XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

O que torna impuro o homem

Mc 7,1-8.14-15.21-23

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo nos propõe uma reflexão sobre a Lei, cujo objetivo é indicar ao homem um caminho seguro para a felicidade e para a vida em plenitude.  A Palavra de Deus é um caminho sempre atual e nos conduz a um encontro com a verdade. Como, de fato, a escuta atenta e o compromisso firme com a Palavra de Deus deve ser para nós uma experiência a nos projetar para o amor e para o bem e deve nos impulsionar para a ação, para a mudança de vida, para o abandono da vida antiga, a fim de abraçar uma vida nova, segundo as prescrições do Senhor.

É preciso transformar a Palavra que escutamos em gestos concretos, que nos levem à conversão.  O apóstolo Tiago, na sua carta, alerta para o perigo de uma religiosidade falsa. Ele escreve aos cristãos: “Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,22).  O Evangelho, por sua vez, sequencia esta mesma temática, onde sobressai o tema da Lei de Deus, do seu mandamento: um elemento essencial da religião judaica e também da cristã, que encontra o seu pleno cumprimento no amor (cf. Rm 13,10). A Lei de Deus é a sua Palavra que orienta o homem pelo caminho da vida, que o leva a sair da escravidão do pecado e o introduz na “terra” da verdadeira vida.

Para entendermos melhor o Evangelho deste domingo devemos recordar inicialmente que os povos antigos em geral e os judeus em particular, sentiam um grande desconforto quando tinham de lidar com certas realidades desconhecidas e misteriosas, que não podiam controlar nem dominar. Criaram, então, um conjunto de regras e normas, com a finalidade de se protegerem diante de cadáveres,  sangue e lepra, por exemplo. No contexto judaico, quem infringia essas regras se colocava numa situação de marginalidade e indignidade, que o impedia de se aproximar do Templo, do culto e de se integrar à comunidade do Povo de Deus. Dizia-se então que a pessoa ficava “impura”. Para readquirir o estado de “pureza” e poder reintegrar a comunidade do Povo santo, o crente necessitava realizar um rito de “purificação”, cuidadosamente estipulado pela Lei.

Na época de Jesus, as regras da “pureza” tinham sido ampliadas pelos doutores da Lei e existia uma lista imensa de atividades que tornavam o homem “impuro” e o afastavam da comunidade do Povo santo de Deus. Daí a obsessão com os rituais de “purificação”, que deviam ser cumpridos a cada passo da vida diária.  Sobressaem assim os questionamentos sobre como se libertar da impureza que separa o homem de Deus. Por esta razão, nas diversas religiões, foram introduzidos ritos purificadores, como caminhos de purificação interior e exterior.

Já no Antigo Testamento encontramos inúmeras prescrições de purificação pela água, seja banhando o corpo, as vestes ou as mãos, para se libertar da impureza. As purificações se faziam fundamentalmente com água, sangue ou fogo. Este é um dos sentidos do incenso nas celebrações litúrgicas: simboliza pureza, virtude, doçura e oração que se eleva. As brasas aludem ao fogo do amor de Deus que nos queima o coração na dupla linha da purificação em vista de uma missão. Faz pensar no profeta Isaías ao qual um dos serafins com brasa ardente tocou os seus lábios dizendo: “…o teu pecado está perdoado” e em seguida a voz de Deus lhe confia a missão (cf. Is 6,6-9).

Lavar, aspergir com sangue ou queimar, eram gestos purificatórios. O Sl 50 já nos lembra: “Aspergi-me, Senhor, com o hissopo e serei purificado. Lavai-me e ficarei mais branco do que a neve”. Em muitas igrejas, à entrada, existe uma pia de água benta, e as pessoas se persignam com ela em sinal de purificação. Em certas celebrações, os fiéis são aspergidos com água benta, como rito penitencial, a recordar o batismo, que confere àquele que o recebe, a purificação de todos os pecados. E ao sacerdote, antes de iniciar o momento principal da ação litúrgica, cabe também um gesto de purificação. O celebrante pede claramente a graça da pureza, dizendo: “Lavai-me, Senhor, das minhas faltas e purificai-me do meu pecado”.  A origem desse rito está, provavelmente, no preceito que encontramos no Livro do Êxodo, que prescrevia aos sacerdotes lavarem os pés e as mãos, antes de se aproximarem do altar para o exercício do culto (cf. Ex 30,17-21).

Voltando ao Evangelho, observa-se que, por esta razão, na perspectiva dos doutores da Lei, a purificação das mãos antes das refeições não era uma questão de higiene, mas uma questão religiosa.  Os fariseus vindos de Jerusalém observavam como os discípulos de Jesus comiam sem realizar o gesto ritual de purificação das mãos e ficavam escandalizados.  Tudo indica que o fato serviu aos fariseus para sondar e para averiguar a ortodoxia de Jesus e o seu respeito pela tradição dos antigos.

Contudo, para Jesus, a obsessão dos fariseus para com os ritos externos de purificação é sintoma de uma grave deficiência quanto à forma de ver e de viver a religião; por isso, ele responde aos fariseus com certa dureza. E tendo como base a própria Palavra de Deus, denuncia essa vivência religiosa sintetizada apenas na repetição de práticas externas e formalistas. Por isso, ele diz: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (v. 6).

Em seguida, Jesus aproveita a ocasião para catequizar os seus discípulos, dizendo: “O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior” (v. 15). Este princípio geral, à primeira vista, passível de várias interpretações, será explicado mais à frente: “Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem” (v. 22-23). Jesus se refere, naturalmente, a dois “circuitos” diversos: o do estômago, onde entram os alimentos que se ingerem; e o do coração, de onde saem os pensamentos, os sentimentos e as ações.

Na antropologia judaica, o “coração” é o “interior do homem” em sentido amplo; ele é a sede dos sentimentos, dos desejos, dos pensamentos, dos projetos e das decisões do homem. É nesse “centro vital” de onde tudo parte que é preciso atuar.   É no interior do homem que se definem as suas opções, os seus valores e as suas ações.  Cabe a ele buscar na Palavra de Deus o caminho que o leva à purificação interna. Por isso mesmo o Salmo 118 nos diz: “A palavra de Deus é uma lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho”.

Jesus não muda a Lei, ele não muda os mandamentos.  A observância dos mandamentos continua sendo a condição para entrar na terra prometida: “Se queres entrar na vida eterna, observa os mandamentos” (Mt 19,17).  Fazer a vontade do Pai, colocar em prática os seus mandamentos, é um dos temas constantes do Evangelho.  Mas a novidade está que Jesus desloca todo o sentido da lei do exterior para o interior, da boca para o coração, de “fora” do homem para “dentro” do homem. E Jesus, no sermão das bem-aventuranças, dirá: “Os puros de coração verão a Deus” (Mt 5,8), ou seja, os que têm um interior puro.

A Lei, como palavra de amor, é uma renovação a partir de dentro, mediante a amizade com Deus. Algo semelhante se manifesta quando Jesus, no sermão sobre a videira, diz aos discípulos: “Vós já estais puros, devido à palavra que vos tenho dirigido” (Jo 15,3). Na medida em que nos deixamos tocar por Ele e pela sua palavra, também somos purificados.

Que o Senhor venha em nosso auxílio e converta o nosso interior, o nosso coração, assim como aconteceu com muitos santos, para que a nossa vida pessoal, familiar e profissional, seja pautada pelo Evangelho.  Que possamos tender sempre para a plenitude da Verdade e do Amor, que é Cristo, o único que pode saciar os profundos desejos do coração humano; e que possamos difundir no mundo a sua luz, a sua pureza e a sua bondade.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

Tu tens palavras de vida eterna.

Jo 6,60-69

Caros irmãos e irmãs,

Nos últimos domingos a liturgia da Palavra nos proporcionou meditar sobre o discurso do “pão da vida”, pronunciado por Jesus na sinagoga de Cafarnaum, depois de ter dado de comer a milhares de pessoas com cinco pães e dois peixes (cf. Jo 6,1-15). O evangelista São João sublinha que a partir de então muitos dos seus discípulos voltaram atrás e já não andavam mais com ele (cf. Jo 6,66), porque não acreditaram nas palavras ditas por Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu, quem comer a minha carne e beber o meu sangue viverá eternamente” (Jo 6, 51.54).

O povo e os próprios discípulos ficaram escandalizados com as palavras do Senhor, a ponto de muitos, depois de o terem seguido até então, exclamarem: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (v. 60). Ao ver que muitos ficam desanimados e se retiram, Jesus se dirige aos doze Apóstolos, que neste momento parecem estar pensativos, e diz: “Vós também vos quereis ir embora?” (v. 67).  Pedro toma a palavra e responde em nome dos seus companheiros fiéis: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (v. 68s).

Os apóstolos são livres; de fato, alguns vão embora, mas outros ficam; ficam os doze Apóstolos que formarão a Igreja.  Eles ouvem os ensinamentos de Jesus, difíceis de aceitar e de pôr em prática, por esta razão, alguns abandonam o Cristo. A pergunta de Jesus feita outrora deve ressoar também hoje aos nossos ouvidos.  Saibamos responder como o Apóstolo Pedro: “Só tu tens palavras de vida eterna” (v.68).  Estas palavras de vida eterna podem ser encontradas também em cada celebração Eucarística, onde nos deparamos com a mesa da Palavra e a mesa do Pão: “A minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é verdadeiramente uma bebida” (Jo 6,55).

E também para os discípulos é inaceitável o que Jesus diz neste momento. Era e é para a nossa mentalidade, um sermão “duro”, que provava a fé (cf. Jo 6,60). Tratam-se de pessoas coerentes, pois deram-se conta de que os ensinamentos do Mestre são difíceis de ser seguidos e não sentem eles o impulso para segui-lo e, por isto, se afastam.  Jesus respeita a decisão e a liberdade de cada um. Ninguém está obrigado a segui-lo.  Não é fácil ser cristão autêntico e seguir o Cristo de verdade.

Muitos dos discípulos se afastaram.  O resultado do discurso de Jesus parece desanimador, mas mesmo diante desta reação dos seus ouvintes, Jesus não retira nenhuma das suas exigências.  Podemos imaginar como as palavras de Jesus eram difíceis também para Pedro, que em Cesareia de Filipe se tinha oposto à profecia da cruz. Contudo, quando Jesus perguntou aos doze: “Vós também vos quereis ir embora?” (v. 67), Pedro reagiu com o impulso do seu coração generoso, guiado pelo Espírito Santo. Em nome de todos respondeu com palavras imortais, que devem ser também as nossas: “Senhor, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna; nós cremos e conhecemos que tu és o Santo de Deus” (cf. Jo 6, 66-69).

O termo “conhecemos”, presente no texto evangélico, expressa não um mero conhecimento teórico.  Ele deve ser compreendido, na dimensão semita de seu substrato hebraico da mentalidade do evangelista, como um conhecer em uma linha de experiência pessoal, ou seja, como um re-conhecer.  O Apóstolo Pedro ainda reconhece Jesus como o “Santo de Deus”. Esta expressão, com suas reminiscências veterotestamentárias, coloca a confissão de Pedro em uma linha de aceitação de Jesus como o Messias esperado pelo Antigo Testamento.

Saibamos também nós ficar com Cristo em cada Eucaristia e que seja ela o centro de nossa vida cristã e que a comunhão eucarística nos sacie a fome que sempre devemos ter do Pão Vivo que é o Cristo Senhor. A Igreja nos convida a santificar o domingo, sobretudo com a participação na Eucaristia e com um repouso permeado de alegria cristã e de fraternidade. Cada domingo somos chamados a relembrar a ressurreição do Senhor. Como de fato, a celebração dominical da Eucaristia do Senhor está no centro da vida da Igreja (cf. CIgC, n. 2177).

A riqueza de significado da Missa dominical para os membros do Corpo místico justifica plenamente a insistência do Magistério na importância de conservar e viver o Domingo, pois “A Eucaristia nutre e plasma a Igreja” (S. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica “Dies Domini”, n. 32).  E o Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica “Sacramentum caritatis”, nos lembra: “A fé cristã corre perigo quando se deixa de sentir o desejo de participar na celebração eucarística em que se faz memória da vitória pascal. A participação na assembleia litúrgica dominical, ao lado de todos os irmãos e irmãs com os quais se forma um só corpo em Jesus Cristo, é exigida pela consciência cristã. Perder o sentido do domingo como dia do Senhor que deve ser santificado é sintoma de uma perda do sentido autêntico da liberdade cristã, a liberdade dos filhos de Deus” (SC, n. 73).

Voltando ao texto evangélico, chama a nossa atenção um detalhe na frase do Apóstolo Pedro. Ao fazer a sua confissão de fé em nome dos outros Apóstolos: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (v. 68). Pedro não diz “para onde iremos?”, mas “para quem iremos?”. A pergunta fundamental é “quem”: ir para “quem”, “quem” seguir, “a quem” entregar a própria vida.

Sobre este trecho temos um significativo comentário de Santo Agostinho, que diz, numa das suas pregações sobre esta passagem do Evangelho de São João: “Vede como Pedro, por graça de Deus, por inspiração do Espírito Santo, compreendeu? Por que compreendeu? Porque acreditou. Tu tens palavras de vida eterna. Tu dás-nos a vida eterna, oferecendo-nos o teu corpo e o teu sangue. E nós acreditamos e conhecemos… O que acreditamos e o que conhecemos? Que Tu és o Cristo Filho de Deus, ou seja, que Tu és a própria vida eterna, e na carne e no sangue nos dás aquilo que Tu mesmo és” (S. AGOSTINHO, Comentário ao Evangelho de São João, 27, 9).

A partir desta interrogação de Pedro, compreendemos que a fidelidade a Deus é questão de fidelidade a uma pessoa, com a qual nos unimos para caminhar juntos pela mesma estrada. E esta pessoa é Jesus. Tudo o que temos no mundo não sacia a nossa fome de infinito. Precisamos de Jesus, de estar com ele, de alimentarmo-nos à sua mesa, com as suas palavras de vida eterna!

Todo o ser humano, mais cedo ou mais tarde, termina exclamando como Pedro: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (v. 68). Só Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, o Verbo eterno do Pai, só Ele é capaz de satisfazer as aspirações mais profundas do coração humano.

E neste domingo somos convidados a fazer juntos uma escolha, a repetir que queremos seguir Jesus, porque compreendemos que ele, e somente ele, tem para nós palavras de vida eterna.  Com Pedro, diante de Cristo, Pão da vida, também nós hoje queremos repetir: “Senhor, para quem havemos nós de ir? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).  Que o Senhor nos ajude para que nossos passos caminhem sempre em sua direção, pois só ele tem palavras de vida eterna e só ele é o caminho, a verdade e a vida. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Giuseppe Valeriano (1542-1596) olio su tavola, cm 169,5 x 232; collocato nella Cappella della Madonna della Strada nella chiesa del Gesù in Roma. Dopo il restauro del 2012 eseguito da Leonardo Severini

Lc 1,39-56

Caros irmãos e irmãs

Estamos celebrando neste domingo a solenidade da Assunção de Nossa Senhora. No Brasil, por razões pastorais, esta celebração, quando a data do dia 15 de agosto não coincide com o domingo, é transferida para o domingo seguinte.  A Assunção da Virgem Maria ao céu é uma verdade que a Igreja professou desde os primeiros séculos, mas que só foi proclamada como dogma pelo Papa Pio XII em 1950, onde declarava ser “revelado por Deus que a imaculada Mãe de Deus, a Virgem Maria, tendo terminado o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (DS 3903). Assunção significa elevação, ou seja, Maria foi elevada em corpo e alma ao céu por Deus. Uma vez concebida sem pecado e sendo o primeiro sacrário vivo a portar Jesus, seu corpo não poderia ter o fim de um corpo corruptível pelo pecado (cf. PIO PP XII, Constituição Apostólica “Munificentissimus Deus”, in AAS 42 [1950], 768-769).

Ao celebrarmos a gloriosa Assunção de Maria ao Céu, em corpo e alma, podemos também afirmar que os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção estão intimamente ligados entre si. Ambos proclamam a glória de Cristo Redentor e a santidade de Maria, cujo destino humano está perfeita e definitivamente realizado em Deus, pois o próprio Cristo disse: “E quando eu tiver partido e vos tiver preparado um lugar, voltarei e vos levarei comigo para que, onde estiver, vós estejais também” (Jo 14, 3). Maria é o penhor e o cumprimento dessa promessa de Cristo.

Assim como Jesus ressuscitou dos mortos e subiu à direita do Pai, também Maria, depois de concluir o percurso da sua existência na terra, foi levada ao céu. A liturgia nos recorda esta consoladora verdade de fé, enquanto canta os louvores daquela que foi coroada de glória incomparável. Lemos no trecho do Apocalipse, proposto à nossa meditação na primeira leitura: “Apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 12,1). Nesta mulher resplandecente de luz, os Padres da Igreja reconheceram Maria. O autor do livro do Apocalipse profetiza a salvação de Maria, preservada da morte e glorificada no céu. No seu triunfo, o povo cristão peregrino na história entrevê o cumprimento das próprias expectativas e o sinal seguro da sua esperança.

O trecho do Evangelho de São Lucas que lemos na liturgia desta solenidade nos leva a ver o caminho que a Virgem de Nazaré percorreu para estar na glória de Deus. É a narração da visita de Maria a Isabel (cf. Lc 1,39-56). Após a anunciação do Anjo, Maria põe-se em viagem rumo à montanha, para ir às pressas a uma cidade de Judá e chegar à casa de Zacarias e Isabel. Maria entra nesta casa de Zacarias e Isabel, mas não entra sozinha, ela leva no seu ventre o Filho, que é Deus feito homem. E é o Espírito Santo que abre os olhos de Isabel e que a leva a reconhecer em Maria a verdadeira Arca da Aliança, a Mãe de Deus, que vem para a visitar. E assim, a idosa parente recebe-a, dizendo em voz alta: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?” (Lc 1,42-43).

Aqui temos a sequência do que se ouviu dos lábios do anjo Gabriel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E bem-aventurada aquela que acreditou que teria cumprimento tudo o que foi dito da parte do Senhor…” (Lc 1,42.45). Isabel ainda exclama: “Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio” (v. 44).

Nesta passagem, o evangelista São Lucas recorre ao termo grego “eskírtesen”, ou seja, “saltitar”, o mesmo vocábulo que encontramos numa das antigas traduções gregas do Antigo Testamento para descrever a dança do rei Davi diante da arca sagrada, que finalmente voltou para a pátria (cf. 2Sm 6,16). João Batista, no ventre da mãe, dança diante da Arca da Aliança, como Davi; e reconhece deste modo: Maria é a nova Arca da Aliança, perante a qual o coração exulta de alegria; a Mãe de Deus presente no mundo, que não conserva para si esta presença divina, mas oferece-a compartilhando a graça de Deus.

Em seguida, Maria pronuncia o cântico do Magnificat, onde os seus sentimentos exprimem a consciência do cumprimento das promessas (cf. Lc 1,54). É precisamente desta consciência que brota a alegria da Virgem Maria, que transparece no conjunto do cântico: alegria de saber que Deus olha para Ela, apesar da sua “fragilidade” (cf. Lc 1,48); alegria em virtude do serviço que lhe é possível prestar, graças às “grandes obras” que o Todo-Poderoso realizou em seu favor (cf. Lc 1,49). Mediante as suas palavras, a Virgem Maria aparece como um modelo a ser seguido ao longo do nosso caminho.

E Maria, também cheia do Espírito Santo, continua e completa aquilo que Isabel disse, afirmando: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (v. 48). É uma verdadeira profecia, inspirada pelo Espírito Santo, e a Igreja venerando Maria responde a esta ordem do Espírito Santo.

Na segunda Leitura (cf. 1Cor 15,20-27), São Paulo nos faz compreender este mistério, partindo do acontecimento central da história humana e da nossa fé. Assim diz o Apóstolo: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda” (1Cor 15, 21-23).

A Virgem Maria que, na sua mesma concepção humana, foi imaculada, isto é, livre do pecado, cuja consequência é a morte, pelo mesmo fato, tornou-se livre da morte, que é a consequência do pecado. A vinda de Cristo, de que fala São Paulo nesta segunda leitura, realizou-se de modo excepcional em Maria.

Neste contexto, o que São Paulo afirma a respeito de todos os homens, a Igreja, no seu Magistério reconhece estar a Mãe de Deus inserida em tal medida no mistério de Cristo, a ponto de ser partícipe da Ressurreição do seu Filho com todo o seu ser, já no final da vida terrena; Maria vive aquilo que nós esperamos no final dos tempos, quando for aniquilado “o último inimigo”, a morte (v. 26)

Maria nos precede na glória celeste. Aquela que não teve pecado não foi tocada pela corrupção da morte! Imediatamente após a sua “dormição”, ela foi glorificada em corpo e alma, foi elevada ao céu! Podemos, portanto, exclamar como Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o fruto do teu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu!” (Lc 1,42.45)

A festa da Assunção de Nossa Senhora, a sua chegada à Glória, nos aponta para o nosso destino final, como todos nós almejamos, em conformidade com o que proclamamos na recitação do Credo:  “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”.

Possamos também pedir ao Senhor que nos faça crescer na fé, a exemplo de Maria, pois foi grande e heróica a obediência da sua fé; e foi precisamente através desta fé que Maria se uniu perfeitamente a Cristo, na morte e na glória.  Que ela interceda sempre por nós e nos proteja ao longo da nossa peregrinação até à Casa do Pai.  Que ela ainda nos ajude a dizer “não” ao erro e ao pecado e nos faça preparar o nosso encontro definitivo com Cristo, no final do nosso itinerário terrestre.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

Eu sou o Pão da vida

Jo 6,41-51

Caros irmãos e irmãs,

Uma vez mais nos deparamos com a preocupação de Deus em oferecer a todos o “pão” da vida plena e definitiva.  O Evangelho sequencia este tema já abordado nos domingos anteriores.  Jesus mostra que o povo no deserto comeu o maná e todos morreram (v. 50).  O pão vivo, ao contrário, dá a vida eterna.  Quem comer dele não morrerá (v. 50).  O discurso é concluído no v. 51 com a revelação de Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (v. 51).  O ponto culminante da revelação de Jesus está nas palavras que Ele acrescenta: “E o pão que eu darei é a minha carne pela vida do mundo” (v. 51).

Esta leitura do Evangelho de São João, que nos acompanha nestes domingos, nos fez refletir inicialmente sobre a multiplicação milagrosa, em que cinco pães de cevada e dois peixes foram suficientes para dar de comer a uma multidão de cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças. Jesus dirige o convite aos que havia saciado, a esforçarem-se em busca de um alimento que permanece para a vida eterna.  Com isto, mostra o significado profundo do prodígio realizado: saciando de modo milagroso a fome física, prepara a multidão que o seguia para aceitar o anúncio segundo o qual Ele é apresentado como o pão que desceu do céu (cf. Jo 6,41), que sacia, de modo definitivo, a fome de todos.

O povo judeu, durante o longo caminho no deserto, rumo à terra prometida, experimentou um pão descido do céu, o maná. Mas aqui Jesus fala de si mesmo, como um verdadeiro pão que desceu do céu, capaz de manter em vida não por um momento ou durante um trecho do caminho, mas para sempre. Ele é o alimento que dá a vida eterna, porque é o Filho unigênito de Deus, que veio ao mundo para doar à humanidade a vida em plenitude e introduzi-la na vida com Deus.

No pensamento judaico o verdadeiro pão do céu, que alimentava Israel, era a Lei, a palavra de Deus. O povo de Israel reconhecia que a Torá, como o dom fundamental e duradouro de Moisés, o elemento singular que o distinguia em relação aos outros povos e que consistia em conhecer a vontade de Deus e o caminho reto da vida. Jesus, agora, manifestou-se como o pão do céu, pelo qual todos podem fazer da vontade de Deus o seu alimento (cf. Jo 4,34), que orienta e mantém a sua existência.

Mas o povo de Israel duvidou da divindade de Jesus e não o acolheu como o pão descido do céu para dar vida à humanidade.  Houve uma recusa em aceitar que Deus encontre sempre novas formas de vir ao encontro de todos para oferecer vida em abundância.  Somente quem é atraído por Deus Pai, quem o ouve e se deixa instruir por Ele pode acreditar em Jesus.  Faltou uma abertura para acolher o sentido profundo da mensagem apresentada por Jesus.  Diziam: “Não é este Jesus o filho de José, aquele de quem conhecemos o pai e a mãe?  Como é que ele diz agora: ‘Eu desci do céu?’” (Jo 6,42).  Esses adversários de Jesus se mostram céticos, chegam  a murmurar, como fez o povo conduzido por Moisés no deserto.

Jesus não se envolve com a murmuração dos judeus sobre a sua origem, mas responde-lhes indiretamente.  Ninguém pode chegar a Jesus sem a atração do Pai (v. 44).  Só aquele que o Pai atrair, pode vir a Jesus.  Contudo, o único caminho para o Pai é o Filho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).  Todo homem deve livremente abrir-se ao chamado de Deus.  Deixar que a atração divina opere nele.  Na verdade, só a fé nos possibilita crer em Jesus como o Pão da vida, para, consequentemente, termos a vida eterna.

O dom da fé é um dom gratuito de Deus; uma virtude sobrenatural.  É obra da graça de Deus que auxilia a nossa vontade.  A fé nos leva a crer no que disse Jesus: “Eu sou o pão da vida”.  O sacramento da Eucaristia é a síntese desta verdade, onde Jesus dá-se a si mesmo; entrega o seu corpo e derrama o seu sangue.  Desse modo dá a totalidade da sua própria vida, manifestando a fonte originária desse amor: ele é o Filho eterno que o Pai entregou por nós.

Outrora, o primeiro anúncio da Eucaristia dividiu os discípulos, tal como o anúncio da paixão os escandalizou: “Estas palavras são insuportáveis! Quem as pode escutar?” (Jo 6,60). Jesus já havia questionado também aos Apóstolos: “Também vós quereis ir embora?” (Jo 6,67). Esta pergunta do Senhor ecoa através dos tempos, como convite do seu amor a descobrir que só Ele tem “palavras de vida eterna” (Jo 6,68) e que acolher na fé o dom da Eucaristia é acolher o próprio Cristo (cf. CIgC, nº 1336).

Receber a Eucaristia na comunhão traz consigo, como fruto principal, a união íntima com Cristo Jesus. Como de fato, ele mesmo disse: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). A vida em Cristo tem o seu fundamento no banquete eucarístico: “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá por mim” (Jo 6,57).

O texto da carta de São Paulo escrita aos cristãos de Éfeso, que a liturgia da palavra nos apresenta, como segunda leitura para este domingo (4,30-5,2), faz uma exortação aos batizados, para que vivam de forma coerente com o seu Batismo e com o seu compromisso com Cristo.  São Paulo lembra que pelo Batismo, passamos a ser morada do Espírito e recebemos um sinal ou um selo que prova a nossa pertença a Deus.  Este selo ou este sinal nos remete ao tempo em que os escravos recebiam na pele uma marca com ferro em brasa, como se faz com o gado.  O objetivo desta marca é identificar aqueles que pertenciam para sempre a um determinado senhor.  O apóstolo usa esta comparação para explicar a condição de cada batizado.  Esta identificação, entretanto, não está gravada a fogo, mas passa a ser impressa pelo Espírito Santo, para mostrar a pertença a Deus.

É o selo com que o Espírito Santo nos marcou “para o dia da redenção” (Ef 4,30). O Batismo é, efetivamente, o selo da vida eterna. E todo fiel que tiver “guardado o selo” até o fim, quer dizer, que tiver permanecido fiel às exigências do seu Batismo, estará sempre “marcado pelo sinal da fé”, na expectativa da visão bem-aventurada de Deus.

Por isto, como filhos de Deus, devemos evitar os vícios e praticar as virtudes, como homens novos, implica, na perspectiva do Apóstolo São Paulo, assumir uma nova atitude de comportamento, eliminando as irritações, os rancores, os insultos, as violências, as invejas. Vícios que devem ser eliminados. Estes vícios são próprios de um “homem velho” e não podem ter espaço na vida de um homem novo, de um “filho de Deus”.  São Paulo ainda frisa como deve ser o comportamento deste homem novo: cordial, afável e, sobretudo, inspirado em sentimentos de misericórdia, que é a primeira das características de Deus.

Ainda segundo o apóstolo São Paulo, pelo Batismo o crente comunga na morte de Cristo; é sepultado e ressuscita com Ele: “Todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte, para que, assim como Cristo que ressuscitou dos mortos, pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,3-4).

Que possamos viver todos os dias o nosso batismo e direcionar nossos passos ao encontro com Jesus, a fim de que a nossa amizade com Ele seja cada vez mais intensa, para que possamos estar em plena comunhão de amor com Ele, o pão descido do céu, de maneira a sermos por Ele renovados no íntimo de nós mesmos. Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

O verdadeiro pão do céu

Jo 6,24-35

Caros irmãos e irmãs

A liturgia da Palavra deste domingo nos apresenta como primeira leitura um texto do Livro do Êxodo, onde temos uma das grandes questões do Pentateuco: a marcha pelo deserto, e faz lembrar que Deus acompanha o seu povo rumo à Terra Prometida e o alimenta com o pão necessário à vida (cf. Ex 16,2-4.12-15).  O episódio começa com a murmuração do povo “contra Moisés e contra Aarão” (v. 2), que lembra do tempo em que passou no Egito e que comia “pão com fartura” (v. 3). A resposta de Deus é “fazer chover pão do céu” (v. 4) e dar ao seu povo o alimento em abundância (v. 12). O objetivo não é só satisfazer as necessidades materiais do povo, mas se revelar a eles como o Deus da bondade e do amor, que cuida e caminha com todos.

Na segunda leitura continuamos a ler a Carta de São Paulo aos Efésios, onde o apóstolo convida todos a viverem na unidade do amor (cf. Ef 17,20-24).  São Paulo indica a realidade do homem antes e depois do encontro com Cristo. Para São Paulo aquele que ainda não aderiu a Cristo é o homem velho, cuja vida é marcada pela escravidão dos “desejos enganadores” (v. 22). Por sua vez, o homem que já encontrou Cristo é o “homem novo”, que vive na verdade (v. 21), na justiça e na santidade (v. 24).

O Apóstolo Paulo ressalta ainda que o Batismo é o momento decisivo para esta transformação do homem velho em homem novo. O próprio rito batismal de imersão na água significa a morte do homem velho, marcado pelo erro e pelo pecado e, ao mesmo tempo, indica o nascimento de um outro homem, puro, transformado e inserido em Cristo. Mas, diante das fraquezas e das tentações que podem surgir, a cada dia somos chamados a renovar esta adesão a Cristo, construindo a nossa existência de forma coerente com os compromissos assumidos no dia do nosso Batismo. Por isso, temos necessidade de continuamente renovar a nossa adesão a ele, como homens novos.

O texto evangélico nos faz lançar um olhar retrospectivo para as leituras do último domingo, quando Jesus alimentou a multidão com cinco pães e dois peixes, na outra margem do Lago de Tiberíades (cf. Jo 6,1-15). O texto bíblico nos diz que, ao cair da tarde desse dia, Jesus e os discípulos voltaram a Cafarnaum (cf. Jo 6,16-21). O episódio evangélico deste domingo sequencia o mesmo tema e nos situa no dia seguinte ao da multiplicação dos pães e dos peixes. A multidão que tinha sido alimentada pelos pães e pelos peixes ainda estava do outro lado do lago e ao notar que Jesus tinha regressado a Cafarnaum, dirigiu-se ao seu encontro. Confrontado com a multidão, Jesus profere um discurso onde explica o sentido do gesto precedente que havia realizado: a multiplicação dos pães e dos peixes; e nos ensina que é preciso esforçar-se por conseguir, não só o alimento que mata a fome física, mas, sobretudo, o alimento que sacia a fome de vida. Ao preocupar-se apenas com o alimento material, esquecem o essencial: o alimento que dá a vida definitiva. Esse alimento que dá a vida eterna é o próprio Jesus que o traz (v. 27).

Nesta passagem evangélica Jesus diz: “O meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu” (v. 32).  A Eucaristia é, então, dom do Pai, um dom que prolonga o da encarnação: Deus tanto amou o mundo, que deu a nós na encarnação, e continua a dar na Eucaristia, o seu Filho unigênito (cf. Jo 3,16).  A Eucaristia vem, pois, do Pai.  Mas o mais importante é que a Eucaristia nos conduz ao Pai.  Quem se alimenta do pão que é Jesus, ou seja, quem nele crê, tem a vida eterna, porque se predispõe a fazer sempre a vontade de Deus.

A vida que vem a nós na Eucaristia é a vida que tem como fonte e princípio o Pai e que, através de Jesus Cristo, se derramou sobre o mundo:  “Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim” (Jo 6,57). No momento da apresentação das oferendas, dirigindo-se a Deus Pai, diz o Sacerdote:  “Bendito sejais, Senhor, Deus do Universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade. Fruto da terra e do trabalho humano que agora Vos apresentamos e para nós vai se tornar o Pão vida”.  É significativo constatarmos que o pão que recebemos é fruto da bondade de Deus. Mas o pão que oferecemos é também o pão que recebemos, a Eucaristia.

Na liturgia da missa, isso é posto em evidência pelo fato de que tudo se dirige ao Pai.  A Oração Eucarística, pronunciada pelo sacerdote, é um diálogo em que a Igreja, corroborada pelo Espírito Santo, por meio de Jesus, está voltada para Deus.  O fato de que esse Sacramento tenha assumido o nome “Eucaristia”, que quer dizer Ação de Graças, expressa precisamente isto: que a transformação da substância do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo é fruto do dom que Cristo fez de si mesmo, dom de um amor mais forte do que a morte. Por esta razão a Eucaristia é o alimento de vida eterna, Pão da vida. Tudo procede de Deus, da onipotência do seu amor Uno e Trino.

A palavra “comunhão”, que usamos também para designar a Eucaristia, resume em si as dimensões vertical e horizontal do dom de Cristo. Quando recebemos a comunhão, expressão referida ao gesto de comer o Pão eucarístico, entramos em comunhão com a própria vida de Jesus, no dinamismo desta vida que se doa a nós e por nós.  Santo Agostinho nos ajuda a compreender a dinâmica da comunhão eucarística quando faz referência a uma espécie de visão que teve, na qual Jesus lhe disse: “Eu sou o alimento dos fortes. Cresce e receber-me-ás. Tu não me transformarás em ti, como o alimento do corpo, mas és tu que serás transformado em mim” (S. AGOSTINHO, Confissões VII, 10, 18).

Portanto, enquanto o alimento corporal é assimilado pelo nosso organismo e contribui para o seu sustento, no caso da Eucaristia trata-se de um Pão diferente: não somos nós que o assimilamos, mas é ele que nos assimila a si, de tal modo que nos tornamos membros do corpo de Jesus Cristo, um só com ele. É o próprio Cristo que, na comunhão eucarística, nos transforma em si. Assim a Eucaristia, enquanto nos une a Cristo, nos abre também aos outros, tornando-nos membros uns dos outros (cf. BENTO PP XVI, Homilia, quinta-feira, 23 de junho de 2011).

O caminho que percorremos nesta terra é sempre um caminho marcado pela procura da nossa realização, da nossa felicidade. Temos fome de vida, de amor, de paz, de esperança, de transcendência e procuramos, de muitos modos, saciar essa fome; mas continuamos sempre insatisfeitos, tropeçando nos nossos erros, em tentativas falhas de realização, em propostas que parecem sedutoras, mas que só geram escravidão e dependência.  Precisamos ter consciência de que só em Cristo Jesus podemos encontrar o “pão” que mata a nossa fome de vida. Só em Cristo podemos ser homens novos. Ele é o “pão” enviado por Deus para dar a vida ao mundo. É esta a questão central que o Evangelho deste domingo nos propõe.

Mas para termos acesso a esse “pão” que desce do céu para dar a vida ao mundo precisamos aderir a Jesus e escutar o seu chamamento, acolher a sua Palavra, assumir e interiorizar os seus valores, segui-lo. A nossa adesão a Jesus deve partir de uma profunda convicção de que só Ele é o “pão” que nos dá a vida.

O ápice da passagem do evangelho deste domingo está nesta frase: “Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu” (v. 32).  Jesus é um pão sobre o qual o Pai imprimiu o seu sinal.  Com isto, ao recordarmos a peregrinação de Israel durante os quarenta anos no deserto, quando o Senhor fez cair do céu o pão como alimento, como vimos na primeira leitura, devemos ter sempre consciência de que a Hóstia Sagrada é, hoje, o nosso maná com o qual o Senhor nos alimenta; é verdadeiramente o pão do céu, mediante o qual ele se doa a si mesmo por cada um de nós.

Saibamos redescobrir a beleza e o significado do Sacramento da Eucaristia, onde recebemos o próprio Cristo que deseja estar sempre conosco. Peçamos a intercessão da Virgem Maria por cada um de nós, ela que ofereceu ao mundo o Pão da vida, nos ensine a viver sempre em profunda união com ele.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ