Referência: Lc 2,16-21

Meus caros irmãos e irmãs,

Iniciamos um novo ano e a Igreja nos convida a confiá-lo à celeste proteção de Nossa Senhora, que hoje a liturgia nos faz invocar com o seu título mais antigo e importante, o de Mãe de Deus.  Ainda envolvidos pelo clima espiritual do Natal, no qual contemplamos o mistério do nascimento de Cristo, celebramos, com estes mesmos sentimentos, a Virgem Maria.

O dogma que declara verdade de fé que Maria é Mãe de Deus foi proclamado pelo Concílio de Éfeso, no ano 431. Maria recebeu o nome de “Theotokos”, palavra grega que diz exatamente “Mãe de Deus”.

Para este dia a Liturgia da Palavra nos apresenta como primeira leitura a solene bênção que os sacerdotes pronunciavam sobre os Israelitas nas grandes festas religiosas, marcada precisamente pelo nome do Senhor, repetido três vezes, como que para exprimir a plenitude e a força que deriva desta invocação: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26).

Este texto da bênção litúrgica, de fato, evoca a riqueza de graça e de paz que Deus concede ao homem. Trata-se de uma bênção dada por Deus através de Moisés, a Aarão e aos seus filhos, ou seja, aos sacerdotes do povo de Israel. É um tríplice voto cheio de luz que brota da repetição do nome de Deus e da imagem de seu rosto. Cada repetição do santo nome de Deus está inserido dois verbos que indicam uma ação do Senhor em favor de cada ser humano. A paz é, portanto, o ponto culminante dessas seis ações em prol do homem, a quem Deus dirige o esplendor da sua face. Esta bênção evoca a riqueza de graça e de paz que o Criador concede a cada um de nós, sinal da Sua benevolência para conosco.

A palavra bíblica “shalom”, que normalmente traduzimos por “paz”, indica um conjunto de bens que Cristo Salvador, o Messias anunciado pelos profetas, trouxe para cada um de nós. Por isso, reconhecemos Nele o Príncipe da paz. Ele se fez homem e nasceu numa gruta em Belém para trazer a sua paz aos homens de boa vontade, aos que o acolhem com fé e amor.

Neste primeiro dia do ano pedimos ao Senhor que nos abençoe e nos conceda a paz. Todos nós desejamos viver em paz, mas a paz verdadeira, a que é anunciada pelos anjos na noite de Natal, é antes de tudo, dom divino que se deve implorar constantemente e, ao mesmo tempo, compromisso que se deve levar em frente com paciência e perseverança.

O texto evangélico narra o nascimento de Jesus e as circunstâncias que o acompanhara.  Neste contexto está o anúncio do anjo aos pastores daquela região e, ao mesmo tempo, indica a eles os sinais para que possam reconhecer a criança.  Enfim, os pastores constatam a realidade do anúncio evangélico. Eles fazem a experiência do encontro com Deus na pessoa um “recém-nascido deitado na manjedoura” (Lc 2.16). É justamente desse menino que se irradia uma nova luz que brilha na escuridão da noite. Agora, é Dele que nos vem a bênção.

E os pastores passam a ser os anunciadores da boa nova anunciada pelo anjo (v. 17), e esta novidade da mensagem dos pastores enche os ouvintes de admiração (v. 18).  Esses pastores, considerados impuros e de reputação duvidosa, são os primeiros a propagar o nascimento do Salvador.

A passagem do Evangelho termina com uma menção à circuncisão de Jesus. Como de fato, Maria, como qualquer mãe judia, leva seu filho até o templo para que se cumpra a lei da circuncisão.  Conforme a Lei de Moisés, oito dias após o nascimento, o menino devia ser circuncidado, e nesse momento lhe era dado o nome. O próprio Deus, através de seu Anjo, dissera a Maria e também a José, que o nome a ser dado para a criança era “Jesus” (cf. Mt 1,21; Lc 1,31). Aquele nome que Deus já tinha estabelecido antes mesmo que o menino fosse concebido, lhe é dado oficialmente no momento da circuncisão. E isto marca definitivamente a identidade de Maria: ela é a mãe de Jesus, ou seja, a mãe do Salvador.

O nome Jesus, no hebraico, significa “Deus salva”. Jesus é o Verbo de Deus, o Filho de Deus, por isso a Igreja deu a Maria o título de “Theotokos”, ou seja, Mãe de Deus, porque Jesus Cristo é Deus. Certa vez, disse Filipe a Jesus: “Mostra-nos o Pai, isso nos basta” (Jo 14,8). Ao que Jesus lhe respondeu: “Há tanto tempo estou convosco Filipe e não me conheces?”. E o Senhor logo acrescentou: “Quem me vê, vê o Pai”  (Jo 14,9).

E o Evangelho acrescenta também que Maria “conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19). Como Ela, também a Igreja conserva e medita a Palavra de Deus, confrontando-a com as diversas e mutáveis situações que encontra ao longo do seu caminho.  O título de “Mãe de Deus”, a que hoje a liturgia dá relevo, ressalta a missão única da Virgem Santa na história da salvação: missão que está na base do culto e da devoção que o povo cristão lhe reserva.

Maria deu a vida terrena ao Filho de Deus, continua a oferecer aos homens a vida divina, que é o próprio Jesus. Por esta razão, Maria é considerada mãe de todos os homens que nascem para a Graça e ao mesmo tempo é invocada como a Mãe da Igreja.  Nas bodas de Caná, Maria pronuncia uma frase que pode ser considerada a solene ordem do seu coração para os seus filhos: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,1-11).  Este mandato de Maria aos serventes em Caná da Galileia vale para todos os momentos da nossa vida cristã.

É no nome de Maria, Mãe de Deus e dos homens, que desde o dia 1º de Janeiro de 1968 se celebra em todo o mundo o Dia Mundial da Paz.  Ao olharmos Cristo, vindo sobre a terra para nos dar a sua paz, nós celebramos no primeiro dia do ano o “Dia Mundial da Paz”.

Que a Virgem de Nazaré, que hoje veneramos com o título de Mãe de Deus, nos ajude a contemplar a face de Jesus, Príncipe da Paz (cf. Is 9,5). Que ela nos acompanhe e nos proteja ao longo deste ano.  E, com a sua poderosa intercessão, possamos progredir no caminho do bem, da paz e da concórdia. Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

O pároco, Pe. Rogério Costa Félix, deseja um Feliz e Santo 2017 a todos!

SAGRADA FAMÍLIA – Ano B

SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ

Referência: Lc 2,22-40

Caros irmãos e irmãs,

Neste primeiro domingo depois da celebração do Natal, a liturgia nos convida a celebrar a festa da Sagrada Família de Nazaré. Deus quis nascer em uma família humana, quis ter uma mãe e um pai, como nós. Com isto, a Igreja nos propõe a família de Jesus como exemplo e modelo para as nossas famílias.

O texto evangélico nos apresenta Nossa Senhora e São José no momento em que, quarenta dias depois do nascimento de Jesus, levam o filho a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor (v. 23), em conformidade com a Lei de Moisés, e oferecem por ele “um par de rolas ou duas pombinhas” (Lc 2,24).O oferecer aos deuses os primogênitos é um costume cananeu que consistia na apresentação da criança no Templo, onde a mãe oferecia um ritual de purificação (cf. Lv 12,2-8).

A cena da apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém apresenta uma catequese bem amadurecida e bem refletida, que procura dizer quem é Jesus e qual a sua missão no mundo. Antes de mais, o autor sublinha a fidelidade da família de Jesus à Lei do Senhor (v. 22.23.24), como se quisesse deixar claro que Jesus, desde o início da sua vida entre nós, viveu na fidelidade aos mandamentos e aos projetos do Pai.

No Templo, dois personagens acolhem Jesus: Simeão e Ana. As palavras e os gestos de Simeão são particularmente sugestivos. Simeão toma Jesus nos braços e o apresenta ao mundo, ao mesmo tempo em que o define como “a salvação” que Deus quer oferecer “a todos os povos”, “luz para se revelar às nações e glória de Israel” (v. 28-32).  E Ana,ao reconhecer em Jesus a salvação anunciada por Deus, “falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (v. 38). Jesus é reconhecido como o Messias tão longamente esperado, aquele que é “luz das nações” e “glória de Israel”.Nas figuras de Ana e Simeão, o texto bíblico nos propõe também o exemplo de dois anciãos de olhos postos no futuro, capazes de perceber os sinais de Deus e de testemunhar a sua presença no meio dos homens.

Lançando um olhar para a primeira leitura deste domingo, encontramos de forma muito prática, algumas atitudes que os filhos devem ter para com os pais. O livro do Eclesiástico, de onde foi extraída a primeira leitura, é um livro sapiencial e que pretende apresentar uma reflexão sobre a arte de viver bem e ser feliz.  O texto apresenta uma série de indicações que os filhos devem observar nas relações com os seus pais.  Uma palavra sobressai no texto: o verbo “honrar”, que, por sua vez nos faz lembrar do quarto mandamento da Lei de Deus (cf. Ex 20,12). Honrar uma pessoa quer dizer “dar glória” a ela; é certificar a sua importância; “dar glória aos pais” é reconhecer que eles são a fonte, através da qual Deus nos dá a vida e isso deve conduzir à gratidão; e essa gratidão tem consequências a nível prático. Implica ampará-los na sua velhice e não os desprezar nem abandonar; implica assisti-los materialmente em suas necessidades.

É natural que, por trás destas indicações aos filhos, esteja também a preocupação com os valores tradicionais, valores que os mais antigos preservam e que passam aos jovens. Como recompensa desta atitude de “honrar” os pais o texto promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus.

Desde o princípio, o matrimônio e a família estão ordenados para o bem dos esposos e para a procriação e educação dos filhos. O amor dos esposos e a geração dos filhos estabelecem entre os membros de uma mesma família, relações pessoais e responsabilidades primordiais. Um homem e uma mulher, unidos em matrimônio, formam com os seus filhos, uma família.  Ao criar o homem e a mulher, Deus instituiu a família humana e dotou-a da sua constituição fundamental (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2201-2203).

O Concílio Vaticano II frisa que o “papel dos pais na educação dos filhos é de tal importância que é impossível substituí-los” (CONCÍLIO VATICANO II, DeclaraçãoGravissimum Educationis”, 3). O direito e o dever da educação dos filhos são primordiais e inalienáveis para os pais (cf. S. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”, n. 36). Os pais devem olhar para os seus filhos como filhos de Deus e respeitá-los como pessoas humanas. Cabe a eles educar os seus filhos no cumprimento da lei de Deus, na medida em que eles próprios se mostrarem como testemunhas para os seus filhos. Testemunham esta responsabilidade pela edificação de um lar onde são regra a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado.

O homem e a mulher, criados à imagem de Deus, tornam-se no matrimônio “uma única carne” (Gn 2,24), isto é, uma comunhão de amor que gera vida nova. Por isto, Os cônjuges devem ser um para o outro e para os filhos testemunhas da fé e do amor de Cristo. A obediência aos pais cessa com a emancipação: mas não o respeito que sempre lhes é devido (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2117).O respeito favorece a harmonia de toda a vida familiar; engloba também as relações entre irmãos e irmãs. O respeito pelos pais deve impregnar todo o ambiente familiar.E São Paulo exorta: “Suportai-vos uns aos outros na caridade, com toda a humildade, mansidão e paciência” (Ef 4, 2).

Assim, são eles os primeiros educadores da fé, mediante a palavra e o exemplo.  Quando os filhos podem ver em seus pais o amor mútuo, plena honradez e sinceridade, compreendem que podem contar com os seus pais como verdadeiros amigos e companheiros.  É neste contexto que os pais podem educar com seu exemplo e a sua palavra na transmissão de valores básicos e permanentes, tantos humanos como cristãos, tais como a honradez, a fé, a oração, a verdade, a justiça, o amor e o serviço.

A família cristã transmite a fé, quando os pais ensinam os filhos a rezar e rezam com eles. (cf. S. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica “Familiaris consortio”, n. 60); quando os aproximam dos sacramentos e os vão introduzindo na vida da Igreja; quando todos se reúnem para ler a Sagrada Escritura, iluminando a vida familiar à luz da fé.

A solenidade da Sagrada Família é uma festa que incentiva a aprofundar o amor familiar, examinar a situação do próprio lar e buscar soluções que ajudem o pai, a mãe e os filhos a serem cada vez mais como a Família de Nazaré.  Família é o lugar onde deve reinar a unidade de todos, pois onde há amor, também há compreensão e perdão.  Cada família cristã deve ser um lugar privilegiado onde se experimenta cada dia a alegria do perdão. O perdão é a essência do amor, que sabe compreender o erro e pôr-lhe remédio. É no seio da família que as pessoas são educadas para o perdão, porque é neste ambiente familiar que deve haver a compreensão e o amparo, mesmo diante dos erros que se possam cometer.

Peçamos a intercessão da Sagrada Família de Nazaré por todas as famílias, a fim de que possam viver na fé, na concórdia, na ajuda recíproca; para que cumpram com dignidade e serenidade a missão que Deus lhes confiou. Assim seja.

NATAL DO SENHOR – Ano B

O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós

Referência: Jo 1,1-18

M

eus caros irmãos e irmãs,

 Celebramos a festa do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Nasceu para nós o Salvador”  Sinal pleno de alegria.  Sinal de paz e felicidade a todos quantos sentem no coração o eco alegre da mensagem da Noite Feliz que os anjos proclamam: “Glória a Deus nas alturas, e Paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).

O texto do evangelho prescrito para este dia nos apresenta o prólogo do Evangelho de São João, onde são antecipados os temas fundamentais do texto joanino. É semelhante a um hino em que o tema principal é o Logos. O prólogo começa com a mesma palavra do livro do Gênesis (1,1). Em João encontramos a afirmação de uma existência que precede o começo enunciado em Gênesis. Antes desse começo, existia o Logos. A melhor tradução para Logos é “Palavra”, entendida como a comunicação que Deus faz de si mesmo (cf. Hb 1,1-4).

São João proclama de forma grandiosa que no início (cf. Gn 1,1) era a Palavra da criação (cf. Gn 1,3), e esta Palavra é aquele que veio ao mundo, mas o mundo não O acolheu (cf. Jo 1,5), aquele que se tornou carne como nós, mortal como nós (Jo 1,14). Mas exatamente nesta sua condição carnal, na sua doação até a morte, manifestou Ele a glória de Deus.  Jesus é a comunicação de Deus. É o permanente nascimento de Cristo na história, que vai renovando o mundo para que ele seja todo cristão.

O Evangelista João está descrevendo um novo começo. Se o livro do Gênesis registra a primeira criação, este primeiro versículo do Evangelho joanino descreve a nova criação. Em ambas as ocasiões, o agente da obra criadora é o mesmo Verbo (ou Palavra) de Deus. “Palavra” e “luz” são duas formas de falar da mesma realidade, a saber, que Deus entrou na história humana para reconduzi-la à plenitude. Na mentalidade hebraica, a palavra é o meio através do qual alguém se revela ou expressa seus pensamentos e vontade. Conforme nos relata a Sagrada Escritura, a melhor forma pela qual Deus se expressou foi através da existência humana de Jesus no mundo.

O verbo de Deus, ou seja, a Palavra de Deus, veio como a luz no meio das trevas (v. 5), isto porque a humanidade estava caminhando no erro e no pecado e, com o nascimento de Cristo começa uma nova criação, surge um novo tempo.  Contudo, esta luz não foi acolhida pacificamente no mundo.  A parte central do trecho do evangelho deste dia nos fala da luta dura, entre a luz vinda do céu e as trevas que continuam a envolver o mundo.  Trata-se das forças do mal que são os pecados e os erros que constituem as nossas trevas.

A luz veio ao mundo (v. 9). O Antigo Testamento se refere a Deus como a fonte da luz e da vida em várias passagens. O salmista indica que Deus é a fonte da vida e da luz (Sl 36,9). João, seguindo o conceito do salmista, afirma que o Verbo é a vida e a luz dos homens. João utiliza o termo “Verbo” em um sentido muito pessoal, de um Deus que ama, se compadece e se identifica com os seres humanos, tomando sobre si sua natureza, e sofrendo uma morte vergonhosa com o fim de prover um meio para a reconciliação do homem com seu Criador.

O termo “mundo” nesse texto significa o mundo dos homens e seus assuntos, o qual, concretamente, está submetido ao pecado e às trevas. A função da luz é basicamente combater ou vencer a obscuridade. Trevas é um termo metafórico que, no quarto evangelho se refere a tudo o que se opõe à mensagem de Jesus, é a obscuridade moral e espiritual. Por isso, o tema da primeira parte do quarto evangelho é a fé e a incredulidade é o resultado da influência das trevas.

A missão de Jesus no mundo foi uma espécie de conflito entre a luz e as trevas, culminando no Getsêmani e na cruz. Por isso, o verbo “vencer” cabe bem neste contexto. A luz brilha nas trevas e as trevas não tinham o poder para vencê-la (v.5).  A luz luta contra as trevas continuará, até a plena vitória da luz, vitória garantida pela ressurreição de Cristo (cf. Jo 16,33).

Mas o evangelista São João afirma: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Jo 1,5). No Livro do Gênesis, lemos que, quando teve início o universo, “a terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo…”.  E Deus disse: “Faça-se a luz! E a luz foi feita” (Gn 1,2-3). A Palavra criadora de Deus é Luz, fonte da vida. Tudo foi feito por meio da Palavra de Deus e sem esta Palavra nada foi feito de tudo quanto existe (cf. Jo 1,3). Esta é a razão pela qual tudo o que Deus criou é bom, por traz os vestígios de Deus.

Entretanto, quando Jesus nasceu da Virgem Maria, a mesma Luz veio ao mundo, como professamos na oração do Credo: “Deus de Deus, Luz da Luz”.  João Batista não era a luz, mas veio para ajudar o povo a descobrir a presença luminosa e consoladora da Palavra de Deus na vida de cada um. O testemunho de João Batista foi tão importante que muita gente pensava que Ele fosse o Cristo de Deus (cf. At 19,3; Jo 1,20).  Mas o “mundo” não reconheceu o Cristo e nem acolheu a sua mensagem.

Desde os tempos de Abraão e Moisés, Deus continua enviando seus mensageiros, mas o “mundo” continua rejeitando a Palavra de Deus. O evangelista São João indica que, na época de Jesus, tanto o império como a religião da época, ficaram fechados em si e não foram capazes de reconhecer e receber o Evangelho, que é a presença luminosa da Palavra de Deus.

O texto evangélico nos diz que a Palavra se fez carne, isto porque Deus não quer ficar longe de nós. Por isso, a sua Palavra chegou mais perto ainda e se fez presente no meio de nós na pessoa de Jesus. Literalmente o texto diz: “A Palavra se fez carne e montou sua tenda no meio de nós!”. No tempo do Êxodo, lá no deserto, Deus vivia numa tenda, no meio do povo (cf. Ex 25,8). Agora, a tenda onde Deus mora conosco é Jesus. Jesus veio revelar quem é este nosso Deus que está presente em tudo, desde o começo da criação.

A perícope evangélica deste dia evoca ainda a profecia de Isaías, segundo a qual a Palavra de Deus é como a chuva que vem do céu e para lá não volta sem ter realizado a sua missão aqui na terra (cf. Is 55,10-11). Assim é a caminhada da Palavra de Deus. Ela veio de Deus e desceu entre nós na pessoa de Jesus. Através da obediência de Jesus ela realizou sua missão aqui na terra. Na hora de morrer, Jesus entregou o Espírito e voltou para o Pai. Cumpriu a missão que tinha recebido.

Na noite de Natal, Jesus se fez Luz para iluminar os nossos caminhos.  Cristo vem trazer a luz também a nós, para que possamos sair da escuridão e das trevas.  Que esta luz de Cristo possa iluminar cada ser humano e fazer brilhar a esperança e a consolação especialmente para os que vivem nas trevas da miséria, da injustiça, do ódio, da desunião.  Jesus veio ao mundo para resgatar o ser humano do poder das trevas e reconduzi-lo à luz, mediante uma vida nova.

Peçamos a Maria, aquela que chamamos de Bem aventurada, porque acreditou nas palavras do Senhor, que ela interceda sempre por nós e nos faça caminhar na estrada de Jesus, a única via iluminada pela luz do amor e da paz.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

“E o presépio se faz porta do Céu”

“Ó Menino meu Divino,
eu te vejo aqui tremer. Ó Deus amado,
Oh, quanto te custou ter me amado!”
(Santo Afonso Maria de Ligório, Tu scendi dalle stelle)

Contemplar o presépio é contemplar a cruz. De fato, ao olharmos para o frágil menino da gruta de Belém, nosso pensamento não deve se fazer distante do Homem-Deus que por nós se entregou no patíbulo da cruz. Afinal, esse foi o sentido maior de Deus ter se inclinado de seu trono de glória e vindo habitar entre os homens, nascido do casto seio da Virgem Santíssima. O presépio não faz sentido sem a cruz. O presépio é o princípio da missão salvadora de Cristo, que irá redimir a humanidade. Neste tempo do Natal, portanto, há que se reverberar em nosso peito a exclamação de Santo Agostinho: “Desperta, ó homem: por tua causa Deus se fez homem!”¹.

Contemplar o Menino Jesus entre as palhas da manjedoura é, portanto, notar, como disse Santo Afonso Maria de Ligório, no belíssimo hino por ele composto para o Natal, Tu scendi dalle stelle (Tu desces das estrelas), o que passou por nós o Salvador: “Oh, quanto te custou ter me amado!”. Sim, foi tudo por nosso amor. Tudo por graça de Deus. E graça superabundante, que nos abriu as portas do céu. Deus, em sua humildade majestosa, faz de uma pobre manjedoura, cercada de bois e ovelhas, a porta que nos dá acesso ao Reino Celeste. Reino dos pobres, que como os pastores que naquela noite acorreram ao presépio, sabem em sua pobreza enriquecer a Deus com louvores. E Deus, que não se esquece dos pobres, manda até nós seu próprio Filho, Verbo Divino feito carne, que se faz irmão dos pobres, filho de uma humilde jovem de Nazaré, casada com um pobre carpinteiro. Novamente nos valemos da sabedoria de Santo Agostinho para refletir: “Na verdade, que graça maior Deus poderia nos conceder do que, tendo um único Filho, fazê-lo Filho do homem e reciprocamente fazer os filhos dos homens serem filhos de Deus?”. Graça maior não há. Por isso somos pobres e devemos nos entender como pobres: porque tudo é graça de Deus, dom gratuito, do qual ninguém pode arrogar mérito algum que seja seu. “Procurai o mérito” – dirá Santo Agostinho – “procurai a causa, procurai a justiça; e vede se encontrais outra coisa que não seja a graça de Deus.” Nossa principal missão no Natal, portanto, é reconhecer a graça de Deus que se faz presente nas palhas, nos pobres pastores, nos anjos a cantar. Graça que se apresenta na pobreza, para confundir os homens em sua vazia mania de riqueza.

Um sinal que concretiza toda essa realidade de um Deus que se faz graça abundante ao homem vindo morar no meio dele é a própria revolução que esse nascimento causará na história da humanidade. Isso ninguém pode negar, seja cristão ou não: o mundo e sua história não foram jamais os mesmos depois do nascimento de Cristo. Sem dúvida alguma, em 25 de dezembro celebramos o fato que transformou substancialmente a história universal. Um simples menino a nascer na pobre gruta de Belém serviu de divisor dos tempos, de princípio de uma era, de fio condutor de uma civilização. Um pobre menino, nascido em meio ao boi e às ovelhas, nascimento esse mais célebre que as conquistas de Alexandre, o Grande, ou o Império de César Augusto, nascimento que reverbera até hoje em todo o mundo. Muitos podem até não reconhecer em Cristo Jesus o Salvador, o Deus que se fez carne, mas não podem deixar de reconhecer o quanto esse nascimento mudou o mundo. É como se fosse uma espécie de “big bang” às avessas: não mais um mundo criado numa explosão de poeira cósmica, mas uma nova criação no silencio da noite, num pobre presépio, sob a luz da estrela a pairar na célebre Belém, a mais humilde das cidades de Judá.

Portanto, não faltam motivos para nos alegrarmos. O sol nascente nos veio visitar (Lc. 1,78), iluminando nossa escuridão. Este solene dia, o celebremos como nos pede Santo Agostinho: “Celebremos com alegria a vinda da nossa salvação e redenção. Celebremos este dia de festa, em que o grande e eterno Dia, gerado pelo Dia grande e eterno, veio a este nosso dia temporal e tão breve.” Comemorai cristãos, eis que chegou o vosso Salvador. Eis que da cepa brotou a rama, da rama veio bela flor! (cf. Is 11, 1-3). Exultai em Deus, em sua glória, em sua humilde glória, em sua pobreza esplendorosa. Vinde, adoremos o salvador, ele é Deus conosco!

*As citações de Santo Agostino são todas retiradas do Sermão 185.

Eduardo Silva
(Seminarista)

 

IV DOMINGO DO ADVENTO – Ano B

A anunciação do anjo a Maria

Referência: Lc 1,26-38

Meus caros irmãos e irmãs,

Já está próximo o Natal do Senhor e a liturgia da Palavra nos prepara para este momento e convida a meditar a narração do anúncio do Anjo a Maria. O anjo Gabriel revela à Virgem Maria a vontade do Senhor, que Ela se torne Mãe do seu Filho unigênito: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, e que lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo!” (Lc 1,31-32).

O texto evangélico começa dizendo que o anjo Gabriel “foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré” (Lc 1,26). Os moradores daquela região eram pagãos, exceção feita a uns poucos israelitas. Nazaré era uma cidade tão insignificante que não é citada nem uma vez no Antigo Testamento. No entanto, ali Cristo seria concebido. Mais tarde Bartolomeu antes de se tornar apóstolo, indagará a Filipe que lhe dizia ter encontrado o Messias, Jesus: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré da Galileia”? (Jo 1,47).

Havia de fato um enorme preconceito contra os galileus. No entanto, foi na pequena Nazaré, uma aldeia simples, ignorada e sem importância no cenário político da época e à margem dos caminhos de Deus e da salvação, o lugar em que ocorreria a concepção de Jesus.  Nazaré teve a honra de ser o lugar no qual o Verbo de Deus se encarnou. Na pequena cidade de Belém, Jesus nasceria; ao passo que em Jerusalém, a capital, seria condenado, crucificado e morto na cruz.

O relato evangélico continua e identifica Maria como “uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José” (Lc 1,27). O casamento hebraico considerava o compromisso matrimonial em duas etapas: havia uma primeira fase, na qual os noivos se prometiam um ao outro: os “esponsais”; só numa segunda fase surgia o compromisso definitivo, a cerimônia do matrimônio. Entre os “esponsais” e o rito do matrimônio, passava um tempo mais ou menos longo, durante o qual qualquer uma das partes podia voltar atrás, ainda que sofrendo alguma penalidade.

Durante os “esponsais”, os noivos não viviam em comum; mas o compromisso que os dois assumiam tinha já um caráter estável, de tal forma que, se surgisse um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da “prometida” como uma ofensa semelhante à infidelidade da esposa (cf. Dt 22,23-27). E a penalidade seria a morte por apedrejamento. José e Maria estavam, portanto, na situação de “prometidos”, pois ainda não tinham celebrado o matrimônio, mas já tinham celebrado os “esponsais”.

Dentro deste contexto, ocorre o anúncio do anjo a Maria, e a primeira palavra usada pelo anjo no momento da anunciação é “chaire”, uma expressão de origem grega, que significa “rejubila, alegra-te”.  Normalmente a saudação entre os judeus era “Shalom”, que pode ser traduzida como “paz”, enquanto a saudação no mundo grego era “Chaire”, ou seja, “alegra-te”. É de se admirar que o anjo, ao entrar na casa de Maria, a cumprimente com a saudação dos gregos. Com isto, podemos compreender que com o início do Novo Testamento, a que se referia esta página do Evangelista São Lucas, teve lugar também a abertura para a salvação, à universalidade do Povo de Deus, que incluía não só o povo hebreu, mas também o mundo na sua totalidade, todos os povos. Nesta saudação grega do anjo manifesta-se a nova universalidade do Reino do verdadeiro Filho de Davi (cf. BENTO PP XVI, A infância de Jesus, São Paulo, 2012, p. 30-31).

Usando esta saudação “alegra-te”, podemos dizer que o mensageiro celeste retoma uma expressão já presente no Antigo Testamento, presente no Livro do profeta Sofonias. O profeta Sofonias, inspirado por Deus, diz a Israel: “Alegra-te, filha de Sião; o Senhor está contigo e acolhe-te na sua morada” (Sf 3,16). Com isto, o evangelista São Lucas quer dizer que, no Filho de Maria, se realizaram todas as profecias: a virgem concebeu, como anunciou o profeta Isaías (cf. Is 7,14) e Deus se fez presente como Salvador do seu povo em Maria, identificada como filha de Sion, da qual falou o profeta Sofonias.  E pelo Canto do Magnificat, percebemos que Maria reconhece ser a “filha de Sião”, de que o profeta falou, e, portanto, o Senhor tem uma intenção especial para ela, pois foi chamada para ser a mãe do Salvador, a morada de Deus por excelência. Maria é o lugar por excelência do cumprimento das profecias divinas. É nela que a Palavra de Deus se cumpre no sentido mais pleno.

Com este diálogo do anjo Gabriel com Maria, começa realmente o Novo Testamento. Portanto, podemos dizer que a primeira palavra do Novo Testamento é um convite à alegria.  E esta é a grande alegria que o cristianismo anuncia.  Com o convite à alegria tem início um tempo novo.  Esta alegria que a humanidade recebeu, não pode conservá-la somente para si; a alegria deve ser sempre compartilhada, deve ser comunicada. Maria foi imediatamente transmitir a sua alegria à sua prima Isabel. Também nós somos chamados a anunciar a alegria. Este é o verdadeiro compromisso desse tempo litúrgico: levar a alegria aos outros. O verdadeiro presente de Natal é a alegria. Nós podemos transmitir esta alegria de modo simples: com um sorriso, com um bom gesto, com uma pequena ajuda, um perdão.

Na sequência, ao ouvir as palavras do arcanjo Gabriel, Maria ficou a pensar no significado da saudação que lhe havia sido dirigida (cf. Lc 1,29; mas logo em seguida, o anjo dirá: “Não tenhas medo, Maria!” (v. 30). Maria tinha motivo para ter medo, além das circunstâncias legais da época, era grande o peso de carregar o fardo do mundo sobre si mesma, ser a mãe do Rei do Universo, ser a mãe do Filho de Deus! Um peso acima das forças de um ser humano! Mas o anjo tranquiliza Maria dizendo: “Não tenhas medo!” (v. 30).  Com esta expressão do anjo Gabriel também nós recebemos uma valiosa lição: Não precisamos ter medo de receber Jesus neste Natal e de testemunhá-lo a todos.

Neste trecho evangélico, é também significativa a resposta de Maria ao anjo, concluindo o diálogo: “Eis aqui a Serva do Senhor. Faça-se em mim, segundo a tua palavra” (v. 38).  Maria diz “sim” àquela vontade divina e, com isto, abre a porta do mundo a Deus.  Com estas palavras, podemos lembrar da oração do Pai Nosso, onde temos uma expressão semelhante: “Seja feita a vossa vontade”.  Maria deu a cada um de nós o exemplo: Devemos fazer sempre a vontade de Deus.

Esta resposta de Maria precisa ser considerada.  Ela chama a si mesma de “Serva do Senhor”.  O Evangelista São Lucas a havia chamado de “Virgem”, o anjo, de “cheia de graça”; e seus pais, de “Maria”.  O servo depende de seu senhor, da sua vontade.  E Maria, se auto identificou como a Serva do Senhor. A palavra do anjo é uma ordem: “Conceberás e darás à luz”;  que Maria aceita em sinal de obediência e alegria. É também importante notar que o Filho de Deus não se encarnou sem o consentimento daquela que devia ser sua mãe. Este exemplo se aplica aos dois fatores de nossa santificação: A graça de Deus e a cooperação da nossa vontade.

O exemplo da Virgem de Nazaré é para todos nós um convite a acolher com total abertura de espírito o Cristo que vem no Natal, que por amor se faz nosso irmão. Ele vem para trazer a paz ao mundo: “Paz na terra aos homens por Ele amados!” (Lc 2,14), como anunciaram os anjos aos pastores. O dom precioso do Natal é a paz, e Cristo é a nossa paz.

Preparemo-nos para celebrar dignamente o Natal já próximo. Sigamos com Maria e José rumo a Belém. Que os nossos passos caminhem em direção ao Menino Jesus que nasce; e os nossos olhos se abram para que possamos ver e reconhecer o Filho de Deus entre nós e que possamos abrir de par em par as portas do nosso coração para acolhê-lo.  Um feliz Natal a todos!  Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

Mesmo pecadores, Jesus nos ama!

“Jesus ama você individualmente, do jeito que você é, na situação em que está, com toda a sua história, todo o seu passado. Ele ama você profundamente, do mesmo modo que amou Zaqueu, o cobrador de impostos, que por curiosidade foi procurá-lo, subindo no alto de uma árvore. Quando Jesus o viu, disse: Zaqueu, desce depressa porque é preciso que Eu fique hoje na tua casa (Lc 19, 1 – 10).

É isso que Jesus está dizendo para você: ‘desça depressa, de onde está, saia da situação em que se colocou. Deixe seu orgulho, vaidade, auto-suficiência. Preciso entrar hoje na sua casa, preciso adentrar em seu coração. Estou chamando você como fiz com Zaqueu’.

O Senhor está chamando a mim e a você. É momento de nos rendermos a Ele. Somos pecadores? Sim. Infelizmente o pecado está em nós, por isso, acabamos pecando e cometendo muitos erros.

Somos como um alcoólatra. Ele não é alcoólatra porque bebe. Ele bebe porque é alcoólatra. Há uma doença dentro dele que o impulsiona o empurra a beber. Mas que beleza quando ele se recupera é a restauração da pessoa inteira, não só do exterior.

Este é o momento de nos reconhecermos pecadores diante do Senhor. Precisamos da Sua salvação. Nossa conversão é progressiva. Atinge-nos cada vez mais e nós vamos adentrando mais profundamente no coração aberto de Jesus. E quanto mais deixamos de ser pecadores, mais seguimos adiante no caminho da santidade, na nossa transformação.

É certo, no entanto, que falta muito para sermos aquilo que Jesus quer que sejamos: ‘Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação’. ‘Sede santos porque Eu o Senhor vosso Deus Sou santo’. Falta muito ainda para isso. Entretanto, precisamos reconhecer que ainda somos pecadores.

A união da miséria humana, somada ao coração de Deus, cheio de amor, resulta na misericórdia. Ela supera todo o nosso entendimento. Não é possível entender a misericórdia de Deus, basta que a acolhamos e aceitemos.”

FONTE: http://arqrio.org/formacao/detalhes/1554/mesmo-pecadores-jesus-nos-ama

Monsenhor Jonas Abib
(Fundador da Comunidade Canção Nova e presidente da Fundação João Paulo II)

III DOMINGO DO ADVENTO – Ano B

 O testemunho de João Batista

Referência: Jo 1,6-8.19-28

C

aros irmãos e irmãs,

Neste terceiro domingo do tempo do Advento, chamado de “domingo gaudete“, palavra latina que pode ser traduzida como: “alegrai-vos”, e tem como referência antífona de entrada da Missa desse dia, onde retoma uma expressão de São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito-vos: alegrai-vos!” E o Apóstolo acrescenta imediatamente a motivação para esta alegria: “O Senhor está próximo!” (Fl 4, 4-5). Os cristãos são exortados à alegria porque a vinda do Senhor já se aproxima.

Neste domingo, somos uma vez mais convidados a preparar o caminho para o Senhor que vem.  A liturgia continua nos propondo uma atitude interior para receber o Cristo neste Natal: a alegria. O Advento é precisamente um tempo de expectativa, de esperança e de preparação para a vinda do Senhor. No texto evangélico deste domingo aparece novamente a figura e a pregação de João Batista (cf. Jo 1,6-8.19-28). João retirou-se no deserto para levar uma vida austera e para convidar as pessoas à conversão, tornando-se uma voz e uma testemunha da Luz.

João Batista dedicou toda a sua vida para anunciar a vinda do Messias. Por ocasião da visitação de Maria a Isabel, ainda no ventre de sua mãe, estremeceu de alegria ao testemunhar a presença da Verdadeira Luz (cf. Lc 1,44). Conforme nos relata o texto evangélico, alguns do grupo dos fariseus queriam saber detalhes sobre João. Estavam eles preocupados, pois não entendiam como alguém poderia batizar, pregar o jejum, a penitência e, até mesmo a conversão, sem títulos. E perguntaram a João: “Se não és o Messias, nem Elias, ou algum profeta, quem és afinal?”.

João, sem se exaltar, responde a eles com humildade: “Sou a voz que grita no deserto: aplainai o caminho do Senhor…” (v. 23). E ainda completa: “Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias” (v. 27).  Uma vez cumprida sua missão, ele desaparece do cenário e deixa Jesus agir. A grande prova que João tinha consciência da divindade de Jesus está nesta frase que, mais tarde, disse aos seus discípulos: “É preciso que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). E, quando Jesus começa o seu ministério, João exclama: “Esta é a minha alegria! E tornou-se completa!” (Jo 3,29).

Apesar de sua humildade, demonstrava uma personalidade vigorosa, clara e firme. Ele não era a luz, mas como ninguém, soube dar testemunho da Luz. Preparou com dedicação o terreno para Jesus lançar as sementes do Reino.  E fez questão de ressaltar a grande diferença entre o batismo de Jesus e o batismo por ele administrado: “Eu batizo com água, Ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo” (v. 26). O batismo de João não perdoava os pecados, mas levava ao arrependimento, o sentimento básico para obter de Deus o perdão. Era um rito que simbolizava a renovação interior, a mais adequada preparação para receber o Messias e o seu verdadeiro Batismo.

Conforme frisa João Batista, Jesus “batizará no Espírito Santo e no fogo” (Mt 3,11; Lc 3,16). Enquanto a água significa o nascimento e a fecundidade da vida nova dada no Espírito Santo, o fogo simboliza a energia transformadora dos atos.  O profeta Elias, que “surgiu como um fogo, cuja palavra queimava como uma tocha” (Eclo 48,1), por sua oração atrai o fogo do céu sobre o sacrifício do monte Carmelo, figura do fogo do Espírito Santo que transforma o que toca, do qual Jesus dirá posteriormente: “Vim trazer fogo à terra, e quanto desejaria que já estivesse acesso” (Lc 12,49). É sob a forma de línguas de fogo, o Espírito Santo pousa sobre os discípulos na manhã de Pentecostes e os enche de Si. A tradição espiritual manterá este simbolismo do fogo como um dos mais expressivos sinais da ação do Espírito Santo (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 696).

Pelo sacramento do Batismo ficamos unidos de modo profundo e para sempre com Jesus, imersos no mistério desta sua força, deste seu poder, ou seja, no mistério da sua morte, que é fonte de vida, para participar na sua ressurreição, para renascer para de novo. Pelo Batismo passamos a ser filhos de Deus, participantes da mesma relação filial que Jesus tem com Deus Pai. Por isto, podemos dizer: “Pai nosso”, como pronunciamos na oração a Ele dirigida.  Pelo batismo, somos também chamados à alegria de sermos cristãos, de pertencermos a Igreja de Cristo.

Trata-se da alegria de nos reconhecermos como filhos de Deus, de estarmos confiados às suas mãos, de nos sentirmos acolhidos por Ele. Esta alegria guia o caminho de cada cristão. O caminho da fé, que tem início com o Sacramento do Batismo, funda-se no desejo de conhecer Cristo e o comunicar aos outros.  E para sermos fortalecidos na fé, recebemos no Batismo o Espírito Santo, cujo primeiro fruto é a alegria, que é também um dos dons do Espírito Santo. O Livro dos Atos dos Apóstolos nos diz que um eunuco, após receber o batismo, “seguiu o seu caminho cheio de alegria” (At 8,39); e o carcereiro “entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus” (At 16,34). E nós, que também recebemos o batismo, somos chamados a entrar no âmbito desta alegria.

São Paulo nos diz que a paz de Deus é algo que supera toda inteligência (cf. Fl 4,7). A mesma relação vale para a alegria. Já que são dons do Espírito Santo, e somente aqueles que o receberam pela fé estão em condições de os experimentar, conhecer, possuir, aproveitar e transmitir. Existe uma certa reciprocidade entre estes dois dons do Espírito Santo, a paz que mora na alma do fiel inspira uma alegria interior, que se manifesta no humor da pessoa, que contagia o ambiente. Por outro lado, a alegria do Espírito Santo na pessoa transmite paz e ordem na vida, serenidade e harmonia; uma espécie de tranquilidade espiritual que provoca admiração em todos.

Estejamos alegres, saibamos também transmitir esta alegria a todos que conosco convivem,  porque o Senhor está próximo, muito em breve celebraremos o nascimento do nosso Salvador. Que esta alegria penetre todos os âmbitos da nossa existência. Ao lado da vigilância, da oração e da caridade, o Advento nos convida ao júbilo e à alegria. A própria mensagem e a pregação de Cristo é fonte de alegria, pois Ele mesmo disse: “Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). E o próprio Cristo Jesus promete aos seus discípulos: “Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria” (Jo 16,20).

Avancemos, portanto, com espírito alegre e generoso para o Natal. São José e Nossa Senhora são testemunhas silenciosas de um mistério sublime. Com seu olhar de amor eles nos convidam a velar e a rezar para receber o Salvador divino, que vem trazer ao mundo a alegria do Natal.

Volvemos, por fim, o nosso olhar para Maria, invocada pelos cristãos como a “causa da nossa alegria”, para que ela interceda por cada um de nós e nos conceda a alegria que vem de Deus e que ninguém nos poderá tirar.  Que ela nos faça chegar a Belém, para encontrar o Menino que nasceu para nós, para a salvação e a felicidade de todos.

Façamos nossos os sentimentos de Maria, que esperou o Redentor na oração e no silêncio e lhe preparou com cuidado o nascimento em Belém. Foi ela a primeira a receber o convite do anjo Gabriel à alegria: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo” (Lc 1,28). Que Maria nos sustente neste programa de vida cristã, sem esquecer que a vocação de cada fiel é testemunhar a alegria a todos, pois, com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

Guadalupe: Mãe da América Latina

No dia 12 de dezembro “celebra-se a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira de toda a América. Aproveito o ensejo para saudar os irmãos e irmãs daquele Continente, e faço-o pensando na Virgem de Tepeyac.

Quando apareceu a São Juan Diego, o seu rosto era mestiço e as suas vestes, cheias de símbolos da cultura indígena. Seguindo o exemplo de Jesus, Maria está ao lado dos seus filhos, acompanha o seu caminho como mãe atenciosa, partilha as alegrias e esperanças, os sofrimentos e as angústias do Povo de Deus, do qual todos os povos da terra são chamados a fazer parte.

 

A aparição da imagem da Virgem na tilma (manto) de Juan Diego foi o sinal profético de um abraço, o abraço de Maria a todos os habitantes das vastas terras americanas, a quantos já estavam ali e aos que teriam chegado depois. Este abraço de Maria indicou a senda que sempre caracterizou a América: é uma terra onde podem conviver povos diversos, uma terra capaz de respeitar a vida humana em todas as suas fases, desde o ventre materno até à velhice, capaz de acolher os emigrantes, os povos, os pobres e os marginalizados de todas as épocas. A América é uma terra generosa.

Esta é a mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe, e esta é também a minha mensagem, a mensagem da Igreja. Encorajo todos os habitantes do Continente americano a manter os braços abertos como a Virgem Maria, com amor e ternura.

Caros irmãos e irmãs da América inteira, rezo por todos vós, mas

também vós orai por mim! Que a alegria do Evangelho esteja sempre nos vossos corações! O Senhor vos abençoe e a Virgem vos acompanhe!” (Homilia do Papa Francisco em 12/12/2015)

GUADALUPE EM MINHA VIDA, ENQUANTO CONSAGRADO

Sempre tive um carinho e uma admiração muito grande pela imagem de Guadalupe, mesmo na época que eu era protestante, eu não tinha amor pela imagem, mas a admirava pela forma que ela havia aparecido e pelo fato de ninguém conseguir explicar.

Com todo o tempo de “reabilitação” religiosa, por sair de uma religião que não aceita Nossa Senhora da forma que ela deve que ser aceita e amada e ir para uma que busca sempre honrar e amar, essa doce e augustíssima mãe; fiquei muito interessado em buscar saber cada vez mais sobre ela, buscar cada vez mais tentar “recuperar” o tempo em que virei as costas pra ela, o tempo em que eu não a honrei como ela merece.

Tempos depois conheci a consagração a Jesus pelas mãos de Maria, onde São Luiz Maria Grignion de Montfort diz que nos damos totalmente a Jesus pelas mãos sagradas e virginais da Santíssima Virgem, assim depositando totalmente nas mãos dela todos os nossos bens materiais e espirituais, todos os nossos méritos internos e externos, para ela usá-los como bem quiser. Para ela usá-los na salvação de outras Almas. Fiquei apaixonado por toda essa beleza e toda espiritualidade dessa devoção, desse modo de vida, onde nos “anulamos” para servir e buscar salvar o próximo, mas apareceram muitas dúvidas se eu era digno de tal devoção; se seria capaz de tal espiritualidade e compromisso, e foi assim que, da mesma forma que ela apareceu ao índio São Juan Diego, ela veio e me disse a mesma frase, “não fiques aflito, não estou eu aqui, que sou sua mãe? Você não está debaixo da minha sombra e sob o meu cuidado? Não sou eu a fonte da sua alegria?”, e de lá para cá nunca mais abandonei essa doce e amorosa mãe, de lá pra cá foram dissipadas quaisquer dúvidas que poderiam ter aparecido em minha mente sobre me entregar totalmente a essa tão amorosa mãe!

Hoje sou todo de Jesus pelas mãos de Maria, consagrado pelo título de Nossa Senhora de Guadalupe, essa mãe que jamais me abandonou, mesmo em todo tempo em que eu não a aceitava como minha mãe e medianeira, e busco sempre passar esse amor e proteção dela para outros. Hoje graças à intercessão dela, temos na Paróquia São Judas Tadeu o Grupo Mariano Totus Tuus Mariae, que se encontra todos os sábados as 17h, onde crianças, jovens e adultos, que buscam saber mais sobre essa doce mãe, são convidados descobrir um amor tão grandioso e sentir verdadeiramente a presença dela. Por isso sou tão apaixonado por ela, por Nossa Senhora, ela que em todos os momentos se faz tão presente em nossas vidas!

Paz e bem!
Salve Maria Imaculada!

Marcos Aurélio
(Consagrado à Nossa Senhora, sob o título de Guadalupe, em 12 de dezembro de 2015)

II DOMINGO DO ADVENTO – Ano B

Preparai o caminho do Senhor

Referência: Mc 1,1-8

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo temos diante de nossos olhos a narração do Evangelista Marcos que traz para a nossa reflexão a pregação de João Batista no deserto. Neste tempo de Advento, de preparação para a celebração do Natal do Senhor, a Igreja nos traz uma proposta: preparar a vinda de Jesus exige de nós uma transformação radical da nossa vida, dos nossos valores, da nossa mentalidade. Trata-se de um veemente apelo a cada pessoa: a conversão. Este é o apelo feito por João Batista ao longo de toda a sua pregação.

A conversão absoluta consiste em uma mudança radical de mentalidade e atitudes interiores que se traduz numa nova conduta moral, segundo o estado e profissão de cada um (cf. Lc 3,10ss).  O motivo e a finalidade da conversão que João Batista pede, tem como objetivo preparar o caminho ao Senhor que vem; para isso, propõe ele o batismo como sinal dessa conversão e do perdão dos pecados.

A conversão é a grande palavra da pregação de João Batista, continuada depois pela Igreja.  Converter é sair do caminho errado e voltar ao caminho certo.  E era esse o sentido do batismo promovido por João Batista.  Não era ainda o batismo sacramento da Nova Lei, que Cristo ia marcar como sinal de entrada na sua igreja.  Era um batismo de penitência, isto, é um rito que significava a mudança de vida, mediante as disposições interiores daquele que dele participava.  São João deixou bem claro:  “Depois de mim vem um que é mais forte do que eu e que não sou digno de me inclinar para lhe desatar as correias das sandálias.  Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 1,1-8).

O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água. Era, inclusive, um rito usado na integração dos prosélitos, ou seja, os pagãos que aderiam ao judaísmo, na comunidade do Povo de Deus. Na perspectiva de João, provavelmente, este batismo é um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este batismo passava a viver uma vida nova e aceitava integrar a comunidade do Messias.  João Batista exorta a uma mudança interior a partir do reconhecimento e da confissão do próprio pecado.

A pregação de João é feita no deserto. O deserto é, no contexto da catequese judaica, o lugar onde o Povo de Deus realizou uma caminhada de purificação e de conversão.  Esta pregação lembrava aos israelitas a necessidade de voltar ao deserto e de percorrer um caminho semelhante àquele que os antepassados tinham percorrido. O deserto de onde João Batista surge e onde Jesus começará sua missão (cf. Mc 1,4.12), é, antes de tudo, lugar da vocação e do encontro com Deus.  É no Deserto que Davi se prepara para a missão (cf. 1Sm 23,14) e que Elias, desfalecido de desânimo e cansaço é definitivamente robustecido (cf. 1Rs 19,4).  Também através de João Batista surge esta voz a clamar no deserto, a preparar a vinda de Jesus que é o advento do próprio Deus em meio a seu povo.

O estilo de vida de João:  sóbrio, desprendido, austero e simples; é um convite claro à renúncia aos valores do mundo. É a aplicação prática dessa austeridade de vida e dessa renovação de atitudes, de comportamentos e de mentalidade que João pede aos seus conterrâneos. Seu testemunho corrobora a mensagem que ele apresenta. Além disso, o estilo de vida de João evoca o profeta Elias que também  se vestia de peles e trazia um cinto de couro em volta dos rins (cf. 2Rs 1,8).

O profeta Elias era, no universo da esperança judaica, o profeta elevado para junto de Deus e destinado a aparecer de novo no meio dos homens para anunciar a chegada iminente da era messiânica (cf. Ml 3,22-24). A identificação física de João com Elias significa que a era messiânica chegou e que João é o mensageiro esperado, cuja mensagem prepara a chegada do Messias Salvador. Seu estilo deveria chamar todos os cristãos a escolher a sobriedade como modelo de vida, especialmente neste tempo em que nos preparamos para o Natal do Senhor, pois Ele mesmo, sendo rico, se fez pobre por nós, a fim de nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2Cor 8,9).

João Batista se apresenta no deserto da Judeia e, fazendo eco de um antigo oráculo de Isaías, brada: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Is 40,3). Esta mensagem atravessa os séculos e chega até nós, repleta de extraordinária atualidade. Aquele que saltou de alegria no ventre de sua mãe, diante da voz da jovem de Nazaré, nos rompe, com sua voz, a surdez do coração e nos força a abrir os olhos para ver Aquele que sempre se aproxima.

A mensagem de conversão que João Batista proclamava para preparar o caminho ao Senhor encontra eco na exortação da segunda leitura:  Enquanto estão esperando e apressando a chegada do dia do Senhor, devemos ser perfeitos na santidade de vida e na piedade para que Deus os encontre em paz com Ele (cf. 2Pd 3,8-14).  É certo que o “o dia do Senhor” virá, e virá inesperadamente; será para cada homem uma surpresa.  Por isso, o problema da conversão, o problema do encontro e de estar com Deus é questão de cada dia; pois cada dia pode ser para cada um o “dia do Senhor”.

Este empenho de conversão funda-se na certeza de que a fidelidade de Deus nunca enfraquece, não obstante tudo o que podemos encontrar de negativo em nós e em nosso redor. Eis por que o Advento é tempo de expectativa e de esperança. A Igreja nos faz lembrar neste domingo a promessa confortadora do profeta Isaías: “Todos os homens verão a salvação de Deus” (cf. Is 40, 5).

Nós também devemos preparar o nosso coração, o nosso interior para a chegada do Senhor.  O tempo do Advento é composto por quatro semanas que a Igreja nos concede como preparação para a chegada do Natal. O texto evangélico nos exorta: “Preparai o caminho do Senhor” (Mc 1,2). Mais uma vez ressoa com vigor este convite. Acolhamos este apelo. Um brado profético que continua a repercutir-se nos séculos. Também o sentimos hoje, enquanto a humanidade prossegue o seu caminho na história.  A todos nós João Batista continua a indicar o caminho que é preciso percorrer.

A aproximação do Natal nos estimula a uma atitude mais vigilante de espera do Senhor que vem, enquanto a liturgia de hoje nos apresenta João Batista como um exemplo a imitar. Precisamos limpar o caminho.  E um modo concreto para a concretização desta conversão que o texto evangélico prescreve, pode ser também o Sacramento da Reconciliação, para que o pecado seja eliminado e devidamente expiado.  Só assim estaremos dando espaço para o Senhor em nossa vida e permitir que Ele possa nascer no íntimo da nossa vida.

Neste tempo de advento, lembremos também da Virgem Maria, aquela que é bem-aventurada porque acreditou na mensagem do Senhor. Em Maria, preservada de qualquer pecado e repleta de graça, Deus encontrou a terra fértil, na qual depositou a semente da nova humanidade. A ela, preservada da culpa e repleta da graça divina, colocamos a nossa esperança.  Peçamos a sua intercessão por cada um de nós, para que possamos preparar com dignidade os caminhos do Senhor e a endireitar as suas veredas a fim de que, um dia, possamos contemplar a salvação que vem de Deus. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

I DOMINGO DO ADVENTO – Ano B

Vigiai!

Mc 13,33-37

Caros irmãos e irmãs,

Estamos iniciando um novo ano litúrgico e, simultaneamente, o tempo do advento: um tempo de expectativa e de esperança, um tempo privilegiado de escuta e de reflexão, sob a condição de que nos deixemos guiar pela liturgia que nos convida a ir ao encontro do Senhor que vem. A palavra advento deriva do latim “adventus”, e pode ser traduzida como presença, chegada, vinda. Na linguagem do mundo antigo, era um termo técnico utilizado para indicar a chegada de um funcionário, a visita do rei ou do imperador a uma província.

Os cristãos adotaram a palavra “advento” para expressar a sua relação com Jesus Cristo. O advento, este tempo litúrgico que estamos iniciando, nos convida a refletir sobre a vinda de Cristo que está para chegar.  Por isto, falamos que advento é também um tempo de espera, que é, ao mesmo tempo,  esperança. O advento nos leva a compreender o sentido do tempo e da história como “kairós”, como ocasião favorável para a nossa salvação.

Trata-se de um caminho novo de fé, para percorrer no âmbito da história o caminho da salvação.  O ano litúrgico começa com o Tempo do Advento: tempo no qual desperta em nossos corações a expectativa do retorno de Cristo e a memória da sua primeira vinda, quando se despojou da sua glória divina para assumir a nossa carne mortal.

O advento é também um tempo de alegria, de júbilo interiorizado, que nenhum sofrimento pode anular. A alegria pelo fato de que Deus se fez Menino para habitar entre nós. No momento da anunciação do anjo Gabriel a Maria, nota-se que já existe um convite à alegria: “Alegra-te” (Lc 1, 28). A visita de Maria a Isabel faz com que João Batista, salte de alegria no ventre de sua mãe (cf. Lc 1, 41). No seu cântico, Maria proclama: “O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 47).

A Liturgia da Palavra neste domingo, nos exorta a prepararmo-nos para o advento de Cristo com uma palavra bem significativa: “Vigiai”. É o que nos diz Jesus na breve parábola do dono de casa que parte, mas não se sabe quando regressará (cf. Mc 13,33-37).  Antes, porém, de partir, este homem distribuiu tarefas aos seus servos e mandou ao porteiro que vigiasse (cf. Mc 13,33-34) e os admoesta acerca da atitude correta para esperar o Senhor (cf. Mc 13,35s).  Nesta parábola Jesus tem como objetivo recordar aos seus discípulos o dever de guardar e fazer frutificar os dons que ele deixa a cada um.

A palavra chave da parábola é esta: “vigilância”, pois, quando chegar o momento do retorno do Senhor, deve Ele encontrar os seus discípulos isentos do erro, do pecado, e, realizando fielmente as tarefas a eles confiadas. Essas tarefas passam pelo compromisso efetivo com a construção de um mundo que viva cada vez mais de acordo com os projetos de Deus. Trata-se de uma atenção não só da mente, mas também do coração e de toda a vida.

Por isto, o bom discípulo deve estar sempre “vigilante”, cumprindo com coragem e determinação a missão que Deus lhe confiou. Estar “vigilante” significa viver sempre ativo, empenhado, comprometido na construção de um mundo de amor e de paz. Significa cumprir, com coerência os compromissos assumidos no dia do batismo e ser um sinal vivo do amor e da bondade de Deus no mundo.

Vigiar significa ainda seguir o Senhor, escolher o que Cristo escolheu, amar o que Ele amou, conformar a própria vida com a sua; vigiar exige que se transcorra cada momento do nosso tempo no horizonte do seu amor, sem nos deixarmos abater pelas inevitáveis dificuldades e problemas quotidianos, como fizeram muitos santos.

No extremo oposto dessa vigilância situa-se a desesperança de quem nada mais espera do futuro, de quem desistiu de esperar e de acreditar e, por isto, vive como uma lâmpada apagada ou como o sal que perdeu o seu sabor.  Todavia, no início deste advento, a Igreja também nos faz lembrar das palavras do Apóstolo São Paulo: “Já é hora de despertardes do sono” (Rm 13,11).  Esta vigilância nos convida a isto, a estar desperto.

Jesus dirige esta parábola aos seus discípulos, mas também a todos nós, porque cada um de nós, na hora que só Deus conhece, será chamado a prestar contas da própria existência.  Isto exige um arrependimento sincero dos próprios erros, uma caridade para com o próximo e uma entrega confiante nas mãos de Deus.

O homem que partiu para o estrangeiro, conforme assinala a parábola, é o próprio Cristo Jesus. Ele não partiu para sempre.  Ele voltará.  Ao deixar este mundo, com a sua ascensão aos céus, deixou aos seus seguidores a missão de completar a obra por Ele iniciada. Confiou a eles uma missão: a construção de um mundo mais humano, tendo como base a fraternidade e o amor; tendo como alicerce o seu próprio evangelho.

A mensagem que podemos buscar desta passagem evangélica está no fato de que os criados da parábola viviam como se o seu dono estivesse presente, pois não sabiam nem o dia, nem a hora da sua chegada e estavam a desempenhar uma missão.  Nós também devemos ter consciência desta certeza: Somos chamados a ser como a árvore boa, capaz de dar muitos frutos.

Neste sentido, o advento é um tempo de preparação para a celebração da vinda de Deus. Por isto, o tempo do advento é tempo de espera, é tempo de vigilância.  Um tempo de compromisso ativo e efetivo com a construção do Reino de Deus. É bom estarmos atentos e interrogarmos como está se concretizando a nossa própria vigilância.

Mas o Senhor vem continuamente na nossa vida. Portanto, é oportuno o apelo de Jesus, que neste primeiro domingo nos é proposto com vigor:  “Vigiai!” (Mc 13, 33.35.37). O Tempo do Advento chega todos os anos para nos recordar isto, para que a nossa vida encontre a sua orientação justa, rumo ao rosto de Deus.

Para viver de maneira mais autêntica e frutuosa este período de Advento, a liturgia nos exorta a olhar para a Virgem Maria. Que saibamos caminhar com ela para a Gruta de Belém. E ela, como Virgem fiel, interceda sempre por nós, e nos faça fazer deste tempo do advento e de todo o novo ano litúrgico um caminho de autêntica santificação.    Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ