FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ

Lc 2,41-52

Caros irmãos e irmãs!

Neste último domingo do ano, a Liturgia da Igreja se volta para a Família de Nazaré.  Mais uma vez voltamos o nosso olhar para a gruta de Belém os pastores que ao receberem o anúncio do anjo, acorreram apressadamente à gruta encontrando “Maria, José e o Menino deitado na manjedoura” (Lc 2, 16).  Possamos também nós a contemplar este cenário, e reflitamos sobre o seu significado. As primeiras testemunhas do nascimento de Cristo, os pastores, encontraram-se diante não só do Menino Jesus, mas de uma pequena família:  mãe, pai e filho recém-nascido. Deus quis revelar-se nascendo numa família humana, e por isso a família humana tornou-se ícone de Deus! Deus é Trindade, é comunhão de amor, e a família é, com toda a diferença que existe entre o Mistério de Deus e a sua criatura humana, uma expressão que reflete o Mistério insondável do Deus amor. O homem e a mulher, criados à imagem de Deus, tornam-se no matrimônio “uma única carne” (Gn 2, 24), isto é, uma comunhão de amor que gera vida nova. A família humana, num certo sentido, é ícone da Trindade pelo amor interpessoal e pela fecundidade do amor.

A primeira leitura apresenta algumas atitudes que os filhos devem ter para com os pais. É uma forma de concretizar esse amor de que fala a segunda leitura.  O livro do Eclesiástico, de onde foi extraída a primeira leitura deste domingo, é um livro sapiencial que pretende apresentar uma reflexão de caráter prático sobre a arte de bem viver e de ser feliz.  O texto apresenta uma série de indicações práticas que os filhos devem ter em conta nas relações com os pais.  Uma palavra sobressai: o verbo “honrar”. Ele leva-nos ao decálogo do Sinai (cf. Ex 20,12), onde aparece no sentido de “dar glória”. E “dar glória” a uma pessoa é dar-lhe toda a sua importância; “dar glória aos pais” é, assim, reconhecer a sua importância como instrumentos de Deus, fonte de vida.

Ora, reconhecer que os pais são a fonte através da qual Deus nos dá a vida, deve conduzir à gratidão; e essa gratidão tem consequências a nível prático. Implica ampará-los na sua velhice e não os desprezar nem abandonar; implica assisti-los materialmente – sem inventar qualquer desculpa – quando já não podem trabalhar (cf. Mc 7,10-11); implica não fazer nada que os desgoste; escutá-los, ter em conta as suas orientações e conselhos; ser indulgente para com as limitações que a idade traz. É natural que, por trás destas indicações aos filhos esteja também a preocupação em manter vivos os valores tradicionais, valores que os mais antigos preservam e passam aos jovens. Como recompensa desta atitude de “honrar” os pais, o texto promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus.

Apesar da preocupação moderna com os direitos humanos e o respeito pela dignidade das pessoas, a nossa civilização cria, com frequência, situações de abandono e de marginalização, cujas vítimas são, muitas vezes, aqueles que já não têm uma vida considerada produtiva, ou aqueles a quem a idade ou a doença trouxeram limitações.  Pensemos na nossa posição frente aos mais idosos, aos nossos pais que tanto fizeram pela formação dos filhos, dando-lhes as melhores condições para uma vida eficaz.

O texto do Evangelho nos propõe o célebre episódio evangélico de Jesus, que aos 12 anos que permanece no Templo, em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem, os quais, admirados e preocupados, ali o encontram depois de três dias ao discutir com os doutores. Quando a mãe lhe pede explicações, Jesus responde que deve “estar na propriedade”, na casa do seu Pai, isto é, de Deus (cf. Lc 2, 49). Neste episódio o jovem Jesus demonstra-se cheio de zelo por Deus e pelo Templo. Perguntemos: de quem tinha aprendido Jesus o amor pelas “coisas” de seu Pai? Certamente como filho teve um conhecimento íntimo do seu Pai, de Deus, uma profunda relação pessoal e permanente com Ele, mas, na sua cultura concreta, aprendeu, com certeza, dos seus pais as orações, o amor pelo Templo e pelas Instituições de Israel. Portanto, podemos afirmar que a decisão de Jesus de permanecer no Templo era, sobretudo, fruto da sua relação íntima com o Pai, mas também fruto da educação recebida de Maria e de José.

Podemos entrever nisto o sentido autêntico da educação cristã, fruto de uma colaboração sempre procurada entre os educadores e Deus. A família cristã está consciente de que os filhos são dom e projeto de Deus. Portanto, não os podemos considerar como posse pessoal, mas, servindo neles o desígnio de Deus.  De fato, a família é a melhor escola na qual se aprende a viver aqueles valores que dignificam a pessoa e tornam grandes os povos. Nela também se partilham os sofrimentos e as alegrias, onde todos sentem-se protegidos pelo carinho que reina em casa pelo simples fato de serem membros da mesma família.

No Evangelho não encontramos discursos sobre a família, mas uma admoestação que vale mais do que toda a palavra: Deus quis nascer e crescer numa família humana. Deste modo consagrou-a como caminho primário e efetivo do seu encontro com a humanidade. Na vida transcorrida em Nazaré, Jesus honrou a Virgem Maria e o justo José, permanecendo submetido à sua autoridade por todo o tempo da sua infância e adolescência (cf. Lc 2, 51-52). Deste modo, lançou luz sobre o valor primordial da família na educação da pessoa.

Este episódio evangélico revela a mais autêntica e profunda vocação da família: isto é, a de acompanhar cada um dos seus componentes pelo caminho da descoberta de Deus e do desígnio que Ele lhe predispôs. Maria e José educaram Jesus, em primeiro lugar, com o seu exemplo. Nos seus pais, Ele conheceu toda a beleza da fé, do amor a Deus e à sua Lei, assim como as exigências da justiça, que encontra o seu pleno cumprimento no amor (cf. Rm 13, 10). Deles aprendeu que antes de tudo é necessário realizar a vontade de Deus, e que o laço espiritual vale mais que o vínculo do sangue. A Sagrada Família de Nazaré é verdadeiramente o “protótipo” de cada família cristã que, unida no Sacramento do matrimônio e alimentada pela Palavra e pela Eucaristia, é chamada a realizar a maravilhosa vocação e missão de ser célula viva não apenas da sociedade, mas da Igreja, sinal e instrumento de unidade para todo o gênero humano.

O homem e a mulher, criados à imagem de Deus, tornam-se no matrimônio “uma única carne” (Gn 2, 24), isto é, uma comunhão de amor que gera vida nova. A família humana, num certo sentido, é ícone da Trindade pelo amor interpessoal e pela fecundidade do amor.

O ambiente familiar é a melhor escola na qual se aprende a viver aqueles valores que dignificam a pessoa e tornam grandes os povos. Na família se partilham os sofrimentos e as alegrias, sentindo-se todos protegidos pelo carinho que deve reinar em cada lar.  A família é a base da sociedade e o lugar onde as pessoas aprendem, pela primeira vez, os valores que os guiarão durante toda a vida.

Peçamos hoje ao Senhor pelas famílias, para que se respire sempre este amor de entrega e fidelidade total que Jesus trouxe ao mundo com o seu nascimento, alimentando-o e fortalecendo-o com a oração quotidiana, a prática constante das virtudes, a compreensão recíproca e o respeito mútuo, que geram a paz e a unidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO – C

A visitação de Maria a Isabel

Lc 1,39-45

Meus caros irmãos e irmãs,

Nestes dias em que nos preparamos para o Natal, somos convidados a contemplar a ação de um Deus que ama de tal forma a humanidade que envia ao nosso encontro o seu Filho, a fim de nos conduzir à comunhão com Ele.

Neste quarto domingo do tempo do Advento, à distância de poucos dias do Natal do Senhor, o Evangelho narra a visita de Maria à sua prima Isabel. Este episódio apresenta com grande simplicidade o encontro de duas importantes mulheres, ambas grávidas, na expectativa do nascimento de seus respectivos filhos. Ambas ressaltam a gratidão ao Senhor pela obra nelas operada.  Isabel, já idosa, simboliza Israel que espera o Messias, enquanto que a jovem Maria traz em si o cumprimento desta expectativa, em benefício de toda a humanidade.

Na Anunciação o anjo Gabriel tinha falado a Maria da gravidez de Isabel (cf. Lc 1,36) como prova do poder de Deus. A esterilidade, não obstante ela fosse idosa, tinha-se transformado em fertilidade. E Isabel, acolhendo Maria, reconhece que nela está para se realizar a promessa de Deus à humanidade e exclama: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (v. 42). São palavras que aparecem no Antigo Testamento, mais precisamente no Cântico de Débora (cf. Jz 5,24) para celebrar Jael, a mulher que, apesar da sua fragilidade, foi o instrumento de Deus para libertar o Povo de Israel das mãos de Sísara, um cruel comandante do exército que tencionava decepar os Israelitas.

Algo incomum para uma mulher, olhando o contexto da época.  Com isto, observa-se que Deus pode usar de instrumentos frágeis para operar maravilhas.  Aplicando a Maria, pode-se também constatar que Deus uma vez mais usa instrumentos simples para realizar suas obras de salvação.  Através de Maria ele realizou um marcante acontecimento histórico: deu à humanidade o seu próprio Filho. Através do anjo Gabriel, Deus dirige-se a Maria e a escolhe para gerar o Salvador do mundo.

A manifestação de alegria de João Batista no seio de sua mãe Santa Isabel, é o sinal do cumprimento da expectativa: Deus está para visitar o seu povo. Isabel interpreta este movimento que ela experimenta como um sinal divino e como uma saudação de seu filho ao filho de Maria.  Em sua alegria, Isabel ainda ressalta a posição privilegiada de sua parenta dizendo: “…e bendito é o fruto do teu ventre” (v. 42).  Ao fruto do ventre de Maria, Isabel chama de Kyrios mou: “Meu Senhor” (v. 43).  No uso do título Kyrios Jesus é reconhecido como Deus, e como o seu Deus.  Maria também é apresentada como a mulher de fé (v. 45), porque acreditou na veracidade e na fidelidade da promessa de Deus.

No texto evangélico temos a exaltação de Isabel: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (v. 43).  Davi pronunciou uma frase semelhante a esta: “Como pode estar a Arca do Senhor em minha casa?” (2Sm 6,9). A Arca continha as tábuas da Lei, o maná e o cajado de Aarão (cf. Hb 9, 4), era o sinal da presença de Deus no meio do seu povo. João Batista, ainda para nascer, exulta de alegria diante de Maria, a nova Arca da nova Aliança, que traz no seio Jesus, o Filho de Deus feito homem.

Outro detalhe significativo nos põe em paralelo com a visita de Maria e a Arca da Aliança.  Maria, bem como a Arca, permanecem durante três meses em uma casa da Judéia.  A Arca é recebida com danças, com gritos de alegria, com hinos festivos e é portadora de bênçãos para a família que a recebe (cf. 2Sm 6,10-11) e Maria, ao entrar na casa de Zacarias, faz pular de alegria João Batista, o menino que está no seio de Isabel e representa o povo do Antigo Testamento, que está à espera do Messias.  Com isto, fica evidente que Maria é a nova Arca da Aliança, como entoamos na Ladainha de Nossa Senhora.

A cena da Visitação expressa também que Jesus é o Deus que vem ao encontro da humanidade e tem uma mensagem de salvação que concretiza as promessas feitas pelo Senhor aos antepassados; logo, a presença de Jesus provoca a alegria em todos aqueles que esperam a concretização das promessas de Deus que se realizam com sua chegada. Promessas de um mundo de justiça, amor, paz e felicidade para todos.  Por isto, dirá o anjo aos pastores: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).  Através de Jesus, Deus vai oferecer a paz e a salvação a todos e isso gera alegria, por parte de todos aqueles que anseiam pela concretização das suas promessas.

Finalmente, temos a resposta de Maria: “A minha alma engrandece o Senhor”. A resposta de Maria retoma um salmo de ação de graças (cf. Sl 34,4), destinado a dar graças ao Senhor porque protege os humildes e os salva, apesar da prepotência dos opressores. É um salmo de esperança e de confiança, que exalta a preocupação de Deus para com os pobres, vítimas da injustiça e da opressão. Sugere-se, claramente, que a presença de Jesus, através dessa mulher simples e frágil que é Maria, é um sinal do amor de Deus, preocupado em trazer a salvação a todos os que são vítimas da injustiça. Com Jesus, chegou esse novo tempo de paz e de felicidade anunciado pelos profetas.

Com a celebração do Santo Natal já próximo, devemos nos preparar para o encontro com Jesus, o Emanuel, Deus conosco. Nascido na pobreza de Belém, Ele deseja fazer-se companheiro de viagem de todos. O dom surpreendente do Natal é precisamente este: Jesus veio para cada um de nós e nele nos tornamos irmãos. Estejamos preparados espiritualmente para receber o Menino Jesus. Ele vem para nós. É seu desejo vir para habitar no nosso coração. Para que isso aconteça é indispensável que estejamos disponíveis e nos preparemos para recebê-lo, prontos a dar-lhe espaço dentro de nós, nas nossas famílias, na nossa cidade. Que seu nascimento nos encontre preparados para festejar o Natal.  Com a consciência de que é Ele o protagonista da fé.

Neste tempo de Natal saibamos imitar Maria, e com a mesma alegria e disposição que a levou a ir às pressas para estar com Isabel (cf. Lc 1,39), possamos nós também ir ao encontro do Senhor que vem.  À Maria, Arca da Nova e Eterna Aliança, confiemos o nosso coração, para que o torne digno de acolher a visita de Deus no mistério do seu Natal.

Que o Senhor encontre um abrigo no nosso coração e na nossa vida. Na verdade, não devemos apenas levá-lo no coração, devemos também levá-lo ao mundo, de forma que também nós possamos gerar Cristo para as pessoas do nosso tempo.   Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO – C

 Alegrai-vos sempre no Senhor!

Lc 3,10-18

Caros irmãos e irmãs,

Neste terceiro Domingo de Advento, conhecido como domingo “Gaudete”, a Liturgia da Palavra nos convida à alegria. O Advento é um tempo de compromisso e de conversão, para preparar a vinda do Senhor, mas a Igreja nos faz antecipar o júbilo do Natal já próximo. Como de fato, o Advento é também tempo de alegria, porque desperta nos corações dos fiéis a expectativa da vinda do Salvador. Este aspecto jubiloso está presente nas leituras bíblicas deste Domingo, bem como o tema da conversão em vista da manifestação do Salvador, anunciado por João Batista.

O convite do Apóstolo São Paulo aos fiéis de Tessalônica: “Irmãos, andai sempre alegres” (1Ts 5,16), exprime bem o clima litúrgico deste domingo “Gaudete”, expressão oriunda da palavra latina com que começa o canto de entrada da Santa Missa, segundo o gradual monástico: “Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete…” é uma exortação feita por São Paulo aos Filipenses, mas também endereçada a cada um de nós: “Alegrai-vos sempre no Senhor.  De novo eu vos digo: Alegrai-vos…” (Fl 4,4-5).  O tema da alegria aparece ainda como uma súplica ao Senhor na oração da coleta: “…daí chegarmos às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”.

E neste cenário de alegria e festa é que somos conduzidos ao encontro com o Senhor que está para chegar. Ele vem para dar uma vida nova ao seu povo e nos conduzir à terra prometida.  Alegria porque também muito em breve estaremos celebrando o Natal do Senhor! Uma celebração que, por si só, nos remete à alegria, já manifestada no momento da anunciação do anjo a Maria: “Alegra-te, cheia de graça, porque o Senhor está contigo”.  A causa da alegria em Maria é a proximidade de Deus.  E João Batista, ainda não nascido, saltará de alegria no seio de Isabel ante a proximidade do Menino Jesus, o Messias que está para chegar.

O anjo dirá aos pastores, homens simples que vigiavam o rebanho durante a noite: “Eu vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10). E acrescenta: “Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor”.  O Salvador que esperavam era o Messias.  Para eles o anúncio do nascimento do Salvador foi causa de alegria.  Em meio a tantas luzes que dissipam as trevas, podemos também lembrar de outra passagem do livro do profeta Isaias que disse: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1). E exulta de alegria ao anunciar: “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado” (Is 9,5).

Já na primeira Leitura temos um convite insistente à alegria. O trecho começa com esta expressão: “Alegra-te, filha de Sião! …Exulta e rejubila-te com todo o teu coração, filha de Jerusalém!” (Sf 3,14), que é semelhante à do anúncio do anjo a Maria: “Ave, cheia de graça!” (Lc 1,26). O motivo pelo qual a filha de Sião pode exultar é este: “O Senhor, está no meio de ti” (Sf 3,15.17). O profeta Sofonias deixa entender que esta alegria é recíproca: somos convidados a alegrar-nos, mas também o Senhor se rejubila pela sua relação conosco; com efeito, o profeta escreve: “Ele rejubila-se por causa de ti, e renova-te o seu amor e exulta de alegria por ti” (v. 17).

A alegria que é prometida neste texto tem o seu cumprimento em Jesus, que se encontra no seio de Maria, a “Filha de Sião”, e assim estabelece a sua morada no meio de nós (cf. Jo 1,14). Com efeito, vindo ao mundo Ele nos concede a sua alegria, como Ele mesmo confia aos seus discípulos: “Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).  O amor de Deus por nós não só perdoa as nossas faltas, mas provoca a conversão, nos transforma e nos renova. Daí o convite à alegria: Deus está no meio de nós, nos ama, e, apesar de tudo, insiste em fazer caminho conosco.

O Evangelho vem na sequência daquele que refletimos no domingo passado: o profeta João Batista indica, com pormenores concretos, como proceder para percorrer esse caminho de conversão e preparar a vinda do Senhor.  A primeira parte do Evangelho (v. 10-14), nos apresenta uma pergunta: “O que devemos fazer?”. Sugere uma abertura à proposta de salvação que vem de Deus. João Batista propõe, então, três atitudes concretas para quem quer fazer a experiência de conversão e de encontro com o Senhor.  Recomenda a sensibilidade às necessidades de quem nada tem e a partilha dos bens; aos publicanos, pede que não explorem, que não se deixem convencer por esquemas de enriquecimento ilícito, que não despojem ilegalmente os mais pobres; aos soldados, pede que não usem de violência, que não abusem do seu poder contra fracos e indefesos. João Batista põe em relevo os “crimes contra o irmão”: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um crime contra Deus; quem o comete, fecha o seu coração e a sua vida à proposta de salvação que Cristo veio trazer.

Na segunda parte do Evangelho (v. 15-18), João Batista anuncia a chegada do batismo no Espírito Santo, contraposto ao batismo “na água” realizado por João, que é apenas uma proposta de conversão; mas o batismo ministrado por Jesus consiste em receber essa vida de Deus que atua no coração do homem, transforma o homem velho em homem novo, capaz de partilhar a vida e amar como Jesus. Faz-se, aqui, referência a essa transformação que Cristo operará no coração de todos os que estão dispostos a acolher a sua proposta. Começará, para eles, uma nova vida, uma vida purificada, uma vida de onde o pecado e o egoísmo foram eliminados, uma vida segundo Deus.

João Batista indica que devemos seguir o Cristo com fidelidade e coragem.  E proclama com determinação: “Eu batizo-vos com a água, mas eis que virá Outro, mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias” (v. 16). Observamos a grande humildade de João, ao reconhecer que a sua missão consiste em preparar o caminho para Jesus. Afirmando “Eu batizo-vos com a água”, quer dar a entender que a sua unção é simbólica. Com efeito, ele não pode eliminar nem perdoar os pecados: batizando com a água, ele só pode indicar que é necessário mudar de vida.

Esta é a razão pela qual podemos prosseguir nosso itinerário com alegria, como nos exortou a fazer o apóstolo Paulo, porque a nossa salvação já está próxima. O Senhor vem! Com esta consciência empreendemos o itinerário do Advento, nos preparando para celebrar com fé o extraordinário acontecimento do Natal do Senhor. Vigilantes na oração, procuremos também preparar o nosso coração para acolher o Salvador que virá para nos mostrar a sua misericórdia e para nos doar a salvação.

Esta vinda de Deus, que se fez menino e nosso irmão, para permanecer conosco e compartilhar a nossa condição humana, se traduz em alegria.  Somos chamados à alegria por estar se aproximando a sua chegada. Ele está próximo e em breve o Cristo estará conosco no Natal. Só o pecado nos afasta dele, porém, mesmo quando nos afastamos, Ele não deixa de nos amar e continua próximo de nós com a sua misericórdia e disponibilidade a perdoar e nos acolher no seu amor. E este já é um grande motivo de alegria: saber que o Senhor está sempre conosco.

Efetivamente, a alegria só é completa quando reconhecemos a sua misericórdia, quando nos tornamos atentos aos sinais da sua bondade e realmente sentimos que esta bondade de Deus está conosco, e agradecemos aquilo que recebemos dele todos os dias.

Como foi possível constatar, a liturgia deste dia nos exorta à alegria, mas também nos exorta à conversão. Abramos o nosso espírito a este convite; corramos ao encontro do Senhor que vem, invocando e imitando a Virgem Maria que, silenciosa e orante, esperou e preparou a Natividade do Redentor, que vem ao mundo para nos proporcionar a alegria e a paz.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

II DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO – Ano C

 Preparai os caminhos do Senhor!

Lc 3,1-6

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo do advento, a Liturgia da Palavra nos faz um apelo à conversão, à renovação, no sentido de eliminar todos os obstáculos que impedem a chegada do Senhor ao nosso mundo e ao coração dos homens. Esta missão é uma exigência que é feita a todos os batizados, chamados a dar testemunho da salvação que Jesus Cristo veio trazer.

Lançando inicialmente um olhar para a primeira leitura, retirada do livro do Profeta Baruc, seu conteúdo sugere que o “caminho” de conversão é um verdadeiro êxodo da terra da escravidão para a terra da felicidade e da liberdade. Durante o percurso, somos convidados a despir-nos de todas as cadeias que nos impedem de acolher a proposta de uma vida nova que Deus nos faz. Somos convidados a viver este tempo numa serena alegria, confiantes no Senhor que não desiste de nos apresentar uma proposta de salvação, apesar dos nossos erros e dificuldades.

A reflexão sobre este texto pode ser feita lembrando que o advento é um tempo favorável, que nos possibilita sair da terra da escravidão para a terra da liberdade. Neste tempo somos especialmente confrontados com as cadeias que ainda nos prendem e somos convidados a percorrer um novo caminho de regresso à cidade nova da alegria e da paz.  Uma das frases da Primeira Leitura nos diz:  “Vê os teus filhos… estão cheios de alegria porque Deus se lembrou deles” (Br 5,5).  E é exatamente nesta atmosfera de alegria e de confiança serena na ação salvadora do nosso Deus que somos convidados a viver este tempo de mudança e a preparar a vinda do Senhor.

O Evangelho apresenta o profeta João Batista, a nos convidar a uma transformação total quanto à forma de pensar e de agir, quanto aos valores e às prioridades da vida. Para que Jesus possa caminhar ao encontro da humanidade é necessário que os corações estejam livres e disponíveis para acolher a Boa Nova do Reino. É esta missão profética que Deus continua, hoje, a confiar-nos.

Antes de começar a descrever a ação salvadora de Jesus no meio dos homens, São Lucas vai apresentar João Batista, o profeta que veio preparar a chegada do Messias de Deus. O evangelista começa por situar o quadro de João Batista num determinado enquadramento histórico. Nomeia 7 personagens, desde o imperador Tibério César, até ao sumo sacerdote Caifás, num esforço de situar no tempo os acontecimentos da salvação. É uma história concreta, com acontecimentos concretos, que podem ser ligados a um determinado momento histórico vivido.  A figura de João Batista aparece como “uma voz que grita no deserto” a exortar-nos a preparar os caminhos do coração para que o Cristo Jesus possa ir ao encontro de cada homem.

E o evangelista São Lucas situa num espaço geográfico a atividade profética de João: ele prega em “toda a região do rio Jordão”. Trata-se de uma região bastante povoada, sobretudo depois das construções de Herodes e de Arquelau. O anúncio profético de João destina-se aos homens, que são convidados a acolher o Messias que está para fazer a sua aparição no mundo. Finalmente, concretiza-se o âmbito da missão: João “proclama um batismo de conversão, para a remissão dos pecados”. Para acolher o Messias que está para chegar, é necessário um processo de conversão que leve a um rever a vida, as prioridades, os valores; pois somente nos corações verdadeiramente transformados, o Messias encontrará lugar.

Provavelmente o batismo administrado por João era o batismo de imersão na água, um rito comum na cultura judaica. Significava a morte a um passado que ficava simbolicamente sepultado na água. Utilizava-se no âmbito civil para indicar, por exemplo, a emancipação do escravo; e, no religioso, para a conversão do recém-convertido, indicando o início de uma nova vida, ou seja, a mudança de vida: o passado de injustiça e de erros fica sepultado.

Devemos distinguir entre a figura externa e a mensagem de João. Ele se apresentava vestido como um dos antigos profetas, especialmente Isaías (cf. 2Rs 1, 8).Vestia uma túnica de pele e a amarrava com um cinto.  Esta forma de vestir foi copiada pelos outros profetas. A vestimenta externa de João era um tecido de pelos de camelo, o mesmo com o qual se teciam as lonas das tendas dos nômades do deserto. Servia de proteção contra os raios solares e, como capa, o protegia da chuva. Além dessa veste extremamente rústica, havia na vida de João um outro detalhe que chamava a atenção das multidões, sua comida: gafanhotos e mel silvestre. Tudo indicava a austeridade de João e sua independência dos homens, de modo a depender unicamente de Deus.

Enquanto prosseguimos o caminho do Advento, enquanto nos preparamos para celebrar o Natal de Cristo, ressoa também em nós esta chamada de João Baptista à conversão: “Arrependei-vos, dizia, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3,1-2). É um convite urgente a abrir o coração e a acolher o Filho de Deus que vem entre nós.  O Pai, escreve o evangelista João, não julga ninguém, mas confiou ao Filho o poder de julgar, porque é Filho do homem (cf. Jo 5, 22.27). E é hoje, no presente, que se decide o nosso destino futuro; é com o comportamento concreto que temos nesta vida que decidimos o nosso destino eterno. No findar dos nossos dias na terra, no momento da morte, seremos avaliados com base na nossa semelhança ou não com o Menino que está para nascer na pobre gruta de Belém, porque é Ele o critério de medida que Deus deu à humanidade. O Pai celeste que no nascimento do seu Filho Unigênito nos manifestou o seu amor misericordioso, nos chama a seguir os seus passos fazendo da nossa existência um dom de amor.

Mediante o Evangelho, João Batista continua a falar através dos séculos, a cada geração. As suas palavras claras e duras ressoam também para os homens e as mulheres do nosso tempo. A “voz” do grande profeta pede que preparemos o caminho ao Senhor que vem, nos desertos de hoje, desertos exteriores e interiores, sequiosos da água viva que é Cristo.

João Baptista, portanto, tem um grande papel a desempenhar, mas sempre em função de Cristo. Quanto a nós, hoje temos a tarefa de ouvir aquela voz para conceder a Jesus, Palavra que nos salva, espaço e acolhimento no coração. Neste Tempo de Advento, preparemo-nos para ver, com os olhos da fé, na Gruta humilde de Belém, a salvação de Deus (cf. Lc 3, 6).

Escutemos o convite de Jesus no Evangelho e nos preparemos para reviver com fé o mistério do nascimento do Redentor, que encheu o universo de alegria; preparemo-nos para acolher o Senhor no seu incessante vir ao nosso encontro nos acontecimentos da vida, na alegria ou no sofrimento, na saúde ou na doença; preparemo-nos para encontrá-lo na sua vinda última e definitiva.

Continuemos o nosso caminho ao encontro do Senhor que vem, permanecendo prontos para o receber no coração e na vida inteira, o Emanuel, o Deus que vem habitar conosco. Confortados pela sua palavra, invoquemos a proteção materna de Maria, Virgem da esperança, que ela nos guie a uma verdadeira conversão interior, para que possamos sintonizar os nossos pensamentos e ações com a mensagem do Evangelho, e assim possamos preparar dignamente a vinda do Senhor que está para chegar.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ