SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO

Mt 16,13-19

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade litúrgica dos Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja, no linguajar dos santos padres, com dois estilos diferentes para a mesma vocação missionária.  Pedro, apóstolo dos judeus, Paulo, dos gentios ou pagãos.  Originariamente o primeiro foi um singelo pescador da Galileia; o segundo, um sábio fariseu de Tarso. Tocados por Cristo, tornaram-se grandes difusores da mensagem do Senhor até o martírio, em Roma: São Pedro no ano 64 e São Paulo em 67.

O texto evangélico nos apresenta uma dupla interrogação feita por Jesus aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v.13) e “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v.15). Jesus os convida tomar consciência desta diferente perspectiva e ouve a resposta dos seus discípulos acerca do pensamento das pessoas, que o identificam como um profeta. Isto, entretanto, não basta. É necessário aprofundar, ir além, reconhecer a singularidade da sua pessoa.  Perante uma resposta ainda não convincente, Jesus transfere a pergunta aos seus discípulos; e Pedro, tomando a palavra, responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

A resposta de Pedro não é fruto de seu próprio raciocínio, mas uma revelação do Pai ao humilde pescador da Galileia, como confirma o próprio Jesus, dizendo: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16,17). É por causa desta confissão que Jesus diz: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18). Pedro estava tão próximo do Senhor que se tornou ele mesmo uma rocha de fé e de amor sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja. E Jesus ainda completa: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Com base nesta confissão de Pedro, é conferida a ele uma tarefa particular, manifestada mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra de fundamento ou pedra angular, a das chaves e a de ligar e desligar.  A chave representa a autoridade sobre a casa (Is 22, 22) e a expressão “ligar e desligar” está relacionada à linguagem rabínica, aplicando-se tanto no contexto das decisões doutrinais como no do poder disciplinar, ou seja, a faculdade de infligir ou levantar a excomunhão.

Chama também a nossa atenção o número das chaves que são dadas a Pedro. Jesus apresenta a palavra no plural: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (v. 19). A iconografia nos mostra a imagem do Apóstolo com duas chaves.  O mesmo pode-se constatar no brasão pontifício, onde vemos uma de prata e outra de ouro. Alguns interpretam também essas duas chaves como a Palavra de Deus, por meio da qual os homens são instados a mudar de vida e, em seguida, os sacramentos, com os quais Jesus renova a natureza humana, tornando-a parte de seu sagrado corpo místico. Jesus já abriu as portas do Reino dos Céus. Mas deixou sob a responsabilidade de seus administradores a condução do povo até a travessia destas mesmas portas. Os sacerdotes, com a Palavra e os sacramentos, devem conduzir o homem pelas estradas que levam ao Reino Celeste.

Mediante estas imagens sobressai claramente o fato de que Pedro é inseparável do encargo pastoral que lhe foi confiado em relação ao rebanho de Cristo, o que vem a se concretizar no encontro de Cristo ressuscitado com Pedro, conforme nos narra o Evangelho de São João, quando o Senhor Ressuscitado confia a ele a missão de apascentar o seu rebanho (cf. 21,15-19).

São Pedro torna-se o cimento de rocha sobre o qual estará o edifício da Igreja; terá as chaves do Reino dos céus para abrir e fechar a quem lhe pareça justo; por último, poderá atar e desatar, ou seja, poderá estabelecer ou proibir o que considere necessário para a vida da Igreja, que é e continuará sendo de Cristo. É sempre a Igreja de Cristo e não de Pedro.  Quem edifica a Igreja é Cristo. Pedro é um instrumento, a primeira pedra do edifício.  Jesus explicou o sentido de “ligar e desligar” quando disse a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15).

O Apóstolo São Pedro que, por dom de Deus, tornou-se uma rocha firme, surge aqui como ele é na sua fraqueza humana: uma pedra na estrada, uma pedra onde se pode tropeçar.  Contudo, mesmo no âmbito da fragilidade do homem, a ação de Deus pode transformar a própria história.  O poder conferido a Pedro não é um poder segundo as modalidades deste mundo. É o poder do bem, da verdade e do amor. Sua promessa é verdadeira: os poderes da morte e as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja que Cristo edificou sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e que ele, precisamente desta forma, continua a edificar.

Esta posição de destaque que Jesus quis entregar a Pedro se constata também depois da sua ressurreição, quando Maria Madalena corre a Pedro e a João para informar que a pedra foi removida da entrada do sepulcro (cf. Jo 20,2) e João lhe cederá o passo quando os dois chegam ao túmulo vazio (cf. Jo 20,4-6). Posteriormente, Pedro será, entre os apóstolos, a primeira testemunha da aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24,34; 1Cor 15,5). No Concílio de Jerusalém, Pedro ainda desempenha uma função diretiva (cf. At 15 e Gl 2,1-10) e, precisamente pelo fato de ser a testemunha da fé autêntica, o próprio Paulo reconhecerá nele um papel de “primeiro” (cf. 1Cor 15,5; Gl 1,18; 2,7).

Podemos ainda ressaltar o testemunho de fé e a árdua luta que os Apóstolos Pedro e Paulo tiveram de enfrentar pela causa do Evangelho. Também nisto seguiram com fidelidade o modelo de Cristo: deram a vida em prol do Evangelho. Estes dois Apóstolos, tendo o olhar fixo no mistério pascal, não duvidaram da necessidade de anunciar o Cristo, mesmo diante das dificuldades e dos desafios: era o início da realização do plano de Deus. Era a vitória sobre as forças do mal, conquistada em primeiro lugar por Cristo e depois pelos seus apóstolos, mediante a fé, sobre a qual está edificada a missão da Igreja.  A rocha representa a firmeza, não só no que se refere à duração, mas também no que tange à solidez dos seus ensinamentos, oriundos da Sagrada Escritura.

O Apóstolo Paulo, cujo nome antes da conversão era Saulo, era natural de Tarso. Foi inicialmente um fariseu zeloso, a ponto de perseguir e aprisionar os cristãos, sendo responsável pela morte de muitos deles. Mas o encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco marcou a mudança decisiva da sua vida. Realizou-se, então, a sua completa transformação, uma verdadeira conversão espiritual. Tornou-se, de cruel perseguidor dos cristãos, em fervoroso apóstolo do Evangelho. A partir do encontro com Cristo a caminho de Damasco, todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Os Apóstolos Pedro e Paulo são testemunhas insignes da fé; dilataram o Reino de Deus com os seus diversos dons e, a exemplo do próprio Cristo, selaram com o sangue a sua pregação evangélica. A iconografia tradicional apresenta São Paulo com a espada, que representa o instrumento do seu martírio, enquanto São Pedro é apresentado com as chaves nas mãos, sinal da autoridade recebida do próprio Cristo.

Que o exemplo destes grandes santos possa iluminar as nossas mentes e acender em nós o desejo de realizar todos os dias a vontade de Deus, a fim de que possamos permanecer fiéis ao Evangelho, cujo serviço eles consagraram a própria vida, anunciando os ensinamentos do Cristo a todos os povos.  Que São Pedro e São Paulo possam interceder por nós, para que possamos, assim como eles, sermos perseverantes na fé e na santidade. Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA – Ano B

Lc 1,57-66.80

Meus caros irmãos e irmãs

Para este domingo a liturgia nos convida a celebrar a solenidade do Nascimento de São João Batista, a voz enviada por Deus para anunciar e preparar o caminho do Cristo Senhor. Os quatro Evangelhos dão muita importância à figura de João Batista, como profeta que conclui o Antigo Testamento e inaugura o Novo, indicando em Jesus de Nazaré o Messias, o consagrado do Senhor. A celebração da Natividade de São João Batista é, com a do nascimento de Jesus e de Maria, a única festa litúrgica que a Igreja dedica ao nascimento de um santo. E mesmo antes de nascer, ao perceber a presença de Jesus “estremece de alegria” (Lc 1,44) no ventre materno, por ocasião da visita de Maria à prima Isabel. A ele, Jesus fez um grande elogio: “Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior que João, o Batista” (Mt 11,11).

A Sagrada Escritura descreve a personalidade e a missão de São João Batista como o Precursor de Cristo (cf. Mc 1,2-8). Começando pelo aspecto externo, é apresentado como uma figura ascética: vestido de pele de camelo, alimenta-se de gafanhotos e mel selvagem que encontra no deserto da Judéia (cf. Mc 1,6).  João Batista foi o precursor, a “voz” enviada para anunciar a chegada do Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).  E João preparou a chegada de Jesus pregando a todo o povo de Israel um batismo de arrependimento (cf. At 13,23-24).

No que diz respeito à missão de João, foi ela um apelo extraordinário à conversão: o seu batismo está ligado a um convite fervoroso para uma nova forma de pensar e de agir. O apelo de João vai além: exorta a uma mudança interior, a partir do reconhecimento e da confissão do próprio pecado.  São Lucas nos mostra que há uma continuidade entre a pregação de João Batista e o agir de Jesus de Nazaré: “Eu batizo vocês com água. Mas vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16).

O evangelho desta solenidade é bem apropriado, pois trata justamente do nascimento e imposição do nome de João. Todo o relato do nascimento e circuncisão do precursor de Jesus está carregado de alegria, otimismo e esperança.  No Antigo Testamento, o nome é conferido no momento do nascimento (cf. Gn 4,1; 21,3; 25,25-26), mas, o relato parece aplicar o costume helenista, assumido pelo judaísmo mais recente, onde o nome é dado por ocasião da circuncisão da criança que, segundo as prescrições das leis, deveria ocorrer no oitavo dia depois do nascimento (cf. Gn 17,12 e Lv 12,3).

Os vizinhos e parentes dão como certo que o menino terá o mesmo nome do pai. No entanto, Isabel e Zacarias escolhem o nome João, conforme disse o anjo, quando do anúncio do seu nascimento (cf. Lc 1,13).  No momento em que João Batista se torna membro desse povo, não pode mais se chamar Zacarias.  Ele não dá simplesmente continuidade à estirpe de seu pai, mas assinala o início da nova época.  Terminou o tempo em que se recordam as promessas, chegou o tempo de ver em ação a realização das promessas, como sinal da bondade de Deus.  João Batista fora destinado para servir de limite entre o tempo da Lei e o tempo da graça.  Até o seu nascimento era o tempo das profecias, de todos os profetas e da Lei (cf. Mt 11,13), e foi ele o primeiro a revelar a presença daquele cuja vinda a Lei e os profetas anunciaram.

A circuncisão é o sinal da pertença ao povo da aliança.  Com esse rito, o circuncidado passa a fazer parte de Israel e se torna herdeiro das promessas feitas por Deus a Abraão e à sua descendência.  É nesse ponto que adquire importância o nome que recebe, porque, entre os povos da antiguidade, o nome indicava a pessoa, a sua condição, as suas qualidades, o seu destino.

O nome João tem origem no hebraico “Iohanan”, composto pela união dos elementos “Yah”, que significa “Javé, Deus”, e “Hannah”, que quer dizer “graça”. Assim, o nome João significa literalmente “o Senhor concede graça”, ou seja, o menino é um “dom de Deus” e o primeiro sinal da graça que Deus vai derramar sobre os homens, através do Messias que está para chegar.  João é um “dom de Deus”, um sinal da presença de Deus no meio do seu Povo.

Zacarias , o pai de João Batista, era sacerdote do culto judaico. O Arcanjo Gabriel apareceu a ele e disse: “Não tenhas medo, Zacarias, porque Deus ouviu tua súplica. Tua esposa, Isabel, vai ter um filho, e tu lhe darás o nome de João” (Lc 1,13). Porém, por não ter acreditado na mensagem de Gabriel, Zacarias perdeu a voz.

Com o nascimento de seu filho, seus parentes quiseram então dar-lhe o nome do pai e Zacarias, sem poder falar, escreveu em uma tábua: “Seu nome é João”, tendo sua voz devolvida (Lc 1,64).  Neste momento, inspirado pelo Espírito Santo, Zacarias falou sobre a missão do filho: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás adiante do Senhor a preparar os seus caminhos. Para dar a conhecer ao seu povo a sua salvação pela remissão dos pecados” (Lc 3,1-6).

São Lucas situa João Batista dizendo que de Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvi-lo e se fazer batizar por ele no rio Jordão, confessando os próprios pecados (cf. Mc 1,5). A fama do profeta que batizava cresceu a tal ponto que passou a ser conhecido como João Batista e muitos perguntavam se era ele o Messias. Mas ele, ressalta o evangelista, negou-o decididamente: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

Quando um dia veio de Nazaré o próprio Jesus para se fazer batizar, João inicialmente recusou-se, mas depois consentiu, e viu o Espírito Santo pairar sobre Jesus e ouviu a voz do Pai celeste que o proclamava seu Filho (cf. Mt 3,13-17). Mas a sua missão ainda não estava completada: pouco tempo mais tarde, foi-lhe pedido que precedesse Jesus também na morte violenta: João foi decapitado na prisão do rei Herodes, e assim deu pleno testemunho do Cordeiro de Deus, que ele foi o primeiro a reconhecer e a indicar publicamente.  João pagou com a vida, selando com o martírio o seu serviço a Cristo (cf. Mc 6,14-29).

No final do evangelho há uma referência à ida de João para o deserto (v. 80); deserto é o lugar onde Israel fez a sua experiência de encontro com Deus, onde sentiu de forma especial o amor de Deus e onde o Povo assumiu o compromisso da aliança: é essa experiência que João vai fazer, para depois a apresentar ao seu Povo.

A primeira leitura da Liturgia da Palavra nos fez escutar a profecia de Isaías, colocando as palavras do profeta na boca de João Batista: “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome… ele que me preparou desde o nascimento para ser seu Servo (Is 49,1.5)  O texto ressalta que todos nós somos frutos de um desejo de Deus, fomos todos misteriosamente chamados à vida. O nascimento de João Batista que celebramos, do filho de Zacarias e Isabel, foi fruto do desígnio amoroso de Deus.

Invoquemos a intercessão de São João Batista por cada um de nós, para que saibamos ser sempre fiéis a Cristo e testemunhar com coragem a sua verdade e o seu amor a todos. E a ele possamos também confiar o nosso caminho ao encontro do Senhor. Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento / RJ

XI SEMANA DO TEMPO COMUM – Ano B

As parábolas da semente e do grão de mostarda

Mc 4,26-34

Meus caros irmãos e irmãs,

A liturgia da palavra deste domingo traz para a nossa reflexão duas breves parábolas contadas por Jesus: a da semente que cresce sozinha e a do grão de mostarda (cf. Mc 4, 26–34). Nestas parábolas temos a exposição de como o Reino de Deus se expande com uma força que não depende do ser humano, mas do próprio Deus. Através dessas imagens, tiradas do mundo da agricultura, o Cristo Senhor quer ilustrar as razões da nossa esperança e do nosso compromisso na história.

A primeira parábola ressalta: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou” (v. 27-29).

Esta parábola tem uma estrutura bastante simples e evoca o mistério da criação e da redenção, da obra fecunda de Deus. Ele é o Senhor do Reino, o homem é o seu colaborador humilde que contempla e rejubila com a obra criadora divina e dela espera pacientemente os frutos. O texto mostra que o agricultor semeia com a certeza de que o seu trabalho não será infecundo. Ele confia na força da semente e na fertilidade do terreno.

Após ser semeada, a semente nasce e cresce independente da ação do agricultor. Deste modo, podemos lembrar da afirmação de São Paulo: “Eu plantei, Apolo regou; mas era Deus quem fazia crescer. Aquele que planta nada é; aquele que rega nada é; mas importa somente Deus, que dá o crescimento” (cf. 1Cor 3, 6-7). No contexto da parábola, Jesus indica que o Reino tem uma força intrínseca que independe dos trabalhadores. O objetivo da parábola é também o de chamar a atenção dos ouvintes para o Reino de Deus e é um recurso retórico que faz parte do método utilizado por Jesus na evangelização. A semente que germina e cresce por si mesma exprime a ação de Deus que comunica amor e vida a todos.

O Reino de Deus é comparado não apenas ao trabalho do camponês ou à semente que é lançada à terra, mas deve chamar a nossa atenção verifica-se que chama a atenção todo o processo de crescimento da planta. Jesus quer mostrar que o Reino de Deus é tão misterioso como o processo de desenvolvimento de uma semente que brota e se torna uma planta grandiosa.  Para o homem antigo este processo constituía um milagre de Deus. Depois de lançada a semente, o homem não podia fazer mais nada, senão esperar com paciência o tempo da colheita.

Na linguagem evangélica, a semente é também símbolo da Palavra de Deus, cuja fecundidade é recordada por esta parábola. Do mesmo modo como a semente humilde se desenvolve na terra, também a Palavra age com o poder de Deus no coração de quem a ouve. Deus confiou a sua Palavra à nossa terra, ou seja, a cada um de nós, com a nossa humanidade concreta. Podemos ser confiantes, porque a Palavra de Deus é palavra criadora (cf. Gn 1,1ss). Esta Palavra, sendo acolhida em nosso coração, certamente dará os seus frutos, porque o próprio Deus a faz germinar e crescer.  A Palavra de Deus, ao ser anunciada, penetra nas mentes e nos corações, e quem a escuta nunca mais consegue permanecer o mesmo.  É inevitável que aconteça uma transformação interior.

Na segunda parábola Jesus conta: “O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes. Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra” (v. 32-33).  São palavras que fazem referência ao Livro de Ezequiel, do qual é tirada a primeira leitura (cf. Ez 17,22-24). Os dois textos fazem referência ao desenvolvimento do Reino de Deus na história do mundo. Jesus usa a imagem do grão de mostarda para acentuar o Reino de Deus: uma realidade humanamente pequena e de aparência irrelevante.

Nesta segunda parábola o texto menciona uma semente específica, o grão de mostarda, considerada a menor de todas as sementes. Porém, embora seja pequena, está cheia de vida, e dela nasce um rebento capaz de romper o terreno, de sair à luz do sol e de crescer até se tornar “a maior que todas as hortaliças” (cf. Mc 4,32): a debilidade é a força da semente, o romper-se é o seu poder. E assim é o Reino de Deus: uma realidade humanamente pequena, formada por quem não confia na própria força, mas na força da misericórdia de Deus.  A semente germina e cresce, porque é a bondade de Deus que a faz crescer.

A mostarda é uma planta da família da couve, de grandes folhas, flores amarelas e pequenas sementes. Existem duas espécies principais de mostarda: a branca e a preta. A branca chega a ultrapassar 1 metro de altura e a preta pode chegar de 3 a 4 metros, sendo esta uma espécie de mostarda comum nas margens do lago de Tiberíades e seu tronco se torna lenhoso. Por isso, os árabes têm o costume de falar em árvores de mostarda. Esta variedade só cresce ao longo do lago de Tiberíades e nas margens do Jordão.

As sementes de mostarda, na época, eram vistas como modelo de algo insignificante. Mas ao utilizar este exemplo, Jesus põe em destaque a simplicidade de qualquer realidade que começa em comparação com a grandeza dos resultados. A inexpressiva semente que se transforma em uma árvore acolhedora dos pássaros exprime que a fé dos discípulos, desprezível para muitos, pode gerar o mundo novo de fraternidade e paz.

O acento destas duas parábolas está justamente na força do contraste.  Nelas, o Reino de Deus representa um “crescimento” e um “contraste”: o crescimento que se verifica graças a um dinamismo da própria semente e o contraste que existe entre a pequenez da semente e a grandeza daquilo que ela produz. A mensagem é clara: para que ocorra o seu crescimento faz-se necessário a nossa colaboração, o Reino de Deus é antes de tudo dom do próprio Senhor para nós.

Uma outra mensagem que podemos tirar dessas parábolas está no fato de sabermos esperar o tempo de Deus, ter paciência, manter a calma e acompanhar o desenvolvimento da semente que, sozinha, germina, cresce e produz frutos abundantes.  Para sermos discípulos de Cristo é preciso ter a paciência de uma semente que dia e noite cresce, brota, desabrocha, amadurece em um processo longo, silencioso e quase anônimo.

Obtemos ainda destas duas parábolas um ensinamento importante: O Reino de Deus requer a nossa colaboração, mas é sobretudo iniciativa e dom do Senhor. A nossa obra frágil, aparentemente muito pequena face à complexidade dos problemas do mundo, se for inserida em Deus, terá êxitos. Possamos semear este grão de mostarda no campo do nosso coração, pois se assim fizermos, será ele um jardim bem irrigado, um manancial de águas que nunca param de correr (cf. Is 58,11).

Jesus Cristo é também este grão de mostarda que cai na terra e se multiplica para nós. Saibamos ser a terra boa, capaz de acolher e sermos anunciadores da sua mensagem salvadora e que ela possa produzir bons e saborosos frutos de santidade, unidade e paz. Assim seja.

 

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

X DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

O pecado de Adão e Eva

Mc 3,20-35.

Caríssimos irmãos e irmãs

O Evangelista São Marcos ressalta na perícope evangélica deste domingo que os adversários de Jesus a criticam suas atitudes e a salientam que a sua mensagem é contrária à doutrina oficial, isto é, a dos escribas e fariseus.  Eles alegam que o comportamento de Jesus não está de acordo com as sagradas tradições dos antigos por não respeitar o sábado, não estimular os seus discípulos a jejuar, por ser amigo dos pecadores e por não observar as normas que proíbem contatos com pessoas impuras.  Muitos o consideram um herege (Jo 8,48.52), e o acusam ainda de expulsar o demônio pelo poder de Belzebu, o Príncipe dos demônios.  A palavra Belsebu – seria interesante recordar – vem do nome de um deus filisteu de Acaron, cujo nome era “Baal das moscas” – Baal Zebud.  A mesma palavra foi deformada pelos judeus, e ficou Beelzebul, que significa “o Senhor das esterqueiras”. De qualquer maneira é um nome depreciativo com que os israelitas chamavam o chefe dos espíritos malignos.  Como está no evangelho, os escribas insistem em dizer que Jesus estaria expulsando os demônios pelo poder de Belzebu.  Uma colocação inconveniente, à qual Jesus responde ser impossível um demônio o próprio demônio.

Jesus se dirige a eles e esclarece: Satanás, por sua própria natureza, é inimigo do homem, é homicida: tudo o que ele faz é contra a vida e a felicidade do homem.  Ora, tudo aquilo que Jesus realiza é exatamente o contrário: ele socorre o homem e o recupera; restitui-lhe a saúde e comunica-lhe a vida.  Quanto à intervenção de seus parentes, Jesus explica que sua verdadeira família não é a do sangue, mas a da fé operante: os que fazem a vontade do Pai (v.35). Para poder fazer parte de sua família é preciso escutar a sua palavra e cumprir a vontade de Deus.

Neste horizonte neo-testamentário, meditemos em particular a primeira leitura que nos faz voltar ao livro do Gênesis (cf. Gn 2,4b-3,24), cujo objetivo é falar sobre a origem da vida e do pecado e tem uma finalidade teológica, que tenciona ensinar como o mundo e o homem apareceram, e nos diz em particular que na origem da vida está Deus e que na origem do mal e do pecado estão as opções erradas do homem. Trata-se, portanto, de uma página importante de catequese, que sempre devemos reler.

Em um primeiro momento o autor sagrado descreve a criação do paraíso e do homem e apresenta a criação de Deus como um espaço ideal de felicidade, onde tudo é bom e o homem vive em comunhão total com o Criador e com as outras criaturas.  Em um segundo momento é apresentado o pecado do homem e da mulher, mostrando como as opções erradas do primeiro casal humano influenciaram na sua comunhão com Deus, trazendo desequilíbrio para o próprio homem.  E finalmente, o texto apresenta o homem e a mulher confrontados com o resultado das suas opções e as consequências que daí surgiram para ambos e para as gerações vindouras.

Na perspectiva do texto do Gênesis, Deus criou o homem e a mulher para a felicidade.  Mas o homem que Deus criou livre e feliz fez escolhas indevidas e, com isto, introduziu na criação dinamismos de sofrimento e de morte.   Os personagens apresentados no texto são Deus, que “passeia no jardim à brisa do dia” (v. 8), e ainda Adão e Eva, que se esconderam de Deus por entre o arvoredo do jardim (v. 8).

O texto começa com uma pergunta do Criador a Adão: “Onde estás?” A resposta do homem já é uma confissão da sua culpabilidade: “Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me” (v. 9-10). A vergonha e o medo são sinais de uma perturbação interior, de uma ruptura com a anterior situação de inocência, de harmonia, de serenidade e de paz. Como é que o homem chegou a esta situação? Evidentemente, desobedecendo a Deus e percorrendo caminhos contrários àqueles que Deus lhe havia proposto. A resposta do homem revela que ele tem consciência da sua culpa.

Depois desta constatação, a segunda pergunta feita por Deus ao homem é meramente retórica: “Terias tu comido da árvore, da qual te proibira de comer?” (v. 11). A árvore em causa é a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, significa o orgulho, o prescindir de Deus e das suas propostas, o querer decidir por si só o bem e o mal, o pôr-se a si próprio em lugar de Deus, o reivindicar autonomia total em relação ao criador. A situação do homem, perturbado e em ruptura, é já uma resposta clara à pergunta de Deus. Ao desobedecer Deus, o homem fez a opção por um caminho de independência em relação a Deus. Daí a vergonha e o medo.

Ao defender-se, o homem acusa a mulher e, ao mesmo tempo, acusa veladamente o próprio Deus pela situação em que se encontra: “A mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi” (v. 12). Adão representa a humanidade que esqueceu os dons de Deus e vê em Deus um adversário; por outro lado, a resposta de Adão mostra, igualmente, uma humanidade que quebrou a sua unidade e se instalou na falta de solidariedade, no ódio. Escolher caminhos contrários aos de Deus não pode senão conduzir a uma vida de ruptura com Deus e com os outros irmãos.

Em seguida, a mulher se defende: “A serpente enganou-me e eu comi” (v. 13). Entre os povos cananeus, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade. Os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos e, com frequência, abandonavam o Senhor Deus para seguir os rituais religiosos dos cananeus e assegurar, assim, a fecundidade dos campos e dos rebanhos. Na época em que o livro do Gênesis foi escrito, a serpente era, pois, o “fruto proibido”, que seduzia os crentes e os levava a abandonar a Lei de Deus. A “serpente” é, neste contexto, um símbolo literário de tudo aquilo que afastava os israelitas de Deus. A resposta da “mulher” confirma aquilo que até agora estava sugerido: a humanidade que Deus criou ignorou as suas propostas e enveredou por outros caminhos.

A serpente é um animal que passa toda a sua existência comendo o pó da terra. O autor vai servir-se deste dado para ilustrar a condenação radical de tudo aquilo que leva o homem a afastar-se de Deus para seguir outros caminhos.  A inimizade e a luta entre a “descendência” da mulher e a “descendência” da serpente, ressaltadas no texto, podem ser uma explicação do autor sagrado para o fato de a serpente inspirar horror aos seres humanos e todos procurarem “esmagar a sua cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher”, o Messias, o Cristo Jesus, acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça.  Nisto consiste a relação da primeira leitura com o Evangelho, onde Cristo é apresentado como o novo Adão, aquele que é capaz de expulsar o demônio tentador.

O autor sagrado, na verdade, não fala de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher; mas do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos. Ele está apenas a ensinar que a raiz de todos os males está no fato de o homem virar as costas para a lei de Deus e construir o mundo a partir de critérios próprios.

Um dos mistérios que mais questiona os nossos contemporâneos é o mistério do mal. Esse mal que vemos, todos os dias, torna sombria e assustadora esta nossa morada que é o mundo em que vivemos. Mas o mal nunca vem de Deus. Deus nos criou para a vida e para a felicidade e nos deu todas as condições para imprimirmos à nossa existência uma dinâmica de vida, de felicidade, de realização plena. O mal resulta das nossas escolhas erradas.  Quando o homem escolhe viver alheio às propostas de Deus constrói o sofrimento e passa a viver no pecado.  O tempo em que vivemos é um tempo de vigilância, pois a serpente continua a armar ciladas aos nossos calcanhares.

Saibamos dizer “não” ao pecado e ao erro.  E peçamos ao Senhor que nos ajude a combater o mal e nos faça fazer parte da sua família, ou seja, que possamos ouvir as suas palavras e colocá-las em prática todos os dias.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

IX DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

 A cura de um homem da mão seca

Mc 2,23-3,6

Caros irmãos e irmãs,

Entre os fariseus e os doutores da Lei a opinião dominante era que a observância do sábado era o principal preceito da Lei.  A prescrição do sábado, em hebraico “shabbat”, que quer dizer “repouso”, era uma das mais sagradas observâncias para os israelitas.  Na narração do livro do Gênesis temos que Deus havia descansado no sétimo dia, depois de completar a obra da criação (cf. Gn 2,1-3).  Na travessia do deserto, o maná faltava no dia de sábado; e, então, no sexto dia de trabalho as pessoas colhiam uma porção dupla para ter o que comer no sábado (cf. Ex 16,25). Além da prescrição do Decálogo, há muitos outros lugares da Sagrada Escritura em que se fala do repouso do sábado, tido como um presente de Deus para o homem.

O povo israelita tinha o costume de usar nos dias de sábado as suas melhores vestes, comer carne e tomar vinho.  Mas o ponto central de toda a comemoração estava no encontro da comunidade reunida na Sinagoga onde, pela manhã, era proclamada a palavra de Deus e se fazia a oração em comum.  Mas Jesus traz uma nova interpretação para a vivência deste preceito a respeito do dia de sábado.  Jesus lembra, antes de tudo, que o sábado foi instituído para trazer alegria para o homem, não para escravizá-lo.  O ponto de referência a ser levado em conta é o bem do ser humano. Todas as prescrições são boas e devem ser observadas quando favorecem o bem do homem, do contrário, perdem a sua força normativa.

E sobre as observâncias prescritas para o dia de sábado, Jesus declara: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (v. 27).  Com esta resposta, Jesus revela a sua autoridade e indica a indizível dignidade do homem em Deus, redimido do pecado.  Citando o exemplo de Davi, que, na necessidade, comeu os pães reservados aos sacerdotes, Jesus relativiza o legalismo já fragilizado (v. 25).

Mas Jesus vai mais além e se proclama o próprio Senhor do sábado. Jesus não veio para destruir a lei do Antigo Testamento, mas para cumpri-la, por isto ele afirma: “O Filho do Homem é Senhor também do sábado” (v. 28). Superando as observâncias religiosas, Jesus faz lembrar que o desejo de Deus é a prática da misericórdia. É o amor, o respeito e a consideração para com o próximo em suas necessidades e carências, promovendo a vida.

Jesus soube se posicionar diante da Lei mosaica com respeito, submetendo-a às exigências da caridade. Para ele, o amor sobrepõe-se à Lei e justifica até mesmo seu aparente desrespeito.  Só por amor se pode prescindir da prescrição da Lei.  Certa vez Jesus disse aos fariseus escandalizados com as suas atitudes: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9, 12). Estas palavras chegam até nós como uma das sínteses de toda a mensagem cristã: a verdadeira religião consiste no amor a Deus e ao próximo. Isto é o que dá valor ao culto e à prática dos preceitos.

A Lei foi dada por Deus a seu povo com a finalidade de criar laços sinceros de relação com a divindade e com o próximo.  O amor a Deus se mostrará não no cumprimento literal do mandamento, mas sim na ação concreta em benefício do próximo, pois o amor ao próximo manifesta o amor a Deus.  E, dentro deste contexto, o texto evangélico nos mostra a cura do homem de mão seca, quer ocorre no âmbito de mais um conflito entre Jesus e seus adversários, fariseus e mestres da Lei, que procuram sem descanso um motivo para acusá-lo de violar a Lei de Moisés.

O Evangelista São Marcos nos faz mostrar Jesus na sinagoga com os escribas. Eles estavam atentos para ver se o Senhor iria curar alguém num dia de sábado. Percebendo o que eles estavam pensando, Jesus os provoca e chama aquele homem, cuja mão era seca, para o centro da sinagoga e lhe pede que estenda a mão. Imediatamente, sua mão ficou curada.

No texto do evangelista São Lucas, em sua narrativa do mesmo episódio, é mencionado que a mão atrofiada era a mão direita (cf. Lc 6,6-11). Podemos supor que aquele homem era um incapaz, pois não conseguia trabalhar, tendo sua mão principal, a direita, atrofiada. Por isso, esse homem, mesmo presente na sinagoga, sentava-se afastado, talvez nos últimos lugares, sentindo-se indigno e desprezado pelos demais, especialmente pelos que se consideravam mais amados e mais favorecidos por Deus.

Mas Jesus o chama. Significativas são as palavras utilizadas: “Levanta-te! Vem para o meio!” (Mc 3,3). Levantar-se, aqui, significa não apenas o ficar fisicamente em pé, mas, ao mandar fazê-lo, Jesus quer restituir-lhe algo mais que uma mão sadia: sua dignidade. E mais: “Vem para o centro!”. Para Jesus, aquele homem, mesmo considerado pecador e improdutivo pela sociedade da época, não deveria ficar à margem na sinagoga, mas era alguém tão merecedor de um lugar de destaque, de um assento melhor na comunidade quanto qualquer outro.

E Jesus ordena ao homem: “Estende a mão.  Ele a estendeu e a mão ficou curada” (v. 5).  Através deste gesto Jesus confirma a autoridade divina que ele possui.  O milagre é fundamentalmente sinal da sua identidade messiânica.  Ele é o portador da salvação.

Curando os doentes, Jesus mostra que a sua oferta de salvação se dirige ao homem todo, sendo Ele médico da alma e do corpo. A sua compaixão por aqueles que sofrem o faz identificar-se com eles, como lemos na página do juízo final: “Estive doente e me visitastes” (Mt 25,36). É esta partilha profunda que Jesus pede aos seus discípulos quando lhes confia a tarefa de curar os enfermos (cf. Mt 10,8).

Existem também em nossos dias muitas pessoas que precisam ser curadas; muitos que estão com suas habilidades atrofiadas, seus talentos enterrados e sem esperança. Mãos paralisadas pela decepção, pelo medo, pela mágoa, pela falta de perdão. Mãos que não mais produzem. Possamos suplicar ao Senhor que também possa restaurar as nossas mãos, para que possamos utilizá-las para o bem e para a prática das boas obras.

Estendamos também nós as nossas mãos ressequidas a Cristo Jesus e possamos também pedir a ele, como fez Santo Agostinho: “Tem piedade de mim, Senhor! Aqui estão, não escondo as minhas feridas: tu és o médico eu o doente; tu és o misericordioso, eu o miserável… Cada esperança minha se coloca na tua grande misericórdia” (S. AGOSTINHO, As confissões, X, 28.29; 39.40).  Cristo é o médico, que nos traz a cura e nos devolve a saúde. Acolhamos seu amor que nos cura e ofereçamos também a todos àqueles que nos cercam este mesmo amor.  A Cruz de Cristo nos convida a deixarmos contagiar pelo seu amor, nos ensina a olhar sempre para o outro com misericórdia, sobretudo quem sofre e precisa de ajuda.

Lançando o nosso olhar para a Mãe de Deus, invocada pelo povo cristão como ‘Saúde dos Enfermos’, peçamos a sua intercessão por cada um de nós, para que, com a sua proteção materna, tenhamos sempre a saúde do corpo e da alma e para que possamos viver cotidianamente em união com o Cristo Senhor, colocando em prática os seus ensinamentos. Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.