VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro

(Referência: Mt  6,24-34)

The Money-Lenders, painting by Quentin Metsys at the Galleria Doria Pamphilj in Rome

Meus caros irmãos e irmãs,

O evangelho deste domingo faz parte do Sermão da Montanha e apresenta como tema central o desapego dos bens materiais e ressalta o sentido cristão da Providência. O evangelista São Mateus faz transparecer a forte advertência de Jesus contra os tesouros deste mundo e mostra o apego às riquezas como uma real escravidão. A exortação não deixa de ser também um desdobramento do Decálogo, em particular do primeiro mandamento, tal como o próprio Deus o declarou através dos seus profetas (cf. Ex 20,3-5).

Os ensinamentos de Jesus fazem um eco imediato do apelo solene apresentado pelo livro do Deuteronômio: “Ama o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças” (Dt 6, 5). E no Antigo Testamento ainda temos uma outra prescrição do Senhor: “Não terás outro deus além de mim” (Ex 20,3).  Jesus resumiu esses deveres do homem para com Deus nestas palavras: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente” (Mt 22, 37).

Nas duas liturgias dominicais passadas, Jesus nos ensinava qual deve ser a nossa atitude para com os outros. No Evangelho deste domingo, ele nos revela qual deve ser a nossa relação com os bens materiais e o lugar que eles devem ter na nossa vida e nos alerta: “Ninguém pode servir a dois senhores: pois ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v. 24).

A referência à incompatibilidade entre Deus e o dinheiro nos convida a uma particular reflexão neste campo. O dinheiro é o verdadeiro centro do poder no mundo. Ele compra consciências, poder, bem-estar, projeção social e, por ele, quantas mortes acontecem e o homem chega a renunciar à própria dignidade e, pelo dinheiro, acaba destruindo a natureza e desfigura até a obra da criação de Deus.

Quando Jesus diz: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” Em outras palavras, o texto quer nos dizer que somente Deus deve ser o alicerce da nossa existência.  O cristão deve distinguir-se pela absoluta confiança no Pai celeste, como foi para Jesus. É precisamente a relação com Deus Pai que dá sentido a toda a vida de Cristo, às suas palavras, aos seus gestos de salvação, até à sua paixão, morte e ressurreição. Com o seu testemunho de vida, Jesus demonstrou o que significa viver com os pés bem firmes no chão, atentos às situações concretas do próximo, e ao mesmo tempo, tendo sempre o coração no Céu, imerso na misericórdia de Deus.

Jesus nos coloca diante de dois senhores diametralmente opostos no que concerne aos seus respectivos interesses: Deus e o dinheiro.  A profissão de fé em Deus exige de nós crença e amor total, além da prática dos mandamentos e das virtudes. O dinheiro, por sua vez, nos inspira à ambição, vaidade, orgulho, menosprezo do próximo, nos faz ser seu servo e nos distancia de Deus.

O texto evangélico nos diz: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v. 24). O verbo servir, empregado neste versículo, refere-se à situação de um servo que, sem restrição alguma, entrega sua vontade a um senhor.  O Apóstolo São Paulo já nos adverte: “Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça?” (Rm 6,16). E São Pedro também ressalta: “O homem é feito escravo daquele que o venceu” (2Pd 2,19).  O apego às riquezas constitui, a partir de certo grau, uma real escravidão. As faculdades do escravo pertencem ao senhor, a quem deve prestar contas de todo o seu serviço.

O mal não está em ter dinheiro e servir-se dele.  O grande erro está quando o homem deixa que o dinheiro tome conta do seu coração e permite que ele se transforme em seu patrão.  Existem muitos casos de pessoas que abandonaram a fé e até mesmo a religião, porque deixaram se levar pelo fascínio dominador da riqueza.

Sempre que a lógica do “ter” domina o coração do homem, o dinheiro ocupa o lugar de Deus e passa a ser o seu ídolo.  Normalmente os ídolos acabam destruindo o homem. E Jesus apresenta o dinheiro como o pior de todos.  O dinheiro pode proporcionar roupas finas, prazeres, carros, viagens etc.  Mas isto pode ser perigoso, pois a pessoa pode tornar-se dependente do dinheiro e, com isto, pode perder a sua própria dignidade, passa a enganar os outros e tornando-se infiel à sua própria condição de filho de Deus.  O perigo ocorre quando Deus passa a ocupar um lugar secundário na vida do homem; e o dinheiro torna-se uma referência fundamental para a sua vida.

Também pode ocorrer o risco de alguém ficar lisonjeado com o dinheiro que ganha através do seu trabalho e, com isto, esquecer-se de Deus, por isto, a grande lição do Evangelho: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará a um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24).  Estas palavras de Jesus devem ecoar em nosso coração e, com sinceridade, devemos questionar a nós mesmos a quem servimos e quem é o centro da atenção da nossa vida.

Jesus também nos recorda que Deus nos conhece e que providencia tudo para nós. Os pássaros não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns, e encontram sempre o que comer. Os lírios do campo não trabalham nem fiam e são vestidos esplendorosamente. Pois bem, se para os animais e os vegetais, Deus assim providenciou, muito mais para nós, que somos seus filhos, criados à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26).

Os ensinamentos de Jesus para este domingo podem dar margem a mal-entendidos, se a interpretação ocorrer na linha da acomodação e da passividade. Jesus não quer nos dispensar do trabalho.  O Evangelho precisa ser compreendido em todo o seu conjunto harmonioso. O trabalho humano é algo digno e necessário, como bem ressalta o Apóstolo São Paulo, lembrando da obrigação do trabalho; chegando até mesmo a dizer que quem não quer trabalhar não tem o direito de comer (cf. 2Ts 3,10-12).

Nem mesmo as aves do céu deixam de lutar pela vida. Comparada com o homem, a ave é passiva, não prepara nem organiza sua comida, mas a encontra a partir do seu vôo. O homem, por sua vez, deve viver numa constante atitude de quem foi agraciado, pois recebeu ele inúmeros dons, frutos do amor e da misericórdia de Deus para com cada um dos seus filhos.  Na verdade, a sentença que deve dominar todo o seu horizonte deve ser sempre esta: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33), como enfatiza o Evangelho.

A proposta de Jesus é um convite a confiarmos totalmente na bondade e na solicitude paternal de Deus, mas, além disso, devemos estar comprometidos com o bem e a justiça, trabalhando todos os dias, a fim de que, o mundo novo da justiça, da verdade e da paz, se concretize.

Invoquemos uma vez mais a Virgem Maria, a quem chamamos de Mãe da divina Providência, que ela interceda por nós que estamos a caminho da terra prometida, que ela nos mostre o modo simples de viver, confiantes na proteção do Deus.  Assim seja.

 

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

O amor aos inimigos

Referência: Mt 5,38-48

Caros irmãos e irmãs,

Nestes últimos domingos do tempo comum, a liturgia vem alimentando nossa espiritualidade com significativos textos. Para hoje, somos convidados a meditar um dos tesouros da radicalidade evangélica apresentada por Jesus aos seus discípulos, onde Ele continua a propor, de forma muito concreta, a sua Lei de santidade.

Em um primeiro momento, o Evangelho faz uma referência à chamada “lei de talião” (vv. 38-42), consagrada na conhecida fórmula “olho por olho, dente por dente” e que aparece em vários textos do Antigo Testamento (cf. Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21). Trata-se de uma expressão que se tornou proverbial, e que descreve a falta de compaixão, a recusa de usar a clemência em relação ao culpado. Essa lei tinha sido imposta para defender o réu das vinganças sem limites, das represálias brutais, dos excessos nas punições.  Nos tempos antigos, quem conseguisse capturar o responsável por alguma maldade cometida, podia submetê-lo a punições severas, visando a dissuadi-lo, como também dissuadir os demais, a não cometer erros semelhantes.  A pessoa teria que pagar não só pelo seu crime, mas também por todos os outros crimes cujos responsáveis não tinham sido descobertos.

Esta vingança era um método antiquado e desumano de praticar a justiça, mas servia para manter a ordem naquela sociedade.  Neste contexto social, foi introduzida esta nova norma: “Olho por olho, dente por dente”, alicerçada sob a ideia da recusa do perdão, baseada em uma justiça exigente de igualdade, que acaba fazendo surgir, pela sua própria dureza, um convívio atroz.

Contudo, Jesus propõe algo novo, pois, na sua perspectiva, é preciso interromper o curso da violência e, para isso, propõe aos seus discípulos a não resposta às eventuais provocações e a não retribuir o outro com o mal, mas com o bem.  O Senhor nos adverte não só a receber com paciência os golpes que nos ferem, mas a apresentar com humildade a outra face. A finalidade da lei era ensinar a não fazer ao outro aquilo que não queremos que nos façam. Por isto, somos chamados a amputar as nossas más ações.

Com o objetivo de tornar mais clara a sua proposta, Jesus apresenta alguns casos concretos. Inicialmente, pede para não responder com a mesma moeda àquele que nos agride fisicamente, mas que se desarme o violento, oferecendo a outra face (v. 39); em seguida, Jesus recomenda que, diante de uma exigência exorbitante, como a entrega da túnica, isto é, da peça de roupa mais fundamental, que não era tirada senão àquele que era vendido como escravo (cf. Gn 37,23), se responda entregando ainda mais (v. 40).

Um outro exemplo que o Evangelho nos apresenta,  refere-se ao amor aos inimigos: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (v. 44). Trata-se de uma nova norma apresentada por Jesus.  Uma novidade que exige uma autêntica revolução das mentalidades. Para Jesus, o amor deve atingir a todos, sem exceção, inclusive aos inimigos. Fica, assim, abolida qualquer discriminação; sendo retiradas todas as barreiras que separam os homens. Isto porque Deus também não faz discriminação no seu amor. Ele é o Pai que não distingue entre amigos e inimigos, que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre bons e maus, e oferece o seu amor a todos, inclusive aos indignos (v. 45). Esta é a nova visão do mundo e dos seus valores que o Cristo veio trazer à terra.

Para avaliar adequadamente o significado da lei em nossa vida espiritual é bom estarmos advertidos de que a retidão e a sinceridade são conquistas laboriosas que podemos atingir com o auxílio da graça do Senhor. A atitude postulada pelo Evangelho consiste em não apenas em suportar passivamente as injúrias recebidas, mas colocar uma iniciativa positiva de amor e de bem: amar o inimigo, retribuir com o bem em troca do mal.  É também o que nos diz o apóstolo São Paulo: “A ninguém pagarás o mal com o mal… não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12,14s).

Nisto, observa-se a identidade que devemos ter para com o nosso Criador, quando o Evangelho também acentua: “Haveis, pois, de ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Estas palavras são dirigidas a cada batizado. Somos chamados a imitar a santidade e a perfeição de Deus, sendo perfeitos na compaixão, no amor, no perdão e na misericórdia.

Com estes ensinamentos, Jesus nos mostra a raiz e a causa de todos os males, como também o remédio que nos traz todos os bens.  A nossa perfeição é viver como filhos de Deus, cumprindo concretamente a sua vontade. Isto pode parecer uma meta inatingível, porém, as normas concretas apresentadas pelo Evangelho mostram como é o comportamento de Deus, o que deve se tornar também a regra do nosso agir. Na verdade, a nossa linguagem deve ser sempre a do Evangelho.

Os ensinamentos do Senhor têm como objetivo a nossa purificação para não incorrermos ao pecado.  Neste sentido, o próprio Cristo é o maior exemplo para todos nós, pois ele mesmo nos diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e achareis repouso para as vossas almas” (Mt 11,29).

E na segunda leitura, São Paulo ainda nos adverte: “Sois templo de Deus… o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós” (1Cor 3, 16-17). Neste templo que somos nós, celebra-se uma liturgia existencial: a da bondade, do perdão, do serviço; numa palavra, a liturgia do amor.  O templo que somos nós, não pode ser profanado e exige vigilância e zelo. Se estivermos  conscientes desta realidade, e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro, eloquente e eficaz.  Nós somos como uma construção sagrada onde Deus mora.

O convite de Cristo a nos deixarmos envolver pela sua exigente proposta evangélica ressoa com vigor para cada um de nós.  A liturgia da Palavra deste domingo nos estimula a rever a nossa relação com Jesus, a procurar o seu rosto sem nos cansarmos.  E para testemunharmos com maior zelo e ardor estas atitudes de santidade, saibamos amar aqueles que nos são hostis; abençoemos quem fala mal de nós; saudemos com um sorriso a quem talvez não o mereça; saibamos esquecer as humilhações sofridas e deixemo-nos guiar sempre pelo Espírito de Cristo.

Somos hoje chamados à santidade e à perfeição. O caminho do cristão é um caminho que exige, de cada ser humano, um compromisso sério.  Já na primeira leitura (cf. Lv 19,1-2.17-18), temos um apelo veemente à santidade: viver na comunhão com o Deus e também com o próximo.

Saibamos colocar em prática as palavras do Cristo que assim diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está nos Céus” (Mt 5, 44-45). Quem acolhe o Senhor na própria vida e o ama com todo o coração é capaz de um novo início, um começar de novo. Se estivermos conscientes desta realidade e a nossa vida for por ela profundamente plasmada, então o nosso testemunho torna-se claro e eficaz.

Invoquemos a Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, para que nos ensine a viver no amor e na unidade.  Assim seja!

 

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

 “Assim foi dito aos antigos; eu, porém, vos digo (…)”

Referência: Mt 5,17-37

Caros irmãos e irmãs!

O evangelho deste domingo sublinha que o “pleno cumprimento” da lei consiste principalmente na obediência às regras estabelecidas. Obedecer corretamente a uma lei é procurar descobrir e praticar a intenção do legislador, o que ele tinha em mente ao promulgá-la. É o que chamamos espírito da lei. Isso vai muito além da obediência literal, que só vê o que a lei diz em si, sem considerar o seu sentido mais profundo.

No caso da Sagrada Escritura, as leis do Antigo e do Novo Testamento vieram do mesmo autor, que é Deus. Suas palavras são as de um Pai que só quer o bem dos filhos. Também nós devemos receber essas leis com amor de filhos. São Paulo já ressalta: “Não és mais escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro; tudo isso, por graça de Deus” (Ef 4,7). Fazemos parte da família de Deus, é assim que devemos ver as leis que Ele nos deixou.

Deus implantou na alma humana uma luz intelectual pela qual o homem conhece que o bem deve ser praticado e o mal, evitado.  Na primeira parte do Evangelho deste domingo (v. 17-19), o evangelista São Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai (cf. Ex 20,1-21). A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso ser vista como a expressão concreta de uma adesão total a Deus. Os fariseus achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas. Eram eles rigorosos na observância da letra da Lei, mas não eram capazes de penetrar no âmago de seu espírito, onde está a verdade, a justiça, o amor.

Para iluminar esta verdade, Jesus dá alguns exemplos práticos que a Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece.  A Lei de Moisés prescreve o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspectiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao outro.  Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos de Jesus não se limitam a cumprir a letra da Lei; eles têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os levem a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do outro.

Não basta não matar, é preciso não se encolerizar contra o outro, não lhe dirigir palavras injuriosas.  Se uma arma pode matar o corpo, uma palavra dura pode matar o coração, por isto Jesus deixa para os cristãos uma norma a ser observada.  A este propósito, São Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação, a inimizade pode ser uma forma de matar o outro, por isto, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois é uma mentira a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos (cf. Mt 5,24).

A vida humana é sagrada, por isto deve ser respeitada, pois desde a sua origem, postula a ação criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. Só Deus é o Senhor da vida, desde o seu começo até ao seu termo: ninguém, em circunstância alguma, pode reivindicar o direito de dar a morte diretamente a um ser humano inocente (cf. CIgC n. 2258).

A Sagrada Escritura, na narrativa da morte de Abel pelo seu irmão Caim (cf. Gn 4,8-12), revela, desde os primórdios da história humana, a presença da cólera e da inveja no coração do homem, consequências do pecado original. O homem tornou-se inimigo do seu semelhante. No evangelho deste domingo é lembrado este preceito da lei de Deus: “Não matarás” (Mt 5, 21) e acrescenta a proibição da ira, do ódio e da vingança. Cristo exige do seu discípulo que ofereça a outra face (Mt 5, 22-26.38-39) e que ame os seus inimigos (Cf. Mt 5, 44).

No evangelho temos ainda uma referência ao adultério: “Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” (v. 27-28). E podemos ainda ler: “Não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19,6).  Adultério é o termo que designa a infidelidade conjugal. Aquele que o comete, falta aos seus compromissos. Viola o sinal da aliança, que é o vínculo matrimonial, lesa o direito do outro cônjuge e atenta contra a instituição do matrimônio, ferindo o contrato em que assenta. Compromete o bem da geração humana e dos filhos que têm necessidade da união estável dos pais (cf. CIgC, n. 2381).

A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema, por isto disse o Senhor que olhar com desejos libidinosos para uma mulher já é cometer adultério no coração.  E, mais ainda: se na Lei antiga tinha entrado o divórcio, a lei do Evangelho não admite o divórcio.  Quem repudiar sua mulher com a qual estiver legitimamente casado, faz com que ela adultere; e quem se casar com a repudiada comete adultério (v. 31-32). Jesus veio restaurar a criação na pureza das suas origens.

A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei precisa ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida (cf. Gn 2,18-24). Amar quer dizer não só desejar, mas respeitar, merecer e aprender o mútuo respeito, tendo sempre diante dos olhos o vínculo que no matrimônio une dois seres humanos. Amar é ter a consciência de que tal união é indissolúvel, dura, por instituição divina até a morte.

No dia do casamento, ambos disseram um para o outro: “Recebo-te por minha esposa… recebo-te por meu esposo e te prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te todos os dias da minha vida”. Este é o vínculo matrimonial que surge do amor recíproco, se exprime mediante o juramento conjugal. Cada união nasce através do pacto entre um casal, mas tendo como base a unidade e a indissolubilidade, ordenado à procriação e à educação da prole (cf. cân. 1055), sinal da estabilidade da família, que sempre deve ser respeitada.

A primeira comunhão que se instaura e se desenvolve entre os cônjuges, em virtude do pacto de amor conjugal, o homem e a mulher “já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19,6), e são chamados a crescer continuamente nesta comunhão através da fidelidade quotidiana à promessa matrimonial do recíproco dom total (cf. FC, 19).

Em Caná da Galiléia, ao lado dos esposos recém-casados estava a Virgem Maria, a mãe do Senhor. Ela disse aos servos: “Fazei tudo que Ele vos disser” (Jo 2,5). Que junto a todos os cônjuges, desde o início do matrimônio, possa estar ela a mostrar o caminho a seguir e, com sua presença materna, possa interceder sempre por cada casal, para que o ambiente familiar seja sempre o lugar da alegria e da paz. Que ela guie também os nossos passos na fidelidade à Lei que Cristo deixou para nós, para posamos ser conduzidos, com o coração dilatado, à vida plena. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A – 2017

 Sal da terra e luz do mundo

Referência: Mt 5,13-16

Caros irmãos e irmãs!

Relemos neste domingo umas das mais belas imagens com que Jesus comparou seus discípulos, na maioria pescadores que deixaram tudo para segui-lo. A eles disse: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14). Inicialmente, Jesus chama seus discípulos de sal da terra porque o sal serve para preservar muitos alimentos da corrupção.  Essa é a missão dos discípulos.  Eles devem salvar os homens da corrupção moral.  O sal serve ainda para dar gosto e sabor, e a missão dos discípulos de Jesus é semelhante:  devem eles preservar e salvar os homens da corrupção do pecado por meio do exemplo e da palavra.

Jesus adverte que se o sal se corromper, para nada mais serve, por isto é lançado fora e pisado pelos homens (v. 13).  Na Palestina, as pessoas pobres frequentemente recolhiam sal nas margens do mar morto.  Este sal, como vinha cheio de impurezas, facilmente se deteriorava, por isto era jogado fora e pisado pelos homens.  Os orientais, naqueles tempos, tinham o costume de jogar na rua todo e qualquer lixo. Vale lembrar que naquele tempo a população era menor e não adotava os costumes de higiene que temos hoje, como a coleta de lixo. O sal corrompido se tornava lixo e era então pisado e desprezado por todos.

E Jesus compara os seus discípulos ao sal, pois cabia aos discípulos transmitir à comunidade o sabor dos ensinamentos do Divino Mestre.  O sal é feito para dar gosto, para dar sabor aos alimentos.  É o sal que tempera os alimentos.  “Temperar” quer dizer dar gosto justo; nem sal demais, nem sal de menos.  Ele vem a significar, então, que o discípulo de Cristo deve representar na comunidade o equilíbrio, o bom senso, a prudência própria do homem sábio, o homem da harmonia, da tranquilidade e da paz.

O sal é a primeira das imagens à qual Jesus apela para definir a identidade de seus discípulos.  Elemento familiar a qualquer cultura, desde sempre foi empregado para dar sabor à comida.  Inclusive, até a aparição do frio industrial, geladeira ou frigorífico, era praticamente o único meio para preservar os alimentos que se corrompem facilmente, especialmente a carne.

Mas, além disso, na cultura bíblica e judaica, o sal significava também a sabedoria, por esta razão, nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber e sabedoria pertencem à mesma raiz semântica e família linguística.  Neste sentido, o sal acaba sendo um simbolismo feliz, de grande riqueza expressiva, para sinalizar a missão do seguidor de Jesus no meio da sociedade.

O sal é ainda um protagonista muito especial no âmbito culinário.  Sua presença discreta na comida não é detectada; mas sua ausência não pode ser dissimulada.  O sal dissolve-se completamente nos alimentos e se perde em agradável sabor.  Essa é sua condição: passar despercebido, mas atuar eficazmente.

O simbolismo da luz, por sua vez, tem um longo e fecundo itinerário bíblico: desde a primeira página do Livro do Gênesis, que descreve a criação da luz por Deus, passando depois para a coluna de fogo que guiava o povo israelita em seu êxodo do Egito, e continuando pela luz dos tempos messiânicos anunciada pelos profetas, especialmente pelo profeta Isaías, para chegar à plena luz da revelação de Cristo Jesus.  Ele afirmou de si mesmo: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não anda em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

E Jesus disse também:  “Vós sois a luz do mundo” (v. 14).  Naturalmente, um reflexo da grande luz da verdade e da santidade, que é o próprio Cristo.  Acende-se se uma luz para que ilumine.  Ninguém acende uma lâmpada para escondê-la debaixo de uma vasilha, mas para colocá-la em lugar alto, a fim de que brilhe para todos os que estão na casa.  Ninguém deve fazer o bem com a finalidade de ser visto,  seria vaidade.  Mas, por outro lado, sua vida deve ser tão digna e tão pura, que possa servir de luz para o caminho dos outros.

Jesus compara seus discípulos à luz, por isto, devem eles iluminar o mundo com a doutrina que receberam de Jesus.  Iluminar com a vida exemplar e santa e devem ter em mira a glória de Deus e a salvação das almas, luz para iluminar o caminho, para que todos caminhem em busca da verdadeira fé.  A verdade e a doutrina da salvação devem ser propagadas por toda parte.  Jesus diz que ninguém acende uma luz para escondê-la.  A fé cristã é uma luz, a única luz e deve estar acima de tudo para iluminar.

Destas considerações nasce uma lição.  As leituras de hoje nos convergem em uma direção: o testemunho que devemos dar de nossa vida e o serviço que podemos prestar aos outros.  E neste serviço Jesus concretiza a nossa identidade: luz e sal da terra. Bela maneira de expressar a nossa tarefa, a tarefa de cada cristão: ser sal da terra, ser luz do mundo, sal humilde, derretido, saboroso, que atua desde dentro, que não se nota, mas que é indispensável, a tal ponto que se perder o seu sabor não serviria mais para nada.

Somos chamados a ser aquele que ilumina. E aquele que crê em Jesus se converte em luz para si mesmo e para os outros.  A palavra do Senhor era para o povo Israelita “a lâmpada para os seus passos e luz em seu caminho” (Sl 118,105).   Também o novo Povo de Deus, a comunidade dos fiéis que seguem a Cristo, tem a missão de ser luz do mundo. A fé em Cristo é a luz do cristão.

No seu ensinamento, Jesus se serve de um dos elementos simbólicos mais significativos da vida humana.  A luz é símbolo de vida, de alegria e felicidade.  Está indissoluvelmente ligada à vida, a ponto de se identificar com ela.  A luz se torna símbolo do próprio Deus, da vida divina.  Deus não é só Criador da luz (cf. Gn 1,3-5), Ele se manifesta como luz que exprime sua glória, que salva e dá a vida ao homem (cf. Is 10,17; 60,19).  Neste sentido, ressalta o apóstolo Paulo: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Cor 1,5).

No Antigo Testamento, o Servo do Senhor é anunciado como “luz das nações” (Is 51,4).  A luz de Deus, a sua vida, apareceu visivelmente em Jesus (cf. Jo 1, 4.9).  Ele é a luz do mundo (cf. Jo 3,19) que ilumina todo homem.  Como o sol ilumina a estrada, assim o Cristo ilumina o caminho da humanidade para Deus, fonte de vida e de alegria.

Em forma exortativa, o evangelho dá uma indicação sobre testemunho do cristão:  “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5,16).  Esta expressão se liga a Is 58,7-10 e dá a este texto um significado novo.  O agir do cristão deve ser um espelho do agir de Deus, um reflexo de sua glória que não atrai a atenção para si, mas para Deus.

Para melhor compreender estas imagens, tenhamos presente que a Lei judaica prescrevia a educação de um pouco de sal em cima da oferenda apresentada a Deus, em sinal de aliança. Depois, a luz para Israel era o símbolo da revelação messiânica que triunfa sobre as trevas do paganismo. Os cristãos recebem portanto uma missão em relação a todos os homens: com a fé e com a caridade podem orientar, consagrar, tornar fecunda a humanidade.

Todos nós que recebemos o batismo somos também discípulos do Senhor e somos chamados, através da nossa vida cristã, a dar sabor aos mais diversos ambientes, para preservá-los da corrupção, como faz o sal, e a levarmos a todos a luz de Cristo com o testemunho de uma caridade genuína. Mas se nós cristãos perdermos sabor e cancelarmos a nossa presença de sal e luz, perderemos a eficiência.

Peçamos uma vez mais a intercessão da Virgem Maria, ela que também é chamada pelo povo cristão de Nossa Senhora da Luz, para que possamos ser, em todos os instantes, sal e luz para todos.  Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ