PÁSCOA DE NOSSO SENHOR JESUS – Ano B

RESSURREIÇÃO DO SENHOR

Jo 20,1-9

Caros irmãos e irmãs,

Com o Domingo da Ressurreição iniciamos um novo período litúrgico, o tempo pascal.  Páscoa significa “passagem”. A origem desta festa perde-se na noite dos tempos. Inicialmente, era uma festa de pastores, que no início da primavera, imolavam um cordeiro do rebanho. Os hebreus transformaram esta festa pastoril no “memorial” da libertação do Egito. Era imolado o cordeiro pascal, sinal da “passagem” de Deus, que fez passar o povo eleito da escravidão para a terra da liberdade.  Para os cristãos é a festa principal do ano litúrgico, em que se “comemora” a morte de Cristo na cruz e a sua Ressurreição.

Neste domingo somos chamados a lançar o nosso olhar para o sepulcro vazio e contemplar o radiante mistério da ressurreição do Senhor.  Ouvimos mais uma vez ecoar o confortador anúncio: “Cristo ressuscitou!”.

Ao celebrarmos a Ressurreição do Senhor, recordamos as palavras dirigidas pelo anjo às mulheres que choravam ao lado do túmulo vazio. Elas foram de manhã cedo ao sepulcro onde receberam do anjo a notícia que modificou o decurso da história: “Não vos assusteis. Procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui!” (cf. Mc 16, 6).  Diz ainda o anjo às mulheres que tinham ido ao sepulcro: “Porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo?” (cf. Lc 24,5). Destas suas palavras, podemos tirar um ensinamento: nunca cansarmos de procurar Cristo ressuscitado, pois Ele dá a vida em abundância àqueles que O encontram.  As próprias mulheres, depois de um receio inicial, sentem uma grande alegria quando encontram o Mestre vivo (cf. Mt 28,8-9).

O texto do Evangelho nos fala exatamente do primeiro impacto e das primeiras testemunhas: Maria Madalena, Pedro e o discípulo que Jesus amava. Madalena, enquanto mulher, pertencia à categoria de pessoas discriminadas, sem credibilidade oficial para os seus testemunhos.  Ela é a primeira personagem a entrar em cena.  É a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, quando ainda o sol não tinha nascido, na manhã do primeiro dia da semana.  Este “primeiro dia” nos faz lembrar o início de uma nova realidade, um novo tempo, o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

Maria Madalena foi a primeira pessoa que Deus escolheu para dar a notícia a Pedro e ao outro discípulo: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram” (Jo 20,2). Pedro e o outro discípulo, onde a tradição aponta como o evangelista João, dirigiram-se ao sepulcro, mas João chegou primeiro.  E nos diz o texto bíblico que ele “viu e acreditou” (Jo 20, 8). O Apóstolo João viu o mesmo que Pedro: um túmulo vazio, com as ligaduras e o sudário.  Mas João acreditou.  João foi o único entre os apóstolos, que ficou junto à cruz até o fim. Deixou-se invadir por um amor sem falhas.

O texto começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, com uma chave teológica: “no primeiro dia da semana”. Significa que aqui começou um novo ciclo – o da nova criação, o da salvação definitiva. Este é o “primeiro dia” de um novo tempo e de uma nova realidade – o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

Todo o cristão é chamado a reviver esta experiência de Maria de Magdala. É um encontro que muda a vida: o encontro como um Homem único, que nos faz sentir toda a bondade e a verdade de Deus, que nos liberta do mal, não de modo superficial e passageiro, mas nos liberta radicalmente, nos cura completamente e restitui a nossa dignidade, como fez com Maria Madalena, que a restabeleceu na sua dignidade e a fez renascer, libertando-a do mal; concedendo-lhe um futuro novo e uma vida nova.

Inicialmente, os discípulos acreditaram que a morte tinha triunfado e pensavam que Jesus estava prisioneiro do sepulcro. A comunidade nascida de Jesus era, em consequência, uma comunidade perdida, desorientada, insegura, desamparada, que ainda não descobrira que a morte tinha sido derrotada. Por isso, procurou Jesus no túmulo, mas, diante do sepulcro vazio, tomou consciência da ressurreição e percebeu que a morte não tinha vencido Jesus.

Saulo de Tarso, outrora temido perseguidor dos cristãos, a caminho de Damasco encontrou Cristo ressuscitado e foi por Ele “conquistado”. Aconteceu em Paulo aquilo que ele há de escrever mais tarde aos cristãos de Corinto: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação; vazia também é a vossa fé” (1Cor 15, 14). A ressurreição de Jesus constitui artigo fundamental da fé cristã.  Na verdade, talvez queira alguém pensar que a mensagem do cristianismo é tão rica e bela que ela pode dispensar o anúncio da ressurreição de Jesus. Verifica-se, porém, que nos escritos do Novo Testamento e nos da imediata Tradição cristã é tal a ênfase na ressurreição de Jesus que ela deve ocupar lugar primordial e indispensável no conjunto das verdades da fé.

Santo Agostinho também afirmou: “Resurrectio Domini, spes nostra”, ou seja:  “a ressurreição do Senhor é a nossa esperança” (cf. S. AGOSTINHO, Sermão 261,1). Cristo ressuscitou para nos dar a esperança.  Desde a alvorada de Páscoa, uma nova primavera de esperança invade o mundo; desde aquele dia, a nossa ressurreição já começou, porque a Páscoa indica o início de uma nova condição: Jesus ressuscitou para que Ele mesmo viva em nós, e, nele, possamos já saborear a alegria da vida eterna.

É isto que a Igreja proclama com alegria: anuncia a esperança, que Deus tornou inabalável e invencível ao ressuscitar Jesus Cristo dos mortos; comunica a esperança, que ela traz no coração e quer partilhar com todos.  Esperança, para que guie a humanidade para o porto seguro da salvação que é o coração de Cristo, a Vítima pascal, o Cordeiro que redimiu o mundo.  O Ressuscitado precede-nos e acompanha-nos pelas estradas do mundo. É Ele a nossa esperança, é Ele a verdadeira paz do mundo.

E, a partir desse tempo pascal, volta a ressoar o cântico do Aleluia, palavra hebraica universalmente conhecida, que significa “Louvai o Senhor”.  O aleluia desabrochou nos corações dos primeiros discípulos de Jesus naquela manhã de Páscoa, em Jerusalém.   Deixemos que o aleluia pascal se imprima profundamente também em nós, como expressão de uma vida de união com o Cristo Ressuscitado, a quem devemos louvar e agradecer pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós.  Celebrar a Páscoa é celebrar a concretização do amor de Deus por nós. Celebrar a Páscoa é também encontrar ou reencontrar a alegria interior, dar testemunho desta alegria e ser construtor do amor e da paz.

A Virgem Maria, que esteve junto de seu divino Filho em cada momento da sua vida, interceda sempre por cada um de nós e nos faça acolher com fé o dom da Páscoa e, assim como Maria Madalena, sejamos também nós testemunhas do Senhor ressuscitado para todas as pessoas que encontrarmos. Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

QUINTA-FEIRA SANTA – Ano B

 Celebração da Ceia do Senhor

Jo 13,1-15

Caros irmãos e irmãs,

Com a celebração vespertina de Quinta-feira Santa iniciamos o Tríduo Sacro da Páscoa do Senhor. Fazendo memória do que Cristo fez naquela que chamamos de sua última ceia, queremos estar unidos a Jesus, que continua conosco no memorial de sua paixão, no sacramento eucarístico que Ele próprio institui.

O rito de páscoa, conforme consta na primeira leitura (cf. Ex 12,1-8.11-14), foi tirado de uma celebração em que os pastores de ovelha nômades das terras de Abraão costumavam celebrar para comemorar o fim do inverno e começo da primavera. Eram para eles tempos de bons pastos para seus rebanhos e, por isso, chamava-se rito da páscoa, ou seja, passagem. Os hebreus vão celebrar este mesmo rito dando um novo significado, não mais como passagem de estação de tempo, mas como memória de sua saída do Egito, onde estavam como escravos. Para que pudessem guardar na memória este feito poderoso de Deus, os hebreus celebram a páscoa com o cordeiro, o cabrito sem defeito, que morto naquela noite, simbolizava o momento da libertação da escravidão do Egito para a terra da liberdade, chamada de terra onde corre leite e mel, terra da fartura e da ação de Deus. Este acontecimento se tornará tão importante que a ordem no final da leitura é clara: “Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações, como instituição perpétua” (Ex 12,14).

Esta mesma ordem o Senhor Jesus deu aos discípulos ao instituir a eucaristia: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).  Esta eucaristia que serve de alimento para nossa vida foi instituída no clima da paixão já próxima. Nos relatos da ceia que os evangelhos nos transmitiram encontramos os momentos dramáticos vividos por Jesus. A angústia sofrida por Jesus é vivia em um ambiente de oração no horto. Ele sente a fraqueza dos seus discípulos, mas quer deixar seu testamento de forma definitiva. O pão e vinho que Ele transforma em seu corpo e sangue define este testamento. É Eucaristia, ação de graças ao Pai por tudo que aconteceu e pelo que está para acontecer. A Santa Missa é então a celebração da Ceia do Senhor na qual Jesus, na véspera da sua paixão, “enquanto ceava com seus discípulos tomou o pão…” (Mt 26,26). Antes de ser entregue, Cristo se entrega como alimento.

O Evangelho lido nesta celebração nos faz recordar a cena do lava-pés, onde exprime o mesmo significado da Eucaristia sob outra perspectiva. Jesus se identifica como um servo que os  lava os pés dos seus doze apóstolos (cf. Jo 13,4-5). Com esse gesto profético, Ele exprime o sentido da sua vida e da sua Paixão, aquele do serviço a Deus e aos irmãos: “O Filho do homem, de fato, não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45).

Nesta Última Ceia os Apóstolos são constituídos ministros deste Sacramento de salvação e Jesus lava-lhes os pés, e os convida a amarem-se uns aos outros como Ele também nos convida a servirmos mutuamente, seguindo o seu próprio exemplo.  O ato do Lava-pés torna-se para o Evangelista São João a representação daquilo que é toda a vida de Jesus: O levantar-se da mesa, o tirar a vestimenta da glória, o inclinar-se para nós no mistério do perdão e do serviço.

No capítulo 13 do Evangelho de São João, o lava-pés realizado por Jesus é apresentado como o caminho de purificação.  O Lavabo que nos purifica é o amor de Deus: o amor que se empenha até a morte. A palavra de Jesus não é simplesmente uma palavra, mas Ele próprio. E a sua palavra é a verdade e o amor.  Na fé cristã é o próprio Deus encarnado que nos purifica verdadeiramente.  No texto do Lava-pés, Jesus diz aos seus discípulos: “Vós estais puros” (v. 10). O dom da pureza é um ato de Deus, que desce até nós, torna-nos puros.  A pureza é um dom.

Tendo como referência o Sermão da Montanha, temos uma significativa expressão usada por Jesus: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).  Pode-se fazer aqui uma referência também com a cena do Lava-pés: só se nos deixarmos sempre de novo lavar, “tornar puros” pelo Senhor, é que podemos aprender a fazer, juntamente com Ele, aquele que Ele fez. O importante é estarmos inseridos a Ele.  São Paulo, imbuído desta forte unidade com Cristo, disse certa vez: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

O texto evangélico menciona ainda o pano cingido, o que parece querer evidenciar a ação de Jesus. Quando o texto diz que Ele havia terminado o lava-pés, ainda que retome o manto, não se dirá que deixa o avental, o qual se converte, portanto, em atributo permanente de Jesus (v. 12).  O seu serviço não cessa com a sua morte, porque ele continua conosco: “Eu estarei convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt 28, 20). Ao lavar os pés dos seus discípulos, não podemos dizer que Jesus rebaixe, mas sim que não reconhece desigualdade ou hierarquia entre os homens.

Ainda na cena do Lava pés temos o diálogo de Jesus com Pedro.  Jesus começa por Pedro a lavar os pés dos Apóstolos, mas, inicialmente, deparamos com a recusa Pedro: “Jamais me lavarás os pés” (v. 8).  Para Pedro, esta atitude de Jesus contradiz a ideia que ele tem da relação entre mestre e discípulo, contrasta com a imagem do Messias que ele vê em Jesus.  No fundo, a sua resistência ao lava-pés tem o mesmo significado com a sua posição contrária ao anúncio que Jesus faz da sua Paixão, depois da confissão em Cesareia de Filipe: “Deus não permita, Senhor! Jamais te acontecerá!” (Mt 16,22). Agora diz: “Jamais me lavarás os pés!” (Jo 13,8). Este protesto de Pedro tem a sua peculiaridade. Pedro tem dificuldades de entender é que será através do sofrimento que o Messias deve entrar na glória.

Depois que Jesus explica a necessidade do Lava-pés a Pedro, temos a sua outra intervenção: Jesus deveria lavar-lhe não só os pés, mas também as mãos e a cabeça.  Mais uma vez, a resposta de Jesus é significativa: “Quem se banhou não tem necessidade de se lavar senão os pés, porque está inteiramente puro” (Jo 13,10). Nesta frase, podemos supor que Jesus esteja fazendo uma referência ao batismo, pelo qual o homem é imerso uma vez por todas em Cristo e recebe a sua nova identidade de ser em Cristo.

Mas também os batizados continuam pecadores, têm necessidade da confissão dos pecados que nos purifica e nos faz restaurar nosso relacionamento com Deus. No batismo ficamos completamente limpos; também nossos pés, ficaram “limpos”; mas os nossos pés se apoiam na terra deste mundo, estamos em contato com as realidades humanas e somos, de tal modo, tocados por elas.  Somos fracos e com freqüência também nós sujamos os nossos pés. Mas o Senhor todos os dias se inclina para nós, pega uma toalha e lava os nossos pés. No Sacramento da confissão, o Senhor lava sempre de novo os nossos pés sujos e nos prepara para a comunhão com Ele.

Também chama a nossa atenção uma outra frase desta passagem evangélica: “Vós também deveis lavar os pés uns dos outros… Dei-vos o exemplo…” (Jo 13,14s). Lavar os pés uns dos outros significa, concretamente, aprender a humildade e exercer a bondade, assim como Senhor tira a nossa sujeira com a força purificadora de sua bondade. Lavar os pés uns dos outros significa, sobretudo, perdoar incansavelmente uns aos outros, voltar a começar sempre de novo, ainda que pareça difícil ou inútil.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria para que possamos todos os dias trilhar o caminho da pureza e que o Senhor Jesus venha em nosso auxílio e também nos purifique e nos faça estar sempre no caminho do bem e do serviço.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano B

Domingo de Ramos

Mc 14,1-15,47

Caros irmãos e irmãs,

A celebração da Semana Santa é sempre um momento propício para uma rica catequese, que já impressionava os cristãos desde os primeiros séculos. Celebrar a Semana Santa é reviver aquilo que constitui o coração da História: O mundo salvo por Cristo, pela sua obediência até a morte de cruz.  A Semana Santa, que começa com o domingo de Ramos, atualiza na comunidade cristã os mistérios centrais da Redenção: Paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo e, por esta razão, deve alcançar entre nós o nível de uma autêntica vivência da fé.  Toda a nossa vida é, em certo sentido, uma contínua Semana Santa, pois somos sempre chamados a ouvir o convite que Jesus dirigiu aos seus discípulos no horto das Oliveiras: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38).

A ação litúrgica deste domingo começa com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, como o Messias, montado em um jumentinho, segundo fora profetizado há muitos séculos antes (cf. Zc 9,9).  Como nos narra o texto evangélico deste domingo (cf. Mc 11,1-10), Jesus chega a Jerusalém vindo de Betfagé e do Monte das Oliveiras, isto é, seguindo a estrada por onde deveria vir o Messias. Naquele momento, o entusiasmo apodera-se dos discípulos e também dos outros peregrinos. Muitos pegam os seus mantos e colocam sobre o jumentinho, enquanto os ramos de árvores são postos nos caminhos por onde Jesus iria passar.

Nesta entrada de Jesus em Jerusalém as pessoas recitam um versículo do Salmo 118: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mt 21,9). Esta aclamação festiva, transmitida pelos quatro evangelistas, é um brado de bênção, um hino de exultação que exprime a convicção unânime de que, em Jesus, Deus visitou o seu povo e que o Messias finalmente chegou.

Jesus entra na Cidade Santa montado em um jumento, animal típico das pessoas simples do campo e, além disso, um jumento que não lhe pertencia, mas que Jesus havia pedido emprestado para esta ocasião, o que não o assemelhava aos poderosos do mundo, mas o fazia chegar de forma simples e humilde. O Evangelista João narra, inicialmente, que os discípulos não O compreenderam. Somente depois da Páscoa entenderam que Jesus, agindo deste modo, estava a cumprir os anúncios dos profetas, compreenderam que o seu agir derivava da Palavra de Deus e que a levava ao seu cumprimento.

O Domingo de Ramos é o grande portal de entrada na Semana Santa, semana em que o Senhor Jesus caminha até ao ponto culminante da sua existência terrena. Ele sobe a Jerusalém para dar pleno cumprimento às Escrituras e ser pregado no lenho da cruz, o trono de onde reinará para sempre, atraindo a Si a humanidade de todos os tempos e oferecendo a todos o dom da redenção. Sabemos, pelos Evangelhos, que Jesus dirigiu-se para Jerusalém juntamente com os Doze e que, pouco a pouco, se foi unindo a eles uma multidão cada vez maior de peregrinos. São Marcos ressalta que, já na saída de Jericó, havia uma “grande multidão” que seguia Jesus (cf. Mc 10, 46).  Assim também nós, pela procissão que realizamos neste dia, fazemos dele um dia particular em que devemos ir ao encontro de Cristo, desejando acompanhá-lo pelas nossas cidades, a fim de que Ele permaneça conosco e possa estabelecer sua morada em nós.

A liturgia deste domingo tem seu ápice na leitura da narrativa da paixão do Senhor (cf. Mc 14,1-15,47).  Para muitos cristãos é a única ocasião que têm para ouvir, no decurso de uma assembleia litúrgica, esta parte do Evangelho.  A celebração se abre com o “Hosana!” E culmina com o “Crucifica-o!”  Mas o texto evangélico nos convida a contemplar a paixão e morte de Jesus: É o momento supremo de uma vida feita a serviço do homem.  O relato do Evangelista São Marcos está fundamentado em acontecimentos concretos e apresenta Jesus como o Filho de Deus que aceita cumprir o projeto do Pai, mesmo quando esse projeto passa por um destino de cruz.

Pode-se destacar ainda no relato da paixão apresentado por São Marcos, o interrogatório ao qual Jesus é submetido no palácio do sumo sacerdote. Em um certo momento Jesus não hesita em esclarecer os fatos e em deixar clara a sua divindade. Quando o Sumo sacerdote perguntou a Jesus diretamente se Ele era “o Messias, o Filho de Deus bendito” (Mc 14,61), Jesus responde imediatamente: “Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo poderoso vir sobre as nuvens do céu” (Mc 14,62). A expressão “eu sou” (egô eimi) nos leva ao nome de Deus no Antigo Testamento: “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14).  Na perspectiva do evangelista São Marcos, esta é a afirmação que confirma a divindade de Jesus. A referência ao “sentar-se à direita do Todo poderoso” e ao “vir sobre as nuvens” sublinha, também, a dignidade divina de Jesus, que um dia aparecerá como juiz soberano da humanidade inteira. O sumo sacerdote percebe perfeitamente o alcance da afirmação de Jesus, o que o faz manifestar a sua indignação rasgando as vestes e condenando Jesus como blasfemo.

O centurião romano, junto da cruz de Jesus, confirma: “Na verdade, este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Mais do que uma afirmação histórica, esta frase deve ser vista como uma “profissão de fé” que o Evangelista São Marcos nos convida a fazer. Depois de tudo o que foi testemunhado ao longo do Evangelho em geral, e no relato da paixão, a conclusão é óbvia: Jesus é mesmo o Filho de Deus que veio ao encontro da humanidade para lhe apresentar uma proposta de salvação.

Ao perceber a morte próxima, Jesus faz uma oração dizendo: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mc 15,34). Esta oração de Jesus indica que a sua natureza humana se une a cada um de nós.  Como qualquer outro ser humano, Jesus também experimenta a solidão, o abandono, o sentimento de impotência, a sensação de fracasso. No âmago do seu drama, Jesus sente que foi abandonado por Deus. Mas, com isto, parece se solidarizar com cada homem que sofre e experimenta a fragilidade, o drama e a debilidade que a vida pode oferecer. Em todos os relatos da paixão, Jesus aparece a enfrentar sozinho este abandono.  São Marcos sublinha a solidão de Jesus, nesses momentos dramáticos.

Abandonado pelos discípulos, escarnecido pela multidão, condenado pelos líderes, torturado pelos soldados, Jesus percorre na solidão e indiferença de todos, o seu caminho de morte.  Contudo, podemos frisar que apesar destes relatos, sublinhando como Jesus se comporta ao longo de todo o processo que conduz à sua morte, nota-se que ele nunca se descontrola, nunca recua, nunca resiste, mas está sempre sereno e digno, enfrentando o seu destino de cruz. A atitude de Jesus é a atitude de quem sabe e está decidido a cumprir a missão que o Pai lhe confiou.

Possamos nestes dias da Semana Santa estar unidos à Virgem Maria no Monte Calvário, permanecendo ela aos pés da Cruz, velando com ela o Cristo morto, aguardando também com ela o dia luminoso da ressurreição.  Que ela interceda por nós e nos faça direcionar os nossos passos no caminho da verdade e do bem.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – ANO B

O grão de trigo que cai na terra e morre

Jo 12,20-33

Caros irmãos e irmãs,

Muito oportunamente a liturgia nos faz meditar um texto do Evangelho de São João para este quinto domingo da Quaresma, enquanto se aproximam os dias da Paixão do Senhor. Na medida em que peregrinamos para o fim desse tempo quaresmal, vai adquirindo figura mais nítida a meta que ela propõe: A celebração da Páscoa do Senhor.  O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos propõe para este domingo nos permite ver como Jesus viveu interiormente o aproximar-se da “sua hora”.  Em sua alma começou já a agonia do Getsêmani: “Agora sinto-me angustiado” (v. 27), mas sobretudo pelas palavras por Ele pronunciadas: “Pai, glorifica o teu nome”, o que indicam que a morte de Cristo é a uma prefiguração do mistério pascal, onde se realiza a sua própria glorificação.

Falando da sua próxima morte gloriosa, Jesus usa ainda uma imagem simples e ao mesmo tempo sugestiva, tendo como referência o ambiente agrícola, refere-se ao grão de trigo para nos transmitir um ensinamento que põe luz, antes de tudo, em seu caso pessoal, e depois também no de seus discípulos: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto” (v. 24).  Jesus compara-se a si mesmo com um grão de trigo que se desfaz, para produzir muitos frutos para todos.

Neste contexto, temos uma importante lição sobre o valor da renúncia e da mortificação. O que Jesus está dizendo é principalmente o anúncio de sua morte e ressurreição.  É Ele esse divino grão de trigo, que vai cair no solo da morte, mas vai ressuscitar e dar vida a um infinito número de fiéis. O grão de trigo, para se transformar em espiga, deve desaparecer debaixo da terra.  Ao ser colocada debaixo da terra, a semente parece perder-se e morrer, mas em seguida, aquecida pelos raios do sol, reaparece multiplicada em uma espiga que anuncia a vitória da vida.

Se o grão de trigo quer dar fruto, é preciso que ele passe pela terra onde vai apodrecer, mas o seu percurso sequencia fazendo surgir frutos. Jesus quer dar a vida, Ele escolhe passar pela morte, dando então a maior prova de seu amor pela humanidade.

Sabemos que o grão enterrado na terra sofre uma profunda transformação. O seu invólucro exterior deve rebentar e acabar por desaparecer para que o germe, até então escondido, possa crescer e produzir novos grãos. Na morte de Jesus acontece o desabrochar da Ressurreição.

Mas a história do pequeno grão de trigo ajuda também, em outro versículo, a entender a nós mesmos e o sentido de nossa existência. Depois de ter falado de trigo, Jesus acrescenta: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 16, 25). Cair em terra e morrer não é, portanto, só o caminho para dar fruto, mas também para “salvar a própria vida”, isto é, para seguir vivendo.

A morte é a capacidade do grão liberar a vida que possui. Podemos constatar a lógica humilde e paciente do grão de trigo que se abre para dar a vida. Jesus é o grão de trigo semeado para que nossa fome possa ser saciada. E através de Jesus Cristo presente no Sacramento da Eucaristia, Deus quer continuar a renovar a humanidade. Mediante o pão e o vinho consagrados, nos quais estão realmente presentes o seu Corpo e o seu Sangue, Cristo nos transforma, tornando-nos capazes, pela graça do Espírito Santo, de viver segundo a sua própria lógica de entrega, como grãos de trigo unidos a Ele e nele.

É necessário que Jesus, grão de trigo, que se faz Eucaristia, morra e dê fruto, e este fruto somos todos nós que nele acreditam e nele tem a vida eterna. Jesus entregará ao Pai a sua vida, para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-lo, contemplá-lo e experimentá-lo como nossa Luz e nossa Vida.  É o próprio Cristo que está conosco, pois Ele mesmo disse: “Eis que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20)

O pão, formado por muitos grãos de trigo, e o vinho, feito pela união de muitas uvas, encerram também um sentido de união: tornam-se pão os grãos moídos, tornam-se vinho as uvas esmagadas graças à união, unificação. Tudo isto indica também que nós, participantes do Banquete Eucarístico, por mais numerosos que sejamos, devemos nos tornar um só pão, um só vinho, quer dizer, devemos formar, unidos em Cristo, um só corpo, como nos diz São Paulo: “Uma vez que há um só pão, nós embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão” (1Cor 10,17).

No cenário evangélico temos ainda uma referência a alguns gregos que vieram a Jerusalém adorar a Deus no Templo; mas quiseram encontrar-se com Jesus, tomar contato com a salvação que Ele veio oferecer. Com isto, o autor do Quarto Evangelho sugere que o Templo e o culto antigo já não são mais os lugares onde o homem encontra Deus e a salvação; agora, quem estiver interessado em encontrar a verdadeira salvação deve dirigir-se ao próprio Jesus.

Estes homens gregos não se dirigem diretamente a Jesus, mas aos discípulos. Haverá aqui, talvez, um aceno à responsabilidade missionária da comunidade de Jesus, encarregada da missão de levar Jesus a todos os povos da terra. O fato de Filipe falar primeiro com André e só depois os dois irem contar o que se passa a Jesus, reflete a dificuldade com que as primeiras comunidades cristãs deram o passo para a evangelização dos pagãos. O Evangelista João quer, provavelmente, sugerir que integrar os pagãos na comunidade de Jesus não é uma decisão individual, mas uma decisão que a comunidade tomou depois de haver consultado o Senhor.

No pedido destes anônimos gregos podemos ver a sede que existe no coração de cada homem de ver e de conhecer Cristo; e a resposta de Jesus orienta-nos para o mistério da Páscoa; manifestação gloriosa da sua missão salvífica: “Chegou a hora em que será glorificado o Filho do Homem” (Jo 12,23).

A pergunta dos gregos revela muito mais do que desejavam: “Ver Jesus”. Muito possivelmente, todos querem ver Jesus. Mas o fato de apenas ver Jesus não transforma ninguém em discípulo. Sempre houve o número de pessoas que seguiam Jesus de longe. Ao tomar certa distância de alguém, estamos nos ausentando de qualquer compromisso.

A Carta aos Hebreus que a Liturgia da Palavra nos apresenta como segunda leitura para este domingo nos exorta à vivência do compromisso cristão e nos traz uma longa reflexão sobre o sacerdócio de Cristo (cf. Hb 5,7-9). O trecho apresentado se detém, sobretudo, na reação experimentada por Cristo diante do sofrimento e da morte.  Ele dirigiu-se ao Pai, pedindo que o ajudasse e, se fosse possível, que o poupasse da dor e da morte (v. 7).  Sentiu Ele a necessidade de invocar o Pai para descobrir a sua vontade e para ter a força necessária para cumpri-la.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria para que possamos fazer desse tempo da quaresma uma boa ocasião para “ver Jesus” e seguir fielmente os seus ensinamentos e que saibamos viver na fraternidade e na paz, sempre mais fortalecidos na fé naquele que é o princípio e fim de todas as coisas.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – ANO B

O encontro de Jesus com Nicodemos

Jo 3,14-21

Caros irmãos e irmãs,

No nosso itinerário rumo à Páscoa, chegamos ao quarto domingo da Quaresma, tradicionalmente designado como domingo “Laetare”, uma expressão em latim que quer dizer “alegra-te”. A Liturgia da Palavra nos convida à alegria também porque se aproxima a Páscoa, o dia da vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte.  Mas também deve ser sinal de alegria para nós o “estar na casa do Senhor”, como nos diz o Sl 122: “Que alegria quando vi que me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor’” (Sl 122,1).

Mas a nossa alegria torna-se ainda mais completa, quando na Casa do Senhor, encontramos a fonte principal da alegria cristã que é a Eucaristia, que Cristo nos deixou como alimento espiritual, enquanto somos peregrinos nesta terra.  A Eucaristia alimenta nos fiéis de toda época essa alegria profunda: é a presença de Deus entre nós. Ao recebermos a Eucaristia temos um encontro profundo com o Senhor.  É o Cristo que também passa a ter sua morada em nós.  É o Deus que passa a estar conosco.

A razão mais profunda desta alegria consiste ainda na mensagem oferecida pelas leituras bíblicas que a liturgia da Palavra nos propõe para este domingo. Elas recordam que, apesar da nossa indignidade, somos os destinatários da misericórdia infinita de Deus.  É o que nos confirma o Apóstolo Paulo na segunda leitura, onde nos lembra que “Deus, rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo” (Ef 2,4-5). Para expressar esta realidade de salvação, o Apóstolo, ao lado da palavra misericórdia, “eleos”, usa a do amor, “ágape”, retomada na significativa frase de abertura da página evangélica deste domingo: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Portanto, se é infinito o amor misericordioso de Deus, que chegou a ponto de dar o seu único Filho em resgate pela nossa vida, grande é inclusive a nossa responsabilidade. Com efeito, cada um deve reconhecer que está enfermo, para poder ser curado; cada um deve confessar o próprio pecado, para que o perdão de Deus, já conferido na Cruz, possa ter efeito no seu coração e na sua vida.

No meio do nosso caminho quaresmal, neste quarto domingo da Quaresma, somos convidados a meditar sobre este tema que está no centro do anúncio cristão, isto é, o grande amor de Deus pela humanidade. As palavras, pronunciadas por Jesus durante o colóquio com Nicodemos, exprimem de modo sintético e eficaz o tema principal dessa liturgia dominical.  Nicodemos é membro do Sinédrio de Jerusalém. Trata-se de um homem bondoso, que foi atraído pelas palavras e pelo exemplo do Senhor e, por isto, vai ao seu encontro.

No diálogo entre Jesus e Nicodemos encontramos três etapas. Na primeira (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus acrescenta que isso não é suficiente: o essencial é reconhecer Jesus como o enviado do Pai. Na segunda (cf. Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica ser necessário um novo nascimento, a partir “da água e do Espírito”. Na terceira etapa, Jesus descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai, tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz (cf. Jo 3,9-21).

Jesus sabe que a Cruz é o ápice da sua missão: com efeito, a Cruz de Cristo é o auge do amor, que nos concede a salvação. É Ele mesmo que nos diz no Evangelho: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3,14-15).  Jesus se refere a esse episódio e o interpreta como um símbolo daquilo que está para lhe acontecer.  Ele também será levantado na cruz, e todos aqueles que o contemplarem encontrarão a salvação para a sua vida.

Olhar para Jesus levantado na cruz, quer dizer acreditar nele (v. 15), isto é, aceitar com fé a mensagem que Ele, do alto da cruz, dirige para todos.  Com o seu supremo gesto de amor, declara que a única maneira de realizar a própria vida é a de doá-la por amor, como Ele fez.  Neste sentido, precisamos identificar a nossa vida com a de Cristo, isto é, vivê-la a serviço dos irmãos.  Este é o caminho para obtermos a salvação. Assim Jesus manifesta o seu amor e indica a todos o caminho a ser percorrido para alcançar a salvação, a vida plena (v. 14). A cruz é, portanto, a expressão suprema do amor de Deus por toda a humanidade.

No texto evangélico também temos uma significativa expressão pronunciada por Jesus: “Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus” (Jo 3,21).  Deus continua nos exortando a erguermos os olhos para um futuro de esperança, e nos promete a força para o realizar. Como diz São Paulo na segunda leitura, Deus criou-nos em Cristo Jesus para levarmos uma vida justa, uma vida em que pratiquemos boas obras segundo a sua vontade (cf. Ef 2,10).  E Ele nos criou para vivermos na luz e sermos luz para o mundo.

Jesus é a Luz verdadeira que com sua vinda ao mundo ilumina todo homem (cf. Jo 1,8). Jesus afirma ser a luz do mundo para não caminharmos nas trevas, mas para termos a luz da vida (cf. Jo 8,12). Crer na luz é se tornar filho da luz (Jo 12,36). Quem crê em Jesus não fica nas trevas, mas na luz (cf. Jo 12,46).  Devemos praticar, pois, a verdade. Precisamos irradiar a luz da fé, da esperança e do amor nas nossas famílias e nos ambientes em que fizermos presença. Saibamos ser testemunhas da verdade santa que torna livres todas as pessoas.

Saibamos crescer na amizade com Jesus, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6): uma amizade nutrida e aprofundada através da oração humilde e perseverante. Procuremos conhecer a vontade de Deus a nosso respeito, ouvindo diariamente a sua palavra e permitindo que esta Palavra penetre em nosso coração, para dar copiosos frutos.

O Evangelho desse domingo também nos ensina que uma verdadeira reconciliação só pode ser fruto de uma conversão, de uma mudança do coração, de um novo modo de pensar. Só a força do amor de Deus pode mudar os nossos corações e fazer-nos triunfar sobre o poder do pecado e do erro. Quando estávamos “mortos pelos nossos pecados” (cf. Ef 2,5), o seu amor e a sua misericórdia deram-nos a reconciliação e a vida nova em Cristo.

Muitas vezes somos mais inclinados às trevas do que à Luz, porque estamos apegados aos nossos pecados. Mas só quando nos abrirmos à Luz, só confessando sinceramente as nossas culpas a Deus, encontraremos a paz verdadeira, a alegria autêntica. Então, é importante nos aproximarmos com regularidade do Sacramento da Penitência, em particular neste tempo da Quaresma, para receber o perdão do Senhor e intensificar o nosso caminho de conversão.

Peçamos também à Virgem Maria, aquela que na Ladainha invocamos como “causa de nossa alegria”, para que possamos “apressar” os nossos passos para este encontro com Cristo; este encontro que só traz alegria e paz ao nosso interior.  Que ela interceda sempre por nós e nos direcione no caminho do bem e da santidade. Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano B

 Os vendilhões do templo

Jo 2,13-25.

Meus caros irmãos e irmãs,

 A liturgia da Palavra nos apresenta como primeira leitura os dez mandamentos, um importante tema para nossa meditação neste tempo quaresmal (cf. Ex 20,1-3.7-8.12-17).  Os mandamentos da lei de Deus são normas que sintetizam a vida moral de cada cristão. São preceitos divinos, através dos quais, são construídos o fundamento e o alicerce sobre os quais se formará e erguerá a estrutura equilibrada e firme da vida terrena do homem em relação a Deus, à família, à sociedade, e aos indivíduos de um modo geral.

 No conjunto, forma essa lei fundamental que está na consciência de toda a humanidade e que, se faltasse, tornaria impossível uma convivência pacífica e honesta entre os homens.  No Monte Sinai  esta Lei é transmitida pela autoridade pessoal de Deus. No fim da exposição da Lei, feita por Moisés, o povo se comprometeu a cumpri-la e foram todos aspergidos com o sangue dos novilhos imolados.  Era a promulgação da carta nacional e religiosa de um novo povo.

 Os dez mandamentos foram prescritos em tábuas de pedra, e foram conservadas na Arca, chamada, por isso mesmo, a “Arca da Aliança”. Jesus atestou a perenidade do Decálogo, que é o conjunto dos dez mandamentos de Deus, pois ele mesmo os praticava e era a base da sua pregação. Fiel às Escrituras e conforme o exemplo de Jesus, a Igreja reconheceu no Decálogo um significado e uma importância primordiais. O Decálogo forma uma unidade orgânica, onde cada mandamento remete a todo o conjunto. Transgredir um mandamento é infringir toda a Lei.  Esta Lei é uma instrução paterna de Deus, na qual são apresentados os caminhos para a felicidade e para a harmonia entre as pessoas, com base no respeito mútuo, com a finalidade de gerar uma boa convivência entre as pessoas.

 E a Quaresma é o tempo favorável para tudo isto, é o tempo da renovação interior, do perdão dos pecados, um tempo em que somos chamados a reconciliação com Deus e também com o nosso próximo; um tempo de descobrir de novo o Sacramento da Penitência e da Reconciliação, que nos faz passar das trevas do pecado para a luz da graça e da amizade com Jesus. Não podemos esquecer o grande vigor que este Sacramento tem para a vida cristã: ele nos faz crescer na união com Deus, fazendo-nos recuperar a alegria perdida e experimentar a consolação de nos sentirmos acolhidos pessoalmente pelo abraço misericordioso de Deus.

 O Evangelho deste terceiro domingo do tempo da quaresma nos mostra Jesus expulsando do templo de Jerusalém os vendedores de animais e os cambistas.  É uma das poucas vezes em que o Evangelho nos mostra uma cena onde aparece a cólera de Jesus, motivada pelo desrespeito de muitos pela Casa de Deus. Tínhamos a convicção de que Jesus se mantivesse sempre calmo, manso, tranquilo, mas nessa ocasião ele mostra um aspecto diferente.

 Jesus repudiou tudo aquilo energicamente, fazendo até um chicote de cordas para expulsar todos aqueles profanadores dizendo-lhes: “Tirem isso daqui! Não façam da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v. 16).  Neste momento alguns judeus perguntaram: “Que sinal nos mostras para agir assim?” (v. 18). Na verdade, o sinal que Jesus dará como prova da sua autoridade será precisamente a sua morte e Ressurreição, quando responde: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19).  E o próprio evangelista São João frisa: “Ele falava do templo do seu corpo” (v. 21).  Os discípulos bem o reconheceram depois da Ressurreição e creram no que ele havia dito (cf. Jo 2,13-22).

 A casa de oração havia sido transformada em uma casa de negócios, um covil de mercadores.  Os negociantes estavam vendendo os animais para os sacrifícios prescritos pela Lei do Antigo Testamento.  O templo enquanto lugar de oração, de fraternidade e de acolhida, tinha sido transformado em ponto de exploração e enriquecimento ilícito; porque, para alguns, a fé perdera a sua profundidade e os fiéis tinham-se tornado vítima da ganância dos ricos. Nisto consistia a profanação da casa de Deus. O gesto de Jesus é de limpeza, de purificação, e a atitude que Ele repudia pode ser encontrada nos textos proféticos, segundo os quais não é do agrado de Deus o culto exterior, feito de sacrifícios materiais e fundamentado em interesses pessoais (cf. Is 1,11-17; Jr 7,2-11). Este gesto de Jesus é uma exortação ao culto autêntico, à correspondência entre liturgia e vida; uma evocação válida para todas as épocas, e também hoje para nós.

 Expulsando os vendedores e os animais (v. 15), Jesus queria dizer que aqueles sacrifícios não tinham mais valor.  Os judeus acreditam que Deus habita no templo de Jerusalém e é ali que eles vão para oferecer-lhe sacrifícios.  Julgam eles que lhe agradam o perfume do incenso e o sangue das vítimas.  Mas Jesus mostra que em breve Deus constituirá para si um novo templo, no qual serão oferecidos sacrifícios que lhe agradam.  No diálogo com a Samaritana, Jesus já havia dito: “…chegou a hora na qual nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Os verdadeiros adoradores lhe prestarão culto em espírito e verdade.  São estes, em verdade os adoradores que ele quer” (Jo 4,21-24).

 Com esta ação da expulsão dos vendilhões, Jesus pretende purificar o templo de tudo aquilo que não condiz com a casa de Deus. Para o evangelista São João o templo já não é mais importante em si mesmo, na sua grandiosidade material; a sua importância está em ser símbolo de Jesus de Nazaré. Por isso, pode até ser destruído em três dias, mas não pode ser manchado.  Com a Páscoa de Jesus começa um novo culto, o culto do amor, e um novo templo que é Ele mesmo, Cristo ressuscitado, mediante o qual cada fiel pode adorar Deus Pai “em espírito e verdade” (Jo 4, 23).

 A Igreja primitiva durante os primeiros séculos celebrou o culto e a Eucaristia nas casas ou nas catacumbas. Com o passar de algum tempo, mesmo na era dos Apóstolos, se tornou necessário o encontro de algum local comum para as celebrações litúrgicas. Só mais tarde sugiram as Igrejas, as basílicas e as catedrais.

 Somos o corpo vivo, o templo vivo, e é o Espírito Santo quem nos dá a vida, quem nos une. A Igreja, templo e corpo, formada por todos os batizados é a manifestação visível da presença do Senhor Ressuscitado. Por isso ela celebra os sacramentos, todos decorrentes da Eucaristia, com a qual somos alimentados e nutridos.  É ela, a Igreja, aquela que louva o Senhor com sua liturgia, a esposa sem ruga e sem mancha, que foi purificada pelo próprio esposo, o Cordeiro Imolado.

 O Apóstolo São Paulo nos ensina: “Vosso corpo é templo do Espírito Santo; portanto, glorifiquem a Deus com vosso corpo” (1Cor 6,17).  Com a vida de Jesus, o Templo de Jerusalém estava para perder seu sentido. O verdadeiro lugar de adoração de Deus é agora o próprio corpo glorificado de Jesus: “O templo reconstruído em três dias” (v. 19). Jesus é o centro do culto em espírito e verdade. Jesus ressuscitado é o templo do novo culto. Toda oração e toda oferenda a Deus devem ser feitas, a partir de então, em Cristo Jesus, para que sejam um culto espiritual vivo, santo e agradável a Deus (cf. Rm 12,1).

 Saibamos também nós, enquanto membros de Cristo, ter para com a casa de Deus o mesmo zelo que Jesus demonstrou ter.  Que o Senhor nos faça percorrer este tempo quaresmal seguindo um itinerário de conversão e de penitência, para podermos eliminar da nossa vida todo o pecado, purificando assim o nosso corpo que é templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,17). Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ