V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C

Um novo mandamento Jo 13, 31-35

Caros irmãos e irmãs, No evangelho deste domingo temos as palavras pronunciadas por Jesus aos seus discípulos, depois de lhes ter lavado os pés, na última ceia, imediatamente antes da sua Paixão: “Filhinhos… Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus sabe que lhe restam poucas horas de vida e sente a necessidade de deixar algumas instruções com características testamentárias. Inicia com a expressão “Filhinhos” (v. 33), fazendo lembrar um pai a transmitir aos seus filhos o que é essencial e verdadeiramente fundamental. Assim como os filhos consideram sagradas as palavras que o pai lhes diz no leito, antes da morte, também Jesus quer que os seus discípulos não esqueçam jamais as suas palavras. Jesus fala em um “novo mandamento”. A expressão “novo”, utilizada por Jesus, não significa que até então era este mandamento desconhecido. O próprio Jesus tinha recordado que amar a Deus e ao próximo era o mandamento maior da Lei antiga (cf. Mc 12,28-31). A novidade deste novo mandamento é que não se trata do antigo e conhecido mandamento que ordenava “amar ao próximo como a si mesmo” (Lv 19,18). O “novo” deste mandamento consiste, exatamente, no “como eu vos amei”. Nem a palavra amar, nem o mandamento do amor são novos. Novo é amar como Jesus, amar em Jesus, por causa de sua palavra impressa em cada página do evangelho. O Senhor indica que devemos amar como Ele nos amou. Ele amou a todos sem exceção, justos e pecadores. Na cruz, perdoou até os que o haviam condenado injustamente e rezou por eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). O verbo “agapaô” – traduzido do grego como amar, utilizado no texto, define o amor como sinal de manifestação pelo outro até ao extremo, o amor que não guarda nada para si, mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência desse amor é o próprio Jesus, como prescreve o complemento da frase: “como eu vos tenho amado”. Amar consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor, e isso sem limites. Jesus é a norma, agora traduzida em palavras, o que ele mesmo manifestou com seus atos, para que os seus discípulos tenham uma referência. O amor, igual ao de Jesus, que os discípulos devem manifestar entre si, será visível para todos (v. 35). Trata-se de um amor universal, capaz de transformar todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir ainda mais neste amor. O estilo divino desse amor de Cristo deve ser o modelo do nosso amor. De tal sorte que nossa presença junto aos irmãos seja uma sombra da presença do próprio Cristo. Um amor que presta em favor dos irmãos, os mais humildes serviços. Cristo se identifica com o outro, especialmente com os mais necessitados. É uma verdade que, mediante a fé, podemos ver o Cristo na pessoa do outro, pois será a partir deste amor a base do nosso julgamento final, pois ele mesmo disse: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber…”. E completa: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que deixastes de fazer” (Mt 25,40-45). Além de proclamar o mandamento do amor, Jesus deixou esta norma como sinal distintivo para os seus seguidores: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Por vontade expressa de Cristo é o amor o sinal de identificação de seus discípulos. O sinal que de agora em diante distinguirá seus discípulos deverá ser o amor mútuo. Como já nos diz o Evangelista São João: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus e odeia a seu irmão’ é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20s). E ainda frisa: “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14). Diante destas exigências apresentadas pelo evangelho, e lançando um olhar para cada um de nós, percebemos que somos fracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossa existência 2 há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas não podemos perder a esperança. O Senhor prometeu estar presente na nossa vida, nos tornando capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos os obstáculos. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo que Ele quer. Amar os outros como Jesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real o seu Sacrifício de amor que gera amor. A prática do amor mútuo é a expressão da fé em Jesus. O verdadeiro discípulo distingue-se pelo amor. A capacidade de amar-se mutuamente indica o quanto Jesus está agindo na vida do cristão. A presença salvadora de Jesus tem o efeito de desatar o nó do egoísmo, que afasta os indivíduos de seus semelhantes e, por consequência, de Deus também. Em sua carta aos coríntios São Paulo ressalta que o amor é superior a todos os dons extraordinários. O amor é maior do que o dom de língua. O amor é maior do que o dom de profecia e conhecimento. O amor é maior do que o dom de milagres. Sem amor, até as melhores obras de caridade ficam isentas de valor (cf. 1Cor 13,1-3). O amor é melhor por causa da sua excelência intrínseca e também por causa da sua perpetuidade. São Paulo define o amor como paciente e benigno, ou seja, o amor tem uma infinita capacidade de suportar e ter paciência com as pessoas, no sentido de reagir com bondade perante aqueles que o maltratam. São Paulo ainda explica que o amor não é ciumento, não é invejoso. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses e não se ressente com o mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. E, por fim, diz São Paulo que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,4-7). E ainda segundo São Paulo, dentre as virtudes teologias: fé, esperança e caridade, a maior de todas é a caridade, ou seja, o amor (cf. 1Cor 13,13). Os textos sagrados nos mostram como o amor ao próximo deve ser a bússola da nossa vida. Esse ensinamento deve ser aplicado às circunstâncias em que nos encontramos habitualmente. Podemos correr o risco de nos alegrarmos com o fracasso dos nossos inimigos. Há um mal intrínseco em nós mesmos. Podemos sentir um falso alívio quando vemos os nossos adversários fracassando e caindo, mas isto não é amor. O amor, além de perdoar, esquece e não mantém um registro do que foi dito e feito contra nós. A ausência de amor faz com que o cristão perca o seu significado diante de Deus. Possamos hoje questionar a nós mesmos: “Estou vivendo e compartilhando este amor que Jesus pede? Estou testemunhando a todos, com gestos concretos, o amor de Deus?” Saibamos haurir diariamente da relação de amor com Deus pela oração, a força para transmitir o anúncio profético de salvação a todas as pessoas com as quais convivemos. O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso, é preciso abandonar o caminho do erro, da arrogância e da violência, para obter posições de poder sempre maiores. Peçamos ao Senhor o auxílio necessário para colocarmos em prática este mandamento novo do amor que Ele nos ordena a praticar. E nos faça abrir de par em par as portas do nosso coração para perdoar e amar verdadeiramente todos os nossos irmãos. Interceda por nós também a Virgem de Nazaré, para que possamos aprender de Jesus a verdadeira humildade e, imbuídos do amor, possamos difundir para todas as pessoas os seus frutos de alegria de paz. Assim seja. D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA – ANO C

O Bom Pastor

Jo 10, 27-30

Caros irmãos e irmãs,

Este quarto domingo da Páscoa nos apresenta Jesus como o Bom Pastor.  O trecho evangélico traz estas palavras de Jesus: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” (Jo 10,27-30).  São quatro versículos que resumem a mensagem de Jesus e nos faz compreender o sentido e o significado da figura do Pastor, que é o tema central apresentado pela Liturgia da Palavra deste domingo.

A imagem do pastor vem de longe. No Antigo Oriente, os reis costumavam designar-se a si mesmos como pastores dos seus povos. No Antigo Testamento, Moisés e Davi, antes de serem chefes e pastores do Povo de Deus, foram efetivamente pastores de rebanhos. Nas dificuldades do período do exílio, diante do fracasso dos pastores de Israel, isto é, dos chefes políticos e religiosos, o profeta Ezequiel traçou a imagem do próprio Deus como Pastor do seu povo. Através do profeta, Deus disse: “Como o pastor se preocupa com o seu rebanho… assim me preocuparei com o meu” (Ez 34,12).

O próprio Deus é apresentado no salmo 23 como pastor de seu povo: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (Sl 23,1). E o salmo 95 continua: “Ele é nosso Deus e nós, o povo de seu rebanho” (Sl 95,7). O futuro Messias também é descrito com a imagem do pastor: “Como o pastor, ele pastoreia seu rebanho; recolhe em braços os cordeirinhos, leva-os no seio e trata com cuidado os recém-nascidos” (Is 40,11).  Como de fato, esta imagem ideal de pastor encontra sua plena realização em Cristo. Ele é o bom pastor que se compadece do povo porque o vê “como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). E Pedro identifica Jesus como “o pastor de nossas almas” (1Pd 2,25) e a Carta aos Hebreus, faz uma referência a Cristo como “o grande pastor das ovelhas” (Hb 13,20).

O evangelho apresenta apenas uma parte do grande discurso de Jesus sobre os pastores. Neste relato, o Senhor Jesus faz referências a algumas situações a respeito do verdadeiro pastor: ele dá a própria vida pelas suas ovelhas; ele as conhece e elas o conhecem. A frase que com grande vigor permeia todo o discurso sobre os pastores é esta: “O pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). O mistério da Cruz encontra-se no centro do serviço de Jesus como pastor. Este é o grande serviço que ele presta a todos nós. Ele entrega-se a si mesmo, e não apenas num passado longínquo. Na sagrada Eucaristia, realiza isto todos os dias, doando-se a si mesmo mediante as mãos dos sacerdotes. Por isso, justamente, no âmago da vida sacerdotal encontra-se a celebração eucarística, onde o sacrifício de Jesus na cruz permanece contínua e realmente presente no meio de nós.

E Jesus ainda diz: “Minhas ovelhas escutam minha voz; eu as conheço e elas me seguem” (v. 27). Nesta frase, são duas relações que parecem totalmente diferentes e encontram-se entrelaçadas uma com a outra: a relação entre Jesus e o Pai; e a relação entre Jesus e as ovelhas que lhe são confiados.  Em certos países, as ovelhas são criadas especialmente para a carne, em Israel se criavam, sobretudo, visando a lã e o leite. Por isso, permaneciam anos e anos em companhia do pastor, que acabava por conhecer o caráter de cada uma e passava a chamá-la com algum afetuoso apelido. Neste sentido, o pastor conhece as suas ovelhas e as suas ovelhas o conhecem. Jesus busca esta inspiração para mostrar a sua unidade com o Pai.  Trata-se de uma relação pessoal profunda. Um conhecimento do coração, próprio de quem ama e de quem é amado; de quem é fiel e de quem sabe que, por sua vez, se pode confiar. Um conhecimento de amor, em virtude do qual, é comparado com a imagem do pastor dedicado às suas ovelhas.

Grande parte da Judéia era uma planície de solo áspero e pedregoso; devido a erva escassa, o rebanho deveria ser transferido continuamente; não havia cercas e isso exigia a constante presença do pastor atento aos movimentos de seu rebanho. O pesadelo dos pastores de Israel eram os animais selvagens, lobos, hienas e salteadores. Em lugares tão isolados, constituíam uma ameaça constante. Era o momento em que se evidenciava a diferença entre o verdadeiro pastor e o assalariado, que se põe ao serviço de algum pastor só pelo pagamento que dele recebe. Frente ao perigo, o mercenário foge e deixa as ovelhas sob a ameaça do lobo ou do malfeitor; o verdadeiro pastor enfrenta o perigo para salvar o rebanho. Isso explica porque a liturgia nos propõe o Evangelho do bom pastor no tempo pascal. A Páscoa foi o momento em que Cristo demonstrou ser o bom pastor, porque na cruz, ele deu a vida pelas suas ovelhas.

As ovelhas, por sua vez, devem escutar a voz do Pastor e segui-lo (cf. v. 27). Isto significa que fazer parte do rebanho de Jesus é aderir a Ele, escutar as suas propostas, comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida de amor e de doação ao Pai e também aos irmãos. E nós, como ovelhas de Jesus, também precisamos “escutar a sua voz” e segui-lo… E devemos diferenciar a “voz” de Jesus, o nosso Pastor, de outros apelos através de um confronto permanente com a sua Palavra e através da participação nos sacramentos.

Nos dias atuais podemos ouvir a voz do Senhor e reconhecê-lo através da pregação dos Apóstolos e dos seus sucessores.  Nessa pregação ressoa a voz de Cristo, que chama à comunhão com Deus e à plenitude da vida. E neste domingo em que também celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, todos os fiéis são exortados a rezar de modo particular para as vocações sacerdotais e também para a vida consagrada.  Ainda hoje o Senhor continua chamando muitos pelo nome, como fez um dia com os Apóstolos na margem do Lago da Galileia, para que se tornem “pescadores de homens”, isto é, seus colaboradores mais diretos no anúncio do Evangelho e no serviço do Reino de Deus.

A Igreja antiga encontrou na escultura e nos ícones do seu tempo a figura do pastor que carrega uma ovelha nos próprios ombros. Para os cristãos, esta figura tornou-se, com toda naturalidade, a imagem daquele que foi à procura da ovelha perdida e a levou de volta ao redil.  Por isto, peçamos também hoje ao Cristo Bom Pastor, para que, em nossas fraquezas e em nossas provações, e nas vezes em que também sentirmos perdidos e sem rumo, Ele também nos ampare e nos conduza de volta, nos carregue em seus ombros e nos faça retomar ao bom caminho, ao caminho da perfeição e da santidade.  Que Ele também possa conceder o dom da perseverança a todos os sacerdotes e sejam fiéis às suas promessas e assimilem dia após dia os mesmos sentimentos e as atitudes de Jesus Bom Pastor.

E que a Virgem de Nazaré, a Mãe do Bom Pastor, Ela, que respondeu prontamente o chamado de Deus dizendo: “Eis aqui a escrava do Senhor” (Lc 1,38), nos ajude a acolher com alegria e disponibilidade o convite de Cristo para sermos os bons trabalhadores da sua vinha  (cf. Mt 20,1-16). Que ela vele todos os dias por cada um de nós e nos proteja de todos os perigos. Ela é a Virgem do Sim. Ela também, como mãe, aprendeu a reconhecer a voz de Jesus, desde quando o trazia no seu ventre. Que ela também possa nos ajudar a reconhecer cada vez melhor a voz de Jesus, o Bom Pastor, que nos chama a segui-lo pelo caminho do bem.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO PASCAL

O diálogo de Jesus com Pedro

Jo 21, 1-19

Meus caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos apresenta uma nova aparição de Jesus ressuscitado.  Fundamentar a fé dos discípulos é o objetivo de tais aparições. Mas hoje começa também a despontar o tema do amor, em concreto, do amor a Jesus.  Fé e amor, crer e amar são duas dimensões de uma mesma e única realidade: a vida com Cristo por meio do Espírito Santo.

As palavras de Pedro: “Eu vou pescar” e o assentimento dos demais: “Nós vamos contigo” (v. 3), indicam que após a morte e ressurreição de Jesus Cristo, a vida retomou para eles ao seu ritmo anterior. Deveriam voltar à antiga profissão de pescadores, retomando os barcos e as redes, mesmo se a vida já não era como antes.

A pesca é feita durante a noite.  Eles buscaram na noite, e nada pescaram.  A noite é sinônimo de trevas, de escuridão, de ausência de luz.  Para os israelitas o mar simboliza lugar de escravidão e sofrimento, o símbolo de todas as forças inimigas do homem.  Jesus já havia dito aos discípulos que “eles seriam pescadores de homens”. A missão deles seria a de enfrentar as ondas do mar para pescar os homens, para os tirar das águas salgadas e os livrar de todas as situações negativas que os impedem de viver.

Jesus aparece pela manhã, dissipando a escuridão. Ele mesmo já teria dito: “Eu estou no mundo, sou a luz do mundo” (Jo 9,4-5).  Normalmente, os peixes caem na rede durante a noite, quando é escuro, e não de manhã, quando a água já é transparente. Contudo, o resultado da ação dos discípulos, durante a noite, sem Jesus, é um fracasso, o que faz lembrar uma outra frase dita por Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).  

O amanhecer coincide com a presença de Jesus. Jesus não está com eles no barco. Ele não acompanha os discípulos na pesca; a sua ação no mundo é exercida por meio dos discípulos.  Concentrados no seu esforço inútil, os discípulos nem reconhecem Jesus quando ele se apresenta. O grupo está desorientado e decepcionado pelo insucesso, posto em evidência pela pergunta de Jesus: “Tendes alguma coisa de comer?” (v. 5). Mas Jesus dá a eles as indicações: “Lançai a rede… e haveis de encontrar!” (v.6).  Apesar do momento inoportuno, por estar de manhã, momento em que os peixes retornam ao leito do mar, os discípulos confiaram nas palavras de Jesus e o resultado foi uma pesca milagrosamente abundante, a tal ponto que mal conseguiam arrastar a rede, devido à grande quantidade de peixes pescados (cf. v. 6).

O êxito da missão não se deve ao esforço humano, mas sim à presença viva e a Palavra do Senhor ressuscitado.   É, então, graças a um sinal que os discípulos reconhecem o Ressuscitado. Jesus Cristo não tem mais necessidade de dizer quem Ele é.  Eles sabem que Ele é o Senhor.  Os discípulos fazem, nesse dia, a experiência da prodigalidade do amor de Deus: não conseguem arrastar as redes, devido ao número de peixes. Fazem também a experiência da universalidade da salvação: havia 153 grandes peixes, número que evoca, segundo São Jerônimo, todas as espécies de peixes enumerados na época. Também a este número pode ser dada uma outra interpretação simbólica. O número 153 é resultante de 50 x 3 + 3.  Para os israelitas o número 50 indicava todo o povo; o número 3 significava a perfeição, a plenitude.

O sentido deste detalhe curioso está no fato de que a comunidade cristã levará em frente de modo pleno e total a sua missão de salvação.  Toda a humanidade é chamada a se libertar das águas impetuosas do mar através dos discípulos de Cristo, mas eles só poderão agir, tendo como guia a voz do Cristo Ressuscitado.

Os discípulos de Emaús reconhecem Jesus apenas na fração do pão. Os primeiros cristãos chamavam à Eucaristia a “fração do pão”. Mas Jesus oferece peixe. Sabemos que este se tornou bem cedo o símbolo de Cristo. Em grego, as primeiras letras da expressão “Jesus, Filho de Deus, Salvador” formam a palavra “peixe”, em grego: “ichtus”. Desde então, oferecendo-lhes peixe, Jesus ressuscitado diz aos discípulos que é verdadeiramente com Ele, o Filho de Deus, o único Salvador de todos os homens, que estarão doravante em comunhão, cada vez que partirem o pão eucarístico.

Em seguida Jesus come com os apóstolos o peixe assado nas brasas e, logo temos o diálogo entre Jesus e Pedro. Três perguntas: “Tu me amas?”; três respostas: “Tu sabes que te amo”. Após as respostas, Jesus confia a Pedro o pastoreio do seu rebanho, que só pode ser confiado a quem ama Jesus com o maior amor possível. Por isto diz a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas!”. Com estas palavras, Jesus confere de fato a Pedro a tarefa de supremo e universal pastor do rebanho de Cristo. Confere a ele esse primado que lhe havia prometido quando disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. E eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16, 18-19).

O que mais comove nesta significativa página do Evangelho é que Jesus permanece fiel à promessa feita a Pedro, apesar da infidelidade de Pedro, que não havia cumprido a promessa feita a Jesus de não o trair jamais, ainda à custa da sua própria vida (cf. Mt 26,35).

No diálogo entre Jesus e Pedro, revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo “philéo” expressa o amor de amizade, terno, mas não totalizante, enquanto o verbo “agapáo” significa o amor sem reservas, total e incondicional. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: “Simão, filho de Jonas, tu me amas? Jesus usa o verbo “agapáo”, que quer dizer, com um amor total e incondicional (cf. Jo 21,15).

Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: “Amo” “agapô”, ou seja, incondicionalmente”. Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: “Senhor, tu sabes que sou deveras teu amigo”, ou seja, “Tu sabes que te amo com o meu pobre amor humano”. Cristo insiste: “Simão, filho de Jonas, tu me amas com este amor total que eu quero?”. E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: “Kyrie, philéo”, que em outras palavras seria: “Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo”.

Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão, porém agora mudando o verbo para “philéo”. Simão Pedro compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o único de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (philéo)”.  Na verdade, Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim, por isto conclui dizendo a Pedro: “Segue-me!” (Jo 21,19).

Podemos ainda destacar no texto evangélico deste domingo dois verbos: “pescar” e “apascentar”.  Trata-se de duas operações que aparecem sucessivas no relato apresentado. A missão de Pedro é apascentar aqueles que pescou, ou seja, deve nutrir com a doutrina e os sacramentos aqueles que se converteram ao Evangelho.  E como Pedro, todos os discípulos são chamados a “apascentar” as ovelhas e os cordeiros de Cristo, sendo, naturalmente, os primeiros e os mais generosos nesta doação de si mesmos.

O diálogo entre Jesus e Pedro deve ser ainda trasladado à vida de cada um de nós. Ao interrogar Pedro: “Tu me amas?”, Jesus interroga também cada um de nós.  E qual é a nossa resposta? Hoje ele também nos convida a amá-lo, ele que em sua paixão e morte, demonstrou a prova de seu amor por cada um de nós. Que saibamos corresponder com generosidade a este seu amor.

E possamos acolher com alegria o mandato que o Cristo mesmo hoje nos faz: “Lançai a rede…” (v. 6). Este mandato de Jesus foi docilmente acolhido pelos santos que no mundo foram anunciadores da Ressurreição do Senhor e deram um testemunho válido de vida, mediante sinais do perdão e do amor fraterno, que é o testemunho mais próximo que nós também podemos dar, de que Jesus está vivo e ressuscitou para estar conosco.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO PASCAL

A paz esteja convosco!

Jo 20,19-31

Meus caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo relata as aparições de Cristo ressuscitado a seus discípulos.  Na primeira delas está ausente o Apóstolo Tomé, e presente na segunda, oito dias depois. Estas aparições confirmam o sepulcro vazio e revigoram decisivamente a fé dos Apóstolos e da comunidade eclesial, isto é, nossa própria fé na Ressurreição de Jesus. Neste relato, o evangelista São João nos faz partilhar a emoção sentida pelos Apóstolos neste encontro com Cristo depois da sua ressurreição.

O texto evangélico descreve que Jesus, depois da Ressurreição, visitou os seus discípulos, entrando pelas portas fechadas do Cenáculo. Jesus mostra os sinais da paixão, chegando a conceder ao incrédulo Tomé que os tocasse. Na realidade, a condescendência divina permite-nos tirar proveito até da incredulidade de Tomé assim como dos discípulos crentes. Como de fato, tocando as feridas do Senhor, o discípulo hesitante cura não só a sua desconfiança, mas também a nossa.

Ao apóstolo é concedido que toque nas suas feridas para reconhecer, além da identidade humana do Jesus de Nazaré, também a sua verdadeira e mais profunda identidade, por isto, diz: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28).  A resposta de Tomé é um ato de fé, de adoração e de entrega sem limites. As dúvidas de Tomé viriam a servir para confirmar a fé dos que mais tarde haviam de crer em Jesus. Se a nossa fé for firme, também haverá muitos que se apoiarão nela.  É necessário que essa virtude teologal vá crescendo em nós de dia para dia. Estas palavras pronunciadas pelo apóstolo Tomé têm servido de jaculatória para muitos cristãos, e como ato de fé na presença real de Cristo na Sagrada Eucaristia.

Podemos ainda sublinhar a saudação feita por Jesus tanto na primeira como na segunda aparição: “A paz esteja convosco!”. Não era apenas a saudação tradicional dos hebreus.  Tinha um sentido da promessa de paz para aqueles que acolhessem a verdade da Ressurreição. E a promessa de paz se completou com o grande dom do perdão que nesse dia Jesus deixou nas mãos da Igreja, quando soprou sobre os apóstolos e disse a eles: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais não perdoardes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,22-23). É esta a missão da Igreja perenemente assistida pelo Espírito Santo: levar a todos o feliz anúncio, a jubilosa realidade do amor misericordioso de Deus.  O Espírito de Jesus Cristo é poder de perdão e da Divina Misericórdia. Concede a possibilidade de iniciar de novo, sempre de novo. A Paz é o dom que Cristo deixou aos seus amigos (cf. Jo 14, 27), como bênção destinada a todos os povos. É a paz que Jesus Cristo adquiriu com o preço do seu Sangue e que comunica a quantos nele confiam.

Neste contexto podemos dizer que a confissão dos pecados é a festa da paz.  E a fórmula atual com que o sacerdote absolve o penitente lembra o mistério da Ressurreição e a vinda do Espírito Santo.  Declara que Deus, “pela morte e ressurreição de seu Filho reconciliou o mundo consigo, e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados”, e pede que “pelo ministério da Igreja”  ele conceda ao penitente “o perdão e a paz”. É, portanto, uma festa de paz. Dessa paz que só pode existir, quando pecado for expulso. E o próprio Jesus vai dizer à mulher pecadora, que lava os seus pés com as próprias lágrimas: “A tua fé te salvou, vai em paz” (Lc 7,50).  Para essa mulher o contato com Jesus significou paz, pois sentiu o restabelecimento da sua dignidade enquanto pessoa. E ainda no caso daquela mulher que sofria de um fluxo de sangue, havia doze anos, a ela também Jesus disse: “A tua fé te salvou, vai em paz” (Lc 8,48). Para ela o milagre foi a plenitude da regeneração da vida, o começo da paz. Por isso, a fé, entendida como adesão a Jesus, constitui o fundamento da paz.

Há um anexo inseparável entre a paz, dom do alto, e o Espírito Santo; não sem razão são representados com o mesmo símbolo da pomba. O perdão dos pecados passa a ser o grande presente pascal que recebemos. O perdão que traz a paz de Deus é causa de alegria em nós.  A paz indica ainda o estado do homem que vive em harmonia com Deus, com o ambiente em que vive e consigo mesmo, como afirma o Sl 4,9: “Eu tranquilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida”.

Esta saudação “A paz esteja convosco” soa ainda como um eco das palavras dos anjos no dia do nascimento de Jesus em Belém: “Glória a Deus nas alturas e Paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14), onde Jesus é apresentado como o portador da paz ao mundo por excelência. Com Jesus nasce uma nova humanidade que responde à sede de vida e de harmonia da humanidade de todos os tempos.  Ele é a plenitude da paz, porque oferece a possibilidade de uma felicidade e de paz que ultrapassam as barreiras dos povos e da própria morte. Os anjos e os pastores exprimem a nova proximidade entre o mundo de Deus: “Glória a Deus” e o mundo dos homens: “Paz aos homens” que, por sua vez, alude à possibilidade de uma nova fraternidade entre os seres humanos.

Talvez o conceito que na nossa língua mais se aproxima da expressão hebraica “shalom” é o de felicidade.  Mas também indica o sentido de bem-estar de uma pessoa. Pode ainda indicar a ideia de se ter completado uma vida longa e feliz, daí a expressão “sheol”, que tem a mesma raiz.  Simeão, já ancião, um homem justo, que esperava a consolação de Israel, certa vez tomando o menino Jesus nos braços e louvou a Deus, por ter podido ver realizada a sua esperança: “Agora, Senhor, podeis deixar o vosso servo partir em paz, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparastes diante de todos os povos: luz para iluminar as nações todas e glória de Israel, o vosso povo” (Lc 2,29-30). O louvor de Simeão começa por uma exclamação de felicidade realizada.  Chegado ao fim de seus dias, amadurecido na esperança considera-se saciado e exprime essa felicidade pela palavra paz. Com a chegada do dom de Deus em Jesus, Simeão vê completar-se o sentido da sua vida; pode deixar este mundo como um homem feliz.

A paz é comunicada aos homens desde o momento em que Cristo veio ao mundo.  E paz também é o anúncio de Jesus no momento em que ele está para deixar este mundo e voltar para o Pai.  Assim diz Jesus no seu discurso de despedida: “Deixo-vos a paz, eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27). E após a ressurreição continua oferecendo a sua paz dizendo aos discípulos: “Recebei o Espírito Santo” (cf. Jo 20,22).

Ao longo da sua vida pública por diversas vezes Jesus ressaltou o valor da paz: E disse: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Aqui Jesus frisa bem o que se deve “fazer”. É o agir. É o trabalhar em prol da paz. São os que realizam a paz. Não tanto no sentido de que se reconciliam com os próprios inimigos, mas no sentido de que ajudam os inimigos a reconciliar-se. Trata-se de pessoas que amam a paz, tanto que não temem comprometer a própria paz pessoal intervindo nos conflitos a fim de promover a paz entre os que estão divididos.

Muitos santos deixaram fortes exemplos de uma demonstração do que podemos fazer em prol da paz. Certa vez São Francisco de Assis pediu em oração: “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz”.  E todos nós somos chamados a ser um instrumento da paz do Senhor. Para sermos instrumentos de paz não podemos difundir o mal, nem sermos agentes do acusador, do semeador da cizânia. Não podemos espalhar o mal. Não podemos permitir que o mal prossiga em seu desenvolvimento.

A paz continua sendo fruto do Espírito Santo, isto é, graça e colaboração humana. A paz continua sendo um fenômeno da graça de Deus e do empenho daqueles que a compõem. Ela é fruto da união de cada um de nós, com todas suas notas de singularidade, em união dos corações na comunhão. Em outras palavras, é a concórdia que deve fazer parte do nosso cotidiano.

Na terra podemos descobrir os caminhos que levam à paz (cf. Lc 19,42), podemos “dirigir os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1,79). Podemos, num momento de graça, ter como que uma amostra e um primeiro sinal da paz que nos espera no céu.  Lembrando a expressiva bênção de Aarão, peçamos: “Que o Senhor nos abençoe e nos guarde. Que o Senhor faça brilhar sobre nós a sua face e nos dê a sua graça! Que o Senhor volte para nós o seu olhar e nos dê a paz”. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

I DOMINGO DA PÁSCOA – ANO C

A ressurreição do Senhor

Jo 20,1-9

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo somos chamados a lançar o nosso olhar para o sepulcro vazio e contemplar o radiante mistério da ressurreição do Senhor. Ouvimos mais uma vez ecoar o confortador anúncio:  “Cristo ressuscitou!”. Com o Domingo da Ressurreição iniciamos um novo período litúrgico, o tempo pascal. Páscoa significa “passagem”. A origem desta festa perde-se na noite dos tempos. Inicialmente, era uma festa de pastores, que no início da primavera, imolavam um cordeiro do rebanho. Os hebreus transformaram esta festa pastoril no “memorial” da libertação do Egito. Era imolado o cordeiro pascal, sinal da “passagem” de Deus, que fez passar o povo eleito da escravidão para a terra da liberdade.  Para os cristãos é a festa principal do ano litúrgico, em que se “comemora” a morte de Cristo na cruz e a sua Ressurreição.

Ao celebrarmos a Ressurreição do Senhor, a liturgia nos recorda as palavras dirigidas pelo anjo às mulheres que choravam ao lado do túmulo vazio. Elas, como nos fala o Evangelho, foram de manhã cedo ao sepulcro onde receberam do anjo a notícia que modificou o decurso da história: “Não vos assusteis. Procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui!” (cf. Mc 16, 6).  É precisamente um anjo que, do sepulcro vazio, dirige a primeira mensagem às mulheres que ali chegam para completar a inumação do corpo de Jesus.

Além desse momento da Ressurreição, os anjos estão presentes em todas as ocasiões importantes da vida de Jesus. Anunciam o seu nascimento (cf. Mt 1,20; Lc 1,26; 2,9), guiam a sua fuga para o Egito e o retorno à Pátria (cf. Mt 2,13.19), servem-lhe de conforto no final das tentações no deserto (cf. Mt 4,11) e na hora da paixão (cf. Lc 22,43); no fim dos tempos, estarão ao lado do Redentor no momento do juízo sobre a história e o mundo (cf. Mt 13,41). Os anjos, portanto, estão ao serviço dos planos de Deus nos momentos fundamentais da história da salvação. Como enviados de Deus, funcionam como mensageiros da Sua vontade redentora.

Hoje é um anjo que guia a nossa reflexão sobre o mistério da ressurreição de Jesus.  Diz ainda o anjo às mulheres que tinham ido ao sepulcro: “Porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo?” (cf. Lc 24,5). O Anjo convida-nos a não procurar um vivo entre os mortos. Destas suas palavras, podemos tirar um ensinamento: nunca cansarmos de procurar Cristo ressuscitado, pois Ele dá a vida em abundância àqueles que o encontram. E elas, “com grande alegria, correram” (Mt 28, 8) a repetir este anúncio aos discípulos.

O texto do Evangelho nos fala exatamente do primeiro impacto e das primeiras testemunhas: Maria Madalena, Pedro e o discípulo que Jesus amava. Madalena, enquanto mulher, pertencia à categoria de pessoas discriminadas, sem credibilidade oficial para os seus testemunhos.  Ela é a primeira personagem a entrar em cena. É a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, quando ainda o sol não tinha nascido, na manhã do primeiro dia da semana. Este “primeiro dia” nos faz lembrar o início de uma nova realidade, um novo tempo, o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.

Maria Madalena foi a primeira pessoa que Deus escolheu para dar a notícia a Pedro e ao outro discípulo: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram” (Jo 20,2). Pedro e o outro discípulo, onde a tradição aponta como o evangelista João, dirigiram-se ao sepulcro, mas João chegou primeiro.  E nos diz o texto bíblico que ele “viu e acreditou” (Jo 20,8).

Várias vezes vamos ver lado a lado nos evangelhos as figuras de Pedro e João.  Eles aparecem juntos em várias circunstâncias: na última ceia é o “discípulo amado” que está do lado de Jesus (cf. Jo 13,23-25); na paixão, é ele que consegue estar perto de Jesus no átrio do sumo sacerdote, enquanto ocorre a traição de Pedro (cf. Jo 18,15-18.25-27); é ele que está junto da cruz quando Jesus morre (cf. Jo 19,25-27); é ele o primeiro a reconhecer Jesus ressuscitado na sua aparição aos discípulos no lago de Tiberíades (cf. Jo 21,7).  Diz o evangelho que o “outro discípulo” correu mais e chegou ao túmulo primeiro que Pedro. O fato de se dizer que ele não entrou logo pode querer significar a sua deferência para com Pedro; e, depois de ver, “acreditou” (v.8).

Em geral, Pedro é apresentado nos Evangelhos como o discípulo obstinado, para quem a morte significa fracasso e que se recusa a aceitar que a vida nova passe pela humilhação da cruz (cf. Mc 8,32-33; Mt 16,22-23). Ele é, em várias situações, o discípulo que tem dificuldade em entender os valores que Jesus propõe, raciocina de acordo com a lógica do mundo e não entende que a vida eterna e verdadeira possa brotar da cruz.

João, ao contrário, é aquele que está sempre próximo de Jesus, que se identifica com Jesus, que adere incondicionalmente aos valores de Jesus, que ama Jesus. Nessa comunhão e intimidade com Jesus, ele aprendeu e interiorizou a lógica de Jesus e percebeu que a doação e a entrega são um caminho de vida. Para ele, faz todo o sentido que Jesus tenha ressuscitado: “Viu e acreditou” (v. 8), pois a vitória sobre a morte é o resultado lógico do dom da vida, do amor até ao extremo.

O discípulo que Jesus amava viu aquilo que Pedro via: um túmulo vazio, com as ligaduras e o sudário… Mas João acreditou. Por que esta diferença na atitude dos dois discípulos? O amor de Pedro por Jesus também era grande. Mas com a tríplice negação, o seu amor tinha necessidade de ser confirmado, purificado, perdoado. João foi o único entre os apóstolos, que ficou até o fim. Deixou-se invadir por um amor sem falhas. Mas, posteriormente, confortado pela certeza da Ressurreição de Cristo e repleto do Espírito Santo dirá Pedro em sua pregação sobre Jesus: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judéia, a começar pela Galiléia… Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez… e mataram-no… Deus ressuscitou-o ao terceiro dia… Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É dele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: “Quem acredita nele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados” (cf. At 10,34ss).  E movidos pelo Espírito Santo, eles, juntamente com os demais apóstolos, percorrerão depois os caminhos do mundo para fazer ressoar o jubiloso anúncio pascal.

Que todos nós possamos fazer esta mesma experiência espiritual que fizeram Maria Madalena, João e Pedro, acolhendo no coração, nas casas e nas famílias o feliz anúncio da Ressurreição: “Cristo ressuscitou e vive no nosso meio, Aleluia!”. Possamos sentir em nós também o eco da mensagem do Anjo às mulheres que acorreram ao sepulcro: “Ide depressa dizer aos Seus discípulos: Ele ressuscitou dos mortos” (Mt 28,7).  Que este convite encontre em nós uma disposição imediata para “ir depressa” e a “anunciar” o Evangelho a todas as pessoas do nosso tempo. Que esta seja a nossa missão!

E, a partir da solene Vigília pascal, volta a ressoar o cântico do Aleluia, palavra hebraica universalmente conhecida, que significa “Louvai o Senhor”.  O aleluia desabrochou nos corações dos primeiros discípulos de Jesus naquela manhã de Páscoa, em Jerusalém. Deixemos que o aleluia pascal se imprima profundamente também em nós, como expressão de uma vida de união com o Cristo Ressuscitado, a quem devemos louvar e agradecer pelas maravilhas que Ele operou em nós.

A Virgem Maria, mãe do Senhor Ressuscitado, que invocamos com o nome de Rainha do Céu, nos ajude na missão de sermos anunciadores do Evangelho a toda a criatura, que é a missão própria de cada batizado. Que ela nos faça ser testemunha fiel da ressurreição de Jesus, em quem está a vida nova e a esperança de toda a humanidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DA QUARESMA – ANO C

Domingo de Ramos

Lc 23,1-49

Meus caros irmãos e irmãs,

Com o domingo de Ramos iniciamos a Semana Santa e somos chamados a reviver os últimos momentos de Cristo em sua peregrinação terrena. A celebração consta de dois momentos: Inicialmente temos o relato da sua gloriosa entrada na cidade de Jerusalém e, em um segundo momento, a leitura da sua gloriosa paixão.

Logo no início da celebração temos a descrição da entrada de Jesus em Jerusalém montado em um jumentinho.  Os mantos são estendidos diante dele e uma voz faz ressoar: “Bendito aquele que vem em nome do Senhor” (Lc 19,38).  Em um clima de alegria os ramos são agitados em um sinal de festa, e também nós somos chamados a agitar os nossos ramos e somos convidados a seguir o Cristo.  Caminhamos com ele. Jesus entra em Jerusalém mostrando a sua condição de rei e Senhor, mas com o objetivo de subir ao calvário e para morrer pregado em uma cruz: o seu trono glorioso, pois ele passa pela morte para chegar à ressurreição.

No relato da Paixão de Jesus temos a descrição do evangelista São Lucas, que nos apresenta o Cristo Senhor que vem ao nosso encontro, para manifestar a todos, em gestos concretos, a bondade e a misericórdia de Deus.  Essa ideia está presente no gesto de curar o guarda ferido no Jardim do Getsêmani (cf. Lc 22,51) e no perdão conferido aos seus adversários. Isto quer mostrar que o discípulo de Jesus não pode agredir ninguém, mas deve estar sempre disposto a curar as feridas provocadas pelos outros e a perdoar mutuamente.

Em um outro momento da narração observa-se um detalhe.  Pedro, após haver negado o Mestre, saiu para fora e começa a chorar.  São Lucas narra que o “Senhor, voltando-se, fixou o seu olhar em Pedro” (Lc 22,62).  Um gesto comovente que mostra a compreensão de Jesus pela fraqueza do seu discípulo e é também o sinal do perdão que lhe concede.  Jesus é compreensivo e misericordioso e a todos lança o seu olhar misericordioso e repleto de amor.

No relato da Paixão, podemos ainda testemunhar os sofrimentos de Jesus, em particular a sua angústia na agonia no monte das Oliveiras.  Contudo, mesmo diante deste sóbrio quadro, o Evangelista São Lucas relata com uma certa sutileza a misericórdia do Pai, ao transcrever em seu Evangelho algumas frases de Jesus. Nossos olhos se voltam para os momentos finais de Cristo na cruz, quando diz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,24). Jesus não se limita a perdoar, vai mais longe. Ele sabe que a fonte de todo o amor e de todo o perdão não está nele, mas no Pai. Ele se apresenta diante do Pai como o intercessor a quem o Pai nada pode recusar. Ele se apaga, para que vejamos que é a vontade do Pai que se está a cumprir. É a oração de Jesus por nós.

Jesus foi crucificado no meio de dois criminosos, considerados perigosos bandidos, em razão dos erros praticados.  Um deles zombava do Cristo, enquanto o outro, após repreender o seu companheiro, disse a Jesus: “Lembra-te de mim, quando estiveres no teu reino” (Lc 23,42).  E Jesus, mesmo agonizante, lhe respondeu: “Em verdade, vos digo, hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). O ladrão, que a tradição conhece como São Dimas, passou a ser conhecido como o Bom Ladrão e deixou para nós um exemplo de uma oração simples, onde pede apenas para ser lembrando, mas  o Senhor lhe concede muito mais: estar na nova humanidade dos redimidos.

Todos os evangelhos sinóticos falam da requisição de Simão de Cirene para auxiliar Jesus levar a sua  cruz (cf. Mt 27,32; Mc 15,21); no entanto, só o evangelista São Lucas sublinha que Simão transporta a cruz “atrás de Jesus” (cf. Lc 23,26). Este dado quer nos mostrar o modelo do discípulo de Cristo: é aquele que toma a cruz de Jesus e o segue no seu caminho, pois ele mesmo já havia dito: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-me” (Lc 9,23). Possamos também nós acompanhar o Cristo neste momento.  E com a atitude de Cireneu, que se coloca junto de Jesus, para auxiliá-lo a carregar a cruz, a dividir com ele este peso, possamos também lembrar de tantos que necessitam do nosso auxílio e da nossa ajuda, pois ele mesmo disse: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).

Logo no início da celebração litúrgica deste dia, a Igreja antecipa a sua resposta ao Evangelho, dizendo: “Sigamos o Senhor”. É o seguimento. Somos chamados a considerar o caminho de Jesus Cristo como o caminho justo: uma peregrinação, um ir juntamente com Jesus Cristo. Um ir naquela direção que Ele nos indicou e nos indica.  Jesus caminha diante de nós, e vai para o alto. Ele seguiu adiante. Ele sobe a Jerusalém. Ele também quer nos conduzir para Deus, mas, ao mesmo tempo, deseja habitar entre nós, estar totalmente conosco.

O seu caminho conduz para além do cume do monte do Templo até à altura do próprio Deus. É esta a grande subida à qual Ele nos convida a fazer.  Assim, na amplitude da subida de Jesus tornam-se visíveis as dimensões do nosso seguimento a meta para a qual Ele nos quer conduzir: até às alturas de Deus, à comunhão com Deus. É esta a verdadeira meta. É a comunhão com Ele. É o caminho. A comunhão com Ele é um estar a caminho, uma subida permanente rumo à verdadeira altura da nossa chamada.

A cruz faz parte da subida para a altura de Jesus Cristo, da subida até à altura de Deus. Jesus sobe à altura de Deus através da cruz. A cruz é expressão daquilo que o amor significa: só quem se perde a si mesmo, se encontra.

E como a multidão que segue Jesus rumo ao calvário, possamos viver estes dias participando das celebrações em clima de oração e de unidade com Ele.  E que ao longo desta santa semana, que nos leva à Páscoa, possamos trafegar por este caminho que nos faz lembrar a humilhação de Cristo. É o caminho da humildade. Percorrendo este caminho Jesus se fez servo.  Ele esvaziou-se de si mesmo para ser o servo de todos.

Possamos pedir a intercessão da Virgem Maria para que tenhamos sempre o desejo de caminhar com Cristo.  E junto com Maria, possamos contemplar ao pé da cruz Aquele que deu a sua vida por nós. E saibamos ser no mundo um sinal expressivo e eficaz do seu amor, expresso no sofrimento, visando a nossa salvação. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DA QUARESMA – ANO C

A mulher adúltera

Jo 8, 1-11

Meus caros irmãos e irmãs,

Chegamos ao quinto domingo da quaresma e a Liturgia da Palavra nos propõe, para nossa reflexão, o episódio evangélico de Jesus que salva uma mulher adúltera da condenação à morte (Jo 8,1-11).  O texto nos apresenta uma disputa entre Jesus e os escribas e fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante. Segundo a prescrição contida na Lei de Moisés (cf. Lv 20,10 e Dt 22,22-24), são condenados à lapidação o homem e a mulher em adultério. A Lei deve ser aplicada? É este o problema apresentado a Jesus. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei.

Inicialmente Jesus é chamado pelos fariseus de “mestre” e lhe interrogam se é justo lapidar a mulher surpreendida em adultério. Eles conhecem a sua misericórdia e o seu amor pelos pecadores, e estão curiosos para ver como reagirá num caso como este, que segundo a Lei mosaica não deixava espaço a dúvidas. E se alguém falasse contra as prescrições da Lei, seria considerado injusto.  Caso Jesus manifestasse a sua concordância com a Lei, colocava em contraste a sua bondade e a sua misericórdia; e se decidisse por conceder liberdade à mulher, não estaria cumprindo as prescrições da Lei.

Diante da questão apresentada, Jesus parece silenciar e põe-se a escrever no chão palavras misteriosas, que o evangelista não revela. A interpretação desse ato de Jesus nos leva a pensar a respeito da fragilidade do julgamento, pois o que se escreve na poeira da terra será apagado pelo vento ou pelo caminhar dos ou animais.  Com isto, Jesus pode querer mostrar o frágil valor do julgamento realizado pelos escribas e fariseus, contudo, após algum tempo escrevendo na terra, pronuncia a frase que se tornou famosa: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe lançar uma pedra” (Jo 8, 7). Com o seu silêncio, Jesus parece também convidar cada um a refletir sobre si próprio. Por um lado, convida a mulher a reconhecer a culpa cometida; por outro, convida os seus acusadores a não se subtraírem ao exame de consciência.  Com estas palavras Jesus levou os acusadores da mulher a refletir sobre si próprios. Foram eles atingidos por estas palavras e, por isto, um a um se retiraram.

A cena é cheia de dramaticidade: das palavras de Jesus depende a vida daquela mulher, mas também a sua própria vida. De fato, os acusadores fingem confiar a ele o julgamento, mas na realidade é precisamente a ele que querem acusar e julgar. Jesus sabe o que está no coração de cada homem, deseja condenar o pecado e salvar o pecador. O pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz. Enquanto os acusadores o interrogam com insistência, Jesus inclina-se e põe-se a escrever com o dedo no chão. Observa Santo Agostinho que aquele gesto mostra Cristo como o legislador divino: de fato, Deus escreveu a lei com o seu dedo nas tábuas de pedra (cf. S. AGOSTINHO, Comentário ao Evangelho de João, 33,5). Portanto Jesus é o Legislador, é a Justiça em pessoa.

Quando os acusadores “foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos” (v. 9), Jesus absolve a mulher do seu pecado e a introduz numa vida nova, orientada para o bem e diz à mulher: “Nem eu te condeno; vai e doravante não tornes a pecar” (v. 11).  Deus deseja para nós apenas o bem e a vida. Ele provê a saúde da nossa alma por meio dos seus ministros, libertando-nos do mal com o Sacramento da Confissão, para que ninguém se perca, mas todos tenham a ocasião de se converter. Quando os escribas e fariseus se retiraram, Jesus nem sequer perguntou à mulher se ela estava ou não arrependida, mas a convidou a seguir um caminho novo, um caminho de luz, na confiança de libertar-se do erro e do pecado, a partir do amor e do perdão oferecido por Deus.

Podemos observar que Jesus não rejeita a Lei, pede somente aos escribas e fariseus para ter um olhar sobre a própria vida antes de olhar a mulher e a condenar. Os detratores acabam por se condenar a si mesmos e se retiram, reconhecem que são pecadores, a começar pelos mais velhos… E à mulher pede para não voltar a pecar, dá a ela uma nova oportunidade.

Este fato pode se apresentar em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada sozinha, é exposta diante da opinião pública com “o seu pecado”, enquanto por trás deste “seu” pecado se esconde um homem pecador, culpado pelo “pecado do outro”, ou seja, co-responsável por este mesmo pecado. Às vezes ele passa a ser até acusador, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, só a mulher parece levar a maior culpa pelo erro. No caso da mulher adúltera, observa-se que ela foi abandonada e entregue à morte. Onde estava o homem com quem ela praticou o adultério? A Lei prescrevia apedrejar os adúlteros, então ele deveria também estar ali.

Lancemos um olhar para o momento da criação, quando Deus criou o homem e a mulher. A mulher foi confiada ao homem com a sua diversidade feminina, e também com a sua potencial maternidade. Também o homem foi confiado pelo Criador à mulher. Foram reciprocamente confiados um ao outro como pessoas feitas à imagem e semelhança do próprio Deus. Nesse ato de confiança está a medida do amor, do amor esponsal: para tornar-se “um dom sincero” um para o outro. Após o pecado original, forças opostas operam no homem e na mulher. O sexto mandamento da Lei de Deus nos diz: “Não cometerás adultério” (Ex 20, l4). E o próprio Cristo ainda completa no Sermão da montanha: Todo aquele que olhar para uma mulher com mau desejo, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,28). Estas palavras, dirigidas diretamente ao homem, mostram a verdade fundamental da sua responsabilidade em relação à mulher: pela sua dignidade, pela sua maternidade, pela sua vocação. Por isso, cada homem deve olhar para dentro de si e ver se aquela que lhe é confiada na mesma humanidade, como esposa, não se tenha tornado objeto de adultério no seu coração; por isto a mulher não pode ser tomada como objeto de prazer, de exploração por parte do homem (cf. S. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica “Mulieris Dignitatem”, n. 13).

Podemos lembrar que no momento da criação, disse o Senhor: “O homem deixará o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Desta união procedem todas as gerações humanas. O adultério designa a infidelidade conjugal.  Os profetas, no Antigo Testamento, já denunciavam a sua gravidade e viam no adultério um grave pecado, uma vez que quem o comete, falta aos seus compromissos, viola o vínculo matrimonial, lesa o direito do outro cônjuge e atenta contra a instituição do matrimônio. Compromete o bem da geração humana e dos filhos que têm necessidade da união estável dos pais (cf. CIgC, nº 2381).

O Evangelho deste domingo nos faz ainda compreender que o nosso verdadeiro inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa existência. Jesus despede-se da mulher adúltera com esta exortação: “Vai, e doravante não tornes a pecar”. O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar os outros.

Aprendamos com o Senhor Jesus a não julgar e a não condenar o nosso próximo. Como Cristo, estejamos também dispostos a perdoar, imitando seus gestos e atitudes. Se é verdade que Deus é justiça, não podemos esquecer que ele é, sobretudo, amor.  Se ele odeia o pecado, é porque ama infinitamente cada pessoa humana. Ama cada um de nós, e a sua fidelidade é tão profunda que não se deixa desanimar nem sequer pela nossa rejeição.

Neste caminho quaresmal que estamos a percorrer e que se aproxima rapidamente da sua conclusão, sejamos acompanhados pela certeza de que Deus nunca nos abandona, e que o seu amor é nascente de alegria e de paz; é força que nos impele poderosamente ao longo do itinerário que percorremos rumo à perfeição.

Não paremos e nem abrandemos os nossos passos em direção à santidade de vida. Pelo contrário, orientemo-nos com todas as forças em direção à meta para a qual Deus nos chama. Peçamos a nossa Senhora que nos ajude a abrir o nosso coração ao arrependimento de nossas faltas e que ela interceda sempre por nós, agora e na hora do nosso encontro definitivo com Cristo. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DA QUARESMA – ANO C –

A Parábola do Filho Pródigo

Lc 15,1-3.11-32

Caros irmãos e irmãs,

Em cada Celebração Eucarística, é o próprio Cristo que se faz presente no meio de nós, a nos iluminar com o seu ensinamento na Liturgia da Palavra e a nos alimentar com o seu Corpo e o seu Sangue na Liturgia Eucarística e na Comunhão. É Ele que nos ensina o caminho do acolhimento, do amor e do perdão.  Neste tempo da quaresma a Igreja nos exorta a percorrer este itinerário e, para isto, o próprio Cristo nos mostra o caminho da conversão e da vida nova ao nos apresentar para reflexão a Parábola do Filho Pródigo, que é a leitura evangélica deste domingo.

O ponto de partida para a narração da Parábola é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2), comentam. O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável.  Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho.

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de auto-suficiência. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1).

O filho exige do pai tudo aquilo a que tem direito. A lei judaica prescrevia que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade. Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus o porco é um animal impuro, pois servir aos porcos era sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos.   Neste momento ele então percebe que está perdido.  Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos.  Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome.

O filho mais novo, ao partir para um país distante desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do pai que ficara distante. Passa a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

E é neste momento que ele “entra em si mesmo” (cf. v.17).  Podemos dizer que longe da casa do pai, em uma terra distante, ele se afastou até de si mesmo. Vivia longe da verdade de sua existência.  A sua mudança, a sua conversão, consiste no reconhecimento de que outrora partiu de si e agora regressa a si mesmo.  E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai.  Com as palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), podemos reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza. 

Ao chegar à casa recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão.  É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver. Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente de que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida.

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, pelo próprio ato de “tocar” este filho que regressava, depois de uma vida desordenada.  Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, por se julgar puro não podia se unir aos impuros.

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre observou o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai queira exercer a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus.  Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16).  Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para a verdadeira vida.

Mas a grande beleza deste texto se esconde na palavra grega “splanchnizomai”, normalmente traduzido para o português como: “movido de compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de parto. O filho “que estava morto e voltou à vida” (v. 24), renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso o pai exclama: “É preciso fazer festa e alegrar-se” (v. 24).

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai.

A verdadeira miséria do filho mais novo é de não ter ninguém atento a ele, que o olhe. Para os seres humanos, o olhar é vital. O filho sente a falta de um olhar de amor, sente fome de amor. Jesus quer mudar esta situação, renovando relações em que o amor possa circular de novo. Jesus lança o seu olhar de amor também sobre cada um de nós. Um olhar que é fonte de vida! Um olhar do qual não podemos fugir!

A segunda parte da parábola deste domingo é uma crítica à conduta do filho mais velho, mas também uma crítica da nossa própria conduta. Se estamos a serviço de Deus sem nunca ter desobedecido às suas leis, podemos correr o risco de faltar em nós o amor e a misericórdia.  Com esta parábola é Deus que por meio de Cristo fala conosco.

A figura do pai da parábola nos faz revelar o coração de Deus, cheio de misericórdia e que nos ama além de qualquer medida. Neste tempo de quaresma, somos chamados a intensificar o caminho interior de conversão, saibamos voltar para ele com todo o coração, rejeitando o erro e o pecado. E neste nosso retorno, possamos sentir a alegria do Pai a nos acolher de novo em sua casa. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DA QUARESMA – C

A transfiguração de Jesus

Lc 9,28-36

Caros irmãos e irmãs,

Chegamos ao segundo domingo de Quaresma e a liturgia da Palavra nos convida a meditar acerca das sugestivas narrações da Transfiguração de Jesus. No alto do Monte Tabor, na presença dos Apóstolos Pedro, Tiago e João, testemunhas privilegiadas deste importante acontecimento, Jesus é revestido, também exteriormente, da glória de Filho de Deus que lhe pertence.  O Senhor Jesus, que pouco antes tinha prenunciado a sua morte e ressurreição (Lc 9,22), oferece aos discípulos uma antecipação da sua glória.

O quadro evangélico tem como fundo de cena o céu escuro ainda pela madrugada, quando Jesus se transfigurou diante dos olhos dos três apóstolos.  Seu rosto se tornou brilhante como o sol, e suas vestes ficaram brancas e brilhantes (v. 29).  Uma nuvem luminosa, sinal bíblico da presença de Deus, os envolveu.  E apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus.  E também na Transfiguração, como no batismo, ressoa da nuvem a voz do Pai celeste que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” (v. 35).

Este é o convite que o próprio Deus nos faz: “Escutai o que ele diz” (v. 35).  Devemos escutá-lo porque só ele pode nos conduzir à Vida. Só ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68).  Nós somos chamados a escutá-lo, mas também a fazer tudo o que ele nos disser (cf. Jo 2,5).  Escutando a sua palavra e praticando os seus ensinamentos seremos verdadeiramente discípulos de Cristo.

Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar também para a nossa própria transfiguração.  Como nos exorta São Paulo: “O Senhor Jesus Cristo transformará o nosso corpo perecível, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso” (Fl 3, 21). Estas palavras do Apóstolo, enfatizadas na segunda leitura deste domingo, nos recordam que a nossa pátria verdadeira está no céu e que Jesus transfigurará o nosso corpo mortal num corpo glorioso como o seu.  Como de fato, Jesus quis dar um sinal e uma profecia da sua Ressurreição gloriosa, da qual também nós somos chamados a participar.

O evangelista São Lucas ressalta como este fato extraordinário se verifica precisamente num contexto de oração. Enquanto rezava, o rosto de Jesus mudou de aspecto (cf. Lc 9, 29). Antes de tudo, a primazia da oração, sem a qual todo o compromisso do apóstolo e da caridade se reduz a ativismo. Na Quaresma aprendemos a reservar o justo tempo à oração, bem como à esmola, o jejum e outras práticas quaresmais, consideradas pela tradição cristã como armas para combater o mal e os vícios.

Os Evangelhos deixam transparecer um hábito de Jesus, de transcorrer em oração uma parte da noite. O Evangelista São Marcos faz referência a uma destas noites, depois da multiplicação dos pães, e escreve: “Jesus obrigou logo os seus discípulos a subirem para o barco e a irem à frente, outro lado, rumo a Betsaida, enquanto Ele próprio despedia a multidão. Depois de os ter despedido, foi ao monte para orar. Já era noite, o barco estava no meio do mar e Ele sozinho em terra” (Mc 6, 45-47).

Por diversas vezes e, sobretudo, nos momentos mais urgentes e complexos, a oração de Jesus tornava-se mais prolongada e intensa. Na iminência da escolha dos doze Apóstolos, por exemplo, São Lucas sublinha a duração da oração preparatória de Jesus: “Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer a oração e passou toda a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos” (Lc 6, 12-13). Assim também deve ser a nossa oração, sinal da nossa amizade com Deus, a nossa intimidade com Ele. A oração deve ser entendida também como tempo para estar com o Senhor.

Somos chamados a ser testemunhas de oração, precisamente porque o nosso mundo se encontra muitas vezes fechado ao horizonte divino e à esperança que contém o encontro com Deus. Na amizade profunda com Jesus e vivendo nele e com Ele a relação filial com o Pai, através da nossa oração fiel e constante, podemos abrir janelas para o Céu de Deus. Aliás, ao percorrer o caminho da oração, sem uma consideração humana, podemos ajudar outros a percorrê-lo: também é verdade que na oração cristã se abrem veredas.

Também na nossa oração temos que aprender, cada vez mais, a entrar nesta história de salvação, cujo ápice é Jesus, renovar diante de Deus a nossa decisão pessoal para nos abrirmos à sua vontade, pedir-lhe a força de conformar a nossa vontade com a sua, em toda a nossa vida, em obediência ao seu desígnio de amor por nós.

Sobressaem na oração três elementos: a fé em um Deus pessoal, vivo; a fé em sua presença efetiva; o diálogo entre o homem e Deus.  Um diálogo pessoal, íntimo, profundo.  Quem reza sabe que se encontra diante da Sabedoria Suprema, diante daquele que nos conhece.  Assim, quem reza tem fé na presença ativa de Deus.  É a fé viva da oração.  Onde cessa a oração, cessa também a fé viva; e onde cessa a fé, cessa a oração.  A oração é este diálogo, este colóquio com o Senhor. 

A necessidade da oração se faz sentir diversas vezes na Sagrada Escritura:  São Paulo dizia: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17). E o mesmo Apóstolo ressalta: “É preciso embriagar-se com o Espírito Santo, falando uns aos outros com salmos e hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração, sempre e por tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5,18-20). E o próprio Jesus nos lembra: “Vigiai e orai para não entrardes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mc 14,38).

Orar é uma necessidade vital. Se não nos deixarmos levar pelo Espírito, cairemos de novo na escravidão do pecado (Gl 5,16-25).  São João Crisóstomo afirmava:  “Nada se compara em valor à oração;  ela torna possível o que é impossível, fácil o que é difícil.  É impossível que caia em pecado o homem que reza”.  E Santo Afonso Maria de Ligório dizia: “Quem reza certamente se salva;  quem não reza certamente se condena”.

Neste domingo a primeira leitura nos apresenta a figura de Abraão, o modelo do crente que soube escutar a voz do Senhor. Diante do chamado do Senhor, ele deixou a própria terra, sustentado apenas pela fé e pela obediência.  Como Abraão, também nós somos convidados a escutar e confiar nos desígnios de Deus.  E nesta primeira Leitura temos a narração da aliança estabelecida por Deus com Abraão, que responde “esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18); por este motivo, ele torna-se pai na fé de todos os crentes, porque acreditou no Senhor.

O tempo da Quaresma nos é oferecido, precisamente, como uma ocasião para nos colocarmos mais na escuta da Palavra de Deus que se fez carne. Possamos aproveitar para aprofundar o nosso silêncio interior, tornando-nos mais atentos ao que Jesus quer dizer a cada um de nós. E a exemplo de Cristo, que se colocava frequentemente em oração, sejamos também nós convidados a viver o itinerário quaresmal em espírito de oração e de penitência, a fim de nos preparar desde agora para receber a luz divina que resplandecerá na Páscoa.

E Maria, a Virgem santa de Nazaré, que como Abraão esperou contra toda a esperança, nos ajude a reconhecer em Jesus o Filho de Deus e o Senhor da nossa vida.  E que esta quaresma possa constituir para cada um de nós um momento privilegiado de graça e possa trazer abundantes frutos de bem.   Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

I DOMINGO DA QUARESMA – C

As tentações no deserto

Lc 4,1-13

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas, entramos no clima penitencial da Quaresma, um tempo litúrgico que nos recorda os quarenta dias transcorridos por Jesus no deserto e constitui para todos os batizados um forte convite à conversão. Trata-se de um itinerário de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo Pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor, o coração do mistério da nossa salvação.

Quarenta é um numero simbólico com o qual o Antigo e o Novo Testamento representam os momentos fortes da experiência de fé do Povo de Israel. É um número que exprime o tempo de espera, da purificação, do retorno ao Senhor, da consciência que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, uma soma de dias. Indica mais que isso, uma paciente perseverança, uma longa prova, um período suficiente para ver as obras de Deus, um tempo no qual é necessário decidir-se e a assumir as próprias responsabilidades (cf. BENTO XVI, Audiência Geral, 22 de fevereiro de 2012).

O número quarenta é particularmente significativo no mundo bíblico. Noé, um homem justo, por causa do dilúvio permanece por quarenta dias e quarenta noites na arca, junto à sua família e os animais, em conformidade com a vontade de Deus. Ele também espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar na terra firme, que foi salva da destruição (cf. Gn 7,4.12;8,6). O povo hebreu viveu quarenta anos de vida nômade no deserto cf. Ex 15,22-18,27). Moisés passou quarenta dias na presença de Deus no Monte Sinai para acolher a Lei (cf. Ex 24,18). Também o profeta Elias leva quarenta dias para atingir o Oreb, o monte onde encontra Deus (cf. 1Rs 19,8). Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obterem o perdão de Deus (cf. Jn 3,4). O Salmo 94 também nos lembra:  “Não vos torneis endurecidos como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais me provocaram e me tentaram, apesar de terem visto as minhas obras. Durante quarenta anos desgostou-me aquela geração, e eu disse: É um povo de coração desviado, que não conhece os meus desígnios. Por isso, jurei na minha cólera: Não hão de entrar no lugar do meu repouso” (Sl 94,8-11).

Lançando um olhar para o Novo Testamento, constamos que Jesus, antes de iniciar a vida pública, se retira no deserto por quarenta dias, sem comer, nem beber (cf. Mt 4,2), se nutre da Palavra de Deus, que usa como arma para vencer o diabo. As tentações de Jesus fazem referência àquelas que o povo hebraico enfrentou no deserto, mas que não souberam vencer. Quarenta são os dias durante os quais Jesus Ressuscitado instruiu os seus discípulos, antes de ascender ao Céu e enviar o Espírito Santo (cf. At 1,3).

Neste primeiro domingo do tempo quaresmal, a Liturgia da Palavra nos apresenta Cristo, conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde é tentado pelo demônio, após receber o batismo junto do Rio Jordão. O deserto, local para onde Jesus se retira, é o lugar do silêncio, da pobreza, onde o homem permanece desprovido do auxílio material. Mas é também o lugar da morte, pois onde não há água também não há vida, é o lugar da solidão, onde o homem pode sentir, de forma mais intensa, o drama da tentação. Jesus vai ao deserto, onde é tentado por satanás a fazê-lo deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir outras trilhas, mais fáceis e mundanas.  O relato evangélico é constituído em torno de um diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam passagens da Sagrada Escritura como base para certificar as suas afirmações. Jesus não usou milagres nem força sobrenatural para resistir à tentação do maligno. Ele simplesmente usou a Palavra de Deus para vencer as tentações.

No texto evangélico encontramos três tentações às quais Satanás submete Jesus. A primeira tem origem na fome, ou seja, na necessidade material: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão” (v. 3). Mas Jesus responde: “Não só de pão vive o homem” (v. 4; cf. Dt 8,3).  Esta tentação sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material.

Jesus sabe que o caminho para Deus não passa pela acumulação egoísta de bens e frisa que o seu alimento, ou seja, a sua prioridade, é a Palavra de Deus. Esta tentação nos faz lembrar também do momento em que Cristo estava na cruz. Naquela hora ele também foi convidado a realiza um milagre em proveito próprio, sendo desafiado a descer da cruz: “Se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27,40). Caso Jesus tivesse descido da cruz, seria um vitorioso diante dos homens, mas não diante de Deus.

Depois, na segunda tentação, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu” (v. 6-7). E Jesus responde: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’” (v.8; cf. Dt 6, 13).  Trata-se da adoração do poder, que Jesus recusou seguir.

Por fim, na terceira e última tentação, o diabo propõe a Jesus que realize um outro milagre: Lançar-se dos altos muros do Templo e fazer-se salvar pelos anjos, de modo que todos acreditassem nele. Mas Jesus responde que Deus nunca deve ser posto à prova. Jesus responde a esta proposta citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus (v. 12).  Ao contrário do que aconteceu com Adão e Eva no paraíso terrestre (cf. Gn 3), e de modo diferente do povo de Deus no deserto (cf. Ex 16-17; Dt 8), Jesus resiste à tentação e triunfa sobre o maligno.

No núcleo dessas três tentações que Jesus sofre está a proposta de instrumentalizar Deus, de usá-lo para os próprios interesses, glória e sucesso. E, portanto, de se colocar no lugar de Deus, removendo-o da sua existência e fazendo-o parecer supérfluo. O texto bíblico nos mostra que entre Jesus e o diabo há a Palavra de Deus.  E fazendo referência à Sagrada Escritura, Jesus antepõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento do nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do tentador.

Na história, houve multidões de homens e mulheres que escolheram imitar o Cristo que se retira ao deserto, como os monges e eremitas. Eles escolheram um espaço no deserto; nós devemos escolher ao menos um tempo de deserto. Passar um tempo de deserto significa fazer um pouco de vazio e de silêncio ao nosso redor; reencontrar o caminho do nosso coração, subtrair-nos das agitações e dos chamados externos, a fim de entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser e de nosso crer.

Quaresma é tempo de renovação espiritual, de conversão interior e de renovação da vida. É um tempo propício para revermos a nossa vida e redescobrirmos a fé em Deus. Isto comporta sempre uma luta, um combate espiritual, porque o espírito do mal naturalmente se opõe à nossa santificação e procura desviar-nos do caminho de Deus. Por esta razão, no primeiro domingo da quaresma, todos os anos é proclamado o Evangelho das tentações de Jesus no deserto.  Somos continuamente chamados a lutar contra a tentação do demônio usando as armas da fé, ou seja, a oração, a escuta da Palavra de Deus e a penitência, que deve nos acompanhar ao longo desse nosso itinerário quaresmal. Também o cristão, cuja existência é guiada pelo mesmo Espírito recebido no Batismo e na Confirmação, é chamado a enfrentar o quotidiano combate da fé, sustentado pela graça de Cristo.

Por conseguinte, não tenhamos receio de enfrentar, também nós, o combate contra o espírito do mal. Saibamos agir como o Cristo Senhor, soube vencer as tentações para estar unicamente a serviço do Pai. E para que também nós possamos seguir o seu exemplo, peçamos a intercessão da Virgem Maria, a quem invocamos com confiança filial, para que possamos, na hora da provação, afastarmos as tentações com a Palavra de Cristo, e deste modo voltarmos a colocar Deus no centro da nossa vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

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