XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM- Ano B

A multiplicação dos pães

Jo 6,1-15

Meus caros irmãos e irmãs,

A partir deste domingo, a liturgia interrompe a leitura do Evangelho de São Marcos e intercala um longo trecho do Evangelho de São João, que contém a narrativa da multiplicação dos pães e o discurso eucarístico de Jesus na sinagoga de Cafarnaum (cf. Jo 6).  Tudo isto tem seu motivo prático: o Evangelho de São Marcos é o mais breve de todos e não chega a preencher todo o ano litúrgico e, por isso, é integrado com o Evangelho de São João, que não é lido no ciclo dos anos litúrgicos.  O importante é que, durante quatro domingos teremos a oportunidade de desenvolver uma catequese sobre o Sacramento da Eucaristia.

Iniciemos a nossa reflexão tendo como referência o texto da primeira leitura que nos é proposto para este domingo (cf. 2Rs 4,42-44), em que nos é dito que um homem de Baal trouxe a Eliseu o pão das primícias: vinte pães de cevada e trigo novo que deviam ser apresentados diante do Senhor, a quem deveriam ser consagrados para depois serem revertidos em benefício do sacerdote (cf. Lv 23,20). Ao ser entregue a Eliseu, ele, no entanto, não conservou os dons para si, mas mandou reparti-los.  O servo do profeta não acreditava que os alimentos oferecidos chegassem para cem pessoas; no entanto, ainda sobraram. A descrição de uma milagrosa multiplicação de pães de cevada e de grãos de trigo sugere que, quando o homem é capaz de partilhar os dons recebidos de Deus, esses dons chegam para todos e ainda sobram.

No Evangelho o mesmo tema se repete. Jesus, o Deus que veio ao encontro dos homens, percebe a “fome” da multidão que o segue e propõe saciá-la. Aos discípulos, aqueles que vão continuar até ao fim dos tempos a mesma missão que o Pai lhe confiou, Jesus os convida a assumirem o dom da partilha, concretizada na distribuição do pão. A multidão que segue Jesus tem fome e não tem o que comer (vv. 5-6). Esta referência nos leva ao Livro do Êxodo quando, no deserto, o Povo que caminhava para a terra prometida sentiu fome (cf. Ex 16,4ss).

Ao procurar uma solução para saciar a fome dos que ouviam a sua Palavra, Jesus envolve os seus próprios discípulos e ouve a pergunta: “Onde haveremos de comprar pão para lhes dar de comer?” (v. 5).  O Evangelista São João nota que Jesus põe a questão aos discípulos, representados por Filipe, para os “experimentar” (v. 6).  Filipe constata a impossibilidade de resolver o problema, dentro do quadro econômico vigente: “Duzentos denários não bastariam para dar um pedaço a cada um” (v. 7).  O denário era uma moeda de prata da época romana e tinha o valor de uma dracma, o salário diário de um trabalhador no tempo de Jesus (cf. Mt 20,2.9.13). Então Deus respondeu à necessidade do Povo e lhe deu comida em abundância. Os discípulos raciocinam em termos financeiros, mas Jesus procura dar ênfase à partilha.

André, porém, apresenta uma solução: “Há aqui um menino, que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos” (v. 9). No entanto, o próprio Apóstolo André não está convicto dos resultados, quando completa: “Mas o que é isso para tantas pessoas?” A figura do “menino”, anônimo, é significativa: quer pela idade, quer pela condição, pois trata-se de alguém ainda frágil em sua estrutura física e também social.

Jesus ordena aos discípulos que façam sentar aquela multidão, em seguida ele tomou aqueles pães e peixes, deu graças ao Pai e distribuiu-os, como nos relata o Evangelho: “Tomou os pães e deu graças. Em seguida, distribuiu-os a quantos estavam sentados” (Jo 6,11). As palavras pronunciadas por Jesus sobre o pão, que é compartilhado, junto com a ação de graças, são paralelas às palavras da Última Ceia e evocam a Eucaristia, o Sacrifício de Cristo para a salvação do mundo. A palavra “Eucaristia” quer dizer “Ação de Graças” e é o grande encontro permanente do homem com Deus, em que ele mesmo se faz nosso alimento e se oferece a si próprio para nos transformar nele mesmo.

Os pães e os peixes foram sendo distribuídos fartamente, sinal da bondade de Deus, operada pelas mãos de Jesus.  A multidão fica admirada com o prodígio da multiplicação dos pães; mas o dom que Jesus oferece é a plenitude de vida para o homem faminto. Jesus sacia não só a fome material, mas aquela mais profunda, a fome do sentido da vida, a fome de Deus.

Na cena, a atitude do menino tem uma especial relevância. Diante da dificuldade de alimentar tantas pessoas, põe ele em comum o pouco de que dispõe: cinco pães e dois peixes (v.8). O milagre se realiza a partir de uma primeira partilha modesta daquilo que um simples menino possuía.

O final do relato também tem algo a nos dizer. Quando todos se saciaram, Jesus ordenou: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca. Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido” (v. 12-13).  O número doze era o número dos apóstolos e era o símbolo da universalidade dos bens de Deus.  A recomendação de Jesus para recolher os pedaços que sobraram indica que é aos Apóstolos e aos sacerdotes que Jesus incumbiu esta missão de conservar como o maior tesouro sobre a terra, a divina Eucaristia, e de levá-la aos doentes, por isto chamamos de reserva eucarística. E, quanto aos fiéis, devem conservar religiosamente os frutos e as graças da comunhão recebida.

Na Oração do Pai Nosso, em sua segunda parte, o próprio Senhor Jesus nos ensina a pedir: “O pão nosso de cada dia dai-nos hoje”.  O Pai, que nos dá a vida, não pode deixar de nos dar o alimento necessário à vida.  Este pedido de pão que fazemos na Oração do Pai Nosso não pode ser isolado de uma frase dita por Jesus na parábola do Juízo Final: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35).  Mas, devemos também lembrar que “o homem não vive apenas de pão, mas de tudo aquilo que procede da boca de Deus” (Dt 8,3; Mt 4,4).  Há também na terra não apenas a fome de pão, mas também a fome de ouvir a palavra de Deus (cf. Am 8,11).

Assim, devemos lembrar também da palavra de Deus a ser acolhida na fé, e do Corpo de Cristo a ser recebido na Eucaristia. A Eucaristia deveria ser também o nosso Pão quotidiano.  No milagre da multiplicação dos pães, quando o Senhor proferiu a bênção, partiu e distribuiu os pães através dos seus discípulos para alimentar a multidão, o que prefigura a superabundância deste único pão da sua Eucaristia.

Que a nossa oração ampare o compromisso comum para que nunca falte a ninguém o Pão do céu que dá vida eterna e o necessário para uma vida digna e se afirme a lógica da partilha e do amor. Que o Senhor nos faça redescobrir a importância de nos alimentarmos não só de pão, mas de verdade, de amor, de Cristo, do corpo de Cristo, participando fielmente e com grande consciência na Eucaristia, para estarmos cada vez mais intimamente unidos a ele.

Peçamos também ao Senhor que nos conceda ouvidos atentos de discípulos para acolher e transmitir a sua Palavra e que tenhamos sempre fome do verdadeiro Pão, que é a Eucaristia, e que ela seja vivificante para cada um de nós. A Virgem Maria nos acompanhe com a sua materna intercessão e venha em nosso auxílio para que o nosso coração esteja sempre aberto à compaixão pelo próximo e à partilha fraterna dos dons que possuímos.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

Eram como ovelhas sem pastor…

Mc 6,30-34

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos recorda que, depois da experiência da missão, os Apóstolos voltaram felizes, mas também cansados. E Jesus deseja dar a eles um pouco de descanso; então, retira-se com eles para um lugar deserto, a fim de que possam repousar.  O texto ressalta: “Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer. Então foram sozinhos, de barco, para um lugar deserto e afastado. Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles. Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6,31-34).

Este texto evangélico nos mostra uma cena simples, mas bem sugestiva, que nos faz voltar a atenção para a figura do pastor.  Inicialmente, Jesus convida seus discípulos a separar-se da multidão, do seu trabalho, para se retirar com ele a “um lugar deserto”. Ele convida os seus discípulos para um lugar solitário para um descanso e também para oração. O deserto, em muitas páginas da Sagrada Escritura, é apresentado como o local onde Deus fala ao seu povo.  Com isto, Jesus também ensina aos seus discípulos sobre a necessidade de fazer um equilíbrio entre a ação e a contemplação, passar do contato com as pessoas ao diálogo secreto e regenerador consigo mesmo e com Deus.

A vida de apostolado deve ter, periodicamente, momentos para uma necessária revisão de vida, para estabelecer novos planos e para alimentar as forças espirituais na oração e na comunhão fraterna.  Ao lado do trabalho missionário, é indispensável o recolhimento e a meditação.  Esta é a razão dos retiros espirituais.  As pessoas que se dedicam ao apostolado, além da oração e atos de piedade diários, necessitam de algum tempo especial para cuidar da própria santificação.

Todos devem ir a um lugar solitário, para estar com o Cristo e para usufruir da sua presença.  Por vezes, mergulhamos em um ativismo descontrolado e podemos perder as referências; por esta razão, devemos sempre ter o tempo e a disponibilidade para um encontro pessoal com Jesus. Estar na companhia de Jesus sempre será a maior de todas as virtudes do homem; portanto, devemos reservar um tempo para estar em unidade com Jesus, pois com ele é possível partilhar os acontecimentos da vida, do trabalho, da missão e então se reabastecer junto ao Mestre dos mestres.

Cada evangelizador, cada sacerdote, perante as múltiplas tarefas a serem realizadas, sempre estará no perigo de se deixar levar pelo ativismo e esquecer que toda a sua atuação só tem o devido valor enquanto está a serviço da sua própria fé e, sem esta fé, somos funcionários da Igreja e não portadores de Deus.  Não podemos esquecer que a obra de Deus se realiza através de nós.

Mas, observando o texto evangélico, podemos constatar que Jesus e os seus discípulos não puderam descansar o suficiente naquele dia. Com isto, nota-se que as necessidades das ovelhas estão em primeiro lugar.  Diante da multidão desorientada, Jesus sente uma profunda compaixão, pois estava ele diante das “ovelhas sem pastor” (v. 34), um sinal da sua preocupação e do seu amor para com todos. Revela a sua sensibilidade e manifesta a sua solidariedade para com aqueles que necessitam da sua atenção. Esta comoção de Jesus nos convida também a imitá-lo diante das necessidades dos outros que esperam de seus pastores um gesto de bondade, de acolhimento e de atenção: “E começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas…” (v. 34).  Pelo seu ensinamento, Jesus quer levar o povo ao conhecimento da verdade e uma vez mais se apresenta como o Bom Pastor, pronto para procurar as ovelhas perdidas e para reuni-las ao seu redor.

Hoje a Igreja, através dos seus ministros, tem uma missão importante: dar sequência a este agir do verdadeiro Pastor, Jesus Cristo.  O sacramento da ordem constitui, como presbíteros, homens frágeis e débeis, tornando-os, no meio do povo, em  um outro Cristo, em um outro “Bom Pastor”. São eles os diretos colaboradores de Cristo, que também os enviou como servos do Evangelho e pede-lhes que sejam construtores de unidade e ministros de misericórdia.  Também cada batizado deve ser um autêntico evangelizador. Para isto, é necessário uma fiel participação na Eucaristia de cada domingo para ouvir os ensinamentos do Senhor.  Nota-se, com isto, a importância da pausa dominical, em comunhão com o Senhor, para a recuperação constante das energias espirituais necessárias para superar as dificuldades da vida.

Todos nós somos chamados a anunciar com vigor e alegria o Evangelho, que sempre nos mostra as razões da nossa esperança (cf. 1Pd 3,15). Esta é a nossa missão, como hoje nos recordam os textos bíblicos: sermos anunciadores da palavra de Deus. Uma tarefa que é particularmente urgente para nós.  Também hoje muitos andam errantes por este mundo, como ovelhas sem pastor. A esses devemos convidá-los a fazer uma experiência de fé com o Cristo Senhor.

Os que encontraram o Senhor ressuscitado sentiram a necessidade de o anunciar aos outros, como fizeram os dois discípulos de Emaús. Eles, depois de ter reconhecido o Senhor ao partir o pão, partiram imediatamente, voltaram para Jerusalém e encontraram reunidos os onze e contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho (cf. Lc 24,33-35). Esta tarefa não perdeu a sua urgência. Aliás, “a missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, ainda está bem longe do seu pleno cumprimento… uma visão de conjunto da humanidade mostra que tal missão ainda está no começo e que devemos empenhar-nos com todas as forças no seu serviço” (RM, 1).

Continua, como um sempre, atual e urgente convite de Jesus Cristo formulado após a sua ressurreição e antes de subir ao Céu:  “Ide, pois, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho ordenado” (Mt 28,19).  E acrescentou: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Este mandato confiado aos apóstolos, foi desenvolvido por muitos santos, em especial, por São Paulo, que assumiu como missão este mandato do Cristo.  Para São Paulo, somente em Cristo a humanidade pode encontrar a redenção e a esperança. Por isso, sentia urgência em anunciar a todos a promessa de uma vida nova em Jesus Cristo (cf. 2Tm 1,1), a fim de que todos os povos pudessem estar inseridos na mesma herança e tornar-se participantes da promessa por meio do Evangelho (cf. Ef 3,6). Ele estava consciente de que, desprovida de Cristo, a humanidade permanece “sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2,12).

São Paulo nos faz lembrar que anunciar o Evangelho não é um título de glória, a ponto de ele mesmo dizer: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16). No caminho de Damasco, ele tinha experimentado e compreendido que a redenção e a missão são obras de Deus e do seu amor. O amor a Cristo levou São Paulo a percorrer inúmeras cidades e povoados para anunciar a mensagem de Salvação a todos os povos (Ef 6, 20).

Possamos também nós imitar muitos santos que souberam anunciar o Cristo Senhor e experimentaram a presença de Deus na própria vida e souberam anunciá-lo pela Palavra e pelo exemplo.  Na verdade, devemos também em oração pedir ao Senhor que suscite em muitos este apelo, pois ele mesmo disse: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe para que mande trabalhadores para a sua messe” (Lc 10,2).  Que o Senhor faça aumentar o número de vocações ao sacerdócio e ao trabalho missionário atuando no campo da evangelização.

Peçamos também à Virgem Maria, a quem invocamos como mãe e intercessora, para sejamos autênticos operários da vinha do Senhor e bons anunciadores do Evangelho.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

Ide por todo o mundo…

Mc 6,7-13.

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo apresenta o primeiro envio em missão dos Doze Apóstolos. Com efeito, o termo “apóstolo” significa, precisamente, “enviados, mandados”. O fato fundamental é que este episódio mostra o começo da missão apostólica, o envio do primeiro grupo de missionários, que se prolongou, sem interrupção, até os nossos dias. Eles são enviados por Deus. Como no Antigo Testamento Deus mandava seus profetas, no Novo Testamento, Jesus, que é o Deus-conosco, manda seus apóstolos. Jesus os envia dois a dois e dá a eles instruções que o Evangelista São Marcos resume em poucas palavras: “Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois; e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos. Ordenou-lhes que não levassem coisa alguma para o caminho, senão somente um bordão; nem pão, nem mochila, nem dinheiro no cinto; que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas” (Mc 6, 7-9).

O texto começa com o relato da iniciativa de Jesus, que chama os Doze, enviando-os para uma missão (v. 7).  Todos os Apóstolos foram enviados, sem excluir ninguém, o que vem especificar a urgência de compartilhar com os outros o dom recebido.  Uma tarefa reservada não para alguns, mas para todos.  O texto também procura enfatizar que a iniciativa do chamamento dos discípulos é de Jesus: Ele “chamou-os” (v. 7).  Não há qualquer explicação sobre os critérios que levaram a essa escolha, que depende sempre de Deus.  Também no texto temos o número dos discípulos que são enviados: “doze”. Trata-se de um número simbólico, que representa a totalidade do Povo de Deus, do novo Povo de Deus. É a sua totalidade que é enviada em missão, a fim de continuar a obra de Jesus junto aos homens.

É provável que o envio “dois a dois” tenha a ver com o costume judaico de viajar acompanhado, para ter ajuda e apoio em caso de necessidade; pode também pensar-se que esta exigência de partir em missão “dois a dois” tenha a ver com a lei judaica, de acordo com a qual eram necessárias duas testemunhas para dar credibilidade a um anúncio (cf. Dt 19,15; Mt 18,16). Essa exigência sugere também que a evangelização tem sempre uma dimensão comunitária.

Este ato indica ainda o sinal da caridade fraterna em ação, onde ninguém age isoladamente. No auxílio mútuo, ambos encontrarão forças para suportar e vencer as dificuldades e ataques que poderão surgir por causa da mensagem transmitida. Com isto, Jesus indica que, dentre os sinais que devem brilhar na evangelização, sobressai, em primeiro lugar, a caridade fraterna. Os discípulos nunca devem trabalhar sozinhos. Ao enviar os Apóstolos dois a dois, mostra que a missão deve ser iluminada pelo testemunho de mútua unidade e compreensão: “Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

Os Apóstolos devem ir ao encontro de todos, às suas casas e em seus ambientes com uma missão: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (cf. Mc 16,15).  E esta é a dimensão universal da tarefa confiada: “Pelo mundo inteiro, a toda a criatura” (Mc 16,15), ao que o evangelista São Lucas completa: “Todos os povos” (Lc 24,47); e que o Livro dos Atos dos Apóstolos sublinha: “até aos confins do mundo” (At 1,8), mostra também a garantia, dada pelo Senhor, de que, nesta tarefa, não ficarão os Apóstolos sozinhos, mas receberão a força e os meios para desenvolver a missão: a força do Espírito Santo e a assistência de Jesus: “Eles, partindo, foram pregar por toda a parte, e o Senhor cooperava com eles” (Mc 16,20).

O Evangelho apresenta ainda outras recomendações aos Apóstolos: Uma só túnica para vestir; um só par de sandálias, um cajado e nada mais.  Despojamento absoluto de bens materiais, que significa o desapego, mas, ao mesmo tempo, a confiança na providência de Deus. A preocupação com os bens materiais pode roubar-lhes a liberdade e a disponibilidade para a missão. Por outro lado, essa atitude de pobreza e de despojamento ajudará também os discípulos a perceber que a eficácia da missão não depende da abundância dos bens materiais, mas sim da ação de Deus.

Chama a nossa atenção o fato de Jesus recomendar o cajado, considerado a arma do pobre. Razão pela qual no Evangelho de São Mateus, Jesus proíbe o seu uso (cf. Mt 10,10), pois os seus discípulos devem ser construtores da paz, portanto, devem renunciar a todos os instrumentos que exijam o uso da violência.  Contudo, neste trecho do Evangelho de São Marcos, Jesus permite o seu uso, porque este instrumento tem um expressivo significado.  É o utensílio que acompanha o profeta itinerante (cf. 2Rs 4,29). No Livro do Êxodo, Moisés e Aarão, em dupla, como bem ressalta o Evangelho deste domingo, usam o cajado para lutar contra as forças do faraó e libertar o povo do Egito. Moisés, usando um cajado, opera prodígios (cf. Ex 7,9-12), estende a mão sobre a nação egípcia e provoca a chegada dos gafanhotos (cf. Ex 10,13), divide o Mar Vermelho (cf. Ex 14,16) e faz jorrar água do rochedo (cf. Ex 17,5).  O cajado é o símbolo do poder de Deus.

Em seguida, o texto apresenta a missão que Jesus lhes confiou: “Deu-lhes poder sobre os espíritos imundos” (v.7). Os espíritos imundos ou impuros representam aqui tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de chegar à vida em plenitude. A missão dos discípulos é, pois, lutar contra tudo aquilo que destrói a vida e a felicidade do homem, ou seja, o pecado. O discípulo sente-se convidado a confiar, a ser amigo de Jesus, a compartilhar a sua sorte, a partilhar a sua vida; deve aprender a viver na confiança da amizade de Jesus.

Uma outra instrução refere-se ao comportamento dos discípulos diante da hospitalidade que lhes for oferecida (v.10-11). Quando forem acolhidos numa casa, devem aí permanecer algum tempo, certamente para formar uma comunidade, e não devem saltar de um lugar para o outro, ao sabor das amizades, dos interesses próprios ou alheios ou das suas próprias conveniências pessoais. Quando não forem recebidos num lugar, devem, ao sair, “sacudir o pó dos pés”: trata-se de um gesto que os judeus praticavam quando regressavam do território pagão e que simboliza a renúncia à impureza. Aqui, deve significar o repúdio pelo fechamento às propostas de Deus.

É preciso estarmos atentos para não interpretar mal a frase de Jesus sobre ir sacudindo também o pó dos pés quando não forem recebidos. É testemunho “para” eles, não contra eles, para fazê-los entender que os missionários não estavam com interesses econômicos ou materiais, por isto, não queriam levar nem sequer seu pó. Eles estavam pregando a salvação e, rejeitando-a, eles privavam a si mesmos de um grande bem. A Igreja hoje continua esta missão de anunciar no Evangelho e quer compartilhar o dom recebido, cumprindo o mandato do próprio Cristo: “de graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8).

A outra indicação muito importante do trecho evangélico é que os Doze não podem contentar-se com pregar a conversão: segundo as instruções e o exemplo de Jesus, a pregação deve ser acompanhada da cura dos doentes. Por conseguinte, a missão apostólica deve abranger sempre os dois aspectos de pregação da Palavra de Deus e de manifestação da sua bondade, mediante gestos de caridade, de serviço e de dedicação.

O convite de Jesus a evangelizar foi dirigido em primeiro lugar aos apóstolos, e hoje a seus sucessores, mas não só a eles. Estes devem ser os guias, os animadores dos outros, na missão comum. Peçamos a intercessão da Virgem de Nazaré para cada um de nós, e que possamos responder com generosidade a este chamado do Senhor, para anunciar o seu Evangelho de salvação com as palavras e, antes de tudo, com o nosso testemunho de vida.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

Nenhum profeta é bem aceito pelo seu povo

Mc 6,1-6.

Caros irmãos e irmãs

O evangelho deste domingo traz o conhecido trecho onde Jesus afirma: “Nenhum profeta é bem aceito pelo seu povo” (Mc 6,4). Com efeito, com quase trinta anos, após ter deixado Nazaré e após pregar e fazer curas em muitos lugares, Jesus regressou à sua terra e pôs-se a ensinar na sinagoga, lugar do culto e da adoração. Os seus concidadãos ficaram admirados pela sua sabedoria e, conhecendo-o como o “filho de Maria”, o “carpinteiro” que viveu no meio deles, ficaram escandalizados com seus feitos (cf. Mc 6,2-3). Devido a este fechamento espiritual, Jesus não pôde realizar em Nazaré milagre algum. Apenas “curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos” (Mc 6,5). Com efeito, os milagres de Cristo não são uma exibição do seu poder, mas sinais do amor de Deus, que se realizam com a reciprocidade da fé das pessoas. Os contemporâneos de Jesus pareciam conceder-lhe escassa consideração (cf. Jo 1,46). Nazaré é, no entanto, a cidade onde Jesus cresceu e onde residia sua família.

A cena principal que nos é apresentada tem lugar na sinagoga de Nazaré, em um dia de sábado. Jesus, como qualquer outro membro da comunidade judaica, foi à sinagoga para participar do ofício sinagogal; e, fazendo uso do direito que todo israelita adulto tinha, leu e comentou as Escrituras.

Os ensinamentos de Jesus na sinagoga, naquele sábado, deixaram impressionados os habitantes de Nazaré. Depois de o escutarem, os seus conterrâneos traduzem a sua perplexidade através de várias perguntas.  Duas perguntas apresentadas dizem respeito à sua origem e à qualidade dos seus ensinamentos: “De onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada?” (v.2); uma outra questão se refere à qualificação das ações de Jesus: “E os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?” (v.2). Recordam também o trabalho executado e a sua família (v.3).  Para eles, Jesus é “o carpinteiro”; não é um “rabi” e não tem qualificações para ensinar como ensina. Por outro lado, eles conhecem a identidade da família de Jesus e não descobrem nada de extraordinário. Ele é o “filho de Maria” e os seus irmãos e irmãs são pessoas comuns, sem qualificações excepcionais.

Portanto, parece claro que o papel assumido por Jesus e as ações que ele realizou são humanamente inexplicáveis. A questão será saber se estas capacidades extraordinárias que Jesus revela, não vindas dos conhecimentos adquiridos no contato com famosos mestres, nem do ambiente familiar, viriam de Deus. Desde o primeiro momento, os comentários dos habitantes de Nazaré deixam transparecer uma atitude negativa e um tom depreciativo na análise de Jesus. Nem sequer se referem a Jesus pelo próprio nome, mas usam sempre um pronome para falar dele: Jesus é “este” ou “ele”. Depois, o chamam depreciativamente “o filho de Maria”. O costume era o filho ser conhecido em referência ao pai e não à mãe. Os conterrâneos de Jesus não conseguem reconhecer a presença de Deus naquilo que Jesus diz e faz.

Na resposta aos seus conterrâneos, Jesus se coloca como um enviado de Deus, que atua em nome de Deus e que tem uma mensagem para oferecer aos homens. Como, de fato, os ensinamentos que Jesus propõe não vêm dos mestres judaicos, mas do próprio Deus; a vida que ele oferece é a vida plena e verdadeira que Deus quer propor aos homens. O povo teve sempre dificuldades em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na Palavra e nos gestos proféticos. O fato de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes, pelo povo da sua terra e até pelos seus familiares, não invalida a verdade por ele transmitida e a sua procedência divina. Jesus não realizou ali nenhum milagre porque estavam eles fechados à sua mensagem de salvação.

Jesus assume-se como um profeta, isto é, alguém a quem Deus confiou uma missão. A nossa identificação com Jesus nos faz continuadores desse mesmo ministério que Deus o confiou. O testemunho que Deus nos chama a dar cumpre-se, muitas vezes, no meio das incompreensões e oposições. Frequentemente, os discípulos de Jesus se sentem desanimados e frustrados porque o seu testemunho não é entendido e nem acolhido.  A atitude de Jesus nos convida a perseverar sempre.  Deus tem os seus projetos e sabe como transformar um fracasso em êxito.

É importante lembrar que o termo ‘profeta’ recebeu diversas interpretações ao longo dos anos. Inicialmente, identificava-se o profeta à pessoa que via o futuro e, posteriormente, passou a ser chamado de “rabi”, ou seja, o homem que anuncia. Contudo, a etimologia grega da palavra ‘profeta’, derivada de “pro-femi”, quer dizer, falar em lugar de outro. Daí o sentido do vocábulo profecia: algo dito antes que suceda. Em todo caso, o profeta tem uma missão a cumprir: transmitir a mensagem de alguém superior a ele. A Sagrada Escritura faz referência a muitos profetas, e alguns são conhecidos pelos seus próprios nomes.  Alguns deles nos deixaram uma mensagem por escrito, que chamamos na Sagrada Escritura de livros proféticos. Dentre estes profetas, pode-se destacar quatro, conhecidos como profetas maiores, são eles: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel.

Mas todo esse profetismo, presente no texto bíblico está orientado para Jesus de Nazaré e nele culmina.  Chegada a plenitude dos tempos, Deus já não nos transmitiu sua palavra por meio de intermediários, mas por seu próprio Filho que é sua Palavra pessoal feita homem (cf. Hb 1,1s).  Jesus testifica a autenticidade de sua palavra mediante os sinais que são seus milagres.  Assim, aparece diante do povo como profeta enviado por Deus e falando com autoridade própria.  Contudo, como todos os profetas que o precederam, Jesus teve que sofrer a desconfiança e a recusa dos homens, inclusive de seus concidadãos, como nos relata o texto evangélico deste domingo.

A perícope evangélica ainda nos fala em irmãos de Jesus. Isto porque, na linguagem usada naquele tempo eram também chamados irmãos os primos e os parentes, tanto próximos como afastados. Abraão, por exemplo, disse a Lot, seu sobrinho: “Peço-te que não haja contendas entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus pastores, porque somos irmãos” (Gn 13,8). Do mesmo modo Labão disse a Jacó: “Acaso, porque és meu irmão, me servirás de graça?” (Gn 29,15). Jacó era, no entanto, filho da irmã de Labão. Nos tempos atuais usamos também esta mesma linguagem.  Falamos que somos todos irmãos. E, com razão, não somos irmãos de sangue. Mas, somos irmãos porque temos Deus como Pai comum, pela fé e pelo Batismo e somos santificados pelo mesmo Espírito Santo, em Cristo Jesus.

A cena evangélica deste domingo nos remete ainda a uma outra referência que o Evangelista João relata, referindo-se a Jesus Cristo: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11).  É a cada um de nós que, mais uma vez, se dirige a Palavra de Deus.  Podemos admitir que, também entre nós, Jesus não realiza “muitos milagres” e que sua Palavra nem sempre tem eficácia, talvez por falta de confiança e fé da nossa parte no poder do Espírito Santo que sempre faz novas todas as coisas.

Que saibamos receber o Cristo em nossa vida e, em cada Eucaristia, esteja ele presente em nosso coração e que ele mesmo nos conceda uma fé sempre mais firme para seguirmos fielmente os seus ensinamentos.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB.
Mosteiro de São Bento/RJ