IV DOMINGO DA QUARESMA – ANO C –

A Parábola do Filho Pródigo

Lc 15,1-3.11-32

Caros irmãos e irmãs,

Em cada Celebração Eucarística, é o próprio Cristo que se faz presente no meio de nós, a nos iluminar com o seu ensinamento na Liturgia da Palavra e a nos alimentar com o seu Corpo e o seu Sangue na Liturgia Eucarística e na Comunhão. É Ele que nos ensina o caminho do acolhimento, do amor e do perdão.  Neste tempo da quaresma a Igreja nos exorta a percorrer este itinerário e, para isto, o próprio Cristo nos mostra o caminho da conversão e da vida nova ao nos apresentar para reflexão a Parábola do Filho Pródigo, que é a leitura evangélica deste domingo.

O ponto de partida para a narração da Parábola é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2), comentam. O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável.  Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho.

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de auto-suficiência. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1).

O filho exige do pai tudo aquilo a que tem direito. A lei judaica prescrevia que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade. Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus o porco é um animal impuro, pois servir aos porcos era sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos.   Neste momento ele então percebe que está perdido.  Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos.  Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome.

O filho mais novo, ao partir para um país distante desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do pai que ficara distante. Passa a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

E é neste momento que ele “entra em si mesmo” (cf. v.17).  Podemos dizer que longe da casa do pai, em uma terra distante, ele se afastou até de si mesmo. Vivia longe da verdade de sua existência.  A sua mudança, a sua conversão, consiste no reconhecimento de que outrora partiu de si e agora regressa a si mesmo.  E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai.  Com as palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), podemos reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza. 

Ao chegar à casa recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão.  É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver. Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente de que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida.

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, pelo próprio ato de “tocar” este filho que regressava, depois de uma vida desordenada.  Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, por se julgar puro não podia se unir aos impuros.

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre observou o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai queira exercer a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus.  Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16).  Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para a verdadeira vida.

Mas a grande beleza deste texto se esconde na palavra grega “splanchnizomai”, normalmente traduzido para o português como: “movido de compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de parto. O filho “que estava morto e voltou à vida” (v. 24), renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso o pai exclama: “É preciso fazer festa e alegrar-se” (v. 24).

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai.

A verdadeira miséria do filho mais novo é de não ter ninguém atento a ele, que o olhe. Para os seres humanos, o olhar é vital. O filho sente a falta de um olhar de amor, sente fome de amor. Jesus quer mudar esta situação, renovando relações em que o amor possa circular de novo. Jesus lança o seu olhar de amor também sobre cada um de nós. Um olhar que é fonte de vida! Um olhar do qual não podemos fugir!

A segunda parte da parábola deste domingo é uma crítica à conduta do filho mais velho, mas também uma crítica da nossa própria conduta. Se estamos a serviço de Deus sem nunca ter desobedecido às suas leis, podemos correr o risco de faltar em nós o amor e a misericórdia.  Com esta parábola é Deus que por meio de Cristo fala conosco.

A figura do pai da parábola nos faz revelar o coração de Deus, cheio de misericórdia e que nos ama além de qualquer medida. Neste tempo de quaresma, somos chamados a intensificar o caminho interior de conversão, saibamos voltar para ele com todo o coração, rejeitando o erro e o pecado. E neste nosso retorno, possamos sentir a alegria do Pai a nos acolher de novo em sua casa. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DA QUARESMA – C

A transfiguração de Jesus

Lc 9,28-36

Caros irmãos e irmãs,

Chegamos ao segundo domingo de Quaresma e a liturgia da Palavra nos convida a meditar acerca das sugestivas narrações da Transfiguração de Jesus. No alto do Monte Tabor, na presença dos Apóstolos Pedro, Tiago e João, testemunhas privilegiadas deste importante acontecimento, Jesus é revestido, também exteriormente, da glória de Filho de Deus que lhe pertence.  O Senhor Jesus, que pouco antes tinha prenunciado a sua morte e ressurreição (Lc 9,22), oferece aos discípulos uma antecipação da sua glória.

O quadro evangélico tem como fundo de cena o céu escuro ainda pela madrugada, quando Jesus se transfigurou diante dos olhos dos três apóstolos.  Seu rosto se tornou brilhante como o sol, e suas vestes ficaram brancas e brilhantes (v. 29).  Uma nuvem luminosa, sinal bíblico da presença de Deus, os envolveu.  E apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus.  E também na Transfiguração, como no batismo, ressoa da nuvem a voz do Pai celeste que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” (v. 35).

Este é o convite que o próprio Deus nos faz: “Escutai o que ele diz” (v. 35).  Devemos escutá-lo porque só ele pode nos conduzir à Vida. Só ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68).  Nós somos chamados a escutá-lo, mas também a fazer tudo o que ele nos disser (cf. Jo 2,5).  Escutando a sua palavra e praticando os seus ensinamentos seremos verdadeiramente discípulos de Cristo.

Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar também para a nossa própria transfiguração.  Como nos exorta São Paulo: “O Senhor Jesus Cristo transformará o nosso corpo perecível, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso” (Fl 3, 21). Estas palavras do Apóstolo, enfatizadas na segunda leitura deste domingo, nos recordam que a nossa pátria verdadeira está no céu e que Jesus transfigurará o nosso corpo mortal num corpo glorioso como o seu.  Como de fato, Jesus quis dar um sinal e uma profecia da sua Ressurreição gloriosa, da qual também nós somos chamados a participar.

O evangelista São Lucas ressalta como este fato extraordinário se verifica precisamente num contexto de oração. Enquanto rezava, o rosto de Jesus mudou de aspecto (cf. Lc 9, 29). Antes de tudo, a primazia da oração, sem a qual todo o compromisso do apóstolo e da caridade se reduz a ativismo. Na Quaresma aprendemos a reservar o justo tempo à oração, bem como à esmola, o jejum e outras práticas quaresmais, consideradas pela tradição cristã como armas para combater o mal e os vícios.

Os Evangelhos deixam transparecer um hábito de Jesus, de transcorrer em oração uma parte da noite. O Evangelista São Marcos faz referência a uma destas noites, depois da multiplicação dos pães, e escreve: “Jesus obrigou logo os seus discípulos a subirem para o barco e a irem à frente, outro lado, rumo a Betsaida, enquanto Ele próprio despedia a multidão. Depois de os ter despedido, foi ao monte para orar. Já era noite, o barco estava no meio do mar e Ele sozinho em terra” (Mc 6, 45-47).

Por diversas vezes e, sobretudo, nos momentos mais urgentes e complexos, a oração de Jesus tornava-se mais prolongada e intensa. Na iminência da escolha dos doze Apóstolos, por exemplo, São Lucas sublinha a duração da oração preparatória de Jesus: “Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer a oração e passou toda a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos” (Lc 6, 12-13). Assim também deve ser a nossa oração, sinal da nossa amizade com Deus, a nossa intimidade com Ele. A oração deve ser entendida também como tempo para estar com o Senhor.

Somos chamados a ser testemunhas de oração, precisamente porque o nosso mundo se encontra muitas vezes fechado ao horizonte divino e à esperança que contém o encontro com Deus. Na amizade profunda com Jesus e vivendo nele e com Ele a relação filial com o Pai, através da nossa oração fiel e constante, podemos abrir janelas para o Céu de Deus. Aliás, ao percorrer o caminho da oração, sem uma consideração humana, podemos ajudar outros a percorrê-lo: também é verdade que na oração cristã se abrem veredas.

Também na nossa oração temos que aprender, cada vez mais, a entrar nesta história de salvação, cujo ápice é Jesus, renovar diante de Deus a nossa decisão pessoal para nos abrirmos à sua vontade, pedir-lhe a força de conformar a nossa vontade com a sua, em toda a nossa vida, em obediência ao seu desígnio de amor por nós.

Sobressaem na oração três elementos: a fé em um Deus pessoal, vivo; a fé em sua presença efetiva; o diálogo entre o homem e Deus.  Um diálogo pessoal, íntimo, profundo.  Quem reza sabe que se encontra diante da Sabedoria Suprema, diante daquele que nos conhece.  Assim, quem reza tem fé na presença ativa de Deus.  É a fé viva da oração.  Onde cessa a oração, cessa também a fé viva; e onde cessa a fé, cessa a oração.  A oração é este diálogo, este colóquio com o Senhor. 

A necessidade da oração se faz sentir diversas vezes na Sagrada Escritura:  São Paulo dizia: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17). E o mesmo Apóstolo ressalta: “É preciso embriagar-se com o Espírito Santo, falando uns aos outros com salmos e hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração, sempre e por tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5,18-20). E o próprio Jesus nos lembra: “Vigiai e orai para não entrardes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mc 14,38).

Orar é uma necessidade vital. Se não nos deixarmos levar pelo Espírito, cairemos de novo na escravidão do pecado (Gl 5,16-25).  São João Crisóstomo afirmava:  “Nada se compara em valor à oração;  ela torna possível o que é impossível, fácil o que é difícil.  É impossível que caia em pecado o homem que reza”.  E Santo Afonso Maria de Ligório dizia: “Quem reza certamente se salva;  quem não reza certamente se condena”.

Neste domingo a primeira leitura nos apresenta a figura de Abraão, o modelo do crente que soube escutar a voz do Senhor. Diante do chamado do Senhor, ele deixou a própria terra, sustentado apenas pela fé e pela obediência.  Como Abraão, também nós somos convidados a escutar e confiar nos desígnios de Deus.  E nesta primeira Leitura temos a narração da aliança estabelecida por Deus com Abraão, que responde “esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18); por este motivo, ele torna-se pai na fé de todos os crentes, porque acreditou no Senhor.

O tempo da Quaresma nos é oferecido, precisamente, como uma ocasião para nos colocarmos mais na escuta da Palavra de Deus que se fez carne. Possamos aproveitar para aprofundar o nosso silêncio interior, tornando-nos mais atentos ao que Jesus quer dizer a cada um de nós. E a exemplo de Cristo, que se colocava frequentemente em oração, sejamos também nós convidados a viver o itinerário quaresmal em espírito de oração e de penitência, a fim de nos preparar desde agora para receber a luz divina que resplandecerá na Páscoa.

E Maria, a Virgem santa de Nazaré, que como Abraão esperou contra toda a esperança, nos ajude a reconhecer em Jesus o Filho de Deus e o Senhor da nossa vida.  E que esta quaresma possa constituir para cada um de nós um momento privilegiado de graça e possa trazer abundantes frutos de bem.   Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

I DOMINGO DA QUARESMA – C

As tentações no deserto

Lc 4,1-13

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas, entramos no clima penitencial da Quaresma, um tempo litúrgico que nos recorda os quarenta dias transcorridos por Jesus no deserto e constitui para todos os batizados um forte convite à conversão. Trata-se de um itinerário de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo Pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor, o coração do mistério da nossa salvação.

Quarenta é um numero simbólico com o qual o Antigo e o Novo Testamento representam os momentos fortes da experiência de fé do Povo de Israel. É um número que exprime o tempo de espera, da purificação, do retorno ao Senhor, da consciência que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, uma soma de dias. Indica mais que isso, uma paciente perseverança, uma longa prova, um período suficiente para ver as obras de Deus, um tempo no qual é necessário decidir-se e a assumir as próprias responsabilidades (cf. BENTO XVI, Audiência Geral, 22 de fevereiro de 2012).

O número quarenta é particularmente significativo no mundo bíblico. Noé, um homem justo, por causa do dilúvio permanece por quarenta dias e quarenta noites na arca, junto à sua família e os animais, em conformidade com a vontade de Deus. Ele também espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar na terra firme, que foi salva da destruição (cf. Gn 7,4.12;8,6). O povo hebreu viveu quarenta anos de vida nômade no deserto cf. Ex 15,22-18,27). Moisés passou quarenta dias na presença de Deus no Monte Sinai para acolher a Lei (cf. Ex 24,18). Também o profeta Elias leva quarenta dias para atingir o Oreb, o monte onde encontra Deus (cf. 1Rs 19,8). Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obterem o perdão de Deus (cf. Jn 3,4). O Salmo 94 também nos lembra:  “Não vos torneis endurecidos como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais me provocaram e me tentaram, apesar de terem visto as minhas obras. Durante quarenta anos desgostou-me aquela geração, e eu disse: É um povo de coração desviado, que não conhece os meus desígnios. Por isso, jurei na minha cólera: Não hão de entrar no lugar do meu repouso” (Sl 94,8-11).

Lançando um olhar para o Novo Testamento, constamos que Jesus, antes de iniciar a vida pública, se retira no deserto por quarenta dias, sem comer, nem beber (cf. Mt 4,2), se nutre da Palavra de Deus, que usa como arma para vencer o diabo. As tentações de Jesus fazem referência àquelas que o povo hebraico enfrentou no deserto, mas que não souberam vencer. Quarenta são os dias durante os quais Jesus Ressuscitado instruiu os seus discípulos, antes de ascender ao Céu e enviar o Espírito Santo (cf. At 1,3).

Neste primeiro domingo do tempo quaresmal, a Liturgia da Palavra nos apresenta Cristo, conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde é tentado pelo demônio, após receber o batismo junto do Rio Jordão. O deserto, local para onde Jesus se retira, é o lugar do silêncio, da pobreza, onde o homem permanece desprovido do auxílio material. Mas é também o lugar da morte, pois onde não há água também não há vida, é o lugar da solidão, onde o homem pode sentir, de forma mais intensa, o drama da tentação. Jesus vai ao deserto, onde é tentado por satanás a fazê-lo deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir outras trilhas, mais fáceis e mundanas.  O relato evangélico é constituído em torno de um diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam passagens da Sagrada Escritura como base para certificar as suas afirmações. Jesus não usou milagres nem força sobrenatural para resistir à tentação do maligno. Ele simplesmente usou a Palavra de Deus para vencer as tentações.

No texto evangélico encontramos três tentações às quais Satanás submete Jesus. A primeira tem origem na fome, ou seja, na necessidade material: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão” (v. 3). Mas Jesus responde: “Não só de pão vive o homem” (v. 4; cf. Dt 8,3).  Esta tentação sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material.

Jesus sabe que o caminho para Deus não passa pela acumulação egoísta de bens e frisa que o seu alimento, ou seja, a sua prioridade, é a Palavra de Deus. Esta tentação nos faz lembrar também do momento em que Cristo estava na cruz. Naquela hora ele também foi convidado a realiza um milagre em proveito próprio, sendo desafiado a descer da cruz: “Se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27,40). Caso Jesus tivesse descido da cruz, seria um vitorioso diante dos homens, mas não diante de Deus.

Depois, na segunda tentação, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu” (v. 6-7). E Jesus responde: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’” (v.8; cf. Dt 6, 13).  Trata-se da adoração do poder, que Jesus recusou seguir.

Por fim, na terceira e última tentação, o diabo propõe a Jesus que realize um outro milagre: Lançar-se dos altos muros do Templo e fazer-se salvar pelos anjos, de modo que todos acreditassem nele. Mas Jesus responde que Deus nunca deve ser posto à prova. Jesus responde a esta proposta citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus (v. 12).  Ao contrário do que aconteceu com Adão e Eva no paraíso terrestre (cf. Gn 3), e de modo diferente do povo de Deus no deserto (cf. Ex 16-17; Dt 8), Jesus resiste à tentação e triunfa sobre o maligno.

No núcleo dessas três tentações que Jesus sofre está a proposta de instrumentalizar Deus, de usá-lo para os próprios interesses, glória e sucesso. E, portanto, de se colocar no lugar de Deus, removendo-o da sua existência e fazendo-o parecer supérfluo. O texto bíblico nos mostra que entre Jesus e o diabo há a Palavra de Deus.  E fazendo referência à Sagrada Escritura, Jesus antepõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento do nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do tentador.

Na história, houve multidões de homens e mulheres que escolheram imitar o Cristo que se retira ao deserto, como os monges e eremitas. Eles escolheram um espaço no deserto; nós devemos escolher ao menos um tempo de deserto. Passar um tempo de deserto significa fazer um pouco de vazio e de silêncio ao nosso redor; reencontrar o caminho do nosso coração, subtrair-nos das agitações e dos chamados externos, a fim de entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser e de nosso crer.

Quaresma é tempo de renovação espiritual, de conversão interior e de renovação da vida. É um tempo propício para revermos a nossa vida e redescobrirmos a fé em Deus. Isto comporta sempre uma luta, um combate espiritual, porque o espírito do mal naturalmente se opõe à nossa santificação e procura desviar-nos do caminho de Deus. Por esta razão, no primeiro domingo da quaresma, todos os anos é proclamado o Evangelho das tentações de Jesus no deserto.  Somos continuamente chamados a lutar contra a tentação do demônio usando as armas da fé, ou seja, a oração, a escuta da Palavra de Deus e a penitência, que deve nos acompanhar ao longo desse nosso itinerário quaresmal. Também o cristão, cuja existência é guiada pelo mesmo Espírito recebido no Batismo e na Confirmação, é chamado a enfrentar o quotidiano combate da fé, sustentado pela graça de Cristo.

Por conseguinte, não tenhamos receio de enfrentar, também nós, o combate contra o espírito do mal. Saibamos agir como o Cristo Senhor, soube vencer as tentações para estar unicamente a serviço do Pai. E para que também nós possamos seguir o seu exemplo, peçamos a intercessão da Virgem Maria, a quem invocamos com confiança filial, para que possamos, na hora da provação, afastarmos as tentações com a Palavra de Cristo, e deste modo voltarmos a colocar Deus no centro da nossa vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C

A boca fala do que o coração está cheio

Lc 6,39-45

Caros irmãos e irmãs,

A página do Evangelho para este domingo nos apresenta uma série de ensinamentos provavelmente dirigidos por Jesus aos fariseus (cf. Mt 15,14), um grupo observante da lei de Moisés que se apresentava como guia do povo no caminho para a santidade. Eram eles assíduos no estudo das leis e procuravam observá-las em seus mínimos detalhes.  Para eles o importante era o que estava escrito na Lei, mas careciam de amor para com os outros.  Estes ensinamentos tornam-se válidos também para cada um de nós hoje.

Jesus começa dizendo: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?” (v. 39). Com isto, Jesus quer mostrar que o guia de uma comunidade não pode ser cego. Ele deverá ser iluminado pelo ensinamento de Jesus para que possa iluminar, também, o seu irmão. Nos primeiros séculos da Igreja os que recebiam o batismo eram chamados de iluminados, porque a luz de Cristo lhes tinha aberto os olhos. Os cristãos deveriam ser aqueles que enxergam bem, os que sabem escolher os valores certos da vida e que estão em condições de apontar o caminho seguro para quem ainda peregrina na escuridão. Jesus adverte os seus discípulos sobre um grave perigo: eles também correm o risco de perder a luz do Evangelho, de voltar novamente às trevas, quando deixam-se guiar pelos falsos testemunhos. Quando isto acontece, eles se tornam guias cegos, nos quais já não é possível confiar.

A cegueira da qual Jesus fala é aquela de quem ainda não descobriu suas próprias sombras, seus defeitos. Se estamos cegos, não reconhecemos as nossas próprias falhas e não buscamos corrigir o que está imperfeito em nós. A trave nos nossos olhos nos impede de enxergar as nossas fraquezas e limitações. Para tirá-la, nós precisamos pedir ao Espírito Santo que purifique os nossos pensamentos, sentimentos e atitudes. Caso contrário, Jesus nos lembra: poderemos cair no buraco e levar muitos conosco.

Nesta linha de intenções, a primeira leitura aponta um exercício e um critério que é norma de sabedoria para ajuizar uma pessoa: a palavra que sai de sua boca (cf. Eclo 27,5-8). Com isso, Jesus fala do aspecto interior da pessoa: “O homem bom, do bom tesouro que é seu coração, tira o bem; mas o homem mau, do seu mau tesouro, tira o mal, pois a boca fala do que o coração está cheio” (Lc 6,45). Na Sagrada Escritura, o coração do homem é a própria fonte de sua personalidade e, por isso, já no Antigo Testamento vimos que o homem precisava trocar o seu coração de pedra por um coração de carne (cf. Ez 36,25s). No Novo Testamento Jesus sequencia os ensinamentos dos profetas e chama a atenção para o verdadeiro mal, proveniente do coração: “É do coração do homem que procedem maus desejos, homicídios, adultérios… são estas coisas que tornam o homem impuro” (Mt 15,19ss).  Jesus, por várias vezes, lembra a exigência divina de generosidade interior: é preciso receber a palavra num coração bem disposto (cf. Lc 8,15), amar a Deus de todo o coração (cf. Mt 23,37), perdoar ao irmão do fundo do coração (cf. Mt 18,35).  E é aos puros de coração que Jesus promete a visão de Deus (cf. Mt 5,8).  E nós somos convidados a imitar o próprio Cristo que é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29).

Neste sentido, numa linguagem bíblica, o coração é centro dos nossos pensamentos, desejos e sentimentos, é a fonte de nossas obras boas ou más e sede de nossas decisões.  O que procede de nosso coração permite reconhecer como está nosso interior. Como centro de nossas decisões, o coração assemelha-se ao cofre forte de um tesouro. Os discípulos de Jesus devem acumular nesse cofre um tesouro salvífico que façam deles homens bons e os levem às boas obras. Este tesouro interno jorrará pelas suas palavras, como afirma Jesus: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (v. 45). Sabemos que o discípulo de Jesus deve ser luz para os outros, por isso, o seu coração deve ser semelhante ao coração de Cristo.

No texto evangélico Jesus usa uma frase forte, que deve encontrar eco também em cada um de nós: “Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (v. 42). O termo “hipócrita” não designa só o homem dissimulado, falso, cujos atos não correspondem ao seu pensamento e às suas palavras, mas equivale ao termo aramaico “hanefa” que, no Antigo Testamento, significa “perverso”, “ímpio”. São aqueles que estão sempre à procura de uma falha dos outros para condenar, mas não estão preocupados com os seus próprios erros e falhas. Hipócrita é aquele que continuamente acha motivo para falar mal dos outros e nunca se pergunta se aquilo que detesta dos outros, como a vaidade, o egoísmo, a avareza, a falsidade, não se encontra, em medida maior ou menor, nele mesmo. 

Em outras passagens da Sagrada Escritura Jesus usa esta mesma expressão: “Quando, pois, deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa (cf. Mt 6,2.5).  Diante destas considerações podemos definir a hipocrisia como uma falsidade do coração, a ilusão de contentar a Deus com as aparências. O hipócrita é aquele que usa moeda falsa para Deus, alguém que o honra com os lábios enquanto seu coração está longe (cf. Mt 15,8).

Jesus hoje nos chama à purificação. Possamos organizar corajosamente nosso exame de consciência e deixar-nos julgar pelo evangelho.  Talvez sejamos obrigados a admitir, por mais que nos desagrade, que somos todos hipócritas.  Como todos os discursos de Cristo, também este sobre a hipocrisia pode encontrar ressonância em nós. Através do evangelho de hoje todos nós somos chamados a lançar um olhar para nós mesmos. Com frequência queremos tirar o cisco do olho alheio sem nos preocuparmos em remover a trave do nosso. Criticamos os outros sem olhar a nós mesmos.

O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que dá bons frutos (v.43-45). Na primeira leitura ouvimos: “O fruto revela como foi cultivada a árvore; assim, a palavra mostra o coração do homem” (Eclo 27,7). É um sábio ensinamento para desvendar o que há no coração de cada pessoa.  Cristo acrescenta ainda as obras, que também brotam do coração; e frisa que é pelos frutos conhecemos a árvore: “Não há árvore boa que dê maus frutos, nem árvore má que dê bons frutos. Cada árvore se conhece pelo seu fruto” (v.43). Nossa ação exterior e nossa intenção interior devem formar unidade.

Precisamos necessariamente produzir bons frutos, mas, para que isso se concretize, é necessário um processo prévio de interiorização, de contato com Deus pela oração, assimilando a sua Palavra num diálogo pessoal com Ele no silêncio de nosso coração. No final da oração do Pai Nosso, dizemos: “Livrai-nos do mal”, é deste mal que devemos pedir a Deus que nos liberte: do mal da hipocrisia, da falsidade, do erro, do pecado. Que o Senhor nos conceda esta graça para que possamos apresentar ao Senhor frutos maduros e saborosos.  Que Ele mesmo nos ajude a reagir abrindo o nosso coração ao bem e ao amor, para que a nossa vida interior nunca se assemelhe a árvore seca e sem vida. Que Ele também nos ajude a tirar a trave que carregamos em nossos olhos, a fim de termos condições de ajudar os nossos irmãos e irmãs a tirarem o cisco de seus olhos.   Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ