf. At 2,23s). Mas este mistério de sua messianidade ainda está oculto, para evitar falsas esperanças, por isto, Jesus proíbe aos discípulos comunicar aos outros a verdade professada por Pedro.

 

Imediatamente, depois da confissão petrina, Jesus anuncia a sua paixão e ressurreição, pondo em destaque o seguimento dos discípulos pelo caminho da cruz. E depois acrescenta que ser discípulo significa “perder-se a si mesmo”, isto para voltar a encontrar-se plenamente a si mesmo” (cf. Lc 9,22-24).

 

Mas o que significa “perder a vida por causa de Jesus?” Isto pode acontecer de dois modos: confessando explicitamente a fé, ou defendendo de modo implícito a verdade. Os mártires são o exemplo máximo da perda da vida por Cristo.

 

E dentre os mártires que vieram a perder a vida por causa da verdade, que é Cristo, uma vez que ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), está João Batista. Ele foi o escolhido por Deus para preparar o caminho diante de Jesus e indicá-lo ao povo de Israel como o Messias, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

 

De Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvir João Batista e fazer-se batizar por ele no rio Jordão, confessando os próprios pecados (cf. Mc 1,5). A fama do profeta batizador cresceu a tal ponto que muitos perguntavam se era ele o Messias. Mas ele, ressalta o evangelista São João, negou categoricamente: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

 

João consagrou-se totalmente a Deus e ao seu enviado, Jesus. Mas, no final, morreu em nome da verdade, quando denunciou o adultério do rei Herodes com Herodíades (cf. Mc 6,16-29).  Pagou com a vida, selando com o martírio o seu serviço a Cristo, que é a Verdade em pessoa.

 

Para seguir Jesus, é necessário renunciar a todas as inclinações contrárias à vontade de Deus, ou seja,  renunciar-se a si mesmo (v. 23). É preciso carregar a cruz todos os dias.  Esta é a grande lei do cristianismo.  Jesus vai à frente com a cruz e nos convida a segui-lo. E o seu convite continua atual: “Segue-me!”.

 

E Jesus, diante desta profissão de fé, renova a Pedro e aos demais discípulos o convite a segui-lo pela estrada exigente do amor até a cruz. Também a nós Jesus dirige a proposta de segui-lo todos os dias, e lembra que, para sermos seus discípulos, é necessário que nos apropriemos do poder da sua Cruz, ápice de nossos bens e coroa de nossa esperança.

 

Saibamos acolher com alegria esta palavra de Jesus. É uma regra de vida proposta a todos e que São João Batista interceda por nós para que possamos pô-la em prática. Invoquemos também a intercessão da Virgem Maria, para que, nos nossos dias, saibamos sempre manter a fidelidade a Cristo e testemunhar com coragem a sua verdade e o seu amor a todos. Ela, que se identificou como a Serva do Senhor, e que conformou a sua vontade com a de Deus, nos acompanhe durante todos os dias da nossa vida. Assim seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

 

Lc 9,11-17

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Na quinta-feira depois da Solenidade da Santíssima Trindade a Igreja celebra o dia de “Corpus Christi”, quando veneramos a Eucaristia: Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor.

 

Esta celebração, nascida no século XIII, é um festivo desdobramento da Quinta-feira Santa, quando na Última Ceia, na véspera de sua Paixão, Jesus instituiu o sacramento da Eucaristia, tomou o pão, abençoou-o e o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo:  “Tomai e comei, isto é o meu corpo. Fazei isto em memória de mim. Da mesma forma, tomou o vinho e, dando graças, o distribuiu, dizendo: Tomai e bebei, este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de vós. Toda vez que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” (Mt 26,26ss; 1Cor 10,23-27).  Disse ainda: “Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,54).

 

Na Eucaristia, o Corpo de Cristo torna-se verdadeiramente o alimento; e o sangue, a bebida para a vida eterna, para a ressurreição. De fato, aquele que come este Corpo eucarístico do Senhor e bebe na Eucaristia o Sangue por Ele derramado para a redenção do mundo, chega àquela comunhão com Cristo, da qual o Senhor mesmo disse: “Permanece em Mim e Eu nele” (Jo 15,4).  

 

Na celebração da Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e realiza-se também a obra da nossa redenção. Verdadeiramente, pelo Sacramento da Eucaristia Jesus demonstra por cada um de nós um amor sem medida (cf. Jo 13, 1).

 

Na liturgia da Missa, nós exprimimos a nossa fé na presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, entre outras maneiras, ajoelhando ou inclinando profundamente em sinal de adoração do Senhor. E desde os tempos mais antigos a Igreja Católica prestou e continua a prestar este culto de adoração que é devido ao sacramento da Eucaristia, não só durante a missa, mas também fora da sua celebração: conservando com o maior cuidado as hóstias consagradas, apresentando-as aos fiéis para que solenemente as venerem, e levando-as em procissão (Cf. CIgC 1378), como acontece no dia de “Corpus Christi”.

 

O Evangelho deste dia traz o relato da multiplicação dos pães, quando o Senhor Jesus proferiu a bênção, partiu e distribuiu os pães pelos seus discípulos para alimentar a multidão, o que prefigura a superabundância deste pão único da sua Eucaristia (cf. Lc 9,11-17). Na multiplicação dos pães o evangelista São Lucas nos faz compreender melhor o dom e o mistério da Eucaristia.

 

Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos Apóstolos, para que os distribuíssem ao povo. Todos, observa São Lucas, comeram e ficaram saciados e ainda se encheram dozes cestos de fragmentos que sobraram .  Trata-se de um prodígio surpreendente, que constitui como que o início de um longo processo histórico: o constante multiplicar-se na Igreja do pão da vida nova para os homens de toda a raça e cultura. Este ministério sacramental foi confiado aos Apóstolos e aos seus sucessores. E eles, fiéis à recomendação do divino Mestre, não cessam de partir e de distribuir o Pão eucarístico de geração em geração.

 

O povo de Deus recebe este pão da vida com devota participação e como remédio de imortalidade, pois dele nutriram-se inúmeros santos e mártires, de onde tiraram a força para resistir também a duras e prolongadas tribulações. Eles acreditaram nas palavras que um dia Jesus pronunciou em Cafarnaum: “Eu sou o pão vivo, descido do céu. Se alguém comer deste pão, viverá eternamente”.

 

Assim como os discípulos, que escutaram admirados o seu discurso em Cafarnaum, também nós percebemos que esta linguagem não é fácil de ser entendida . Poderíamos às vezes ser tentados a dar-lhe uma interpretação relativa. Mas isto nos levaria para longe de Cristo, como aconteceu para aqueles discípulos que a partir de então já não andavam com ele .

 

Na celebração da Eucaristia, torna-se presente a Pessoa de Cristo, o Verbo encarnado, que foi crucificado, morreu e ressuscitou pela salvação do mundo, com uma presença misteriosa, sobrenatural e única. Encontramos o fundamento desta doutrina na própria instituição da Eucaristia, quando Jesus identificou os dons que oferecia, com o seu Corpo e com o seu Sangue: “Isto é o meu Corpo… este é o cálice do meu Sangue…” , ou seja, com a sua corporeidade inseparavelmente unida ao Verbo e, portanto, com a sua Pessoa total.

 

Jesus Cristo está certamente presente, de múltiplas maneiras, na sua Igreja: na sua Palavra, na oração dos fiéis , nos pobres, doentes e prisioneiros (cf. Mt 25,31-46), nos sacramentos e especialmente na pessoa do ministro sacerdote. Mas, sobretudo, está presente sob as espécies eucarísticas.

 

Nós celebramos, portanto, a solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo, na quinta-feira depois da Santíssima Trindade, para colocar em evidência precisamente aquela Vida que nos dá a Eucaristia.  E a Igreja, desde seus primeiros dias, celebra sempre esse mistério, com o nome de fração do pão, mais tarde Missa e Eucaristia, que deve ocupar um lugar central na vida da comunidade (cân. 528 § 2). E deve ser “fonte e ápice de toda a vida cristã” (LG 11).

 

Neste dia, em muitas cidades, as ruas se tornam caminho de Deus, pela passagem de Cristo presente na hóstia sagrada.   Nesta quinta-feira, somos chamados a caminhar com o Senhor, a seguir o Cristo pelas ruas de nossa cidade. Segui-lo quer dizer sair de nós mesmos e fazer da nossa vida uma perfeita oferenda a Ele e também ao nosso irmão. A sua passagem em frente das casas e pelas ruas da nossa cidade será para quantos nela habitam uma oferenda de alegria, de vida imortal, de paz e de amor. É o Cristo que passa pelo quotidiano da nossa vida.  Ele caminha onde nós caminhamos, para viver onde nós vivemos. E, com Ele, possamos nós caminhar pelas estradas do mundo.

 

Neste dia de “Corpus Christi” Deus se faz próximo de nós; humilha-se no sacrifício da Cruz, entrando na obscuridade da morte para nos dar a sua vida, que vence o mal, o egoísmo e a morte. Jesus entrega-se a nós também na Eucaristia, compartilha o nosso próprio caminho e se faz alimento, o alimento autêntico que sustém a nossa vida inclusive nos momentos em que a vereda se torna árdua, quando os obstáculos diminuem os nossos passos.

 

Peçamos em oração que a nossa participação na Eucaristia nos estimule sempre a seguir o Senhor a cada dia, a sermos instrumentos de comunhão com Ele e também com o nosso próximo.  Assim Seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento /RJ.

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Jo 16,12-15

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Celebramos neste domingo a Solenidade da Santíssima Trindade, que, em certo sentido, recapitula a revelação de Deus advinda dos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo.

 

Depois do tempo pascal, culminado na festa de Pentecostes, a liturgia prevê estas três solenidades do Senhor: a Santíssima Trindade; na próxima quinta-feira, o dia de “Corpus Christi”; e finalmente, na sexta-feira sucessiva, a festa do Sagrado Coração de Jesus. Cada uma destas celebrações litúrgicas evidencia uma perspectiva a partir da qual se abrange todo o mistério da fé cristã: ou seja, respectivamente a realidade de Deus Uno e Trino, o Sacramento da Eucaristia e o centro divino-humano da Pessoa de Cristo. Na verdade são aspectos do único mistério da salvação, que num certo sentido resumem todo o itinerário da revelação de Jesus, da encarnação à morte e ressurreição até à ascensão e ao dom do Espírito Santo.

 

Como sabemos, a Trindade divina passa a habitar em nós a partir do dia do Batismo: “Eu te batizo – diz o ministro – em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. O nome de Deus, no qual fomos batizados, é lembrado por nós toda vez que fazemos o sinal da cruz. Também iniciamos cada Celebração Eucarística em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.  O mesmo ocorre no final, ao concluir, com a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Também no decorrer da Santa Missa fazemos a nossa profissão de fé dizendo: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso… e em um só Senhor, Jesus Cristo… e no Espírito Santo”. No sinal da cruz está também o anúncio que gera a fé e inspira a oração.

 

No texto evangélico, Jesus promete aos Apóstolos: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16,13).  A missão do Espírito Santo será iluminar os discípulos para que eles entendam de maneira correta aquilo que o Cristo ensinou e possam conduzir a comunidade dos discípulos de Jesus ao caminho da verdade. Assim também ocorre na liturgia dominical, quando os sacerdotes oferecem, semanalmente, o pão da Palavra e da Eucaristia.

 

Neste domingo, as leituras nos falam da Santíssima Trindade, para nos revelar o amor que Deus tem por nós e nos mostrar o seu projeto de salvação. A primeira leitura ressalta o projeto do Pai na criação, a fonte e a origem de tudo. A segunda leitura nos revela que o projeto de Deus, prescrito na primeira leitura, se realiza em Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, escondido desde a eternidade no seio do Pai e que estava com ele no momento da criação, mas somente com a intervenção do Espírito Santo é que saberemos compreender e aderir plenamente ao projeto de Deus para nós à obra salvadora do Filho, ou seja, do Cristo Jesus.  Cabe ao Espírito Santo iluminar as mentes e os corações dos homens a respeito dos ensinamentos do Evangelho e colocar em prática as recomendações que ele nos apresenta.

 

Todas as celebrações são sempre em honra de Deus, Uno e Trino.  Os sacramentos são realizados e celebrados mediante a invocação das três pessoas divinas. Pode-se ressaltar ainda a doxologia que conclui todos os salmos na Liturgia do Ofício Divino: “Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre”.  E quando nos dirigimos a Deus com uma oração de impetração, podemos concluir com estas palavras: “Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e vive e reina convosco, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”.

 

A Santíssima Trindade está, pois, incessantemente nos lábios e no coração dos cristãos.  E neste domingo nós a adoramos de modo especial. Com esta solenidade, quer também a Igreja mostrar de modo mais intenso a sua devoção à Trindade Santíssima e proclamar de forma mais expressiva a sua fé.

 

Todas as nossas obras devem ter uma única finalidade: que o nome de Jesus seja glorificado em nós.  O Pai e o Espírito Santo glorificam a Jesus e nos dão com Ele uma norma a nos orientar sempre. O lema, como que a síntese de nossa vida, deverá ser aquela significativa oração no final das preces eucarísticas da Santa Missa, onde apresentamos o Corpo e o Sangue de Jesus na patena e no cálice: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre, na unidade do Espírito Santo”.  E, acompanhando esse momento forte de oração que brota do íntimo de nosso ser, possamos dizer com fé, mesmo que não consigamos atingir a grandeza que o mistério encerra: “Amém”.

 

E ao colocar esta solenidade no domingo seguinte à solenidade de Pentecostes, a Igreja vem nos lembrar que cada domingo é uma festa da Santíssima Trindade, pois o domingo é o dia do Senhor, dia em que Jesus ressuscitou e que o Espírito Santo nos santificou, descendo sobre a igreja nascente. Neste sentido, todo domingo devemos contemplar este mistério Trinitário!

 

Assim como Jesus, em quem vivia “a plenitude Deus” (Cl 2,4) e só fazia a vontade do Pai (cf. Jo 4,34; 5,36), assim, em nós, Deus quer ser a meta e o impulso de todas as nossas vontades, nas provações e nos momentos de esperança.

 

Possamos invocar a Bem-aventurada Virgem Maria, primeira criatura plenamente enriquecida pela Santíssima Trindade.  Na sua humildade ela se fez serva do Senhor e acolheu a vontade do Pai e concebeu o Filho por obra do Espírito Santo. Que ela interceda sempre por nós e nos ajude a crescer na fé no mistério trinitário. A ela pedimos a sua proteção materna, para que possamos prosseguir bem a nossa peregrinação terrena.  Assim seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

Jo 20,19-23

Caros irmãos e irmãs,
A liturgia da Palavra deste domingo acentua a manifestação do Espírito Santo no milagre de
Pentecostes e nos conduz ao Cenáculo onde nos deparamos com Maria, a Mãe de Jesus e os
Apóstolos reunidos em oração (cf. At 1,14s), quando ficaram repletos do Espírito Santo (cf. At 2,1-4)
e cumpria-se o prometido pelo Salvador: “O Espírito Santo, que o Pai vos enviará em meu nome.
Ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar o que eu vos disse” (Jo 14,26).
Neste dia teve início a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os seus
apóstolos para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua ressurreição (cf. At 1,3).
Antes da ascensão ao céu, ordenou que "não se afastassem de Jerusalém, mas que aguardassem que
se cumprisse a promessa do Pai" (cf. At 1,4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos e se
preparassem para receber o dom do Espírito Santo.
O Povo de Deus, que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, vê agora um novo
sinal de Deus a ponto de não conhecer qualquer fronteira de raça, cultura, espaço ou tempo.
Diferente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11,1-9), quando os homens,
intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, fragilizaram a sua própria
capacidade de se compreenderem reciprocamente, enquanto o Espírito Santo torna os corações
capazes de compreender as línguas de todos e restabelece a ponte da comunicação entre Deus e a
humanidade.
No Evangelho temos a aparição de Jesus aos apóstolos para lhes comunicar a sua paz e o dom
do Espírito Santo, para tirar o pecado do mundo, ou seja, para que eles continuem sua obra salvadora
(cf. Jo 14,27s). Jesus sopra sobre os apóstolos, para que eles recebam o Espírito Santo e tenham o
poder de perdoar os pecados. Porém, o mais grandioso é quando, na manhã de Pentecostes, um
grande vendaval soprou em Jerusalém e o Espírito Santo desceu em forma de línguas de fogo sobre a
comunidade inicial da Igreja, e eles ficaram repletos de uma nova vida e de uma nova luz.
O termo “Espírito” traduz o termo hebraico “Ruah” que, na sua primeira acepção, significa
sopro, ar, vento. Jesus utiliza precisamente a imagem sensível do vento para sugerir a novidade
transcendente daquele que é pessoalmente o sopro de Deus, o Espírito divino. É o dom por
excelência de Cristo ressuscitado conferido aos seus Apóstolos. No Evangelho Jesus diz: “Eu
apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14,16). É o
Espírito Paráclito, o Consolador, que dá a coragem de levar o Evangelho pelas estradas do mundo! O
Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e nos impele para que possamos anunciar a todos
a mensagem de Jesus Cristo.
O Batismo nos concede a graça do novo nascimento em Deus Pai, por meio do Filho no
Espírito Santo, que é o primeiro no despertar da nossa fé e na vida nova que consiste em conhecer o
Pai e aquele que Ele enviou, Jesus Cristo.
Toda a história da Igreja, através dos séculos, desde Pentecostes até nossos dias, está vinculada
à ação do Paráclito. Sua atuação é o cumprimento da promessa de Jesus: “Eu estarei convosco até o
final dos tempos” (Mt 28,20b). A comunidade primitiva não só se proclamava membro do Corpo
Místico de Cristo, mas igualmente acreditava ser o templo do Espírito Santo: “Não sabeis que sois o
templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16).

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Notemos ainda que em Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. A sua chama
desceu sobre os discípulos reunidos, acendeu-se neles e infundiu-lhes o novo ardor de Deus. Realiza-
se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito: "Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que
ele já tivesse sido ateado!" (Lc 12, 49). Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os
Apóstolos levaram esta chama divina até aos extremos confins da terra, abriram assim um caminho
para a humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus que com o seu fogo quer renovar
a face da terra. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se
consumir (cf. Ex 3, 2).
Esta chama do Espírito Santo arde, mas não queima. E, todavia, ela realiza uma transformação,
e por isso, deve consumir algo no homem, o pecado que o corrompe e o impede de construir de
forma satisfatória a sua relação com Deus e com o próximo.
Enquanto a água significava o nascimento e a fecundidade da vida dada no Espírito Santo, o
fogo simboliza a energia transformadora dos atos do Espírito Santo. São João Batista anuncia Cristo
como aquele que “há de batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E São Paulo ordena: “Não
apagueis o Espírito!” (1Ts 5, 19). A tradição espiritual reterá este simbolismo do fogo como um dos
mais expressivos da ação do Espírito Santo (cf. CIgC, n. 696).
Possamos também lembrar que quando Cristo sobe das águas do seu batismo, o Espírito Santo,
sob a forma de uma pomba, desce e paira sobre Ele (cf. Mt 3,16). O símbolo da pomba para
significar o Espírito Santo é tradicional na iconografia cristã. Assim, em cada batizado que
celebramos, o Espírito Santo desce e repousa no coração purificado do catecúmeno (cf. CIgC, n.
701).
Na solene celebração do Pentecostes, somos enviados a professar a nossa fé na presença e na
ação do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro.
Portanto, façamos nossa, e com intensidade particular, a invocação da própria Igreja: “Vinde Espírito
Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”. Uma invocação
simples e profunda que deve nos envolver de alegria e de esperança.
Lancemos agora o nosso olhar a Maria, a humilde Virgem de Nazaré, que recebeu na
anunciação do Anjo Gabriel, o convite para ser a mãe do Salvador, em quem habitará
“corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2,9). A resposta à pergunta de Maria: “Como será
isto, se eu não conheço homem?” (Lc 1,34) é dada pelo anjo dizendo: “O Espírito Santo virá sobre
ti” (Lc 1,35).
O Espírito Santo, que é “o Senhor que dá a vida”, como recitamos no Credo, é enviado para
santificar o seio da Virgem Maria e para a fecundar pelo poder divino, fazendo com que ela venha
conceber o Filho eterno do Pai, numa humanidade originada da sua. E a ela, que desde o Pentecostes
se une com a Igreja nascente invocando o Espírito Santo, peçamos que fique conosco no centro deste
nosso cenáculo singular, a fim de que, com a sua intercessão, possamos dar ao mundo um
testemunho vivo e autêntico de Cristo, o nosso Salvador. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento /RJ

VII DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C

 Ascensão do Senhor

Lc 24,46-53

 

Caros irmãos e irmãs,

 

A Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, que deve significar para nós um canto de vitória e de esperança.  Neste dia Jesus sobe ao céu, quarenta dias após a Páscoa. Contemplamos o mistério de Jesus que deixa o nosso espaço terreno para entrar na plenitude da glória de Deus.  Também nós podemos olhar para o alto e reconhecer o nosso futuro. Na Ascensão de Jesus, o Crucificado Ressuscitado, há a promessa da nossa participação na plenitude de vida junto de Deus.  Jesus vai para junto de Deus, mas, ao mesmo tempo, permanece conosco, ele continua sendo o Deus conosco, o Emanuel, e não nos deixa sós (cf. Jo 14,19).

 

A liturgia da Palavra traz uma passagem do Evangelho de São Lucas, onde podemos ler: “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu, por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto. Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os.  Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (Lc 24,49-52).

 

São Lucas descreve o acontecimento da Ascensão também no início do Livro dos Atos dos Apóstolos, para frisar que tal evento é como o elo que une a vida terrena de Jesus à vida da Igreja. São Lucas refere-se também à nuvem que subtrai Jesus à vista dos discípulos, os quais permanecem a contemplar Cristo que sobe para junto de Deus: “Foi elevado ao céu à vista deles e uma nuvem subtraiu-o ao seu olhar”. E eles “estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava” (At 1,9-10). Neste instante aparecem dois homens com vestes brancas que os convidam a não permanecer imóveis a contemplar o céu, mas a alimentar a sua vida e o seu testemunho com a certeza de que Jesus voltará do mesmo modo como o viram subir ao céu (cf. At 1,10-11).

 

Estes dois homens com as vestes brancas são os mesmos que aparecem no sepulcro, no dia da Páscoa (cf. Lc 24,4).  A cor branca representa, de acordo com o simbolismo bíblico, o universo de Deus. As palavras pronunciadas pelos dois homens constituem a explicação dada por Deus à ressurreição de Cristo.  Indica que Jesus, condenado à morte pelos homens, foi glorificado. E o fato de serem duas testemunhas indica a veracidade do fato.

 

Com o olhar da fé, os apóstolos compreendem que, não obstante tenha sido subtraído aos seus olhos, Jesus permanece para sempre com eles e, na glória do Pai, não os abandona. Por isto, a Ascensão não indica a ausência de Jesus, mas nos diz que Ele está vivo no meio de nós de um novo modo. E esta é a razão pela qual os discípulos se alegram.  Jesus não se encontra em um lugar específico do mundo, como antes, agora está no Senhorio de Deus, presente em cada espaço e tempo, próximo de cada um de nós. Na nossa profissão de fé dizemos que Jesus “subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. A vida terrena de Jesus culmina com o evento da Ascensão, ou seja, quando Ele passa deste mundo para o Pai e é elevado à sua direita.

 

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos convida a sermos testemunhas de Jesus que vive na Igreja e nos corações de todos os povos. No dia da sua ascensão ao céu disse Jesus aos Apóstolos:  “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura… Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os sinais que o acompanhavam” (Mc 16,15.20).

 

Com isto, podemos observar que a Ascensão de Jesus não indica sua ausência temporária do mundo, mas, principalmente, inaugura a nova e definitiva forma da sua presença entre nós; uma realidade, em virtude da sua participação no poder régio de Deus. Caberá precisamente aos discípulos, fortalecidos pelo poder do Espírito Santo, tornar perceptível a presença do Cristo entre os homens, mediante o testemunho, a pregação e o compromisso missionário.

 

Somos chamados a testemunhar com coragem o Evangelho perante o mundo, levando a esperança aos necessitados, aos que sofrem, aos abandonados, aos desesperados, a todos os que têm sede de verdade e de paz. Fazendo o bem a todos, e sendo solícitos pelo bem comum, estarão eles testemunhando que Deus é amor.

 

Como eles, também nós, aceitando o convite dos “dois homens em trajes resplandecentes”, não devemos permanecer com os olhos fixos no céu, mas, sob a guia do Espírito Santo, temos que ir a toda a parte e proclamar o anúncio da morte e ressurreição de Cristo. A sua própria palavra constitui um conforto para todos nós: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

 

Em cada Eucaristia que celebramos é Cristo que se dá a nós, nos edificando com o seu corpo.  Os discípulos de Emaús reconheceram o Cristo na partilha do pão e voltaram apressadamente a Jerusalém a fim de partilhar a alegria com os irmãos na fé.  Com efeito, a verdadeira alegria é reconhecer que o Senhor permanece no nosso meio, companheiro do nosso caminho. A Eucaristia nos faz descobrir que Cristo, morto e ressuscitado, se manifesta como nosso contemporâneo e caminha com cada um de nós.

 

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos exorta a consolidar a nossa fé na presença real de Jesus na história; sem Ele, nada podemos realizar de eficaz na nossa vida e no nosso apostolado. Como recorda o Apóstolo São Paulo na segunda leitura, a nossa vocação na Igreja é também a de formar “um só corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes” (Ef 4,4).

 

Esta solenidade nos faz lembrar também que Jesus completa seu itinerário: “Saí do pai e vim ao mundo: outra vez deixo o mundo e volto para o Pai. Subo para meu Pai e vosso pai, disse também Jesus a Maria Madalena no mesmo dia de sua ressurreição” (Jo 16,28; 20,17).  

 

Chama a nossa atenção este último gesto dos discípulos de Jesus: “Eles o adoraram”.  Que saibamos também nós reconhecer o senhorio de Cristo e que saibamos dedicar a ele, em oração, um pouco do nosso tempo. Com a Ascensão do Senhor, podemos afirmar que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; deste modo, todas as vezes que rezamos, a terra se une ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto o seu fumo, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus, e por Ele é ouvida e atendida.

Supliquemos, por fim, a Virgem Maria, para que nos ajude a contemplar os bens celestes e a sermos autênticas testemunhas da Ressurreição do seu filho Jesus, que é o caminho, a verdade e a Vida.  E que possamos estar também unidos a Maria em oração, como ela esteve no Cenáculo, para a Solenidade de Pentecostes, que celebraremos no próximo domingo. Assim seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ