XXX – DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

O maior mandamento da Lei

Referência: Mt 22,34-40

Caros irmãos e irmãs,

O domingo é o dia litúrgico por excelência, no qual os fiéis se reúnem para lembrar a paixão, a ressurreição e a glória do Senhor Jesus e dar graças a Deus, escutando a Palavra e participando da Eucaristia (cf. SC 106).  A conservação e a alimentação da fé estão ligadas à participação da celebração Eucarística, que deve ser sempre o centro da comunidade paroquial dos fiéis (cf. CIC, cân. 528).

O Evangelho deste domingo se insere em mais uma controvérsia entre Jesus e o grupo dos fariseus. Mais uma vez, querem testar os conhecimentos de Jesus sobre a Lei e um deles pergunta qual é o maior mandamento da Lei (v. 36).  Este questionamento não tem como objetivo conhecer a verdade, e sim colocar Jesus à prova, para experimentá-lo (cf. v. 35).  Jesus não hesita e responde imediatamente: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento” (v. 37-39).  Na sua resposta, Jesus cita o Shemá, a oração que o israelita recita várias vezes ao dia (cf. Dt 6,4-9; Nm 15,37-41): a proclamação do amor íntegro e total devido a Deus, como o único Senhor.

Com efeito, a exigência principal para cada um de nós é que Deus esteja presente na nossa vida. Como diz a Escritura, Ele deve imbuir todas as camadas do nosso ser e enchê-las completamente: o coração deve conhecê-lo e deixar-se tocar por Ele; e assim também a alma, as energias da nossa vontade e das nossas escolhas, bem como a inteligência e o pensamento, para que possamos dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Jesus ainda acrescenta algo sobre o segundo mandamento que, na realidade, não tinha sido perguntado pelo doutor da lei: “O segundo é semelhante ao primeiro: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (v. 39). O aspecto surpreendente da resposta de Jesus consiste no fato de que Ele estabelece uma relação de semelhança entre o primeiro e o segundo mandamento, definido também esta vez com uma fórmula bíblica tirada do código levítico de santidade (cf. Lv 19, 18).

Esta questão do maior mandamento da Lei era, no tempo de Jesus, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei.  Os rabinos, ao estudar a Bíblia, tinham chegado a compor uma lista dos mandamentos nela contidos. Uma tarefa difícil, considerando que na Lei de Moisés foram identificados um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a serem colocadas em prática.  Como discernir dentre eles o maior? Os guias religiosos de Israel ensinavam que todos esses mandamentos tinham a mesma importância e eram igualmente obrigatórios; discutia-se, porém, qual seria o primeiro e o maior de todos esses mandamentos. Para alguns rabinos o preceito do sábado valia mais do que todos os outros mandamentos, enquanto que para outros o amor a Deus e ao próximo estaria em primeiro lugar.

A resposta de Jesus, portanto, supera o horizonte estreito da pergunta. O importante, na perspectiva de Jesus, não é definir qual o mandamento mais importante, mas encontrar a raiz de todos os mandamentos. E, na perspectiva de Jesus, essa raiz gira à volta de dois mandamentos: o amor a Deus e o amor ao próximo.

A originalidade deste ensinamento está, por um lado, no fato de Jesus aproximar um mandamento do outro, pondo-os em perfeito paralelo e, por outro, no fato de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos. Deste modo, Jesus oferece a cada homem o critério fundamental sobre o qual devemos delinear a nossa própria vida.

Jesus ainda acrescenta em sua resposta que é preciso “amar o próximo como a si mesmo” (v.39). As palavras “como a si mesmo” significam que é preciso amar totalmente, de todo o coração.  Já o Evangelista São João nos diz:  “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas não ama seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20). É preciso reconhecer que Deus está presente no irmão que sofre e este amor deve ser manifestado no auxílio que podemos dar, sobretudo, para aqueles que se encontram em maior fragilidade.

É com estes menores de seus irmãos que Jesus também se identifica, pois ele mesmo disse: “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes… Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes… Em verdade vos digo: todas as vezes que deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que deixastes de fazer(Mt 25,31-46).

Cristo deixou aos seus discípulos o mandamento do amor: “Como eu vos amei, assim amai-vos também vós uns aos outros” (Jo 13,24).  E ainda ressaltou: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34-35).  E São Paulo, com uma fórmula ainda mais lapidária, sintetiza assim a vida nova dos batizados em Cristo: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois o que ama o outro cumpriu a lei… Portanto a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13, 8-10).

Também a primeira Leitura, tirada do Livro do Êxodo (cf. Ex 22,20-26), nos orienta para esta mesma direção, insiste sobre o dever do amor; um amor testemunhado concretamente nas relações entre as pessoas: devem ser relações de respeito, de colaboração, de ajuda generosa. O próximo a ser amado é também o estrangeiro, o órfão, a viúva e o indigente, aqueles cidadãos que não têm defensor algum.

Na segunda Leitura podemos ver uma aplicação concreta do máximo mandamento do amor numa das primeiras comunidades cristãs.  São Paulo procura exortar os tessalonicenses: “Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (1Ts 1,6). Os ensinamentos que tiramos da experiência dos Tessalonicenses é que o amor pelo próximo nasce da escuta atenta da Palavra divina. Por isto, é importante ouvir a Palavra e vivê-la no dia a dia.

Que a escuta renovada da Palavra de Deus possa fazer brotar em nós uma autêntica renovação na fé e na santidade de vida. Peçamos, uma vez mais, a materna intercessão da Virgem Maria, que nas Bodas de Caná exortou a fazer tudo quanto Jesus dissesse (cf. Jo 2,5), para que saibamos reconhecer na nossa vida a primazia da Palavra de Deus, que é também um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são caminhos permanentes de salvação para todos. Assim seja!

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

XXIX – DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

O que é de César e o que é de Deus

Referência: Mt 22,15-21

Caros irmãos e irmãs,

O evangelho deste domingo nos fala sobre a legitimidade do tributo a pagar a César, que contém a conhecida resposta de Jesus: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). Com efeito, os interlocutores de Jesus, discípulos dos fariseus e herodianos, fizeram-lhe uma pergunta: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências.  Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” (v. 16-17).

Esta questão apresentada a Jesus é delicada. Diz respeito à obrigação de pagar os tributos ao imperador de Roma. As províncias romanas pagavam o tributo, quantia estipulada por Roma e que todos os habitantes do Império, com exceção das crianças e dos velhos, deviam pagar. Era considerado um sinal infamante da sujeição a Roma.

A Palestina do tempo de Jesus estava sob o domínio do Império Romano.  E a moeda que circulava era a moeda romana, na qual havia a imagem do Imperador, onde ele era qualificado não só como “Augusto” e “Pontífice Máximo”, mas também como “deus”: “Divius”.  Isso era intolerável para os judeus de consciência reta.

Em outras palavras, a pergunta que colocam para Jesus é, portanto, esta: é lícito pactuar com esse sistema gerador de escravidão e de injustiça? Os partidários de Herodes e os saduceus, a alta aristocracia sacerdotal, estavam perfeitamente de acordo com o tributo, pois aceitavam naturalmente a sujeição a Roma. Os movimentos revolucionários, no entanto, estavam frontalmente contra, pois,  consideravam o Imperador um usurpador do poder. Os fariseus, embora não aceitando o tributo, tinham uma posição intermédia e não propunham uma solução violenta para a questão.

Mas, Jesus é sincero e ensina o caminho de Deus segundo a verdade, sem se preocupar com ninguém. Ele mesmo é aquele caminho de Deus, que nós somos chamados a percorrer. Se Jesus viesse a pronunciar a favor do pagamento do tributo, seria acusado de colaboracionismo e de defender a usurpação pelos romanos do poder que pertencia a Deus; mas se caso Jesus se pronunciasse contra o pagamento do imposto, seria acusado de revolucionário,  inimigo da ordem romana, estaria contra o poder de Roma.

No entanto, Jesus não se deixou amarrar por nenhum dos lados da questão polêmica, fundada em situações políticas, pequenas diante da grandeza do Reino de Deus. Jesus pediu aos seus interlocutores que lhe mostrassem uma das moedas do imposto.  Eles apresentaram a Jesus a moeda de um denário.  Justamente onde estava a efígie do Imperador com seus títulos de honra.  “De quem é esta imagem e esta inscrição que aqui está?” Perguntou-lhes Jesus.  E responderam:  “De César”.  Por isto, declarou Jesus: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,19-21).

Com esta informação, certamente, Jesus quis sugerir que o homem não pode nem deve eximir-se das suas obrigações para com a sociedade em que está integrado. Em qualquer  circunstância, ele deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o bem comum. A isso, chama-se “dar a César o que é de César”.  No entanto, o mais importante é que o homem reconheça a Deus como o seu  único Senhor. As moedas romanas têm a imagem de César – que sejam dadas a César.

O homem, no entanto, não tem em si a imagem de César, mas a imagem de Deus. Podemos ler as palavras de Deus no livro do Gênesis: “Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança…” (Gn 1,26-27).  Portanto, o homem pertence somente a Deus, deve entregar-se a Ele e  reconhecê-lo como o seu único Senhor.  Jesus vai muito além da questão que lhe puseram. Na  abordagem de Jesus, a questão deixa de ser uma simples discussão acerca do  pagamento ou do não pagamento de um imposto, para se tornar um apelo a que o  homem reconheça Deus como o seu Senhor e realize a sua vocação essencial de entrega a Deus, uma vez que ele foi criado por Deus, pertence a Deus e transporta consigo a  imagem do seu Senhor e seu Criador.

Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar;  mas isso não significa que o cristão viva à margem do mundo e fique ausente das suas responsabilidades na construção do mundo. O cristão deve ser um cidadão  exemplar, que cumpre com a sociedade os seus deveres e colabora ativamente na  construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre pontualmente as  suas obrigações tributárias, com coerência e lealdade. Não foge aos impostos, não  aceita esquemas de corrupção, não infringe as regras legalmente definidas. Vive  de olhos postos em Deus; mas não deixa de lutar por um mundo melhor. São Paulo irá lembrar sobre os deveres dos cristãos perante os poderes públicos e irá dizer explicitamente: “Pague-se o imposto a quem se deve o imposto” (Rm 13,7).

A primeira leitura, tirada do Livro de Isaías, diz-nos que Deus é um só, é único; não existem outros deuses fora do Senhor (cf. Is 45,1.4-6). Isso nos apresenta o sentido teológico da história: o suceder-se das grandes potências encontram-se sob o domínio supremo de Deus; nenhum poder terreno pode colocar-se no seu lugar. O homem nunca pode deixar Deus de lado. Deus nos criou à sua imagem e semelhança.  Trazemos a marca de Deus.  Por isto cada homem é chamado a uma relação pessoal com o nosso Criador.

Também a segunda leitura retirada da primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses (cf. 1Ts 1,1-5), lembra- nos, antes de tudo, que sempre somos chamados a dar Graças a Deus. E o próprio anúncio de evangelização deve ser precedido, acompanhado e seguido pela oração. Com efeito, escreve o apóstolo: “Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-nos sem cessar de vós nas nossas orações” (v. 2).

Neste sentido, o “dar a Deus o que é de Deus”, significa abrir-se à sua vontade e dedicar a ele toda a nossa vida, cooperando para o seu Reino de misericórdia, amor e paz.  Devemos também ter consciência de que só Deus é o Senhor do homem, e não há outro. A criatura não pode pertencer a mais ninguém, mas somente a Deus, o seu Criador.  Isto também sinaliza que devemos respeitar cada criatura, pois a imagem de Deus está impressa no rosto de cada pessoa. É preciso redescobrir esta novidade perene a cada dia.

Os santos souberam “dar a Deus o que é de Deus”, dedicando toda a sua vida ao Senhor, a quem devemos amar sobre todas as coisas. E, sobretudo, a Virgem Maria, Senhora da escuta fiel e modelo de santidade, fez isto de uma maneira admirável. Peçamos a sua intercessão para que saibamos também nós dar a Deus o que é de Deus. E ela, que não teve medo de fazer a vontade do Senhor ao longo de toda a sua existência, nos ajude a acolher na fé os ensinamentos do seu Divino Filho e nos faça colocá-los em prática cotidianamente.  Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

Parábola dos convidados para o banquete

Referência: Mt 22,1-14

Caros irmãos e irmãs

A liturgia da Palavra deste domingo utiliza a imagem do banquete para descrever a comunhão que Deus deseja estabelecer com todos. No ambiente sociocultural do mundo bíblico, o banquete manifesta o momento da partilha, da convivência, da comunhão e do estabelecimento de laços familiares entre os convivas. Além de um acontecimento social, o banquete tem frequentemente, uma dimensão religiosa. Os banquetes sagrados celebram e potenciam a comunhão entre Deus e os fiéis, como nos relata as passagens bíblicas dos sacrifícios de comunhão celebrados no Templo de Jerusalém (cf. Lv 3).

Quem organizava um banquete, procurava fazer uma seleção cuidadosa dos convidados: a presença de pessoas inadequadas poderia abalar, consideravelmente, o perfil da família; e, por outro lado, a presença à mesa de pessoas importantes realçava a sua importância. Neste sentido, o profeta Isaías, na segunda leitura,  anuncia que Deus, no futuro, vai oferecer um banquete e todos serão convidados. Trata-se, portanto, de uma iniciativa de Deus. Os que aceitarem este convite, estarão em comunhão total com Deus (cf. Is 26,6-10).

No Evangelho, dando sequência ao tema do banquete, o evangelista São Mateus, nos apresenta duas parábolas diferentes: a dos convidados para o “banquete” (v. 1-10) e a do convidado que se apresentou sem o traje adequado (v. 11-14). As duas parábolas estão unidas pela mesma proposta.

A primeira parábola (vers. 1-10) ressalta a figura de um rei que organiza um banquete para celebrar o casamento do seu filho. Convidou várias pessoas, mas os convidados recusaram o convite, cada um apresentando as suas desculpas.  Trata-se de um quadro gravíssimo: recusar o convite era uma ofensa grave. Mas, como se isso não bastasse, esses convidados manifestaram um desprezo inconcebível pelo rei, matando os seus servos.  O convite do rei encontra inclusive reações hostis, agressivas. Mas isto não faz diminuir a sua generosidade. Ele não desanima, e envia os seus servos a convidar muitas outras pessoas. A recusa dos primeiros convidados tem como efeito a extensão do convite a todos, sem nenhuma exceção. O rei resolveu, apesar de tudo, manter a festa e mandou que fossem trazidos para o “banquete” todos os que estivessem nas “encruzilhadas dos caminhos”. Todos foram convidados para sentar junto à mesa do rei.

Na parábola, Deus é o rei que convidou Israel para o “banquete” do encontro, da chegada dos tempos messiânicos; para as bodas do seu filho, uma alusão a Jesus Cristo. Os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei recusaram o convite. Então, Deus convidou todos para o banquete, inclusive os pecadores que, segundo a teologia oficial da época, estavam fora da comunhão com Deus.  Para Jesus, o sentar-se à mesa com os pecadores é uma forma privilegiada de lhes dizer que Deus os acolhe com amor e que quer estabelecer com eles relações de familiaridade, sem excluir ninguém do seu convívio.

A segunda parábola é a parábola do convidado que se apresentou na festa sem o traje nupcial (11-14). Segundo o protocolo oriental, o rei não participava no banquete, porém, num certo momento entrava na sala para receber o obséquio e o agradecimento dos convidados. No Oriente, desde os tempos remotos, os reis costumavam presentear aos seus hóspedes com roupas idôneas para a solenidade das suas audiências ou para o privilégio do comparecimento diante deles. O homem da parábola que não tinha o traje da festa, não quis prover-se desta veste, que ficava na entrada do palácio, o que indica uma falta de respeito não menos grave que a daqueles que rejeitaram o convite do Rei. O rei que organizou o banquete mandou, então, lançá-lo fora da sala onde se realizava a festa.  Assim como aqueles que recusaram o convite, ele também foi condenado ao inferno.

Fica doloroso e chega até a ser contraditório perceber que em um certo momento da festa um homem é expulso de uma maneira tão violenta, porque não estava com a veste adequada.  Mas, o objetivo da parábola é apresentar uma advertência para aqueles que aceitaram o convite de Deus para a festa do Reino, aderiram à proposta de Jesus e receberam o batismo, mas é ainda necessário vestir um estilo de vida que ponha em prática os ensinamentos de Jesus. Quem foi batizado e aderiu ao banquete do Reino, mas recusa o traje do amor, do serviço e da misericórdia; e continua com as vestes do egoísmo, da arrogância, por isso, não pode participar da festa do encontro e da comunhão com Deus.

São Gregório Magno, em um comentário sobre esta parábola, explica que aquele hóspede respondeu ao convite do Senhor para participar no seu banquete, de certa forma, tem a fé que lhe abriu a porta da sala, mas falta-lhe algo essencial: a veste nupcial, que é a caridade, o amor. Aqueles que foram chamados e comparecem, de alguma maneira, têm fé. É a fé que lhes abre a porta; mas falta-lhes o hábito nupcial do amor. Quem não vive a fé com amor, não está preparado para as núpcias e é expulso (cf. SÃO GREGÓRIO MAGNO, Homilia 38, 9; PL 76, 1287).  Quem estava sem a veste poderia ser um dos fariseus que não obedeceram ao Cristo.  Não aceitaram o convite à conversão que Ele veio trazer.

Nós também somos convidados para o banquete da Eucaristia, banquete da Igreja, banquete das núpcias do Cordeiro. Para participarmos deste banquete também necessitamos trajar a veste do Batismo, aquela veste branca, que deve ser o sinal da nossa pureza, manifestada pelas boas obras que realizamos. Não podemos participar da Eucaristia, sendo portadores de ações contrárias aos princípios ensinados pelo Evangelho. Mediante a pergunta do Rei: “Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?”, observamos que “o homem nada respondeu!” (v. 12). Um dia também teremos que prestar contas a Deus e a Ele pertence o julgamento; a nós, compete conservar pura a veste do nosso Batismo.

Lembremos que todos nós somos convidados a sermos comensais do Senhor, a estar no seu banquete, mas devemos vestir e guardar o hábito nupcial e viver um profundo amor a Deus e ao próximo, por esta razão a parábola termina dizendo: “Muitos são os chamados, poucos são os escolhidos” (Mt 22,14).  Não podemos esquecer que o Banquete Eucarístico do qual participamos é o Banquete que o rei, o Pai eterno, nos preparou: banquete da aliança do seu Filho com a humanidade.  Conforme nos fala o Livro do Apocalipse: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9).  Este Cordeiro, é o próprio Jesus dado e recebido em comunhão.

Possamos acolher com alegria este convite e sermos dignos de participar dessa mesa sagrada.  E que possamos estar entre os felizes convidados para a ceia do Senhor e que, dentre os muitos convidados, possamos nós estar entre os escolhidos.  E, ao participarmos desta ceia, possamos estar revestidos do homem novo, com modéstia, perdão mútuo e caridade.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

 Parábola dos vinhateiros homicidas

Referência: Mt 21,33-43

 

Caros irmãos e irmãs

O simbolismo da vinha era muito usado pelos profetas e sábios do Antigo Testamento, certamente, porque esta era uma das características da região de Israel, singularmente caracterizada pelo cultivo da videira.  A imagem da vinha descreve com frequência na Sagrada Escritura, o projeto divino de salvação e se apresenta como uma significativa alegoria da aliança de Deus com o seu povo.  No Antigo Testamento, a vinha é também imagem do amor para com o próximo e da solidariedade para com o outro (cf. Ex 23,11; Dt 24,21; Dt 23, 24; Lv 25,3), concretizado em ações que resultam no interesse do homem para consigo e para com o próximo. O próprio Evangelho é o vinho novo, fervilhante de vida, que Jesus vai colocar nos odres novos dos corações renovados pela sua pregação.  A vinha aparece ainda como símbolo do povo que o Senhor escolheu. Assim como a vinha, o homem exige cuidado, atenção e requer uma dedicação paciente e fiel. É deste modo que Deus age com cada um de nós e é, também, assim que devemos agir com as pessoas, no âmbito do convívio fraterno.

E dentro deste cenário, a liturgia da Palavra deste domingo nos apresenta a Parábola dos vinhateiros homicidas, destinada a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto de salvação que Deus oferece aos homens através do seu Filho Unigênito. A carta aos hebreus também assinala: “Muitas vezes e de muitas maneiras Deus falou a nossos pais por meio dos profetas: por último nos falou em seu Filho a quem constituiu herdeiro de tudo” (Hb 1,1s).

No texto evangélico Jesus retoma o cântico de Isaías (cf. Is 5,1-7), com algumas adaptações, fazendo ressonâncias à nova hora da história da salvação. Jesus começa contando que o dono de um campo plantou uma vinha e a cercou de todos os cuidados, para que ela pudesse crescer com segurança e a seu tempo, dar frutos, que seriam transformados em vinho no lagar construído junto à própria vinha.  Esse proprietário teve que viajar e a arrendou para vinhateiros que, no momento oportuno, lhe entregariam os lucros obtidos com a produção.

Na época da colheita, o proprietário mandou emissários seus para receber o que lhe era devido.  Mas os vinhateiros prenderam uns, apedrejaram outros e mataram alguns.  Um segundo grupo de emissários, mandados em seguida, foi tratado da mesma maneira (v. 35-36).  O texto ainda diz: “O proprietário, por fim, enviou-lhe o seu próprio filho, pensando ‘ao meu filho eles vão respeitar’.  Mas os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!’  Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram”  (v. 37-39).

Observa-se aqui uma alusão ao fato que Jesus foi crucificado no Gólgota, fora dos muros da cidade de Jerusalém. A decisão de matar o filho, como nos narra a parábola, para “ficar com a herança”, refletiria igualmente um aspecto da legislação judaica (cf. 1Rs 21,15) e romana de então. Essa legislação previa que terceiros poderiam entrar na posse de todo e qualquer bem, quando deixasse de existir um legítimo proprietário. Jesus ainda cita, nesta parábola, um versículo do Salmo 118: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (v. 22). A expressão “pedra angular” significa a última pedra, com a qual se completa a abóbada e que garante a consistência, quanto a pedra fundamental, isto é, a primeira pedra de um edifício, sobre a qual cairá o peso inteiro da construção.

Podemos identificar nesta parábola que a vinha é Israel; o dono é Deus; os arrendatários, os chefes do povo judeu; os mensageiros, os profetas; o filho morto, Cristo Jesus, e o castigo de justiça é a entrega da vinha a outros.  Quem seriam estes outros? Trata-se, pois, da Igreja que é o novo Povo de Deus, o novo e verdadeiro Israel de Deus (cf. Gl 6,16).

A mensagem que a parábola nos deixa é que também nós somos chamados a produzir muitos frutos.  Por isso, nos fala a segunda leitura (cf. Fl 4,6-9) que devemos praticar “tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, amável, puro e louvável; tudo o que é virtuoso”. Esses são os frutos maduros que devemos produzir e não as uvas amargas do egoísmo, da rivalidade agressiva, competição desleal, intolerância e violência. Todos nós somos pecadores e também podemos ter a tentação de nos apoderarmos da vinha, por causa da ganância que nunca falta em nós, seres humanos. O sonho de Deus parece sempre confrontar com os nossos interesses pessoais. Podemos também ser como os vinhateiros infiéis, se não nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo.

Sem a ação do Espírito Santo em nós, podemos correr o risco de também querermos eliminar o Cristo da nossa vida.  Muitos são os que parecem perder a sua identidade religiosa, talvez sob a influência da cultura moderna. Mas, porém, quando o homem elimina Deus de seu horizonte, quando declara que Deus para ele não existe, está construindo uma falsa felicidade. Quando o homem rejeita Deus, ele se proclama proprietário absoluto de si mesmo e único dono da criação. Por isto, surge a tentação da ganância, tanto pelo dinheiro como pelo poder. O homem torna-se violento e pode até matar em nome do poder.

A Sagrada Escritura, no relato do assassinato de Abel por seu irmão Caim, revela, desde o começo da história humana, a presença da cólera e da cobiça no homem, consequências do pecado original (cf. Gn 4,10-11). A partir de então, o homem tornou-se inimigo de seu semelhante. No Sermão da Montanha, Jesus recorda o mandamento da lei de Deus: “Não matarás” (Mt 5,21), e acrescenta a proibição da cólera, do ódio e da vingança. A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2270).

Os vinhateiros homicidas da parábola são os que matam em nome de um pressuposto direito, mas, matar alguém é matar o Filho de Deus presente em cada criatura humana. Se a cólera chega ao desejo deliberado de matar o próximo ou de feri-lo com gravidade, atenta gravemente contra a caridade, constituindo um pecado mortal. Lemos no Evangelho: “Todo aquele que se encolerizar contra seu irmão terá de responder no tribunal” (Mt 5,22).

Mas, nas palavras de Jesus há uma promessa consoladora: a vinha não será destruída. O proprietário não abandona a sua vinha e a confia a outros servidores fiéis. Jesus, após sua morte, não permanecerá no túmulo, mas será o início de uma vitória definitiva. Após a sua dolorosa paixão e morte seguirá a glória da ressurreição. A vinha continuará então dando uva e será arrendada pelo dono “a outros lavradores que lhe pagarão o produto em seu tempo” (Mt 21, 41). A consoladora mensagem que recolhemos destes textos bíblicos é a certeza de que o mal e a morte não têm a última palavra, mas que ao final Cristo vence.

A imagem da vinha, com suas implicações morais, doutrinais e espirituais, voltará ao discurso da Última Ceia, quando ao despedir-se dos apóstolos, o Senhor dirá: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o ramo que der fruto, para que produza mais fruto” (Jo 15,1-2). A Eucaristia que constantemente celebramos e na qual oferecemos a Deus o pão, fruto da terra e do trabalho do homem, e o vinho, como fruto da videira, é o sacramento que nos irmana no compromisso de construir um mundo novo. Peçamos ao Senhor, que nos entrega seu corpo e o seu sangue, no sacramento da Eucaristia, que nos faça ser a terra boa, capaz de produzir copiosos frutos de amor e de acolhimento, e que possa nos propiciar o acesso à vida eterna.  Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ