XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A messe é grande, mas os operários são poucos.

 

Lc 10,1-12.17-20

 

Caros irmãos e irmãs,

 

A Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece algumas reflexões com uma temática missionária. O texto do Evangelho começa por nos apresentar o número dos discípulos enviados: setenta e dois (v. 1). Trata-se, evidentemente, de um número simbólico e certamente esse número se refere à totalidade das nações pagãs que habitavam a terra. Significa, portanto, que a proposta de Jesus é uma proposta universal, destinada a todos os povos, de todas as raças.

 

Em seguida, o Evangelista São Lucas assinala que os discípulos foram enviados dois a dois. Viajar aos pares era um costume dos judeus na época.  A própria Sagrada Escritura nos mostra isto na passagem em que nos narra o episódio dos dois discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13ss). O envio desta forma podia ser uma medida prática para defesa e ajuda mútua contra bandidos ou outros perigos. Trata-se de assegurar que o seu testemunho tem valor jurídico (cf. Dt 17,6; 19,15); e de sugerir que o anúncio do Evangelho é uma tarefa comunitária; eles devem ser ajuda mútua e dar testemunho de amor fraterno.  A ação missionária não é feita por iniciativa pessoal e própria, mas em comunhão com os irmãos.

 

Jesus ainda quer assinalar que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho dele.  Depois desta apresentação inicial, São Lucas passa a descrever a forma como a missão deve ser concretizada. Há, em primeiro lugar, um aviso acerca da dificuldade da missão: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (v. 3).  É uma referência a uma possível hostilidade do mundo e das pessoas perante a mensagem do Evangelho.

 

Muito evangelizadores experimentaram esta incompreensão ao longo de seu trabalho missionário. Na segunda leitura São Paulo nos diz: “Quanto a mim, Deus me livre de me gloriar, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (6, 14).  Como de fato, no seu ministério, São Paulo experimentou o sofrimento, a fraqueza e a derrota, mas também a alegria e a consolação. Mas foi precisamente o ter-se deixado configurar à morte de Jesus que fez São Paulo participar na sua ressurreição, na sua vitória.

 

A fecundidade pastoral, a fecundidade do anúncio do Evangelho não deriva do sucesso nem do insucesso vistos segundo critérios de avaliação humana, mas de conformar-se com a lógica da cruz de Jesus, que é a lógica de sair de si mesmo e dar-se, a lógica do amor. É a cruz que garante a fecundidade da nossa missão. E é da cruz, supremo ato de misericórdia e amor, que se renasce como “nova criação” (Gl 6,15). Como de fato, na segunda leitura (cf. Gl 6,14-18), o Apóstolo São Paulo certifica que a Cruz constituiu o centro da sua vida, deu-lhe a força para enfrentar as penitências ásperas e os momentos mais exigentes, desde a juventude até à última hora: ele estava sempre consciente de que a salvação provém dela.

 

No Evangelho também encontramos uma exigência de pobreza e simplicidade para esta missão: os discípulos não devem levar consigo nem bolsa, nem alforje, nem sandálias; não devem deter-se a saudar ninguém pelo caminho (v. 4); também não devem saltar de casa em casa (v. 7). Essas indicações de não levar nada para o caminho sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força da Palavra.  A indicação de não saudar ninguém pelo caminho indica a urgência da missão, que não permite deter-se nas demoradas saudações típicas da cortesia oriental, podiam impedir o motivo urgente do anúncio do reino; a indicação de que não devem saltar de casa em casa sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não deter em uma hospitalidade mais confortável.

 

O anúncio fundamental a ser apresentado pelos discípulos deve ser o de paz. Eles devem começar por anunciar “a paz” (v. 5-6). Não se trata da saudação normal entre os judeus, mas do anúncio dessa paz messiânica que antecede ao Reino. É a paz como um dom divino que é reconciliação e bênção. É o anúncio desse mundo novo de fraternidade, de harmonia com Deus e com os outros, de bem-estar, de felicidade, o que é sugerido pela palavra hebraica “shalom”. Além de serem arautos de Jesus, os discípulos são como reservatórios dessa paz.  Portanto, se não houver na casa alguém digno dessa paz ela retornará ao enviado que a desejou. Esse anúncio deve ser complementado por gestos concretos, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (v. 9). Ao chegarem em uma casa devem dizer: “A paz esteja neste casa!” (v. 5). Não o dizem somente com a boca, mas irradiam aquilo de que estão repletos; pregam a paz e possuem a paz. 

 

Além da paz que já traduz o conteúdo do anúncio (v.5), Jesus explicita melhor a relação gesto e palavra ao afirmar: “Curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: o Reino de Deus está próximo de vós” (v.9). Tal relação se evidencia no retorno da missão: “Eis que vos dei o poder de pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo” (v.19).  Serpentes e escorpiões são conhecidos por serem portadores de um mortífero veneno, mas no Antigo Testamento eram considerados como símbolo de todo gênero de males. Lembremos as serpentes do deserto que eram vencidas com a serpente de bronze fundida por ordem de Moisés. Já no livro do Gênesis a serpente é tida como a causadora de todo o mal na terra (Gn 3,1-14) e o escorpião é símbolo do castigo divino (cf. 1Rs 12,11.14). No final do Evangelho de São Marcos temos que os discípulos “pegarão em serpentes e nada sofrerão” (Mc 16,18) é uma referência, embora tímida, deste poder que Jesus entrega a seus discípulos: um poder sobre toda força maligna, como é o inimigo, entendido como Satanás.

 

Finalmente, o retorno dos discípulos confirma a eficácia do poder de Jesus que se operou neles: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!” (v.17). Confirma também a eficiência do conteúdo da mensagem salvífica do Evangelho, na sua relação gesto e palavra, e dá validade aos meios empregados. Assim Jesus esclarece que o Reino é sinal da vitória espiritual sobre Satanás (v.18) e a vitória material sobre os males e limitações sofridas pelo homem.  São Lucas faz ressaltar o entusiasmo dos discípulos pelos bons frutos da missão, e traz esta expressão de Jesus: “Não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10,20).

 

Este texto do Evangelho deve despertar em todos os batizados a consciência de que também são missionários de Cristo, chamados a preparar-lhe o caminho mediante as palavras e o testemunho da vida. Mas também nós somos chamados a pedir ao dono da messe que envie mais operários para a sua messe. A missão de anunciar o Evangelho não está reservada apenas ao grupo dos doze ou dos setenta e dois, mas é confiada a todos os discípulos, para irem até aos confins da terra levando a Boa Nova da salvação. É toda a Igreja que é constituída missionária. E se os operários são poucos, é talvez porque os batizados não estão ainda suficientemente conscientes da sua missão.

 

Todos nós devemos ser transmissores do bom odor de Cristo e estar sempre em uma união com cada vez mais intensa com ele pela oração.  Peçamos também a intercessão da Virgem Maria, para que ela nos proteja sempre para que possamos desenvolver este nosso compromisso de evangelizadores, gerando bons frutos na vinha do Senhor.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

 

Mt 16,13-19

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Celebramos neste domingo a solenidade dos santos Pedro e Paulo, que, por graça do Espírito Santo, tornaram-se as pedras fundamentais do cristianismo.  Esta solenidade nos faz recordar o martírio destes dois apóstolos, que foram mortos por ocasião da perseguição de Nero, por volta do ano 64.  

 

Pedro, que tinha o nome de Simão, foi um dos primeiros apóstolos a deixar as suas redes de pescador para seguir o Cristo e tornar-se pescador de homens (cf. Lc 5,1-11). E junto do apóstolo Pedro está São Paulo, que passou de perseguidor a perseguido por aceitar a missão para a qual Jesus o convidou. Missão que ele cumpriu com dedicação e especial criatividade: levar seus ensinamentos a todos os pagãos e também ao povo de Israel.

 

A referência a estes dois santos atravessa toda a liturgia da palavra deste domingo. A primeira e a segunda leituras falam, respectivamente, dos Santos Pedro e Paulo ressaltando precisamente a ação de Deus em relação a eles. Sobretudo o texto dos Atos dos Apóstolos descreve com abundância de pormenores a intervenção do anjo do Senhor, que liberta Pedro das correntes e o conduz para fora da prisão de Jerusalém, onde o rei Herodes o tinha feito encarcerar (cf. At 12,1-11). Paulo, por sua vez, escrevendo a Timóteo quando já sentia próximo o fim da sua vida terrena, faz um balanço do qual sobressai que o Senhor lhe tinha estado sempre próximo, o libertou de tantos perigos e ainda o libertará introduzindo-o no seu Reino eterno (cf. 2Tm 4, 6-8.17-18).

 

O tema é reforçado pelo Salmo responsorial (cf. Sl 33), e encontra um particular desenvolvimento também no trecho evangélico da confissão de Pedro, onde ele, antes de qualquer outro, reconhece Jesus como o Messias, e, com base nas suas palavras: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16), foi ele escolhido para ser a pedra fundamental da Igreja: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja” (16, 18). Com isto, é conferida a Pedro uma tarefa particular que ele deve desempenhar mediante as imagens da rocha que se torna a pedra de fundamento e do poder das chaves.

 

A promessa feita por Jesus a Pedro ocorre perto das fontes do Rio Jordão, em um momento que marca uma mudança decisiva no caminho de Jesus: agora o Senhor direciona os seus passos para Jerusalém e, pela primeira vez, diz aos discípulos que este caminho para a Cidade Santa é o caminho da cruz.  Contudo, sabendo que a sua morte estava próxima, Jesus institui a Eucaristia, e logo após a instituição deste sacramento, instrui os seus discípulos acerca do ministério que eles devem exercer e que deve ter como base o serviço, a exemplo do próprio Cristo que se encontra no meio deles como aquele que serve (cf. Lc 22,27ss).  Neste momento Jesus dirige a Pedro estas palavras: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos (Lc 22,31s).

 

O texto parece ressaltar que Satanás pediu para poder examinar os discípulos como o grão. Isto recorda um trecho do livro de Jó, no qual Satanás pede a Deus a permissão para provar Jó, exemplo do homem fiel a Deus (cf. Jó 1,6,22). O diabo quer colocar Deus à prova, que parecer permitir que o diabo exerça o seu domínio, aproveitando a fragilidade do homem. 

 

No caso de Jó, Deus concede a Satanás a liberdade exigida, precisamente para poder com ela defender a sua criatura, o homem e a si mesmo. Acontece assim também com os discípulos de Jesus, onde  Deus dá uma certa liberdade ao diabo. De fato Jesus fala a Pedro: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lc 22,32). A oração de Jesus é o limite colocado ao poder do maligno. A oração de Jesus é a proteção da Igreja.

 

Jesus reza de modo especial por Pedro, visando a estabilidade da sua fé. Esta oração de Jesus guarda e protege a fé de Pedro, a mesma que ele confessou em Cesareia de Filipe: “Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 16), conforme sublinha o evangelho deste domingo.  Mas Pedro já havia dito antes a Jesus: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8); mostrando a Jesus a sua fragilidade enquanto ser humano. Por isto, Jesus sabe que a fé de Pedro precisa ser fortalecida sempre de novo, precisamente também perante a cruz e todas as contradições do mundo. Jesus não reza só pela fé pessoal de Pedro, mas pela sua fé como serviço aos outros. É precisamente isto que ele pretende dizer com as palavras: “E tu, uma vez convertido, fortaleça os teus irmãos” (Lc 22,32).

 

Estas palavras profetizam a debilidade de Simão que, perante uma criada, negará que conhece Jesus:  “E tu, uma vez convertido” o Senhor, que lhe prediz a queda, também lhe promete a conversão. E o evangelista São Lucas busca um pormenor que vale a pena recordar. A terceira negação de Pedro, coincide com o momento em que Cristo passa carregando a cruz e neste momento, “voltando-se, o Senhor fixou os olhos em Pedro…” (Lc 22,61).  E neste instante, após experimentar o olhar de amor de Jesus, ele sai e chora amargamente (cf. Lc 22,62).

 

E depois, após a sua ressurreição, o Senhor vai confiar a Pedro a tarefa de apascentar os irmãos, tendo como base o amor. Jesus o interroga por três vezes: “Pedro, tu me amas?”; ao que ele, também por três vezes responde: “Eu te amo”, e Jesus, de imediato responde: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-19).  Mas este ofício confiado a Pedro, ancorado no amor, está também sedimentado na oração de Jesus: “Eu rezei por ti…” (Lc 22,32). É isto que lhe dá a segurança da sua perseverança através de todas as misérias humanas. E o Senhor lhe confia esta missão no contexto da Ceia, simultaneamente ao dom da Eucaristia. A Igreja, fundada na instituição da Eucaristia, no seu íntimo é comunidade eucarística e desta forma comunhão com o Corpo do Senhor.  Mas mesmo neste contexto, Jesus prediz a Pedro que o seu caminho irá também em direção à cruz. 

 

A promessa feita por Cristo de que o poder do inferno não prevalecerá sobre a sua Igreja, se justifica, pois foi ela edificada tendo como base o amor e a sua própria presença: “Eu estarei convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt 28,20).  Estas palavras podem ter também um significativo valor ecumênico, dado que um dos efeitos típicos da ação do maligno é precisamente a divisão. De fato, as divisões são sintomas da força do pecado, que pode continuar agir. Mas a palavra de Cristo é clara: “Não prevalecerão” (Mt 16,18), pois a unidade da Igreja está radicada na sua união com Cristo (cf. BENTO PP XVI, Homilia na missa de 29 de junho de 2006).

 

Celebrar os Apóstolos Pedro e Paulo constitui um testemunho de fé na Igreja “una, santa, católica, apostólica”. Pedro é, efetivamente, a pedra que se apoia diretamente sobre a pedra angular que é Cristo. Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado, diferentes, mas complementares. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária.

 

Possamos nós também imitar o exemplo destes dois grandes evangelizadores. Que o Senhor nos faça ter uma fé firme, como a de Pedro, e rica de impulso apostólico como a de Paulo, para sermos sal e luz em nossa sociedade, aceitando a mensagem de amor pela qual Pedro e Paulo sofreram o martírio. Também nos ajude a Virgem Maria, para que o nosso encontro com a Palavra do Senhor possa transformar completamente a nossa vida, para que estejamos dispostos a seguir com determinação o Mestre que deu a sua própria vida por cada um de nós. Assim seja. 

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.

XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Segue-me!

Lc 9,51-62

 

Caros irmãos e irmãs,

 

As leituras bíblicas da santa Missa deste domingo ressaltam o tema da vocação de seguir o Cristo e as suas exigências. O Evangelho mostra Jesus a caminhar para Jerusalém, meta final onde, Jesus, na sua Páscoa derradeira, deve morrer e ressuscitar, elevar a cumprimento a sua missão de salvação. Ao longo desse caminho Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do Reino de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz.  Os discípulos também são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus. 

 

Se Jesus parece exigente para com aqueles que O querem seguir, é porque Ele mesmo é exigente quanto à sua própria caminhada. É caminhando que Jesus convida a segui-lo. Então, aqueles que o seguirem poderão dizer como Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7). 

 

Ao longo do seu caminho até Jerusalém, Jesus encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais prometem segui-lo onde quer que ele vá. Ele os admoesta dizendo: “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”, ou seja, não tem uma habitação estável e quem escolhe trabalhar com Ele na sua vinha, jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9,57-58.61-62). A outro jovem o próprio Cristo diz: “Segue-me!”, pedindo-lhe um desapego total dos vínculos familiares (cf. Lc 9,59-60).  Essas exigências podem parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus, que se torna presente na própria pessoa de Jesus Cristo. Em última análise, trata-se daquela radicalidade que é devida ao amor de Deus, ao qual Jesus é o primeiro a obedecer. Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, pois está a serviço dos outros (cf. Gl 5, 16).

 

Jesus chamou muitos para segui-lo. Podemos lembrar de Pedro e dos demais apóstolos. Podemos lembrar mais precisamente do evangelista e também apóstolo São Mateus (cf. Mt 9,9). Antes que Jesus o chamasse, ele desempenhava a profissão de publicano e, por isso, era considerado pecador público, excluído da “vinha do Senhor”. Mas, tudo muda quando Jesus, passando ao lado da sua mesa de impostos,  fixa nele o seu olhar e diz: “Segue-me!” Foi precisamente isto que o evangelista São Mateus fez: Levantou-se e seguiu-o.

 

Também São Paulo experimentou a alegria de ser chamado pelo Senhor para trabalhar na sua vinha. Mas como ele mesmo confessa, foi a graça de Deus que agiu nele, aquela graça que, de perseguidor da Igreja, o transformou em Apóstolo das nações. A ponto de o levar a dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1,21). Paulo compreendeu bem que trabalhar para o Senhor já é, nesta terra, uma recompensa.

 

A proposta que Jesus faz às pessoas ao dizer-lhes “Segue-me!” (v. 59), é exigente e exaltante. São elas convidadas a entrar no âmbito da sua amizade, a escutar de perto a sua Palavra e a viver com Ele; ensina-lhes a dedicação total a Deus e a propagação do seu Reino, segundo a lei do Evangelho: “Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24)

 

O encontro de Jesus com o jovem rico (cf. Mc 10, 17-22), na narração evangélica de São Marcos sublinha: “Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele” (Mc 10, 21). No olhar do Senhor, está o coração deste encontro e de toda a experiência cristã. 

 

Jesus convida o jovem rico a ir mais além da satisfação das suas aspirações e dos seus projetos pessoais, dizendo-lhe: “Vem e segue-me!” (Mt 19,21). Ao jovem rico Jesus ainda diz: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres… depois vem e segue-me” (Mt 19,21). Estas palavras inspiraram numerosos Cristãos ao longo da história da Igreja para seguir Cristo numa vida de pobreza radical, confiando na Providência Divina. Entre estes generosos discípulos de Cristo encontrava-se também São Bento, São Francisco de Assis e tantos outros que, sem hesitações, responderam o chamado do divino Mestre.

 

A vocação cristã deriva de uma proposta de amor do Senhor e só pode realizar-se graças a uma resposta de amor.  Jesus convida os seus discípulos a segui-lo com uma confiança sem reservas em Deus. Os santos acolheram este convite exigente e, com humilde docilidade, põe-se a seguir Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição na lógica da fé, às vezes humanamente incompreensível, consiste em viver segundo o Evangelho.

 

Como de fato, muitos são aqueles que deixam a família de origem, os estudos, o trabalho, os seus bens, para se consagrar a Deus, como resposta radical à vocação divina. Para seguir Jesus Cristo é preciso estar livre de todas as ataduras, pois quem olha para trás, não está apto para o Reino de Deus (cf. Lc 9,62).  Só vivemos a verdadeira liberdade se sairmos de nós mesmos, num desapego que nos colocar a caminho com o Senhor para cumprirmos a sua vontade.

 

A exemplo de muitos discípulos de Cristo, possamos também nós acolher com alegria o convite a seguir Jesus, para vivermos intensa e fecundamente neste mundo. Com efeito, mediante o batismo, Ele chama cada um a segui-lo com ações concretas, a amá-lo sobre todas as coisas e a servi-lo nos irmãos. Infelizmente, o jovem rico não acolheu o convite de Jesus e retirou-se pesaroso. Não encontrara coragem para se desapegar dos bens materiais a fim de possuir o bem maior proposto por Jesus.

 

Jesus nunca se cansa de estender o seu olhar de amor sobre nós, chamando-nos a ser seus discípulos; a alguns, porém, Ele propõe uma opção mais radical. Possamos estar sempre disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de predileção especial. Ele sabe dar alegria profunda a quem responde com coragem.

 

Também hoje, o seguimento de Cristo é exigente; significa aprender a ter o olhar fixo em Jesus, a conhecê-lo intimamente, a escutá-lo na Palavra e a encontrá-lo nos Sacramentos; significa aprender a conformar a nossa própria vontade à dele.  Deus serve-se de nós segundo o seu plano de amor, segundo a modalidade que Ele estabelece e pede-nos para favorecer a ação do Espírito; devemos ser os bons colaboradores do Senhor, para a eficaz realização do seu Reino.

 

Possamos ser atraídos pelos exemplos luminosos dos Santos que souberam dar ao mundo um testemunho do Senhor. São eles os protagonistas do amor e do bem, exemplos vivos de esperança e testemunhas de um amor que nada teme, nem sequer a morte.

 

Que a Virgem Maria, a Mãe de Deus e nossa, que corespondeu sem reservas o chamado do Senhor,  nos ajude a sermos capazes de ouvir a voz de Deus e de seguir com determinação e decisão o caminho da santidade.  Assim seja. 

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento-RJ

XII SEMANA DO TEMPO COMUM – C

 E vós, quem dizeis que eu sou?

Lc 9,18-24

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Neste domingo o texto evangélico traz uma pergunta formulada por Jesus aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”  Os discípulos respondem: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou” (v.19). Na opinião do povo, Jesus é comparado aos grandes personagens apresentados pela Sagrada Escritura, mas não o reconhecem como Messias, certamente porque a postura de Jesus não correspondia àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.

 

Contudo, a reação das pessoas é de admiração e enaltecimento, pois recordam João Batista, o maior dos profetas; Elias, o profeta que surgiu como um fogo, cuja palavra queimava como uma tocha (cf. Eclo 48,1).  Na verdade o povo enaltece, admira, mas não reconhece a verdadeira identidade de Cristo.

 

Jesus viveu numa época de enormes dificuldades para o Povo de Deus.  E esse sofrimento gerou grande expectativa messiânica. Todos sonhavam com a chegada do Messias anunciado pelos profetas. Neste período apareceram várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”; o que criou-se um clima de ebulição, visto que arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram chacinados pelas tropas romanas.

 

Muitos pensavam que o Messias seria um herói, um guerreiro forte semelhante a Sansão, um rei vitorioso como Davi, um político inteligente como Salomão etc. Aparentemente, Jesus não é considerado pelo povo como o novo Messias, mas o identificam como o novo Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus.

 

Em seguida temos a segunda pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” As perguntas que Cristo faz, as respostas que são dadas pelos seus discípulos e, finalmente, por Pedro, constituem uma espécie de exame da maturidade da fé daqueles que vivem mais perto de Cristo.  Pedro responde em nome dos Doze, com uma profissão de fé que se diferencia de modo substancial da opinião que as pessoas têm sobre Jesus; com efeito, ele reconhece Jesus como o “Cristo de Deus” (v. 20). Ou, de acordo com a narração do Evangelista São Mateus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

 

Esta confissão de fé apresentada por Pedro está intrinsecamente vinculada à primeira frase que no trecho evangélico, diz estar Jesus em um lugar afastado, em um momento de oração (v. 19). Um momento em que os próprios discípulos testemunham a unidade de Jesus com Deus.  Frequentemente o evangelista São Lucas observa que Jesus, antes de cumprir algum gesto importante ou antes de transmitir um ensinamento com um significado extraordinário, ele se recolhe em oração. Temos nesta indicação que pela oração também podemos descobrir o rosto do Senhor e o conteúdo mais autêntico da sua missão.

 

Jesus não desmente a afirmação de Pedro, mas ordena que não a digam a ninguém. Dizer que Jesus é o Messias significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, a linhagem davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos. Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um Messias, poderoso e vitorioso e apressa-se a esclarecer possíveis equívocos.

 

Ele é o enviado de Deus para libertar os homens, no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida. No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz. Ele não é o Messias que todos estão esperando. Por isto, logo em seguida, o texto do Evangelho esclarece: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 22).  Com isto, Jesus mostra que não lhe espera o triunfo, mas a humilhação, o sofrimento e a morte. Porém, Deus transforma este seu sofrimento em caminho para a glorificação.

 

Na teologia do evangelista São Lucas, Jesus será revelado como Messias pelo sofrimento e pela paixão (cf. Lc 27,7.26.46).  Sua missão messiânica consiste em vencer a morte pela cruz (cf. At 2,23s). Mas este mistério de sua messianidade ainda está oculto, para evitar falsas esperanças, por isto, Jesus proíbe aos discípulos comunicar aos outros a verdade professada por Pedro.

 

Imediatamente, depois da confissão petrina, Jesus anuncia a sua paixão e ressurreição, pondo em destaque o seguimento dos discípulos pelo caminho da cruz. E depois acrescenta que ser discípulo significa “perder-se a si mesmo”, isto para voltar a encontrar-se plenamente a si mesmo” (cf. Lc 9,22-24).

 

Mas o que significa “perder a vida por causa de Jesus?” Isto pode acontecer de dois modos: confessando explicitamente a fé, ou defendendo de modo implícito a verdade. Os mártires são o exemplo máximo da perda da vida por Cristo.

 

E dentre os mártires que vieram a perder a vida por causa da verdade, que é Cristo, uma vez que ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), está João Batista. Ele foi o escolhido por Deus para preparar o caminho diante de Jesus e indicá-lo ao povo de Israel como o Messias, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

 

De Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvir João Batista e fazer-se batizar por ele no rio Jordão, confessando os próprios pecados (cf. Mc 1,5). A fama do profeta batizador cresceu a tal ponto que muitos perguntavam se era ele o Messias. Mas ele, ressalta o evangelista São João, negou categoricamente: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

 

João consagrou-se totalmente a Deus e ao seu enviado, Jesus. Mas, no final, morreu em nome da verdade, quando denunciou o adultério do rei Herodes com Herodíades (cf. Mc 6,16-29).  Pagou com a vida, selando com o martírio o seu serviço a Cristo, que é a Verdade em pessoa.

 

Para seguir Jesus, é necessário renunciar a todas as inclinações contrárias à vontade de Deus, ou seja,  renunciar-se a si mesmo (v. 23). É preciso carregar a cruz todos os dias.  Esta é a grande lei do cristianismo.  Jesus vai à frente com a cruz e nos convida a segui-lo. E o seu convite continua atual: “Segue-me!”.

 

E Jesus, diante desta profissão de fé, renova a Pedro e aos demais discípulos o convite a segui-lo pela estrada exigente do amor até a cruz. Também a nós Jesus dirige a proposta de segui-lo todos os dias, e lembra que, para sermos seus discípulos, é necessário que nos apropriemos do poder da sua Cruz, ápice de nossos bens e coroa de nossa esperança.

 

Saibamos acolher com alegria esta palavra de Jesus. É uma regra de vida proposta a todos e que São João Batista interceda por nós para que possamos pô-la em prática. Invoquemos também a intercessão da Virgem Maria, para que, nos nossos dias, saibamos sempre manter a fidelidade a Cristo e testemunhar com coragem a sua verdade e o seu amor a todos. Ela, que se identificou como a Serva do Senhor, e que conformou a sua vontade com a de Deus, nos acompanhe durante todos os dias da nossa vida. Assim seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

 

Lc 9,11-17

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Na quinta-feira depois da Solenidade da Santíssima Trindade a Igreja celebra o dia de “Corpus Christi”, quando veneramos a Eucaristia: Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor.

 

Esta celebração, nascida no século XIII, é um festivo desdobramento da Quinta-feira Santa, quando na Última Ceia, na véspera de sua Paixão, Jesus instituiu o sacramento da Eucaristia, tomou o pão, abençoou-o e o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo:  “Tomai e comei, isto é o meu corpo. Fazei isto em memória de mim. Da mesma forma, tomou o vinho e, dando graças, o distribuiu, dizendo: Tomai e bebei, este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de vós. Toda vez que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” (Mt 26,26ss; 1Cor 10,23-27).  Disse ainda: “Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,54).

 

Na Eucaristia, o Corpo de Cristo torna-se verdadeiramente o alimento; e o sangue, a bebida para a vida eterna, para a ressurreição. De fato, aquele que come este Corpo eucarístico do Senhor e bebe na Eucaristia o Sangue por Ele derramado para a redenção do mundo, chega àquela comunhão com Cristo, da qual o Senhor mesmo disse: “Permanece em Mim e Eu nele” (Jo 15,4).  

 

Na celebração da Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e realiza-se também a obra da nossa redenção. Verdadeiramente, pelo Sacramento da Eucaristia Jesus demonstra por cada um de nós um amor sem medida (cf. Jo 13, 1).

 

Na liturgia da Missa, nós exprimimos a nossa fé na presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, entre outras maneiras, ajoelhando ou inclinando profundamente em sinal de adoração do Senhor. E desde os tempos mais antigos a Igreja Católica prestou e continua a prestar este culto de adoração que é devido ao sacramento da Eucaristia, não só durante a missa, mas também fora da sua celebração: conservando com o maior cuidado as hóstias consagradas, apresentando-as aos fiéis para que solenemente as venerem, e levando-as em procissão (Cf. CIgC 1378), como acontece no dia de “Corpus Christi”.

 

O Evangelho deste dia traz o relato da multiplicação dos pães, quando o Senhor Jesus proferiu a bênção, partiu e distribuiu os pães pelos seus discípulos para alimentar a multidão, o que prefigura a superabundância deste pão único da sua Eucaristia (cf. Lc 9,11-17). Na multiplicação dos pães o evangelista São Lucas nos faz compreender melhor o dom e o mistério da Eucaristia.

 

Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos Apóstolos, para que os distribuíssem ao povo. Todos, observa São Lucas, comeram e ficaram saciados e ainda se encheram dozes cestos de fragmentos que sobraram .  Trata-se de um prodígio surpreendente, que constitui como que o início de um longo processo histórico: o constante multiplicar-se na Igreja do pão da vida nova para os homens de toda a raça e cultura. Este ministério sacramental foi confiado aos Apóstolos e aos seus sucessores. E eles, fiéis à recomendação do divino Mestre, não cessam de partir e de distribuir o Pão eucarístico de geração em geração.

 

O povo de Deus recebe este pão da vida com devota participação e como remédio de imortalidade, pois dele nutriram-se inúmeros santos e mártires, de onde tiraram a força para resistir também a duras e prolongadas tribulações. Eles acreditaram nas palavras que um dia Jesus pronunciou em Cafarnaum: “Eu sou o pão vivo, descido do céu. Se alguém comer deste pão, viverá eternamente”.

 

Assim como os discípulos, que escutaram admirados o seu discurso em Cafarnaum, também nós percebemos que esta linguagem não é fácil de ser entendida . Poderíamos às vezes ser tentados a dar-lhe uma interpretação relativa. Mas isto nos levaria para longe de Cristo, como aconteceu para aqueles discípulos que a partir de então já não andavam com ele .

 

Na celebração da Eucaristia, torna-se presente a Pessoa de Cristo, o Verbo encarnado, que foi crucificado, morreu e ressuscitou pela salvação do mundo, com uma presença misteriosa, sobrenatural e única. Encontramos o fundamento desta doutrina na própria instituição da Eucaristia, quando Jesus identificou os dons que oferecia, com o seu Corpo e com o seu Sangue: “Isto é o meu Corpo… este é o cálice do meu Sangue…” , ou seja, com a sua corporeidade inseparavelmente unida ao Verbo e, portanto, com a sua Pessoa total.

 

Jesus Cristo está certamente presente, de múltiplas maneiras, na sua Igreja: na sua Palavra, na oração dos fiéis , nos pobres, doentes e prisioneiros (cf. Mt 25,31-46), nos sacramentos e especialmente na pessoa do ministro sacerdote. Mas, sobretudo, está presente sob as espécies eucarísticas.

 

Nós celebramos, portanto, a solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo, na quinta-feira depois da Santíssima Trindade, para colocar em evidência precisamente aquela Vida que nos dá a Eucaristia.  E a Igreja, desde seus primeiros dias, celebra sempre esse mistério, com o nome de fração do pão, mais tarde Missa e Eucaristia, que deve ocupar um lugar central na vida da comunidade (cân. 528 § 2). E deve ser “fonte e ápice de toda a vida cristã” (LG 11).

 

Neste dia, em muitas cidades, as ruas se tornam caminho de Deus, pela passagem de Cristo presente na hóstia sagrada.   Nesta quinta-feira, somos chamados a caminhar com o Senhor, a seguir o Cristo pelas ruas de nossa cidade. Segui-lo quer dizer sair de nós mesmos e fazer da nossa vida uma perfeita oferenda a Ele e também ao nosso irmão. A sua passagem em frente das casas e pelas ruas da nossa cidade será para quantos nela habitam uma oferenda de alegria, de vida imortal, de paz e de amor. É o Cristo que passa pelo quotidiano da nossa vida.  Ele caminha onde nós caminhamos, para viver onde nós vivemos. E, com Ele, possamos nós caminhar pelas estradas do mundo.

 

Neste dia de “Corpus Christi” Deus se faz próximo de nós; humilha-se no sacrifício da Cruz, entrando na obscuridade da morte para nos dar a sua vida, que vence o mal, o egoísmo e a morte. Jesus entrega-se a nós também na Eucaristia, compartilha o nosso próprio caminho e se faz alimento, o alimento autêntico que sustém a nossa vida inclusive nos momentos em que a vereda se torna árdua, quando os obstáculos diminuem os nossos passos.

 

Peçamos em oração que a nossa participação na Eucaristia nos estimule sempre a seguir o Senhor a cada dia, a sermos instrumentos de comunhão com Ele e também com o nosso próximo.  Assim Seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento /RJ.

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Jo 16,12-15

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Celebramos neste domingo a Solenidade da Santíssima Trindade, que, em certo sentido, recapitula a revelação de Deus advinda dos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo.

 

Depois do tempo pascal, culminado na festa de Pentecostes, a liturgia prevê estas três solenidades do Senhor: a Santíssima Trindade; na próxima quinta-feira, o dia de “Corpus Christi”; e finalmente, na sexta-feira sucessiva, a festa do Sagrado Coração de Jesus. Cada uma destas celebrações litúrgicas evidencia uma perspectiva a partir da qual se abrange todo o mistério da fé cristã: ou seja, respectivamente a realidade de Deus Uno e Trino, o Sacramento da Eucaristia e o centro divino-humano da Pessoa de Cristo. Na verdade são aspectos do único mistério da salvação, que num certo sentido resumem todo o itinerário da revelação de Jesus, da encarnação à morte e ressurreição até à ascensão e ao dom do Espírito Santo.

 

Como sabemos, a Trindade divina passa a habitar em nós a partir do dia do Batismo: “Eu te batizo – diz o ministro – em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. O nome de Deus, no qual fomos batizados, é lembrado por nós toda vez que fazemos o sinal da cruz. Também iniciamos cada Celebração Eucarística em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.  O mesmo ocorre no final, ao concluir, com a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Também no decorrer da Santa Missa fazemos a nossa profissão de fé dizendo: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso… e em um só Senhor, Jesus Cristo… e no Espírito Santo”. No sinal da cruz está também o anúncio que gera a fé e inspira a oração.

 

No texto evangélico, Jesus promete aos Apóstolos: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16,13).  A missão do Espírito Santo será iluminar os discípulos para que eles entendam de maneira correta aquilo que o Cristo ensinou e possam conduzir a comunidade dos discípulos de Jesus ao caminho da verdade. Assim também ocorre na liturgia dominical, quando os sacerdotes oferecem, semanalmente, o pão da Palavra e da Eucaristia.

 

Neste domingo, as leituras nos falam da Santíssima Trindade, para nos revelar o amor que Deus tem por nós e nos mostrar o seu projeto de salvação. A primeira leitura ressalta o projeto do Pai na criação, a fonte e a origem de tudo. A segunda leitura nos revela que o projeto de Deus, prescrito na primeira leitura, se realiza em Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, escondido desde a eternidade no seio do Pai e que estava com ele no momento da criação, mas somente com a intervenção do Espírito Santo é que saberemos compreender e aderir plenamente ao projeto de Deus para nós à obra salvadora do Filho, ou seja, do Cristo Jesus.  Cabe ao Espírito Santo iluminar as mentes e os corações dos homens a respeito dos ensinamentos do Evangelho e colocar em prática as recomendações que ele nos apresenta.

 

Todas as celebrações são sempre em honra de Deus, Uno e Trino.  Os sacramentos são realizados e celebrados mediante a invocação das três pessoas divinas. Pode-se ressaltar ainda a doxologia que conclui todos os salmos na Liturgia do Ofício Divino: “Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre”.  E quando nos dirigimos a Deus com uma oração de impetração, podemos concluir com estas palavras: “Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e vive e reina convosco, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”.

 

A Santíssima Trindade está, pois, incessantemente nos lábios e no coração dos cristãos.  E neste domingo nós a adoramos de modo especial. Com esta solenidade, quer também a Igreja mostrar de modo mais intenso a sua devoção à Trindade Santíssima e proclamar de forma mais expressiva a sua fé.

 

Todas as nossas obras devem ter uma única finalidade: que o nome de Jesus seja glorificado em nós.  O Pai e o Espírito Santo glorificam a Jesus e nos dão com Ele uma norma a nos orientar sempre. O lema, como que a síntese de nossa vida, deverá ser aquela significativa oração no final das preces eucarísticas da Santa Missa, onde apresentamos o Corpo e o Sangue de Jesus na patena e no cálice: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre, na unidade do Espírito Santo”.  E, acompanhando esse momento forte de oração que brota do íntimo de nosso ser, possamos dizer com fé, mesmo que não consigamos atingir a grandeza que o mistério encerra: “Amém”.

 

E ao colocar esta solenidade no domingo seguinte à solenidade de Pentecostes, a Igreja vem nos lembrar que cada domingo é uma festa da Santíssima Trindade, pois o domingo é o dia do Senhor, dia em que Jesus ressuscitou e que o Espírito Santo nos santificou, descendo sobre a igreja nascente. Neste sentido, todo domingo devemos contemplar este mistério Trinitário!

 

Assim como Jesus, em quem vivia “a plenitude Deus” (Cl 2,4) e só fazia a vontade do Pai (cf. Jo 4,34; 5,36), assim, em nós, Deus quer ser a meta e o impulso de todas as nossas vontades, nas provações e nos momentos de esperança.

 

Possamos invocar a Bem-aventurada Virgem Maria, primeira criatura plenamente enriquecida pela Santíssima Trindade.  Na sua humildade ela se fez serva do Senhor e acolheu a vontade do Pai e concebeu o Filho por obra do Espírito Santo. Que ela interceda sempre por nós e nos ajude a crescer na fé no mistério trinitário. A ela pedimos a sua proteção materna, para que possamos prosseguir bem a nossa peregrinação terrena.  Assim seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

Jo 20,19-23

Caros irmãos e irmãs,
A liturgia da Palavra deste domingo acentua a manifestação do Espírito Santo no milagre de
Pentecostes e nos conduz ao Cenáculo onde nos deparamos com Maria, a Mãe de Jesus e os
Apóstolos reunidos em oração (cf. At 1,14s), quando ficaram repletos do Espírito Santo (cf. At 2,1-4)
e cumpria-se o prometido pelo Salvador: “O Espírito Santo, que o Pai vos enviará em meu nome.
Ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar o que eu vos disse” (Jo 14,26).
Neste dia teve início a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os seus
apóstolos para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua ressurreição (cf. At 1,3).
Antes da ascensão ao céu, ordenou que "não se afastassem de Jerusalém, mas que aguardassem que
se cumprisse a promessa do Pai" (cf. At 1,4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos e se
preparassem para receber o dom do Espírito Santo.
O Povo de Deus, que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, vê agora um novo
sinal de Deus a ponto de não conhecer qualquer fronteira de raça, cultura, espaço ou tempo.
Diferente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11,1-9), quando os homens,
intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, fragilizaram a sua própria
capacidade de se compreenderem reciprocamente, enquanto o Espírito Santo torna os corações
capazes de compreender as línguas de todos e restabelece a ponte da comunicação entre Deus e a
humanidade.
No Evangelho temos a aparição de Jesus aos apóstolos para lhes comunicar a sua paz e o dom
do Espírito Santo, para tirar o pecado do mundo, ou seja, para que eles continuem sua obra salvadora
(cf. Jo 14,27s). Jesus sopra sobre os apóstolos, para que eles recebam o Espírito Santo e tenham o
poder de perdoar os pecados. Porém, o mais grandioso é quando, na manhã de Pentecostes, um
grande vendaval soprou em Jerusalém e o Espírito Santo desceu em forma de línguas de fogo sobre a
comunidade inicial da Igreja, e eles ficaram repletos de uma nova vida e de uma nova luz.
O termo “Espírito” traduz o termo hebraico “Ruah” que, na sua primeira acepção, significa
sopro, ar, vento. Jesus utiliza precisamente a imagem sensível do vento para sugerir a novidade
transcendente daquele que é pessoalmente o sopro de Deus, o Espírito divino. É o dom por
excelência de Cristo ressuscitado conferido aos seus Apóstolos. No Evangelho Jesus diz: “Eu
apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14,16). É o
Espírito Paráclito, o Consolador, que dá a coragem de levar o Evangelho pelas estradas do mundo! O
Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e nos impele para que possamos anunciar a todos
a mensagem de Jesus Cristo.
O Batismo nos concede a graça do novo nascimento em Deus Pai, por meio do Filho no
Espírito Santo, que é o primeiro no despertar da nossa fé e na vida nova que consiste em conhecer o
Pai e aquele que Ele enviou, Jesus Cristo.
Toda a história da Igreja, através dos séculos, desde Pentecostes até nossos dias, está vinculada
à ação do Paráclito. Sua atuação é o cumprimento da promessa de Jesus: “Eu estarei convosco até o
final dos tempos” (Mt 28,20b). A comunidade primitiva não só se proclamava membro do Corpo
Místico de Cristo, mas igualmente acreditava ser o templo do Espírito Santo: “Não sabeis que sois o
templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16).

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Notemos ainda que em Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. A sua chama
desceu sobre os discípulos reunidos, acendeu-se neles e infundiu-lhes o novo ardor de Deus. Realiza-
se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito: "Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que
ele já tivesse sido ateado!" (Lc 12, 49). Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os
Apóstolos levaram esta chama divina até aos extremos confins da terra, abriram assim um caminho
para a humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus que com o seu fogo quer renovar
a face da terra. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se
consumir (cf. Ex 3, 2).
Esta chama do Espírito Santo arde, mas não queima. E, todavia, ela realiza uma transformação,
e por isso, deve consumir algo no homem, o pecado que o corrompe e o impede de construir de
forma satisfatória a sua relação com Deus e com o próximo.
Enquanto a água significava o nascimento e a fecundidade da vida dada no Espírito Santo, o
fogo simboliza a energia transformadora dos atos do Espírito Santo. São João Batista anuncia Cristo
como aquele que “há de batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E São Paulo ordena: “Não
apagueis o Espírito!” (1Ts 5, 19). A tradição espiritual reterá este simbolismo do fogo como um dos
mais expressivos da ação do Espírito Santo (cf. CIgC, n. 696).
Possamos também lembrar que quando Cristo sobe das águas do seu batismo, o Espírito Santo,
sob a forma de uma pomba, desce e paira sobre Ele (cf. Mt 3,16). O símbolo da pomba para
significar o Espírito Santo é tradicional na iconografia cristã. Assim, em cada batizado que
celebramos, o Espírito Santo desce e repousa no coração purificado do catecúmeno (cf. CIgC, n.
701).
Na solene celebração do Pentecostes, somos enviados a professar a nossa fé na presença e na
ação do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro.
Portanto, façamos nossa, e com intensidade particular, a invocação da própria Igreja: “Vinde Espírito
Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”. Uma invocação
simples e profunda que deve nos envolver de alegria e de esperança.
Lancemos agora o nosso olhar a Maria, a humilde Virgem de Nazaré, que recebeu na
anunciação do Anjo Gabriel, o convite para ser a mãe do Salvador, em quem habitará
“corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2,9). A resposta à pergunta de Maria: “Como será
isto, se eu não conheço homem?” (Lc 1,34) é dada pelo anjo dizendo: “O Espírito Santo virá sobre
ti” (Lc 1,35).
O Espírito Santo, que é “o Senhor que dá a vida”, como recitamos no Credo, é enviado para
santificar o seio da Virgem Maria e para a fecundar pelo poder divino, fazendo com que ela venha
conceber o Filho eterno do Pai, numa humanidade originada da sua. E a ela, que desde o Pentecostes
se une com a Igreja nascente invocando o Espírito Santo, peçamos que fique conosco no centro deste
nosso cenáculo singular, a fim de que, com a sua intercessão, possamos dar ao mundo um
testemunho vivo e autêntico de Cristo, o nosso Salvador. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento /RJ

VII DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C

 Ascensão do Senhor

Lc 24,46-53

 

Caros irmãos e irmãs,

 

A Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, que deve significar para nós um canto de vitória e de esperança.  Neste dia Jesus sobe ao céu, quarenta dias após a Páscoa. Contemplamos o mistério de Jesus que deixa o nosso espaço terreno para entrar na plenitude da glória de Deus.  Também nós podemos olhar para o alto e reconhecer o nosso futuro. Na Ascensão de Jesus, o Crucificado Ressuscitado, há a promessa da nossa participação na plenitude de vida junto de Deus.  Jesus vai para junto de Deus, mas, ao mesmo tempo, permanece conosco, ele continua sendo o Deus conosco, o Emanuel, e não nos deixa sós (cf. Jo 14,19).

 

A liturgia da Palavra traz uma passagem do Evangelho de São Lucas, onde podemos ler: “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu, por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto. Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os.  Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (Lc 24,49-52).

 

São Lucas descreve o acontecimento da Ascensão também no início do Livro dos Atos dos Apóstolos, para frisar que tal evento é como o elo que une a vida terrena de Jesus à vida da Igreja. São Lucas refere-se também à nuvem que subtrai Jesus à vista dos discípulos, os quais permanecem a contemplar Cristo que sobe para junto de Deus: “Foi elevado ao céu à vista deles e uma nuvem subtraiu-o ao seu olhar”. E eles “estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava” (At 1,9-10). Neste instante aparecem dois homens com vestes brancas que os convidam a não permanecer imóveis a contemplar o céu, mas a alimentar a sua vida e o seu testemunho com a certeza de que Jesus voltará do mesmo modo como o viram subir ao céu (cf. At 1,10-11).

 

Estes dois homens com as vestes brancas são os mesmos que aparecem no sepulcro, no dia da Páscoa (cf. Lc 24,4).  A cor branca representa, de acordo com o simbolismo bíblico, o universo de Deus. As palavras pronunciadas pelos dois homens constituem a explicação dada por Deus à ressurreição de Cristo.  Indica que Jesus, condenado à morte pelos homens, foi glorificado. E o fato de serem duas testemunhas indica a veracidade do fato.

 

Com o olhar da fé, os apóstolos compreendem que, não obstante tenha sido subtraído aos seus olhos, Jesus permanece para sempre com eles e, na glória do Pai, não os abandona. Por isto, a Ascensão não indica a ausência de Jesus, mas nos diz que Ele está vivo no meio de nós de um novo modo. E esta é a razão pela qual os discípulos se alegram.  Jesus não se encontra em um lugar específico do mundo, como antes, agora está no Senhorio de Deus, presente em cada espaço e tempo, próximo de cada um de nós. Na nossa profissão de fé dizemos que Jesus “subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. A vida terrena de Jesus culmina com o evento da Ascensão, ou seja, quando Ele passa deste mundo para o Pai e é elevado à sua direita.

 

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos convida a sermos testemunhas de Jesus que vive na Igreja e nos corações de todos os povos. No dia da sua ascensão ao céu disse Jesus aos Apóstolos:  “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura… Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os sinais que o acompanhavam” (Mc 16,15.20).

 

Com isto, podemos observar que a Ascensão de Jesus não indica sua ausência temporária do mundo, mas, principalmente, inaugura a nova e definitiva forma da sua presença entre nós; uma realidade, em virtude da sua participação no poder régio de Deus. Caberá precisamente aos discípulos, fortalecidos pelo poder do Espírito Santo, tornar perceptível a presença do Cristo entre os homens, mediante o testemunho, a pregação e o compromisso missionário.

 

Somos chamados a testemunhar com coragem o Evangelho perante o mundo, levando a esperança aos necessitados, aos que sofrem, aos abandonados, aos desesperados, a todos os que têm sede de verdade e de paz. Fazendo o bem a todos, e sendo solícitos pelo bem comum, estarão eles testemunhando que Deus é amor.

 

Como eles, também nós, aceitando o convite dos “dois homens em trajes resplandecentes”, não devemos permanecer com os olhos fixos no céu, mas, sob a guia do Espírito Santo, temos que ir a toda a parte e proclamar o anúncio da morte e ressurreição de Cristo. A sua própria palavra constitui um conforto para todos nós: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

 

Em cada Eucaristia que celebramos é Cristo que se dá a nós, nos edificando com o seu corpo.  Os discípulos de Emaús reconheceram o Cristo na partilha do pão e voltaram apressadamente a Jerusalém a fim de partilhar a alegria com os irmãos na fé.  Com efeito, a verdadeira alegria é reconhecer que o Senhor permanece no nosso meio, companheiro do nosso caminho. A Eucaristia nos faz descobrir que Cristo, morto e ressuscitado, se manifesta como nosso contemporâneo e caminha com cada um de nós.

 

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos exorta a consolidar a nossa fé na presença real de Jesus na história; sem Ele, nada podemos realizar de eficaz na nossa vida e no nosso apostolado. Como recorda o Apóstolo São Paulo na segunda leitura, a nossa vocação na Igreja é também a de formar “um só corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes” (Ef 4,4).

 

Esta solenidade nos faz lembrar também que Jesus completa seu itinerário: “Saí do pai e vim ao mundo: outra vez deixo o mundo e volto para o Pai. Subo para meu Pai e vosso pai, disse também Jesus a Maria Madalena no mesmo dia de sua ressurreição” (Jo 16,28; 20,17).  

 

Chama a nossa atenção este último gesto dos discípulos de Jesus: “Eles o adoraram”.  Que saibamos também nós reconhecer o senhorio de Cristo e que saibamos dedicar a ele, em oração, um pouco do nosso tempo. Com a Ascensão do Senhor, podemos afirmar que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; deste modo, todas as vezes que rezamos, a terra se une ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto o seu fumo, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus, e por Ele é ouvida e atendida.

Supliquemos, por fim, a Virgem Maria, para que nos ajude a contemplar os bens celestes e a sermos autênticas testemunhas da Ressurreição do seu filho Jesus, que é o caminho, a verdade e a Vida.  E que possamos estar também unidos a Maria em oração, como ela esteve no Cenáculo, para a Solenidade de Pentecostes, que celebraremos no próximo domingo. Assim seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – Eu vos deixo a paz!

Jo 14,23-29

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos faz voltar ao Cenáculo. Por ocasião da Última Ceia, antes da sua paixão e a morte na cruz, Jesus diz aos seus discípulos: “Se alguém me ama, guarda a minha Palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos nele a nossa morada” (Jo 14, 23).  E promete a eles o dom do Espírito Santo, que irá fazê-los recordar as suas palavras: “O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26).

 

Estas expressões são dirigidas aos discípulos, mas podem também ser aplicadas a cada um de nós e fazem parte do discurso de despedida, pronunciado por Jesus durante a sua última ceia com os Apóstolos.  Depois de apresentar a eles por estatuto o mandamento do amor (cf. Jo 13,1-17;13,33-35), vai agora explicar como eles se manterão, após a sua partida e a relação com Ele e com o Pai.

 

O texto ressalta a presença de Deus naquele que cumpre a vontade do Senhor.  E o ato de crer só se completa no ato de amor a Jesus.  Assim, amar, crer e guardar a palavra são quase sinônimos.  Jesus deseja ser amado por nós, deseja de nós uma relação viva, comprometida, plena de risco e confiança, e na qual consagremos cada aspecto da nossa vida.

 

O relato evangélico também sublinha a promessa do Espírito Santo, aquele que vem completar o ensinamento de Cristo.  Jesus lembra aos apóstolos que durante sua permanência entre eles lhe ensinara muitas coisas.  Mas, quando vier o Espírito Santo, que o Pai enviará em seu nome, lhes ensinará todas as coisas (cf. v. 26).  O Espírito tem a tarefa de despertar a memória dos Apóstolos, mas também cada cristão conta sempre com o auxílio do Espírito Santo, mesmo nas situações mais contraditórias e conflituosas, pois de toda crise vivida com amor e confiança em Deus, em sua providência, recebemos sempre um bem maior do que poderíamos esperar.

 

A missão de levar o anúncio do Evangelho a todo o mundo, Jesus promete que não permanecerão sozinhos: estará com eles o Espírito Santo, o Paráclito, que se colocará ao seu lado, aliás, estará neles, para os defender e apoiar. Jesus volta para o Pai, mas continua a acompanhar e a ensinar os seus discípulos mediante o dom do Espírito Santo. O Espírito Santo, efundido em nós com os sacramentos do Batismo e da Confirmação, age na nossa vida. Ele guia o nosso modo de pensar e agir e nos ajuda a viver os ensinamentos do Senhor e colocá-los em prática.

 

O evangelho também nos fala da paz.  Disse Jesus: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou…”. Esta saudação de paz era dada, tanto no encontro como na despedida. A palavra paz  aparece cinco vezes nos últimos capítulos do Evangelho de São João. Duas vezes antes da paixão e três outras vezes após a ressurreição, como um sinal a certificar a sua união e a sua amizade para com os seus discípulos. Jesus distingue entre sua paz e a paz do mundo. A sua paz é um dom, um presente, uma espécie de herança, derivada de sua partida. O objetivo dessa paz é evitar a perturbação do coração que invadirá os discípulos, bem como a timidez e o medo, ao se apresentarem perante as autoridades que condenaram Jesus à morte (cf. Mc 13,11).  Por isso Jesus diz: “Que o vosso coração não se perturbe, nem se encha de medo” (Jo 14,27).  A paz dada por Jesus é feita de amor, de diálogo, de entendimento e de colaboração.  E é a fonte da mais serena alegria.   Por isso, a Paz que Jesus transmite deve assumir o lugar da tristeza, do desânimo e da falta de confiança e até de fé dos discípulos.

 

Ser cristão é viver na paz.  Não em uma paz sem compromisso e instável, como é, muitas vezes, a paz do mundo.  A paz dada por Jesus é feita de amor.  Jesus deixa a paz aos seus discípulos, paz diferente daquela a que o mundo oferece.  A paz que Jesus nos traz baseia-se numa relação de amor com Ele.   A paz que o Cristo nos propõe não significa uma vitória sobre os adversários, mas uma vitória do homem sobre si mesmo, ao deixar-se vencer, conquistado por Aquele que nos amou e se entregou por nós, vencido na cruz, mas vitorioso na ressurreição.

 

E como se constrói a paz? Já nos diz o profeta Isaías: “A paz será obra da justiça” (Is 32,17), de uma justiça praticada e vivida. E o Novo Testamento nos ensina que o pleno cumprimento da justiça é amar o próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22,39).  E São Paulo nos indica as atitudes necessárias para fazer a paz: “Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também” (Cl 3,12-13). Estas são as atitudes que devemos praticar para sermos construtores da paz.

 

A paz é dom de Deus, porque Ele, com o seu Espírito, pode imprimir estas atitudes nos nossos corações e na nossa carne, e fazer de nós verdadeiros instrumentos da sua paz. A paz é dom de Deus, porque é fruto da sua reconciliação conosco. Somente quando o homem se reconcilia com Deus é que ele se torna um obreiro de paz.

 

Na Carta de São Paulo aos Gálatas lemos: “Mas o fruto do Espírito é paz…” (Gl 5,22). O amor e a alegria, que são os primeiros frutos do Espírito Santo, têm como efeito cumular a alma de uma paz inabalável. Esta é a paz que o Apóstolo Paulo tão ardentemente deseja aos primeiros cristãos: “Que a paz de Cristo reine nos vossos corações” (cl 3,15).

 

A paz está também relacionada com o dom total, definitivo e supremo do que Deus concede aos homens através de Jesus Cristo. Em razão disto Deus e Jesus Cristo aparecem nomeados com expressões semelhantes: “O Deus da paz” (Rm 15,33; Nm 13,20) e “o Senhor da paz” (2Ts 3,14). Mais propriamente ainda se diz de Cristo: “Ele, de fato, é a nossa paz” (Ef 2,14) e no mesmo contexto será chamado “aquele que opera ou realiza a paz” (Ef 2,15.17).

 

Pronunciada por Jesus, a palavra paz se reveste ainda de um significado de extraordinária eficácia, na própria saudação: “A paz esteja convosco” (cf. Lc 24,36; Jo 20,19.26). É importante notar que a mesma força de anúncio e de comunicação da salvação se encontra na idêntica saudação com que os discípulos imitam Jesus em seus ministérios (cf. Mt 10,13; Lc 10,5-6). Não se trata de um simples desejo ou cumprimento social, mas, na verdade, da proclamação e oferecimento dos bens relacionados com a paz messiânica. Para Jesus esta paz é algo tão objetivo e concreto que irá permanecer naqueles dispostos a acolhê-la; e, ao contrário, ela “voltará” para o discípulo, caso seja recusada (Mt 10,3; Lc 10,5-6).

 

A paz prometida por Jesus é sentida onde a vontade de competir, de dominar, de ocupar os primeiros lugares cede lugar ao serviço e ao amor desinteressado pelos últimos.  A paz do mundo muitas vezes se apresenta como fruto de vitórias sobre os inimigos, mas a paz de Cristo ocorre quando somos tocados pela virtude do seu amor e quando não somos contaminados pelo pecado e pelo erro.

 

Viver esta paz e torná-la presente entre nós, anunciá-la aos que a desconhecem, é a exigência fundamental da fidelidade dos discípulos de Cristo.  A missão de evangelizar, anunciar Jesus e sua obra, anunciar a chegada do Reino, sempre foi entendida pela Igreja como o anúncio e a necessidade de se construir a comunidade cristã como uma comunidade da paz.  Paz é uma palavra profética por excelência! Paz é o sonho de Deus, é o projeto de Deus para a humanidade, para a história, com toda a criação.

 

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa, para que possamos ser todos os dias os eficazes portadores da paz.  E ela, a quem invocamos com o título de Rainha da paz, possa sempre nos conduzir ao seu filho Jesus, o príncipe da paz.  Assim seja.

 

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.

V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C

Um novo mandamento Jo 13, 31-35

Caros irmãos e irmãs, No evangelho deste domingo temos as palavras pronunciadas por Jesus aos seus discípulos, depois de lhes ter lavado os pés, na última ceia, imediatamente antes da sua Paixão: “Filhinhos… Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus sabe que lhe restam poucas horas de vida e sente a necessidade de deixar algumas instruções com características testamentárias. Inicia com a expressão “Filhinhos” (v. 33), fazendo lembrar um pai a transmitir aos seus filhos o que é essencial e verdadeiramente fundamental. Assim como os filhos consideram sagradas as palavras que o pai lhes diz no leito, antes da morte, também Jesus quer que os seus discípulos não esqueçam jamais as suas palavras. Jesus fala em um “novo mandamento”. A expressão “novo”, utilizada por Jesus, não significa que até então era este mandamento desconhecido. O próprio Jesus tinha recordado que amar a Deus e ao próximo era o mandamento maior da Lei antiga (cf. Mc 12,28-31). A novidade deste novo mandamento é que não se trata do antigo e conhecido mandamento que ordenava “amar ao próximo como a si mesmo” (Lv 19,18). O “novo” deste mandamento consiste, exatamente, no “como eu vos amei”. Nem a palavra amar, nem o mandamento do amor são novos. Novo é amar como Jesus, amar em Jesus, por causa de sua palavra impressa em cada página do evangelho. O Senhor indica que devemos amar como Ele nos amou. Ele amou a todos sem exceção, justos e pecadores. Na cruz, perdoou até os que o haviam condenado injustamente e rezou por eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). O verbo “agapaô” – traduzido do grego como amar, utilizado no texto, define o amor como sinal de manifestação pelo outro até ao extremo, o amor que não guarda nada para si, mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência desse amor é o próprio Jesus, como prescreve o complemento da frase: “como eu vos tenho amado”. Amar consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor, e isso sem limites. Jesus é a norma, agora traduzida em palavras, o que ele mesmo manifestou com seus atos, para que os seus discípulos tenham uma referência. O amor, igual ao de Jesus, que os discípulos devem manifestar entre si, será visível para todos (v. 35). Trata-se de um amor universal, capaz de transformar todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir ainda mais neste amor. O estilo divino desse amor de Cristo deve ser o modelo do nosso amor. De tal sorte que nossa presença junto aos irmãos seja uma sombra da presença do próprio Cristo. Um amor que presta em favor dos irmãos, os mais humildes serviços. Cristo se identifica com o outro, especialmente com os mais necessitados. É uma verdade que, mediante a fé, podemos ver o Cristo na pessoa do outro, pois será a partir deste amor a base do nosso julgamento final, pois ele mesmo disse: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber…”. E completa: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que deixastes de fazer” (Mt 25,40-45). Além de proclamar o mandamento do amor, Jesus deixou esta norma como sinal distintivo para os seus seguidores: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Por vontade expressa de Cristo é o amor o sinal de identificação de seus discípulos. O sinal que de agora em diante distinguirá seus discípulos deverá ser o amor mútuo. Como já nos diz o Evangelista São João: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus e odeia a seu irmão’ é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20s). E ainda frisa: “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14). Diante destas exigências apresentadas pelo evangelho, e lançando um olhar para cada um de nós, percebemos que somos fracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossa existência 2 há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas não podemos perder a esperança. O Senhor prometeu estar presente na nossa vida, nos tornando capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos os obstáculos. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo que Ele quer. Amar os outros como Jesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real o seu Sacrifício de amor que gera amor. A prática do amor mútuo é a expressão da fé em Jesus. O verdadeiro discípulo distingue-se pelo amor. A capacidade de amar-se mutuamente indica o quanto Jesus está agindo na vida do cristão. A presença salvadora de Jesus tem o efeito de desatar o nó do egoísmo, que afasta os indivíduos de seus semelhantes e, por consequência, de Deus também. Em sua carta aos coríntios São Paulo ressalta que o amor é superior a todos os dons extraordinários. O amor é maior do que o dom de língua. O amor é maior do que o dom de profecia e conhecimento. O amor é maior do que o dom de milagres. Sem amor, até as melhores obras de caridade ficam isentas de valor (cf. 1Cor 13,1-3). O amor é melhor por causa da sua excelência intrínseca e também por causa da sua perpetuidade. São Paulo define o amor como paciente e benigno, ou seja, o amor tem uma infinita capacidade de suportar e ter paciência com as pessoas, no sentido de reagir com bondade perante aqueles que o maltratam. São Paulo ainda explica que o amor não é ciumento, não é invejoso. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses e não se ressente com o mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. E, por fim, diz São Paulo que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,4-7). E ainda segundo São Paulo, dentre as virtudes teologias: fé, esperança e caridade, a maior de todas é a caridade, ou seja, o amor (cf. 1Cor 13,13). Os textos sagrados nos mostram como o amor ao próximo deve ser a bússola da nossa vida. Esse ensinamento deve ser aplicado às circunstâncias em que nos encontramos habitualmente. Podemos correr o risco de nos alegrarmos com o fracasso dos nossos inimigos. Há um mal intrínseco em nós mesmos. Podemos sentir um falso alívio quando vemos os nossos adversários fracassando e caindo, mas isto não é amor. O amor, além de perdoar, esquece e não mantém um registro do que foi dito e feito contra nós. A ausência de amor faz com que o cristão perca o seu significado diante de Deus. Possamos hoje questionar a nós mesmos: “Estou vivendo e compartilhando este amor que Jesus pede? Estou testemunhando a todos, com gestos concretos, o amor de Deus?” Saibamos haurir diariamente da relação de amor com Deus pela oração, a força para transmitir o anúncio profético de salvação a todas as pessoas com as quais convivemos. O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso, é preciso abandonar o caminho do erro, da arrogância e da violência, para obter posições de poder sempre maiores. Peçamos ao Senhor o auxílio necessário para colocarmos em prática este mandamento novo do amor que Ele nos ordena a praticar. E nos faça abrir de par em par as portas do nosso coração para perdoar e amar verdadeiramente todos os nossos irmãos. Interceda por nós também a Virgem de Nazaré, para que possamos aprender de Jesus a verdadeira humildade e, imbuídos do amor, possamos difundir para todas as pessoas os seus frutos de alegria de paz. Assim seja. D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB Mosteiro de São Bento/RJ

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