III DOMINGO DO TEMPO COMUM – C

Jesus na Sinagoga

Lc 1,1-14;4,14-21

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo coloca no centro da nossa reflexão o início da pregação de Jesus. O Evangelista São Lucas, que nos acompanha durante este ano litúrgico, apresenta um significativo texto em que narra o começo do ministério de Jesus na sinagoga de Nazaré e tem seus paralelos sinóticos em Mc 6,1-6 e Mt 13,53-58.   É o começo da intervenção salvífica de Deus em Jesus Cristo. 

O texto evangélico nos situa em Nazaré, a cidade onde Jesus foi criado e, em um dia de sábado, Jesus entra na sinagoga da cidade.  O culto sinagogal, como era o costume, consistia na leitura da palavra de Deus feita por turno, por alguns membros da comunidade.  Lia-se inicialmente um trecho do livro da Lei, ou seja, os primeiros cinco livros da Bíblia, e, em seguida, uma passagem dos livros dos Profetas, que pudesse elucidar o texto lido.  Jesus se apresenta para ler o trecho profético e fazer o comentário.  Ele escolhe um texto do profeta Isaías Is 61,1-2, que assim diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim (…) enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração e para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os prisioneiros e para publicar o ano da graça do Senhor” (v. 17-19).  É um texto em que descreve como é que o Messias concretizará a sua missão.

É significativo cada momento da narrativa sobre o fato ocorrido naquela manhã na sinagoga de Nazaré.  Inicialmente Jesus abre o volume que lhe é entregue.  Em seguida, após a leitura, enrola o volume, o entrega ao assistente e toma o seu assento.  Naquele tempo, quem se sentava para instruir os outros era considerado mestre.  O evangelista São Lucas quer frisar que Jesus se tornou o nosso mestre.  Todos os livros do Antigo Testamento têm a finalidade de nos conduzir até Ele.  Nas celebrações dominicais sempre temos uma leitura tirada de algum livro do Antigo Testamento, porque estes textos são indispensáveis, visando nos preparar para escutar o Cristo.

Podemos dizer que neste trecho do Evangelho temos um programa que Jesus irá realizar ao longo da sua vida terrena.  A sua missão consiste em fazer realizar a boa nova e elucidar que algo novo chegou ao coração e à vida de todos os prisioneiros do sofrimento, da opressão, da injustiça, do desânimo, do medo. O que é mais significativo, no entanto, é a “atualização” que Jesus faz desta profecia: Ele se apresenta como o profeta que Deus ungiu com o seu Espírito, a fim de concretizar essa missão.

E neste texto Jesus manifesta de forma bem nítida a consciência de que foi investido do Espírito de Deus e enviado para transformar tudo o que rouba a vida e a dignidade do homem.  É ele que vem anunciar a plenitude da bênção de Deus para a humanidade.  Ele vem, como diz o texto, para anunciar o Evangelho aos pobres. No sermão das bem-aventuranças, lemos: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).   Neste sermão Jesus se refere aos indigentes, aos carentes, aos fracos, aos humilhados. São os que trabalham dignamente e possuem apenas o trivial, os que vivem em condição de miséria absoluta. São ainda os desprovidos de socorro humano e material e que recorrem exclusivamente ao socorro de Deus e, por isso, são felizes. São felizes por não acumularem tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem. São felizes porque foram cativados a servir a Deus e amar ao próximo. São felizes por terem encontrado a alegria do ser.

Jesus é aquele que também vem dar a vista aos cegos, não só os curando miraculosamente como sinal do seu poder, mas iluminando cada pessoa, para que ela possa conhecer a luz da fé e os preceitos da Lei de Deus.  Ele vem livrar os cativos de toda a escravidão, quer material, quer espiritual, que desfigura a humanidade.  Ele vem implantar no mundo a alegria da liberdade dos filhos de Deus.

Nas páginas do Evangelho encontramos uma orientação muito clara aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não têm como retribuir. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho (cf. FRANCISCO, Carta Encíclica “Evangelii Gaudium”, 48).

Jesus, após ler o trecho do livro do profeta Isaías, diz: “Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir” (v. 21).  Ele anuncia repentinamente que essa palavra se cumpre hoje, nele.  Na verdade, o próprio Jesus é o “hoje” da salvação na história, porque leva a cumprimento a plenitude da redenção. O termo “hoje” já nos é apresentado com as palavras que o anjo dirigiu aos pastores: “Hoje nasceu para vós, na Cidade de Davi, um Salvador, o Cristo Senhor” (Lc 2, 11).

Aquele “hoje” pronunciado por Jesus naquele sábado em Nazaré vale para todo o sempre, porque Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8).  Este trecho interpela também a nós. Esta passagem do Evangelho também nos convida a interrogar-nos sobre a nossa capacidade de escuta. Antes de poder falar de Deus e com Deus, é preciso ouvi-lo, e a liturgia da Igreja é a escola desta escuta do Senhor que nos fala. Enfim, nos diz que cada momento pode tornar-se um “hoje” propício para a nossa conversão.

Também nós hoje somos chamados a anunciar aos necessitados uma palavra de estímulo e de esperança. Cada dia pode tornar-se o “hoje” salvífico, porque a salvação é história que continua para a Igreja e para cada discípulo de Cristo.

O “Hoje” é a novidade de Jesus e indica que o tempo está em desenvolvimento e que a história da humanidade está atravessando um momento excepcional de graça. O “hoje” prolonga-se no tempo da Igreja, o nosso tempo é o “hoje” de Deus.

A escuta da Palavra de Deus deve nos conduzir, como conduziu o povo da primeira leitura, a um exame de consciência, ao arrependimento e à conversão. A Palavra proclamada também é geradora de festa, de alegria e de felicidade: “Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza” (Ne 8,9), como consta na primeira leitura. O fato de Deus ainda hoje nos dirigir a sua palavra salvadora é fonte de alegria e de festa. Além disto, a Palavra de Deus é sempre palavra de salvação, que tem o seu pleno cumprimento em Jesus de Nazaré.  E nele começa o eterno “hoje” da salvação que deve ser continuado pela ação da Igreja.

Cada momento pode tornar-se um “hoje” propício para a nossa conversão. Saibamos aproveitar o “hoje” que Deus nos concede em prol da nossa salvação. E que a participação em cada Celebração Eucarística, onde nos alimentamos não só do corpo e do sangue do Senhor, mas também da Palavra, lida e explicada, possa nos fazer compreender melhor a Palavra de Deus, Palavra de salvação para o nosso “hoje” concreto de cada dia.

À Virgem Maria, a quem sempre devemos ter como modelo e guia, peçamos que interceda incessantemente por cada um de nós, para que saibamos reconhecer e acolher, em cada dia da nossa vida, a Palavra e a presença de Deus, ele que é o Salvador nosso e de toda a humanidade.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

II Domingo do Tempo Comum – C

BODAS DE CANÁ

Jo 2,1-11

Caros irmãos e irmãs!

A liturgia da Palavra propõe para este domingo o Evangelho das Bodas de Caná, um episódio narrado pelo Evangelista São João, que testemunhou o acontecimento e descreveu com detalhes o desenrolar dos fatos. Na descrição feita, tudo aparece repleto de profundo significado. É que o milagre operado em Caná da Galiléia, à semelhança de outros milagres de Jesus, constitui um sinal, ou seja, mostra a ação de Deus na vida do homem. É necessário meditar tal ação, para descobrir o significado mais profundo do que lá aconteceu.

Os fatos se desenvolvem em uma festa de casamento.  Conforme o costume judaico a festa de casamento durava uma semana, quando era consumido muito vinho. A uma certa altura da festa, o vinho acaba. Um momento constrangedor para os noivos. É Maria, talvez por estar mais próxima do pessoal de serviço, que vai dizer a Jesus: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3).  Uma informação e, ao mesmo tempo, uma súplica.  A resposta de Jesus parece estranha: “Que temos com isso, mulher?  Minha hora ainda não chegou” (v. 4).  Jesus usou uma expressão idiomática, que significa apenas que o problema não devia ser resolvido por eles. Jesus se refere à Maria com o termo “mulher”, para indicar sua identidade de “nova Eva”.  A mesma expressão vai aparecer quando Maria está ao pé da cruz, no momento em que ela é entregue por mãe a João: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26).  Essa “hora” a que Jesus se refere e que aparece muitas vezes, nos seus lábios, é a hora da sua glorificação pela morte e ressurreição (cf. Jo 12,23; 17,1-2).  Essa “hora” de Jesus ainda não chegou.  Somente no momento de sua paixão e morte, ele será glorificado e revelará a plenitude de seu dom messiânico. 

Maria, porém, confiante na ação do filho, prepara a ação de Jesus e diz aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).  É a solicitude maternal de Maria, que se mostra sensível à necessidade do próximo.  O texto alude à presença de seis talhas de pedra, que serviam para a purificação dos judeus.  Cada talha comportava cerca de 100 litros.  Jesus ordena que os servos as encham de água (v. 7). A observação de que eles as encheram até à borda é importante para mostrar a riqueza do dom de Jesus.  E o texto acentua a reação do mestre sala ao provar a água transformada em vinho: “Todos servem primeiro o bom vinho e, quanto os convidados já estão embriagados, servem o pior.  Tu guardaste o bom vinho até agora!” (v. 10).

A grande quantidade de vinho, cerca de 600 litros, e sua incomparável qualidade, simbolizam a abundância da graça de Deus que surgiu no meio da festa.  É o Cristo que transforma a água da nossa vida em vinho de festa e júbilo.  É também a presença de Jesus na festa que faz transformar o ambiente em espaço de alegria.  Na Sagrada Escritura o vinho é símbolo da felicidade e do amor (cf. Ct 4,10).  O Livro do Eclesiástico interroga: “O que é a vida do homem se lhe falta o vinho?” (Eclo 31,33). 

É importante também lembrar que as seis talhas de pedra ressaltadas no texto estão vazias. Ainda não chegou até elas a água para as purificações.  É, portanto, impossível cumprir até mesmo aqueles ritos, inúteis, pois não comunicam paz, nem serenidade, nem alegria, mas apenas a sensação de que os judeus foram libertados do pecado.  As bodas de Caná sem vinho representam esta situação do povo desiludido, insatisfeito. 

Notemos que a água, nossa bebida mais comum, ganha pela ação de Cristo um novo caráter: torna-se vinho, portanto uma bebida, de certa forma, mais valiosa. O sentido deste símbolo, da água e do vinho, encontra a sua expressão na Santa Missa. Durante o Ofertório, unindo um pouco de água ao vinho, pedimos a Deus através de Cristo participar da sua vida no Sacrifício Eucarístico.

O banquete de núpcias em Caná nos leva a pensar também no matrimônio, em cujo mistério está incluída a presença de Cristo. A presença de Jesus nas bodas de Caná é um prelúdio da elevação do casamento, instituição humana, à dignidade de sacramento.  Cristo presente no casamento e Cristo presente na família.  E não deixa de ser este o objetivo de Jesus: trazer à relação entre Deus e os homens o vinho da alegria, do amor e da festa.

Esta descrição evangélica nos permite contemplar o matrimônio dentro da perspectiva sacramental. Conforme lemos no Livro do Gênesis, o homem deixa seu pai e sua mãe, e se une à sua mulher, para, em certo sentido, constituir com ela um só corpo (cf. Gn 2,24). Cristo repetirá estas palavras do Antigo Testamento falando aos fariseus, que lhe faziam perguntas relacionadas com a indissolubilidade do matrimônio. Referiam-se, de fato, às prescrições da Lei de Moisés, que permitiam, em certos casos, a separação dos cônjuges, ou seja o divórcio. Cristo respondeu-lhes: “É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres, mas no começo não foi assim” (Mt 19, 8). E citou as palavras do Livro do Gênesis: “Não lestes que o Criador no começo, fez homem e mulher (…) Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 4-6).

Assim pois, na base de toda a ordem social acha-se este princípio de unidade e de indissolubilidade do matrimônio. O princípio sobre o qual se apoia a instituição da família e toda a vida familiar. Tal princípio recebe confirmação e nova força na elevação do matrimônio à dignidade de sacramento.

Este o vínculo matrimonial, que nasce do amor recíproco, se exprime mediante o juramento conjugal, que começa e se realiza diante da infinita majestade de Deus, por aquele mesmo amor com que o Pai nos amou no seu Filho, Jesus Cristo, Redentor do mundo!

Os esposos participam da função redentora de Cristo, ao assumirem integralmente, por vocação divina, a finalidade para a qual o matrimônio foi instituído. Cada união nasce pelo pacto entre um casal, mas com um conteúdo divinamente estabelecido, a unidade e a indissolubilidade, ordenado à procriação e à educação da prole.  O matrimônio, a maternidade, a paternidade, a família, tudo isto pertence à ordem da natureza, desde quando Deus criou o homem e a mulher; e tudo isto, pela ação de Cristo, vem a ser elevado à ordem sobrenatural. O sacramento do matrimônio torna-se o modo de participar da vida de Deus.

A presença do Filho de Deus nas bodas de Caná da Galiléia serve de especial confirmação desta grande verdade. Jesus ali chega com sua Mãe e os apóstolos. Antes mesmo de confirmar, com suas palavras, a indissolubilidade do matrimônio, como instituição divina “desde o início”, Jesus confirma com sua presença em Caná, a importância deste Sacramento, inclusive, com o primeiro milagre, que realiza pelo bem dos donos da festa.

Assim como a Virgem Maria intercedeu pelo casal nas Bodas de Caná, peçamos hoje que ela também interceda por todos os esposos, por todos os pais e por todas as famílias, para que, com a sua presença materna, possa também transformar em vinho todas as preocupações e dissabores, dando uma nobreza nova a esta sublime missão de pais e tutores. Que o poder santificador do Espírito Santo, que desceu sobre a Virgem de Nazaré e a fez Mãe do Filho de Deus, desça também sobre as famílias, para que nunca falte o vinho da alegria, o vinho do amor, o vinho do perdão e da unidade.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

FESTA DO BATISMO DO SENHOR

Lc 3,15-16.21-22

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo, depois da solenidade da Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor, que conclui o tempo litúrgico do Natal.  É uma oportunidade propícia para que todos os cristãos redescubram a alegria e a beleza do seu Batismo que, vivido com fé, é uma realidade sempre atual: renova em nós a imagem do homem novo, na santidade dos pensamentos e das ações.

A liturgia da Palavra nos apresenta para esta celebração um texto evangélico que nos faz voltar o olhar para Jesus com a idade de trinta anos, fazendo-se batizar por João no rio Jordão. João Batista tinha o costume de administrar um batismo de penitência e utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida.  Ele era chamado de João, o “Batista”, ou seja, o que batizava, e pregava este batismo a Israel, para preparar a eminente vinda do Messias. Dizia a todos que depois dele viria outro, maior que ele, que não batizaria com água, mas com o Espírito Santo (cf. Mc 1,7-8).

Jesus se une àquela multidão e se direciona ao encontro de João, para ser batizado por ele, embora não necessitasse deste símbolo de purificação.  Jesus quis ser batizado porque ainda não se manifestara como o Messias.  Não convinha, pois, que fosse diferente dos outros.  Jesus faz-se batizar não por necessidade, mas para dar um grande exemplo de humildade.

No momento do batismo de Jesus, o Espírito Santo desce sobre ele em forma de pomba, de maneira visível.  E uma grande luz brilha no céu, como se o céu se abrisse. A pomba era o símbolo da paz, do amor puro, da inocência e da simplicidade (cf. Ct 2,14).  O Espírito Santo ilumina os corações, transmite a luz divina, restaura a paz.  Nos relata o evangelista São Lucas: “O céu se abriu e o Espírito Santo desceu” (Lc 3,21-22). E todos puderam ouvir as palavras: “Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti eu ponho toda a minha complacência ” (v. 22).  O Pai, o Filho e o Espírito Santo descem e temos a própria voz do Pai a indicar a presença de Jesus Cristo, seu Filho unigênito, no mundo.

A cena do batismo de Jesus, de algum modo acontece no batismo de cada catecúmeno.  Não se vê o céu se abrir, mas a nossa fé nos garante que o Pai do céu está dizendo: “Este é o meu filho querido”.  Como de fato, no dia do nosso batismo a voz do Pai nos chamou para sermos seus filhos em Cristo e sermos membros da Igreja, local onde iremos encontrar os meios necessários para o desenvolvimento do dom sublime da fé. E a Igreja, desde Pentecostes, vem celebrando o Sacramento do Batismo. Em sua pregação, São Pedro já dizia: “Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo…  Recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,38).  Jesus, no dia do seu batismo recebeu o Espírito, como nós o recebemos. Muito embora, o Espírito Santo já habitasse nele, em plenitude, desde o instante da sua concepção divina.

É o Espírito Santo que nos impulsiona a viver a vida nova conferida pelo Batismo.  A água derramada sobre a cabeça de cada batizado não significa apenas ablução, purificação, significa vida, e vida nova, mas é também um “renascer”, um nascer de novo: “Quem não renascer pela água e pelo Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É importante lembrarmos as palavras pronunciadas por João Batista no Evangelho: “Eu vos batizo com água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu… Ele há de vos batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E podemos perguntar o significado deste fogo a que João Batista se refere. Antes, devemos lembrar que o Batismo administrado por João era um ato de penitência, com a finalidade de pedir perdão pelos pecados e a possibilidade de começar uma nova existência. No Batismo instituído por Cristo é o próprio Deus que age, é Jesus que age através do Espírito Santo. Neste Batismo está presente o fogo do Espírito Santo. É Deus que age em nós, para sermos seus filhos.

Pelo batismo, com o derramamento da água sobre as nossas cabeças fomos assinalados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, fomos mergulhados nesta “fonte” de vida que é o próprio Deus e que nos constituiu seus verdadeiros filhos.  A água é o elemento da fecundidade. Sem água não há vida. E assim, em todas as grandes religiões a água é vista como símbolo da purificação, da fecundidade, símbolo da vida.

Na cena evangélica está presente uma eloquente manifestação da Santíssima Trindade: O Pai do Céu que fala das nuvens entreabertas; o Espírito Santo em forma de pomba; e o Filho unigênito, saindo das águas do rio Jordão.  Esta é uma viva referência ao batismo cristão, que é ministrado, segundo a ordem de Jesus, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que o Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão (cf. CIgC 1213).  Quando recebemos o Batismo, todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas do pecado.  Com efeito, naqueles que foram regenerados, não resta nada que os impeça de entrar no Reino de Deus.  Porém, certas consequências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas do caráter (cf. CIgC, n. 1264).

O Batismo também aparece sempre ligado à fé (cf. At 16,31-33). Segundo o apóstolo São Paulo, pelo Batismo o crente comunga na morte de Cristo; é sepultado e ressuscita com Ele (cf. Rm 6,3-4). E, em nossos dias, a fé é um dom que se deve redescobrir, cultivar e testemunhar.

Somos incorporados a Cristo pelo Batismo e com este sacramento o cristão recebe um sinal espiritual indelével da sua pertença a Cristo. É um sacramento que imprime caráter, ou seja, uma marca que nunca apaga, nem mesmo mediante o pecado, embora esta fragilidade possa impedir o Batismo de produzir os frutos de salvação.  Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo Batismo.

Com esta festa em que recordamos o Batismo do Senhor, peçamos a Ele que nos conceda a graça de viver a beleza e a alegria de sermos bons cristãos e que aprendamos a conhecê-lo e a amá-lo com todas as forças e a servi-lo fielmente e sendo portadores de uma vida cristã coerente.

Peçamos também a Virgem de Nazaré, a filha predileta do Senhor, para que nós, já revestidos com a veste branca do batismo, sinal da nova dignidade de filhos de Deus, durante toda a nossa vida, sejamos discípulos fiéis de Cristo e corajosas testemunhas do Evangelho. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento / RJ

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR

Mt 2,1-12

Caros irmãos e irmãs!

Neste domingo celebramos a solenidade da Epifania do Senhor. Mais uma vez somos iluminados pela rica e abundante Palavra de Deus, seta a indicar um caminho de perfeição e de santidade. Na solenidade da Epifania celebramos a manifestação de um Deus que se revelou na história como luz do mundo, para guiar a humanidade em direção à terra prometida.

A primeira leitura deste domingo, tirada do Livro do profeta Isaías (cf. Is 60,1-6), e o trecho do Evangelho de São Mateus (Mt 2,1-12), põem lado a lado a promessa e o seu cumprimento. Aparece diante de nós a visão do profeta que, depois das humilhações padecidas pelo povo de Israel, vê o momento em que a grande luz de Deus surgirá sobre toda a terra, de maneira que os reis das nações se inclinarão diante dele e depositarão aos seus pés os seus tesouros mais preciosos.

O texto do Evangelho nos coloca diante da cena dos magos que vêm do Oriente para adorar o Senhor.  Os magos eram astrônomos que viram na imagem da estrela uma mensagem de esperança.  São também identificados como homens sábios, que se colocam a caminho para encontrar o verdadeiro Deus. 

São eles conduzidos por uma estrela até a Judéia.  Como estavam à procura do recém-nascido, rei dos judeus, parece normal que fossem à cidade régia de Israel e entrassem no palácio do rei.  Certamente eles presumiram que deveria ter nascido lá o futuro rei. Mas, para encontrar definitivamente a estrada que os levaria ao verdadeiro herdeiro do rei Davi, precisam, antes, da indicação das Sagradas Escrituras, ou seja, da Palavra de Deus.

Os magos questionam sobre o local onde deveria nascer o menino.  Mas observemos a reação à pergunta dos magos: “O rei Herodes ficou alarmado e com ele toda Jerusalém” (Mt 2,3).  Esta perturbação de Herodes perante a notícia do nascimento de um misterioso pretendente ao trono era certamente bem compreensível.  Herodes é um homem do poder, que consegue ver no outro apenas o rival. E, no fundo, considera Deus também como um rival, antes, como o rival mais perigoso. O rei Herodes mostra interesse pelo Menino, não para o adorar, mas para o eliminar.

É interessante notar que em Jerusalém a estrela tinha desaparecido por completo.  Depois do encontro dos magos com a Palavra da Escritura, a estrela resplandece de novo para eles.  O texto bíblico nos diz, referindo-se à reação dos magos: “Revendo a estrela, alegraram-se” (Mt 2,10).   É a alegria do homem, que foi atingido no coração pela luz de Deus e pode ver realizada a sua esperança.

No mundo antigo, os corpos celestes eram considerados como forças divinas que decidiam o destino dos homens e dominavam o mundo.  Os planetas têm nomes de divindades.  Nesta linha de pensamento, se situa a narrativa da estrela que aparece no evangelho a guiar os magos.  Não é a estrela que determina o destino do Menino, mas o Menino que guia a estrela (cf. BENTO XVI, A infância de Jesus, São Paulo, 2012, p. 79ss).

O texto do Evangelho ainda diz: “Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se, adoraram-no” (Mt 2,11).  Na presença do Menino Jesus, os magos fazem uma prostração; ou seja, é a homenagem que se presta a um Rei e Deus.  A partir disso, pode-se explicar o significado das oferendas que realizam.  Não são presentes práticos, que pudessem talvez revelar-se úteis naquele momento para a Sagrada Família; mas são dons que exprimem o reconhecimento da dignidade real daquele a quem são oferecidos.  Ouro e incenso aparecem mencionados no livro do profeta Isaías (cf. Is 60,6), como presentes de homenagem, que devem ser oferecidos pelos povos ao Deus de Israel.

Nos três presentes, a tradição da Igreja viu representados três aspectos do mistério de Cristo: O ouro indica a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade, e a mirra, o mistério da sua Paixão.  Como de fato, o Evangelista São João nos narra que, para ungir o corpo de Jesus, Nicodemos fez uso da mirra (cf. Jo 19,39).  A mirra afasta os vermes dos cadáveres e preserva os corpos da corrupção.  Assim, através da mirra, o mistério da Cruz está de novo ligado à realeza de Jesus e preanuncia-se de maneira misteriosa a sua morte já na adoração dos magos.

Mas, com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, esta oferenda de presentes ao Menino Jesus recém-nascido, indica o reconhecimento da sua divindade. Ou seja, a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem também a sua autoridade. A consequência a que isto dá origem é imediata. Os magos regressam apressados às suas terras, mas já não podem continuar pelo mesmo caminho, já não podem regressar para junto de Herodes, já não podem ser aliados com aquele soberano poderoso e cruel. Foram conduzidos por um outro caminho; em  uma outra direção.

O texto nos diz: “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2,12). Teria sido natural voltar a Jerusalém, ao palácio de Herodes e ao Templo, para proclamar a descoberta. No entanto, os Magos que escolheram o Menino como soberano o protegeram da fúria de Herodes e foram transformados após o encontro com a Verdade, descobriram um novo rosto de Deus, uma nova realeza, um novo caminho: o caminho da fé.

Santo Agostinho, fazendo uma referência a este texto, completa: “Também nós, reconhecendo Cristo, nosso rei… O honramos como se tivéssemos oferecido ouro, incenso e mirra; só nos falta dar testemunho dele, percorrendo um caminho diferente daquele pelo qual viemos” (S. AGOSTINHO, Sermo 202, In Epiphania Domini 3,4).

Muitos viram a estrela, mas só poucos compreenderam a sua mensagem. Os estudiosos da Escritura do tempo de Jesus conheciam perfeitamente a palavra de Deus. Eram capazes de dizer sem qualquer dificuldade o que se podia encontrar nela a respeito do lugar onde o Messias teria nascido, mas, como Santo Agostinho diz: “…enquanto davam indicações aos romeiros a caminho, eles permaneciam inertes e imóveis” (S. AGOSTINHO, Sermo 199, In Epiphania Domini 1,2).

Estes estudiosos da Palavra de Deus não se deslocaram, não caminharam em direção a Jesus.  Eles não conseguiram ver a estrela, não alcançaram a luz do mundo; enquanto os magos deixam-se guiar pela luz do menino e reconhecem nele o Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.  Com isso, podemos afirmar que Cristo vem como luz a iluminar os povos, mas muitos ainda vivem nas trevas e não conseguem ver a luz que é o próprio Cristo.  Tenhamos consciência de que o Menino é a luz a nos iluminar.  E é esta luz que devemos seguir e por esta luz devemos nos deixar iluminar.

Peçamos ao Senhor que nos faça seguir o mesmo itinerário percorrido pelos magos e nos coloque a caminho.  Que a luz da estrela de Belém nos conduza ao Encontro do Menino Deus e após este encontro, possamos também nós seguir por um outro caminho: o caminho da conversão, o caminho da santidade, o caminho de uma vida nova.  E com os magos, ajoelhemo-nos diante daquele que nasceu para nós e está nos braços da sempre Virgem Maria Mãe de Deus.  Possamos também oferecer-lhe os nossos dons: não mais ouro, incenso e mirra, mas a nossa decisão de segui-lo até o fim, fazendo sempre a sua vontade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ