XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

As parábolas do Reino

Referência: Mt 13,44-52

Caros irmãos e irmãs

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos convida a refletir sobre as nossas prioridades e os valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Lançando um olhar inicial para a primeira leitura (cf. 1Rs 3,5.7-12), encontramos a figura e o exemplo de Salomão, rei de Israel que sucedeu ao trono o seu pai, o rei David, falecido por volta do ano 972 a.C.

O texto da primeira leitura nos traz o relato do sonho de Salomão em Gabaon, onde temos o seu pedido, em forma de oração a Deus, para obter a sabedoria (cf. 1Rs 3,5).  Tanto no Antigo como no Novo Testamento, o sonho normalmente aparece como uma forma privilegiada de Deus comunicar com os homens e de lhes indicar os seus caminhos (cf. Gn 20,3; Nm 12,6; Mt 2,13s). Utilizando este recurso literário, o texto bíblico nos apresenta o rei Salomão como o escolhido de Deus, a quem o Senhor comunica os seus projetos e a quem confia a condução do seu Povo.

O sonho está estruturado na forma de um diálogo entre Deus e Salomão.  O jovem Salomão pede ao Senhor: “Concedei, pois, ao vosso servo um coração sábio, capaz de julgar o vosso povo e discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9). Ao pedir a Deus que lhe concedesse um coração sábio, indica que Salomão deseja ter uma consciência que sabe ouvir, que seja sensível à voz da verdade. Na Sagrada Escritura o coração não indica apenas uma parte do corpo, mas o âmago da pessoa, a sede das suas intenções e dos seus juízos.

No caso de Salomão, o pedido é motivado pela responsabilidade de guiar uma nação, Israel, o povo que Deus escolheu para manifestar ao mundo o seu desígnio de salvação. Portanto, o rei de Israel, deve procurar estar sempre em sintonia com Deus e escutar sua Palavra, para orientar o povo a dirigir os seus passos pelos caminhos do Senhor, pela vereda da justiça e da paz.

No entanto, o exemplo de Salomão é válido para cada um de nós. Precisamos da sabedoria e do bom discernimento, para exercermos, com dignidade, o agir segundo a reta consciência, realizando o bem e evitando o mal. A consciência moral pressupõe a capacidade de ouvirmos a voz da verdade, de sermos pessoas dóceis às suas indicações.  O rei Salomão tinha consciência de que a autoridade é um serviço que deve ser exercido com sabedoria e que o objetivo final desse serviço é a realização do bem comum. O texto sublinha que Salomão não pede riqueza, nem glória, mas pede as aptidões necessárias e a capacidade para cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece aqui como o modelo do homem que sabe escolher e que sabe pedir.

Passando ao texto evangélico deste domingo, Jesus continua recorrendo à linguagem das parábolas para nos exortar a fazer do Reino de Deus a prioridade fundamental.  É propriamente a sabedoria que vem de Deus que nos faz compreender o verdadeiro sentido da vida, em correspondência ao projeto de salvação de Deus.

Pelo terceiro domingo consecutivo, a liturgia nos apresenta mais uma página de parábolas, breves narrações utilizadas por Jesus para facilitar a compreensão ao mistério de Deus e para anunciar os mistérios do Reino dos céus. Utilizando imagens e situações da vida quotidiana, Jesus quer nos indicar o verdadeiro fundamento de todas as coisas para podermos reconhecer a primazia de Deus.  O tema contido no Evangelho deste domingo é precisamente o Reino dos céus. O termo “céu” não deve ser entendido unicamente no sentido da altura que nos ultrapassa, porque tal espaço infinito possui também a forma da interioridade do homem.  Mas, Reino dos céus significa, precisamente, senhorio de Deus, e isto quer dizer que a sua vontade deve ser assumida como o critério e guia da nossa existência.  A linguagem das parábolas é simples e compreensiva, para melhor assimilar os profundos mistérios da nossa salvação!

Jesus começa dizendo: O Reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13, 44). Somente quem é sábio consegue reconhecer no campo o tesouro escondido como um dom de Deus, sinal de uma proposta e de um chamado para uma vida diferente. Daí sua decisão de “vender todos os seus bens”, abandonar o que todo mundo acha importante para o sucesso da vida, para “comprar aquele campo”, seguir o chamado interior,  mesmo correndo o risco no investimento.

É interessante ressaltar que ao “vender tudo que tem” a pessoa o faz com “alegria”. Deus nos seduz ainda porque fala a linguagem da alegria, que move, apressa, faz decidir. A alegria é um sintoma, é o sinal de que se está caminhando na estrada justa.  O homem vendeu o que tinha para comprar este campo.  O termo da comparação aqui é o valor do tesouro, comparado com o valor de todas as coisas que o homem vendeu para poder adquirir o campo.  Em tempos antigos, as pessoas tinham o costume de esconder objetos preciosos, cavando um buraco na terra, sobretudo por medo dos imprevistos da guerra.

Contudo, a questão principal abordada nesta primeira parábola é a da descoberta do valor e da importância do Reino. A lição de Jesus é clara: não há valor algum que possa superar o valor do reino do Céu, esse reino no qual Deus é o Senhor absoluto; e onde floresce a graça, a redenção, a vida eterna. Todos os bens da terra são desprezíveis diante desse reino.

A outra parábola nos fala que o reino dos céus assemelha-se ao encontro de uma pérola de grande valor. O comprador vende todos os seus bens para adquiri-la (cf. Mt 13,45-46). A ideia básica consiste no fato de que somente Deus conhece o que pode preencher os nossos corações.

No entanto, o resultado final é o mesmo: a descoberta de algo valioso. O agricultor e o comerciante vendem tudo, mas para ganhar tudo, para ter tudo. Para um, um tesouro; para outro, uma pérola de grande valor. Ambos também estão unidos por um sentimento comum: a surpresa e a alegria de terem encontrado a realização de todos os desejos. A alegria é o sentimento de quem encontrou o verdadeiro tesouro, a verdadeira pérola, o tesouro do Reino de Deus. O tesouro e a pérola devem ser o Cristo para nós, e segui-lo é o que de melhor podemos empreender na vida.

A partir dessas reflexões pode-se perceber a analogia entre a primeira leitura e o Evangelho. O rei Salomão não pediu a Deus riqueza, e sim sabedoria, isto é, o dom de distinguir entre o bem e o mal (cf. 1Rs 3,5ss).  Neste sentido, ele prefigura o negociante da parábola da pérola, homem de bem, mas sábio e perspicaz: arrisca tudo o que tem num investimento melhor (cf. Mt 13,45ss).  A lição de todos estes textos é: investir tudo naquilo que é mais importante.  Esta é uma sabedoria humana, mas aplica-se também à realidade divina, ao Reino do Céu, que é concretamente o tesouro da parábola.  Ora, para discernir bem isto, vamos precisar da sabedoria que Salomão pediu, e que lhe propiciou pronunciar juízos sábios em favor de quem merecia (1Rs 3,16-28).

Peçamos ao Senhor Jesus, Ele que é o mais sábio de todos os sábios, que também nos conceda este dom, o dom da sabedoria, à semelhança do pedido feito por Salomão, para que possamos fazer a escolha certa, e trilhar com o coração dilatado, pelos caminhos que nos levam ao Reino de Deus. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

 A Parábola do Joio e do Trigo

Referência: Mt 13,24-43

Caros irmãos e irmãs,

As leituras bíblicas que compõem a Liturgia da Palavra deste domingo nos convidam a refletir sobre a paciência e a misericórdia de Deus. A primeira leitura (cf. Sb 12,13.16-19), nos fala de um Deus que, apesar da sua força e onipotência, é indulgente e misericordioso para com todos, mesmo quando os homens praticam o mal. Agindo dessa forma, Deus convida os seus filhos a terem um coração misericordioso e também indulgente, semelhante ao seu próprio coração. Sequenciando este mesmo tema está também a segunda leitura, que sublinha a bondade e a misericórdia do Senhor.

No Evangelho deste domingo continuamos a escutar o Senhor que, sentado na barca, prossegue nos falando do Reino dos Céus. Assim como aquela multidão estava à beira do mar a ouvir o Senhor, estejamos também nós atentos aos seus ensinamentos.

O texto evangélico nos apresenta três parábolas contadas por Jesus: O trigo e o joio, o grão de mostarda e o fermento na massa. Jesus pregava usando a imagem rica e expressiva das parábolas, breves narrações utilizadas para anunciar os mistérios do reino dos céus.  A partir das  imagens e situações da vida quotidiana, o Senhor nos indica o verdadeiro fundamento de todas as coisas. Ele nos mostra o Deus que entra na nossa vida e quer nos guiar pelo caminho do amor, do bem e da salvação.

O joio queimado no fogo, a fornalha ardente, o choro e o ranger de dentes são os símbolos utilizados para impressionar os crentes, obrigá-los a repensar os seus esquemas de vida e a voltar à fidelidade a Deus. Portanto, o evangelista apresenta um convite urgente à conversão.

A primeira parábola que nos é proposta é a parábola do trigo e do joio (vv. 24-30). Trata-se de um quadro da vida quotidiana: há um senhor que semeia a boa semente no seu campo, mas um inimigo, visando prejudica-lo semeia também o joio, uma erva da família dos gramíneos, cujas espécies são conhecidas pelos frutos infestados por fungos, que prejudicam as plantações.  A ordem do senhor é para deixar crescer o trigo e o joio lado a lado, a separação do bem e do mal será feita apenas no momento da colheita.

Essa parábola deve ser entendida no contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu com os pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente condenáveis. Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por pecadoras públicas, convidou Mateus, um publicano, para fazer parte do seu grupo de discípulos. Com esse comportamento, Jesus quis dizer que todos são convidados a fazer parte da sua família.

Os fariseus consideravam inaceitável esta atitude de Jesus. Para eles, quem não cumpria a Lei era excluído do Povo de Deus.  Nesta parábola, Jesus mostra que o pensamento dos homens é diferente do pensamento de Deus.  O agir de Deus tem como base a paciência e a misericórdia; e oferece sempre ao homem todas as oportunidades para refazer a sua existência e integrar plenamente à comunhão com o seu Criador, que tem um plano de salvação a todos: bons e maus. No tempo oportuno, serão identificados os maus e os bons; e então irá ocorrer a separação.  Segundo o texto bíblico o trigo e o joio podem crescer juntos, mas no Juízo Final irá ocorrer a divisão dos bons e dos maus. São Mateus insiste que o “dia da colheita”, imagem utilizada pelos profetas, se identifica com o dia do “juízo de Deus” sobre os homens e o mundo, os bons receberão a recompensa e os maus receberão o castigo.

Na parábola do trigo e do joio encontramos duas atitudes: Por um lado, a impaciência dos homens que querem a destruição: “Queres que arranquemos o joio?” (v. 28); e, por outro lado, a paciência de Deus: “Deixai crescer um e outro até a colheita!” (v. 30).  Certamente nós gostaríamos que Deus se mostrasse mais forte, que vencesse imediatamente o mal e fizesse o bem prosperar, para termos um mundo melhor. Muitas vezes sofremos com a paciência de Deus, mas esquecemos que também nós temos necessidade dessa paciência. Esquecemos que também nós erramos e precisamos sempre do seu perdão e da sua misericórdia.

Jesus explica no Evangelho: “O inimigo que semeou o joio é o diabo” (v. 39). O inimigo de Deus e das almas sempre lançou mão de todos os meios humanos possíveis para instabilizar a vida do homem e a sua unidade com a importância da família estavelmente constituída, a unidade e a indissolubilidade do matrimônio, e a vida humana respeitada e protegida desde o momento da concepção.

Jesus compara o Reino dos céus a um campo de trigo, para nos levar a compreender que dentro de nós foi semeado algo de pequeno e escondido que, no entanto, possui uma força vital e perene. Mesmo com os eventuais obstáculos, a semente irá se desenvolver e o fruto amadurecerá. Este fruto só será bom, se o terreno da vida for cultivado em conformidade com a vontade divina. Isto significa que devemos estar prontos para conservar a graça recebida desde o dia do Batismo, continuando a alimentar a fé no Senhor; isto nos fortalece e impede que o mal ganhe raízes em nós.

Deus é sempre paciente com cada um de nós, os pecadores. A paciência de Deus com o joio nos convida a rejeitar toda atitude de rigidez, intolerância, incompreensão e vingança nas nossas relações com os outros. O senhor da parábola não aceita a intolerância, a impaciência e o radicalismo dos seus servos que pretendem cortar o mal pela raiz e arrancá-lo, correndo o risco de serem injustos, de se enganarem, colocando o mal e o bem no mesmo ambiente. Às vezes, somos demasiados ligeiros em julgar e condenar. A Palavra de Deus nos convida a moderar a nossa dureza, a nossa intolerância, a nossa intransigência e a contemplar os irmãos, com as suas falhas, defeitos, diferenças e comportamentos. Saibamos olhar as pessoas com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.

Para que possamos transformar o joio em trigo, devemos ser a semente de mostarda, pequena, insignificante, mas que cresce até aninhar os pássaros em seus ramos. Devemos ser o fermento, que leveda toda a massa da farinha, o mundo em que vivemos.  O fermento é também a figura de cada um de nós. Vivendo no meio do mundo devemos conquistar com o nosso exemplo e com a nossa palavra novas almas para o Senhor.  O joio e o trigo estão presentes em toda parte. Frequentemente nos deparamos com o joio da desunião, da inveja, das fofocas. Fiquemos atentos pois, dentro de cada um de nós, há trigo e joio.

Que o Senhor nos faça ser o trigo do amor, da dedicação e da colaboração. Que seja afastado de nós o joio do ódio, da discórdia, da calúnia… É preciso saber valorizar a semente de trigo presente no coração de cada pessoa; cultivá-la com paciência e amor. Respeitar o processo de amadurecimento de cada pessoa, sendo paciente e misericordioso.   A Palavra de Deus nos convida, contudo, a não perder a confiança e a esperança.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que ela nos ajude a seguir sempre o Senhor Jesus, na oração e na caridade, colocando em prática os seus ensinamentos e semeando em todos os lugares a semente da unidade, do bem e da paz.  Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ.

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

A parábola do semeador

Referência: Mt 13,1-23

Caros irmãos e irmãs

A Igreja nos convida neste domingo a lançar um olhar para o campo. Jesus dirige-se à multidão com a conhecida parábola do semeador, onde o próprio Jesus se identifica com aquele que semeia, que difunde a boa semente da Palavra de Deus, e constata os vários efeitos que ela alcança, de acordo com o modo de acolher o seu anúncio. Alguns ouvem superficialmente a Palavra, mas não a acolhem; outros a recebem, mas não têm constância e perdem tudo; há ainda aqueles que são dominados pelas preocupações e seduções do mundo; e, finalmente, aqueles que ouvem de modo receptivo, como o terreno bom e então a Palavra produz fruto em abundância.

As parábolas têm, primeiramente, um sentido didático: Jesus falava do Reino com imagens tiradas da natureza e das situações da vida diária do povo. Era fácil compreender, era acessível aos simples.  Mas, por serem simples e cheias de figuras, as parábolas somente poderiam ser compreendidas por quem tivesse um coração humilde e bom.

O quadro apresentado no texto supõe as técnicas agrícolas usadas na Palestina de então: primeiro, o agricultor lançava a semente à terra; depois, é que passava a arar o terreno. Assim, compreende-se porque uma parte da semente caiu à beira do caminho, outra em lugares pedregosos onde não havia muita terra e outra entre os espinhos. Isto acontecia porque a semeadura não era feita depois que a terra estava preparada, mas antes.  O agricultor semeava e somente depois passava o arado.

As diferenças do terreno significam, nesta comparação, as diferentes formas como é acolhida a semente. Mas o que é significativo no texto é a quantidade surpreendente de frutos que a semente lançada na “boa terra” produz: trinta, sessenta, cem por um.  Dizem que cinquenta por um é o máximo, nas melhores terras, mas a parábola coloca-se acima das estatísticas.  Levando em conta que, na época, uma colheita de sete por um era considerada farta, os trinta, sessenta e cem, por um deviam parecer aos ouvintes de Jesus algo de surpreendente, de exagerado. Um grande milagre.

E o verdadeiro protagonista desta parábola é precisamente a semente, que produz frutos, em conformidade com o terreno onde ela caiu. Os primeiros três terrenos são improdutivos: ao longo da estrada a semente é comida pelos pássaros; no terreno pedregoso, os rebentos secam-se imediatamente porque não têm raízes; no meio dos arbustos a semente é sufocada pelos espinhos. E no terreno fértil, e somente neste terreno, a semente germina e produz frutos.

Jesus não se limitou a apresentar a parábola; também a explicou aos seus discípulos. A semente que caiu ao longo do caminho indica quantos ouvem o anúncio do Reino de Deus, mas não o acolhem; assim, sobrevém o Maligno e a leva embora. Com efeito, o Maligno não quer que a semente do Evangelho germine no coração dos homens. Esta é a primeira comparação.

O segundo caso consiste na semente que caiu no meio das pedras: ela representa as pessoas que escutam a palavra de Deus e que a acolhem imediatamente, mas de modo superficial, porque não têm raízes e são inconstantes; e quanto se apresentam as dificuldades e as tribulações, estas pessoas deixam-se abater repentinamente.  É quando o homem se fecha à Palavra de Deus e, consequentemente, esta Palavra de Deus torna-se ineficaz.

O terceiro caso é o da semente que caiu entre os arbustos: Jesus explica que se refere às pessoas que ouvem a palavra mas, por causa das preocupações mundanas e da sedução da riqueza, é sufocada. Finalmente, a semente que caiu no terreno fértil representa quantos escutam a palavra, aqueles que a acolhem, cultivam e compreendem, e ela dá fruto.

Jesus mesmo explica o sentido da parábola: a semente é a Palavra de Deus que é lançada nos nossos corações e é sempre fecunda.  Todos os dias Jesus semeia. Quando aceitamos a Palavra de Deus e deixamos que ela entre na nossa vida, certamente ela irá germinar, crescer e dará frutos.  Jesus nos diz que as sementes, que caíram à beira do caminho, em meio às pedras e em meio aos espinhos não deram fruto. Pode acontecer isto, também com cada um de nós. Podemos ser como as sementes que caíram à beira do caminho: escutamos o Senhor, mas na nossa vida não muda nada, continuamos no mesmo erro, nada altera.

Também pode acontecer de sermos como aquele terreno pedregoso: acolhemos Jesus com entusiasmo, mas somos inconstantes;  diante das dificuldades, não temos a coragem de ir contra a corrente. Também podemos ser como aquele terreno com espinhos: o mundo acaba sufocando em nós as Palavras do Senhor.

Todos nós, no fundo, queremos ser um terreno bom, onde a Palavra de Deus possa dar muitos frutos.  Se o semeador é Jesus e a semente é a Palavra, o terreno somos nós. E aqui está a nossa responsabilidade: tornar o nosso coração uma terra boa!  Nós seremos o terreno bom na medida em que tivermos a capacidade de nos deixar transformar pelo Evangelho, de adequar a ele nosso modo de pensar, de julgar os valores; numa palavra, de nos converter.

A parábola do semeador e da semente é, sobretudo, um convite a refletir sobre a importância e o significado da Palavra de Jesus.  Pedro já confessara a Jesus: “Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,69). Como de fato, também nós devemos estar sempre convictos de que “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4,4).

Que a nossa vida seja como aquele “terreno bom” onde o Semeador divino possa estar. Sejamos também semeadores incansáveis da paz, do perdão e da esperança.  O acolhimento do Evangelho não depende, nem da semente, nem de quem semeia; mas depende da qualidade da terra.

Esta parábola deve falar a cada um de nós e nos deve fazer recordar que somos o terreno onde o Senhor lança todos os dias a semente da sua Palavra e do seu amor. E podemos perguntar: Com que disposição estamos acolhendo a Palavra de Deus?  Ela está fazendo efeito em nós?  Também não podemos esquecer que, de certo modo, também somos semeadores. Deus lança sementes boas, e também aqui podemos interrogar-nos: que tipo de semente sai do nosso coração e da nossa boca? As nossas palavras podem fazer muito bem, mas também podem fazer mal. Podem curar e podem ferir. Podem animar e podem deprimir.

A Virgem de Nazaré soube ser o terreno bom onde a semente da Palavra de Deus foi acolhida e guardada em seu coração (cf. Lc 2,19).  Com o seu exemplo, peçamos também a ela que nos ensine a acolher a Palavra, a cultivá-la e a fazer frutificar em nós e nos outros. Terreno bom foram também os apóstolos e os discípulos de Jesus, que acolheram a Palavra e a pregaram ao mundo e, em muitos casos, irrigaram a terra com o próprio sangue.  Podemos também lembrar de muitos Santos que souberam fazer da Palavra de Deus, uma luz para os seus caminhos.  Lembremos ainda de São Bento, que ao longo da sua vida fez da Palavra de Deus uma escuta profunda e perseverante.  Seguindo estes exemplos, saibamos ser a terra boa, onde a semente da Palavra do Senhor possa produzir muitos e muitos frutos.  Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

…Eu vos darei descanso.

Referência: Mt 11,25-30

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo faz ressaltar a alegria que emerge de um coração de quem percebe a grandeza do amor de Deus.  Mas sublinha que a descoberta deste amor está reservada para os humildes e simples, tema que perpassa as leituras deste domingo.

A primeira leitura nos faz ler um texto do livro do profeta Zacarias (cf. Zc 9,9-10), onde temos uma referência ao cortejo real: “Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta” (v. 9).  Nota-se pelo texto a humildade do rei, através da forma como ele vem montado, sobre um animal de carga, e não sobre o cavalo, como ostentavam os reis e monarcas da época. O cavalo era a montaria própria do rei que ia para a guerra, o jumento era usado quando se queria expressar um caráter amistoso.  Além disso, o texto do profeta Zacarias afirma que esse rei eliminará todo poderio militar e seu domínio difundirá a paz por toda a terra, entre todas as nações.

Na segunda leitura continuamos a ler a carta de São Paulo aos Romanos, onde o autor expõe, de forma serena e clara, a sua reflexão sobre a salvação. Na perspectiva do Apóstolo Paulo, a salvação é um dom não merecido, porque vivemos mergulhados no pecado (cf. Rm 1,18-3,20).  Deus oferece a salvação aos homens por pura bondade, através de Jesus Cristo (cf. Rm 5,12-8,39).

O texto que hoje nos é proposto faz parte de um capítulo em que São Paulo reflete sobre a vida no Espírito. O pensamento teológico de Paulo atinge aqui um dos seus pontos culminantes: todos os grandes temas paulinos  se cruzam neste texto. O Espírito Santo aparece como o elemento fundamental que dá unidade a toda esta reflexão. Ele está presente por detrás desse projeto salvador que Deus tem em favor do homem e do qual São Paulo não se cansa de dar testemunho.

Ora, Jesus ofereceu aos seus discípulos o mesmo Espírito. Os discípulos precisam estar conscientes de que, se viverem como Jesus e se fizerem da vida um dom a Deus e aos irmãos, receberão essa mesma vida nova e definitiva em Cristo Jesus.  São Paulo convida os cristãos a tirarem as conclusões práticas desta realidade: se viverem “segundo a carne”, morrerão, ou seja, não entrarão no Reino de Deus; mas, se viverem segundo o Espírito, ressuscitarão para a vida nova.

Temos neste texto uma das mais interessantes e sugestivas antíteses paulinas: a “carne” e o “Espírito”. Viver “segundo a carne” é, na perspectiva de Paulo, viver em oposição a Deus, ou seja, viver fechado a Deus, alheio aos ensinamentos do Senhor e aos seus mandamentos. Enquanto que “viver segundo o Espírito” é viver em relação com Deus, escutando as suas propostas e sugestões, na obediência aos projetos de Deus e na doação da própria vida aos necessitados.

A passagem evangélica, por sua vez, nos traz um convite consolador de Jesus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (v. 28).  É também um convite a ir ao encontro de Jesus e a aceitar os seus ensinamentos. Jesus promete dar a todos o descanso, mas sob uma condição: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (v. 29).

Entre os fariseus do tempo de Jesus, a imagem do “jugo” era aplicada à Lei de Deus, a suprema norma de vida (cf. Eclo 6,24-30).  Entende-se como jugo, uma estrutura ou barra de madeira que é colocada sobre um ou dois animais que estejam puxando uma carga pesada. O jugo equilibra a carga, tornando-a mais fácil de ser levada. Além de seu significado literal, o conceito de jugo também aparece em muitas escrituras como metáfora de escravidão ou servidão (cf. Jr 28,2).

Para os fariseus, por exemplo, a Lei não era um “jugo” pesado, mas um “jugo” glorioso, que devia ser carregado com alegria.  Na realidade, tratava-se de um “jugo” pesadíssimo. A impossibilidade de cumprir, no dia a dia, os 613 mandamentos da Lei escrita e oral, criava consciências pesadas e atormentadas. Os crentes, incapazes de estar em regra com a Lei, sentiam-se condenados e malditos, afastados de Deus e indignos da salvação. A Lei aprisionava em lugar de libertar e afastava os homens de Deus ao invés de os conduzir para a comunhão com Ele.

Os “sábios e inteligentes” estavam convencidos de que o conhecimento da Lei lhes dava o conhecimento de Deus. A Lei era o canal de união com Deus; por isso, apresentavam-se como detentores da verdade, representantes legítimos de Deus, capazes de interpretar a vontade e os planos divinos.

Mas o “jugo” de Cristo é a lei do amor, é o seu mandamento, deixado por ele aos seus discípulos (cf. Jo 13,34; 15,12). O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus.

No evangelho deste domingo Jesus faz um convite aos humildes para que aceitem o seu “jugo”, que é o descanso e a tranquilidade.  Como de fato, mansidão e humildade são duas virtudes postas em prática por Jesus, ao longo de seu ministério.  Jesus também quis nos ensinar este caminho.  Ele se fez manso e humilde para poder dizer-nos: Aprendei de mim (v. 29).

Por isto, só quem se entrega a Deus, pelo ato de total abandono que é o amor, pode ser assumido pela graça que nos dá a real participação no reino de Deus, que sempre se inicia e se planifica no amor.  Por isso também, seu jugo é leve, porque nos liberta do farto da morte e nos faz participantes da vida de Deus.  Só o divino amor, que opera em nós a fé, pode nos fazer andar até ele: “Vinde a mim, todos vós” (v. 28).

Um dos mais belos frutos da humildade é esse que está no evangelho deste domingo: o ter os olhos abertos para entender as verdades de Deus, enquanto que os soberbos e os arrogantes e aqueles que presumem ser sábios, ficam alheios diante destes ensinamentos: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e aos doutores e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Jesus repete também a tantos inteligentes e sábios honestos que existem no mundo de hoje seu convite: “Vinde a mim, todos vós, que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (v. 28).  E que este convite possa chegar também a cada um de nós.

Peçamos ao Senhor que ele nos conceda também um coração puro e simples, desprendido e disponível para o outro.  Um coração capaz de olhar com amor misericordioso para todos, sem julgar ninguém. Um coração puro e simples, capaz de compreender que tudo é dom gratuito de Deus e tudo deve dar gratuitamente.  Um coração aberto ao perdão, que não seja invejoso e não guarde rancor e tudo desculpa (cf. 1Cor 13,4-7).

Que a Virgem Mãe nos ajude a ter um coração puro e simples e nos faça aprender de Jesus a verdadeira humildade, a carregar com decisão o seu jugo leve, para experimentar a paz interior e tornarmos capazes de confortar aqueles que percorrem com provações o caminho da vida.  Assim seja.

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ