XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

O poder das chaves

Referência: Mt 16,13-20

Caros irmãos e irmãs,

A Liturgia da Palavra deste domingo nos coloca em Cesareia de Filipe, no Norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão, onde deparamos com a profissão de fé de Pedro, manifestada quando Jesus dirige aos seus discípulos uma série de questionamentos sobre si próprio.  Em um primeiro momento o texto evangélico acentua a definição da identidade de Jesus mediante um questionamento: “Quem dizem as pessoas que é o Filho do homem?” (v. 13).

Jesus interroga os seus discípulos acerca do que as pessoas dizem dele.  A opinião dos homens Jesus está em continuidade com o passado: João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas (cf. v. 14). Reconhecem, apenas, que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão, como os profetas do Antigo Testamento, mas não vão além disso. Nesta linha de pensamento, Jesus é apenas um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos do Senhor e que se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes dele (v. 13-14).

Em seguida Jesus interpelou diretamente os Doze: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (v.15). Em nome de todos, com impulso e determinação, Pedro tomou a palavra e afirmou: “Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo” (v.16). Solene profissão de fé, que desde então continuamos a repetir. Jesus é o Messias prometido, que veio à terra para oferecer à humanidade a salvação e para satisfazer a sede de vida e de amor que habita em cada ser humano.

Entretanto, para Pedro, Jesus não é apenas o Messias, Ele é também o “Filho de Deus”. No Antigo Testamento, a expressão “Filho de Deus” é aplicada aos anjos (cf. Dt 32,8; Jó 1,6), ao Povo eleito (cf. Ex 4,22; Jr 3,19), aos vários membros do Povo de Deus (cf. Is 1,2; Jr 3,14); e ao rei (cf. 2Sm 7,14). Esta expressão designa a condição de alguém que tem uma relação particular com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão. Definir Jesus como o “Filho de Deus” significa, não só que Ele recebe vida de Deus, mas que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Ele uma relação de profunda intimidade e que Deus confiou a Jesus uma missão única para a salvação dos homens; significa reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai.

Diante da resposta apresentada por Pedro, Jesus passa a felicitá-lo pela clareza da fé que o anima. No entanto, essa fé não é mérito de Pedro, mas um dom de Deus: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.” (v. 17).  Jesus reconhece em Pedro a mão do Pai, a obra do Espírito Santo. Reconhece que Deus Pai conferiu a Simão Pedro uma fé confiável, sobre a qual Jesus Cristo, poderá construir a sua Igreja, da qual fazemos parte. Jesus tem a intenção de dar vida à sua Igreja, tendo como base a fé na sua própria identidade, ou seja, na relação com Ele mesmo, que é uma relação de amor e de confiança. A nossa relação com Jesus constrói a Igreja. E, por conseguinte, para dar início à sua Igreja Jesus tem necessidade de encontrar nos discípulos uma fé sólida, uma fé confiável. É isto que Ele deve averiguar nesta altura do caminho, instruindo os seus discípulos.

Para que seja possível a Pedro testemunhar que Jesus é o Messias, Filho de Deus e edificar a Sua Igreja, Jesus promete a Pedro “as chaves do Reino dos céus” (v. 19) e o poder de “ligar e desligar”. A entrega das chaves equivale à nomeação do “administrador do palácio” de que falava a primeira leitura (cf. Is 22,19-23).

Aquele que detém “as chaves” não pode usar a sua autoridade para concretizar interesses pessoais; mas deve exercer o seu serviço como um pai que procura o bem dos seus filhos, com solicitude e dedicação. Define em que consiste o verdadeiro serviço “das chaves”, o serviço da autoridade: ser um pai para aqueles sobre quem se tem responsabilidade e procurar o bem de todos com solicitude, com amor, com justiça.  Nos tempos antigos, “administrador do palácio”, entre outras responsabilidades, administrava os bens do soberano, fixava o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano.

Por outro lado, a expressão “ligar e desligar” (v. 19) designava, entre os judeus da época, o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido, para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro como o administrador da Sua Igreja, com autoridade para interpretar os Seus ensinamentos.  Trata-se, aqui, de confiar a Pedro um primado, um papel de liderança absoluta, manifestado pelo poder das chaves, o poder de ligar e desligar.

Mediante a profissão de fé da parte de Pedro, Jesus responde: “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la.” (v. 18). É a primeira vez que Jesus fala da Igreja, cuja missão é a realização do grandioso desígnio de Deus, de reunir em Cristo toda a humanidade numa única família. A missão de Pedro e dos seus sucessores é precisamente a de servir esta unidade da única Igreja de Deus, formada por judeus e pagãos.

O ministério de Pedro consiste em fazer com que a Igreja de Cristo nunca se identifique com uma única nação, nem com uma só cultura, mas que seja a Igreja de todos os povos e que seja uma casa de oração (cf. Mt 21,13), para tornar presente no meio dos homens, marcados por inúmeras divisões e contrastes, a paz de Deus e a força renovadora do seu amor. Por conseguinte, a missão de Pedro consiste em servir a unidade interior que provém da paz de Deus, a unidade de quantos, em Jesus Cristo, se tornaram irmãos e irmãs e membros de uma só família.

A pergunta formulada por Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (v. 15), é um questionamento que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão significa interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência, na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para O seguir.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, que possamos sempre dar ao mundo um sólido testemunho da nossa fé, respondendo com um coração sincero: “Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo” (v. 16).  Que esta seja a profissão de fé de cada um de nós e que possamos ter a graça de seguir cotidianamente o Cristo e permanecer sempre com Ele. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – Ano A -2017

Referência: Lc 1,39-56

Caríssimos irmãos e irmãs

Celebramos neste domingo a Solenidade da Assunção da Virgem Maria em corpo e alma à glória do Paraíso.  Este também é o destino que todos nós almejamos, é o destino dos filhos adotivos de Deus e membros do Corpo de Cristo.  Assim como Maria, nós também somos chamados a participar plenamente na vitória do Senhor sobre o pecado e a morte e a reinar com Ele no seu Reino eterno.

O dogma da Assunção da Virgem Maria foi proclamado pelo Papa Pio XII no dia 1º de novembro de 1950, sendo instituída esta celebração para o dia 15 de agosto, mas, por razões pastorais, no Brasil esta Solenidade é transferida para o domingo seguinte. Na sua Constituição Apostólica “Munificientissimus Deus”, o Papa Pio XII proclamava como dogma que a Virgem Maria, “concluindo o curso da vida terrena, foi elevada à glória celeste em alma e corpo”. Esta verdade de fé era conhecida pela Tradição, afirmada pelos Padres da Igreja, e representava um aspecto relevante do culto prestado à Mãe de Cristo.  Com esta proclamação, temos, de forma dogmática, aquilo que já tinha sido celebrado no culto e na devoção do Povo de Deus, como a mais elevada e estável glorificação de Maria.

Assim como aconteceu com o Cristo, Maria venceu a morte e já triunfa na glória celeste, na totalidade do seu ser, “de corpo e alma”.  É preciso lembrar, aqui, que somente Jesus e Maria subiram ao céu, de corpo e alma. Os santos estão lá apenas com suas almas, pois os corpos estão na terra, aguardando a ressurreição do último dia. Maria, ao contrário, foi elevada ao céu também com seu corpo já ressuscitado.

Como Maria não teve na alma a mancha do pecado original, ficou isenta da dura sentença dada aos demais: “És pó e ao pó hás de retornar” (Gn 3,19). A nós que herdamos o pecado original, é preciso voltar ao pó da terra de onde saímos, para que na ressurreição do último dia, o Senhor nos refaça sem as sequelas do mal. Maria não esteve sujeita ao poder do pecado para poder ser a Mãe de Deus, também não podia ficar sob o império da morte; pois, como disse São Paulo, “o salário do pecado é a morte” (Rm 6,23).

Assim, Maria não experimentou a corrupção da carne, mas foi glorificada em sua alma e seu corpo. Jesus tem a mesma carne de Maria, por isto, ela devia ter a mesma glória do seu divino Filho. Era necessário, como afirmam os Padres da Igreja, que aquela que no parto havia conservado íntegra a sua virgindade, conservasse o seu corpo sem corrupção, também após a morte.

Com a Assunção da Virgem Maria aos céus, temos o êxito final daqueles “que escutam a Palavra de Deus e a colocam em prática” (Lc 11,28). Nesta perspectiva, a solenidade da Assunção de Maria, constitui um estímulo providencial para meditar sobre a altíssima dignidade de cada ser humano, também na sua dimensão corpórea. Trata-se de uma reflexão que se insere muito bem na vida de cada cristão.

Por lei natural, os corpos de seres humanos se decompõem após a morte e só no último dia cada corpo irá juntar-se com sua própria alma. Todos serão ressuscitados, tanto aqueles que praticaram o mal, como aqueles que fizeram o bem. Será a “ressurreição da carne”, como rezamos no Credo. Contudo, alguns virão para uma ressurreição de vida e outros ressuscitados para a condenação (cf. Jo 5,29). Nossos corpos ressuscitados serão nossos próprios corpos, mas em um novo estado: imortal, sem defeito, não mais corrupto, nem doente, sem envelhecer, pois estaremos na dimensão gloriosa.  É o que chamamos de imortalidade.

A Assunção de Maria é um acontecimento que nos interessa de perto, precisamente porque cada homem é destinado a morrer. Todavia, a morte não é a última palavra, pois, como ressalta São Paulo: “O último inimigo a ser destruído será a morte” (1Cor 15,26), conforme sintetiza a primeira leitura. A morte torna-se uma passagem para a vida, é a passagem para a bem-aventurança celestial, reservada a quantos se empenham em prol da verdade e da justiça, esforçando-se por seguir a Cristo.

Lançando um olhar para a liturgia da Palavra, somos chamados a contemplar a Mulher revestida de sol, resplandecente de luz, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. Nela resplandece a vitória de Cristo sobre o maligno, representado na linguagem apocalíptica como um “grande dragão vermelho” (Ap 12,1.3), conforme nos diz a primeira leitura.

O Evangelho, por sua vez, nos convida a estar no limiar da casa de Zacarias, onde chega Maria para estar com a sua prima Isabel, levando consigo o mistério de Deus que se fez homem no seu seio e vem para partilhar com ela a sua própria alegria.  E, nesse instante, do fundo da intimidade de Maria, do fundo do seu silêncio, brota aquele cântico que exprime toda a verdade do grande Mistério. É o cântico que anuncia a história da salvação e manifesta o coração da Mãe: “A minha alma glorifica ao Senhor…” (Lc 1,46).

Também no texto evangélico temos o canto do Magnificat, esta poesia pronunciada por Maria, inspirada pelo Espírito Santo. E profeticamente ela diz: “Doravante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48). Trata-se de uma profecia para toda a história da Igreja. Esta expressão do Magnificat, mencionada pelo evangelista São Lucas, indica que o louvor à Virgem Santa, Mãe de Deus, intimamente unida a Cristo seu Filho, diz respeito à Igreja de todos os tempos e de todos os lugares. Isto também pressupõe que a glorificação de Maria já estava presente desde os tempos mais remotos. As palavras de Maria expressam o dever da Igreja de recordar a sua grandeza e, por conseguinte, esta solenidade é um convite a louvar o Senhor e a contemplar a importância de Nossa Senhora na História da Salvação, porque, através dela o verbo de Deus se fez carne e veio habitar entre nós (cf. Jo 1,14).

As palavras do Magnificat são como o testamento espiritual da Virgem Mãe. Com razão, portanto, elas constituem a herança daqueles que, ao reconhecerem-se seus filhos, decidem acolhê-la na própria casa, como fez o apóstolo João, que a recebeu como Mãe diretamente de Jesus, aos pés da cruz (cf. Jo 19,27).

Nesta solenidade da Assunção, lancemos o nosso olhar para Maria, pois ela nos abre à esperança, a um futuro cheio de alegria e nos ensina o caminho para acolher o seu Filho na fé, sem nunca perder a amizade com Ele, sendo sempre iluminados e orientados pela Sua palavra. Maria nos convida a segui-lo todos os dias, mesmo nos momentos em que sentirmos que as nossas cruzes se tornam pesadas.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a exaltá-lo com o espírito e a alma de Maria e a comunicar ao mundo a mensagem do Cristo.  Que a Virgem da Glória interceda sempre por nós e nos ajude a viver no caminho do bem, sendo quotidianamente fortalecidos na fé e na esperança da vida eterna.  Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

Jesus caminha sobre o mar

Referência: Mt 14,22-33

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da palavra deste domingo traz para a nossa reflexão um texto do Evangelho de São Mateus, onde nos apresenta o episódio de Jesus que caminha sobre o mar (cf. Mt 14,22-33). Após multiplicar os pães e os peixes, Jesus convida os seus discípulos a entrar no barco e a precedê-lo, na outra margem, enquanto Ele despede a multidão, ficando, em seguida, na completa solidão para rezar em uma montanha até de madrugada.

Entretanto, começa uma forte tempestade e, precisamente no meio da tempestade, Jesus chega ao barco onde estavam os discípulos, caminhando sobre as águas do mar (v. 26). No contexto da catequese judaica, só Deus “caminha sobre o mar” (Jó 38,16; Sl 77,20); só Ele acalma as ondas e as tempestades (cf. Sl 107,25-30). Jesus é, portanto, o Deus que vela pelo seu povo e que não deixa que a força da morte, simbolizada pelo mar, destrua o homem.

Ao ver Jesus andando sobre as águas, os discípulos ficam apavorados e pensam que é um fantasma, mas Ele tranquiliza-os: “Coragem, sou eu. Não tenhais medo!” (v. 27). Com isto, Jesus transmite aos discípulos a certeza de que eles nada têm a temer, porque Ele é o Deus que vence as forças da morte e lhes dá ânimo para vencerem as adversidades.

Em seguida, Pedro, tomado por um impulso de amor pelo seu Mestre, quer ir até Ele, mas ao mesmo tempo, parece pedir uma prova, para confirmar ser mesmo Jesus: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água” (v. 28); então, Jesus lhe diz: “Vem!” (v. 29). O Apóstolo Pedro desce do barco e começa a caminhar sobre as águas; no entanto, o vento impetuoso parece forte e ele começa a afundar. Então, clama: “Senhor, salva-me!” (v. 30), e Jesus lhe estende a mão e o segura.

Na perícope do Evangelho, chama a nossa atenção esta atitude de Pedro, que deixa o barco e começa a caminhar ao encontro de Jesus.  Ele começa a caminhar sobre a água, mas começa a afundar no momento em que desvia o seu olhar de Jesus, deixando-se abalar pelas adversidades que o circundam. Mas o Senhor está sempre presente, e quando Pedro o invoca, Jesus o salva do perigo. Na figura de Pedro, com os seus impulsos e as suas debilidades, está descrita a nossa própria fé: sempre frágil, mas, mesmo assim, caminha ao encontro do Senhor ressuscitado, no meio das tempestades e dos perigos do mundo.

Pedro caminha sobre as águas, não pelas suas próprias forças, mas pela graça divina, na qual crê; mas, ao sentir-se dominado pela dúvida, quando deixa de fixar o olhar em Jesus e tem medo do vento, quando não confia plenamente na palavra do Mestre, é então que corre o risco de afundar no mar da vida, e é assim também para nós: se olharmos unicamente para nós mesmos, não conseguiremos suportar os ventos, atravessar as tempestades, as águas agitadas que muitas vezes fazem parte do nosso quotidiano.

Pela fé, precisamos confiar que o Senhor está sempre próximo, a nos estender a sua mão, a nos amparar nos momentos difíceis. Jesus comunicou aos seus discípulos o poder para que pudessem vencer todos os males deste mundo que se opõem à vida. No entanto, enquanto enfrentam as ondas e os ventos, os discípulos oscilam entre a confiança em Jesus e o medo.

Um outro detalhe assinalado pelo texto está no fato do episódio ocorrer à noite, momento em que o barco é açoitado pelos ventos e pelas ondas, e navega com dificuldades. Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles. A noite representa as trevas, a escuridão, o medo, a insegurança em que navegam os discípulos de Jesus, sem saber exatamente que caminhos percorrer, nem para onde ir.

Também a cena final é muito importante. “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’” (v. 32s).  No barco encontram-se todos os discípulos, irmanados pela experiência da debilidade, da dúvida, do medo e da “pouca fé”. No entanto, quando Jesus volta àquele barco, o clima muda imediatamente: todos estão unidos na fé, por isto, se colocam de joelhos, reconhecem no seu Mestre o Filho de Deus. Quantas vezes também acontece conosco a mesma coisa! Sem Jesus, longe de Jesus, somos amedrontados e chegamos a pensar que não aguentaremos. Falta a fé! Mas Jesus está sempre ao nosso lado, sempre presente e pronto para nos segurar, a nos estender a mão.

O Evangelista São Mateus observa esta reação nos discípulos, porém, foram encorajados pela presença do Senhor. Isso é comprovado na profissão de fé manifestada por eles ao dizer: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”.  Com isto, a desconfiança inicial dos discípulos se transforma em fé firme. Como de fato, esta confissão reflete a fé dos verdadeiros discípulos, que encontram em Jesus o Deus que vence o “mar”, o Senhor da vida a transmitir força e coragem aos seus discípulos para vencer o mal e lhes estende a mão, na tentativa de reanimá-los e não os deixa afundar.

Podemos ainda dizer que todos nós estamos dentro de uma barca que é a Igreja, que parece estar sempre a ponto de afundar, devastada pelas ondas de numerosos perigos, da pouca fé, da coerência insuficiente dos cristãos, de tantas ideologias que a atacam de todos os lados, mas nesta barca encontra-se Cristo.  O que salva a barca não são as qualidades e a coragem dos marinheiros; a garantia segura contra o naufrágio é a fé.  A barca de Pedro continua navegando e enfrentando tempestades das mais diversas realidades.  Por isto, jamais podemos desviar o nosso olhar do Cristo, pois se isto acontecer, certamente pereceremos.

Como seguidores de Jesus, de certa maneira, esta é também a nossa experiência.  Quantas vezes também somos abalados pelos sofrimentos e pelas dificuldades oriundas de ventos fortes e tempestades a nos atingir.  Quantas vezes somos submergidos pelo “mar” da frustração, do desânimo, da desilusão. Quantas vezes sentimos que afundamos na dúvida, no medo, no desespero e somos incapazes de enfrentar as tempestades, as forças das ondas que nos atingem.

É neste momento que também nós devemos segurar nas mãos de Jesus e, como Pedro, gritar: “Senhor, salva-me!” (v. 30).  Que Ele nos conceda a virtude da esperança e nos conduza com segurança pelos caminhos da vida e nos faça encontrar a sua mão. Que Ele também nos leve a estender aos outros a nossa mão, sobretudo, para aqueles que dela necessitarem.

Também nós caminhamos no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade, porque constantemente a barca da vida é agitada pelos ventos.  Peçamos que o Senhor Jesus venha ao nosso encontro, venha ao nosso socorro. E que ele possa dizer também a cada um de nós: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!”.

Que possamos todos nós ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida, com coragem e confiança, sem desviar o nosso olhar daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6).  E somente se tomarmos a mão do Senhor, se nos deixarmos orientar por Ele, o nosso caminho será justo e bom.

Peçamos, pois, que Deus infunda em nossos corações a graça do Espírito Santo, criando em nós, que o ousamos chamá-lo de Pai, o espírito de filhos, para que o contemplemos como é, e sejamos conduzidos às heranças prometidas. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR – Ano A – 2017

Referência: Mt 17,1-9

Caríssimos irmãos e irmãs

Neste domingo, juntamente com o Apóstolo São Pedro podemos dizer: “É bom estarmos aqui” (Mt 17,4), reunidos junto do altar do Senhor para celebrarmos a Santa Eucaristia, onde encontramos com o nosso Mestre e Senhor.  E também neste domingo somos convidados a subir ao Monte Tabor, a fim de meditar acerca da sugestiva narração da transfiguração de Jesus. O texto evangélico começa dizendo que “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,1s).

Na Sagrada Escritura, a montanha representa o lugar de proximidade e comunhão com Deus e de um encontro íntimo com ele pela oração.  Recordemos também que, em um outro monte, o Sinai, Moisés recebeu os dez mandamentos.

O texto evangélico ressalta que se trata de uma nuvem luminosa que teria envolvido os discípulos com a sua sombra e dessa nuvem dizia uma voz: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” (v.5).  A nuvem sagrada é o sinal da presença de Deus. Algo semelhante pode-se constatar no momento do batismo de Jesus, quando também uma voz, a partir do interior da nuvem, proclamou Jesus como Filho: “Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (v. 17). Mas a esta solene proclamação da filiação acrescenta-se agora uma ordem: a Ele devemos escutar (v. 5).

Este premente apelo a escutar o Cristo é um convite a deixar que a luz de Cristo ilumine a nossa vida e nos conceda a força para anunciarmos e testemunharmos o evangelho a todos. É um empenho que comporta, às vezes, não poucas dificuldades e sofrimentos.

Escutar é uma palavra que vem do latim “auscultare” e significa ouvir com atenção. É o mesmo que aguçar o ouvido. É estar consciente do que se ouve.   Na Sagrada Escritura, com frequência, somos exortados a “prestarmos ouvido”. A parábola do Bom Pastor (cf. Jo 10,1-18) mostra a relação entre escutar, crer e obedecer.  As ovelhas escutam a voz do Bom Pastor e fazem mais, seguem-no, o que supõe intimidade.

Escutar, seguir e conhecer Cristo é acreditar. Conhecer a voz de Cristo é identificar-se com a sua mensagem, senti-la como própria.  Existe ainda um texto importante para compreender as exigências do escutar, que se encontra em 1Sm 3,10: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.  Esta resposta do jovem Samuel contém em si a atitude da completa atenção, atitude de obediência total à palavra de Deus (cf. Sl 33,12; 94,7-10; Mt 7, 24-27; Ap 2,7.11.17.29; 3,6; Pr 4,20. 5,1; 7.1).

Para São Bento a oração é, em primeiro lugar, um ato de escuta (cf. RB Pról. 9-11), que depois se deve traduzir em ação concreta, seguindo o caminho traçado pelo Cristo humilde e obediente (cf. RB 5,13), ao amor do qual ele nada deve antepor (RB 4,21; 72,11).  Ouvir Cristo e obedecer a sua voz: este é o caminho real, o único, que conduz à plenitude da alegria e do amor.

O texto narrado por São Lucas ressalta: “Enquanto Ele rezava, o aspecto do seu rosto alterou-se e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante” (Lc 9,29).   Nisto, podemos dizer que a transfiguração é também um momento de oração, pois acontece um diálogo de Jesus com o Pai: a mais íntima unidade do seu ser com Deus, que se torna pura luz.  Na sua unidade de ser com o Pai, o próprio Jesus é luz da luz, o ser de Jesus na luz de Deus, a luminosidade própria da sua condição de ser Filho.

Mas devemos também observar que a oração não exige o isolamento do mundo, como alguns podem imaginar, mas consiste, na verdade, em um contínuo subir ao monte do encontro com Deus, para depois voltar a descer trazendo o amor e a força que disto derivam, de modo a servir os nossos irmãos, conforme aprendemos no Evangelho.

As vestes brancas de luz, no livro do Apocalipse, indicam os vestes dos seres celestes, dos anjos e dos eleitos (cf. Ap 7,9). As vestes dos eleitos são brancas, porque foram lavadas no sangue do cordeiro (cf. Ap 7,14), porque, pelo batismo foram ligadas com a paixão de Jesus, e a sua paixão é a purificação que restitui a veste original, que perdemos pelo pecado (Lc 15,22).  Por meio do batismo somos revestidos com Jesus na luz e passamos a ser também luz, por já estarmos iluminados por Deus, em virtude do batismo (cf. BENTO XVI, Jesus de Nazaré, São Paulo, 2007, p. 264).

Na transfiguração é Deus que se revela em Jesus Cristo. Portanto, quem quer conhecer Deus, deve contemplar o rosto de Jesus, o seu rosto transfigurado. Jesus é a revelação perfeita da santidade e da misericórdia do Pai.  Podemos também dizer ainda que a transfiguração é uma revelação da pessoa de Jesus, da sua profunda realidade.

A finalidade desta transfiguração foi encorajar os discípulos para que não se deixassem vencer pelas provações que viriam em breve, com a paixão e morte de Cristo, por isto, a transfiguração de Jesus ocupa, nos evangelhos, lugar de especial importância, pois prepara os apóstolos para enfrentarem os dramáticos eventos do calvário, apresentando-lhes, com antecipação, aquela que será a plena e definitiva revelação da glória do Senhor no mistério pascal. Por isto, mediante este acontecimento, os discípulos são preparados para superar a terrível prova da paixão e compreender o mistério pascal de Cristo.

Ao meditarmos sobre esta página evangélica, preparamo-nos para reviver, também nós, os eventos decisivos da morte e ressurreição do Senhor, seguindo-o no caminho da cruz para chegarmos à luz e à glória.  Possamos todos nós subir ao Monte Tabor para, com os discípulos de Jesus dirigir também o nosso olhar para o rosto radiante do Filho de Deus, a fim de sermos por ele iluminados.

E agora, ao celebrar a Eucaristia, Jesus nos dá o seu corpo e o seu sangue, para que, de certa forma, possamos saborear já aqui na terra a situação final, quando os nossos corpos mortais forem transfigurados à imagem do corpo glorioso de Cristo.

Peçamos a intercessão da Virgem Mãe de Deus, para que possamos reconhecer em Jesus o Filho amado de Deus e o Senhor da nossa vida. Que ela interceda por cada um de nós, para que possamos ser os discípulos fiéis de Cristo, escutando e colocando em prática todos os seus ensinamentos. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ