I DOMINGO DO ADVENTO – Ano C

Vigiai!

Lc 21,25-28.34-36

Meus caros amigos,

Com este domingo iniciamos o Advento, formado pelas quatro semanas que precedem o Nascimento de Jesus Cristo. Um tempo litúrgico de grande sugestão religiosa, porque está impregnado de esperança e de expectativa espiritual, tempo de preparação para o Natal do Senhor. A partir deste domingo, a Igreja se veste de roxo para esperar, em atitude de vigilância, em oração e penitência, para este grande momento: A chegada do nosso Salvador.

Com a entrada do Advento a liturgia da Igreja recomeça a sua caminhada cíclica. No mundo exterior, as lojas especializadas já vão iluminando e ornamentando os seus ambientes.  Ao lado disso, nossa consciência cristã é convidada a viver o espírito litúrgico deste tempo de preparação para o Natal.  É uma ocasião em que o povo cristão revive o duplo movimento do espírito: por um lado, eleva o olhar rumo à meta final da sua peregrinação na história, que é a vinda gloriosa do Senhor Jesus; por outro, recorda com emoção o seu nascimento em Belém. A esperança dos cristãos orienta-se para o futuro, mas permanece sempre bem arraigada num acontecimento do passado.

A palavra “advento” significa “vinda”, “presença”. No mundo antigo indicava a visita do rei ou do imperador a uma província; na linguagem cristã refere-se à vinda de Deus, à sua presença no mundo; um mistério que envolve totalmente o cosmos e a história, mas que conhece dois momentos culminantes. São Bernardo de Claraval nos ensina que existem três dessas vindas de Jesus. A primeira ocorreu há mais de dois mil anos, na humildade de uma manjedoura, em Belém. A terceira será a vinda definitiva, no fim dos tempos, quando Jesus se assentará no trono da glória para julgar os atos da humanidade. A segunda vinda, por sua vez, é uma vinda intermediária, que pode acontecer todos os dias, por meio dos sacramentos, sobretudo pela Confissão e pela Eucaristia. E é justamente essa a vinda para a qual devemos nos preparar no tempo do Advento (cf. S. BERNARDO DE CLARAVAL, Obras completas, Madrid, 1953, p. 177).

Nada melhor para assimilarmos o verdadeiro espírito deste período de preparação para o Natal do que relembrarmos as palavras cheias de sabedoria, que aparecem no prefácio das missas das duas primeiras semanas. Referindo-se ao Divino Salvador, elas dizem: “Revestido da nossa fraqueza, Ele veio a primeira vez  para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da Salvação.  Revestido da sua glória, Ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens outrora prometidos e que hoje vigilantes esperamos”.

E as leituras deste primeiro domingo do advento nos permitem descobrir o que é, na sua realidade, este tempo: um misto de recordação, de presença e de expectativa, como é, aliás, toda a liturgia da Igreja.  Expectativa é também o que ecoa do texto evangélico.  Nele Jesus faz chegar até nós aquelas palavras que impregnam todo o tempo do Advento: Ficai atentos! Vigiai!  O Evangelista São Lucas já nos apresenta uma proclamação de esperança: Aproxima-se o tempo da salvação do homem.

O Natal, de fato,  é o primeiro passo de um caminho que vai terminar na glória da segunda vinda de Cristo. Por isso, somos convidados a Vigiar.  A liturgia deste domingo nos ajuda a refletir sobre como deve ser esta atitude cristã de espera. Vigilância é a grande palavra.  Porém, não uma vigilância feita de susto e de terror, mas feita de confiança em Deus que nos ama.  Somos convidados à vigilância porque o Cristo está para chegar.

A palavra “vigiai” é hoje dirigida também a cada um de nós, porque cada um, na hora que só Deus conhece, será chamado a prestar contas da própria existência. Isto exige um justo desapego dos bens terrenos, um arrependimento sincero dos próprios erros, uma caridade laboriosa em relação ao próximo e uma entrega humilde e confiante a Deus.

No Advento, a liturgia nos repete com freqüência e nos assegura que Deus “vem”: vem para estar conosco, em cada uma de nossas situações; vem para viver entre nós, para viver conosco e em nós; vem para preencher as distâncias que nos dividem e separam; vem para nos reconciliar com Ele e entre nós. Ele vem na história da humanidade para tocar à porta de cada homem e de cada mulher de boa vontade, para oferecer aos indivíduos, às famílias e aos povos o dom da fraternidade, da concórdia e da paz.

No texto evangélico encontramos uma série de imperativos para nos aproximar do assombro desta espera: levantai-vos, erguei a cabeça, tende cuidado, estai acordados, ficai de pé (cf. Lc 21, 34-36). Vale a pena escutar este grito do nosso coração que continuamente nos exige o milagre de uma novidade que não acabe. Acolher na nossa vida o Filho de Deus que vem ao mundo, eis o compromisso deste Advento.

O tempo do Advento nos leva a recordar Aquele que já chegou, e a acolher sua vinda incessantemente presente. Por último, prepara-nos para o dia da sua volta prometida. Este é o paradoxo da nossa fé: recordar quem veio, a partir da acolhida de quem nunca foi embora, para preparar-nos para receber quem voltará. O paradoxo consiste em que o sujeito é a mesma pessoa: Jesus Cristo. Este é o tempo que nos prepara para a celebração do Natal cristão.  Levantemos!  Despertemos!

O Senhor Jesus veio no passado, vem no presente e virá no futuro. Ele abraça todas as dimensões do tempo, porque morreu e ressuscitou e, compartilhando nossa precariedade humana, permanece para sempre e nos oferece a própria estabilidade de Deus.   Nesta ânsia pela vinda do Senhor, sempre podemos crescer mais, para que sua chegada seja preparada do modo mais perfeito possível.  Portanto, a liturgia deste domingo nos ensina o dinamismo do crescimento, com vistas ao reencontro definitivo com nosso Senhor. O cristão é aquele que, em cada dia, sente que há um caminho novo a fazer. É nesta atitude que somos chamados a viver este tempo de espera pelo Messias.

Os abalos e catástrofes cósmicos que expressam a vinda do Filho do Homem são vistos numa perspectiva de transformação do universo e do próprio homem.  Por isso, a reação humana em face destas realidades tremendas não é de temor, mas de confiança, de esperança.  De fato, os fiéis se erguem, levantando a cabeça em vez de se prostrarem e se curvarem, pois, reconhecem a proximidade da própria salvação (v. 28). E a vida do homem desenvolve-se no amor do Senhor, não obstante todas as dolorosas experiências da destruição e da morte, a caminho da final realização em Deus.

O Advento traz consigo o convite à paz de Deus para todos os homens. E necessário construirmos esta paz e continuamente a reconstruirmos em nós mesmos e com os outros: nas famílias, nas relações com os vizinhos, nos ambientes de trabalho e na vida da sociedade inteira.

Saibamos estar prontos a encontrar o Salvador, que vem revelar-nos o rosto do Pai celeste. Que o Senhor nos conceda a graça de iniciarmos com impulso e boa vontade o itinerário do Advento, indo com as boas obras ao encontro de Cristo, nosso Redentor.

Peçamos também à Virgem Maria, aquela que foi escolhida por Deus para ser a mãe do Salvador, que ela nos guie e nos acompanhe neste caminho do Advento.  Ela espera com grande recolhimento interior o nascimento do seu Filho, que é o Messias.  Todos os seus pensamentos se dirigem para Jesus, que nascerá em Belém.  Assim, possamos também nós, aproveitar este tempo para uma preparação adequada na espera daquele que Vem.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXXIV Domingo do Tempo Comum – Ano B

Solenidade de Cristo, Rei do Universo

Jo 18,33-37

Caros irmãos e irmãs

Celebramos neste último domingo do tempo comum a solenidade de Cristo Rei do Universo. A Palavra de Deus que nos é proposta para este encerramento do ano litúrgico nos convida a tomar consciência da realeza de Jesus. Deixa claro, no entanto, que essa realeza não pode ser entendida à maneira dos reis deste mundo: é uma realeza que se concretiza de acordo com a vontade de Deus.

O texto evangélico nos apresenta uma cena do processo de Jesus diante de Pilatos, o governador romano da Judeia, que desempenhou o seu ofício entre os anos 26 e 36. O doloroso interrogatório começa com uma pergunta de Pilatos: “Tu és o Rei dos judeus?” (v. 33).  Esta pergunta revela qual era a acusação apresentada pelas autoridades judaicas contra Jesus, que responde a esta pergunta de Pilatos dizendo: “Tu o dizes, eu sou Rei”.  E acrescenta: “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (v. 37). Com esta resposta, Jesus se apresenta como o Messias que Israel esperava e confirma a sua identidade de rei (v. 36).

Jesus reforçou essa resposta, citando e aplicando a si mesmo aquilo que o profeta Daniel havia dito do Filho do homem que vem entre as nuvens do céu e recebe o reino que nunca passará, como consta na primeira leitura: “Eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam; seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7,13-14). Uma visão grandiosa na qual Cristo aparece dentro da história e acima dela, temporal e eterno.  São Palavras que preveem um rei que domina de mar a mar até aos confins da terra, com um poder absoluto, que nunca será destruído.  Esta visão do profeta Daniel é esclarecida e realiza-se em Cristo, o verdadeiro Messias.

No texto evangélico, observa-se ainda que Pilatos não consegue entender que um rei renuncie ao poder e à força e fundamente a sua realeza no amor e na doação da própria vida. Jesus confirma a sua realeza e define o sentido e o conteúdo do seu reinado: “Dar testemunho da verdade” (v. 37). Para o Evangelista São João, a “verdade” é a realidade de Deus. Essa “verdade” manifesta-se nos gestos de Jesus, nas suas palavras, nas suas atitudes e, de forma especial, no seu amor vivido até ao extremo do dom da vida. Essa verdade opõe-se à mentira, que é o egoísmo e o pecado, ou seja, tudo aquilo que empalidece a vida do homem e o impede de ser feliz.

Os reis deste mundo apoiam-se na força das armas e impõem aos outros o seu domínio e a sua autoridade; a realeza desses reis baseia-se no poder e na ambição, podendo gerar injustiça e sofrimento. Mas, Jesus é um rei diferente, é prisioneiro, indefeso e abandonado pelo povo. Ele não se impõe pela força, mas veio ao mundo para amar a todos e a todos servir, em total conformidade com a vontade do Pai.  A realeza de Jesus procede de Deus. Na narração da Paixão, pode-se observar como os próprios discípulos, apesar de terem partilhado a vida com Jesus e ouvido as suas palavras, pensavam num reino político, instaurado mesmo com o uso da força (cf. Jo 18,10-11).

O drama que se desenrola no palácio de Pilatos é o drama da humanidade que procura onde está a verdade. Jesus disse inicialmente: “Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (v.37). A verdade só pode ser encontrada em Jesus, pois só ele é o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Mas o desenrolar deste interrogatório entre Jesus e Pilatos chega a uma conclusão dolorosa e humilhante. Jesus foi preso e é condenado ao suplício da cruz, onde encontramos o centro desse percurso de revelação da realeza de Jesus Cristo, que se concretiza no mistério da sua morte e ressurreição. Jesus entregou-se livremente à sua paixão em total obediência à vontade do Pai.

No momento em que Jesus foi pregado na cruz, os sacerdotes e os escribas zombavam e diziam: “Salva-te a ti mesmo, desce da Cruz!” (Mc 15,30). Outros diziam: “Salva-te a ti mesmo!”.  Se Jesus tivesse descido da Cruz, teria cedido à tentação do príncipe deste mundo; ao contrário, ele não pode salvar-se a si mesmo precisamente para poder salvar os outros, porque entregou a sua vida por nós, por cada um de nós.

E quem compreendeu este reinado de Cristo foi um dos malfeitores que estava também pregado na cruz, conhecido como o “bom ladrão”, que tradição o identificou como São Dimas.  Ele suplica: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!” (Lc 23, 42).  Este bom ladrão soube aproveitar o momento e ganhou o reino dos céus.

E foi oferecendo-se a si mesmo no sacrifício de expiação que Jesus se torna o Rei do Universo, como ele mesmo declarará ao aparecer aos Apóstolos depois da ressurreição: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28, 18).  Seu poder é o poder divino de dar a vida eterna, de libertar do mal, de derrotar o domínio da morte. É o poder do amor, que do mal sabe obter o bem, enternecer um coração endurecido, levar paz ao conflito mais áspero, acender a esperança na escuridão mais cerrada. Cristo veio para “dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37), como declarou diante de Pilatos. Escolher Cristo nos assegura aquela paz e alegria que só ele pode dar.

Cristo é a verdade. E esta verdade é Cristo. A verdade de Cristo verificou-se na vida dos santos de todos os séculos. Os santos constituem o grande vestígio de luz na história, que assegura: Esta é a vida, este é o caminho, esta é a verdade.  Assim aconteceu com São Paulo, com São Bento, com São Francisco de Assis e muitos outros santos. Eles ouviram no coração a voz de Cristo. Compreenderam que Cristo os chamava para uma missão. Tal é a consequência deste primeiro encontro com a voz de Cristo.

E que possamos pedir como o bom ladrão: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!”.  Também nós devemos dizer todos os dias, como repetimos na oração do Pai Nosso: “Venha a nós o vosso reino”.  E que possamos seguir Jesus, nosso Rei, e dar testemunho dele com toda a nossa existência.

Peçamos também a intercessão da Virgem de Nazaré, a humilde serva do Senhor, que no momento da anunciação, ouviu do Anjo Gabriel, que o seu Filho herdaria o trono de Davi e o seu reinado não teria fim (cf. Lc 1,32-33). Ela acreditou nestas palavras antes mesmo de dá-lo ao mundo. Que ela, coroada como a Rainha do céu e da terra, interceda por cada um de nós, para que o amor de Deus possa reinar também em nossos corações e que saibamos seguir Jesus, nosso Rei, como ela fez, e dar testemunho dele ao mundo com toda a nossa existência. Assim seja.

D.Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

   Minhas palavras não passarão

Mc 13, 24-32

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos faz um convite à esperança.  A primeira leitura anuncia aos crentes perseguidos e desanimados a chegada iminente do tempo da intervenção de Deus para salvar o Povo fiel. É esta a esperança que deve sustentar os justos,chamados a permanecerem fiéis a Deus, apesar da perseguição e do sofrimento.  Nesta leitura, retirada do livro do profeta Daniel (cf. Dn 12,1-3), o autor utiliza símbolos que evocam a transfiguração dos ressuscitados.

Essa vida nova não será como a do mundo presente, mas será uma vida transfigurada.  A mensagem de esperança que o nosso texto nos deixa destinava-se a animar os crentes que sofriam a perseguição numa época e num contexto particulares. No entanto, é uma mensagem válida para os cristãos de todos os tempos e lugares.  É a certeza de que Deus nunca abandona o seu povo e a vitória final será daqueles que se mantiverem fiéis aos seus ensinamentos.

O trecho do Evangelho nos apresenta uma parte do discurso de Jesus proferido em Jerusalém antes da páscoa, onde fala sobre os últimos tempos utilizando algumas imagens de tipo apocalíptico: “O sol vai se escurecer e a lua não brilhará mais, as estrelas cairão do céu e as forças que estão nos céus serão abaladas” (v.24-25). Na mentalidade apocalíptica, os terremotos, incêndios, guerras eram sinais de um fim do mundo que estava para chegar.

Antigamente os astros do céu eram considerados divindades, com influência sobre a vida dos homens.  Podiam conceder benefícios ou provocar tragédias, por esta razão era preciso conquistar a sua amizade, oferecendo-lhes orações e sacrifícios.  Visando refutar a religião dos que adoravam o sol, a lua e as estrelas, os profetas afirmavam que um dia estes corpos celestes haviam perdido a sua luz e caído (cf. Is 13,10; 34,4; Gl 2,10).  Com estas afirmações os profetas mostravam que o mundo pagão, representado por estes astros, teria sido destruído e Jesus retoma estas imagens visando confortar os seus discípulos e prepará-los para os últimos acontecimentos.

E o texto do Evangelho segue dizendo: “Então verão vir o Filho do Homem sobre as nuvens, com grande poder e glória” (v. 26). A expressão “Filho do homem” é uma referência ao próprio Jesus Cristo, que relaciona o presente e o futuro; as antigas palavras dos profetas encontraram o seu centro no Messias de Nazaré. Ele é o verdadeiro acontecimento que, no meio dos transtornos do mundo, permanece o ponto firme e estável. E Jesus ainda diz: “Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (v. 30).

Nestas reflexões, apesar de nos assustar, encontramos uma mensagem de esperança, porque, após todas as trevas e tribulações, depois de todos os horrores e os erros do nosso caminho humano, virá o “Filho do Homem” para nos confortar com a sua palavra eterna, a única que não passará, para devolver-nos com força e com ternura, a verdade da nossa vida.

O modo como Jesus descreveu o fim dos tempos se encaixava no horizonte teológico da época.  Como de fato, esperavam-se abalos e outros fenômenos terríveis, quando Deus interviesse, definitivamente, na História. A intenção de Jesus, porém, era a de levar os seus discípulos à vigilância, de maneira a estarem sempre preparados para o encontro com o Senhor.

E Jesus ainda sublinha: “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13,30).  As palavras “o céu e a terra”, indicam todo o universo, a criação inteira. Jesus sublinha que tudo isto irá passar. O mundo é provisório; tudo deve terminar. Não só a terra, mas também o céu, aqui entendido precisamente em sentido cósmico, não como sinônimo de Deus. Contudo, Jesus afirma que as suas palavras “não passarão” (v. 30), ou seja, estão da parte de Deus e por isso suas palavras são eternas e devem orientar a nossa vida e as nossas preocupações.  As palavras de Jesus nos ensinam que não somos provisórios.  Somos destinados à vida eterna.

Com efeito, sabemos que na Sagrada Escritura a Palavra de Deus está na origem da criação: todas as criaturas, a partir dos elementos cósmicos: sol, lua, firmamento, obedecem à Palavra de Deus. Este poder criador da Palavra divina concentrou-se em Jesus Cristo, Verbo feito carne, e passa também através das suas palavras humanas, que são o verdadeiro “firmamento” que orienta o pensamento e o caminho do homem sobre a terra. O núcleo em volta do qual se centra o discurso de Jesus é ele mesmo, o mistério da sua pessoa e da sua morte e ressurreição, a sua vinda no fim dos tempos.

A exortação de Jesus não passa com o tempo, eternas são todas as suas palavras.  Elas não passarão, embora tudo o mais perca seu valor.  Tudo passa, nos recorda Santa Teresa de Ávila, só Deus basta. Só ele é eterno e a sua Palavra não muda, por isto, deve ser ela base e alicerce para os nossos atos e o nosso comportamento. É absolutamente certa a vinda do Cristo Senhor e há necessidade de nos mantermos vigilantes e preparados para colhê-lo.  É também firme a palavra do Senhor que apresenta o amor como critério do juízo final, a recompensa para quem se mantiver fiel e a comunhão definitiva com o Pai, como destino último do cristão.  Por conseguinte, o discípulo sensato deixa-se guiar pelos ensinamentos de Jesus.

Em cada celebração eucarística, após a consagração do pão e do vinho, dizemos: “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda!”.  Embora Cristo tenha dito que ninguém conhece o momento do seu regresso, enquanto isto, podemos perguntar: Estou preparado para encontrar-me com o Cristo quando ele voltar?  O nosso objetivo final é o encontro com o Senhor ressuscitado. E quantos de nós pensamos nisto? Haverá um dia no qual estaremos frente a frente com o Senhor. É esta a nossa esperança: estar com o Senhor. O problema não é quando os sinais premonitórios dos últimos tempos acontecerão, mas se estamos preparados para este encontro. Na verdade, somos chamados a viver o presente, construindo o nosso futuro com serenidade e confiança em Deus.

Por meio da parábola da figueira (v. 28-29), Jesus nos ensina a manter uma atitude vigilante que nos leve a discernir, a distinguir os sinais da presença de Deus no mundo e na história. Não podemos ficar desanimados. Jesus nos convida a ter uma atitude atenta, vigilante para descobrir assim sua presença no meio de nós. Somos chamados a ter coragem para não nos deixar desanimar pelas diferentes dificuldades que podem acontecer. É necessário ficar atentos, estar ligados para redescobrir nos acontecimentos do dia a dia, os apelos de Deus presentes no meio de nós.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a trilhar sempre o caminho do bem, observando a sua Palavra e que saibamos também ser a terra boa que acolheu a Palavra de Deus com disponibilidade, de modo que toda a nossa existência seja transformada e nos conduza à vida eterna.  E seguindo o Cristo pelo caminho da cruz, possamos alcançar juntos à glória da ressurreição.  A Virgem de Nazaré nos ajude a confiar em Jesus, aquele que é o fundamento firme da nossa vida, e a perseverar com alegria no seu amor para que possamos estar sempre preparados para o encontro definitivo com ele. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva,OSB

Mosteiro de São Bento / RJ

XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

O Óbolo da Viúva

Mc 12,38-44

Caros irmãos e irmãs,

Duas humildes mulheres iluminam as páginas da liturgia da palavra deste domingo.  No centro das leituras encontramos duas pobres viúvas. Na primeira leitura temos a viúva de sarepta (cf. 1Rs 17,10-16); e no texto evangélico deparamos com a viúva que oferece a sua oferta no tempo; mais precisamente, encontramos os gestos que elas realizam e, por isso, são louvadas por Deus, pela generosidade de quem dá sem hesitar, o pouco que possui.

A primeira leitura nos direciona para o Livro dos Reis e nos fala do ministério profético de Elias, o grande defensor da fidelidade a Deus. O ciclo de Elias começa com o anúncio, diante do rei Acab, de uma seca que irá atingir Israel (cf. 1Rs 17,1). A implacável seca o leva para a pequena cidade de Sarepta, onde o nosso texto nos situa geograficamente. Elias dirige-se a uma viúva da cidade, a quem pede um pedaço de pão. Nesse tempo dramático de fome e de seca, a mulher tem apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite, que havia reservado para comer com o filho, antes de se deitar à espera da morte; mas acaba por preparar o pão para Elias. E, por ação de Deus, durante todo o tempo que Elias aí permaneceu, nem a farinha se acabou, nem o azeite faltou. A viúva de Sarepta queria guardar para si e para o seu filho o pouco de alimento que possuía; mas foi desafiada a partilhar, viu esse escasso alimento ser multiplicado uma infinidade de vezes.

Já o texto do Evangelho nos leva a Jerusalém (cf. Mc 12,38-44), poucos dias antes da prisão, julgamento e morte de Jesus.  Na primeira parte desta perícope (v. 38-40), Jesus faz direcionar a atenção dos seus discípulos sobre o grupo dos doutores da Lei. Aparentemente, são figuras intocáveis da comunidade, com uma atitude religiosa irrepreensível. São estimados e admirados pelo povo, que os tem em alto conceito.  Contudo, o olhar avaliador de Jesus não se detém nas aparências.

Os doutores da Lei agem para serem considerados e admirados pelo povo, procuram os primeiros lugares, preocupam-se em afirmar a sua superioridade diante dos outros e aproveitam da posição e da confiança que inspiram, como intérpretes autorizados da Lei de Deus, para explorar os mais pobres. Ao olhar para a atitude dos doutores da Lei, os discípulos de Jesus devem se conscientizar de que este não é o comportamento que Deus pede àqueles que querem fazer parte da sua família.

Na segunda parte (v. 41-44), Jesus convida os discípulos a perceber a essência do verdadeiro culto, da verdadeira atitude religiosa. Em profundo contraste com o quadro dos doutores da Lei, Jesus apresenta aos discípulos a figura de uma pobre viúva, que se aproxima de um dos treze recipientes situados no átrio do Templo, onde se depositavam as ofertas para o tesouro do Templo. A mulher deposita aí duas simples moedas. O texto grego identifica esta moeda como “leptá”, ou seja, uma moeda de cobre, pequena e insignificante, a menor moeda judaica; contudo, aquela quantia imperceptível era tudo o que a mulher possuía.

Jesus manifesta admiração pelo gesto da viúva. Apenas Jesus, que lê os fatos com os olhos de Deus e sabe ver para além das aparências, percebe nesta atitude a marca de um dom total, de um completo despojamento, de uma entrega radical e sem medida. O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que aceita despojar-se de tudo para se entregar completa e gratuitamente nas mãos de Deus, com humildade, com generosidade, com total confiança. É este o exemplo que os discípulos de Jesus devem imitar; é esse o culto verdadeiro que eles devem prestar a Deus.

Como na primeira leitura, também no Evangelho temos um exemplo de uma mulher simples e, ainda mais, uma viúva, que, por sua própria condição, pertencente à classe dos abandonados e dos mais pobres, é capaz de partilhar o pouco que tem.  A viúva era um dos seres mais frágeis da sociedade israelita. Numa realidade machista, a mulher era dependente do homem, pois cabia a ele prover a casa dos bens necessários. A mulher deveria ser uma boa e obediente esposa. Quando o marido falecia, se não houvesse a figura de outro homem em sua vida (cunhado, filho, pai), a mulher ficava totalmente desamparada, pois perdia toda segurança que a vida patriarcal lhe oferecia. Assim também eram os órfãos e os estrangeiros. Na reflexão bíblica, os pobres, pela sua situação de carência, debilidade e necessidade, são considerados os preferidos de Deus, aqueles que são objeto de uma especial proteção e ternura por parte de Deus.

Ao lançarmos o nosso olhar mais uma vez para o Evangelho, podemos notar que a figura dos doutores da Lei está em total contraste com a figura da pobre viúva. Eles estão cheios de si e têm os corações dominados por sentimentos de ambição e de vaidade, apostam tudo nos bens materiais. Na verdade, no coração deles não há lugar para Deus e para os outros irmãos; só há lugar para os seus próprios interesses. Nunca é demais refletirmos sobre este ponto: quem vive para si e é incapaz de viver para Deus e para os irmãos, com verdade e generosidade, não pode integrar a família de Jesus.

No templo, havia muitos ricos e uma pobre viúva. Só Jesus repara nesta mulher cuja pobreza é dupla: financeira e afetiva. Os ricos fazem barulho com as mãos ao depositar no cofre grandes somas. A mulher é mais discreta, só Jesus consegue ouvir cair as duas pequenas peças. Uma vez mais, Jesus procura ver o coração. Ele vê aquilo que distingue a pobre viúva dos ricos: seu interior. A mulher não negociou com Deus, ela deu tudo o que tinha para viver. Ela oferece o que tem com o bom coração. Por esta razão Jesus diz que ela ofertou mais do que todos, não em quantidade, mas em generosidade. A viúva deu toda a sua vida, tudo o que tinha.

Não se questiona sobre como ela vai viver a seguir. Ela dá um salto no abandono total de si mesma ao Senhor. Lança-se nos braços de Deus. É este o significado perene da oferta da viúva pobre, que Jesus exalta porque deu mais do que os ricos, os quais oferecem parte do que lhe é supérfluo, enquanto ela dá tudo o que tem para viver e entrega-se a si mesma.  Ao observar a pobre viúva, Jesus move seus discípulos a aprender dela algo peculiar: uma fé total em Deus e uma generosidade sem limites. Seu gesto passa despercebido por todos, mas não por Jesus; no seu silêncio e no seu anonimato, a viúva põe em evidência a humildade. Ela não busca honras nem prestígio, mas atua de maneira discreta e humilde: dá o que tem porque outros podem necessitar, não dá o que lhe sobra, mas “tudo o que tem para viver” (v. 44).

Com estes dois episódios bíblicos, sabiamente combinados, é possível obter um precioso ensinamento também sobre a fé. Trata-se de uma atitude interior daqueles que fundamentam a própria vida em Deus, na sua Palavra e confiam plenamente na providência divina.

Possamos todos nós imitar o exemplo dessas duas viúvas, modelos de fé e de generosidade, mostrando que ninguém está dispensado de partilhar.  Que o Senhor venha em nosso auxilio, para que nunca falte em nós a farinha e o azeite da caridade, da confiança e da esperança. Que o Senhor nos possibilite ter um coração de pobre, mas rico de uma generosidade gratuita, e nos faça abrir as nossas mãos e o nosso coração para a partilha e para a oferta do que temos e que ele mesmo nos concedeu. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS 

Mt 5,1-12

Caros irmãos e irmãs

Iniciamos o mês de novembro com a solenidade de Todos os Santos.  O nosso coração e o nosso pensamento se voltam para muitos homens e mulheres que souberam viver uma profunda unidade com Deus.  É um dia em que recordamos não apenas os santos canonizados, muitos deles já têm a sua festa própria ao longo do ano, mas, sobretudo, os santos anônimos e desconhecidos. Abrange todos aqueles que foram justificados pela fé em Cristo. É um dia em que recordamos aqueles que vivem para sempre diante de Deus.

Como leitura evangélica, temos o texto das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), visando ressaltar que a sua vivência total é o melhor caminho para se chegar à santidade. A prática das bem-aventuranças é a marca e o selo dos santos descritos por Jesus, para sublinhar a dinâmica da santidade. Todos os santos sempre foram e são contemporaneamente, embora em medida diversa, pobres de espírito, mansos, aflitos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz e perseguidos pela causa do Evangelho. E assim devemos ser também nós. Além disso, na base desta página evangélica é evidente que a bem-aventurança cristã, como sinônimo de santidade, não está separada de um eventual sofrimento ou dificuldade.

Portanto, santos são os pobres em espírito, cujo coração está centrado em Deus. Pobres em espírito são os humildes, os que têm coração desapegado dos bens terrenos.  Para isso, não é necessário ter nada, mas é preciso usar o que se tem conforme o espírito do Evangelho.  A verdadeira riqueza não consiste nos tesouros desta terra, mas na graça, na virtude, nos merecimentos e na amizade com Deus.

Santos são os mansos, que por não responderem à violência com violência, herdarão um bem inalcançável pelos violentos.  Os mansos são aqueles que, conformados com a vontade de Deus, suportam com paciência as adversidades desta vida.  São aqueles que usam de mansidão, que tratam o próximo com bondade, tolerando pacientemente suas impertinências, sem queixas ou atitudes de vingança.

Santos são os aflitos, que são impotentes diante de situações dramáticas, e não pretendem ter solução para tudo.  Há muitos que não entendem a razão dos sofrimentos e se revoltam contra Deus.  Jesus diz que os aflitos são felizes.  De fato, se souberem aceitar com resignação as provas que Deus envia, se souberem sofrer com ânimo as misérias e dificuldades da vida, a recompensa será a consolação de Deus.   

Santos são os famintos e sedentos de justiça, que não pactuam com a maldade, nem se deixam levar pela lógica da dominação.  Deus mesmo haverá de realizar seu ideal e fazê-los contemplar o reino da justiça. Trata-se daquela justiça interior que torna o homem agradável a Deus, quando se esforça por cumprir sempre a sua vontade.  O primeiro passo para conseguir a santidade é desejá-la.  Por isso, Jesus diz que são felizes os que têm fome e sede de justiça, isto é, aqueles que realmente desejam ser santos.  Mas é necessário que este desejo seja eficaz.  Isto é, que empreguemos os meios necessários para consegui-lo.

Santos são os misericordiosos, cujo destino consistirá em viver a comunhão definitiva com Deus, que também é misericórdia.  Os misericordiosos são, de modo geral, aqueles que têm sentimentos de compaixão para com os aflitos e os miseráveis de toda espécie.  São misericordiosos os que são caridosos e se compadecem das misérias do próximo e também que perdoam. Quem for misericordioso receberá também a misericórdia divina.  E Deus será misericordioso conosco à medida que o formos com nosso próximo.

Santos são os puros de coração, que não agem com segundas intenções nem falsidade, mas sim, com transparência.  São os que fogem de todo pecado e praticam a pureza.  Ser puro é ter uma alma livre de afetos desordenados, que conserva a pureza de coração. Por isso, serão recompensados com a visão de Deus, em todo seu esplendor.

Santos são os promotores da paz, que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, a fim de que o mundo seja mais fraterno.  Promover a paz consiste em esquecer as injúrias.  A paz, que gera a felicidade, não é aquela que está apenas nos lábios, mas a que repousa no coração. Os promotores da paz serão chamados filhos de Deus.

Santos são também os perseguidos por causa da justiça, os que lutam para fazer valer o projeto de Deus para a humanidade. São eles humilhados, agredidos, marginalizados, por parte daqueles que praticam a injustiça e fomentam a opressão e a morte. Nesta última bem-aventurança, os perseguidos são convidados a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.  Portanto, todos os seres humanos são chamados à santidade que, em última análise, consiste em viver como filhos de Deus, naquela semelhança com ele.

E o caminho para vivermos a santidade é Cristo e ninguém chega ao Pai senão por meio dele, como ele mesmo afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Todos nós somos chamados a percorrer o caminho da santidade e Jesus Cristo é o caminho que nos conduz a ela. E no texto evangélico Jesus nos mostra a estrada que devemos percorrer: a das Bem-Aventuranças. As bem-aventuranças traçam o mapa deste caminho. As oito bem-aventuranças são os sinais que indicam a direção a seguir. Somente este caminho nos levará ao encontro com Deus. Só esta vereda nos leva à salvação,  Este também foi o percorrido por Jesus. E certa ocasião ele disse:  “Quem me segue não andará nas trevas” (Jo 8, 12). E noutra ocasião acrescentou: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11).

Uma das respostas próprias dos fiéis no momento da Oração Eucarística diz: “Caminhamos na estrada de Jesus”.  É este o convite que o Senhor hoje nos faz.  Os santos caminharam na estrada de Jesus e souberam seguir o Cristo.  É por esse caminho que caminhamos para o céu.  E é por isso que hoje estão na Casa de Deus para sempre.  É um convite solene e luminoso lançado à terra dos homens, para que sigamos o mesmo caminho.  Caminhando com Cristo, podemos conquistar a alegria, a alegria verdadeira!

Que Senhor nos liberte de tudo aquilo que nos impede de ter acesso ao Reino de Deus e que ele mesmo nos conceda a graça de caminhar na esperança de nos encontrarmos um dia face a face com ele. Peçamos também a interseção da Virgem Maria, invocada pelo povo cristão como “Rainha de todos os santos” e “Porta do céu”, a quem todas as gerações proclamam como “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48), que ela nos ajude no nosso caminho de santidade e nos faça caminhar nesta direção, conduzindo-nos ao seu filho Jesus. Que saibamos reconhecer que temos necessidade de Deus, da sua misericórdia e do seu perdão, para um dia entrarmos no seu Reino, Reino de justiça, de amor e de paz. 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ