XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

 Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo

Referência: Mt 25,31-46

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, instituída pelo Papa Pio XI no Ano Santo de 1925, para recordar o XVI centenário da profissão de fé elaborada pelo Concílio de Nicéia. Este mesmo Concílio proclamou que Jesus é “Filho unigênito do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai.  Por ele todas as coisas foram  feitas…”.  Naquela ocasião, o Papa marcou a solenidade para o domingo antes da festa de Todos os Santos, para certificar que Jesus Cristo, rei e centro de todo o universo, é o centro e o coroamento da multidão dos santos.  Na reforma litúrgica feita em decorrência do Concílio Vaticano II, a festa foi remanejada para o último domingo do ano litúrgico, ainda com o sentido de glorioso coroamento.  Nesse contexto, o início e o fim do ano litúrgico se entrelaçam de modo profundamente teológico: começamos o ano litúrgico preparando os nossos corações para acolher o “Menino” que, na verdade, é “Rei”; terminamos o mesmo ano litúrgico celebrando a realeza do Ressuscitado e esperando a sua segunda vinda como “Rei dos séculos”. Do início ao fim do ano litúrgico é, na verdade, a realeza do Senhor Jesus que nos é recordada.

O texto do evangelho nos apresenta Jesus como o Filho do Homem, um título Messiânico, tendo como referência o Livro do profeta Daniel (cf. Dn 7,13-14). O Filho do Homem é identificado como o enviado de Deus para ser o Salvador do mundo, vindo na condição humana. Os judeus daquela época eram bem familiarizados com o termo e a quem se referia.  E Jesus é o único a quem foi dado o poder, a glória e o reino. Quando Jesus usa esse termo, ele está se referindo a si mesmo e se identificando como o próprio Messias.

O início do evangelho (v. 31-33) nos mostra Jesus, como o Filho do Homem, sentado no seu trono, a separar as pessoas umas das outras “como o pastor separa as ovelhas dos cabritos”. Esse separar lembra o modo de agir do pastor palestinense que, ao cair da noite, costumava separar as ovelhas dos cabritos. Esse cuidado do pastor era necessário, já que, durante as noites frias da Palestina, os cabritos precisavam de mais calor do que as ovelhas e, por isso, o pastor os coloca no lugar mais aquecido do curral. Aqui as ovelhas representam os justos e são colocadas do lado direito, os cabritos do lado esquerdo, representando os condenados. O motivo dessa divisão é, certamente, porque para o redator, as ovelhas são consideradas como os animais mais valiosos. O tema das ovelhas e os cabritos é, provavelmente, uma reminiscência do livro do profeta Ezequiel (Ez 34,11-12.15-17), tema da primeira leitura.

O momento da morte, hora do julgamento, é então comparado ao declinar do dia.  Jesus virá em pessoa, revestido de sua dignidade real e como Senhor da história e Juiz do mundo.  O texto apresenta em seguida dois diálogos. Um, entre o rei e as ovelhas que estão à sua direita (v. 34-40); outro, entre o rei e os cabritos que estão à sua esquerda (v. 41-46). No primeiro diálogo, o rei acolhe as ovelhas e convida-as a tomar posse da herança do Reino; no segundo diálogo, o rei afasta os cabritos e os impede de tomar posse da herança do Reino. Por quê? Qual é o critério que o rei utiliza para acolher uns e rejeitar outros?

O acento de Jesus é colocado sobre o homem em suas necessidades.  Observa-se a identificação do juiz com os necessitados: Tive fome…, tive sede…, era peregrino…, estava nu…, adoeci…, estive na prisão…” (v. 35-36). Diante da pergunta admirada dos justos: “Quando te vimos com fome…?” (v. 37), o rei responde-lhes em uma afirmação solene: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos a mim o fizestes” (v. 40).  A fundamentação da condenação é construída justamente pelo fato de os condenados deixarem de realizar as obras que caracterizavam os eleitos.  A mensagem é esta: Todo aquele que se fechar em si mesmo e se omitir de socorrer e servir o seu irmão necessitado age contra a vontade de Jesus. E o próprio Filho de Deus, tornou-se homem e se fez servo dos mais pequeninos dos seus irmãos.  Para ele, reinar é servir! E o que ele nos pede é que possamos segui-lo por este caminho: servir, estar atento ao clamor dos necessitados.

Esta passagem do evangelho quer nos mostrar que ninguém pode negligenciar o amor aos irmãos, não podemos ser indiferentes ao sofrimento dos desprotegidos. Um dos pormenores mais sugestivos é a identificação de Cristo com os famintos, os abandonados, os pequenos: todos eles são membros de Cristo e não os amar é não amar Cristo.  A mensagem é esta: o egoísmo e a indiferença para com o irmão não têm lugar no Reino de Deus.  E o mais terrível é a pena que está incluída nas palavras de Jesus: “Afastai-vos de mim”.  Por isso, tenhamos sempre consciência de que tudo que fizermos ao nosso próximo, imagem de Deus, aparecerá no último dia.  Pelo bem praticado, será grande a nossa recompensa: estar com Deus. Em última análise, é esse o critério que irá decidir a nossa entrada ou a nossa exclusão no Reino de Deus.

Pode-se observar o laço indissolúvel que Jesus estabelece entre a fé e o amor aos mais indefesos e desprotegidos.  Mesmo os “benditos” do Pai, chamados a receber o Reino, ficam espantados, porque fizeram o bem, sem saber a quem. Eles descobrirão, finalmente, na luz de Deus, o rosto de Cristo, que se escondia no mais pobre, no desfigurado e desconhecido, naquele que encontraram pelo caminho.   Para o cristão, a prática das obras de misericórdia, deriva, antes de mais, da sua relação autêntica com Jesus!

Mas podemos perguntar por que o Senhor Jesus se baseará no bem feito ao próximo? E por que justamente aos famintos, aos nus, aos estrangeiros, aos sedentos, aos doentes e aos prisioneiros? Certamente porque estas categorias resumem o que nós somos e o que Cristo fez por nós. Cada um de nós é um faminto, um nu, um estrangeiro, um doente e um prisioneiro.  Somos famintos e sedentos de justiça, nus em virtude do pecado, estrangeiros nesse mundo, doentes e prisioneiros das nossas paixões. Mas Cristo nos visita e cuida de todas essas necessidades. Nós, se queremos entrar na vida eterna, devemos nos tornar semelhantes ao Cristo, e isto se dá de forma sublime quando servimos ao próximo como ele mesmo nos serve, pois também ele veio “para servir e não para ser servido” (Mt 20,28).

Na vida de São Francisco de Assis há um episódio muito expressivo.  Na fase da sua conversão, ele se encontrou com um leproso no campo.  Depois de vencer o receio, desce do cavalo, dá a esmola pedida e beija o doente.  E ao sair, volta o seu olhar para o leproso para despedir-se, mas não vê mais ninguém, porque o leproso era o próprio Cristo que fora ao seu encontro.  É Cristo que se identifica com os mais pobres e necessitados.  Não há conversão verdadeira, isto é, não seremos verdadeiros discípulos de Cristo e “benditos do Pai” (v. 34), se não tivermos o coração e as mãos abertas para os necessitados.

Fazer o bem ao irmão é fazer o bem a Cristo. O irmão é uma graça de Deus, que nos abre a porta do Céu, pois fazemos o bem a nós mesmos, quando realizamos algo em prol do outro. Em outras palavras, a salvação vem pelo nosso próximo. Cada doente, cada necessitado, merece o nosso respeito e o nosso amor, porque, através deles, Deus nos indica o caminho para o céu.  E o bem feito ao nosso próximo será como o bem feito ao próprio Cristo.

Por isto, podemos dizer que a realeza de Cristo está na linha do serviço. É preciso colocar em prática o mandamento novo do amor. E o amor ao irmão é, portanto, uma condição essencial para fazer parte do Reino. Devemos estar conscientes de que o Reino de Deus está no meio de nós; a nossa missão é fazer com que ele seja uma realidade viva e presente no nosso mundo.

Tenhamos consciência que a meta final da nossa caminhada é o Reino de Deus, uma realidade de vida plena e definitiva. E podemos perguntar:  Como é que aí chegamos? É São Paulo que nos responde na segunda leitura: “Identificando-nos com Cristo”.  No dia do juízo final possamos todos nós ouvir este convite de Jesus: “Vinde, benditos de Meu Pai, recebei em herança o Reino que para vós está preparado desde a criação do mundo… ” (Mt 25, 34.36).

Peçamos a Virgem Maria que nos ajude a seguir Jesus, nosso Rei, como ela fez, e a dar testemunho dele com toda a nossa existência e nos conceda acolhê-lo como Senhor da nossa vida, para cooperar fielmente no advento do seu Reino de amor, de solidariedade e de paz.  Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXXIII – DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

Parábola dos talentos

Referência: Mt 25,14-30

Caros irmãos e irmãs,

O trecho evangélico escolhido para este domingo é a parábola dos talentos. O texto nos diz que um homem, ao ausentar-se para uma viagem, distribuiu talentos a três servos, para que tomassem conta deles e os fizessem frutificar.  A um deu cinco talentos, a outro, dois; e a um terceiro, apenas um talento.  O talento era uma antiga moeda romana, de grande valor.  Cada talento correspondia a um salário de vinte anos de trabalho de um operário comum; algo semelhante a 35 quilos de ouro; portanto, uma grande quantia; seria algo em torno de 3,5 milhões. Logo, mesmo aquele que recebeu só um talento, recebeu uma enorme quantia; o que sublinha a imensa generosidade de Deus nos seus dons.

A cada um ele os deu “conforme a sua capacidade” (v. 15), para que esses dons pudessem ser desenvolvidos e usados para fazer o bem a si mesmo, aos outros e ao Reino de Deus. O servo que recebera cinco talentos negociou e conseguiu lucrar mais cinco.  O que recebera dois, negociou também e lucrou outros dois.  O terceiro, porém, sem coragem e omisso, escondeu debaixo da terra o talento recebido, para devolvê-lo na volta ao patrão.  No retorno do patrão, os dois primeiros entregaram o lucro conseguido, e foram elogiados, o que o fez confiar a eles quantias maiores e os convidou: “Vem participar da minha alegria!” (v. 21).

Ao terceiro, que entregou o talento que guardara escondido, temendo as exigências do patrão, recebeu severas admoestações: “Servo mau e preguiçoso!” (v. 26).  E mandou que tirassem o talento e o entregassem ao que tinha dez.  Em seguida, foi ele lançado nas trevas, onde haveria choro e ranger de dentes (cf. v. 30) .

Na parábola o patrão louva os discípulos que se empenharam em fazer frutificar os bens confiados a eles; e condena o discípulo que se instala no medo e na preguiça e não põe a render os talentos a ele confiados.  Em conformidade com a lei rabínica, o ato de enterrar o dinheiro era considerado a forma mais segura contra o roubo ou eventuais guerras. Se a uma pessoa fosse confiada uma quantia em dinheiro e ela o enterrasse tão logo estivesse em seu poder, ela estaria livre da culpa se algo acontecesse.  Nesta parábola o patrão inverte o entendimento da lei rabínica. Ele considerou enterrar o talento, como um prejuízo inaceitável, pois ele pensava que o capital deveria receber uma taxa de retorno razoável.

O patrão que seguiu em viagem deixou um total de 8 talentos; ao retornar, os 8 haviam se transformado em 15. Mas, o ganho de uma pessoa não ocorre à custa de um outro. O empreendimento eficaz do primeiro servo não prejudica as possibilidades do terceiro servo. Isto indica que seremos julgados, no juízo final, individualmente, não no conjunto.

Nesta parábola, o patrão pode ser identificado com o próprio Jesus que, antes de deixar este mundo, entregou bens consideráveis aos seus servos, ou seja, os discípulos. Os talentos são os dons que Deus, através de Jesus, ofereceu aos homens. Eles podem ser a Palavra de Deus, os valores do Evangelho, os sacramentos, o amor, a partilha, a misericórdia, a fraternidade e também o perdão, que o Senhor nos concede, sobretudo, no Sacramento da Confissão.  Esses talentos recebidos devem dar frutos copiosos, sobretudo através do nosso testemunho. São os bens mais preciosos que recebemos do Senhor. Trata-se de um grande patrimônio que Ele nos confia.  Nossa responsabilidade está em conservar todo este patrimônio, mas também fazê-lo multiplicar. Nós somos os depositários desses bens. Eles devem dar frutos e não podem ser enterrados.

Na perspectiva da nossa parábola, esses talentos que Jesus deixou aos seus discípulos necessitam dar frutos. A parábola apresenta os dois servos que investiram e multiplicaram os talentos recebidos como referência para cada um de nós. Eles se preocuparam em não deixar parados os talentos recebidos do patrão, fizeram investimentos, não se acomodaram e não se deixaram influenciar pelo medo.  A parábola condena fortemente o servo que devolveu intactos os bens recebidos. Ele teve medo e, por isso, não correu riscos; não tirou desses bens qualquer fruto e impediu que os bens do seu senhor se desenvolvessem.

Através desta parábola, o Evangelista São Mateus nos exorta a estarmos alertas e vigilantes. Não podemos esquecer os compromissos assumidos com o Cristo Senhor.  O cristão não pode deixar na gaveta os dons recebidos de Deus.  No mundo, somos as testemunhas de Cristo.   É com o nosso coração que Jesus continua a amar os pecadores do nosso tempo; é com as nossas palavras que Jesus continua a consolar os que estão tristes e desanimados; é com os nossos braços abertos que Jesus continua a acolher cada irmão que está sozinho e abandonado.

Os dois primeiros servos da parábola que, talvez correndo riscos, fizeram frutificar os bens recebidos do patrão, mostram como devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus.  Aquele servo que escondeu o talento sem o valorizar, comportou-se como se o seu dono não voltasse mais, como se não chegasse o dia em que lhe seriam pedidas as contas da sua ação. Com esta parábola, Jesus quer ensinar aos seus discípulos como melhor usar os dons recebidos de Deus, que chamou cada homem à vida e a ele deu muitos talentos. Ao comentar esta página evangélica, São Gregório Magno observa que o Senhor não deixa faltar a ninguém a sua caridade, o seu amor: “Por isso, meus irmãos, é necessário que dediqueis toda a atenção na conservação da caridade, em cada ação que deveis realizar” (S. GREGÓRIO MAGNO, Homilias sobre os Evangelhos 9, 6).

O buraco feito no terreno pelo servo mau e preguiçoso (cf. v. 26) indica o medo de arriscar, que bloqueia a fecundidade do amor. Em um primeiro momento, a parábola parece falar dos bens materiais por causa da entrega dos talentos, ou seja, da enorme quantia recebida pelos três servos. Mas, na verdade, o grande tesouro que Jesus deixa em nossas mãos para fazer frutificar é sua Palavra divina.  Não podemos guardar na gaveta a Palavra de Deus, mas, sim, fazê-la circular na nossa vida, nos nossos relacionamentos, nos nossos ambientes.  São Paulo ressalta que a pregação do Evangelho produz frutos e cresce a partir do momento que o povo escuta e conhece a verdade e a graça de Deus (cf. Cl 1,6).  Este é o grande talento deixado por Jesus: A palavra pregada, a Palavra escutada, a Palavra que se torna graça e verdade.

Saibamos ficar atentos e vigilantes, como nos exorta a parábola. O Senhor, quando voltar irá cobrar de cada um de nós os frutos do seu amor. A caridade é o bem fundamental que ninguém pode deixar de fazer frutificar (cf. 1Cor 13,3). O patrão ficou feliz com os administradores fiéis que multiplicaram os talentos recebidos. Mas, ficou ofendido com aquele que por medo e preguiça, enterrou o talento. Isso mostra que não podemos permitir que o medo, que vem da falta de fé, ou a preguiça, nos leve a enterrar nossos talentos, deixando-os infrutíferos.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que sejamos “servos bons e fiéis” e para que, praticando a caridade, possamos um dia participar “na alegria do nosso Senhor”.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XXXII – DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

Parábola das dez virgens

Referência: Mt 25,1-13

Caros irmãos e irmãs,

Está muito próximo a conclusão do ano litúrgico e o texto Evangélico deste domingo nos convida a refletir sobre a Parábola das dez virgens. Elas traziam em suas mãos as lâmpadas acesas; tratam-se provavelmente de pequenas lamparinas com pavios alimentados a óleo.  Cada uma dessas lamparinas estava presa a uma vara e servia, assim, como uma tocha para iluminar o caminho.  As dez virgens são divididas em dois grupos: “Cinco delas eram insensatas e cinco prudentes” (v. 2).  Nos vv. 4 e 5 aparece já o modo de agir dos dois grupos.  As insensatas pensam apenas no momento presente.  Enchem as suas lâmpadas com óleo, mas não se preocupam de levar, também, uma reserva de óleo (v. 4).  As prudentes, ao contrário, contam com a possibilidade de atrasos e contratempos.   Além das lâmpadas cheias, levam uma reserva de óleo nos vasos. Na literatura sapiencial o prudente é aquele que age de acordo com as exigências de Deus; o insensato, ao contrário, age conforme a sua cabeça.

O noivo, de fato, atrasou-se (v. 5).  O motivo do atraso não é mencionado no texto.  Apenas é descrito o efeito desse atraso nas virgens, elas cansam: “Começam todas as cochilar e adormecem” (v. 5).  Exatamente a meia noite, é dado o alarme da chegada do noivo.  As virgens acordam e apressadamente tentam reanimar as lâmpadas.  Neste momento, as insensatas percebem o erro que cometeram e tentam obter óleo com as prudentes (v. 8).  As prudentes negam-se a atender o pedido das companheiras alegando que o óleo que possuíam era insuficiente para todas; elas deviam antes, tentar comprar o óleo necessário com os vendedores (v. 9).

Em tais ocasiões não faltavam, certamente, vendedores nas proximidades especulando um bom negócio. Mas justamente neste momento, enquanto as insensatas procuram um vendedor de óleo, chega o noivo e as virgens prudentes entram com ele para a festa.  A porta da sala é fechada (v. 10).  Mais tarde, chegam as cinco virgens insensatas com as suas lâmpadas reacesas e, encontrando a porta fechada, começam a chamar: “Senhor, abre-nos”.  O noivo nega-se a abrir a porta alegando: “Em verdade vos digo, não vos conheço” (v. 12).  E a parábola conclui com a uma advertência: “Vigiai, pois, não sabeis o dia nem a hora” (v. 13).  Este último versículo resume a mensagem que o Evangelista São Mateus quer que os cristãos assimilem.  Pede a eles “vigilância”. O esposo pode chegar de uma hora para outra, e é necessário estar sempre de prontidão para recebê-lo.  Certamente a vigilância se refere, sobretudo, ao momento decisivo do encontro com Cristo, no fim da nossa vida.

A parábola toca nesta demora do retorno de Jesus, e no comportamento dos que se cansaram de esperar. Se a demora se prolonga, é preciso ter paciência.  Adverte a Carta aos Hebreus: “É necessária a paciência para alcançardes os bens prometidos” (Hb 10,36). Inculcando a paciência na espera, São Pedro recorda a imensa paciência de Deus em esperar pela conversão dos pecadores: “Ele deseja que todos se arrependam dos pecados, porque Ele quer salvar a todos” (2Pd 2,9).

A história se repete conosco.  Todos nós vivemos num ritmo de espera.  Não apenas da nossa morte, mas também da chegada do Cristo para nos introduzir na Casa do Pai, onde há muitas moradas (cf. Jo 14,2).  Só esperar pela morte é desesperador.  Mas esperar por Ele é caminhar de esperança em esperança.  Ele chega em hora inesperada (v. 13). A Sabedoria consiste em estar sempre preparado (cf. Mt 24,44).  A esta atitude a Escritura chama de “vigilância”.

Todo ambiente criado por Jesus nesta parábola é de expectativa.  O texto está todo dominado pelo sentido de espera.  Assim também é a vida cristã. Para as virgens da parábola, a espera é preenchida com duas preocupações: manter a lâmpada acesa e ir ao encontro do esposo. Transportando este fato para a nossa vida, isto significa que devemos viver na “vigilância” e na fidelidade. O que torna isso muito urgente é que não se sabe a hora. Aquelas virgens não sabiam a hora, também nós não sabemos.

A parábola que nos é proposta alude aos rituais típicos dos casamentos judaicos. De acordo com os costumes, a cerimônia do casamento começava com a ida do noivo a casa da noiva, para levá-la para a sua nova casa. Normalmente, o noivo chegava atrasado, pois devia, antes, discutir com os familiares da noiva os presentes que ofereceria à família da sua amada. As negociações entre as duas partes eram demoradas e tinham uma importante função social. Enquanto isso, a noiva, vestida a caráter, esperava na casa do seu pai que o noivo viesse ao seu encontro. As amigas da noiva esperavam também, com as lâmpadas acesas, para acompanhar a noiva, entre danças e cânticos, à sua nova casa. Era aí que tinha lugar a festa do casamento. É este pano de fundo que a nossa parábola supõe.

Com a Parábola das dez virgens, Jesus nos ensina uma verdade que nos põe em questão; com efeito, daquelas dez virgens, cinco entram na festa porque, quando o esposo chega, têm óleo para acender as próprias lâmpadas; enquanto as outras cinco permanecem fora porque, insensatas, não tinham trazido óleo. Este “óleo”, indispensável para serem admitidas no banquete nupcial, segundo Santo Agostinho (cf. Discursos 93, 4) seria o símbolo do amor, que não se pode comprar, mas que recebemos como dom, conservamos no íntimo e praticamos com as obras. E este amor é dom de Cristo, efundido em nós pelo Espírito Santo. Quem crê em Deus, que é Amor (cf. 1Jo 4,8), tem em si uma esperança invencível, como uma lâmpada com a qual atravessar a noite para além da morte, e chegar à grande festa da vida. Cristo abre a porta às virgens sensatas que estavam acordadas e tinham tudo preparado e entram na festa de bodas. Puderam entrar porque encheram de azeite os seus frascos, e assim impediram que a caridade, que é a chama da alma, se extinguisse.

Na nossa vida de cristãos, um exercício diário, sábio e prudente é colocar todos os dias nos vasos da nossa alma e no nosso coração a gota necessária de óleo para manter o nível da nossa reserva de amor, não só para não se cansar de esperar que o noivo chegue e nos encontre despreparados.

O Reino de Deus é, aqui, comparado a com uma das celebrações mais alegres e mais festivas que os israelitas conheciam: o banquete de casamento. As dez jovens representam a totalidade do Povo de Deus, que espera ansiosamente a chegada do Messias (o noivo)… Uma parte desse Povo (as jovens previdentes) está preparada e, quando o Messias finalmente aparece, pode entrar e fazer parte da comunidade do Reino; outra parte (as jovens descuidadas) não está preparada e não pode entrar na comunidade do Reino. A parábola original constituía, pois, um apelo aos israelitas no sentido de não perderem a oportunidade de participar na grande festa do Reino.

Terminemos nossa reflexão fixando o momento conclusivo da parábola: as virgens que estavam prontas entraram na sala do banquete e a porta se fechou.  Nós evocamos este momento e o antecipamos em todas as missas com as palavras: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”, isto é, felizes os convidados para ceia das núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,9). Nós somos, portanto, como aquelas cinco virgens prudentes que se sentam à mesa com o esposo.  Que todos nós, presentes a este banquete eucarístico, possamos nos encontrar um dia reunidos em seu Reino, no banquete eterno, e que ninguém fique fora, que a porta possa estar aberta para cada um de nós.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS – 2017

As bem-aventuranças

Referência: Mt 5,1-12

Meus caros irmãos e irmãs

Iniciamos o mês de novembro com a solenidade de Todos os Santos.  O nosso coração e o nosso pensamento se voltam para muitos homens e mulheres que souberam viver uma profunda unidade com Deus.  É um dia em que recordamos não apenas os santos canonizados, muitos deles já têm a sua festa própria ao longo do ano, mas, sobretudo, os santos anônimos e desconhecidos. Abrange todos aqueles que foram justificados pela fé em Cristo. Recordamos aqueles que vivem para sempre diante de Deus.

Como leitura evangélica, temos o texto das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), visando ressaltar que a sua vivência total é o melhor caminho para se chegar à santidade. A prática das bem-aventuranças é a marca e o selo dos santos descrita por Jesus, para sublinhar a dinâmica da santidade.  Esta é a meta espiritual, à qual todos os batizados estão chamados a alcançar, seguindo o caminho das bem-aventuranças traçadas por Jesus e que a liturgia nos indica como leitura para a solenidade de hoje.

É o mesmo caminho traçado por Jesus e que os santos se esforçaram em percorrer. Em sua existência terrena, de fato, foram misericordiosos, puros de coração, trabalhadores pela paz, perseguidos pela justiça. E Deus os fez partícipes de sua própria felicidade: Agora são consolados, herdeiros da terra, saciados, em síntese: “deles é o Reino dos Céus” (cf. Mt 5, 3.10).

Todos os santos sempre foram e são contemporaneamente, embora em medida diversa, pobres de espírito, mansos, aflitos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz e perseguidos pela causa do Evangelho. E assim devemos ser também nós. Além disso, na base desta página evangélica é evidente que a bem-aventurança cristã, como sinônimo de santidade, não está separada de um eventual sofrimento ou pelo menos de dificuldade.

Portanto, santos são os pobres em espírito, cujo coração está centrado em Deus. Pobres de espírito são os humildes, os que têm coração desapegados dos bens terrenos.  Para isso, não é necessário ter nada, mas é preciso usar o que se tem conforme o espírito do Evangelho.  A verdadeira riqueza não consiste nos tesouros desta terra, mas na graça, na virtude, nos merecimentos e na amizade com Deus.

Santos são os mansos, que por não responderem à violência com violência, herdarão um bem inalcançável pelos violentos.  Os mansos são aqueles que, conformados com a vontade de Deus, suportam com paciência as adversidades desta vida.  São aqueles que usam de mansidão, que tratam o próximo com bondade, tolerando pacientemente suas impertinências, sem queixas ou atitudes de vingança.

Santos são os aflitos, que são impotentes diante de situações dramáticas, e não pretendem ter solução para tudo.  Há muitos que não entendem a razão dos sofrimentos e se revoltam contra Deus.  Jesus diz que os aflitos são felizes.  De fato, se souberem aceitar com resignação as provas que Deus envia, se souberem sofrer com ânimo as misérias e dificuldades da vida, a recompensa será a consolação de Deus.

Santos são os famintos e sedentos de justiça, que não pactuam com a maldade, nem se deixam levar pela lógica da dominação.  Deus mesmo haverá de realizar seu ideal e fazê-los contemplar o reino da justiça. Trata-se daquela justiça interior que torna o homem agradável a Deus, quando se esforça por cumprir sempre a vontade de Deus.  O primeiro passo para conseguir a santidade é desejá-la.  Por isso, Jesus diz que são felizes os que têm fome e sede de justiça, isto é, aqueles que realmente desejam ser santos.  Mas é necessário que este desejo seja eficaz.  Isto é, que empreguemos os meios necessários para consegui-lo.

Santos são os misericordiosos, cujo destino consistirá em viver a comunhão definitiva com o Deus, que também é misericórdia.  Os misericordiosos são, de modo geral, aqueles que têm sentimentos de compaixão para com os aflitos e os miseráveis de toda espécie.  São misericordiosos os que são caridosos e se compadecem das misérias do próximo e também que perdoam. Quem for misericordioso receberá também a misericórdia divina.  E Deus será misericordioso conosco à medida que o formos com nosso próximo.

Santos são os puros de coração, que não agem com segundas intenções nem falsidade, mas sim, com transparência.  São os que fogem de todo pecado e praticam a pureza.  Ser puro é ter uma alma livre de afetos desordenados e conserva a pureza de coração. Por isso, serão recompensados com a visão de Deus, em todo seu esplendor.

Santos são os promotores da paz, que procuram criar laços de amizade e banir toda espécie de ódio, a fim de que o mundo seja mais fraterno.  Promover a paz consiste em esquecer as injúrias.  A paz, que gera a felicidade, não é aquela que está apenas nos lábios, mas a que repousa no coração. Os promotores da paz serão chamados filhos de Deus.

Santos são também os perseguidos por causa da justiça, os que lutam para fazer valer o projeto de Deus para a humanidade. São eles humilhados, agredidos, marginalizados, por parte daqueles que praticam a injustiça e fomentam a opressão e a morte. Nesta última bem-aventurança, os perseguidos são convidados a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.

Portanto, todos os seres humanos são chamados à santidade que, em última análise, consiste em viver como filhos de Deus, naquela “semelhança” com ele segundo a qual foram criados. Todos os seres humanos são filhos de Deus, e todos devem tornar-se aquilo que são, através do caminho exigente da liberdade. Deus nos convida a fazer parte do seu povo santo. O caminho é Cristo e ninguém chega ao Pai senão por meio dele (cf. Jo 14,6).

As bem-aventuranças traçam o mapa deste caminho. As oito bem-aventuranças são os sinais que indicam a direção a seguir. É um caminho, mas foi o primeiro que Jesus percorreu. E certa ocasião ele disse:  “Quem me segue não andará nas trevas” (Jo 8,12). E noutra ocasião acrescentou: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).

Uma das respostas próprias dos fiéis no momento da Oração Eucarística diz: “Caminhamos na estrada de Jesus”.  É este o convite que o Senhor hoje nos faz.  Os santos caminharam na estrada de Jesus e souberam seguir o Cristo.  É por esse caminho que caminhamos para o céu.  E é por isso que hoje estão na Casa de Deus para sempre.  É um convite solene e luminoso lançado à terra dos homens, para que sigamos o mesmo caminho.   Caminhando com Cristo, podemos conquistar a alegria, a alegria verdadeira!

Peçamos a Virgem Maria, aquela que todas as gerações a proclamam de “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48), que ela nos faça caminhar na via da santidade e nos conduza ao seu filho Jesus e saibamos reconhecer que temos necessidade de Deus, da sua misericórdia e do seu perdão, para um dia entrarmos no seu Reino, Reino de justiça, de amor e de paz.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

DIA DE FINADOS

Eu sou a ressurreição e a vida (Jo 11,25)

2 de novembro

Caríssimos irmãos e irmãs,

Neste dia 2 de novembro celebramos o dia de Finados, momento de fazer memória aos parentes e amigos já falecidos, em uma manifestação pública de afeto. Para os cristãos, este é também o momento de olhar para o futuro e ter o conforto de saber que o nosso destino está em Deus e que a morte nada mais é do que o nascimento para a vida eterna. A Igreja nos convida neste dia a comemorar todos os fiéis defuntos, a voltar o nosso olhar a tantos rostos que nos precederam e que concluíram o caminho terreno. Para nós cristãos a morte é iluminada pela ressurreição de Cristo e para renovar a nossa fé na vida eterna.

A liturgia do dia de Finados poderia ser chamada também de liturgia da esperança, pois, a vitória sobre a morte é o critério da esperança do cristão.  Diante da morte a resposta do cristão deve ser: “A vida não é tirada, mas transformada”.  E esta resposta baseia-se na fé na Ressurreição de Jesus. Somos unidos com Ele na vida e na morte.  Somente quem pode reconhecer uma grande esperança na morte, pode também viver uma vida a partir da esperança. O homem tem necessidade de eternidade e esse desejo de eternidade foi o que Jesus veio trazer quando disse: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá” (Jo 11,25-26).

A Palavra de vida e de esperança é um profundo conforto para nós, face ao mistério da morte, especialmente quando atinge as pessoas que nos são mais queridas. Embora nos tenhamos entristecido porque tivemos que nos separar delas, e ainda nos amargura a sua falta, a fé nos enche de íntimo alívio perante o pensamento de que, como aconteceu para o Senhor Jesus e sempre graças a Ele, a morte já não tem qualquer poder sobre eles (cf. Rm 6,9). Passando, nesta vida, através do Coração misericordioso de Cristo, eles entraram “num lugar de descanso” (Sb 4,7).

Nossa vida é medida pelo tempo, ao longo do qual passamos por mudanças, envelhecemos e, como acontece com todos os seres vivos da terra, a morte aparece com o fim normal da vida, é a conclusão da peregrinação terrestre do homem.   Mas graças a Cristo, a morte cristã tem um sentido positivo.  São Paulo nos conforta dizendo:  “Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro” (Fl 1,21); e nos diz ainda:  “Se com Ele morrermos, com Ele viveremos” (2Tm 2,11). Na morte, Deus chama o homem a si.  É por isso que o cristão pode sentir, em relação à morte, uma aspiração semelhante à de São Paulo: “O meu desejo é partir e ir estar com Cristo” (Fl 1,23). E cada cristão pode transformar a sua própria morte em um ato de obediência e de amor para com o Pai, a exemplo de Cristo.

Cremos firmemente que, da mesma forma que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos, e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre (cf. Jo 6,39ss).  Crer na ressurreição dos mortos foi, desde os primeiros tempos, um elemento essencial da fé cristã.  E o próprio Jesus liga a fé na ressurreição à sua própria pessoa:  “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25).  Também recitamos o Credo e rezamos: “Creio na ressurreição dos mortos, na vida eterna”.  E com relação à morte Santa Teresinha do Menino Jesus dizia:  “Eu não morro, entro na vida”. E a Igreja nos encoraja à preparação para a morte e a pedir à Mãe de Deus que interceda por nós “agora e na hora da nossa morte”, como rezamos quotidianamente na oração da Ave Maria.

E ao nos dirigirmos aos cemitérios para rezar pelos nossos defuntos, somos convidados, mais uma vez, a renovar com coragem e com força a nossa fé na vida eterna, e mais, viver com esta grande esperança e testemunhá-la ao mundo.  Diante da morte, nada mais consolador do que a mensagem do próprio Cristo.  Ele sabia que iria passar por este caminho, pelo caminho da dor que culminaria com a sua morte de cruz.  Mas após o terceiro dia ocorreu a ressurreição.  E São Paulo vem ainda nos confirmar: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé” (1Cor 15,14).

É ainda São Paulo que nos assegura: “Assim como Cristo ressuscitou dos mortos, mediante a glória do Pai, caminhemos nós também numa vida nova” (Rm 6,4). Vem também à mente as palavras de conforto pronunciadas pelo Cristo Senhor: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.  Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2).

Jesus Cristo ilumina o mistério da dor e nos ensina a olhar a morte além da angústia e do medo. Ele venceu o lado angustiante da morte, através da sua Ressurreição, pela qual foi possível abrir a porta da esperança para a eternidade. Cristo transformou a morte, que anteriormente era vista como um túnel escuro e sem saída, em uma passagem luminosa, um caminho para a Páscoa.

Cristo morreu e ressuscitou e nos abriu a passagem para a casa do Pai, o Reino da vida e da paz. Quem segue Jesus nesta vida é recebido onde Ele nos precedeu. Portanto, enquanto visitamos os cemitérios, recordemo-nos que ali, nos túmulos, repousam só os despojos dos nossos entes queridos na expectativa da ressurreição final. As suas almas, como diz a Sagrada Escritura, já “estão nas mãos de Deus” (Sb 3,1). Portanto, o modo mais justo e eficaz de os honrarmos é rezar por eles, oferecendo atos de fé, de esperança e de caridade em união ao Sacrifício Eucarístico (cf. BENTO PP XVI, Angelus, 1 de novembro de 2009).

O dia de finados é sempre excelente ocasião, não somente para rezar pelos nossos irmãos já falecidos, mas também para alagarmos nosso conceito de vida, pensarmos no modo como estamos vivendo, bem como reforçarmos a nossa esperança de um dia estarmos todos diante do Pai. Portanto, a nossa oração pelos defuntos é útil e também necessária, enquanto ela não só os pode ajudar, mas ao mesmo tempo torna eficaz a sua intercessão em nosso benefício (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 958).

Pensemos também na cena do Calvário e nas palavras pronunciadas por Jesus do alto da Cruz ao bom ladrão, que a tradição identificou como São Dimas e que está à sua direita: “Em verdade eu te digo: Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). Possamos também refletir sobre os dois discípulos que caminhavam na estrada de Emaús, quando, depois de terem percorrido uma parte do caminho com Jesus ressuscitado, o reconhecem e partem para Jerusalém para anunciar a Ressurreição do Senhor (cf. Lc 21,13-35).

Cada Santa Missa possui um valor infinito e é o que temos de mais valioso para oferecer pelas almas.  Também podemos oferecer por elas as indulgências que lucramos na terra: as nossas orações; a melhor maneira de demonstrarmos o nosso amor pelos nossos parentes e amigos e por todos os que nos precederam e esperam o seu encontro definitivo com Deus.

Nas nossas orações, peçamos para que também nós, peregrinos na terra, mantenhamos sempre orientados os olhos e o coração para a meta derradeira pela qual aspiramos, a casa do Pai, o Céu. E que o  Senhor nos conceda, no final da nossa peregrinação terrestre, uma morte santa e que possamos estar entre os seus escolhidos para que Ele possa dizer neste dia a cada um de nós: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei como herança o reino que para vós está preparado desde a criação do mundo” (Mt 25,34). Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ