VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C

O perdão e o amor aos inimigos

Lc 6,27-38

Caros irmãos e irmãs,

A primeira leitura da Liturgia da Palavra deste domingo nos prepara para melhor compreender o texto evangélico que a Igreja nos convida a refletir neste dia. Trata-se de um fragmento tirado do Primeiro Livro de Samuel (cf. 1Sm 26,2.7-9.12-13.22-23) onde relata uma grande lição de misericórdia.  Davi e Saul eram inimigos e o ódio de Saul contra Davi era tão grande, que o levou a perseguir Davi no deserto de Zif, com uma tropa de três mil guerreiros.

Aconteceu que, enquanto Saul dormia em plena noite, com sua lança fincada no chão, à sua cabeceira, Davi e seu companheiro de armas, Abisai, conseguiram penetrar no meio dos seus soldados, sem acordar ninguém.  Abisai disse a Davi: “Deus entregou hoje em tuas mãos o teu inimigo. Vou cravá-lo em terra com uma lançada, e não será preciso repetir o golpe” (v. 8). Mas Davi não deixou, respondendo: “Não o mates! Pois quem poderia estender a mão contra o ungido do Senhor, e ficar impune?” (v. 8). Tomou apenas a lança e o cantil que lhe estava ao lado, retirou-se, e de amanhã, do alto de uma colina fronteira gritou para os homens de Saul, que alguém viesse buscar a lança do rei.  Deus o tinha posto em suas mãos, mas não queria tocá-lo.

Através da atitude de Absai, pensamos na lógica humana, que propõe agredir o nosso inimigo, destruir quem praticou o mal. Mas também nos faz pensar na atitude de Davi, ou seja, o perdão incondicional ao adversário. O argumento usado por Davi é que não podemos estender a mão contra um “ungido do Senhor” (v. 8) e, pelo mesmo motivo, também contra os nossos inimigos.  Também eles necessitam do nosso amor, para que possam se recuperar, pois são, e sempre continuarão sendo “ungidos do Senhor”, pois todos são criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). E, pelo batismo, podemos repetir com o Apóstolo São Paulo: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” (1Cor 3,16).

Esta cena do perdão de Davi a Saul nos conduz diretamente à primeira palavra do Evangelho, onde Jesus diz a seus discípulos: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam” (cf. Lc 6,27-28).  Encontramos nesta frase quatro imperativos: amai, fazei o bem, bendizei, rezai. É assim que o cristão deve se comportar diante de quem pratica o mal.  É a novidade do espírito do Evangelho, em vivo contraste com o espírito do mundo.  Amar os inimigos é um princípio da identidade cristã, uma norma da não violência cristã, que consiste em não render-se frente ao mal, mas em responder ao mal com o bem, destruindo, dessa forma, a corrente da injustiça. Somos chamados a enfrentar a violência e o mal com as únicas armas do amor e da verdade. O amor ao inimigo constitui o grande escudo da identidade cristã, um autêntico dom de Deus. Esta é a novidade do Evangelho.

Esta proposta de Cristo é realista, em meio a violência e injustiça em nosso ambiente.  Não se pode superar a situação de uma sociedade violenta e injusta, a não ser contrapondo com o amor, a bondade e o incentivo ao perdão.  O próprio Cristo é exemplo para nós, pois ele mesmo fez bem a quem o odiava, perdoou a quem o cruficivava, não julgou e não condenou ninguém, lembrando que só Deus pode condenar (cf. Mt 7,1). 

Tem verdadeiro amor em seu coração aquele que é capaz de amar seus inimigos, fazer o bem a quem o odeia, bendizer quem o amaldiçoa e rezar pelos caluniadores. Para assim proceder é preciso ser forte, estar imbuído de profundas convicções e, sobretudo, ser movido pelo Espírito Santo. Oferecer a outra face, dar a quem pede, romper a violência de quem nos tira o manto entregando-lhes também a nossa túnica, são atitudes de gente forte. Quem assim procede está rompendo um mecanismo de repetição que só pode ser rompido pela gratuidade.

A oração pelos inimigos é o ponto mais alto do amor, porque pressupõe um coração disposto a deixar-se purificar de qualquer forma de ódio. Ao rezarmos pelos nossos inimigos o nosso coração entra em sintonia com o coração de Deus que está nos céus, pois “ele faz nas­cer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos” (Mt 5,45). Quem acolhe o Senhor na sua vida e o ama com todo o coração é capaz de um novo início. Pode cumprir a vontade de Deus e realizar uma nova forma de existência, animada pelo amor até mesmo para com aqueles que nos odeiam.

A grande lição de Jesus é a misericórdia.  E o paradigma dessa misericórdia é o coração do próprio Deus:  “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso” (v. 36).  E as afirmações se vão sucedendo como numa verdadeira cascata de misericórdia:  “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado” (v. 37-38).

Amar quem nos ama, elogia e prestigia, é muito fácil. Todo jogo dos interesses passa por este tipo de relação. Mas amar quem nos prejudica, quem nos amaldiçoa, quem não corresponde às nossas expectativas, é mais difícil e até mesmo impossível sem a graça de Deus.  Muitas vezes nos fechamos ao amor gratuito, cujo modelo supremo é Deus, de quem temos de aprender generosidade e amizade, compreensão e acolhida, aceitação e intimidade, alegria no partilhar, amor e perdão. As exigências de Jesus vão muito mais a fundo: ele exige um amor gratuito, e não um amor baseado em uma justiça comutativa (v. 34).

Devemos recordar sempre que o evangelho nos permite e nos obriga a condenar o pecado sem reticências e sem medo, mas não a condenar o pecador.  Este é o amor, especialmente nas relações familiares; não podemos esperar que seja sempre o outro a dar o primeiro passo. Amar os que nos amam e fazer bem aos que nos fazem o bem é natural a todos.

Os versículos seguintes mostram que a principal tarefa do cristão é “ser como Deus é”.  Então Deus será eternamente fiel ao que ele tem operado de belo, de puro, de misericordiso na nossa vida: “…E não sereis julgados; … e não sereis condenados; … e sereis perdoados… Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante”. A bondade de Deus não está apenas nele próprio. Ela transborda, ela age. Por isso o cristão deve fazer o bem. Uma das formas mais sutis de parecermos com Deus é a generosidade de “não julgar”.  A tendência da criatura de julgar os outros é talvez uma tentativa de se autocompensar de suas frustrações e incompetências.

Que a Virgem de Nazaré interceda por nós, para que possamos colocar em prática os ensinamentos do Senhor e saibamos amar o nosso próximo como ele nos amou, e sermos misericordiosos como nosso Pai celestial é misericordioso (v. 36).  E que o Senhor nos ensine a abrir o nosso coração ao perdão e nos faça amar uns aos outros e a acolher até mesmo os nossos inimigos como irmãos, filhos do mesmo Pai celeste. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Moseteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C

As bem-aventuranças

Lc 6,17.20-26

Caros irmãos e irmãs!

Este domingo o texto evangélico traz para a nossa reflexão o conhecido Sermão da Montanha, um novo programa de vida para se livrar dos falsos valores do mundo e abrir-se aos verdadeiros bens presentes e futuros. Quando Deus conforta, sacia a fome de justiça, enxuga as lágrimas dos que choram, isso significa que, além de recompensar cada um de forma sensível, abre também para os que passam por estas provações, o Reino do Céu.

As bem-aventuranças iluminam as ações e atitudes que caracterizam a vida cristã e exprimem o que significa ser discípulo de Cristo (cf. CIgC, n. 1717). Ao mesmo tempo, elas são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura.  Devemos olhar como Jesus viveu estas bem-aventuranças. Os evangelhos são, do início ao fim, uma demonstração da mansidão de Cristo, em seu duplo aspecto de humildade e de paciência. Ele mesmo se propõe como modelo de mansidão para nós.

O texto bíblico nos mostra que Jesus, dirigindo o olhar aos seus discípulos, diz: “Bem-aventurados os pobres… bem-aventurados vós, que agora tendes fome… bem-aventurados vós, que chorais… bem-aventurados vós, quando os homens… desprezarem o vosso nome”.   Após as quatro menções aos “bem-aventurados vós”: os pobres, os famintos, os que choram e os que sofrem insultos por causa de Jesus, temos também quatro “ais”: ai de vós os ricos, ai de vós os que têm fartura, ai dos que riem e ai dos que são elogiados. Como afirma Jesus, tudo irá inverter no final dos tempos: os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (cf. Lc 13, 30).

Jesus diz inicialmente: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (v. 20).  A palavra grega usada por São Lucas para “pobres” (ptôchos) traduz certos termos hebraicos (‘anawim, dallim, ebionim) que, no Antigo Testamento, definem uma classe de pessoas privadas de bens. São os desprotegidos, os pequenos, as vítimas da injustiça, que com frequência são privados dos seus direitos e da sua dignidade. Por isso, eles têm fome, choram, são perseguidos. Ora, serão eles, precisamente, os primeiros destinatários da salvação de Deus, que, na sua bondade, quer derramar sobre eles a sua bondade, a sua misericórdia, a sua salvação. Depois, a salvação de Deus dirige-se prioritariamente a estes porque eles, na sua simplicidade, humildade, disponibilidade e despojamento, estão mais abertos para acolher a proposta que Deus lhes faz em Jesus.

Jesus reassume neste sermão das bem-aventuranças as promessas divinas de que os pobres não terão nem fome e nem sede (cf. Is 49,10.13); Ez 34,29) e anuncia que eles serão saciados. Aos pobres, é prometido o Reino de Deus e assegurada, também, a participação na mesa da casa do Pai. A participação no Reino de Deus fará com que os pobres, que agora choram, possam ter motivos para rir e estar alegres.

O grande mal de todos os tempos é o de almejar a fortuna para um interesse pessoal e não para melhor servir a Deus. Sob esse prisma, não vem ao caso ser rico ou pobre, porque o primeiro desprezará o segundo, este invejará o outro e ambos incorrerão na sentença contida no versículo 24: “Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação” (v. 24). Os pobres em bens, podem ser ricos na fé, como dizia o apóstolo São Tiago: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?” (Tg 2,5). A verdadeira riqueza que torna os pobres bem-aventurados é o Reino de Deus. 

No episódio da pesca milagrosa (cf. Lc 5,1-11), temos o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, o texto conclui dizendo: Eles, atracando as barcas à terra, deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5,11). Nesta mesma página do evangelho encontramos o chamado de Levi, e a conclusão é semelhante: “Ele, abandonando tudo, levantou-se e o seguiu” (Lc 5,28).  Esta é uma das características do verdadeiro discípulo de Jesus: Abandonar tudo para segui-lo. Os apóstolos e também muitos santos souberam reconhecer que a vida do homem não depende dos bens que ele possui.

O homem que constrói sua vida e projeta o seu futuro somente em função de si mesmo, é como aquele homem que construiu a sua casa sobre a areia (cf. Mt 7,21-29). Neste sentido, o rico pode tornar-se pobre, pois, a sua pobreza se mede pelo que ele perde: o Reino de Deus, como nos narra o mesmo evangelista São Lucas: “Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus” (Lc 12,21).

Neste sentido devemos sempre nos questionar de qual lado estamos: Entre os que constroem a vida sobre si mesmos ou entre aqueles que constroem sobre o Reino de Deus?  Devemos estar sempre conscientes de que não podemos servir a Deus e ao dinheiro (cf. Mt 6,24). O motivo da alegria anunciada para os pobres consiste na promessa que é feita: para eles chegou o reino de Deus, para aqueles que fizeram a opção de não colocar a própria segurança  nos bens materiais já teve início um novo mundo, pois tudo passa a ser em comum (cf. At 4,34). Esta é a proposta que Jesus faz aos seus primeiros apóstolos que deixam tudo para o seguir.

Jesus também diz: “Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados” (v. 21).  O mais alto grau desta bem-aventurança consiste em suportar com resignação cristã, ou seja, sem revolta, sem inveja e sem ódio, os sacrifícios decorrentes da pobreza material, isto torna o pobre um bem-aventurado. Por outro lado, também são bem-aventurados os que têm fome de Deus. A estes últimos, Deus alimentará com a sua graça, com mais abundância, na medida do desejo de perfeição.

Os pecadores encontram sua falsa felicidade na transgressão da lei de Deus. A estes adverte Jesus severamente, porque no dia do Juízo hão de chorar sua condenação eterna: “Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis” (v. 26). Ademais, ainda nesta terra, apesar de sua aparente alegria, vivem de tristeza, pois a consciência continuamente os acusa de suas faltas. Ao prazer decorrente do pecado sempre se segue o remorso pela falta cometida.  Mas aqueles que choram de arrependimento pelos próprios pecados, já encontram, na sua contrição, consolo e felicidade. A experiência nos ensina que o arrependimento traz alegria, e é fruto da graça de Deus.

Lancemos uma vez mais o nosso olhar para a Virgem Maria, aquela que todas as gerações a proclamam de “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48). Que ela, mãe de Deus e nossa, interceda por cada um de nós e nos faça trilhar, todos os dias, com o coração dilatado, o caminho das bem-aventuranças. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – C

A pesca milagrosa

Lc 5,1-11

Caros irmãos e irmãs!

Para este domingo a Igreja nos apresenta um texto evangélico onde encontramos a vocação dos primeiros discípulos de Jesus, no contexto da pesca milagrosa.  Na vocação dos discípulos está retratado a missão da Igreja e dentro dela a dos apóstolos, particularmente, a de Pedro.  Por isso, entre os dois barcos que havia visto, Jesus, o Mestre, escolhe precisamente a barca de Simão, nela se senta, e de onde passa a ensinar às multidões.  Com este gesto, indica por quem a Palavra de Deus deve ser anunciada, por Ele mesmo, o Cristo Jesus, que fala através da cátedra de Pedro.

A pesca milagrosa ocorre junto ao mar. Neste sentido, para melhor entender o texto, precisamos recordar o que significava o “mar” no ideário judaico: era o lugar dos monstros, onde residiam os espíritos e as forças demoníacas que procuravam roubar a vida e a felicidade do homem. Dizer que os seus discípulos vão ser “pescadores de homens” significa que a missão do cristão é continuar a obra de Jesus em favor do homem, procurando libertá-lo de tudo aquilo que lhe rouba a vida e a felicidade. Trata-se de salvar o homem de morrer afogado no mar da opressão, do egoísmo, do sofrimento, do medo, das forças demoníacas que impedem a sua felicidade.

Sendo o mar o lugar simbólico das forças hostis a Deus (cf. Gn 7, 17-24; Sl 74,13-14; Jó 38,16-17), é provável que o lago de Genesaré simbolize o campo de batalha onde os discípulos devem lutar para exercer, com a força da graça, o ministério dado por Jesus.  Este campo de combate, representado pela dificuldade da pesca e o reconhecimento de Simão como pecador, demonstra as adversidades contínuas, pois o pecado e a influência do mal se manifestam por toda a parte.

Para o peixe, criado para a água, é mortal ser tirado do mar. Ele é privado do seu elemento vital para servir de alimento ao homem.  Os peixes retirados da água, morrem, ao passo que os homens vivem.  Jesus se serve deste simbolismo para explicar que na missão do pescador de homens acontece o contrário. Quantas pessoas vivem alienadas, nas águas salgadas do sofrimento e da morte; em um mar de obscuridade sem luz, marcadas pelo egoísmo, pelo ódio, pela violência, pela guerra e pela destruição da família.  As ondas impetuosas podem submergir e arrastar o homem para o fundo do abismo.  Muitos podem ser tragados pelas forças do mal. Cabe aos discípulos de Cristo a missão de salvar a todos, tirando-os, através da rede do Evangelho, das águas da morte para os conduzir ao esplendor da luz de Deus, na verdadeira vida.

Nota-se ainda que a pesca é feita durante a noite. A noite é o tempo das trevas, da escuridão: significa a ausência de Jesus: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 9,4-5). O resultado da ação dos discípulos, à noite, sem Jesus, é um fracasso: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).  A chegada da manhã, da luz, coincide com a presença de Jesus, que é a luz do mundo (cf. Jo 8,12). Jesus não está com eles no barco, mas sim em terra. Ele não acompanha os discípulos na pesca; a sua ação no mundo exerce-se por meio dos discípulos.  O grupo está desorientado e decepcionado pelo fracasso. Mas Jesus lhes dá indicações; e as redes enchem-se de peixes. O fruto da pesca se deve à obediência com que os discípulos seguem as indicações de Jesus.

Estes pescadores tinham, certamente, ouvido falar de Jesus, cujo ensinamento parecia ter autoridade, mas não sendo ele um homem da pesca, não iria dar lições aos pescadores experientes.  Pedro era um pescador profissional. Conhecia o seu ofício. Aquele dia era um dia de pesca infrutífera. E chega Jesus, carpinteiro, a dizer-lhe o que fazer, para lançar as redes. A primeira atitude de Simão é, naturalmente, de hesitação. Apesar de tudo, manifesta uma atitude de confiança, ao lançar as redes. A palavra e a personalidade de Jesus inspiraram-lhe alguma confiança.

A pesca é verdadeiramente milagrosa, por isso, Simão Pedro vê a glória de Deus em Jesus, chamando-o com o título de Senhor, e, simultaneamente, ele se conscientiza de sua precária condição de pecador.  Curioso é que o seu gesto não corresponde às suas palavras; pois ele se joga aos pés de Jesus enquanto pede o seu afastamento (v.8).  As palavras de Jesus, no entanto, vão ao encontro deste gesto de confiança e de fé, associando-o à sua missão, elevando-o à condição de pescador de homens (v.10).  Vencendo o temor (v.10), Simão deixa tudo e começa a aventura do seguimento de Cristo, juntamente com os demais companheiros (v.11).

Pedro, ao cair de joelhos aos pés de Jesus, suplica: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!” (Lc 5,9). É que tanto ele quanto quem o acompanhava na barca ficaram fortemente impressionados com a extraordinária pesca que acabavam de realizar pela palavra de Jesus.  Por isso, Pedro não o chama agora de Mestre, mas de Senhor (v.10).  Ou seja, para Pedro, Jesus era o seu mestre. Mas, diante da pesca milagrosa que não se explica por causas naturais, Pedro descobre que Jesus não é um simples mestre ou profeta comum. Já o vê como seu Senhor, nome reservado exclusivamente a Deus. Foi um grande passo na descoberta da verdadeira identidade de Jesus.

A admiração atrai Pedro a Jesus, mas a consciência de seu estado de pecador o afasta dele.  Nos versículos anteriores, o Evangelista São Lucas, usa o nome “Simão”, referindo-se a Pedro, contudo, no momento de relatar a sua reação diante da pesca prodigiosa, diz “Simão Pedro”.  Por que razão? Certamente, porque diante do milagre presenciado, a fé de Simão começou a tornar-se uma rocha, ou seja, uma pedra.  Pela fé, Simão é transformado em pedra, e já se põe o fundamento para a sua vocação em “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt 16,18).

Assim como Pedro, nós também somos chamados a reconhecer Jesus como “o Senhor” (v. 8): é o que faz Pedro, ao perceber como a proposta de Jesus gera vida e fecundidade para todos. O título “Senhor”, em grego, “kyrios”, é o título que a comunidade cristã primitiva dá a Jesus ressuscitado, reconhecendo nele o “Senhor” que preside o mundo e a história.

Sob a imagem da pesca, os evangelhos sinóticos apresentam a missão que Jesus confia aos discípulos (cf. Mc 1,17; Mt 4,19; Lc 5,10): libertar todos os homens que vivem mergulhados no mar do sofrimento e da escravidão.   O peixe tornou-se símbolo dos primeiros cristãos, porque nas águas do batismo eles nascem para a fé e, nela vivendo, se salvam.

A imagem da pesca refere-se também à missão da Igreja e sobre a vocação à qual fomos chamados para uma tarefa no mundo.  Por isto, devemos assiduamente pedir ao Senhor que envie trabalhadores para a sua messe e que mediante o seu convite, saibamos segui-lo respondendo com generosidade o seu chamado.  E que também cada sacerdote saiba reavivar a sua disponibilidade em responder todos os dias o convite do Senhor com a mesma humildade dos primeiros apóstolos, renovando o seu “sim” ao Senhor com alegria e plena dedicação. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C

Jesus em Nazaré

Lc 4,21-30

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos coloca uma vez mais na sinagoga de Nazaré, a aldeia onde Jesus cresceu e onde todos o conhecem.  Durante a liturgia do sábado, Jesus lê uma profecia do profeta Isaías sobre o Messias e anuncia o seu cumprimento, dando a entender que aquela palavra se refere a Ele. Com isto, suscita o desconcerto dos nazarenos.  Os seus concidadãos, conhecendo o seu ambiente familiar, murmuram: “Não é este o filho de José?” (Lc 4, 22), querendo dizer: um carpinteiro de Nazaré. Esta reação faz confirmar o conhecido provérbio: “Nenhum profeta é bem aceito na sua pátria”.

Jesus, percebendo a pouca fraternidade de seus conterrâneos que até o desprezavam, cita dois milagres realizados pelos grandes profetas Elias e Eliseu em favor de pessoas não israelitas, para demonstrar que por vezes há mais fé fora de Israel. Mas a reação é unânime: todos se levantam e o expulsam, e tencionam lançá-lo de um precipício, mas Ele passa no meio da multidão furiosa e se retira.  Com isto, observamos que Jesus, já no início do seu ministério, se coloca a serviço da verdade e do amor. Aliás, amor e verdade são dois nomes da mesma realidade, dois nomes de Deus.

O amor é a essência do próprio Deus, é o sentido da criação e da história, é a luz que dá bondade e beleza à existência de cada ser humano. Ao mesmo tempo, o amor se manifesta no comportamento de quem, respondendo ao amor de Deus, orienta a própria vida como dom de si a Deus e ao próximo. Em Jesus Cristo estes dois aspectos formam uma unidade perfeita: Ele é o Amor encarnado. Este Amor nos é revelado plenamente em Cristo crucificado (cf. BENTO XVI, Carta Encíclica “Deus caritas est”, n. 1).

E a liturgia da Palavra faz ainda ressoar o hino à caridade do Apóstolo Paulo, que a segunda leitura nos apresenta para a nossa meditação. Recorda como é importante a caridade entre irmãos. É aí que deve acontecer em primeiro lugar a atenção ao outro, o acolhimento do outro, o respeito pelo outro.  E São Paulo nos indica “um caminho superior a todos os outros” (1Cor 12,31), o caminho do amor e da caridade: O caminho do “ágape”.  São Paulo apresenta este amor de forma bem prática.  Ou seja, ele ressalta a vivência do amor.  Deve ser colocado em ação e, para isto, utiliza 15 verbos: ter paciência, servir, não invejar, não se vangloriar, não se orgulhar etc. São verbos para a ação.

Convém dizer que o amor apresentado por São Paulo é o amor “ágape”, tal como ele é entendido pelos cristãos: não é o amor egoísta, que procura o próprio bem, mas o amor gratuito, desinteressado, sincero, fraterno, que se preocupa com o outro, que sofre pelo outro, que procura o bem do outro sem esperar nada em troca. O nosso texto desenvolve-se em três estrofes. Na primeira estrofe (cf. 1Cor 13,1-3), Paulo sustenta que, sem amor, até as melhores coisas são vazias e sem sentido. Só o amor dá sentido a toda a vida e a toda a experiência cristã.

Na segunda estrofe (cf. 1Cor 13,4-7), São Paulo apresenta literariamente o amor como uma pessoa e sugere que ele é a fonte e a origem de todos os bens e qualidades. A propósito, também é enumerado quinze características do verdadeiro amor: sete destas qualidades são formuladas positivamente e as outras oito de forma negativa; mas todas elas se referem aos fatos simples que experimentamos e vivemos a todos os instantes. A terceira e última estrofe (13,8-13) estabelece uma comparação entre o amor e os carismas. Este amor não desaparecerá nunca, não mudará jamais. Ele é perfeito, por isso permanecerá sempre.  São Paulo quer aqui dizer, de forma clara e contundente, que só há um carisma absoluto: o amor. São Paulo nos ensina que a caridade é sempre algo mais do que mera atividade: “Ainda que distribua todos os meus bens em esmolas e entregue o meu corpo a fim de ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita” (v. 3). Este hino deve ser como uma norma a ser observada por cada um de nós. A ação prática resulta insuficiente se não for palpável nela o amor pelo homem, um amor que se nutre do encontro com Cristo.

Após explicar com a imagem do corpo, que os diversos dons do Espírito Santo concorrem para o bem da única Igreja, São Paulo mostra que o “caminho” da perfeição consiste na caridade, ou seja, no amor autêntico, o que Deus nos revelou em Jesus Cristo. A caridade é o dom maior, que dá valor a todos os outros:  Não se ufana, não se ensoberbece, mas rejubila-se com a verdade e com o bem do próximo. Quem ama verdadeiramente não procura o próprio interesse, não se irrita, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1Cor 13, 4-7). No final, quando nos encontrarmos face a face com Deus, os outros dons faltarão; o único que permanecerá eternamente será a caridade, porque Deus é amor e nós seremos semelhantes a Ele, em comunhão perfeita com Ele.

Com isto, observemos a posição que tem a caridade no conjunto de toda a vida cristã. São Paulo nos fala que o amor de Deus está em nós pelo dom do Espírito Santo: “E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm  5,5). Este amor é comunicado a nós como uma participação do amor com que Deus mesmo nos ama. A origem deste amor é, portanto, em Deus mesmo. É o amor que vem de Deus e volta para Deus, pois com este amor nós podemos amar a Deus com o amor com que Ele mesmo nos ama. E com este amor de Deus para com todos que nós podemos amar também a todos, a exemplo do amor de Cristo para com os pecadores. Por isso, São Paulo exortou aos cristãos de Éfeso: “Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor” (Ef 5,2).

Muitos santos praticaram de forma exemplar este amor.  Mas a vida de cada um dos santos é um hino à caridade, um cântico vivo ao amor de Deus. E na história da Igreja encontramos inúmeros testemunhos de amor, vivido pelos santos na prática da caridade. Podemos citar todo o movimento monástico, que desde os seus inícios com Santo Antão, exprime um imenso serviço de caridade para com o próximo e os peregrinos. No encontro com aquele Deus que é amor, o monge sente a exigência de transformar toda a sua vida em serviço ao próximo, além de seguir verdadeiramente a Deus, que faz dilatar o seu coração para o amor e a caridade. Assim se explicam as grandes estruturas de acolhimento, tratamento que surgiram ao lado dos mosteiros.

De igual modo se explicam as extraordinárias iniciativas de promoção humana e de formação cristã, destinadas primariamente aos mais pobres, de que se ocuparam primeiro as ordens monásticas e mendicantes e, depois, os vários institutos religiosos masculinos e femininos ao longo dos séculos. Figuras como São Francisco de Assis, São Camilo, São Vicente de Paulo, São João Bosco, São Luís Orione, Santa Teresa de Calcutá e tantos outros, foram grandes modelos de caridade. Souberam eles viver a fé, a esperança e a caridade no cotidiano da vida terrena.

E dentre esses inúmeros santos, vamos encontrar também Maria, a Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. O Evangelista São Lucas nos diz que ela se empenhou em um significativo serviço de caridade à sua prima Isabel, junto da qual permanece “cerca de três meses” (Lc 1,56) para assisti-la na última fase da gravidez. Também em Caná da Galiléia Maria se coloca mais uma vez para servir às necessidades dos novos esposos e intercede por eles ao seu filho Jesus (cf. Jo 2,1-11).   A ela, como mãe, também suplicamos por nós, para que possa sequenciar o serviço do amor e da caridade.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ