XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

 Quem não está contra nós está a nosso favor

Mc 9,38-43.45.47-48

Meus caros irmãos e irmãs,

No domingo passado refletimos sobre o texto do evangelho de São Marcos, onde os discípulos, após discutirem pelo caminho, sobre qual deles seria o maior, recebem uma instrução especial de Jesus. Tomando uma criança e colocando-a no meio deles, Jesus mostra qual é a atitude verdadeira que seus discípulos devem ter na vida: Ocupar o último lugar e tornar-se servos uns dos outros (cf. Mc 9,30-37). O texto deste domingo é a continuação deste episódio. No caminho, eles não apenas haviam discutido quem seria o maior, mas também tentaram impedir que alguém que não pertencia ao seu grupo realizasse boas ações em nome de Jesus. É João que, representando os demais apóstolos, confessa: “Mestre, vimos alguém que não nos segue, expulsando demônios em teu nome, e o impedimos porque não nos seguia” (Mc 9,38).

Dentro deste contexto, observa-se uma estreita unidade entre a primeira leitura (cf. Nm 11,25-29) com o texto do Evangelho.  Moisés havia se dedicado totalmente ao serviço do seu povo, mas nos últimos anos da sua vida, foi dominado por um certo desânimo, devido aos muitos problemas.  Por isto, certa vez ele se queixou ao Senhor: “Porventura sou eu que concebi esse povo?  Eu sozinho não posso suportar a carga de um povo tão numeroso e indisciplinado” ( Nm 11,10-15).  O Senhor então respondeu a Moisés: “Escolhe 70 homens que estejam em condições de colaborar contigo, sobre eles farei descer o mesmo Espírito que se encontrava em ti” (Nm 11,16-18).  No dia marcado os 70 homens se reuniram na tenda, aonde Deus descia para falar com Moisés, receberam o Espírito e começaram a profetizar; isto é, foram tomados por um estado de exaltação coletiva e falavam em nome de Deus (v. 25).  Dois anciãos do povo, Eldad e Medad, muito embora não tivessem participado da cerimônia, receberam também o Espírito e se tornaram profetas, exatamente como os outros 70.  Diante disto, Josué se indignou e pediu a Moisés para que interviesse a fim de impedi-los de profetizar.  Moisés, cheio de sabedoria e de grande misericórdia, corrigiu a atitude de Josué.

No Evangelho temos algo semelhante, quando João afirma que havia proibido um homem de expulsar demônios em nome de Jesus, ao que o próprio Jesus responde: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor” (Mc 9,39).  João, assim como Josué, está preocupado com aqueles que profetizam ou realizam boas obras fora do grupo dos escolhidos. Moisés e Jesus, no entanto, expressam a liberdade com relação a isso. Se o indivíduo, de fato, foi capaz de realizar um milagre, invocando o nome de Jesus, é porque, de alguma forma, estava em comunhão com ele.  Seria impensável que, logo em seguida, se pusesse a falar mal do Mestre e desmerecer sua obra.  Portanto, podia continuar livremente a fazer o bem em nome dele.

O episódio da incapacidade dos discípulos de curar um homem possuído pelo demônio (cf. Mc 9,17s), narrado no mesmo capítulo, mostra que não é a pertença ao círculo dos discípulos que habilita “expulsar demônios”, mas o dom de Deus e as disposições adequadas para acolher esse dom.

Essa é mais uma atitude que revela o grau de imaturidade em que se encontram os discípulos de Jesus. Eles também já haviam sido enviados pelo Mestre para pregar o Evangelho e “expulsar muitos demônios e curar muitos enfermos” (Mc 6,12).  Numerosas pessoas foram beneficiadas. Certamente sentiram-se privilegiados por serem escolhidos por Jesus e enviados por ele para tão significativa missão. O que eles não esperavam é que outras pessoas, além deles, pudessem realizar as mesmas obras. Certamente ficaram enciumados, como aconteceu com Josué, conforme nos revela a primeira leitura.

Todas as pessoas recebem dons para alegria e felicidade de todos, independentemente da instituição ou da tradição religiosa a que pertencem. Portanto, não tem sentido o ciúme ou a competição. O que importa é que todos os dons sejam aplicados verdadeiramente para o projeto de vida nova para todos. Sem Jesus, os discípulos não podem fazer nada, mas o poder de Deus manifestado em Jesus não é posse exclusiva dos discípulos.

No texto do evangelho deste domingo temos ainda outros ensinamentos de Jesus a seus discípulos. E sublinha:  “Ai daquele que fizer cair no pecado a um destes pequeninos…” (v. 42).  A palavra “escândalo”, na linguagem bíblica, tem dois significados fundamentais: o de “tropeço” e o de “obstáculo”.  Na primeira referência indica algo que é causa de queda, que leva para fora do caminho, que conduz ao pecado e à “geena”, que em muitas traduções traz também a palavra inferno.  A segunda expressão: “obstáculo”, indica algo que barra e impede o acesso; ou seja, aquilo que se opõe à fé e à entrada no reino de Deus.

Geena é o nome de um vale que fica a oeste de Jerusalém, onde crianças eram oferecidas em sacrifício a Moloc (cf. 2Rs 23,10; Jr 7,31; 19,5s).  Um local usado como lugar de queima do lixo. Um constante fogo queimava o lixo da cidade e uma fumaça mal cheirosa mantinha as pessoas afastadas.  Era um lugar desagradável, símbolo da ruína e da destruição para a qual caminha quem se entrega ao pecado.  Tornou-se assim o sinônimo do lugar de castigo.  A expressão “ir para geena”, em contraste com “entrar na vida”, significa a ruína espiritual, a destruição. O local onde o fogo nunca se apaga.

Essas analogias eram conhecidas no tempo de Jesus e eram frequentemente usadas pelos rabinos para advertir e inculcar nas pessoas uma seriedade de vida mais profunda, para sacudir a consciência de quem descuidava dos próprios deveres em relação a Deus e ao próximo.  E a temática do “escândalo aos pequeninos” é tão forte que Jesus diz que é melhor perder algo importante para si do que cair neste pecado. Evidentemente, esses versículos não podem ser entendidos literalmente. Não se trata de mutilar o próprio corpo para evitar o pecado. Trata-se, sim, de viver uma autêntica ascese, sabendo cuidar de si mesmo e retirando da vida aquilo que pode levar a romper a comunhão com Deus.

Contudo, o maior escândalo, por parte dos cristãos, consiste em não viver as exigências da fé e barrar o caminho a quem quer acolher Cristo em sua vida.  Se somos cristãos e não damos o exemplo, se não vivemos as exigências da fé, podemos ser também motivo de escândalo para as outras pessoas. Se professamos seguir o Evangelho e depois, na vida, somos injustos com o próximo, alheios frente a necessidade e a dor do nosso irmão, impedimos que as pessoas levem a sério a palavra de Jesus, que se convertam e creiam nele. Há muitos que estão alheios, e mesmo combatem a fé, em função do mau testemunho que nós, cristãos, damos.

Peçamos ao Senhor Jesus que nos faça eliminar toda atitude arrogante, que causa o mal e a desordem na nossa própria vida e na vida do nosso próximo, sobretudo dos mais pequeninos. Que saibamos experimentar cada dia as palavras do Evangelho e façamos uma honesta análise do nosso comportamento, se estamos ou não sendo motivos de escândalo para os outros. Procuremos extirpar tudo o que contradiz o Evangelho e causa dano aos que querem entender e praticar verdadeiramente os ensinamentos de Jesus.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

 Ser o servo de todos

Mc 9,29-36

Caros irmãos e irmãs,

O texto evangélico que a Igreja nos convida a refletir para este domingo nos mostra Jesus a caminho de Jerusalém.  Ao longo desse itinerário Jesus vai catequizando o seu grupo de discípulos, ensinando a eles os valores do Reino de Deus e mostrando, com gestos concretos, o projeto que o Senhor tem para toda a humanidade. Jesus começa anunciando mais uma vez aos seus discípulos o caminho pelo qual terá que passar: paixão, morte e ressurreição (cf. Mc 9, 30-31). Ao longo do texto observamos que fica evidenciado o forte contraste entre a mentalidade de Jesus e a mentalidade dos seus doze Apóstolos, que não compreendem as palavras do Mestre e rejeitam a ideia de que ele vá ao encontro da morte (cf. Mc 8, 32). Entretanto, discutem entre si sobre quem deve ser considerado “o maior” (cf. Mc 9, 34).

A catequese de Jesus é feita com paciência, ressaltando que: “Se alguém quiser ser o primeiro, há de ser o último de todos e o servo de todos” (Mc 9, 35). É esta a identidade do amor que se faz serviço até à entrega de si mesmo.  Jesus faz aos seus discípulos uma pergunta aparentemente indiscreta: “Que discutíeis pelo caminho?” (Mc 9,33). Eles ficaram em silêncio porque, no caminho, tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior, quem era o mais importante. Sentiam vergonha de dizer a Jesus aquilo de que estavam a falar.

É esta uma das principais mensagens que Jesus quer nos deixar para este domingo, a partir de uma pergunta feita aos seus discípulos: “Que discutíeis pelo caminho?” (v. 33). A discussão, de fato, mostra uma certa indiferença dos discípulos com relação ao caminho de Jesus, que é o caminho da dor, do sofrimento, da cruz.  É este o caminho pelo qual eles também estão chamados a ir.

Jesus é simples na sua resposta: “Se alguém quiser ser o primeiro, ou seja, o mais importante, há de ser o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,35). Quem quiser ser grande, sirva os outros e não se sirva dos outros. E este é o grande paradoxo de Jesus. Os discípulos discutiam sobre quem deveria ocupar o lugar mais importante, quem seria selecionado como o privilegiado.

O convite ao serviço apresenta uma peculiaridade a que devemos estar atentos. Servir significa, em grande parte, cuidar da fragilidade. Servir significa cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo.  Todos somos convidados, encorajados por Jesus a cuidar uns dos outros por amor.

Os discípulos de Jesus estavam imbuídos deste sentimento de honra e glória, uma vez que se aproximava o triunfo do Messias e iam ser distribuídos os postos-chave na cadeia de poder do reino messiânico, por esta razão, convinha ter o quadro hierárquico claro. Apesar de Jesus ter dito pouco antes sobre seu caminho de cruz, os discípulos recusavam-se a abandonar os seus próprios sonhos materiais e humanos.  Esta preocupação dos discípulos de Jesus afeta a essência da proposta apresentada pelo próprio Cristo. Na comunidade de Jesus, só é grande aquele que é capaz de servir e de oferecer a vida aos seus irmãos (v. 35). Dessa forma, Jesus exclui qualquer pretensão de poder, de domínio, de grandeza, segundo a lógica do mundo, pois sabe que isto contradiz a proposta de Deus.

Mas Jesus diz: “Se alguém quer ser o primeiro…”.  Portanto, é ilícito querer sê-lo! O que Jesus muda radicalmente é o motivo desse desejo e, portanto, também o modo de realizá-lo: “Seja o último de todos e o servo de todos” (v. 35). Os homens querem ser os primeiros: é um desejo inato, primordial: não é nem sequer um mau desejo; no fundo, coincide com o desejo de ser, de valorizar a própria existência, de subir mais alto.  Isso, em todos os campos. Mas é preciso que junto a isto esteja a disposição em servir o outro.  Por isso, seguir o Senhor exige sempre do homem uma profunda conversão, uma mudança do modo de pensar e de viver, requer que abramos o coração à escuta, para nos deixarmos iluminar e transformar interiormente.

Jesus foi o primeiro a nos dar um exemplo: “Eu estou no meio de vós, como aquele que serve” (Lc 22,27).  Ele também disse: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos” (Mc 10,45). E ele, que era Deus, isto é, o primeiro, fez-se servo, isto é, o último (cf. Fl 2,6-7).  E depois de lavar humildemente os pés de seus apóstolos, disse-lhes: “Eu vos dei o exemplo, para que, assim como eu fiz, vós também façais” (Jo 13,15).

Aos olhos de Deus é realmente o primeiro aquele que se dispõe a estar a serviço de todos.  Não se trata de um servir com segundas intenções ou até visando uma promoção.  Deus considera o primeiro aquele que em seu interior, com toda a sinceridade, assume uma posição de disponibilidade em relação aos demais.  Os postos mais importantes não devem ser um meio de alcançar poder ou domínio sobre os demais, mas sim, um meio de servir a todos.

Jesus completa a instrução aos discípulos com um gesto… Toma uma criança, coloca-a no meio do grupo, abraça-a e convida os discípulos a acolherem as “crianças”, pois quem acolhe uma criança acolhe o próprio Jesus e acolhe o Pai (v. 36-37).  Em certa ocasião, quando foram apresentadas a Jesus algumas crianças, os discípulos as repreenderam, mas Jesus, ao contrário, fez com que elas permanecessem com ele e afirmou que só quem é como elas pode entrar no Reino de Deus (cf. Mc 10,13-16). 

Na sociedade palestina de então, as crianças eram seres sem direitos e não eram contadas, a partir do ponto de vista legal.  Por sua insignificância social, elas eram equiparadas aos pequenos, sendo, portanto, um símbolo dos débeis, dos sem direitos, dos pobres, dos indefesos, dos insignificantes, dos marginalizados. São esses, precisamente, que a comunidade de Jesus deve abraçar.

No contexto da conversa que Jesus mantém com os discípulos, o gesto de Cristo significa o seguinte: o discípulo de Jesus é grande, não quando tem poder ou autoridade sobre os outros, mas quando ama, quando serve os pequenos, aqueles que o mundo rejeita e abandona. No pequeno que se acolhe, é o próprio Jesus que se torna presente. Por isto, ele também disse: “Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no reino dos céus” (Mt 18,4).  Daí compreendemos que se chega ao reino pela humildade e pela simplicidade.

Quem quiser preceder o irmão no reino de Deus, deve precedê-lo primeiro no serviço, na honra, como nos exorta também o apóstolo São Paulo: “Rivalizai-vos mutuamente na estima” (Rm 12,10).  Esta deve ser a ideia central do cristianismo: retribuir com amor a quem nos ama e com paciência a quem nos ofende.

Na nossa sociedade, os primeiros são os que têm dinheiro, os que têm poder, os que frequentam as festas importantes, os que se vestem segundo as exigências da moda, os que têm sucesso profissional.  Mas, para Jesus, “quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,35). Na comunidade dos cristãos, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos outros. Jesus não se identifica com os grandes, mas com os pequenos.

Peçamos a Deus, com confiança, a sabedoria do coração, por intercessão de quem acolheu em seu seio e gerou a Sabedoria encarnada, Jesus Cristo, nosso Senhor, ela, a Virgem Maria, que se fez a Serva do Senhor, a quem possamos também imitar, pedindo que nos dê o dom da humildade e faça crescer sempre mais a nossa união com ele, que a todo o momento nos chama a tomar a nossa própria cruz e segui-lo. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva,OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

A confissão de Pedro

Mc 8,27-35

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo faz ecoar uma vez mais aos nossos ouvidos o convite para conhecermos os projetos de Deus para a nossa salvação. A primeira leitura nos apresenta um profeta anônimo chamado pelo Senhor a testemunhar a sua Palavra junto à humanidade. Entretanto, ele enfrenta a perseguição, a prisão, a tortura, o sofrimento e a morte (v. 6). O anúncio fiel das propostas de Deus para o mundo e para os homens provoca sempre confrontos com a força da morte. Mas o profeta experimenta o socorro do Senhor, e, fortalecido por esse socorro, foi possível superar todas as contrariedades e as dores. Ele nada teme, pois confia plenamente no Senhor e sabe que não ficará desiludido (vv. 7-9).

Chama a nossa atenção neste texto a serenidade com que o profeta, prisioneiro e sofredor, vê o seu futuro. Essa serenidade vem de uma total confiança no Senhor. Está, contudo, consciente de que sua vida não foi um fracasso, pois quem confia em Deus e procura agir na fidelidade ao seu projeto, é sempre vencedor diante da perseguição e da morte.

É dentro deste contexto que Jesus é apresentado no Evangelho como o Messias, enviado ao mundo por Deus para oferecer aos homens o caminho da salvação. Cumprindo o plano do Senhor, Jesus mostra aos discípulos que o caminho da verdadeira vida não passa pelos triunfos e êxitos humanos, mas pelo amor e pelo dom da vida, até à morte, se for necessário. Jesus vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo, deve aceitar percorrer um caminho semelhante.

A primeira parte do Evangelho tem como objetivo fundamental levar à descoberta de Jesus, como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso que é mais catequético do que geográfico, os leitores do Evangelho são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar as suas palavras e o seu anúncio, a fazerem-se discípulos que aderem à sua proposta de salvação. Este percurso de descoberta do Messias termina com a confissão messiânica de Pedro, em Cesaréia de Filipe, uma cidade situada no Norte da Galiléia, perto das nascentes do rio Jordão.

Na segunda parte do Evangelho, o objetivo do Evangelista São Marcos é explicar que Jesus, além de ser o Messias, é também o “Filho de Deus”. No entanto, Jesus não veio ao mundo para cumprir um futuro de triunfos e glórias, mas para oferecer a sua vida como um dom de amor aos homens. Ponto alto desta catequese será a afirmação do centurião romano junto da cruz quando proclama: “Realmente este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39). E é neste sentido que o Evangelho traz uma pergunta de Jesus dirigida aos seus discípulos que com ele caminhavam.

Jesus começa por questioná-los: “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27). O povo considerava Jesus como o “enviado de Deus”, mas ainda não conseguia reconhecê-lo como o Messias, aquele Messias prenunciado e esperado por todos. Após receber deles respostas bem variadas: João Batista, Elias, um profeta… indica que as pessoas reconhecem apenas que Jesus é um homem enviado ao mundo com uma missão, como os profetas do Antigo Testamento, mas não vão além disso. Na perspectiva dos “homens”, Jesus é apenas um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes dele (v. 28). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade de Jesus, nem a profundidade do seu mistério.

Em seguida, Jesus volta a pergunta aos seus discípulos: “E que dizem vós que eu sou?” (Mc 8,29).  A resposta adequada só pode dar aquele que aceita seguir o caminho de Cristo e viver em comunhão com Ele, como é o caso de Pedro, que agora responde: “Tu és o Messias” (v. 29).  A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião de Pedro e dos Apóstolos. Dizer que Jesus é o “Messias”, o Cristo, significa dizer que ele é o enviado por Deus para oferecer a salvação definitiva ao Povo de Israel. A resposta de Pedro estava correta. No entanto, podia prestar-se a graves equívocos, pois o título de Messias estava relacionado com esperanças no campo político. Por isso, os discípulos recebem ordens para não falarem disso a ninguém. Era preciso clarificar, depurar e completar a catequese sobre o Messias e a sua missão, para evitar perigosos equívocos.

Podemos ainda sublinhar duas questões, a primeira (vv. 31-33) é a explicação dada pelo próprio Jesus de que o seu messianismo passa pela cruz; a segunda (vv. 34-35) é uma instrução sobre o significado e as exigências de ser seu discípulo. Jesus começa por anunciar que o seu caminho vai passar pelo sofrimento e pela morte (vv. 31-33) e sente a necessidade de explicar aos seus discípulos que terá ele que sofrer, ser condenado à morte e depois ressuscitar.  Jesus revela a eles a sua identidade: Um Messias sofredor, um Messias servo; obediente à vontade do Pai até perder a sua vida, como já prescrevia o profeta Isaías na primeira leitura (cf. Is 50,5-9).

Pedro não está de acordo com este final e opõe-se a que Jesus caminhe nesta direção. A oposição de Pedro significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é imperfeita. Para ele, a missão do “Messias, Filho de Deus” é uma missão gloriosa e vencedora. Para Pedro a vitória de Cristo não pode estar na cruz. Diante desta incompreensão de Pedro, Jesus certifica que aquele que quiser ser seu discípulo deve aceitar ser servo de todos, tomar a cruz e acompanhá-lo neste itinerário.

Diante da sua oposição, Jesus dirige-se a Pedro com certa dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam o pensamento e passem a olhar o seu messianismo na perspectiva do Plano de Deus a ser realizado por Jesus. Ao mostrar a sua oposição ao sofrimento pelo qual Cristo teria que passar, Pedro faz recordar as tentações no deserto, que Jesus experimentou no início do seu ministério (cf. Mc 1,13).

As palavras de Pedro pretendem desviar Jesus do cumprimento dos planos de Deus. Jesus não está disposto a aceitar uma proposta que o impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projetos de Deus e insiste: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga (v. 34). Com isto, somos chamados a carregar a nossa cruz e a perder a própria vida por ele, pelo Evangelho, para no final, chegarmos à glória da ressurreição, para estarmos na vida definitiva com Deus. Quem quiser ser seu discípulo deve “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no caminho do amor.

A pergunta feita por Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, nos esforços que fazemos para segui-lo. Também podemos perguntar: Quem é Cristo para mim?  E imbuídos pela fé, saibamos repetir como Pedro: “Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo”.

Estejamos sempre mais conscientes e fortalecidos na nossa adesão a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. Decidir acompanhar Jesus Cristo que se fez servo de todos exige uma intimidade cada vez maior com ele, meditando a sua Palavra, para tirar dela a inspiração para o nosso agir. A Virgem de Nazaré nos deu o exemplo, pois soube seguir o Cristo até o Calvário e ali permaneceu com ele. Que ela interceda sempre por nós e nos faça perseverar no caminho do bem e da santidade.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ


XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

 A cura de um homem surdo e mudo

Mc 7,31-37

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra traz para este domingo o evangelho da cura de um homem surdo e mudo por parte de Jesus. Antes de fazermos uma análise mais detalhada do texto, podemos perceber que, geograficamente, Jesus se encontra “no meio do território da Decápole” (Mc 7,31). A palavra “decápole” significa “dez cidades”, nome dado ao território situado na Palestina oriental, estendendo-se desde Damasco até Filadélfia. As dez cidades que formavam esta liga eram helenísticas, portanto, não estavam sujeitas às leis judaicas, por esta razão, faziam parte de um território tido como pagão e seus habitantes eram considerados pelos judeus como excluídos dos caminhos da salvação. Foi neste ambiente que Jesus encontrou-se com um homem surdo e mudo. As pessoas que o trouxeram suplicaram a Jesus “que impusesse as mãos sobre ele” (v. 32). A descrição do Evangelista São Marcos, enriquecida com um número significativo de elementos simbólicos, é uma catequese sobre a missão de Jesus e sobre o papel que ele desenvolve no sentido de fazer do surdo-mudo um homem novo.

A linguagem é um meio privilegiado de comunicar, de estabelecer relação e o surdo é um homem que tem dificuldades em formar laços, em partilhar, em dialogar, em comunicar. No judaísmo as enfermidades físicas são tidas como consequência do pecado, por isto, o surdo é, de forma notória, visto como um impuro e um pecador. Além disso, não se pode esquecer que o homem surdo e mudo vive no território pagão da Decápole, o que indica ser ele provavelmente um desses pagãos que a teologia judaica considerava excluído da salvação. Mas este homem representa todos aqueles que vivem com os ouvidos fechados às propostas de Deus, incapazes de escutar a sua Palavra e de viver de forma coerente com os outros. Torna-se o símbolo do homem pagão que percorre um caminho novo rumo à fé.

O encontro com Jesus vai transformar radicalmente a vida desse surdo. Jesus abre os seus ouvidos e solta a sua língua (v. 35), tornando-o capaz de comunicar, de escutar, de falar, de partilhar, de entrar em comunhão. Através deste episódio, o Evangelista São Marcos sublinha a missão de Jesus: Ele veio para abrir os ouvidos e os corações dos homens, quer à Palavra e às propostas de Deus, quer à relação e ao diálogo com os irmãos.  Este texto evangélico nos faz lembrar o anúncio do Profeta Isaías feito na primeira leitura: “Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-vos. Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos…” (Is 35,4-5). Jesus é efetivamente o Deus que veio ao encontro de todos, a fim de libertar as pessoas dos preconceitos religiosos que impedem a relação, o diálogo e a comunhão fraterna.

Pode-se perceber ainda, no texto, que a iniciativa de se encontrar com Jesus não é do surdo. Lemos no texto: “Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão” (v. 32). A primeira atitude de Jesus é levar aquele homem para longe da multidão (v. 33). Isto mostra que Jesus não quer fazer publicidade do milagre que está para ser realizado. A situação do homem surdo e mudo é humilhante, pois ele não compreende o que é dito, nem pode responder quando as pessoas lhe dirigem a palavra.  O seu mal está na sua surdez: ele é mudo porque é surdo. Vive instalado nessa vida sem relação, parece acomodado e não sente grande necessidade de abrir o coração para o encontro e para a comunhão com Deus e com os demais. É preciso que alguém o apresente a Jesus, que o leve para essa vida nova de amor e de comunhão.

O texto não identifica os que conduzem a Jesus o surdo.  No entanto, há de supor que se trate de pessoas que acreditam no poder de Jesus, pois pedem que o Senhor imponha as mãos sobre ele.  Com isto, podemos afirmar ser também esse o nosso papel. Os que já descobriram Jesus, os que se deixaram transformar pela sua Palavra, os que já aceitaram segui-lo, devem dar testemunho dessa experiência e levar outros irmãos para o encontro com ele.

Jesus age com discrição, levando o homem à parte, longe da multidão.  Jesus não busca o sucesso; ele quer apenas fazer o bem.  É silencioso e discreto. A sós com o surdo, Jesus realiza gestos significativos: coloca os dedos nos seus ouvidos, e com a sua saliva toca a língua daquele homem (v. 33). Tocar com os dedos significava transmitir poder (cf. Ex 8,15); a saliva transmitia, pensava-se naquele tempo, a própria força ou energia vital, o que equivalia ao sopro de Deus que transformou o barro inerte do primeiro homem em um ser dotado de vida divina (cf. Gn 2,7). Além disso, a propriedade terapêutica da saliva, sobretudo, cicatrizante, já era conhecida na antiguidade. Assim, Jesus transmitiu ao surdo a sua própria energia vital, dotando-o da capacidade de ser um homem novo, aberto à comunhão com Deus e à relação com os outros.  O gesto de Jesus de levantar os olhos ao céu (v. 34) deve ser entendido como um gesto de invocação a Deus. Para Jesus, os grandes momentos de decisão e de testemunho são sempre antecedidos de um diálogo com o Pai.

De acordo com o texto, Jesus teria pronunciado a palavra “efatá” (“abre-te”), quando abriu os ouvidos e desatou a língua do surdo. É a palavra que dá significado aos gestos de Jesus. O evangelista conservou a palavra aramaica original que Jesus então pronunciou, nos transferindo assim diretamente para aquele momento. O que ali foi narrado não pertence a um passado distante: Jesus realiza a mesma coisa de modo novo e repetidas vezes também hoje. No Batismo ele realizou sobre nós este gesto do tocar e disse: “Efatá!”, para nos tornar capazes de ouvir a voz de Deus e para nos dar de novo a possibilidade de falar com ele. Aquele surdo, graças à intervenção de Jesus, “abriu-se”. A cura para ele foi uma abertura aos outros e ao mundo, uma abertura que, partindo dos órgãos da audição e da fala, envolveu toda a sua pessoa e a sua vida: finalmente podia comunicar-se e, por conseguinte, relacionar-se de modo novo.

No ritual do batismo, já entre os gestos finais da celebração, o celebrante toca os ouvidos e os lábios do batizando, e diz estas palavras: “O Senhor Jesus, que fez os surdos ouvirem e os mudos falarem, te conceda que possas logo ouvir a sua palavra e professar a fé, para louvor e glória de Deus Pai”.  Antes de ser batizado o ser humano está surdo para a palavra de Deus e mudo para oração.  A fim de falar a linguagem sobrenatural e conseguir a salvação, precisa ser curado dessa surdez e dessa mudez.

O Batismo abre um caminho, nos introduz na comunhão com o próprio Jesus, mediante a fé. Jesus quer partilhar conosco o seu ver a Deus, o seu ouvir o Pai e o seu falar com Ele. O caminho do ser batizado deve tornar-se um processo de desenvolvimento progressivo, no qual nós crescemos na vida de comunhão com Deus, alcançando assim também um olhar diferente sobre o homem e sobre a criação.  É um convite à vida nova. É um convite ao surdo a sair do seu fechamento, do seu comodismo, para fazer da sua vida uma história de união com Deus e de partilha com os irmãos.

O Evangelho ainda nos convida a tomar consciência de que existe em nós uma deficiência em relação à nossa capacidade de percepção, uma carência que inicialmente não sentimos como tal; porque aparentemente tudo procede de modo normal, mesmo se já não temos ouvidos nem olhos para Deus e vivemos sem ele. Com a debilidade dos ouvidos ou até com a surdez em relação a Deus, perde-se naturalmente também a capacidade de falar com ele ou dele.

O texto evangélico deste domingo também deve falar a cada um de nós.  Muitas vezes estamos fechados em nós mesmos e também para Deus; criamos dificuldades para abrir o nosso coração ao Criador.  Peçamos hoje ao Senhor que Ele pronuncie de novo o seu “Efatá!” sobre cada um de nós, que cure de novo a nossa debilidade dos ouvidos à sua palavra, nos faça enxergar nossas falhas e nossos erros e nos possibilite crescer na fé.  A ele dirigimos a nossa súplica para que possamos, com o nosso falar e o nosso agir, comunicar ao mundo a razão da nossa esperança (cf. 1Pd 3,15).  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ


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