XXX SEMANA DO TEMPO COMUM – Ano B 

Coragem! Ele te chama.

Mc 10,46-52

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos traz a descrição do encontro de Jesus com o cego Bartimeu, apresentado como “um mendigo sentado à beira do caminho”.  A cena evangélica situa-se na direção que levava Jesus de Jericó a Jerusalém, às margens do rio Jordão. Trata-se de um mendigo e cego, sentado à beira dessa estrada com seu manto estendido para recolher esmolas.  Esta cena era freqüente nos tempos de Jesus.  Se alguém era cego, não tinha outro meio de vida senão pedir esmolas. Não havia os recursos de recuperação que temos hoje, sobretudo o espírito de ajuda fraterna, fruto do cristianismo, implantado e ampliado no mundo.

Certamente o cego Bartimeu deve ter ouvido mais barulho do que o habitual e perguntou o que acontecia ou quem estava passando; responderam-lhe que era Jesus. Então, ele começou a gritar: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!” Deve ter feito isso com tanta força e insistência, que chegou a incomodar os que faziam parte do cortejo de Jesus.

A narração da cura, propriamente dita, é feita em forma de diálogo entre Jesus e o cego (vv. 50-52).  Jesus toma a iniciativa e manda chamar o cego, que liberta-se de sua capa e coloca-se diante de Jesus.  Longe de o proibir que usasse um título messiânico referente a sua pessoa “Filho de Davi”, começa o diálogo, quando Jesus pergunta: “O que queres que eu te faça?” A resposta do cego é um pedido confiante: “Rabôni, que eu veja!” (v. 51). Ao que Jesus responde: “Vai, a tua fé te curou”.  É o que o Senhor queria deixar patente: a fé do suplicante desencadeia o favor divino.

O texto nos mostra que Bartimeu quer sair desta situação de dependência custe o que custar. Ele não está satisfeito com a vida que leva, tem esperança de dias melhores e se decide a agir. Quando sabe que Jesus passa pelo seu caminho, grita pedindo socorro. Em seu brado encontramos o uso de um título messiânico – ele chama Jesus de “Filho de Davi”. Este é o nome que o povo usava para se referir ao Messias. Jesus não o repreende por usar este nome, afinal está subindo a Jerusalém e não há mais como interpretar este título de modo errôneo, visto que doará em breve sua vida. No fundo trata-se de uma profissão de fé, Bartimeu sabe que Jesus é o Messias e pede seu auxílio. Neste momento, muitos exigem que o cego se cale, mas ele grita ainda mais alto.

O homem, apesar de ser mendigo e cego, vê quem Jesus écom mais clareza do que os discípulos e a multidão que têm estado com Jesus o tempo todo! A expressão “Filho de Davi” refere-se também a esperança secular do povo de Israel, de que Deus enviaria um Salvador. E aquele homem, embora cego, percebeu, pela luz do Espírito de Deus, que Jesus era a realização desta esperança. Foi por isso que o cego tinha toda certeza de ser curado, de ser atendido pelo Filho de Deus.

Mas Deus sempre ouve o clamor dos que sofrem e Jesus manda chamar o cego. Outro detalhe de grandioso ensinamento: não é ele que chama diretamente, mas manda que chamem o doente. O texto não nos diz quem foi chamar o cego, mas certamente foi algum discípulo do Senhor. O chamado de Deus nos vem por intermédio de nossos irmãos. A tarefa do seguidor de Jesus não é impedir alguém de se encontrar com o Mestre, mas de encaminhá-lo para ele.

Quando o cego é chamado, lhe é dito que deve ter coragem, pois foi chamado pelo Senhor! O cego se levanta, dá um pulo e joga fora seu manto indo ao encontro de Jesus. O manto de um pobre era sua única posse (cf. Ex 22,26) e Bartimeu tem a coragem de largar o que tinha. Trata-se aqui do desapego dos bens materiais para se colocar a caminho seguindo o Senhor. No seguimento de Jesus sempre é necessário deixar algo, os apóstolos deixaram os barcos (cf. Mt 4,20), a Samaritana deixou o balde na beira do poço de Jacó (cf. Jo 4,28). Ao deixar de lado o manto, o cego deixa sua segurança, desapega-se de sua vida passada e deseja iniciar nova caminhada.

O manto podia estar colocado debaixo do cego, como almofada, ou nos seus joelhos, para recolher as moedas que lhe atiravam; em qualquer caso, este manto é tudo o que o mendigo possui, a única coisa de que ele pode separar-se. O jogar fora o manto significa, portanto, o deixar tudo o que se possui para ir ao encontro de Jesus. É um corte radical com o passado, com a vida antiga, com a anterior situação, com tudo aquilo em que se apostou anteriormente, a fim de começar uma vida nova ao lado de Jesus.  No mesmo instante o cego recobrou a vista e passou a seguir Jesus pelo caminho, não sem antes abandonar o manto.

O fato de o cego seguir pelo mesmo caminho mostra que ele não recuperou apenas a vista exterior, mas teve também uma recuperação interior, espiritual.  Crendo, compromete-se com o Cristo, enveredando por um caminho pouco atraente. As aventuras que o esperam não prometem felicidade. Jesus já está quase no final do seu caminho; os apóstolos estavam assustados; Bartimeu, no entanto, o seguia.  Encontrou ele a Luz e abandonou sua cegueira; achou o tesouro e deixou de pedir esmola; descobriu o sentido da vida e se colocou a caminho, abraçando aquele que é Caminho e Caminhante conosco.

Em certo sentido também nascemos cegos. Há outros olhos que devem ainda abrir-se ao mundo, além dos físicos: os olhos da fé! Permitem vislumbrar outro mundo muito além do que vemos com os olhos do corpo: o mundo de Deus, da vida eterna, o mundo do Evangelho, do mundo que não termina nem mesmo com o fim do mundo.  O “cego” é um símbolo de todos os homens e mulheres que vivem na escuridão, privados da “luz”, prisioneiros dessas cadeias que os impedem de chegar à plenitude da vida

Deus é a luz e dá a luz aos que desejam ver.  Ele é a luz do mundo.  A missão do Servo é trazer a luz (cf. Is 42,6-7).  Jesus é a luz que pode iluminar aos que estão nas trevas e nas sombras da morte (cf. Lc 1,79). Luz e vida são duas experiências de plenitude e encontro. Bartimeu vai ao Encontro de Jesus que é a luz e a vida. Este encontro fez de Bartimeu um homem novo.

Luz é também  a palavra de Deus que ilumina o caminho: “Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119,105);  “Tu és Senhor a minha luz; meu Deus, ilumina minha trevas (cf. Sl 18,29).  A luz sempre nos chega por Deus.  O relato do Evangelho põe em ação o dom da luz.  Essa luz que é a primeira palavra de Deus ao mundo: “Faça-se a luz!  E a luz apareceu” (Gn 1,3).  Desde o primeiro instante da criação tudo clama por luz: “Em ti está a fonte da Vida e em tua luz veremos a luz” (Sl 36,10).  Mas o evangelho de São João nos adverte: “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz… Quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz… Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,19-21).

Muitas vezes encontramos na bíblia a cegueira espiritual que vem do orgulho, da ignorância, do ódio e do pecado (cf. Jo 12,40; Mt 15,14; Rm 2,19; 1Jo 2,11). Jesus é a luz que vem para iluminar a todos, tirar da escuridão e das trevas. Muitos não aceitaram o Senhor e vários ainda não o aceitam, pois não se deixam iluminar por Deus.

A vista física é símbolo da luz espiritual restabelecida ou encontrada.  Bartimeu passou da indigência mais radical para fazer parte da família espiritual de Jesus.  Todos nós temos uma cegueira espiritual que nasce do pecado.  Esta cegueira não nos permite ver bem para onde devemos ir, qual é a nossa vocação e nosso destino.

Deixemo-nos também ser curados por Jesus, que quer nos dar a luz de Deus! Confessemos nossa cegueira, nossa miopia. Tenhamos certeza que Cristo dá a luz da fé a quem o acolhe. A oração do cego Bartimeu: “Filho de Davi, Jesus, tende piedade de mim!”, comoveu o coração de Cristo, que pára, o manda chamar e o cura.  Peçamos ao Senhor que também tenha piedade de cada de um nós, nos cure e purifique.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB.

Mosteiro de São Bento/RJ

XXIX SEMANA DO TEMPO COMUM – Ano B

Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos

Mc 10,35-45

Caros irmãos e irmãs,

Continuamos a percorrer neste domingo, com Jesus e com os seus discípulos, o caminho para Jerusalém. O Evangelista São Marcos observa que, nesta fase, Jesus vai à frente e os discípulos o seguem (cf. Mc 10,32). Jesus continua a sua catequese e, mais uma vez, lembra a eles que, em Jerusalém, será entregue nas mãos dos líderes judaicos e se cumprirá o seu destino de cruz (cf. Mc 10,33-34). Durante esse caminho, Jesus vai completando a sua catequese sobre as condições necessárias para integrar a comunidade messiânica. O texto que nos é proposto demonstra que os discípulos continuam a raciocinar em termos de poder, de autoridade, de grandeza e vêem na proposta do Reino Messiânico a ser instaurado por Jesus a oportunidade de realizar os seus sonhos humanos.

Logo no início do evangelho é ressaltada a pretensão de Tiago e de João, filhos de Zebedeu que, apoiados pela mãe, reivindicam um lugar de honra no Reino que vai ser instaurado, um à direita e outro à esquerda de Jesus.  Os dois irmãos, Tiago e João, se apresentam a Jesus dizendo: “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir” (v. 35).  Eles parecem exigir esta honra: “Queremos”, dizem.

Diante desta manifestação de ambição, honrarias e privilégios, Jesus não se mostra de forma alguma condescendente, porque toda ambição contraria os fundamentos da sua proposta.  Em relação a João e Tiago, Jesus é severo: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” (v. 38).  E para ajudá-los a superar a própria incompreensão, serve-se de duas figuras: a do cálice e a do batismo.

O cálice é uma referência aos sofrimentos pelos quais Jesus teria que passar.  Em sua agonia na cruz, teria dito: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice” (Lc 22,42).  Esta imagem do cálice aparece ainda com freqüência na Sagrada Escritura.  O cálice indica o destino, favorável ou não de uma pessoa.  Jesus está ciente que o aguarda um cálice de sofrimentos, um cálice dos quais gostaria de ser poupado.  Com esta imagem do cálice, Ele assegura aos dois discípulos a possibilidade de serem associados plenamente ao seu destino de sofrimento, mas sem garantir os desejados lugares de honra. A sua resposta é um convite a segui-lo pelo caminho do amor e do serviço, rejeitando a tentação mundana de querer sobressair perante os outros.

Já o batismo, de acordo com o texto, é uma referência ao mar de sofrimentos nos quais Jesus será mergulhado.  A imagem do batismo tem o mesmo sentido: indica a passagem através das águas da morte.  Os sofrimentos e as aflições que o justo deve suportar são freqüentemente comparados pela Bíblia a uma imersão em águas profundas ou à agitação de águas impetuosas (cf. Sl 69,2-3; 42,8).  Evoca a participação e imersão na paixão e morte de Jesus (cf. Rm 6,3-4).

Certamente Tiago e João imaginam que o Reino proposto por Jesus seria algo poderoso e glorioso e, por isto, almejam, desde logo, lugares de honra ao lado dele. O fato mostra como Tiago e João, mesmo depois de toda a catequese que receberam durante o caminho para Jerusalém, ainda não entenderam a lógica do Reino de Deus e ainda continuam a refletir e a sentir de acordo com a lógica do mundo.  Para fazer parte da comunidade do Reino de Deus é preciso, portanto, que os discípulos estejam dispostos a percorrer, com Jesus, o caminho do sofrimento que irá culminar com a morte. Apesar de Tiago e João manifestarem, com toda a sinceridade, a sua disponibilidade para percorrer este caminho, Jesus não lhes garante uma resposta positiva a esta pretensão.

Na segunda parte do nosso texto (vv. 41-45), temos a reação indignada dos discípulos à pretensão dos dois irmãos, o que indica que todos eles tinham as mesmas pretensões e revela que  Tiago e João estavam longe de ter assimilado o pensamento do Mestre.  Novamente Jesus toma a palavra e outra vez lhes ensina. Foi preciso que Jesus mostrasse qual deve ser a atitude dos seus discípulos, tendo a si mesmo como referência: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (v. 45). Na tradição bíblica, a expressão “Filho do Homem” indica aquele que recebe de Deus “as soberanias, a glória e a realeza” (Dn 7,14). Jesus enche de novo sentido esta imagem, especificando que ele tem a soberania enquanto servo, a glória enquanto capaz de se humilhar, a autoridade real enquanto disponível ao dom total da vida.  Assim, Jesus se apresenta como o modelo a ser seguido.  Sua vida sempre foi pautada como um serviço, aos pecadores, aos desprezados, aos últimos. O ponto culminante dessa vida de doação e de serviço foi a morte na cruz, expressão máxima e total do seu amor.

E Jesus aproveita a circunstância para reiterar a sua instrução. Inicia recordando a eles o modelo dos governantes das nações e dos grandes do mundo (v. 42). Eles afirmam sua autoridade absoluta, dominam os povos pela força e submetem-nos, exigem honras, privilégios e títulos, promovem-se à custa da comunidade, exercem o poder de uma forma arbitrária.  Ora, este esquema não pode servir de modelo para os seus discípulos. Eles devem ter como referência a lei do amor e do serviço. Os seus membros devem sentir-se “servos” dos irmãos, dedicados em servir com humildade e simplicidade, sem qualquer pretensão de mandar ou de dominar.

Jesus ainda enfatiza: “Quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos” (v. 44). Para os seguidores de Cristo a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço.  Jesus nos convida a servir e partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.  Chama a nossa atenção que, quando por ocasião da redação do Evangelho de São Marcos, um dos dois irmãos, Tiago, já teria dado a sua vida por Cristo, morrendo como mártir em Jerusalém (cf. At 12,2) e o outro, João, estaria pregando o evangelho, dando, assim, prova de que compreenderam o ensinamento do Mestre. 

A mensagem que o Evangelho deste domingo nos deixa está no sentido do serviço e aponta para a porta que leva à grandeza evangélica: estar a serviço do próximo.  É o caminho que o próprio Cristo percorreu até à cruz, em um itinerário de doação e de amor. Muitos santos deixaram se guiar por esta lógica.  Podemos citar São Vicente de Paulo e Santa Teresa de Calcutá, pois com coragem heróica eles assumiram o serviço generoso aos irmãos mais necessitados.

Jesus disse certa vez: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). É uma verdade fundamental para compreender o sentido do serviço que devemos realizar em prol dos mais necessitados.  Esta é a base para a vivência do Evangelho de Jesus.  Os santos tiveram consciência de que, ao tocar os corpos enfraquecidos dos pobres, tocavam o corpo de Cristo. O serviço que eles realizavam destinava-se ao próprio Jesus, escondido nos mais humildes. O que realça o significado mais profundo desse serviço está no gesto de amor feito aos famintos, aos sequiosos, aos estrangeiros, a quem está doente ou na prisão, pois neles está o próprio Cristo (cf. Mt 25,34ss).

Peçamos ao Senhor que nos faça colocar em prática o dom do serviço e da humildade e que sejamos bons e autênticos servidores da paz, do amor e da fraternidade, levando a todos, a esperança e a paz. Assim seja.

D.Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteirode São Bento / RJ

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

 O desapego dos bens materiais

Mc 10,17-30

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos fala de alguém que veio correndo ao encontro de Jesus e lhe faz uma pergunta: “Bom Mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (v.17). Com este questionamento tem início o breve diálogo de Jesus com um jovem, assim identificado no Evangelho de São Mateus (cf. Mt 19,6).  A pergunta do Evangelho contempla o futuro, mas é um compromisso com o presente: o sentido da vida.

Antes de dar sua resposta, Jesus questiona a pergunta: “Por que me chamas de bom?” (v. 18).  Ao contrário dos rabinos e doutores da lei, que amavam títulos honrosos, Jesus dirige tudo a Deus: Somente Deus é bom no sentido pleno do termo.  Mas, aquele jovem, anônimo, percebeu que Jesus é bom e que é mestre. Um mestre que não engana. Quem reconhece o bem é sinal que ama. E quem ama, na feliz expressão de São João, conhece a Deus (cf. 1Jo 4,7). O jovem do Evangelho teve uma percepção de Deus em Jesus Cristo.  Ele se ajoelha diante de Jesus, mostrando o reconhecimento da divindade de Jesus Cristo.  Trata de uma pessoa bem intencionada, realmente preocupada com a obtenção da vida eterna.  Em um curto diálogo manifesta o seu desejo sincero de alcançar a vida eterna, vivendo a sua existência terrena de maneira honesta e virtuosa.

No Antigo Testamento, a ideia de vida eterna aparece, pela primeira vez em Dn 12,2. Para alguns teólogos da época do judaísmo helenístico, os justos que se mantiverem fiéis a Deus e à Lei não serão condenados ao sheol, local onde os espíritos dos mortos levam uma existência obscura, no reino das sombras, mas ressuscitarão para uma vida nova, de alegria e de paz (cf. 2Mac 7,9.14.36). A vida eterna, segundo os teólogos desta época, parece já incluir a ideia de imortalidade (cf. Sb 3,4; 15,3). Provavelmente é isto que inquieta o jovem e ele deseja saber o que é necessário fazer para ter acesso a essa vida imortal que Deus reserva aos justos. De acordo com a catequese feita pelos mestres de Israel, quem vivesse de acordo com os mandamentos da Lei, receberia de Deus a vida eterna. Reconhecendo a divindade de Jesus, o jovem quer certificar a verdade.

Em sua catequese Jesus mesmo explicita: “Conheces os mandamentos?”  O jovem explica a Jesus que desde sempre a sua vida foi vivida em consonância com os mandamentos da Lei de Deus (v. 20). É uma afirmação segura e serena, que o próprio Jesus não contesta. As questões por ele apresentadas mostram a sua inquietação, a sua procura, a sua busca da definição do verdadeiro caminho para a vida eterna. Jesus reconhece a sinceridade, a honestidade, a verdade da busca deste homem; por isso, olha para ele “com amor” (v. 21).

O Evangelho nos assegura que aquele jovem era muito rico. A própria juventude é uma riqueza singular. É preciso descobri-la e valorizá-la.  Jesus convida o homem rico a dirigir os seus passos em uma outra direção: segui-lo, pois para ganhar a vida eterna é preciso estar com Jesus.  Mas antes de fazer o convite a segui-lo, Jesus fixa nele um olhar cheio de amor: o olhar de Deus (cf. v. 21). E compreende qual é o ponto frágil daquele homem: precisamente o seu apego aos muitos bens que possui e, por isso, lhe propõe que dê tudo aos pobres, de modo que o seu tesouro já não esteja na terra, mas no céu. Aquele homem, porém, em vez de aceitar com alegria o convite de Jesus, sai entristecido (cf. v. 23), porque não consegue desapegar-se das suas riquezas.

É este olhar de amor que tudo transforma.  Jesus quer fazer compreender ao jovem rico que lhe falta o essencial: deixar-se amar em primeiro lugar, descobrir que todos os seus bens materiais nunca poderão preencher a necessidade vital de todo o homem que consiste em ser amado.  As riquezas podem ser um obstáculo ao amor. As riquezas do jovem o impediram de identificar o olhar de Jesus. Fechado em sua riqueza, ele partiu, saiu de perto de Jesus, mas Jesus não lhe retirou o seu amor, acompanhou-o sempre com o seu olhar de amor.

Com esta passagem, Jesus mostra aos seus discípulos a incompatibilidade entre o Reino e o apego às riquezas. Na perspectiva dos teólogos de Israel, as riquezas são uma bênção de Deus (cf. Dt 28,3-8); mas a catequese tradicional também está consciente de que colocar a confiança e a esperança nos bens materiais envenena o coração do homem, torna-o orgulhoso e auto-suficiente e o afasta de Deus e das suas propostas (cf. Sl 49,7-8; 62,11).

Jesus nos ensina a não centralizar a própria vida nos bens passageiros deste mundo, mas assumir a partilha e a solidariedade para com os irmãos mais necessitados, seguir o próprio Jesus no seu caminho de amor e de entrega (v. 21). Apesar de toda a sua boa vontade, o jovem não está preparado para a exigência deste caminho e afasta-se triste. São Marcos explica que ele estava demasiado preso às suas riquezas e não estava disposto a renunciar a elas (v. 22).

Frente a reação alarmada e desorientada dos discípulos face a esta exigência de radicalidade, temos a pergunta: “Quem pode, então, salvar-se?” (v. 26). Neste momento, Jesus pronuncia palavras de conforto, apresentando o poder de Deus como incomparavelmente maior do que a debilidade humana: “Aos homens é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível” (v. 27). A ação de Deus, gratuita e misericordiosa, pode mudar o coração do homem.

Com esta passagem do Evangelho, Jesus ressalta que para um rico é muito difícil entrar no Reino de Deus, mas não impossível; de fato, Deus pode conquistar o coração de uma pessoa que possui muitos bens e levá-la à solidariedade. Somos chamados a estar no caminho de Jesus Cristo, o qual “sendo rico, fez-se pobre por vós, para que nos tornássemos ricos por meio da sua pobreza” (2Cor 8, 9).

O convite dirigido ao jovem “Vem e segue-me”, é hoje estendido também a cada um de nós.  Esta é a vocação cristã que brota de uma proposta de amor do Senhor, concretizada graças à nossa resposta de amor.  Muitos santos acolheram este convite exigente e se colocaram, com docilidade humilde, no seguimento de Cristo.

A história da Igreja nos apresenta relevantes exemplos de pessoas ricas, que usaram os próprios bens de modo evangélico, alcançando também a santidade. Pensemos em São Francisco de Assis, São Bento, Santa Isabel da Hungria, São Francisco Xavier e em muitos outros, que deixaram seus bens e seguiram o Cristo, que a todo momento nos chama à santidade.  Ao contrário do jovem rico do Evangelho, saibamos aceitar o convite de Jesus, para segui-lo com o coração desapegado dos bens terrenos, que não nos garantem a vida eterna.

E, para animar os nossos passos nesta direção, peçamos a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do nosso Brasil, cuja solenidade celebramos no dia 12, que ela nos conduza, com seu auxílio materno, no caminho da perfeição e nos acompanhe ao longo de toda a nossa vida. E ela, a Mãe de Deus, a quem invocamos como Sede da Sabedoria, nos faça acolher com alegria o convite de Jesus para entrar na plenitude da vida.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento / RJ

XXVII SEMANA DO TEMPO COMUM – Ano B


 O que Deus uniu

Mc 10,2-16

Meus caros irmãos e irmãs,

As leituras bíblicas, que compõem a Liturgia da Palavra deste domingo, nos apresentam o projeto de Deus para o homem e para a mulher, e sinalizam o tema do matrimônio presente no Evangelho e na primeira leitura. A mensagem da Palavra de Deus pode ser resumida na expressão contida no livro do Gênesis e retomada pelo próprio Jesus no Evangelho: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24, Mc 10,7-8), cujo objetivo é formar uma comunidade de amor, estável e indissolúvel.

Lançando um olhar inicial para a primeira leitura (cf. Gn 2,18-24), observa-se que Deus colocou o homem no Jardim do Éden, um ambiente de felicidade material, onde todas as exigências da vida humana se compunham. Contudo, o homem não estava plenamente realizado, pois lhe faltava alguém com quem pudesse compartilhar a sua vida.  E ao constatar a solidão do homem, Deus quis encontrar para ele uma companhia adequada e apresentou diante dele “todos os animais do campo e todas as aves do céu”, a fim de que os chamasse pelos seus respectivos nomes (v. 19). O fato de “dar um nome” indica um ato de domínio e de posse. O fato de Deus ter conduzido os animais para que o homem lhes desse um nome era, na perspectiva do texto bíblico, o reconhecimento por parte de Deus da autonomia do homem e a sua associação à obra criadora do Senhor Deus.  No entanto, o homem não encontrou, nesse mundo animal que Deus lhe confiou, “uma auxiliar semelhante a ele” (v. 20), Diante disso, Deus reconhece que “não é bom que o homem esteja só” (v. 18).

A nova ação de Deus começa com um “sono profundo” do homem. Depois, Deus tirou uma de suas costelas para criar a mulher.  Em seguida o Senhor Deus a conduz ao homem. O homem, ao despertar do “sono profundo”, acolhe a mulher com uma expressão de alegria e a reconhece como a companhia que lhe faltava, o seu complemento, o seu outro eu: “Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23). O homem (v. 23) dá à sua companheira o nome de “mulher” (em hebraico: ‘ishah) porque foi tirada do homem (em hebraico: ‘ish). A proximidade das duas palavras sugere a proximidade entre o homem e a mulher, a sua igualdade fundamental em dignidade, a sua complementaridade, o seu parentesco.  E o texto termina com uma frase que diz: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne” (v. 24).

Pode-se observar que Deus criou o homem e a mulher para ser auxílio mútuo e para partilhar a vida no amor. É no amor e não na solidão que o homem encontra o sentido para a sua existência. O Homem e a mulher são iguais em dignidade. Eles são “da mesma carne”, em igualdade de ser participantes do mesmo destino; completam-se um ao outro e, na perspectiva de uma ajuda mútua, chegam à plena realização. São, portanto, iguais em dignidade. Esta realidade exige que homem e mulher se respeitem um ao outro.

O texto do evangelho nos apresenta mais um ensinamento de Jesus, desta vez respondendo a uma pergunta dos fariseus sobre o matrimônio e o divórcio.  Os fariseus eram os fanáticos observantes da lei e, a Lei de Israel permitia o divórcio (cf. Dt 24,1); mas não era totalmente clara acerca das razões que poderiam fundamentar a rejeição da mulher pelo marido.  A mulher, por sua vez, era autorizada a obter o divórcio em tribunal somente no caso de o marido estar afetado pela lepra ou exercer um ofício repugnante. É nesta discussão de contornos pouco claros que os fariseus procuram envolver Jesus. A pergunta dos fariseus insere-se, provavelmente, na tentativa de encontrar razões para eliminar Jesus.

Diante da questão posta pelos fariseus “pode um homem repudiar a sua mulher?” (v. 2), Jesus começa por recordar-lhes o estado da questão na perspectiva da Lei: “O que vos ordenou Moisés?” (v. 3). Não significa que Jesus está se identificando com o posicionamento da Lei a propósito da questão do divórcio. Efetivamente, a Lei de Moisés permitia o divórcio, contudo, essa condescendência da Lei não resulta do projeto de Deus para o homem e para a mulher, mas é o resultado da “dureza do coração” dos homens. Em contraste com a permissividade da Lei, Jesus vai apresentar o projeto primordial de Deus para o amor do homem e da mulher. Fazendo referência ao Livro do Gênesis, Jesus explica que, no projeto original de Deus, o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se completarem, para se ajudarem, para se amarem. Unidos pelo amor, o homem e a mulher formarão “uma só carne”. A separação será sempre o fracasso do amor; não está prevista no projeto original de Deus. Jesus reitera que a relação entre o homem e a mulher deve se enquadrar no projeto inicial de Deus. A perspectiva de Deus é que marido e mulher, unidos pelo amor, formem uma comunidade de vida estável e indissolúvel. Ambos, em igualdade de circunstâncias, são responsáveis pela edificação da comunidade familiar.

A vocação para o matrimônio está inscrita na própria natureza do homem e da mulher, tais como saíram das mãos do Criador, e ao criá-los Deus os fez imagem do amor.  E este amor, que Deus abençoa, está destinado a ser fecundo e a realizar-se na obra comum do cuidado da criação, conforme podemos ler na própria Sagrada Escritura: “Deus abençoou-os e disse-lhes: ‘Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a’” (Gn 1,28).

A união matrimonial do homem e da mulher é indissolúvel: foi o próprio Deus que a estabeleceu: “Não separe, pois, o homem o que Deus uniu” (Mt 19,6). É seguindo a Cristo, na renúncia e nas provações que os esposos poderão compreender o sentido original do matrimônio e vivê-lo com a ajuda de Cristo.  E o Apóstolo São Paulo exorta: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, a fim de a santificar” (Ef 5,25-26): e acrescenta imediatamente: “É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja” (Ef 5,32).

E este é também o amor oferecido aos esposos no Sacramento do matrimónio. É o amor que alimenta o seu relacionamento, através de alegrias e dores, de momentos tranquilos e difíceis. É o amor que suscita o desejo de gerar filhos, de os esperar, acolher, criar e educar. É o próprio amor que, no Evangelho, Jesus manifesta às crianças: “Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham” (Mc 10, 14).

O vínculo matrimonial é, portanto, estabelecido pelo próprio Deus, de maneira que o matrimônio ratificado e consumado entre batizados não pode jamais ser dissolvido. Este vínculo, resultante do ato humano livre dos esposos e da consumação do matrimônio, é, a partir de então, uma realidade irrevogável.  Pela sua própria natureza, o amor dos esposos exige a unidade e a indissolubilidade e são chamados a crescer sem cessar na sua comunhão, através da fidelidade quotidiana à promessa da mútua doação total que o matrimônio implica (cf. CIgC, n. 1644). Esta é uma consequência da doação de si mesmos que os esposos fazem um ao outro.

O matrimônio está ligado à fé e, nos tempos atuais, somos capazes de compreender toda a verdade desta afirmação, em contraste com a dolorosa realidade de muitos matrimônios que, infelizmente, acabam mal. Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha, o matrimônio é chamado a ser o sujeito da nova evangelização, testemunho da unidade querida por Deus em cada circunstância da vida, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, como prometeram no rito sacramental.

Possamos pedir a intercessão da Virgem Maria e do seu esposo São José pela estabilidade conjugal de todos os casais. E com eles, invocamos uma especial efusão do Espírito Santo, para que ilumine do alto todos os cônjuges, tornando fecunda a relação conjugal e, desta união, tendo como base o amor e o bem, possam no mundo, ser um testemunho eficaz da partilha, da unidade e da paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento / RJ